Quarta-feira, Novembro 17, 2004
Trincheiras governamentais
Uma das falácias mais comuns na apreciação de um governo é a percepção de que todos tocam no mesmo tom, sob a batuta de um maestro incontestado e obedecendo à mesma partitura. Nada mais falso. Winston Churchill temia os inimigos do partido adversário, mas mais ainda aqueles que, sob o amplo e difuso guarda-chuva do seu partido, não perdiam uma oportunidade de o apunhalar pelas costas. Um governo não é um exército disciplinado. É uma confederação de alianças momentâneas, de ódios incorrigíveis e de ambições desmedidas.
Surpreendido, caro leitor? Basta pensar nas rasteiras que os sucessivos ministros de Cavaco Silva pregaram aos colegas de gabinete. Ou no contentamento dos rivais de Fernando Gomes, quando o tristemente célebre ministro socialista da Administração Interna foi toureado pela população de Barrancos.
Os piores inimigos de cada ministro não são os respectivos ministros-sombra. Esses partilham uma percepção comum da generalidade da área de intervenção e operam sob os mesmos pressupostos. O pior inimigo do ministro da Economia é o ministro que tutela a Segurança Social. O pior rival do político que controla o sector dos Transportes é o ministro que tutela a Energia. O ministro da Agricultura é odiado pelo do Turismo. O do Desporto pega-se com a da Cultura. Cada área tem uma antítese, uma área concorrente, que luta pelos mesmos recursos sob outra hierarquia de prioridades. No fim desta cadeia, está o Ambiente. O ministro que a tutela, qualquer que ele seja, é minado pelos sectores tangentes: da Economia ao Turismo, da Agricultura, Pescas e Florestas aos Transportes. Há um forte lobby que visa impulsionar o ministro do Ambiente borda fora, o mais rapidamente possível e preferencialmente com um lastro que o leve, de supetão, até ao fundo.
Há semanas, Nobre Guedes admitiu que ninguém o escuta no Conselho de Ministros. Ou, por outras palavras, que ninguém quer saber da sua visão do mundo. Acredito piamente que a tarefa do ministro do Ambiente seja a mais solitária do leque político, quando todos os outros conspiram para esvaziar a sua área de influência. Mas sabendo desta animosidade inerente ao posto, pasmo quando leio que Nobre Guedes foi ontem a Canas de Senhorim conversar com a população desesperada, que quis impedir a saída de mais urânio da Empresa Nacional de Urânio.
As regras de ouro em sobrevivência política podem ser enunciadas da seguinte forma: "Não abras nenhuma pasta que não tenhas de abrir. Não destapes nenhum assunto sem seres obrigado. Não te envolvas em polémicas que não sejam indispensáveis!" A isto, Nobre Guedes respondeu com uma entrada olímpica em cena, mergulhando de cabeça numa luta que não era sua. O que diabo foi o ministro fazer a Canas de Senhorim, negociando compromissos com associações que querem que o proveito da venda de urânio reverta para intervenções na região? Não tem a pasta do Ambiente suficientes causas que evitem mais uma imolação pública do ministro? Não havia ninguém do vasto elenco de secretários de estado e chefes de gabinete que pudesse ser despachado para a Urgeiriça, sem danos de maior?
Há semanas, Álvaro Barreto, em entrevista radiofónica, puxou as orelhas a Nobre Guedes, acusando-o de ter divulgado a despropósito o relatório sobre o incêndio da refinaria da Galp. Como se sentirá agora o ministro das Actividades Económicas, depois desta ingerência ambiental na sua área? Haverá nova reprimenda? Não gosto muito de fazer previsões, mas atrevo-me a dizer que Luís Nobre Guedes tornou-se a partir de ontem uma espécie em vias de extinção. E a ele nem a convenção CITES vai valer.
Surpreendido, caro leitor? Basta pensar nas rasteiras que os sucessivos ministros de Cavaco Silva pregaram aos colegas de gabinete. Ou no contentamento dos rivais de Fernando Gomes, quando o tristemente célebre ministro socialista da Administração Interna foi toureado pela população de Barrancos.
Os piores inimigos de cada ministro não são os respectivos ministros-sombra. Esses partilham uma percepção comum da generalidade da área de intervenção e operam sob os mesmos pressupostos. O pior inimigo do ministro da Economia é o ministro que tutela a Segurança Social. O pior rival do político que controla o sector dos Transportes é o ministro que tutela a Energia. O ministro da Agricultura é odiado pelo do Turismo. O do Desporto pega-se com a da Cultura. Cada área tem uma antítese, uma área concorrente, que luta pelos mesmos recursos sob outra hierarquia de prioridades. No fim desta cadeia, está o Ambiente. O ministro que a tutela, qualquer que ele seja, é minado pelos sectores tangentes: da Economia ao Turismo, da Agricultura, Pescas e Florestas aos Transportes. Há um forte lobby que visa impulsionar o ministro do Ambiente borda fora, o mais rapidamente possível e preferencialmente com um lastro que o leve, de supetão, até ao fundo.
Há semanas, Nobre Guedes admitiu que ninguém o escuta no Conselho de Ministros. Ou, por outras palavras, que ninguém quer saber da sua visão do mundo. Acredito piamente que a tarefa do ministro do Ambiente seja a mais solitária do leque político, quando todos os outros conspiram para esvaziar a sua área de influência. Mas sabendo desta animosidade inerente ao posto, pasmo quando leio que Nobre Guedes foi ontem a Canas de Senhorim conversar com a população desesperada, que quis impedir a saída de mais urânio da Empresa Nacional de Urânio.
As regras de ouro em sobrevivência política podem ser enunciadas da seguinte forma: "Não abras nenhuma pasta que não tenhas de abrir. Não destapes nenhum assunto sem seres obrigado. Não te envolvas em polémicas que não sejam indispensáveis!" A isto, Nobre Guedes respondeu com uma entrada olímpica em cena, mergulhando de cabeça numa luta que não era sua. O que diabo foi o ministro fazer a Canas de Senhorim, negociando compromissos com associações que querem que o proveito da venda de urânio reverta para intervenções na região? Não tem a pasta do Ambiente suficientes causas que evitem mais uma imolação pública do ministro? Não havia ninguém do vasto elenco de secretários de estado e chefes de gabinete que pudesse ser despachado para a Urgeiriça, sem danos de maior?
Há semanas, Álvaro Barreto, em entrevista radiofónica, puxou as orelhas a Nobre Guedes, acusando-o de ter divulgado a despropósito o relatório sobre o incêndio da refinaria da Galp. Como se sentirá agora o ministro das Actividades Económicas, depois desta ingerência ambiental na sua área? Haverá nova reprimenda? Não gosto muito de fazer previsões, mas atrevo-me a dizer que Luís Nobre Guedes tornou-se a partir de ontem uma espécie em vias de extinção. E a ele nem a convenção CITES vai valer.









