sexta-feira, setembro 27, 2013

sábado, setembro 21, 2013

Inimigo Público

Do "Inimigo Público", de 20 de Setembro de 2013, uma súmula da nossa identidade confusa nestes anos conturbados de intervenção estrangeira e perda de soberania. Por Mário Botequilha, o maior entre os maiores humoristas do IP, um belo resumo do que nos passa pela cabeça durante um dia.


quarta-feira, setembro 18, 2013

O insulto principal


«Os economistas são talvez imprescindíveis. Cabe-lhes manusear as matérias mais porcas que as sociedades imemorialmente geram: o dinheiro e a usura. Aflige-me é que possam, com as mãos sujas dos dejectos do corpo social, aproximar-se da alma e do espírito das sociedades e contaminá-las com a sua ciência e a sua linguagem de escravos. (…) Têm certamente lugar; intolerável é que lhes permitamos que usurpem o lugar dos poetas e dos guerreiros e que os ostentem por aí, sem escândalo, nos discursos e na lapela.», Manuel António Pina, jornalista, escritor e poeta, “Jornal de Notícias", 29/01/1992

O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou ontem um relatório de reavaliação dos programas de resposta à crise financeira de 2008-09 (aqui), com inevitáveis consequências para a análise das medidas impostas desde o resgate de Abril de 2011 à República Portuguesa. Trata-se de um relatório invulgarmente franco, que reconhece limites à abordagem implantada em países como Portugal e a Grécia, suportada numa rápida reconfiguração orçamental nos primeiros meses do resgate (i), na aposta evidente na consolidação orçamental pelo lado da despesa (ii), na compra de dívida pública pelos bancos centrais (iii) e na famosa busca quimérica da recuperação da confiança como motor da recuperação (iv). Não entrarei nos detalhes do relatório, nem no debate sobre a oportunidade da sua publicação na véspera de nova "visita" dos controleiros internacionais – para esse debate, há seguramente fóruns mais apropriados na Internet.
Interessa-me, ao invés, sublinhar esta cultura, muito americana, de reconhecimento público do erro e de admissão inequívoca das responsabilidades. Dir-me-ão que é a hipocrisia suprema, face aos estragos já provocados – será. Mas, olhando para o nosso quintal pantanoso, feito de casos de polícia, de irresponsabilidade moral e de incompetência cavalar, admitamos alguma inveja.
Por cá, se a impunidade que resulta da gestão danosa ou incompetente é insultuosa, a incapacidade generalizada para esboçar um pedido público de desculpa ou assumir um grão de responsabilidade pelo gigantesco descarrilamento da economia é porventura o insulto mais vexatório. José Diogo Quintela brincou há alguns anos com esta atitude tão portuguesa de assobiar para o lado enquanto se procuram responsáveis, dizendo que este é o país onde a culpa é sempre “um bocadinho de todos, todos temos um pedacinho de culpa”.
Ora, quando todos têm culpa, a culpa não é de ninguém. Ninguém falseou contas. Ninguém burlou o Estado. Ninguém falhou auditorias. Ninguém assinou de cruz contratos irresponsáveis de financiamento. 
Ninguém.

terça-feira, setembro 03, 2013

Os jornais de chuteiras nos anos trinta


Arquivo fotográfico do Jornal "O Século", ANTT
http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=1019553

Aproxima-se um jogo decisivo da selecção nacional. Noutros estabelecimentos, vai ler todo o tipo de prognósticos sobre as probabilidades de vitória, a influência do clima, o espírito guerreiro dos matarruanos de Belfast, a influência da sorte ou as previsões do bruxo de Fafe. Aqui, proponho-lhe outro exercício – um esforço de imaginação.
(Não lhe peço para fechar os olhos porque, convenhamos, seria estúpido e perderia o resto do texto!) Mas venha comigo à década de 1930.
Os jornais, colossos de receitas e de circulação, começam aos poucos a ser minados pela rádio, mais democrática, que chega a qualquer lar e não requer literacia nem a compra de qualquer edição. É gratuita e o seu charme espalha-se por milhares de casas portuguesas como um vírus contagioso.
Em Lisboa e no Porto, os grandes jornais procuram respostas. O futebol é a solução óbvia, pois cativa milhões de pessoas. A selecção dá os primeiros passos. Começou a disputar jogos em 1921. Aliás, perde-os regularmente e com estrondo, para grande espanto da nação. A alma portuguesa, a raça dos Cabrais, as ínclitas gerações não resistem à passagem da fronteira. Mas pouco importa. Para os jornais, a selecção é a pátria de chuteiras, na feliz expressão de Nelson Rodrigues.
De acordo com "Jornais Diários Portugueses do Século XX", de Mário Matos e Lemos (2006), em 1928, no espaço de poucas semanas, o “Diário de Notícias” e “O Século” inventam um novo serviço prestado aos leitores (os marketing wizzs chamar-lhe-iam uma diversificação de plataformas). Olhe novamente para a imagem no início deste texto. Data de 1936 e parece mais um ajuntamento no Rossio, em Lisboa, palco de mil manifestações e protestos no início do século. A multidão comprime-se. Os carros circulam com dificuldade. Os eléctricos sufocam face à massa compacta. O mar de chapéus de coco não avança nem recua. Na verdade, todos aqueles homens (desafio-o a encontrar uma senhora na imagem) estão parados, imóveis, em sobressalto. A selecção joga com a Áustria e a sucursal de “O Século” transmite o jogo por altifalante, com base nos despachos emitidos pelo seu repórter no Estádio do Lima, no Porto, que os passa a um rapaz-estafeta que, por sua vez, corre até ao posto telefónico mais próximo e informa os colegas de Lisboa.
Mais acima, na Avenida da Liberdade, há outra multidão, presa às mesmas notícias, mas emitidas de outra forma pelo DN. Mais moderno, este instalou um placard eléctrico na fachada do jornal, com mais de mil lâmpadas, que acendem e apagam consoante as incidências do jogo. Para anunciar as peripécias da bola, o jornal acciona as lâmpadas e a multidão entra em transe, à espera da mensagem escrita que virá de seguida. Um golo? Uma lesão? Informação do intervalo ou do fim do jogo? As notícias de época descrevem comoções. Desmaios. Desfalecimentos. Não é para menos.
Portugal volta a perder um jogo, desta vez por 2-3.

PAULO BENTO
Prometi-lhe um exercício de imaginação, que não ficou esquecido. Avançamos dois anos, até 1938.
Portugal já perdeu com a selecção suíça em Maio por 2-1, mas a esperança futebolística é como a minha fé na roleta: renova-se todas as semanas. Há novo desafio marcado para Lausannne. Vão Azevedo, Pinga, Peyroteo e Gaspar Pinto. Os melhores dos melhores. A flor de uma geração. Desta vez, é que será.
Pujante, “O Século”, que “dá ao desporto o mais desinteressado apoio”, preparou nova novidade, antecipando o advento da televisão. O jornal de João Pereira da Rosa encomendou ao conhecido “operador Leandri, técnico de grande visão”, a filmagem do jogo. Leandri tem apenas uma câmara, num ponto fixo distante do relvado, mas o episódio marca a emergência da imagem animada no nosso quotidiano desportivo. E o jornal contratou o melhor, o homem que filmou os astros brasileiros no Campeonato do Mundo de 1934.
"O Século", 08/11/1938
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

No entanto, as imagens demoram mais de dois dias a chegar da Suíça. Vêm no mesmo hidro-avião das fotografias que o jornal usou no dia 8 de Novembro para ilustrar a crónica. Durante a partida, repete-se a rotina. O Rossio lotado. O mar de chapéus e gabardinas, alheios à chuva, presos ao único altifalante da praça, que transmite secamente informação de quinze em quinze minutos. A dada altura, a multidão imobiliza-se. Ecoa um som de estática no altifalante, prenúncio de novidade. Uma voz seca, impessoal, neutra, rompe o silêncio.
“.... Informação de Lausanne.... 48 minutos.... Golo da Suíça.....”
Minutos depois do acontecimento propriamente dito, lá, bem longe, nas montanhas helvéticas, as palavras gelam milhares de portugueses no Rossio e na Constituição. Até final, por mais preces que sejam lançadas contra o aparelho metálico, não chega a informação salvadora. Toda aquele gente seguirá para casa, amorfa, murcha. Para a próxima é que será.
Agora, imagine o nosso seleccionador. Pense em Paulo Bento, cansado da refrega, do combate táctico, do esforço de orientar 11 jogadores na batalha atlética com a Irlanda do Norte. Neste ano de 1938, o antecessor de Paulo Bento chama-se Cândido de Oliveira e tem duas missões que começam exactamente no momento em que o árbitro sinaliza o fim do jogo.
Primeiro, por artes mágicas, Cândido de Oliveira terá de se esquecer que foi ele quem treinou a selecção, pois cabe-lhe ditar a crónica para “O Século” na qualidade de enviado-especial. Fá-lo certamente com o coração a sangrar. A ladainha, essa, é intemporal:
“Portugal perdeu apenas por 1 a 0.”
“Este resultado pode ser considerado honroso para a equipa portuguesa, que deu uma réplica enérgica e briosa.”
“O ponto helvético foi obtido quando o nosso grupo tinha apenas dez homens em campo.”
“Os suíços actuaram no seu próprio campo e perante 30.000 compatriotas. Há sua diferença!”
"O Século", 07/11/1938
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
O jornal reserva-lhe, porém, ainda outro serviço. Já em Lisboa, com as imagens de Leandri, Cândido de Oliveira desempenha nova função. “O Século” manda-o para o São Luís e para o Central, em Lisboa, e depois para o São João Cine, no Porto, onde o seleccionador exibe o documentário em salas de cinema e comenta as incidências do jogo, graças à distribuição da Sonoro Filmes, “casa de justo e sólido prestígio”. Suporta então estoicamente os comentários do público anónimo, que ali foi ver as imagens animadas. Ouve as perguntas. As dúvidas. As recriminações. Num rigoroso exclusivo para Portugal e Colónias.
Agora, imagine Paulo Bento no mesmo papel.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Maroiços, aborígenes, a LUSA e o Expresso


Warren Burkett, um dos grandes teorizadores sobre a relação entre a ciência e o jornalismo, costumava contar uma anedota.
Um velho professor de Química lecciona uma aula quando, a dada altura, é interrompido pelos gritos eufóricos de um estudante.
Sem se conter, o aspirante a cientista entra na sala e grita, rubro de emoção:
- Eureka! Descobri um novo solvente. É o solvente mais potente do mundo! Consegue dissolver qualquer material. Plástico. Vidro. Barro. Tudo.
Impassível e calejado por “mil” descobertas, o professor responde secamente:
-       Queira por favor explicar aos seus colegas em que recipiente vai guardar a sua descoberta.
A ciência tem protocolos bem definidos para produzir respostas que são, por natureza, efémeras e válidas até alguém provar a sua obsolescência. Em 1900, numa reunião da Associação Britânica para o Avanço da Ciência, Lorde Kelvin argumentou, pesaroso, que, em Física, já nada mais haveria a descobrir. Cinco anos mais tarde, um alemão naturalizado suíço, que passava os dias frustrado num gabinete de patentes, apresentou a Teoria da Relatividade e destruiu as balizas  que delimitavam a Física. Notem, portanto, que não nego a possibilidade de um achado científico produzir ruptura total com o conhecimento disponível. Simplesmente, ela não sucede com frequência. E, normalmente, os Einsteins da ciência publicam as suas descobertas em revistas científicas, sob supervisão dos pares. O New England Journal of Medicine criou inclusivamente a regra Ingelfinger, através da qual perde interesse em publicar artigos que tenham sido apresentados aos media antes da submissão dos pares.
Consideremos, pois, mau sinal quando um cientista prefere convocar os meios de comunicação para anunciar revelações antes de publicar o seu contributo.

OS PRÉ-PORTUGUESES DOS AÇORES
No dia 24 de Agosto, a agência Lusa emitiu um despacho lamentável. Seguia as regras elementares da atribuição de informação às fontes e era fiel ao comunicado de imprensa que o motivou, mas isso, terão paciência, não chega quando está em causa um anúncio bombástico de uma descoberta científica.

A Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA) foi fundada em 1998. Tem arqueólogos como colaboradores e tem todo o direito a colaborar no debate científico sobre o povoamento dos Açores. Assiste-lhe igualmente o direito de propor as teses radicais que considerar pertinentes e de chamar a imprensa para o debate. Cumpre a sua agenda e segue uma estratégia óbvia de antecipação da aceitação jornalística ao reconhecimento científico, preferencialmente com anúncios sexy, de evidente apelo aos sentidos (o grupo de Friedman chamar-lhes-ia as abordagens Ghee whiz!).
A Lusa, porém, não pode aceitar de ânimo leve que teses apoiadas em quinhentos anos de historiografia sejam contestadas de forma tão leviana e sem contraditório, por um parceiro sem historial conhecido. Que eu tenha conhecimento, a APIA não publicou, em revista científica reconhecida, com revisão de pares, nenhuma das alegações que tem vindo a fazer desde 2010 nos Açores. Publica livros, mas estes não são submetidos ao crivo da academia. Participa em conferências, mas a oportunidade de contraditório destes eventos depende sempre da audiência. Por outras palavras, até prova em contrário, não faz ciência.
Não basta por isso à Lusa seguir o manual do despacho sobre política, citando o comunicado de imprensa do partido X. Se vê noticiabilidade no argumentário da APIA (povoamentos pré-portugueses provados pelos maroiços da ilha do Pico), está obrigada, no mesmo despacho, a incluir pontos de vistas que dele discordem.
Faço questão de ressalvar que a discussão é jornalística, não é arqueológica.

BOLA DE NEVE
É evidente que os constrangimentos jornalísticos apressam o processo de verificação da informação. Em nome do “furo”, ignoram-se fases de validação. Colocam-se na rede informações incompletas, por vezes erradas, com o argumento de que podem sempre ser corrigidas. Sei disso tudo. Também sei que, nos livros de estilo que vamos compondo nas nossas redacções, as personalidades de reconhecida capacidade técnica dispensam as mesmas verificações rigorosas das fontes sem capital simbólico. Não se questiona abertamente José Mattoso se ele apresentar uma nova tese sobre a Idade Média, nem Galopim de Carvalho num texto que redefina a geologia sedimentar. Admite-se, como princípio operacional, que uma carreira cimentada em mérito académico reduz (mas não impede) o risco de publicar disparates. Mas a APIA não é Mattoso, nem Galopim. E a Lusa tem responsabilidade acrescida porque “cria” agenda nos meios de comunicação que dela dependem.
Os últimos dias de Agosto foram assim caricatos. Numa réplica perfeita do efeito-manada, o despacho da Lusa foi repetido mil vezes. Do “Açoriano Oriental” à “Rádio Vaticano” (palavra!), repetiu-se o mesmo texto, acriticamente. No mesmo dia, uma peça inqualificável do “Expresso” seguiu o mesmo tom, sem reserva, do despacho da Lusa. Fala em pirâmides e em praças cerimoniais, estabelece elos com o Mediterrâneo e com o México, com aborígenes do Norte de África e com as Canárias. Tudo na ilha do Pico. Como na anedota, queiram por favor explicar aos seus colegas onde estão guardados os vestígios palpáveis destas civilizações.

Quando chegou finalmente um travão a esta avalancha aborígene lançada sobre o Pico já a torrente era imparável. Três dias depois, o “Público” produziu um artigo equilibrado (disponível por enquanto aqui), noticiando as alegações dos “jovens lobos”, mas ouvindo as refutações peremptórias dos dois especialistas (Élvio Sousa e Ana Margarida Arruda), ambos com trabalho de campo nos Açores, ambos com trabalho publicado sobre a expansão marítima, ambos com reputação nos respectivos campos de saber.
Ontem, chegou por fim, no mesmo jornal, um artigo de opinião de um arqueólogo, questionando abertamente a validade científica das “provas” apresentadas aos media, mas talvez já seja tarde. Está plantada, no subconsciente nacional, a ideia da pré-colonização açoriana. A estratégia resultou.


Creio que está na hora de começarmos a esboçar um 11.º Mandamento, este destinado a jornalistas que relatam ciência: Não anunciarás “descobertas” mirabolantes sem que estas tenham sido validadas pela comunidade de especialistas.
Sob risco de caíres no ridículo à mesma velocidade com que proferes a palavra Eureka!

Em tempo: réplica bem humorada de Miguel Albergaria ao autor aqui.