sábado, novembro 08, 2014

Um crime nunca solucionado


Rebelo Carvalheira, de camisola clara, em primeiro plano.
Fotografia retirada daqui.


Calhou passar esta semana na Rua Carlos Mardel, no coração de Lisboa, a meia-dúzia de passos da Alameda Dom Afonso Henriques, da Rua Guerra Junqueiro e das lojas sumptuosas onde o risco de síncope aumenta à medida que nos informam dos preços em vigor. Nesta transversal pacata, contudo, só há comércio tradicional. Pequenos cafés, cabeleireiros, farmácias, uma resistente loja de ferragens – um espelho do comércio repetitivo e sofrido de Lisboa. E, no entanto, as ruas guardam memórias durante gerações. Sobretudo dos traumas.
Colegas de jornais de outros tempos contaram-me que nesta rua morreu um dos nossos. Alguns nunca mais conseguiram passar por aqui, evitando-a discretamente, sem uma razão palpável. Outros nunca evitaram uma olhadela para o número 117, para a fachada, agora mais gasta, e para as janelas onde decerto vivem agora famílias mais felizes. Foi aqui que morreu brutalmente, em Junho de 1983, Rebelo Carvalheira, o “Recas” como a equipa de “A Bola” o conhecia. E isso ficou gravado na memória dos jornalistas da época.
Nascido em Angola, trabalhara no Banco Comercial de Angola antes de a seta do cupido jornalístico o viciar para sempre. Trabalhou em jornais angolanos – no “ABC” que revelara Roby Amorim, e no “Província de Angola”, onde chegou a chefe de redacção depois da Revolução de 1974. Foi correspondente em Luanda de “A Bola” e, um dia, foi convidado a fazer parte da equipa de Vítor Santos na Travessa da Queimada. De adjectivo reticente, era um jornalista tarimbado, daqueles que não falhavam serviços, que cumpriam sempre as missões. No Sporting, João Rocha respeitava-o e, normalmente, guardava para ele e para “A Bola” alguma informação exclusiva – a pequena notícia de que se fazem os jornais.
Na madrugada do dia 3 de Junho, sexta-feira, Rebelo Carvalheira despediu-se dos colegas no jornal à uma hora da madrugada. Carlos Alberto Alves, colega em “A Bola”, conta (aqui) que estranhou o silêncio, atípico nele. «Achei-o muito esquisito no jornal, pouco falava, ao invés do que era habitual
Carvalheira folgava no sábado, dia 4, e, para domingo, tinha-lhe sido atribuída a reportagem de um jogo do Boavista com o Salgueiros no Estádio do Bessa. Planeava seguir para Famalicão na manhã seguinte, onde morava a mãe. Mas nunca lá chegaria.
No Bessa, o repórter Simões Lopes foi o primeiro a notar a ausência do colega. Descansou o espírito, pensando que talvez Carvalheira tivesse escolhido outro ponto do estádio para ver o jogo. Debalde. O jogo começou e acabou e, do repórter, não havia sinal. Não era habitual no Rebelo Carvalheira. Informou-se a chefia de redacção em Lisboa na noite de domingo e Vítor Santos temeu o pior. Esperou ainda essa madrugada, «sem conseguir pregar olho», como contou a Neves de Sousa do “Diário de Lisboa”, mas, na manhã seguinte (segunda-feira, dia 6), face ao continuado silêncio do colaborador, informou a polícia.
Acompanhada pelo marido da telefonista de “A Bola”, velho amigo do jornalista, e por um sobrinho de Carvalheira, a equipa policial arrombou a porta do apartamento e encontrou um quadro dantesco. O jornalista jazia, sem vida, assassinado. Fora agredido com uma garrafa de vidro no crânio e o resto do corpo mostrava sinais de agressões continuadas. A perícia posterior apurou que o homicídio ocorrera provavelmente na própria sexta-feira. Os salpicos de sangue indiciavam uma luta feroz pela sobrevivência.
Férteis em boatos e semi-verdades, as redacções exploraram várias hipóteses. O apartamento já fora assaltado no passado. Teria Rebelo Carvalheira entrado à hora errada em casa? O seu passado em Angola foi esmiuçado: sem pudor, houve quem associasse o crime ao tráfico de diamantes e a informação que o jornalista guardaria desde os tempos de Luanda. O seu estilo de vida solitário (o eufemismo da época), sem companheira, foi também questionado, até porque o corpo fora encontrado seminu. Na rua, entretanto, desaparecera o seu Honda Civic (de matrícula FR-64-04), bem como alguns objectos pessoais.
Em 31 anos, nunca se descobriu a identidade do assassino de Rebelo Carvalheira, morto aos 47 anos, numa rua pacata de Lisboa.

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