segunda-feira, setembro 02, 2013

Maroiços, aborígenes, a LUSA e o Expresso


Warren Burkett, um dos grandes teorizadores sobre a relação entre a ciência e o jornalismo, costumava contar uma anedota.
Um velho professor de Química lecciona uma aula quando, a dada altura, é interrompido pelos gritos eufóricos de um estudante.
Sem se conter, o aspirante a cientista entra na sala e grita, rubro de emoção:
- Eureka! Descobri um novo solvente. É o solvente mais potente do mundo! Consegue dissolver qualquer material. Plástico. Vidro. Barro. Tudo.
Impassível e calejado por “mil” descobertas, o professor responde secamente:
-       Queira por favor explicar aos seus colegas em que recipiente vai guardar a sua descoberta.
A ciência tem protocolos bem definidos para produzir respostas que são, por natureza, efémeras e válidas até alguém provar a sua obsolescência. Em 1900, numa reunião da Associação Britânica para o Avanço da Ciência, Lorde Kelvin argumentou, pesaroso, que, em Física, já nada mais haveria a descobrir. Cinco anos mais tarde, um alemão naturalizado suíço, que passava os dias frustrado num gabinete de patentes, apresentou a Teoria da Relatividade e destruiu as balizas  que delimitavam a Física. Notem, portanto, que não nego a possibilidade de um achado científico produzir ruptura total com o conhecimento disponível. Simplesmente, ela não sucede com frequência. E, normalmente, os Einsteins da ciência publicam as suas descobertas em revistas científicas, sob supervisão dos pares. O New England Journal of Medicine criou inclusivamente a regra Ingelfinger, através da qual perde interesse em publicar artigos que tenham sido apresentados aos media antes da submissão dos pares.
Consideremos, pois, mau sinal quando um cientista prefere convocar os meios de comunicação para anunciar revelações antes de publicar o seu contributo.

OS PRÉ-PORTUGUESES DOS AÇORES
No dia 24 de Agosto, a agência Lusa emitiu um despacho lamentável. Seguia as regras elementares da atribuição de informação às fontes e era fiel ao comunicado de imprensa que o motivou, mas isso, terão paciência, não chega quando está em causa um anúncio bombástico de uma descoberta científica.

A Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA) foi fundada em 1998. Tem arqueólogos como colaboradores e tem todo o direito a colaborar no debate científico sobre o povoamento dos Açores. Assiste-lhe igualmente o direito de propor as teses radicais que considerar pertinentes e de chamar a imprensa para o debate. Cumpre a sua agenda e segue uma estratégia óbvia de antecipação da aceitação jornalística ao reconhecimento científico, preferencialmente com anúncios sexy, de evidente apelo aos sentidos (o grupo de Friedman chamar-lhes-ia as abordagens Ghee whiz!).
A Lusa, porém, não pode aceitar de ânimo leve que teses apoiadas em quinhentos anos de historiografia sejam contestadas de forma tão leviana e sem contraditório, por um parceiro sem historial conhecido. Que eu tenha conhecimento, a APIA não publicou, em revista científica reconhecida, com revisão de pares, nenhuma das alegações que tem vindo a fazer desde 2010 nos Açores. Publica livros, mas estes não são submetidos ao crivo da academia. Participa em conferências, mas a oportunidade de contraditório destes eventos depende sempre da audiência. Por outras palavras, até prova em contrário, não faz ciência.
Não basta por isso à Lusa seguir o manual do despacho sobre política, citando o comunicado de imprensa do partido X. Se vê noticiabilidade no argumentário da APIA (povoamentos pré-portugueses provados pelos maroiços da ilha do Pico), está obrigada, no mesmo despacho, a incluir pontos de vistas que dele discordem.
Faço questão de ressalvar que a discussão é jornalística, não é arqueológica.

BOLA DE NEVE
É evidente que os constrangimentos jornalísticos apressam o processo de verificação da informação. Em nome do “furo”, ignoram-se fases de validação. Colocam-se na rede informações incompletas, por vezes erradas, com o argumento de que podem sempre ser corrigidas. Sei disso tudo. Também sei que, nos livros de estilo que vamos compondo nas nossas redacções, as personalidades de reconhecida capacidade técnica dispensam as mesmas verificações rigorosas das fontes sem capital simbólico. Não se questiona abertamente José Mattoso se ele apresentar uma nova tese sobre a Idade Média, nem Galopim de Carvalho num texto que redefina a geologia sedimentar. Admite-se, como princípio operacional, que uma carreira cimentada em mérito académico reduz (mas não impede) o risco de publicar disparates. Mas a APIA não é Mattoso, nem Galopim. E a Lusa tem responsabilidade acrescida porque “cria” agenda nos meios de comunicação que dela dependem.
Os últimos dias de Agosto foram assim caricatos. Numa réplica perfeita do efeito-manada, o despacho da Lusa foi repetido mil vezes. Do “Açoriano Oriental” à “Rádio Vaticano” (palavra!), repetiu-se o mesmo texto, acriticamente. No mesmo dia, uma peça inqualificável do “Expresso” seguiu o mesmo tom, sem reserva, do despacho da Lusa. Fala em pirâmides e em praças cerimoniais, estabelece elos com o Mediterrâneo e com o México, com aborígenes do Norte de África e com as Canárias. Tudo na ilha do Pico. Como na anedota, queiram por favor explicar aos seus colegas onde estão guardados os vestígios palpáveis destas civilizações.

Quando chegou finalmente um travão a esta avalancha aborígene lançada sobre o Pico já a torrente era imparável. Três dias depois, o “Público” produziu um artigo equilibrado (disponível por enquanto aqui), noticiando as alegações dos “jovens lobos”, mas ouvindo as refutações peremptórias dos dois especialistas (Élvio Sousa e Ana Margarida Arruda), ambos com trabalho de campo nos Açores, ambos com trabalho publicado sobre a expansão marítima, ambos com reputação nos respectivos campos de saber.
Ontem, chegou por fim, no mesmo jornal, um artigo de opinião de um arqueólogo, questionando abertamente a validade científica das “provas” apresentadas aos media, mas talvez já seja tarde. Está plantada, no subconsciente nacional, a ideia da pré-colonização açoriana. A estratégia resultou.


Creio que está na hora de começarmos a esboçar um 11.º Mandamento, este destinado a jornalistas que relatam ciência: Não anunciarás “descobertas” mirabolantes sem que estas tenham sido validadas pela comunidade de especialistas.
Sob risco de caíres no ridículo à mesma velocidade com que proferes a palavra Eureka!

Em tempo: réplica bem humorada de Miguel Albergaria ao autor aqui.

16 comentários:

Anónimo disse...

Como sempre, tem de vir um palhaço participar no debate dos Velhos do Restelo, que só querem a arqueologia para si, com as suas escavações financiadas, as suas publicaçõezinhas sagradas, os seus códigos, as suas coutadas. Este texto é uma vergonha pelo que tem de arcaísmo e atavismo.

Gonçalo Pereira disse...

Pronto! Ficamos assim.

Anónimo disse...

Este tipo de actuação, de há uns anos para cá, faz-me sempre lembrar um John Kwok à portuguesa. Diz-se o que nos apetecer, sem fundamentos palpáveis nem respeito pelas formas universalmente aceites de fazer ciência séria e, quando questionados, o insulto salta com maior rapidez do que a das embarcações que teriam transportado as ditas indústrias com paralelos nas aborígenes africanas (seja lá o que isso for).

Caro Gonçalo, de facto, mais vale "ficarmos assim". Tudo o mais, é desperdício de tempo e esforço com quem parece apenas pretender cavalgar uma onda de mediatismo injustificado.

Brígida Meireles disse...

Caro Gonçalo,

Nao podia concordar mais consigo. Tenho acompanhado as noticias que se têm elaborado sobre as descobertas nos Açores e já começa a passar do ridículo para o preocupante.. Espero que os seus colegas tenham uma abordagem mais crítica na forma de noticiar e procurem outras informações nos meus colegas (arqueólogos), com trabalho reconhecido pelos seus pares.
Na minha opinião, Arqueologia e Jornalismo procuram ambos a mesma coisa no fundo: Pesquisar, procurar e dar a conhecer aos outros a verdade sobre alguma coisa, da forma mais correcta e objectiva possível.

José L. Diniz disse...

Este texto chama a atenção para o efeito-manada que grassa no jornalismo português - porventura, europeu e/ou mundial - e para os perigos que o mesmo representa para o conhecimento da verdade científica.
Em boa hora, o seu autor - com provas dadas à frente da edição portuguesa de uma das mais prestigiadas publicações a nível mundial (quiçá, a mais prestigiada) - fez referência à falta de cuidado que os meios têm hoje em dia, no tratamento da informação que lhes chega, a partir das mais diversas fontes. A transcrição de comunicados de imprensa, citando fontes que - por muito boa vontade que tenham, e por muito sérias que sejam as suas intenções - não possuam historial científico reconhecido pelos seus pares, sem a necessária validação - ou, pelo menos, o contraditório - por entidades de reconhecida competência na matéria, constitui um monumental tiro no próprio pé, e - muito mais grave do que isso - um mau serviço à comunidade.
A notícia faz-se de factos e - mais do que dada com espetacularidade - tem que ser verdadeira. É o que distingue um meio de comunicação social de um romance de aventuras, por exemplo.
A questão do jornalismo de índole científica é premente, nos dias de hoje. E poucos - muito poucos, mesmo - jornalistas estão cabalmente habilitados para a tratar, quer ao nível de conteúdo científico, quer ao nível da linguagem adequada para o transmitir ao designado grande público.
Testemunho, aqui, o empenho que o autor deste texto tem tido no sentido da mudança deste estado de coisas...

Anónimo disse...

Dou-lhe os parabéns pela lucida lucidez e peço que mantenha a possível calma com alguns destes garotos (infelizmente tivemos a indulgência de criar uma narcisista e autocomplacente geração de king baby´s), enfim: como sempre diz um amigo "na dúvida, mantenha sempre o charme"!

Anónimo disse...

na devida conta, dá-se ao público o que ele quer: a Atlântida!

Anónimo disse...

Li o texto com atenção e deixo-lhe uma questão: e se as teorias dos jovens arqueólogos se vierem a confirmar? Se os vestígios que eles dizem ter encontrado forem efectivamente marcas de um povoamento antigo? Vai pedir desculpa à Lusa, ao Expresso, à APIA, ao município da Madalena?

FA

João Castro disse...

Também disseram a Galileu e a Giordano Bruno que estavam errados. Olhe que com essa atitude a sua amada academia não vai longe... Aliás nao sairá do mesmo sítio. Ficará parada, imóvel, agarrada ao que julga saber.

Ana Rita Falinhas disse...

Está tudo doido? Giordano Bruno? Falamos de uma farsa histórica, de uma tese fantasiosa e fabricada com imaginação, mas sem qualquer sustentabilidade.
Respondendo a um destes comentários, sempre digo que, no caso remoto de tal acontecer, os jornais que noticiaram o caso continuariam a ter errado. No momento em que publicaram ou difundiram as notícias, tratava-se de uma farsa.
Aprecio muito o papel do jornalismo na sociedade civil, mas ele não pode antecipar-se à ciência e aos seus processos de validação. Em arqueologia como em qualquer outra ciência, social ou natural.

Sergio Pereira disse...

Bem...
Triste texto, incoerente para quem é Diretor de uma Revista "Científica"
Mostra que quem escreveu não sabe nada da realidade do que se passa na Arqueologia Portuguesa, não fez o devido dever de casa.
Não existem pares na arqueologia portuguesa, existem impares. Não existe mérito académico em Portugal, existe conhecimento político e afinidades onde todos puxam as brasas para as suas sardinhas
São sempre os mesmos que manipulam a pouca verba que existe, São os mesmos que hoje DOUTORES construíram suas teses graças ao trabalho de alunos e nunca os citaram como descobridores ou como ajudantes.
Não se pode confiar em DOUTORES assim.
Não se pode confiar em DOUTORES que impedem alunos de reverem os materiais das suas teses a luz das novas tecnologias.
Não se pode confiar em Pesquisadores tendenciosos, preconceituosos e com ideias pré-concebidas, onde somente eles possuem a verdade absoluta.
Poucos pesquisadores em Portugal estão verdadeiramente livres disso e os poucos que existem, não se pronunciaram sobre o assunto.
Cumprimentos

Anónimo disse...

Certos comentários aqui expressos fazem-nos lembrar o famoso chavão "I want to believe", popularizado por uma antiga série televisiva. Não se trata de investigação científica inovadora, mas sim de pseudo-ciência, alicerçada em alegações místicas (Atlântida, linhas energético-telúricas, boas vibrações, etc.) e absoluta ausência de provas materiais. A acreditar nestes investigadores a civilização que teria colonizado os Açores fez algo inédito em toda a História da Humanidade. Ou seja, navegou em pleno oceano, até a um grupo de ilhas, para construir um impressionante conjunto de túmulos e pirâmides, simplesmente por que lhe deu na telha. Curiosamente, apesar do feito, não enterrou lá ninguém, não construiu povoados e não deixou um único artefacto cerâmico, lítico ou metálico que testemunhe tal ocupação.

Anónimo disse...

Excelente post. obrigado por "verbalizar" o óbvio.
Só me espanta o chorrilho de disparates e insultos com que alguns o presenteiam.
Como já alguém disse :" A Ignorância é muito arrogante"

AN

Anónimo disse...

Ainda por aí muita ignorância à solta, até porque a National Geographic não é uma revista científica, é uma revista de divulgação científica. E não compreender a diferença, diz tudo sobre o conhecimento de Ciência de quem confunde tais conceitos.

Miguel Soares de Albergaria disse...

http://nectsicpd.blogspot.pt/2014/04/a-expansao-do-imperio-mongol-aos-acores.html

Anónimo disse...

Anónimo

Em Gobekli Tepe não existem vestígios de ferramentas nem assentamentos permanentes.

"...para construir um impressionante conjunto de túmulos e pirâmides, simplesmente por que lhe deu na telha. Curiosamente, apesar do feito, não enterrou lá ninguém, não construiu povoados e não deixou um único artefacto cerâmico, lítico ou metálico que testemunhe tal ocupação".