quinta-feira, janeiro 19, 2017

A saga do português que conheceu Lenine

Já Reinaldo Ferreira dizia que, nos bastidores da actualidade mundial, há sempre um português — quase anónimo, insignificante face à gravidade da História, por vezes escondido atrás de um reposteiro ou dissimulado na cozinha, mas testemunha ocular dos momentos fulcrais em que se declara guerra ou se traem aliados. Jaime Batalha Reis, figura quase esquecida, pertence a este lote. Viveu em São Petersburgo/Petrogrado durante as duas revoluções russas de 1917. Assistiu à emergência dos bolcheviques e conheceu Lenine. É provável, até, que tenha sido o único português que falou directamente com o líder soviético. Esta é a sua história.

Jaime Batalha Reis pintado por Columbano  Bordalo Pinheiro
(Museu de Arte Contemporânea)
«Sinto-me abandonado», escreveu nervosamente este homem de 70 anos, «baixo, forte, todo branco e olho esperto através das lunetas». Estamos no dia 12 de Janeiro de 1918 (ou 30 de Dezembro de 1917, de acordo com o calendário juliano pelo qual a Rússia ainda se rege nesta fase). «Todos [os] bancos fechados. Transacções paradas. Fome crescente em Petrogrado. Lojas, casas assaltadas por soldados e operários. Vivo com minha família há pelo menos seis meses em perigo de vida permanente agravada por falta de dinheiro. Tenho tido fome e frio. Terei de partir inopinadamente com dificuldade. Suplico a V. Ex.ª [que] leia meu telegrama último sobre assunto não respondido e mande pôr urgentemente à minha ordem [no] Provincial National Bank Londres pelo menos mil libras esterlinas extraordinárias.»
Jaime Batalha Reis [1847-1935] vive desde 1914 com duas filhas, maiores de idade, em Petrogrado [antiga São Peterburgo até o czar decidir que o nome era demasiado germanófilo e impor, em 1914, este Petrogrado de curta duração. Em breve, a cidade será conhecida como Leninegrado]. Está exausto e apavorado.
No mês anterior, em Dezembro de 1917, soldados assassinaram o seu senhorio, um octogenário que fizera parte da corte do imperador, enforcando-o às seis horas da tarde na sua própria sala de jantar, estrangulando a sua esposa, matando a tiro o seu genro e ferindo a sua filha. Casos dramáticos como este são comuns no ano da graça de 1917 à medida que forças leais aos quatro Directórios Governativos que sucederam ao governo imperial combatem os representantes do novo movimento bolchevique. Em Outubro, Lenine tomará o poder, mas os focos de violência prolongar-se-ão durante meses..
Petrogrado está a saque e faminta. Impera a lei da selva ou, melhor dizendo, não impera lei alguma. As legações diplomáticas mantêm-se relativamente a salvo – tão a salvo como é possível mantê-las numa cidade em guerra. O adido militar britânico, por exemplo, é assassinado em circunstâncias nunca explicadas. As embaixadas de Espanha, Itália e Inglaterra são parcialmente invadidas. O ministro de Itália é atacado e roubado em frente do Hotel Europa. No final de Janeiro de 1918, travam-se combates na própria rua da Legação Portuguesa e o corpo diplomático tem de «passar debaixo de fogo para [uma] reunião na embaixada dos Estados Unidos», telegrafa Batalha Reis para o Ministério. Há miséria e fome. Uma semana depois, é declarado um surto de tifo na cidade. «Muito pouca gente consegue obter farinha [ou] pão», lamuria-se o diplomata português.
É neste contexto revolucionário que Jaime Batalha Reis conhecerá Vladimir Illitch Ulyanov, mais conhecido por Lenine. Mas já lá iremos.

UM COMUNISTA DE SOFÁ
«Ao Sr. Jaime Batalha Reis
“Convido as pessoas presentes a ouvirem no Tribunal da Boa Hora a minha prelecção sobre o Comunismo.” Palavras do Sr. Jaime Batalha Reis, proferidas na noite de 26 de Junho de 1871, no escritório da redacção do Jornal do Comércio, em presença de cinquenta pessoas, a propósito da portaria que proibiu as conferências democráticas no Casino. Quando tenciona o digno chefe do serviço do Instituto Agrícola realizar a sua prelecção?»
O texto, gozão, foi publicado em Abril de 1872 no jornal O Trabalho e exortava o antigo revolucionário a cumprir a sua palavra. Batalha Reis fez parte dos conferencistas que se predispuseram a discutir os problemas sociais e políticos da época nas Conferências do Casino de 1871. Antero começou em Maio, seguiram-se Eça e Adolfo Coelho em Junho. Em 26 de Junho, o marquês de Ávila proibiu o evento, impedindo Salomão Saraga, um israelita, de discutir a Vida de Jesus, e Jaime Batalha Reis de apresentar ao público lisboeta as ideias de Proudhon, Marx e Engels. Na verdade, como o próprio confidenciou cinco décadas depois num artigo publicado no Diário de Notícias (6 de Julho de 1921), «toda a gente supunha ir eu sustentar a gratuitidade do crédito, condenar o juro dos capitais, atacar a propriedade individual, fazer a apologia do Comunismo (…), mas a minha conferência teria sido assim, apenas, a exposição crítica dos diferentes sistemas socialistas».
O historiador eborense Joaquim Palminha Silva [1945-2015], o mais activo biógrafo de Jaime Batalha Reis – e o seu mais veemente crítico –, verberou o futuro diplomata por esta constante flutuação entre a promessa de posições firmes e a realidade do seu conservadorismo e tacanhez. «Ele foi, de todas as abencerragens da denominada geração de 70, aquele com quem a Natureza esbanjou as suas melhores prendas, ao conceder-lhe 88 anos de vida!», comentou, com dureza, no início de Jaime Batalha Reis no País dos Sovietes (1984). A obra tem, porém, um inestimável valor pela recolha exaustiva de todas as comunicações entre o MNE e Petrogrado.
«Pensou-se levemente revolucionário, federalista, republicano, namoriscou diletantemente a Associação Internacional do Trabalho (AIT), assumiu compromissos por engano, ou, se se preferir, foi levado pela força das circunstâncias revolucionárias nacionais e internacionais, bem como pela bacoquice provinciana portuguesa e lisboeta, alheia à verdadeira essência do movimento trabalhador e revolucionário, a namoriscar com a AIT, da qual depressa se afastou». É este o perfil de Jaime Batalha Reis, jornalista, crítico teatral, agrónomo, geógrafo. Em fins de Setembro de 1870, Batalha presta provas com Eça de Queiroz na sala do corpo diplomático do MNE num concurso para cônsules que lhe mudará a vida.
A apreciação de Palminha sobre a intervenção política de Batalha Reis não difere propriamente da dos outros companheiros de conferência, autodesignados literatos revolucionários desde que Antero desembarcara em Lisboa «como um apóstolo do socialismo, a trazer a palavra aos gentílicos», mas na verdade «boémios com cheiros a revolução, intenções pedagógicas de modernização científica e artística, revolucionários repletos de proudhonismo e republicanos federalistas, tudo de caldeirada e sem pestanejar».
Com mais veemência (porventura explicada pelo antagonismo do historiador face às posições políticas do biografado), Palminha acrescentou: «Alguns dos da geração de 70 têm isto de peculiar, quando se varre a poeira literária e/ou cultural – ou mesmo tendo-a como factor de análise – para melhor nos debruçarmos sobre os aspectos que ela tinha em relação ao político e ao social, não há adubações que lhes valham, a sua capacidade interventora é um manto de diáfana fantasia, a cobrir a verdade nua» (itálico no original).
Alheio à decepção dos seus antigos e futuros camaradas de armas, Batalha Reis prossegue a carreira diplomática. Precede Manuel Teixeira Gomes na Legação Portuguesa em Londres (onde o futuro Presidente da República dirá dele: «Ganha quinhentos mil réis anuais, mas nunca fez coisa alguma») e avançará para o posto da Legação de Roma e Haia – onde alimentará novo escândalo. Nas palavras de A Pacotilha de 9 de Dezembro de 1911, não saiu de Lisboa, mas «recebeu os ordenados e gratificações do cargo» que o MNE o forçará a devolver.
Segue-se Petrogrado, um posto tradicionalmente tranquilo, junto da Rússia dos czares. Aos 66 anos, tudo indica que será a sua última missão, numa Legação que raramente dá que falar em plena Rússia feudal. É certo que os ventos da guerra europeia já sopram com aspereza, mas certamente o antigo conferencista do Casino não imaginava a provação que o esperava. Em breve, a sua veia revolucionária seria confrontada com eventos reais.

12 MESES DE SOFRIMENTO
Lenine aclamado em Petrogrado, 1917

«2 de Janeiro de 1917 – Acaba de ser assassinado Rasputine, suposto supremo influente [da] política preponderante russa», escreve Batalha Reis no início de 1917 para o MNE.
«8 de Janeiro de 1917 – Confidencial e reservado – Grão-duque Dimitri, um dos assassinos de Rasputine, partiu enviado pelo czar em viagem para a Pérsia. Cúmplices estão livres, não haverá processo», acrescenta seis dias depois. É a primeira peça no dominó de consequências monumentais que se jogará na Rússia durante o ano.
Telegrafando com insistência para Lisboa – mais do que uma vez por dia no auge da Revolução de Outubro –, onde os ministros se sucedem nas Necessidades, Batalha Reis procura documentar os acontecimentos de Petrogrado. Faltam-lhe a veia literária de Ramalho e as convicções de Antero. Sobra-lhe a verborreia. Raul Brandão, no terceiro volume das suas Memórias, lembra o aspecto mais marcante do seu carácter: «O que ele quer é discutir… Se tem quem o ature, está a pé toda a noite. De manhã, toma um banho de água fria: conserva-se uma hora em pelo, ao ar, e dá um passeio de léguas; de tarde, exaure os rapazes e os homens que vieram da York House com ele – o Pascoaes, o Justino, os poetas. Toda a noite! Toda a noite! E, logo de manhã, é o primeiro a levantar-se, sempre com o mesmo viço e frescura. Vive para raciocinar, para discutir todos os problemas.»
Aliás, esta intolerância oral vale-lhe alguns dissabores, acrescentou Brandão: «Às vezes, pesa arrobas porque nunca se cala. Duma vez, ia com o Soveral para França no comboio e, quando chegaram ao Entroncamento, o Soveral, que não podia mais e não era caco para semelhantes discussões, disse-lhe:
– Batalha Reis, vamos fazer uma combinação: nós, agora, até Paris, fingimos que temos as relações cortadas.»
Na Rússia, limitado por uma língua que não fala, Batalha Reis discute nos corredores diplomáticos das legações estrangeiras da cidade. E escreve. Documenta compulsivamente o que ouve – por vezes, fá-lo com rigor, descrevendo a espiral de assassínios e combates que varre a cidade; noutras ocasiões, é induzido em erro. Acima de tudo, esta é uma terrível provação para um diplomata em fim de carreira, que se queixa com frequência para Lisboa das crises de gota, da falta de verba para acompanhar a subida galopante dos preços (600% só entre Janeiro e Março de 1917), do frio e, sobretudo, da fome.
Com frequência, os telegramas arquivados no MNE assemelham-se a um confessionário onde Jaime Batalha Reis expõe ao ministro os seus receios. De Lisboa, valha a verdade, vem pouco consolo. Os Directórios Políticos que asseguram minimamente o poder em Petrogrado reclamam o reconhecimento oficial português, que o MNE tarda em conceder. Em 28 de Março – suprema vergonha –, o ministro  dos NE telegrafa para o embaixador em Londres pedindo o «favor [de] saber desse Governo [o inglês] se este reconhecimento o contrariaria». Nada de invulgar na política diplomática nacional, como notou Joaquim Palminha, lembrando o «cúmulo da subserviência quando Sir Lancelot D. Carnegie envia a Augusto Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros, um Memorandum, indicando as linhas gerais para a resposta a dar ao governo alemão, isto é, a redacção do documento que A. Soares deveria enviar a Sidónio Pais, representante em Berlim da República Portuguesa – expondo as razões porque se haviam requisitado os navios alemães estacionados nos portos portugueses».
Há lacunas no arquivo diplomático, provavelmente correspondentes a telegramas não recebidos no MNE. Além disso, o arquivo da legação nacional em Petrogrado, como se verá de seguida, foi abandonado à sua sorte. A leitura dos fragmentos restantes, porém, é reveladora.
Ao longo dos meses, Batalha Reis analisa a situação russa com pessimismo crescente, vendo em todos os actos de Lenine, Trostky e demais revolucionários a mão da Alemanha «explorando socialistas e liberais [que] continuam excitando, com o fim de provocar guerra civil [e] indisciplina [no] exército russo» (29 de Março) ou «alemães continuam inutilizando exército russo, aumentando anarquia» (18 de Julho). É uma visão ingénua do processo revolucionário. O diplomata português prefere ver nele uma rebelião de ocasião, alimentada pelo inimigo alemão, desejoso de controlar a frente oriental da Primeira Grande Guerra.
Na verdade, os bolcheviques vão ganhando terreno às forças leais ao Directório. A família imperial, já detida, é enviada para Tobolsk em Setembro de 1917. Na Primavera seguinte, os últimos soberanos da Rússia serão ali executados.
Batalha Reis só antecipa os acontecimentos de Outubro a escassos dias do momento decisivo. Em 28 de Outubro, telegrafa para Lisboa: «Espera-se em poucos dias revolução socialista e saqueada a cidade». Uma vez mais, coloca a sua integridade no topo das preocupações, acrescentando: «Ódios crescentes contra diplomatas [de] potências aliadas.»
Por fim, no dia 8 de Novembro, redige o seu telegrama mais importante: «Petrogrado: todos os serviços e instituições públicas em poder [dos] bolcheviques. Ministro [dos] Negócios Estrangeiros preso. Destino desconhecido [do] desconhecido presidente [do] Conselho [de] Ministros [do] Governo provisório desaparecido (…) Palácio de Inverno bombardeado por fortalezas e cruzadores, barricadas, combates sanguinolentos nas ruas dia e noite.».
Dez dias depois, indicará às Necessidades a constituição do governo bolchevique, enfatizando ainda Trotsky como «judeu alemão» e intuindo que o primeiro acto será a assinatura de um acordo de paz com o Kaiser – que não sucederá.
Nas semanas seguintes, o tom das comunicações perde a fleuma do diplomata experimentado. Batalha Reis mistura leituras políticas com apelos para envio de mais remessas financeiras para a Legação, não deixando de sublinhar que a segurança da mesma é agora paga por si.
Entretanto, senhor dos destinos da cidade e de parte importante do território russo, Lenine dá o passo seguinte.
Primeira página da exposição de Batalha Reis ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Setembro 1918
(Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros)

CONFLITO DIPLOMÁTICO
A guerra do governo bolchevique não se trava apenas com o exército alemão. Nos países vizinhos, como a Finlândia e a Roménia, há escaramuças terríveis. Aproveitando a fragilidade do novo regime, o exército romeno proclama a anexação da Moldávia e abate vários soldados bolcheviques. Em retaliação, Lenine manda prender Diamandi, o representante diplomático da Roménia em Petrogrado.
É uma carta arriscada, mas trata-se de um risco controlado. Lenine procura um acto escandaloso que assuste os diplomatas estrangeiros e apresse o processo de reconhecimento do novo regime, mesmo que isso implique o desrespeito pelas convenções internacionais. O gesto cumpre o objectivo: os colegas de Batalha Reis, com particular ênfase para os embaixadores francês, inglês e americano, tomam uma decisão rápida: no dia 17 de Janeiro, «todo o corpo diplomático na cidade – aliado e neutro – resolveu formular e ir entregar a Lenine, Presidente do Governo bolchevique, [uma] nota expressando indignação».
Já na segurança de Lisboa, quase uma década depois, Batalha Reis contará a Raul Brandão mais pormenores do dia em que esteve frente a frente com o líder comunista. «O camarada das relações exteriores era um idiota, mas Lenine não. Lenine era uma figura. Viu logo que a prisão do ministro tinha sido uma asneira e estava pronto a transigir.»
Segue-se uma longa troca de palavras acaloradas no Palácio de Smolny. Os diplomatas lembram a Lenine o carácter sagrado das convenções; o russo responde com a imprevisibilidade do acto traiçoeiro dos romenos. «Até que [o embaixador] da Sérvia, que tinha sido guerrilheiro, avançou para ele, chegando-lhe os punhos à cara. Agarrrámo-lo pela casaca, interviemos para apaziguar e Lenine, sempre com a mesma fleuma:
      Deixem-no, prefiro isto aos seus discursos diplomáticos.»
Do confronto, obtém-se de facto a libertação do diplomata romeno ao fim de poucas horas. Mas a conversa deixa apreensivos os diplomatas: a sua condição de embaixadores e ministros não os protegerá por muito mais tempo. Começam em segredo os preparativos para evacuação da cidade, temendo que possam ser utilizados pelo novo regime como reféns.
Batalha Reis, esse, mostra-se discreto e toma uma decisão: fará o que os ingleses e franceses fizerem. Continua entretanto convencido de que «o responsável [pelo] assassínio da família real foi, na verdade, o Kaiser».

A LONGA FUGA
Os diplomatas estrangeiros tomam a decisão: a Rússia bolchevique não é para eles. Combinam a fuga, recomendando o transporte do mínimo de bagagens possível. Fazem-no como se fosse viável sair de Petrogrado à revelia do novo governo. O ministro português em Petrogrado deixa na Legação todos os seus arquivos e livros.
Batalha Reis puxa dos galões literários, numa réplica curiosa de Miguel Strogoff, com a diferença – grande – de que os diplomatas estrangeiros se preparam para abandonar o centro do vulcão a bordo de um luxuoso comboio especial organizado pela embaixada de França e conduzido pelo conde Rolieu.
Seguem para Helsingfors (actual Helsínquia), sem noço﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽çe encontra a sua prporte,nde Guerra estestrangeiros se preparam para abandonar o centro do vulcme, mesmo que isso impão de que os combates da Primeira Grande Guerra estão ali ao rubro. Após sucessivos controlos de passaporte, o comboio diplomático é travado. Num gesto pouco simpático, o embaixador britânico Lindley abandona os colegas à sua sorte e encontra a sua própria salvação. Diz aos colegas que vai tentar encontrar uma passagem para todos, mas não regressa!
Gorada a saída pela Finlândia, o comboio parte para a Suécia, onde a tempestade e a guerra reduziram as linhas férreas a escombros. Ali permanecem vários dias. Os representantes do novo regime russo estão ainda confusos: não sabem como tratar estes passageiros especiais. Fazem mil e uma verificações. Estão sobretudo nervosos. Certa noite, em Viborg, «eu precisei de sair da minha carruagem para ir conferenciar com o ministro da Bélgica ao seu wagon e arredei, com a mão, um de três homens armados de espingardas com baionetas que encontrei diante de mim na plataforma. Senti o frio de um cano de revólver que me era encostado à testa e ouvi uma voz dizer-me secamente, em russo: «Para trás, não se passa.»
O impasse resolve-se da pior maneira. O comboio é mandado regressar. Passaram cinco semanas e os diplomatas vêem-se compelidos a regressar ao ponto de partida. Batalha Reis retoma o pavor. Tudo lhe é horroroso: «Estreitas carruagens de caminho de ferro quebradas e, durante anos, sem pinturas nem concertos, onde a água, rara nos lavatórios, às vezes alagava o chão, por onde durante quatro anos haviam passado os milhões dos exércitos dos mujiques e dos revolucionários, por isso – ai de nós! – abundantemente infestados por percevejos e piolhos, impossíveis já então de completo extermínio.» Em todas as cidades por onde o comboio passa, morre-se, mas o diplomata preocupa-se com as pragas infestantes.
Em Petrogrado, arquitecta-se nova rota: o comboio seguirá agora na direcção de Murmansk. Uma das filhas de Batalha Reis ainda consegue adquirir mantimentos em Petrogrado «por preços espantosos», mas seguem-se novas contrariedades. Para além da gota e da doença da outra filha, o diplomata perde a partir deste ponto o seu «criado russo, indispensável para as bagagens (…), que tinha medo do que ia acontecer».
O grupo chega por fim à proximidade do mar Branco. Falta um obstáculo juliovérnico: a ponte até Murmansk cedeu ao frio e quebrou. O grupo desmonta do comboio e caminha pela neve. Apesar dos esforços para manter o drama da narrativa [que apresentará ao ministro no final do Verão de 1918], Batalha Reis denuncia alguns pudores aristrocráticos. O primeiro comboio que é enviado por franceses do lado de Murmansk é liminarmente recusado, dado o «tal estado de imundície». A comitiva, a contragosto, aceita instalar-se nos bancos duros de um vagão russo de quarta classe.
Chega por fim a território… civilizado. Em Murmansk, os representantes ingleses providenciam abrigo e conforto. Os diplomatas aguardam ali o barco que os levará a Newcastle através do oceano glaciar árctico. Há 47 dias que Batalha Reis e as suas duas filhas fugiam dos bolcheviques. Resta uma travessia perigosa por mar, num navio pouco seguro e sem coletes suficientes para todos. «Ninguém poderia viver na água glaciar desse mar por mais de 10 minutos», sublinha. A viagem, porém, termina na segurança de Newcastle em 4 de Maio de 1918. Quase dois meses depois da primeira tentativa de saída da Rússia.
Sempre crítico, Joaquim Palminha Silva não deixa de acusar o diplomata de enfabular uma situação privilegiada, na qual os galões diplomáticos funcionariam à partida como salvo-conduto para o velho ministro e as duas filhas. «Estamos longe, por conseguinte, de duas Cinderelas, adolescentes ingénuas e sem protecção ou capacidade física e mental para entenderem e enfrentarem a vida», zombou. «Que mais queria ele, agarrado aos seus foros de diplomata, no centro de um furacão bélico onde se cruzavam as armas de vários exércitos, onde multidões operárias e camponesas se compenetravam no seu papel histórico?»
Palminha defendeu que Jaime Batalha Reis «falhou a grande reportagem da sua vida». Creio, em contrapartida – e espero tê-lo demonstrado –, que Jaime Batalha Reis encontrou aos 70 anos a ocasião de se equiparar aos velhos companheiros literários e revolucionários da Geração de 70 e reclamar uma fracção de imortalidade.

A sua saga na Rússia dos bolcheviques perfaz este ano exactamente um século.

terça-feira, janeiro 17, 2017

Alves dos Reis... antes de Alves dos Reis



Aquela legenda que volta para nos assombrar.
Revista ABC, Julho de 1925.
Três meses antes do escândalo final do Banco Angola e Metrópole...

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Como Vasco Granja desvendou parcialmente um mistério de Blake e Mortimer

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
De férias nos Açores, destino turístico recém-descoberto pela burguesia europeia após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o professor Mortimer faz uma descoberta espantosa: no foro do Diabo, um pequeno golfo na zona das Sete Cidades (ilha de São Miguel), detecta um metal desconhecido com propriedades radioactivas invulgares. Convoca de imediato o seu amigo, o capitão Blake, e juntos, penetrando numa caverna vulcânica micaelense, desvendarão o segredo da civilização Atlântida, resguardada na tranquilidade dos Açores – desfecho, aliás, que uma legião de maluquinhos continua a tentar impingir-me semanalmente na revista onde trabalho.
O enredo, publicado em pranchas semanais a partir de Abril de 1957 (e mais tarde reunido em álbum, O Enigma da Atlântida), constitui um dos êxitos mais celebrados dos aventureiros Blake e Mortimer, criações de banda desenhada do belga Edgard Pierre Jacobs (1904-1987). Mas onde se inspirou Jacobs para um dos seus mais populares guiões?

Uma das vinhetas de O Enigma da Atlântida. As duas lagoas das Sete Cidades.
(Público/ASA)
Em Outubro de 1972, o mais extraordinário divulgador de banda desenhada entre nós, Vasco Granja (1925-2009), entrevistou-o para a revista Tintin. De feitio reservado, refugiado na sua propriedade em Lasne en Brabant, Jacobs não concedia muitas entrevistas – menos ainda para os representantes de um país sem grande tradição no género e de que conhecia apenas (por admissão própria) o extinto Cavaleiro Andante e o desenhador Fernando Bento (que aliás elogiou: «Ficava-se com a ideia de que conhecia o vestuário de outras eras do povo português.»)
Como bom repórter, Granja torturou o responsável de Relações Públicas da revista Tintin, Jean Paul Vander Elst, e obteve o exclusivo. Antes, já pedira também a intermediação de Hergé, velho mestre de quem Jacobs fora assistente em Bruxelas. Hergé considerava Jacobs um misto entre Mortimer e o seu capitão Haddock. 
Há uma certa aura quando Jacobs entra na sala onde Granja já o espera, «dando a impressão de estar numa sala de espectáculos. (…) É uma autêntica encenação teatral (não esquecer que o grande desenhador teve uma brilhante carreira como intérprete lírico)». Repórter minucioso, Granja regista o aparato da entrada cénica, «como se aguardássemos as três pancadas de Molière».

Parte 7 da entrevista, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)

A entrevista, partida em sete capítulos (publicados entre a série XI e XII da revista), é um jogo de xadrez. Granja elogia Jacobs e quer extrair dele os segredos criativos; Jacobs contra-interroga, numa espécie de exame de aptidão daquele homem peculiar, de óculos de aros largos, proveniente do país com «um povo corajoso», «pequenos mosaicos de cores diferentes [azulejos]», mas pouco mais. A certo momento, num jogo de espelhos peculiar, é o belga quem faz perguntas sobre o estilo de banda desenhada mais comum em Portugal, as dificuldades de adaptação de enredos e peripécias culturais francófonas ou até as preferências de Granja sobre o processo criativo e a hierarquização de funções entre desenhador e guionista.
O Enigma da Atlântida aflora à conversa. O guião inicialmente previsto para a aventura incluía discos voadores, mas outro ilustrador com colaboração prevista para o mesmo número da revista já os integrara na sua narrativa e Jacobs, cavalheirescamente, cedeu. O belga interessou-se então pela Atlântida, revisitando o mito que, desde o século XVIII, sugere que o arquipélago açoriano seria o destino final desta civilização perdida.
«Oh, sabe lá, tive tanta dificuldade em reunir documentação para essa história», contou. «Hoje, teria sido mais fácil.» Jacobs gabava-se de um processo documental único entre os seus pares e a história nos Açores não fugiu à regra. São conhecidas várias rábulas sobre a obsessão do belga com os mais ínfimos pormenores que reproduzia depois nas pranchas. Nos Açores, ficou sempre a dúvida sobre se Edgar Jacobs efectivamente visitou o arquipélago, pois os seus blocos de notas e memórias são omissos relativamente a essa questão, mas as pranchas que decorrem à superfície das Sete Cidades são particularmente minuciosas e correctas.
Granja questionava. Jacobs desviava a conversa: «Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber? Não tenho vinho do Porto, mas talvez aceite um uísque.»
Mais à frente, volta-se ao tema. Infelizmente, sem certezas.
Interpretando literalmente a resposta final de Edgard Jacobs, fica a ideia de que a visita do desenhador a São Miguel foi posterior à publicação do álbum. «Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a preparar O Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas [Jacobs referia-se às Sete Cidades] deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago, pode[m] observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.» E foi tudo!
Vasco Granja em imagem do Gato Alfarrabista
O homem que se gabava de ter sido o primeiro na Bélgica «a tentar fazer em banda desenhada qualquer coisa de sólido em vez de imaginar cenários fantasistas como no teatro», não chegou a esclarecer como se documentou para reproduzir fielmente a Lagoa Azul e a Lagoa Verde.
     Vários biógrafos e fãs de Jacobs não acreditam que o belga tenha de facto visitado os Açores no início da década de 1950 para se documentar, mas, em São Miguel, a sua figura ainda é lembrada. O vulcanólogo Victor Hugo Forjaz conta que, nas memórias da ilha micaelense, ainda há quem se lembre do belga «numa descida juliovérnica que se realizou na Povoação e terminou numa caverna sem saída», seguida de uma visita às Sete Cidades. A imaginação do desenhador e guionista faria o resto, estabelecendo ligações subterrâneas entre o território. «Terá então sido guiado pelo jornalista, director de uma loja de turismo e radialista Silva Junior (1912-1995)», acrescenta o cientista, que homenageia este mês a aventura de Blake e Mortimer que percorreu mundo e celebrizou as Sete Cidades.

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
Nunca mergulhei na Lagoa das Sete Cidades, objecto do excelente Vulcão das Sete Cidades – Um Guia, obra agora publicada nos Açores com coordenação de Victor Hugo Forjaz e do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Porém, ontem, em conversa amena com este amigo, sábio da vulcanologia, memória viva dos Açores e… testemunha bem humorada de erupções reais, fictícias e imaginadas-para-ministro-ver, veio à baila esta saga de Blake e Mortimer passada em São Miguel. Rimo-nos com a recordação do final da aventura de Jacobs. Na banda desenhada, Jacobs abre a Lagoa para deixar passar foguetões em direcção ao espaço, antes de a voltar a selar com a configuração de sempre, como se nada tivesse acontecido.

Na impossibilidade (para já) de comprovar que Edgard Jacobs visitou de facto os Açores antes de desenhar O Enigma da Atlântida, resta-me sugerir a leitura deste novo guia sobre um dos monumentos naturais mais espantosos de São Miguel. Com menos ficção e mais ciência, com menos atlantes e mais açorianos, é uma obra fascinante e há muito necessária.

Nota final: este artigo é devedor da sabedoria e partilha de informação do blogue Nerdenthal, que compilou uma valiosa lista de textos de Vasco Granja sobre banda desenhada, o amor da sua vida.