segunda-feira, janeiro 14, 2019

Os espiões soviéticos que NÃO passaram por Estremoz


Um episódio desconhecido da Guerra Fria teve lugar em Portugal, em 1951, com intervenção do jornalista Valentim Alferes.

Ilustração de Luís Taklim

A caça ao homem começara. No dia 7 de Junho de 1951, o Daily Express publicara finalmente uma história que fervilhava na comunidade dos serviços secretos britânicos desde o mês anterior. «A Scotland Yard persegue dois britânicos em fuga para a Rússia», escrevia o jornal. Os dois homens eram Donald McLean e Guy Burgess, funcionários bem colocados no establishment inglês desde o início da Segunda Guerra Mundial. Sabia-se que ambos tinham embarcado para França e, a partir daí, o rasto diluía-se.
A informação chegara finalmente a Fleet Street, a rua londrina onde no século XX se concentravam os principais jornais ingleses. Em breve, toda a imprensa ocidental amplificaria a história: onde andariam os dois espiões, educados em Cambridge, oriundos da elite e, afinal, espiões ao serviço da União Soviética durante quase duas décadas?
Com o desprendimento próprio de quem aborda assuntos que não lhe dizem directamente respeito, a imprensa portuguesa mencionou também a caça aos homens nas primeiras páginas dos jornais no dia 8 e reproduziu as fotografias dos dois homens. Durante alguns dias, em toda a Europa, os ecos da caçada foram difundidos e, como seria de esperar, começaram a surgir boatos de avistamentos extraordinários.
A polícia política portuguesa abriu o dossier sobre Guy Burgess logo no início de Junho, dando conta de uma informação transmitida pelos serviços secretos americanos: um agente polaco, Wdalislaw Czarnecki, vendia “segredos” de espionagem a quem mais pagasse e garantia, numa narrativa rocambolesca, que a fuga de Burgess e McLean fora promovida pelos serviços secretos ingleses para causar cisões no movimento sindical do Leste. O documento inócuo e falso foi arquivado. Tudo indiciava que a perseguição aos dois desertores passaria ao largo.
Mesmo assim, no próprio dia 8 de Junho, G.H. Birley, responsável pela secção de vistos da embaixada inglesa em Lisboa, pediu uma audiência com o tenente Jorge Ferreira da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) para o alertar para a possibilidade remota de os dois homens poderem viajar por Portugal. Distribuiu fotografias e uma descrição pouco mais do que inútil. De McLean, o relato refere que «tem o ar de bebedolas», «fuma muitos cigarros» e «normalmente não se veste bem». O diplomata fora até há semanas o representante britânico junto dos serviços secretos em Washington, mas a maré de calúnia já estava contra si.

Os retratos de Donald McLean e Guy Burgess distribuídos pela embaixada inglesa à polícia portuguesa
(Arquivo Nacional da Torre do Tombo)

NO ÁGUIA DE OURO
Apontemos a nossa objectiva ao Café Águia de Ouro, farol centenário da vida social em Estremoz. Ao final do dia, pelas 22 horas, quando chegam à vila os jornais de Lisboa e do Porto, as figuras proeminentes da sociedade local juntam-se ali, à mesa do café, para discutir a actualidade. No salão do Cinema Esplanada-Parque, acabou há minutos a exibição do filme Punhos de Ouro e a população aproveita a noite quente de Junho para dois dedos de conversa no café.
Passaram três dias desde a fuga dos espiões e o seu paradeiro ainda é desconhecido. O reverendo António do Carmo Martins, figura querida da história moderna de Estremoz, é um dos animadores dos serões, juntamente com o padre Serafim Tavares. Fernando Lagarto, presidente do Grémio da Lavoura de Estremoz, é outro participante das tertúlias, tal como Francisco de Sousa Zuzarte.
Entram no café dois homens.
Salta à vista que são estrangeiros. As conversas no café extinguem-se por momentos. Os recém-chegados são observados ao microscópio. Com alguma dificuldade, fazem-se entender pelo empregado de mesa. Pedem em inglês cervejas e charutos. O mais baixo está nitidamente incomodado com a atenção que a sua presença desperta. Fernando Lagarto hesita em chamar de imediato o alferes da Guarda Nacional Republicana. Quando o faz, já não vai a tempo.
Os ingleses consomem rapidamente as bebidas e saem. Olham ainda de soslaio para as batinas dos reverendos. Cochicham e saem a pé «sem se utilizarem de qualquer veículo». Os padres, por sua vezes, trocam impressões em latim.  Mal os homens desaparecem, o Café Águia de Ouro explode de entusiasmo. O homem mais baixo que ali estivera é «identificável pela fotografia que os jornais recentemente publicaram». A dedução não poderia ser mais óbvia: estiveram em Estremoz os dois espiões britânicos procurados em toda a Europa. Burgess e McLean estão em Portugal!
Num último gesto (de que iria arrepender-se), o reverendo comparece seis dias mais tarde, no dia 16, na Casa do Povo de Santa Maria de Estremoz, em representação do jornal eborense com o qual colaborava. Ali priva com vários correspondentes da imprensa regional alentejana, entre os quais Valentim Alferes, antigo delegado em Évora do Jornal de Notícias, correspondente do Diário de Lisboa (DL) (e em breve também de O Século, Diário Popular, Diário Ilustrado e vários jornais alentejanos). Conta-lhe o sucedido. Alferes tem agora um dilema: omite o relato ou telefona para Lisboa, informando a redacção do DL.

Um dos retratos conhecidos de Valentim Alferes, aqui entrevistando o líder da comunidade cigana de Évora.
(Arquivo Mais Alentejo)

Valentim Alferes cultiva forte amizade com Mário Neves, então redactor do Diário de Lisboa. Em data não especificada, conta-lhe o caso. Tudo indica que a informação é processada na redacção do jornal, em Lisboa, e remetida para a página 3 da edição do dia 27 de Junho sem despertar alarmes na Censura. O jornal não refere o assunto na primeira página e tolhe o entusiasmo do correspondente, utilizando um título interrogativo: «Passaram em Estremoz os diplomatas ingleses desaparecidos há um mês em condições misteriosas?» De todo o modo, a lebre está desperta. Mal o jornal é apregoado nas ruas, inicia-se um vigoroso processo de inquérito que coloca Valentim Alferes no olho do furacão, apesar de a notícia não referir o seu nome.
A notícia do Diário de Lisboa de 27 de Junho de 1951
(A partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

QUEM FOI VALENTIM ALFERES?
Operário da insaciável fornalha dos jornais do século XX, Valentim Alferes teve um percurso distinto da maioria dos camaradas de ofício. «O meu pai começou por ser militar», conta o coronel Carlos Fonseca Alferes, capitão de Abril e filho do jornalista alentejano. «Um dia, sofreu um acidente. Ficou por baixo de um cavalo. Esteve dois anos em convalescença no Caramulo e passou à reserva. Julgo que a paixão pelo jornalismo foi de certo modo o substituto que encontrou para uma vida de aventura.»
Madeira Piçarra, decano dos jornalistas alentejanos e combatente da trincheira da imprensa regional, trabalhou com Valentim Alferes em vários projectos no Alentejo. «Era um bom homem», lembra. «Não tinha qualquer simpatia pelo Estado Novo, embora também não fosse um jornalista cativado pela política.» Juntos, os dois jornalistas fundaram o Jornal de Évora em 1959, uma pedrada no charco na imprensa do distrito. Seguiram depois ramos paralelos da mesma árvore – Madeira Piçarra criando o Diário do Sul, Valentim Alferes saltitando entre o Alentejo Ilustrado, o Democracia do Sul, A Defesa e, mais tarde, assegurando a direcção do Tribuna da Beira em 1970 e do Diário do Alentejo em 1971. «Recordo um homem que gostava muito de ser jornalista. Adorava escrever prosa longa. Assinava longos linguados, sempre à mão, pois mostrava antipatia pela máquina de escrever.»
O desporto era, para muitos correspondentes de província, a porta de entrada nos grandes jornais de Lisboa e do Porto. O jornalista Alferes Gonçalves lembra Valentim Alferes sempre desdobrado em crónicas desportivas para múltiplas publicações. «O Jornal de Notícias era a sua primeira preocupação. Era ele o delegado do jornal em Évora, uma função mais abrangente do que a de correspondente.» Com ironia, Madeira Piçarra acrescenta que «o JN vendia então seis exemplares em Évora enquanto o Diário de Notícias vendia seiscentos».
«Num tempo de biscates, Valentim Alferes era jornalista a tempo inteiro, com carteira profissional», acrescenta Alferes Gonçalves. «Tinha escritório no centro de Évora e era uma das portas à qual os jornais de Lisboa batiam quando precisavam de qualquer notícia. Escrevia o que pensava e logo se veria se a Censura deixava passar. Julgo que, até ao fim da carreira, fez sempre trabalho de campo.»
«Adorava conduzir entrevistas», acrescenta o filho. «Era talvez o que fazia melhor. Entrevistou Mário Soares, o rei Juan Carlos. Vivia para os jornais. Aliás, eu só o via à noite, ao jantar. Trabalhava incansavelmente de noite e, de manhã, recuperava o sono.»
Valentim Alferes alimentara o sonho de uma carreira nos principais jornais do país. «Lembro-me de ele contar que quisera ser jornalista para poder ser correspondente de guerra», regista Alferes Gonçalves. Em 1951, em Estremoz, esse desejo esteve ironicamente mais perto do que nunca.
Valentim Alferes com Marcello Caetano numa recepção aos jornalistas, em Beja, 1971
(a partir da colecção do Diário do Alentejo, Biblioteca Nacional)

AS REPERCUSSÕES
A notícia publicada no Diário de Lisboa no dia 27 de Junho desperta sinais de alarme na sede da PIDE, em Lisboa. Na própria noite, o tenente Rodrigues  telefona para o posto da GNR em Estremoz, apanhando desprevenido o comandante de secção João Branco Batista. Forçado a admitir que não lera o texto em causa e que desconhecia que Estremoz andava nas bocas do mundo há vários dias, o oficial desforra-se.
Dirige-se ao Rossio da vila e ainda encontra o reverendo Martins. Convoca-o de imediato para prestar declarações. No dia seguinte, escuta os outros interlocutores visados na notícia. No dia 29, está em condições de informar a sede, na Rua António Maria Cardoso, que os factos referidos por Valentim Alferes não oferecem contestação, embora seja impossível provar a identidade dos dois homens. Não houvera tempo para reacção e, quinze dias depois, a pista dos dois ingleses secara.
Nas páginas do semanário da vila (Brados do Alentejo), João Falcato, o director, aproveita a edição de 1 de Julho para dar uma bicada em Valentim Alferes, sugerindo que os dois diplomatas talvez estivessem «divertindo-se na Feira de Badajoz». É um tiro de pistola seca de Falcato, um escritor que mais tarde ingressará no Diário de Notícias, contando com a recomendação descarada de um conterrâneo que exercia funções de administrador na Caixa Geral de Depósitos. Entretanto, a PIDE, sem mais pistas, desinteressa-se da história e remove o reforço de fronteiras que promovera logo após a publicação da notícia.
O inquérito do posto da GNR enviado para a PIDE
(Arquivo Nacional da Torre do Tombo)

Valentim Alferes já entrara no radar da polícia política. Em 1950, o comandante da polícia de Évora transmitira para Lisboa uma informação devastadora, considerando-o uma «pessoa que não goza de grande reputação e consideração», com escasso «respeito pela verdade e pouco senso e reflexão». Dizia ainda o comandante João Duarte da Silveira que «o facto de o senhor Valentim Alferes ter já prestado colaboração no jornal Democracia do Sul, órgão oficial da oposição nesta cidade, leva a julgar que a sua intransigência política em favor do regime é relativa e talvez sujeita a oportunidades.»
A partir das eleições presidenciais de 1958, a sua proximidade com representantes da candidatura de Humberto Delgado suscita vários pedidos de informação. Alguns dissabores em tribunal com as forças vivas da região, que lhe colocam processos por difamação, sugerem igualmente uma personalidade difícil de manietar no colete de forças imposto pelo regime aos jornalistas. Republicano, «com tendências avançadas», como refere uma das denúncias, Valentim Alferes foi sobretudo um democrata. «Chegou a dizer em tribunal ao comandante da Região Militar de Évora: ‘Hoje, o senhor é comandante, mas um dia deixará de o ser. Eu serei sempre jornalista», conta o filho.
Em Estremoz, a vida volta lentamente ao normal. Dos dois ingleses (que não eram seguramente Guy Burgess e Donald McLean, pois sabe-se hoje que os espiões viajaram directamente de França para a União Soviética), nunca mais se soube nada. Em contrapartida, na primeira semana de Julho de 1951, a vila acorda com a notícia de que, seis anos depois, voltará a ter um posto da Polícia de Segurança Pública. Não fosse dar-se o caso de os espiões regressarem ao Águia de Ouro!
Valentim Alferes prosseguiu a sua carreira até à reforma. Já septuagenário, inscreveu-se no curso de Direito da Universidade de Lisboa por mero desejo de instrução. Faleceu no dia 12 de Agosto de 1990. Tinha 79 anos.


CRÓNICA PUBLICADA NA EDIÇÃO N.º 68 DA REVISTA “JORNALISMO E JORNALISTAS”, OUTUBRO/DEZEMBRO 2018, CLUBE DE JORNALISTAS, PP 42-47

terça-feira, janeiro 08, 2019

Do crime e da censura


Ah, era tudo tão lindo antigamente. Não havia crime. Havia ordem e respeito. Podia ler-se um jornal sem receio de ficar com medo de andar na rua.


Fundo Censura/SNI/ Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Fundo Carvalhão Duarte / Fundação Mário Soares
Dos arquivos da Censura:

«Desde há longa data se encontra muito recomendado que os jornais não devam publicar tais fotos [de criminosos]»

«O jornal de que V. Exa. é mui ilustre director [publicou uma notícia] revelando ter o assaltante apontado uma pistola, o que, por motivos óbvios, não era de divulgar.»

«Os relatos de crimes, em geral, e a publicidade de suicídios, actos de corrupção sexual, infanticídios e outras notícias que, pelo seu melindre moral, possam chocar a opinião pública e que ultimamente estavam entregues ao prudente arbítrio da imprensa, deverão passar a ser vistos com cuidado, eliminando-se os pormenores escabrosos, equívocos ou imorais que, pela natureza ou intenção, possam efectivamente ferir a sensibilidade e moralidade pública.»

segunda-feira, agosto 27, 2018

Os outros segredos de Fátima no Diário de Notícias

Como o jornalista António Valdemar agitou um perigoso vespeiro em 1967, num dos jornais do regime, e saiu ileso.

 
António Valdemar com o arcebispo de Coimbra

«As previsões da Virgem de Fátima», titulava o jornal em grandes parangonas. «Ao lê-las, o papa terá desmaiado.» A manchete do France Dimanche de 27 de Dezembro de 1966 não fugiu ao estilo sensacionalista que vigorava no semanário desde a sua fundação em 1946. Desta vez, porém, a notícia tocava num nervo sensível do regime português.
O ano de 1967 fora preparado cuidadosamente pela hierarquia eclesiástica portuguesa. Desde 1965 que o cónego António Antunes Borges, reitor do Santuário da Cova de Iria, preparava o ano do jubileu de Fátima, na esperança de o tornar o zénite das manifestações religiosas de massas. A visita do papa Paulo VI já fora confirmada para Maio e o cardeal patriarca Cerejeira entendia que nada poderia ofuscar a consagração do santuário. Em sucessivas conferências de imprensa, na segunda metade do ano de 1966, a hierarquia da Igreja foi promovendo eventos para confirmar Fátima como «o altar do mundo».
Lúcia, a sobrevivente dos três pastores que em 1917 tinham colocado Fátima no mapa, mantinha-se em silêncio. Há anos que o Diário de Notícias e vários órgãos da imprensa internacional procuravam captar algumas palavras de Lúcia, mas esta, remetida à reclusão no Convento do Carmelo, em Coimbra, era impedida de qualquer contacto com o exterior pela madre superior Maria de Cristo Freitas Branco. Ainda estavam bem presentes os escândalos produzidos pelo padre Agostinho Fuentes, que conversara com Lúcia em Agosto de 1955 e em Dezembro de 1957, e depois revelara ao mundo as suas palavras – reais ou fictícias.
Numa comunicação na Casa-Mãe das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Nossa Senhora de Guadalupe, em 1958, Fuentes alarmara os fiéis, revelando que Lúcia o alertara para o teor do terceiro segredo de Fátima – uma catástrofe global, que colocaria a humanidade no limiar da extinção. «Muitas nações desaparecerão da face da Terra e a Rússia será o instrumento do castigo, a não ser que todos nós, pela oração e pelo sacrifício, obtenhamos a conversão dessa pobre nação», repetiu Fuentes,
Os anos passaram e a catástrofe não se processou, mas ficou a semente do sensacionalismo. Numa entrevista que ficou célebre em Janeiro de 1960, Cerejeira afiançara a João Coito que não conhecia o último segredo de Fátima, aproveitando para informar que o fiel depositário das confissões fora o falecido bispo de Leiria, D. José Correia da Silva, que as lacrara e remetera para o Vaticano sem as copiar. Não existia portanto forma de conhecer as palavras proféticas de Lúcia e a hierarquia eclesiástica portuguesa decidiu não retomar o tema.
Agora, pela pena do jornalista François Laffrey, o semanário francês aproveitava, na última semana de 1966, para especular sobre o destino da carta que Lúcia escrevera em 1942 narrando as suas recordações de 1917 e listando o último segredo que a Virgem lhe teria confiado. Nada disto, claro, teria ressonância em Portugal, pois a PIDE proibiu a circulação do France Dimanche, a exemplo do que já se fizera em 1954 e 1960, com outras manchetes embaraçosas.
Poucos leitores portugueses teriam acesso ao France Dimanche, mas Augusto de Castro, director do Diário de Notícias, entendeu que a notícia francesa poderia obscurecer as comemorações do Santuário e decidiu desmontar a bomba. O DN procuraria os interlocutores capazes de debater o assunto com conhecimento de causa.
Entram em cena o jornalista António Valdemar e o fotógrafo Jaime Santos.
Ilustração de António Miguel Alves

EM COIMBRA E EM LEIRIA
Nos primeiros dias de Janeiro de 1967, Augusto de Castro encarrega António Valdemar de entrevistar o arcebispo-bispo-conde de Coimbra, D. Ernesto Sena de Oliveira, e o bispo de Leiria, D. João Pereira Venâncio. Por sua iniciativa, Valdemar estende o leque de possíveis entrevistados à própria Lúcia, remetendo para a madre um longo questionário, onde misturava habilmente questões do foro íntimo («Experimentou alguma emoção especial quando viu o mar? Gosta de ler poesia? O que sentiria se visse um dos prédios altos de Lisboa?») com questões mais relevantes sobre a institucionalização do Santuário no local exacto da Cova de Iria onde se processaram os acontecimentos de 1917.
A madre entendeu não ser oportuno colocar Lúcia perante um jornalista. «Lúcia tem de ser defendida da permanente curiosidade que a envolve», completou o arcebispo de Coimbra. Em contrapartida, D. Ernesto aceitava o repto e submetia-se às perguntas. Era um homem curioso. Familiar próximo do poeta Herberto Hélder, conhecera Augusto de Castro na Exposição do Mundo Português de 1940 – ele na qualidade de arcebispo de Mitilene e representante do patriarca, o jornalista como comissário da exposição. «No anedotário de Coimbra, era conhecido como o ABCDE», ironiza Valdemar, que a seguir descodifica: Arcebispo-Bispo-Conde-Dom-Ernesto.
«Lá fui para Coimbra com uma carta de recomendação muito cordial de Augusto de Castro», conta Valdemar na sua casa de Carcavelos. «Pensávamos que D. Ernesto poderia abrir uma janela de oportunidade para falarmos com Lúcia, mas tal não foi possível.»
Na entrevista (que viria a ser publicada com destaque de primeira página no dia 14 de Janeiro de 1967), D. Ernesto mostrou-se muito expansivo. À frente do jornalista, recapitulou desmentidos e esclarecimentos. Fez questão de dizer que Lúcia não estava autorizada pelo Vaticano a falar desde 1955. Para além de recusar liminarmente o espectro de qualquer catástrofe celestial, o arcebispo dava a entender que a religiosa de Fátima se tornara um problema. «Na entrevista, sugeria igualmente que ele próprio demorara a convencer-se da veracidade das descrições de 1917», conta Valdemar. «Era material explosivo para a época porque a Igreja evitava pormenores sobre o assunto depois das desmontagens de Tomás da Fonseca.». A investigação sobre o que sucedera na Cova de Iria cessara, mas o France Dimanche obrigara a cúpula eclesiástica a remexer no assunto.
Em Leiria, o jornalista entrevistou uma das personalidades ligadas à construção do fenómeno de Fátima, D. João Pereira Venâncio, o sucessor do bispo de Leiria falecido em 1957 e tido como depositário das mensagens de Lúcia. Como Luís Filipe Torgal documentou em O Sol Bailou ao Meio-Dia, esse prelado de Leiria fora um dos principais promotores da excepcionalidade do santuário português, tecendo regularmente comparações com o que vira em Lourdes.
A entrevista com o bispo de Leiria foi o pretexto para uma provocação erudita do jornalista do DN. «No corpo da reportagem, ao apresentar o edifício do Paço Episcopal, fiz alusão explícita ao frontão com as estátuas de Ceres, Mercúrio e Minerva, que são símbolos da maçonaria. O Paço estava instalado na antiga propriedade de um maçon e muito provavelmente velho local de reunião das lojas do Grande Oriente», conta, com um sorriso. «A referência só foi descodificada, com grande escândalo, depois da publicação.»
D. João Pereira Venâncio recapitulou todas os aspectos já conhecidos da confissão de Lúcia, desde o momento em que fora escrita em 1942, em Tui. Mais lacónico do que o seu colega de Coimbra, assegurou que a carta fora entregue a D. Manuel Maria Ferreira da Silva, o superior da Sociedade Missionária de Cucujães e um dos declarados confessores de Lúcia. Este, por sua vez, entregara o documento ao antigo bispo de Leiria, que o encerrou dentro de outro envelope e o lacrou à frente de testemunhas. Remetê-lo-ia depois para o Vaticano, competindo então à Santa Sé a decisão de o divulgar se entendesse.
«A entrevista possibilitou-me um título de primeira página muito feliz, escrito a meias com o João Coito: ‘A Luz Não Vem de Leiria e Só o Vaticano Poderá Levantar o Véu Deste Mistério.’», conta Valdemar. «Trabalhei os dois textos e entreguei-os directamente a Augusto de Castro, pois já estava escaldado com outros episódios em que João Coito, para evitar chatices, suprimia os textos incómodos, como sucedera com uma crónica minha sobre a falsa morte do subdirector da PIDE, na edição do centenário do jornal.»
A controversa edição do France Dimanche

A VIDA SINUOSA DE CASTRO
Mesmo os opositores políticos reconheciam a qualidade da escrita e o fulgor literário de Augusto de Castro. Entre 1919 e 1924, Castro dirigiu os destinos do Diário de Notícias e modernizou-o. Perante as conturbações políticas, procurou refugiar-se num posto diplomático, colocando Eduardo Schwalbach no seu lugar do DN, admitindo a hipótese de regressar quando entendesse. Foi nomeado para a legação portuguesa de Londres em 1924. Resistiu aos sobressaltos da mudança de regime e das revoluções que se seguiram como diplomata nas legações do Vaticano (de 1924 a 1929), de Bruxelas (de 1929 a 1931), de Roma (de 1931 a 1935) e novamente de Bruxelas (entre 1935 e 1938). Na capital belga, seria passado subitamente à disponibilidade depois de chegar a Lisboa uma denúncia sobre as actividades do genro, apoiante dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, e um escândalo sexual que envolveu a filha Cândida. Em simultâneo, como documentou Clara Isabel Serrano em Arte de Falar e Arte de Estar Calado: Augusto de Castro – Jornalismo e Diplomacia, o jornalista Vítor Falcão conhecia bem o caso e tinha em seu poder cartas de Augusto de Castro pouco abonatórias sobre Salazar e o Estado Novo. Essa circunstância chegou também ao Palácio das Necessidades.
Regressado a Lisboa, Castro esforçou-se ostensivamente por manifestar lealdade ao Estado Novo, até porque a PIDE dispunha de informações comprometedoras sobre a sua vida privada. Ofereceu préstimos ao Diário de Lisboa, onde o director e fundador Joaquim Manso polidamente o rechaçou. A Norberto Lopes, Manso, antigo padre, confidenciaria: «Disse-lhe que não tínhamos lugares vagos porque, ao fim de dois meses aqui, não sei quem seria o director – se eu ou ele. Para alguma coisa me serviu ter sido padre.»
Castro procurou então, junto de um administrador da Empresa Nacional de Publicidade, o interlocutor adequado para relançar a sua carreira jornalística. Com suporte financeiro, fundou A Noite, que iniciou o elogio do salazarismo. Recrutou Artur Maciel para chefe da redacção e Tomé Vieira para redactor. Ambos acompanhá-lo-iam mais tarde noutros voos. Ocupou o lugar de comissário da Exposição do Mundo Português com a condição de exercer simultaneamente o seu lugar no DN, o que lhe permitia todos os elogios ao governo e à Situação. Dirigiu o jornal de 1939 a 1945. Terminada a guerra e, perante as provas de dedicação, conseguiu de Salazar a nomeação para a legação de Portugal em Paris, junto do governo de De Gaulle. Em Agosto de 1947, a morte de Eduardo Schwalbach permitiu o regresso definitivo à direcção do jornal.
Versátil e pragmático, o director do DN tornou-se um incondicional apologista do salazarismo. Ligando-o a Júlio Dantas, outra figura comprometida com o regime, o escritor António Lobo Antunes, em Os Cus de Judas, definiu-os lapidarmente: «Criaturas quitinosas, a bichanarem em sofás Império, dramas históricos bordados no ponto cruz de diálogos de tremoço.» Parece curto, porém, para definir um dos editorialistas mais retumbantes do século XX, um homem que Clara Isabel Serrano, que lhe dedicou uma dissertação de doutoramento, definiu com mais rigor: «Terá abdicado das suas convicções políticas (se de facto as tinha) para estar de acordo com as ideologias triunfantes do seu tempo e, assim, reunir as condições necessárias para a sua sobrevivência, enquanto jornalista, diplomata e homem público.»
Franco Nogueira, na biografia que dedicou a Salazar, conta aliás vários episódios sobre a cumplicidade entre o ditador e o director do Diário de Notícias. Numa das circunstâncias relatadas, foi o próprio Salazar a sugerir tema e data de publicação de um fundo editorial no DN, recomendações que Augusto de Castro prontamente seguiu.
Intelectual de grande tarimba, rodear-se-ia no jornal da Avenida da Liberdade de uma cúpula de profissionais acomodatícios como Aprígio Mafra, Urbano Rodrigues, Armando Boaventura, Mário Pires, João Ameal (seu sobrinho), João Coito, Luiz Teixeira (biógrafo de Salazar) ou Ayala Monteiro que mantiveram o Diário de Notícias alinhado com o regime nas décadas seguintes. Escolheu amizades e criou inimigos – com Marcello Caetano manteve uma inimizade eterna, nunca lhe concedendo “a honra” (muito requisitada) de publicar um artigo de fundo no jornal.
Na imprensa, encontrou igualmente opositores ferozes. Vítor Falcão, que lhe conhecia bem os deslizes diplomáticos em Bruxelas, foi silenciado com uma mesada vitalícia do Diário de Notícias. Rocha Júnior, que vira a carreira travada por Schwalbach, nunca contou com Castro para recuperar os cargos perdidos e, em troca, não perdia uma oportunidade de o humilhar em termos culturais e políticos. Certa ocasião, a propósito de uma homenagem a Camilo Castelo Branco em São Miguel de Seide, o director do DN solicitou a Rocha Júnior que lhe fizesse a revisão do discurso, reconhecendo que o interlocutor era uma das autoridades camilianas. «Com o lápis, o Rocha emendou aquilo tudo», conta António Valdemar. «Surpreendido com o volume de emendas, Augusto de Castro ainda perguntou se eram tudo disparates camilianos. Implacável, o Rocha retorquiu: ‘Camilianos e de português. Fiz as emendas a lápis para as poder apagar e escrever de novo. Assim não se envergonha em frente dos tipógrafos!’ E Castro acatou todas as emendas.»
Uma curiosa primeira página de O Século Ilustrado, Abril 1938.
Augusto de Castro apresenta a filha Cândida a Leopoldo II, rei dos Belgas. Semanas depois, o ministro português em Bruxelas seria forçado a demitir-se.

CAPAZ DE TODAS AS VERSATILIDADES
Augusto de Castro reconhecia a cultura acima da média de António Valdemar, designando-o para determinado tipo de missões especiais como as entrevistas de Fátima de 1967. Matreiro, Valdemar detectava igualmente os pontos fracos do director: «Certa vez, morreu uma irmã dele, que estava completamente gagá – dona Maria de Castro. O João Coito mandou-me escrever a notícia apesar de eu ter tido pouco antes uma complicação com a senhora no jornal, porque ela pedira-me para lhe ir buscar um galão à cantina, coisa que obviamente não fiz. Mas lá redigi a notícia para o director gostar. Sem saber muito sobre ela, elogiei as preclaras virtudes da senhora, uma das últimas testemunhas da casa da Rua dos Navegantes de seu tio José Luciano de Castro, chefe do Partido Progressista, ministro de várias pastas e conselheiro. Ali convivera com grandes figuras e conseguia reconstituir cenas, episódios, figuras de antanho com excepcional memória. Foi de tal maneira que, na igreja, no dia seguinte, Augusto de Castro abraçou-me e disse-me que eu lhe mostrara uma irmã que ele não conhecia!»
«Era um homem capaz de todas as versatilidades», reconhece hoje António Valdemar. Tal como pactuou com o regime e acumulou aquilo que hoje chamaríamos incompatibilidades com a profissão jornalística, Augusto de Castro teve gestos de solidariedade e orgulho profissional. Quem trabalhou no Diário de Notícias com ele gosta de lembrar que, durante a greve dos tipógrafos que se amotinaram no interior do jornal, a PIDE fora chamada por Fernando Moutinho, então engenheiro-chefe da empresa. Os agentes vigiavam a tipografia a partir do Hotel Excelsior nas traseiras do jornal, preparando-se para assaltar o edifício. Quase nonagenário, mas alertado por João Coito, Augusto de Castro interveio e garantiu ao chefe de brigada da polícia política que resolveria o assunto sem brutalidade – tal como sucedeu. «E havia também os pequenos gestos», lembra Valdemar.
«Certa vez, Pedro Teotónio Pereira organizou um jantar no Restaurante Tavares para celebrar uma viagem de Estado a Goa. Convidou os directores dos jornais. Estava também Tomé Vieira, chefe da redacção e que acompanhara o ministro na viagem. Vários redactores tinham a seu cargo a notícia do acontecimento. Eis senão quando mandam-nos sair da sala e esperar na rua até começarem os discursos. Eu já estava a meio das escadas quando o chefe de sala me avisou que Castro tinha um recado para mim: mandou-me e ao fotógrafo Raul Nascimento jantarmos no rés-do-chão sem restrições e remetermos a conta para o jornal. Disse ainda para não escrever mais do que uma legenda. Parece que o estou a ouvir: ‘Num serviço em que está o director e o jornalista do DN e não há lugar na mesa para esse jornalista, também não há notícia.’»

A RÁBULA PARA AMARRAR O ARCEBISPO
Velha raposa, com mais de cinco décadas de jornalismo, Augusto de Castro abriu a boca de espanto depois de ler a entrevista com o arcebispo de Coimbra. O texto era explosivo, pois revelava cepticismo do arcebispo e demarcação perante Fátima. «Pensou logo que daria um sarilho enorme, como de facto deu», conta Valdemar. «Por isso, decidiu que a entrevista não iria à Censura nem passaria por qualquer restrição prévia. Disse-me: ‘Se for apertado por Salazar ou Cerejeira, quero uma prova de que D. Ernesto tomou conhecimento, pois, se ele renegasse as afirmações após publicação, a culpa recairia por completo sobre mim.’»
Castro conhecia bem as manhas políticas e tinha experiência própria de histórias renegadas pelos entrevistados. Lembrou-se então de como resolvera a entrevista mais controversa da sua carreira. Em Setembro de 1922, entrevistara o rei de Espanha Afonso XIII, numa das residências deste em Miramar, San Sebastian. Numa conversa que se prolongara por duas horas, o director do Diário de Notícias ouviu as insólitas afirmações do rei, que até admitiu soluções inesperadas como a ligação das duas redes ferroviárias ou o apoio financeiro da banca espanhola à economia portuguesa.
Receoso de que, após publicação, o rei pudesse recuar, escreveu de imediato a entrevista e, no dia seguinte, pediu a Afonso XIII que a lesse: «Sua Majestade, faça o favor de ler e verificar se está de acordo. Se estiver, rubrique página a página.» Fora um golpe genial para que ninguém o pudesse desmentir mais tarde.
«A situação agora era mais complicada», lembra Valdemar. Um pedido prévio de rubrica sugeriria ao arcebispo de Coimbra que talvez tivesse falado de mais e levá-lo-ia a suspender a entrevista. «Foi então que me lembrei de um pequeno truque: avisaria o arcebispo de que as fotografias não tinham resultado, pelo que seria necessário repeti-las.» Jaime Santos foi incumbido de fotografar também o momento em que o arcebispo lia as provas da entrevista ao Diário de Notícias. «Teria de ficar visível que se tratava da nossa conversa. Ficaríamos assim com um documento que garantia inequivocamente que o entrevistado vira as provas da conversa.»
Pouco dado a elogios fáceis, Augusto de Castro olhou para António Valdemar e comentou: «Você foi seminarista? Se tivesse feito o seminário, teria sido um génio!» O procedimento resultou e Castro guardou no cofre as provas fotográficas da revisão. Na histórica Leitaria Irlandesa, Valdemar submeteu ainda o texto à revisão de mestre Rocha Júnior, procedimento a que também Aquilino e Ferreira de Castro costumavam recorrer. «Prezava muito a opinião dele e era um revisor notável. Sugeriu que mudasse dois ou três pormenores e avançámos. A entrevista foi um sucesso, mas gerou muitas críticas na conferência episcopal por reavivar pormenores de um assunto encerrado. Houve gente que não gostou nada que eu tivesse tocado no tema.» Semanas depois, a residência de António Valdemar na Rua do Monte Olivete foi assaltada. Nenhum objecto foi furtado, mas a casa foi toda remexida. No processo que a PIDE manteve em nome do jornalista, acusado falsamente de tendências comunistas, consta a referência ao assalto e a notícia publicada sobre este…
A publicação no Diário de Notícias da entrevista que revelou o sinuoso percurso da confissão de Lúcia.

MISSÃO SECRETA NO BRASIL
A visita papal de 1967 transmitiu ao mundo imagens de comoção religiosa em Portugal. O papa viajou de Roma para a Base de Monte Real e António Valdemar integrou a equipa que esteve em Fátima, entrevistando aí o cardeal-legado D. José da Costa Nunes e o próprio papa Paulo VI. A fotografia de Valdemar no encontro de intelectuais com o papa faria a primeira página do jornal.
No ano seguinte, António Valdemar foi o enviado-especial do DN ao Brasil durante a visita do cardeal Cerejeira a São Paulo e ao Rio de Janeiro para tomar posse na Academia Brasileira das Letras. Integrado na comitiva, o jornalista do DN levava cartas de recomendação de velhos republicanos, como Nuno Simões e Dias Amado com destino à oposição democrática no Brasil e uma carta especial de Álvaro Salema para Sarmento Pimentel. As circunstâncias deste correio improvisado estão documentadas em correspondência de Edgar Rodrigues para o velho anarquista Alexandre Vieira (na Fundação Mário Soares) e por Sarmento Pimentel no livro Sarmento Pimentel ou uma Geração Traída: Diálogos com o Capitão Sarmento Pimentel. Foi aliás através de Valdemar que Pimentel tomou conhecimento do fim trágico de António Sérgio. O velho combatente telefonou depois para o Rio de Janeiro, certificando a Roberto das Neves e a outros democratas cariocas a idoneidade do mensageiro. «Em São Paulo, a polícia revistou-me o quarto do hotel, provavelmente na sequência de uma denúncia, mas já não encontrou nada. Nem folhetos, nem mensagens», conta o jornalista açoriano.
Em Fevereiro de 1968, António Valdemar começara a trabalhar também em A Capital e, na Primavera desse ano, deixou o DN e prosseguiu a sua notável carreira também na delegação de Lisboa de O Primeiro de Janeiro, onde trabalhou até o jornal portuense sair da órbita da família Pinto de Azevedo. Completou 80 anos em 2018 e está a preparar alguns volumes de memórias.
Augusto de Castro foi o mais duradouro director da história do Diário de Notícias, permanecendo no cargo até à sua morte macabra, em 24 de Julho de 1971, num quarto do Hotel Palácio no Estoril. Ali fez jus ao que Miguel Urbano Rodrigues disse dele em O Tempo e o Espaço em que Vivi: «Era um mulherengo militante.» Tinha 88 anos e foi um dos raros portugueses que mereceu obituário no The New York Times.


CRÓNICA PUBLICADA NA EDIÇÃO N.º 67 DA REVISTA JORNALISMO E JORNALISTAS, CLUBE DE JORNALISTAS, JULHO/SETEMBRO 2018, PP. 48-53