domingo, novembro 19, 2017

Quando o Ié-Ié Faz Plonk ou os Dias de Ouro de MEC

Arquivo da Biblioteca Nacional

Parece difícil acreditar para quem o lê agora, discorrendo como o Borda de Água sobre os pêssegos rosa de Colares e o moinho de café que tritura dois grãos por minuto para não perder o sabor ou as torradas de marmelada da Dona Preciosa, mas houve mesmo uma altura em que o MEC tinha muita graça. Não se escrevia nada assim em Portugal. Com graça, provocação e ritmo.
Esta crónica foi publicada em 1982 em O Jornal, o primeiro semanário que deu a Miguel Esteves Cardoso a oportunidade de escrever. Seguir-se-ia o Expresso e, mais tarde, O Independente.

«De como o Ié-Ié portugués faz ‘plonk!’ em vez de ‘pop!’», Abril de 1982, O Jornal

sábado, novembro 18, 2017

Corrêa dos Santos, um fotógrafo de todas as eras


Está finalmente disponível o número mais recente da "Jornalismo e Jornalistas" (#65). Ali recupero, em seis páginas, as aventuras da carreira de Fernando Correa Dos Santos, o mais persistente repórter fotográfico no activo.
Deixo aqui um excerto:
«A grande diva do teatro português «consumia-se ali, quieta e serena, na aflição verdadeira de uma grande mágoa», escrevem os repórteres do Diário Popular na madrugada do dia 2 de Dezembro de 1964. Batem as duas horas da madrugada e a noite mostra-se «molhada e triste, recortada em luz mortiça na velha Praça Dom Pedro IV, atenciosa e dormente (…), com um fundo distante mas sem perspectiva, plasmado num borrão escuro no negrume que tudo nivela». Em primeiro plano, porém, um clarão imenso queima a primeira sala de espectáculos do país.
Ninguém ousa aproximar-se de Amélia Rey Colaço. «Todos, conhecidos e desconhecidos, respeitam aquela amargura (…) de uma ‘representação’ única», continuam os jornalistas. Tantas vezes chamada para dar corpo e voz a tragédias, a actriz e muitas outras vêem arder nesta noite infernal o “seu” Teatro Nacional Dona Maria II, «a casa de Garrett», como lhe chamará o jornal desse dia. Para bombeiros, polícias, espectadores e transeuntes, a ocasião exige respeito, comoção, até lágrimas. A silhueta de Amélia Rey Colaço recortada, olhando, em desespero silencioso, para a ruína ardente de cinco décadas de trabalho, torna-se emblemática da tragédia lisboeta. Para Fernando Corrêa dos Santos, esta é uma oportunidade de ouro – afinal, na gíria cruel dos jornais, uma tragédia é bem-vinda para a primeira página.»

Revista integral disponível aqui.

sexta-feira, setembro 08, 2017

Notas soltas sobre a biografia do ano


Declaração de interesses: dá-se o caso de conhecer biógrafo e biografado da obra que pretendo recensear. A ambos devo algumas gentilezas. Dá-se ainda o caso de a obra sair com a mesma chancela que editou o meu último livro, tendo sido trabalhada por gente de quem muito gosto. Há portanto aqui um gigantesco conflito de interesses, à portuguesa. Mas cá vão, mesmo assim, as minhas impressões, sujeitas ao escrutínio de quem me lê.

Uma biografia não autorizada retira sobre o autor o espartilho que o biografado certamente gostaria de colocar sobre a obra da sua vida. Mesmo um jornalista liberal como Francisco Pinto Balsemão tem compreensíveis reservas sobre as áreas da sua vida que deveriam ser preservadas e seguramente que o patrão da Impresa não subscreve todas as páginas de Francisco Pinto Balsemão (Planeta, 2017), o livro que Joaquim Vieira agora publicou.
É inegável, porém, que o biografado colaborou parcial ou integralmente na obra, fornecendo acesso a arquivos restritos e fotografias. Os processos PIDE em seu nome na Torre do Tombo foram consultados com autorização do visado – confirmei-o no próprio ANTT. A troca de SMS em Agosto de 2015 entre Balsemão e Nuno Vasconcellos, nos quais o patrão da Ongoing se desculpa perante o tio afectivo (pg. 549) só podem ter partido de uma pessoa. Deixemos portanto cair a postura de virgem ofendida e avaliemos o livro pelo padrão pelo qual ele deve ser julgado – a biografia tolerada da personagem mais complexa do jornalismo português de 1963 ao ano da graça de 2017.
Não quer isto dizer que os capítulos mais íntimos não provoquem estranheza, para não dizer repulsa ocasional. A biografia entra a fundo, de catana na mão, nos amores e desamores do biografado, explorando com minúcia a vida de terceiros, expondo, remexendo feridas velhas até elas soltarem pus. Nas suas primeiras memórias (Confissões de um Director de Jornal, Dom Quixote, 2003, pg. 159), José António Saraiva diz de Joaquim Vieira que se trata de «um enigma. Não é um homem frontal – mas, ao mesmo tempo, é capaz de dizer as coisas mais terríveis a uma pessoa e fazer as perguntas mais embaraçosas como se perguntasse: ‘Toma café?’.» Esta biografia comprova que Vieira retira também um certo gozo disso e algumas passagens (como o trecho sobre os meles no sofá do Expresso ou a opinião em segunda mão sobre a devoção do patrão às pernas das senhoras (pg. 41)) são supérfluas, para não dizer grosseiras.
A biografia, porém, não se encerra nisso, como a recensão apressada (e triste) de Rosa Pedroso Lima parece sugerir. Aliás, percebe-se na segunda metade da obra que as zonas nevrálgicas dos divórcios e do processo de paternidade jogarão um papel importante em decisões políticas futuras de Balsemão, que terá até receado o uso destes processos contra si caso avançasse para uma candidatura presidencial. Só por isso estão justificadas. Como Saraiva também escreveu: «Vieira assume-se como um missionário da informação. Nunca recusou qualquer serviço, mesmo arriscado» (opus cit, ibidem)
Vieira escavou até às profundezas da Terra para obter informação. Explorou arquivos menosprezados e decantou-os como um alquimista veterano, embora lhe falte algum critério na selecção da pertinência da informação. Não é particularmente útil apurar se o aluno de liceu Balsemão poliu o seu registo académico para efeitos propagandísticos, mas Vieira explora  o tema com deleite.
Fiel ao legado da sua carreira, falou com toda a gente (todos mesmo, repito, com as excepções ruidosas de Marcelo e Cavaco). Articula os depoimentos com mestria, cruzando-os com documentos e outros textos de época. Explora contradições, obtém panorâmicas detalhadas. A par de Cunhal e Soares, Balsemão torna-se, com esta obra, uma das personalidades políticas do século XX em Portugal mais bem estudadas e isso não é um elogio menor.
Os episódios de fundação da AD em 1974, da criação do Expresso um ano antes ou os meses de governo pós-Camarate são reconstituídos até ao mais ínfimo pormenor e constituem versões inatacáveis desses momentos históricos, até porque reúnem, pela primeira vez, os contributos de quase todos os agentes políticos envolvidos. O livro, terá a Rosa paciência, torna-se a fonte de referência do futuro sobre a história do Expresso, da AD até 1983 e do governo português de 1980 a 1983 – curiosamente, a fundação da SIC, embora narrada com o mesmo ritmo e profusão de fontes, dá saltos temporais pouco compreensíveis.
Há testemunhos irrepetíveis como os de Miguel Veiga e Baptista-Bastos (entretanto falecidos) ou de Ramalho Eanes (que quase nunca abre excepções para comentar o seu percurso) e conversas francas (mesmo francas) com Freitas, Mota Amaral, Santana Lopes ou José Alfaia.
Como seria de esperar, há testemunhos de personalidades reconciliadas com a vida – o fair-play de Saraiva, depois de tantos livros de alfinetadas, fica-lhe bem, tal como é muito curioso ouvir agora Ângelo Correia ou Freitas do Amaral admitirem as repercussões duradouras das medidas tomadas pelo governo de Balsemão. Em contrapartida, há gente que faz pouco esforço para esconder afrontas (reais ou imaginadas) com 30 anos.
Confesso que esperava o registo ressentido de Vicente Jorge Silva, mas não estava à espera de tanto fel (v. pg. 84, 245-247, 307-398). Não fica bem, não se engole nem bate certo com o que se sabe da biografia de ambos. Mais do que Marcelo, Vicente parece obcecado em matar o pai que lhe deu a mão no Diário Popular quando o Comércio do Funchal foi travado.
Mesmo com a pesquisa exaustiva de Vieira, há falhas e problemas insolúveis no trabalho. Ao abordar fases em que foi igualmente actor (como director-adjunto do Expresso, como possível director da informação da SIC ou no peculiar episódio que levou à sua saída do Expresso), o historiador tem dificuldade em emergir e separar-se do actor. Um dos diálogos com Saraiva deixa até transparecer o desconforto de colocar frente a frente o director que sugeriu à administração a demissão do adjunto («tu depois tiveste aquela coisa de acrescentar», diz-lhe Saraiva com notório desconforto, na pg. 465). E nós, leitores, assistimos.
Em episódios pontuais, Vieira (escrupulosamente meticuloso na referência das fontes) deixa igualmente no ar insinuações incomportáveis, como no depoimento de Alexandre Patrício Gouveia sobre Camarate, que faz um ataque virulento ao patrão da Impresa («a hipótese teórica é que o Balsemão, no dia do atentado, já sabia que estava em preparação a operação da CIA», pg. 460). Na crise da Impresa de 2008 a 2012 e no choque com a Ongoing em 2014 e 2015, abundam fontes anónimas – compreensíveis, naturalmente, mas que dificultam o apuramento da validade de cada afirmação.
Embora poucos, há erros factuais na biografia, sobretudo no capítulo sobre o Diário Popular, porventura o menos bem sucedido. Ignora-se o processo de fundação do jornal em 1942, fortemente apoiado por Caetano apesar das reticências de Salazar (ver a esse propósito Salazar-Caetano, Cartas Secretas 1932-1968, 1993, pg. 145, 154-159, 187, 219, 280-282), bem como a tentativa de assimilação pelo Diário de Notícias uma década depois, que levará um membro da nova administração a entrar nas instalações do jornal de pistola na mão. E, para minha tristeza, subestima-se o papel de Brás Medeiros, um dos dois pilares da evolução que levará o jornal aos píncaros no final da década de sessenta e ao recorde mítico de tiragens na imprensa portuguesa.
A participação de Balsemão no jornal não foi vendida na «Primavera de 1971» (pg. 121), mas sim em 2 de Fevereiro e noticiada dois dias depois. Aliás, no dia em que a notícia dos novos corpos sociais da Sociedade Industrial de Imprensa vê a luz, Balsemão já partira em viagem para Macau para desanuviar a mente.
Não é igualmente verdade (e aí o erro parte do testemunho de Maria Antónia Palla, pg. 79) que Palla, Margarida Silva Dias e Maria Armanda Passos tenham sido directamente admitidas no âmbito do concurso organizado em Abril e Maio de 1966 pelo administrador para contratar jornalistas. Como escreveram Fernando Correia e Carla Baptista em obra negligenciada pelo autor (Jornalistas: Do Ofício à Profissão, 2006, pg. 411-415), o concurso levou à admissão dos quatro primeiros classificados — Botelho Tomé, José Manuel Teixeira, Silas de Oliveira e Fernando Correia – prevendo-se que, mais tarde «os seguintes melhores classificados pudessem também, eventualmente, vir a ser convidados.» Como sucederia nos anos seguintes.
Por fim, não é igualmente verdade que Mário Bento Soares tenha sido o primeiro chefe civil da censura (pg. 189). José Fernando Quesado Pastor, Eduardo Homem, Guilherme Lourenço Pinheiro, António Neves Martinha e Rui Alvim precederam-no, como Joaquim Cardoso Gomes (Os Censores do 25 de Abril: o Pessoal Político da Censura à Imprensa, Jornalismo e Jornalistas, 57, pg. 21) já documentou.

Francisco Pinto Balsemão é um livro que, em reflexão e passada a fúria, o patrão da Impresa talvez subscreva. Faz-lhe justiça e humaniza-o. Sem coroas de louros ou auréolas santas. Só como um homem.

segunda-feira, agosto 28, 2017

Chicotes e jornais

A partir de microfilme da Biblioteca Nacional


Tricas entre homens dos jornais vêm de longe. 1883, Diário de Notícias. «Entrega-se na redacção do Diário da Manhã, a quem apresentar recibo assinado pelo Sr. Silva Graça, um chicote que esse senhor deixou nas mãos do Sr. Pinheiro Chagas.» Acabaria em duelo!

sexta-feira, agosto 25, 2017

quinta-feira, agosto 24, 2017

Assaltos a paióis noutras eras

Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Pasta PIDE/DGS, O Primeiro de Janeiro

Notícia simples de O Primeiro de Janeiro, de 15 linhas, sobre um leilão sem história. O dia é 2 de Outubro de 1971. A associação que promove o leilão é a Associação Recreativa Aurora da Liberdade, ainda existente e pujante em Matosinhos.
Em título, por falta de espaço ou malícia, escreve-se «ARA da Liberdade». Pelo sim pelo não, da delegação da DGS em Coimbra seguiu participação para Silva Pais: o jornal portuense replicara em título a sigla da ARA, Acção Revolucionária Armada.
O motivo?
No dia seguinte, o dia 3/10, a ARA assaltou o paiol da serra da Amoreira.
Seria código para iniciar a operação, pensou o diligente inspector Armindo Ferreira da Silva?

Não era.