sexta-feira, agosto 12, 2016

A ave e o jornalismo de proximidade

Fotografia de Luís Ferreira. Selvagens, Madeira.
Há uma dimensão poética nas missões solitárias como aquela a que o fotógrafo Luís Ferreira se dedica nos últimos cinco anos, tanto mais que ela foi abraçada sem qualquer garantia de publicação futura. Como nos filmes de aventuras, o Luís atirou-se primeiro para o vazio, na esperança de que, do lado de lá, existisse algum ponto de apoio. E existia.
Durante cinco anos, sempre que pôde, o fotógrafo trabalhou na maioria dos ilhéus e ilhas mais remotos do território português. Não haverá aliás muitos indivíduos que possam, como ele, gabar-se de já terem pisado as Desertas e as Selvagens, as Berlengas, o Corvo e o ilhéu de Vila Franca do Campo, bem como as maiores ilhas dos arquipélagos dos Açores e Madeira. Nada, no projecto, tinha dimensão turística ou idílica – como um pisteiro, o Luís perseguia uma ideia e não uma paisagem.
Publicamos, na edição de Agosto da revista, uma amostra reduzida do seu extraordinário trabalho fotográfico com as cagarras, uma das poucas aves que nidifica nos Açores, na Madeira e em Portugal Continental (se fizermos o jeitinho de considerarmos as Berlengas neste lote).
A cagarra não é um objecto de trabalho fácil, apesar de razoavelmente abundante nos contextos insulares. Os seus hábitos nocturnos dificultam a vida de quem precisa da luz como de pão para a boca. A exuberância dos seus comportamentos expressa-se sobretudo lá longe, no oceano, onde nenhum humano consegue acompanhar a extraordinária obstinação migratória da ave. E os comportamentos mais raros – aqueles que foram vistos por escassos peritos – têm lugar em curtos intervalos de tempo durante o ano.
Para enfrentar esta montanha de adversidades, o Luís contou com o apoio precioso da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), à qual a revista fica a dever mais um gentileza entre muitas outras. Os biólogos da SPEA concederam acesso total às suas operações, assim o Luís conseguisse acertar o seu relógio biológico pelo dos especialistas, que visitam ninhos à noite e fazem três rondas durante ciclos de 24 horas para pesagens e medições.
O resultado do projecto – ou melhor, uma amostra do projecto – pode ser consultado na edição de Agosto da National Geographic. Algumas das fotografias registam momentos que até à data ainda não tinham sido captados nesta espécie. A ciência, produzida pela SPEA em mais de uma década de trabalho com as áreas importantes para as aves no Atlântico Norte, é entusiasmante. E fica entretanto prometido um livro, co-assinado pelo Luís Ferreira e pelo Pedro Geraldes, onde toda a diversidade fotográfica captada em cinco anos no campo pode ser apreciada.
Com frequência, chegam à redacção da revista propostas ousadas de aventureiros dispostos a explorar os confins mais distantes do globo para relatar a história das suas vidas. O projecto fotográfico do Luís Ferreira acaba por sublinhar uma dimensão omnipresente naquilo que fazemos, enunciada em 1888 pelos fundadores da National Geographic Society: interessa-nos o mundo e tudo o que ele contém.
Com frequência, a história de uma vida pode estar mesmo ao virar da esquina. Basta encontrar uma narrativa que os outros queiram ouvir.

terça-feira, julho 26, 2016

A propósito do cabo Mondego

Há cerca de 15 anos, fui com a professora Maria Helena Paiva Henriques ao cabo Mondego. Estávamos então no início deste longo processo de aceitação do geomonumento português como estratótipo limite do Bajociano. Contou-me uma história deliciosa sobre a Presidência Aberta de Mário Soares na região.
Passeavam pela Figueira da Foz e a eminente geóloga confidenciou ao PR que não conseguia cativar os media para a importância científica daquele cabo. À tarde, Soares foi... Soares. À passagem por uma das elevações, trepou pela rocha como um gato e foi fotografado por toda a imprensa. Quando desceu, segredou à professora: “Amanhã, verá o cabo Mondego em todas as primeiras páginas de jornal.”

Hoje, tantos anos depois, a formação rochosa inserida no complexo mais amplo do cabo recebeu o Prego de Ouro, confirmando a classificação internacional de referência. Parabéns, professora Maria Helena Paiva Henriques!

sexta-feira, julho 01, 2016

Ruy de Castro como… Ruy de Castro


Nuno Pacheco dá hoje (no Público) a boa notícia: Chega de Saudade, a obra monumental de Ruy de Castro sobre a Bossa Nova, não será adaptada ao português europeu. Sai tal qual Castro escreveu — só quem sofreu com o aportuguesamento forçadíssimo de Carmen, outro volume incrível sobre Carmen Miranda, aprecia o gesto. Ruy de Castro é como os morangos: deve ser consumido tal qual sai da terra, sem açúcar ou chantilly.

domingo, junho 26, 2016

No deserto sarauí com os homens do mar

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO N.º 62 DA REVISTA JORNALISMO E JORNALISTAS, DO CLUBE DE JORNALISTAS, JANEIRO/JUNHO 2016, PP 52-61
Rui Ochôa e Miguel Reis em ilustração de Draftmen
22 horas do dia 4 de Junho de 1980. Um arrastão de bandeira portuguesa navega lentamente na costa ocidental africana. A maioria da tripulação já se deitou. No convés, permanecem o mestre Manuel Cadilhe e os pescadores António Pereira e Luís Moreira. Bebem cerveja e descontraem depois de um longo dia de pescaria.  Da escuridão, emerge uma luz ténue, produzida por um rápido bote pneumático. António Pereira ainda comenta: «Ó mestre, estão ali uns gajos!» Num ápice, porém, o bote galga a distância que o separa do Rio Vouga, a embarcação portuguesa de 25 metros, e quatro homens, em fato de mergulho «como homens-rã», abordam-na de armas em punho.
Repetem instruções em castelhano para os pescadores estremunhados: «Tranquilo! Salva tu vida!» Apontam para a luz forte de um holofote em terra, que Luís Pereira toma por um canhão apontado para o arrastão. Manietados, os 15 membros da tripulação não resistem excepto quando os forçam a abandonar o Rio Vouga. De bolsos cheios de escudos e pesetas, com apenas uma prestação paga dos 20 mil contos que custou o arrastão, o mestre Cadilhe esboça um protesto, mas é esbofeteado de imediato. Está consumado o rapto: o Rio Vouga e 15 pescadores portugueses de Olhão, Matosinhos, Murtosa e Praia da Mira estão agora nas mãos da Frente Polisário. Durante cerca de cinquenta dias, esta dezena e meia de pescadores, habituada à dureza do mar, permanecerá em terra, no deserto árido do Sul de Marrocos, enquanto se multiplicam as diligências diplomáticas.
Telegrama de Argel para Lisboa confirmando a identidade dos pescadores cativos
(Arquivo Histórico Diplomático)
A Frente Polisário é o braço armado da República Árabe Sarauí Democrática (RASD), que reivindica soberania sobre o Saara Ocidental, antigo Saara Espanhol, anexado por Marrocos em 1975. Nenhum país europeu reconhece em 1980 a RASD e, nos três anos anteriores, a Frente já aprisionara navios de pescas espanhóis nas “suas” águas, chamando a atenção da opinião pública internacional para o conflito em Marrocos. Nunca o fizera, porém, com alvos portugueses. Até Junho de 1980.
Empossado em Argel, António Menezes Cordeiro é um embaixador tarimbado e o incidente não o colhe de surpresa. Como se comprova pela consulta do correio diplomático entre Lisboa e a capital argelina no Arquivo Histórico-Diplomático, Cordeiro notificara o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) para a possibilidade de escaramuças, mas, como tantas vezes acontece, o aviso caiu em saco roto. No dia 22 de Maio, o embaixador enviara um telex para o MNE, notificando que o secretário-geral da Frente Polisário declarara que «o ano de 1980 será de escalada em todas as frentes da guerra contra o regime de Rabat». Ninguém o ouvira. E agora Lisboa tem um sarilho em mãos.
Telegrama do embaixador Menezes Cordeiro para Lisboa, 22 de Maio de 1980
(Arquivo Histórico Diplomático)
DOIS JORNALISTAS PARA LÁ DE TINDOUF
Quer nos canais diplomáticos, quer nas redacções, a notícia do aprisionamento deste barco de pesca que fazia a sua primeira viagem em direcção à Mauritânia demora a furar a agenda. Durante uma semana, o MNE desespera enquanto busca confirmação do local exacto da abordagem e da identidade dos raptores.
Entretanto, na delegação de Lisboa do Jornal de Notícias, Miguel Reis, um jovem jornalista formado em Direito, redactor da publicação nortenha desde 1970, coloca os seus contactos em marcha. Reis fizera um curso de especialização em Paris no prestigiado CFPJ, onde conhecera vários repórteres argelinos e marroquinos. «Tinha boas fontes na região e comecei logo a escrever as primeiras notícias sobre o caso com informação exclusiva», conta. Pouco depois, é desafiado por uma das fontes, bem infiltrada na rede sarauí da Argélia, a visitar a região e verificar in loco os bons tratos a que os pescadores estavam sujeitos. A proposta é transmitida a Frederico Martins Mendes, então chefe de redacção do jornal (falecido em Setembro de 2015) e acolhida com entusiasmo: «O Frederico tinha essa enorme qualidade», conta Miguel Reis. «Apresentávamos uma ideia, fazia duas ou três perguntas e dizia: ‘Se tens fé de que isso vai dar, avança!’ Dava liberdade aos repórteres.»
A Miguel Reis, junta-se o repórter fotográfico Rui Ochôa, um jornalista que começara por escrever crítica desportiva e cultural para o Diário de Notícias e para o Jornal de Notícias antes de se dedicar exclusivamente à fotografia nos meses quentes de 1975. «Foi o velho director Pacheco de Miranda que me aconselhou a optar por esta via», conta agora Ochôa. «Estávamos na fase dos saneamentos e ele avisou-me que não conseguiria salvar-me do despedimento se eu fosse redactor porque não estava vinculado a nenhum partido. Mas, se fosse fotógrafo, passaria incólume.» Assim foi e, tomado o gosto ao serviço do JN e do Expresso, Ochôa tornar-se-ia um dos repórteres fotográficos mais premiados das décadas de 1980 e 1990 em Portugal.
Entre 19 e 23 de Junho, os dois repórteres do JN e o embaixador Menezes Cordeiro viajam pelo deserto numa rota organizada pela Frente Polisário que aproveita a ocasião para propagandear o seu controlo real sobre o território sarauí. «Mostraram-nos tanques marroquinos destruídos, campos agrícolas, um edifício enorme repleto de costureiras», lembra Ochôa. «Queriam mostrar-nos que o seu controlo era real, que tinham um território e pessoas reais sob a sua alçada.»
No deserto, Rui Ochôa estranha a comida: «Sempre tive um estômago delicado, não como de tudo», explica. «Não tocava na comida que eles nos davam apesar de haver uma carrinha de caixa aberta com duas ou três cabras que serviam de ‘abastecimento alimentar’. Eles começaram a temer que eu adoecesse. Um dia, por volta das cinco horas da manhã, acordei com o som de disparos. Levantei-me estremunhado e vi que alguns dos tipos disparavam contra uma lebre do deserto para melhorar a minha dieta. Levaram o cuidado a esse extremo!»
A certa altura, os jornalistas barafustam com os seus interlocutores. Estão há dias no deserto, mas, dos pescadores portugueses, verdadeiro motivo da viagem, não há rasto. A viagem de regresso a Lisboa está agendada para o dia seguinte. Sem uma palavra, o membro da Frente Polisário pede que o sigam. Caminha para a tenda defronte da dos jornalistas e aponta para a entrada. «No interior, estavam os 15 pescadores portugueses. A meia dúzia de metros de nós, quando nos julgávamos a quilómetros de distância… Fizeram uma festa enorme quando nos viram. Deram-nos recados, abraços. Foi um momento muito emotivo», conta Ochôa, que documenta aqueles minutos, enviando as imagens posteriormente, a partir da embaixada em Argel. Semanas depois, as mesmas fotografias são expostas em Matosinhos, causando grande comoção familiar e ajudando a pressionar as forças políticas nacionais.
Telegrama do embaixador Menezes Cordeiro para Lisboa, 23 de Junho de 1980
(Arquivo Histórico Diplomático)
UM “FURO” DO JORNAL DE NOTÍCIAS
Miguel Reis e Rui Ochôa tinham furado pelo território argelino na altura certa. Com piores contactos, os jornalistas que se lhes seguiram já não penetram na região, até porque a resposta do JN fora muito rápida. «A maioria dos pescadores era oriunda dos concelhos de Aveiro e Matosinhos e o jornal levava a sério o seu compromisso com as comunidades do Norte», explica Miguel Reis. Mais tarde, após a libertação, o mestre Cadilhe dirá reconhecidamente que, «para o JN, tudo o que quiserem!»
Pescadores portugueses no deserto.
(Cortesia Rui Ochôa)
No regresso de Reis e Ochôa a Portugal, porém, a história parece congelada. O último rapto de uma embarcação espanhola durara mais de um ano e tudo indica que, não cedendo à exigência de reconhecimento oficial da RASD, o governo português dificilmente conseguirá negociar. Em Julho, porém, tudo muda. A imprensa sugere que um enviado informal do Conselho de Revolução (CR) deslocou-se à Argélia e, na reunião do CR do dia 9, o Presidente da República exige saber se algum membro do CR tomou acções por sua conta. As actas do CR sublinham que o general Franco Charais confessa ter juntado contactos úteis caso o seu apoio fosse pedido e que, na sua opinião, a libertação «seria uma operação fácil e rápida». Paira no ar a possibilidade de um acto aventureiro.
Com eleições presidenciais agendadas para Dezembro, Sá Carneiro, primeiro-ministro da coligação da Aliança Democrática, atribui ao advogado Luís Fontoura, responsável pelas Relações Internacionais do PSD, a missão de trazer de volta os 15 homens e encerrar o caso. Não são claras as indicações orais que Fontoura recebe do primeiro-ministro. Mais tarde, Freitas do Amaral, ministro dos Negócios Estrangeiros, acusá-lo-á de ter excedido o seu mandato, ao prometer à Frente Polisário o reconhecimento oficial português. Miguel Reis assegura que viu, na embaixada portuguesa de Argel, o telegrama pessoal do primeiro-ministro «autorizando Fontoura a reconhecer o novo estado». Infelizmente, por descuido ou… prudência, a pasta da correspondência entre Lisboa e Argel apresenta lacunas comprometedoras. Os telegramas 143 a 160 de Argel para Lisboa, enviados entre 24 de Junho e 2 de Julho e marcados como “Pessoais e Secretos”, não foram arquivados. O mesmo sucedeu no correio de Lisboa para Argel, pois o destino dos telegramas “Pessoais e Secretos” 69 a 82 permanece incerto, restabelecendo-se depois imaculadamente e sem mais excepções a transcrição das comunicações.
Fosse como fosse, Fontoura dirige-se para Tindouf, no Sul da Argélia, e daí para o território do Saara Ocidental. Convida Miguel Reis e Rui Ochôa a acompanhá-lo, até porque, como confidencia ao Conselho de Ministros, o jornalista do JN «sabe, sobre a posição dos sarauís, tanto ou mais do que eu». De férias no Algarve, Ochôa demora um dia a juntar-se ao grupo, viajando na data do seu aniversário. Uma vez mais, os restantes meios de comunicação falham a cobertura deste caso. «O mérito é do Miguel», sublinha Rui Ochôa. «Era o jornalista com melhores contactos e foram as notícias dele que ajudaram a manter o caso vivo na opinião pública.»
Repete-se de certo modo o contexto da primeira viagem. A Frente Polisário mostra ao diplomata o “seu” território, os hospitais e as fábricas. «Passámos mais alguns dias no deserto», lembra Ochôa. «Certo dia, vimos um poço natural e eu reparei que, no fundo, jazia uma grande ave morta. Mostrei-a a Luís Fontoura e comentámos em simultâneo: ‘Daquela água, não bebo eu!’» Horas depois, à torreira do Sol, os cantis repletos da água duvidosa são bebidos até à última gota.
O reencontro dos Land Rovers dos enviados portugueses com os pescadores é fortemente emotivo. Manuel Cadilhe chora durante dez minutos abraçado a Miguel Reis. «Senti que alguns não durariam mais uma semana aqui», balbucia o homem do mar. Fontoura faz um discurso numa tenda, durante um jantar de gala, referindo «a inquietação portuguesa perante a situação decorrente da persistência da ocupação militar dos territórios da RASD», declaração que enfurece o governo marroquino, pois equivale a um tímido reconhecimento. Os pescadores, porém, são libertados no dia 24 de Julho e transferidos por avião militar para Argel.
Primeira página do Jornal de Notícias, 25 de Julho de 1980
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
No dia seguinte, exaustos, de rosto tisnado pelo Sol e vestidos à maneira árabe após 51 dias de cativeiro, viajam para o aeroporto da Portela, onde um jovem funcionário do governo que mais tarde dará que falar, Pedro Santana Lopes, encaminha familiares e ex-cativos para os autocarros fretados para os regressos apoteóticos. Na televisão, Freitas do Amaral descose o novelo diplomático, sugerindo, em comunicado, que o discurso de Fontoura «excedeu em alguns pontos a orientação do governo». Fontoura comenta ao Expresso que o ministro não parece ter percebido que na RASD «não há fantasmas; há homens de carne e osso».
A inesquecível primeira página de 26 de Julho de 1980
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Os 15 pescadores voltam sãos e salvos a casa e retomam a actividade piscatória. Na implacável história trágico-marítima portuguesa, vários destes homens viriam a sucumbir em dois naufrágios posteriores – um no mar da Irlanda e outro quase na mesma zona do Atlântico onde, em 1980, tinham sido capturados. Por ironia cruel do destino, Miguel Reis, já afastado do jornalismo e exercendo advocacia, viria a defender os interesses legais da filha de uma das vítimas.
Rui Ochôa gosta de contar a aventura das duas viagens ao deserto africano. Não por vaidade ou por saudosismo, mas porque ela encerra uma dimensão perdida do jornalismo: «Queríamos contar a história daqueles homens, daqueles dias em cativeiro, daquele sofrimento. Os jornais esquecem-se hoje dessa verdade fundamental: são essas histórias que o público quer ler.»

OUTRAS HISTÓRIAS DO JORNALISMO PORTUGUÊS


[não incluídas em Parem as Máquinas, Parsifal, 2015]

segunda-feira, junho 13, 2016

A dinastia dos verrumas e o rei Dom Carlos no corpo de um general francês


Verruma.
Na cidade de Lisboa, neste feriado, dia 8 de Dezembro de 1886, a palavra parece circular na boca de todos. Nunca se falou tanto deste instrumento de ferro com a ponta em espiral, usado para abrir furos na madeira. Ferramenta de carpinteiro e de assaltante, a verruma tem hoje a sua consagração na cultura popular.
Cai uma chuva miúda, quase cacimba, quando os sinos das igrejas do Chiado assinalam as duas horas da tarde. Eduardo Schwalbach, 26 anos, redactor do Jornal do Comércio, passeia por Lisboa quase esquecido da partida que pregou dois dias antes no seu jornal.  «Alegre e despreocupado, ao virar da Rua Nova da Trindade para o Largo da Abegoaria [hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro], uma crespa ondulação de vozes mete-se-me nos ouvidos», contou nas suas memórias (À Lareira do Passado, 1944). «E ao pôr os pés no Largo surpreende-me um mar de cabeças ao alto, braços erguidos e goelas escancaradas que, do Chiado, extravasava para a Rua Serpa Pinto. A algazarra era ensurdecedora. ‘Verruma para aqui! Verruma para ali!’, em gritos que pareciam uivos, com palmas a estalarem, assobios a silvarem, garotos a imitarem foguetes, gaitinhas, um inferno», acrescentou.
Schwalbach começa a temer que a algazarra seja resultado da sua partida. Na madrugada do dia 6, a verruma parecera-lhe uma graça inofensiva, uma blague. Agora, assusta-se com as consequências. «Tenho medo de mim próprio. Como um assassino irresistivelmente atraído para junto do cadáver da sua vítima, meto ombros por entre a onda do povo e, açodado, ofegante, vou ter à Igreja dos Mártires. Um coupé de gala estava parado à porta. Pregada na traseira, uma enorme folha de papel branco com uma também enorme verruma pintada a preto.» Está desfeito o mistério.
Eduardo Schwalbach em 1944
(arquivo do autor)
O sisudo Jornal do Comércio, jornal de um banqueiro – o Conde de Burnay –, composto, respeitoso e respeitável, «com um aspecto de gravidade inerente ao Deve e ao Haver», participara numa farsa. É provável que tenha sido o mais divertido empastelamento da história da imprensa portuguesa. Melhor ainda: ao contrário dos outros, foi propositado!

EMPASTELAMENTO DO GRANEL
O empastelamento era o pesadelo do redactor-paginador, o jornalista que, nos velhos tempos da composição a chumbo, tinha a missão de desenhar a configuração das notícias em cada página do jornal, calculando espaços e condensando tipos para arrumar os materiais. Por vezes, as linhas do granel misturavam-se, produzindo como resultado indesejado trechos de texto sem sentido, pois as notícias aglomeravam inadvertidamente fragmentos de outras peças.
Durante muito tempo, na tipografia do Diário de Notícias, esteve afixado um dos exemplos mais divertidos de empastelamento da imprensa lusófona, produzido em 1908 num jornal regional do Brasil, a Gazeta de São João Baptista. Noticiava-se a partida para o Rio de Janeiro de um médico muito estimado em Goiás. A notícia seguinte no alinhamento do jornal dava conta de uma feira de suinicultura e de um porco de dimensões generosas. Por lapso, houve empastelamento e o texto impresso ficou:
«Parte hoje para o Rio de Janeiro, onde demorar-se-á alguns meses, o nosso querido amigo, dr. José da Silva Mattos.
É um dos melhores exemplos de suínos que temos visto, attingindo o seu peso, caso entre nós nunca visto, a 168 kilogrammos.
Os seus numerosos amigos, querendo demonstrar quão sensível lhes será a ausência do estimado clínico que vae remetido para a Exposição Nacional onde certamente ganhará um dos prémios destinados a animais do ceva, demonstrando os cuidados que dispensava com sua carinhosa presença aos seus enfermos, attendendo a qualquer hora do dia ou da noite os chamados por maior que enche de orgulho os criadores goyanos certos de que esse representante da zootechina do município na Capital attestará o adiantamento de operoso clínico que deixa fundas saudades entre nós com sua retirada, felizmente não longa.
Teremos a maior satisfação e prazer em vê-lo esquartejado, vendido a peso o seu toucinho, dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»
Arquivo da Biblioteca Nacional do Brasil
Deixemos Fernando Pires, um dos jornalistas mais experientes nesta tarefa, explicar a arte da composição a chumbo (em O Nosso DN. Memória do Tempo, 2014) e o risco do granel. No espaço actual da redacção do jornal na Avenida da Liberdade [pelo menos, até à próxima mudança de sede], funcionava a velha e gigantesca tipografia, com a Linotype, «uma estrutura de ferro, alta, que tinha no topo uma caixa com as matrizes de todos os caracteres e em baixo um teclado. A máquina substituíra o penoso processo manual de composição de que Alexandre Vieira, pioneiro do movimento operário português, fala admiravelmente em Em Volta da Minha Profissão (1950). A Linotype impôs-se nas tipografias dos jornais de Lisboa e do Porto a partir da segunda década do século XX. Vieira, velho tipógrafo, nota que, «como todas as maquinarias que anulam o trabalho de muitos braços – em proveito do industrial, claro – foram, por isso mesmo, recebidas ferozmente pela nossa gente, apesar de as maganas serem bem sedutoras».
        Avançamos novamente à boleia de Fernando Pires. O linotipista colocava o texto diante de si, numa gancheta que prendia o original, dactilografava-o, as matrizes correspondentes caíam e eram recolhidas por um braço metálico, onde ficavam suspensas. O linotipista confirmava, na face exterior da matriz, pelos caracteres gravados, se tudo estava correcto, ajustava a linha, se necessário, preenchendo eventual espaço com matrizes brancas, isto é, sem qualquer caractere e accionava uma alavanca que conduzia o braço com as matrizes para uma caldeira de chumbo ao lado, incorporada na máquina».
A caldeira fundia o chumbo e ejectava uma linha de chumbo com os caracteres em relevo para um tabuleiro. A operação repetia-se incessantemente. Quando o texto estava por fim composto, formava-se o granel, «atado com um cordel […] e levado ao prelo para obter uma prova», depois revista. A cada sessão de emendas, o linotipista compunha novas linhas que o redactor-paginador colocava no sítio certo da página.
Esse granel, por vezes, na confusão do fecho de cada edição e no frenesi da composição a chumbo, sofria adulterações. O exemplo do jornal brasileiro é um caso clássico de adulteração involuntária. Mas voltemos à nossa história.

O CASAMENTO E A VERRUMA
Schwalbach progredira rapidamente na carreira. Começara no Diário Ilustrado, acumulando funções no Correio da Manhã de Pinheiro de Chagas. Em 1886, zangado com Pedro Correia, director do Ilustrado, saiu abruptamente do jornal, mas não ficou inactivo por muito tempo. Cristóvão Aires, nome grande do jornalismo do século XIX, convenceu-o a aceitar um cargo no Jornal do Comércio. Para um boémio com pretensões literatas, era um aburguesamento. «O diabo fez-se ermitão», admitiu nas suas memórias. «Substituí o chapéu e a máscara de Arlequim pelo barrete de seda e os óculos de escriturário e segurei-me nos rails para não descarrilar.»
Na noite de 5 de Dezembro de 1886, cerca das onze horas da noite, entrou na redacção «uma das mais típicas e apregoadas figuras de Lisboa por seus ridículos e desplantes – o senhor Marcos Maria Fernandes». Glosado por Eça e Ramalho em As Farpas, Fernandes era o novo-rico típico da sociedade lisboeta. Proprietário de um atelier de modas na Travessa de Santa Justa, a Maison de France, vivia obcecado com a promoção social.
Anunciava todos os seus actos sociais nos jornais da época, com particular destaque para as personalidades políticas e teatrais que o acompanhavam. A filha, dona Cecília Fernandes, tornara-se a «bandeira das suas paspalhices». Cada exame escolar, cada ritual baptismal eram motivos para retratos e propaganda na imprensa diária. «Com o seu regador de vaidades, ia refrescando o canteiro em que haviam de florescer os seus descendentes: julgando criar-lhes uma luminosa auréola, talhava-lhes uma carapuça com guizos. Em todos os seus actos charlatanescos, provocava o riso que descia ao escárnio», conta Schwalbach.
Nessa noite, Marcos Maria Fernandes vem participar ao director do Jornal do Comércio o futuro casamento da sua filha. Traz a notícia pronta, com a tradicional lista de personalidades convidadas para a boda e distinguidas como padrinhos. Há ministros na lista de celebridades. O texto, como não poderia deixar de ser, era um exagero lírico, mas Cristóvão Aires recebe-o da mão do pai babado. A redacção, entretanto, vai-se esvaziando, à medida que os tipógrafos compõem a primeira prova da notícia. «À formiga, já tinham saído os mais: ficámos sós, eu e o Cristóvão.» O contínuo do jornal traz entretanto as provas dos últimos textos em falta – a participação do casamento e a informação de um assalto frustrado.
O texto do comendador Fernandes desperta gargalhadas nos dois jornalistas e o apelido do ministro Henrique de Macedo, padrinho da moça, desperta o génio do mal na mente de Eduardo Schwalbach. Afinal, o assaltante que entrara numa residência utilizando uma verruma também se chamava Macedo.
«Chassez le naturel, il revient au galop!», pensou o repórter.
- Ó Cristóvão, e se forjássemos uma troca de granéis!
O director hesita. Sorri, mas recusa. Nunca tal sucedera num jornal português.
- Mas diz-me: não podia dar-se isto na paginação?
- Lá isso, podia. Mas não, não. No Jornal do Comércio, não.
Face à persuasão continuada do repórter, o director acaba por transigir. Sai a rir da redacção enquanto adverte como Pilatos:
-       Faz o quiseres. O que fica entendido é isto: não sei de nada!
Com a alegria de uma criança, Eduardo Schwalbach forja o inadvertido empastelamento. Mistura as duas notícias, a ponto de, na 28.ª linha, «o ministro da Marinha, Henrique de Macedo, munido de uma verruma, lhe queria arrombar a porta. Apareceu a polícia que o prendeu e que refere, à parte do ocorrido, que esse sujeito tinha ideia de agredir com a verruma a pobre». Com toda a inocência, a notícia retoma depois o teor original.
Jornal do Comércio, 6 de Dezembro de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
No dia seguinte, véspera da boda, o bairro dos jornais entretém-se com a graça. A imprensa séria finge-se chocada com o engano, a verruma entra nas conversas do quotidiano. O comendador Marcos Maria Fernandes protesta veementemente e exige a cabeça do responsável. Encorajado pelo seu próprio êxito, o Jornal do Comércio publica uma errata, lamentando «o nosso paginador [que] fez-nos hoje coisas do arco da velha». Mais à frente, Schwalbach não resiste a mais uma alfinetada, associando novamente o enlace a um caso de polícia. A errata regista que «um colega da noite noticia que, para fazer o serviço da polícia no templo dos Mártires, foram requisitados 1 chefe de esquadra, 2 cabos e 10 guardas de polícia, além de 10 guardas para o serviço externo».
No semanário Pontos nos I, Bordalo Pinheiro pinta a manta e cria várias vinhetas com a nubente fugindo de verrumas.
Pontos nos I(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)
Eis-nos chegados então à Igreja dos Mártires no dia 8 de Dezembro e ao cortejo nupcial que parece travestido de marcha carnavalesca. Crianças em cabriolas acompanham o coupé dos noivos apontando para desenhos de verrumas e soltando gritos de sátira. O comendador Marcos Maria Fernandes não levará certamente o relato deste casamento aos jornais da cidade. Schwalbach cai em si: «Com o coração em chaga e o cérebro em fogo pelo mal que causara àquela pobre menina, pálida como um cadáver (…), entre soluços, arrependido, enxaguei as lágrimas que me escaldavam as faces.»
Schwalbach aprendera que, mesmo um empastelamento propositado, tinha consequências. No seu caso, «sob a opressão de uma profunda mágoa, irreflectidamente fundei a dinastia dos Verrumas» – o único caso que conheço de um granel trocado de propósito num jornal.

O REI NO CORPO DE UM FRANCÊS
Passaram três anos. Schwalbach já saiu do Jornal do Comércio. José Luciano de Castro levou-o para o Correio da Noite, de onde saiu com estrondo após uma controvérsia com o prior da Lapa. Fundou em 22 de Abril de 1889, com Urbano de Castro, o jornal A Tarde, com o capital de dois mil e quatrocentos reis na algibeira. Desde o primeiro número, a dupla inova no jornal: «Prometemos ao público dar gravura do acontecimento, sempre que este seja de vulto. Para isso, fora as nossas gravuras em madeira, chamámos em nosso auxílio Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, cuja reputação artística não carece do nosso reclame (…) Outros desenhadores notáveis nos ajudarão nesta tarefa», promete-se logo na primeira edição.
A morte de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias (em Maio), serve de ensaio para a nova aposta em gravuras, mas o verdadeiro teste virá depois. Em 15 de Novembro, um tenebroso incêndio no Chiado marca a inovação de A Tarde. Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro corre para a janela do consultório médico do seu tio, na Rua Ivens. Dali, desenha incessantemente. O gravurista espanhol Francisco Pastor transforma o croquis num instantâneo da tragédia. É um êxito em Lisboa. A tiragem chega a 20 mil exemplares e assusta O Século, que propõe a junção dos dois títulos, rapidamente recusada.
Exemplo das gravuras/croquis de A Tarde, 11 de Novembro de 1889
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Semanas antes, aquando da morte do rei Dom Luís em Outubro, A Tarde conseguira também organizar um suplemento com gravuras do rei moribundo. Francisco Pastor não demora mais de três horas a transformar os croquis em gravuras. «A gravura do acontecimento, rápida e precisa, inaugura-a A Tarde e com ela conquista toda a aura popular», gaba-se Schwalbach.
O jornal vende-se bem e coloca novos desafios aos seus mentores. Em Dezembro de 1889, Dom Carlos será coroado e o jornal quer fazer novo brilharete. «Eu barafustava, arrepelava a imaginação a pensar na forma de arranjar outro suplemento com um grande retrato, de todo desconhecido, do novo monarca», conta.
A meditação leva o jornalista a passear pelas ruas da cidade. Vê numa tabacaria um exemplar da Illustration Française, revista de culto no século XIX graças à profusão de imagens e tratamento gráfico cuidado. Na primeira página, a publicação francesa traz um aparatoso retrato do general Boulanger a cavalo. «Lampeja-me no cérebro uma ideia maravilhosa», conta Schwalbach. «Compro a Ilustração, mando chamar o Pastor e digo-lhe ‘O meu amigo substitui neste retrato do Boulanger a cabeça dele pela cabeça de Dom Carlos, põe-lhe um capacete e veste-lhe uma farda nossa, de generalíssimo. E aqui temos um retrato de Dom Carlos a cavalo, que ele nunca tirou!’»
O gravurista espanhol demonstra toda a sua competência na empreitada. Inverte a posição do cavalo para dificultar o reconhecimento da figura. Monta a face do novo rei no boneco. A 27 de Dezembro, o jornal anuncia para o dia seguinte «a gravura de 0,32 de altura por 0,30 de largura, representando El-Rei Dom Carlos fardado de generalíssimo, a cavalo, soberbo trabalho saído da casa Pastor». No dia 28, publica a imagem.
Boulanger (original) e Dom Carlos (montagem)
Arquivos do autor e da Illustration Française
«O suplemento vendeu-se como canela», conta Schwalbach. «Depois soube que o próprio rei Dom Carlos, ao vê-lo, admiradíssimo perguntou: ‘Mas como é que arranjaram um retrato meu que não tirei?’»
Terá sido a primeira manipulação de imagem da imprensa diária portuguesa envolvendo figuras de Estado.

EPÍLOGOS
A Tarde não sobreviveu muito tempo. No Ultimato de 1890, Urbano de Castro e Eduardo Schwalbach aceitaram um pedido do ministro Lopo Vaz e não atacaram os termos do pacto de Inglaterra com Portugal, termos esses que forçavam o reino português a pedir autorização da coroa inglesa antes de alienar qualquer colónia. No furacão popular que varreu a sociedade portuguesa com raiva e recriminações, A Tarde foi quase destruída. «Os seus exemplares foram arrancados das mãos dos vendedores e, com eles em pedaços, fizeram-se fogueiras no Rossio e na Praça de Camões», conta Schwalbach. Dois anos depois, em 1892, o jornal fundiu-se com a Gazeta de Portugal.
Schwalbach abraçaria então uma carreira teatral com muito sucesso. Várias peças da sua autoria foram encenadas no Teatro Nacional Dona Maria durante a monarquia e a República encontrou-o já como professor do Conservatório. Voltou ao jornalismo em 1924, como director do Diário de Notícias, após a nomeação de Augusto de Castro para um cargo diplomático no estrangeiro. Deveria ter sido uma nomeação temporária, mas Schwalbach manteve-se no cargo até 1939 e cumpriria ainda novo mandato entre Janeiro de 1945 e a data da sua morte. Apresentou-se sempre como um director a prazo, mas a verdade é que esse prazo dilatou-se extraordinariamente.
O fundador da dinastia dos Verrumas faleceu em 1946, aos 86 anos, em Lisboa. Quis o destino – e uma certa propensão para as grandes cenas teatrais – que falecesse no dia 8 de Dezembro, o mesmo dia em que, 60 anos antes, o casamento na Igreja dos Mártires em Lisboa decorrera sob o signo das verrumas por sua exclusiva responsabilidade.

OUTRAS HISTÓRIAS DO JORNALISMO PORTUGUÊS


[não incluídas em Parem as Máquinas, Parsifal, 2015]