Caríssimos,
Interrompo temporiamente a atenção dedicada ao blogue na próxima quinzena para preparar a defesa da tese de doutoramento. Prevejo novos textos a partir do dia 20 deste mês.
Até breve.
GP
ecosfera
Notas sobre jornalismo, ambiente, desenvolvimento sustentável e saúde em Portugal por Gonçalo Pereira, director da edição portuguesa da National Geographic. Blogue sem pretensões partidárias nem aspirações carreiristas. Presente na blogosfera desde 8 de Outubro de 2004.
Segunda-feira, Maio 06, 2013
Terça-feira, Abril 30, 2013
Duelo entre jornalistas pela sorte da monarquia
Naquele troço da estrada de São José de
Ribamar para Linda-a-Velha, nos arredores de Lisboa, praticamente não passa
ninguém a esta hora da tarde. São cerca de 15 horas deste dia 8 de Abril de
1883. É domingo e o sol primaveril convida ao descanso na zona saloia, mas, na
verdade, perscrutando o horizonte, distinguem-se alguns vultos. Estão vestidos
com trajes despropositadamente formais, de sobrecasaca e tons negros. São seis
homens, sincronicamente divididos em dois grupos de três. Os gestos são
teatrais e as palavras graves. Em breve, ao bater das 15 horas e 30 minutos,
nada mais se ouvirá para além do som metálico e repetitivo dos sabres
esbarrando um no outro e do resfolegar pesado dos dois combatentes. Nesta
estrada rural, resolve-se uma pendência de honra. Mas, invulgarmente, os dois
contendores são jornalistas.
À medida que os sabres rasgam o ar e os
dois homens de letras se esquivam às lâminas, é provável que repisem
mentalmente os motivos que os conduziram a este desfecho. De um lado, Manuel
Pinheiro Chagas, de 40 anos, monárquico convicto, escritor bem sucedido,
deputado em várias legislaturas e, na ocasião, director do “Diário da Manhã”
(desde 1876); do outro lado, Sebastião de Magalhães Lima, de 32 anos,
republicano não menos convicto, advogado, escritor, autor dos estatutos da
Associação dos Jornalistas de Lisboa e director-fundador do jornal “O
Seculo" (desde 1881). Por incrível que pareça, Magalhães Lima nada
escrevera que chocasse Pinheiro Chagas. A ofensa partira dos seus redactores
Silva Graça, Trigueiros de Martel e Alexandre Conceição, mas o director do
“Diário da Manhã” entendeu que lavaria a honra em duelo com o director da
publicação onde tais insultos tinham sido lavrados. Para cúmulo da ironia, o
confronto entre os dois homens nascera de um debate sobre… instrução pública.
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| Pinheiro Chagas (no topo); Magalhães Lima (em baixo). © wikipedia |
A ESCALADA
A controvérsia começara três semanas
antes, a 17 de Março de 1883, no Boletim Parlamentar de “O Seculo",
revisão polémica e acusatória da sessão de véspera da Assembleia. Em texto não
assinado, mas provavelmente de Silva Graça, o jornal republicano analisou as
intervenções dos deputados monárquicos Mariano de Carvalho e Pinheiro Chagas. O
tom do comentário não poupava na meiguice: “Em seguida, tivemos fala bonita do
sr. Pinheiro Chagas. Este ilustre canário de furta-côres, que foi regenerador,
avilista e constituinte, e que hoje é regenerador constituinte, fez novo
requerimento ao rei – para este lhe dar posto ou pasta. Como o Sr. Arriaga
[Manuel de Arriaga, futuro presidente da República e então deputado republicano]
disse que a monarquia constitucional, em 50 anos, apenas nos deu uma instrução
pública para haver ainda hoje mais de três milhões de analfabetos, canário de
furta-côres botou-se a gritar, com grandes entonações teatrais, que devíamos
muito à dita monarquia (…)” A crónica continuava por mais uma coluna, lembrando
que, na véspera, o “Diário da Manhã” acusara os deputados republicanos de
esquecerem as convulsões por que então passava a república em França. E
terminava em tons verdadeiramente acesos: “Ora, amigo, deixe-se dessas coisas e
responda ao que lhe perguntamos – como vão os governichos da casa? Fontes
[Pereira de Melo, primeiro-ministro] continua a ser amigo e a patrulha a ser
servida? Isso é que se quer saber. Divagações não prestam.”
Tudo indica que Pinheiro Chagas não
respondeu ao primeiro golpe, mas, no dia seguinte, “O Seculo" voltou à
carga. Novamente no Boletim Parlamentar, Silva Graça comparava Manuel de
Arriaga a Pinheiro Chagas e acusava: “Pinheiro Chagas é uma bandeirola da
politica. Avilista, primeiro, regenerador, depois, constituinte em seguida, e
hoje é constituinte e regenerador. Homem sem convicções e sem fé, o seu
carácter foi sempre tão maleável como a sua barriga exigente (…) A resposta do
ilustre canário de furta-côres foi um deplorável estenderete, como não podia
deixar de ser. O homem berrou, berrou, berrou. A carneirada aplaudiu. Mas a
carneirada e preto-branco estavam desolados. O que Chagas não queria é que o
sr. Arriaga lhe chamasse leviano…”
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| A edição de "O Seculo" que começou a controvérsia. 17/03/1883 (recuperado a partir do microfilme do arquivo da Biblioteca Nacional) |
Desta vez, o jornal dirigido por Pinheiro
Chagas replicou. Nos dias seguintes, em artigos não assinados, zurziu nos
republicanos e nos seus jornais, procurando levá-los a admitir que o seu
projecto implicava uma revolução popular. “Que diabo de gente são vocês, seus
republicanos cor de rosa, seus revolucionários de água doce, que nem acreditam
na eficácia das nossas reformas nem na virtude das vossas revoluções? Querem
então que a monarquia lhes faça presente da república?” Em resposta ponderada,
em “O Seculo" do dia 28, Alexandre da Conceição retorquiu: “Tranquilize-se
o Diário da Manhã. Nós, acreditando piamente que a república não nos venha das
reformas do constitucionalismo nem das revoluções populares, também não
esperamos que o sr. Dom Luís [o rei, que reinaria até 1889] no-la outorgue.
Temos cá uma ideia a esse respeito, que é o nosso segredo.”
Na mesma edição, porém, Silva Graça não
se conteve e acrescentou brutalmente numa coluna entitulada “O Patrulheiro”:
“Preto-branco não quer levar e calar-se. Quer só fazer tranquibernias políticas
com liberdade. Pois, se ainda não sabe, fique sabendo que, quanto mais palrar, mais há-de levar – salvo se entrar na ordem. (…) Ao contrário de preto-branco, não
andamos a pescar nas águas turvas da política…”
Encantada com a lavagem de roupa suja,
Lisboa seguia avidamente a troca de insultos. Os dois jornais vendiam-se
rapidamente no centro da cidade e discutia-se em segredo em que momento
chegaria o ponto de não retorno. Em depoimento posterior, incluído no primeiro volume de "Episódios da Minha Vida" (1928), Magalhães Lima
reconheceu aliás que não conseguiu parar a avalancha de comentários publicados
no seu jornal. A 29, Pinheiro Chagas acusou Silva Graça de socialista, de
comunista e de esconder a convulsão da França republicana e da América
espanhola para baixo do tapete. No dia 30, Silva Graça deu a estocada decisiva,
numa coluna intitulada “Chagas Mazella”. Escrevia então: “D. Saltimbanco das
Chagas Mazella houve por bem chamar-me nomes feios e fugir como um cobarde das
questões que lhe propus. Diz-me que há Silvas Graças em França. Respondo que,
na classe dos impudentes, ainda não encontrei senão Pinheiros Chagas. (…)
Perguntámos-lhe finalmente por quanto se vendeu aos regeneradores, se pela
posta de embaixador, como constou ao correspondente de O Primeiro de Janeiro,
se pela pasta de ministro da instrução pública, como disseram vários jornais
lisbonenses. Esta pergunta era tanto mais digna de resposta quanto o país anda
ansioso de saber qual a cotação que têm actualmente no mercado político os
homens da sua espécie. Pois a esse respeito D. Saltimbanco guardou completo
silêncio! Quer mais, amigo?”
As redacções fervilhavam de raiva.
Pinheiro Chagas disparou no “Diário da Manhã” contra os republicanos que
convivem com sanguinários franceses. Trigueiros de Martel ripostava se, do nome
Chagas, poderia retirar uma letra, “uma letra só… não ficava um lindo nome?”
Magalhães Lima achou que era de mais. No dia 1 de Abril, um domingo, o jornal
anunciou na primeira página que, em virtude do incidente entre Silva Graça e
Pinheiro Chagas, terminaria as discussões com aquele periódico. Mas já não foi
a tempo. Nesse mesmo dia 1 (em jornal infelizmente indisponível no arquivo da
Biblioteca Nacional), Pinheiro Chagas acusou Magalhães Lima de não conseguir
conter os seus cães de guarda e de fugir cobardemente à luta. A honra estava
ferida.
AS FORMALIDADES
Às dez horas da noite do dia 2, uma
segunda-feira, Manuel de Arriaga e José Elias Garcia reuniram-se com Pedro
Correia da Silva e António Manuel da Cunha Belém na qualidade de testemunhas
dos dois ofendidos. Rapidamente, chegaram à conclusão de que eram tantas as
“ponderações” de parte a parte que a questão só se resolveria pelas armas.
Marcaram nova reunião para o dia seguinte.
Às seis horas e trinta minutos do dia 3,
os mesmos personagens concluíram que o duelo seria ao sabre, regulado à sorte e
terminaria ao primeiro sangue. Agendaram a contenda para São José de Ribamar,
às 16 horas do dia 4. Por essa altura, metade da cidade tomara conhecimento,
incluindo o governo. Os duelos eram proibidos, embora fossem tolerados. Desta
vez, porém, Tomás Ribeiro, ministro do reino e amigo de Pinheiro Chagas, temeu
pela sorte de um dos duelistas. A raiva era tanta e as ofensas tão públicas que
a contenda terminaria por certo com uma lesão grave. O ministro deu ordem à
polícia para seguir os duelistas e as testemunhas, impedindo-os de se dirigirem
a Linda-a-Velha e autorizando o uso da força se necessário.
No dia 4, efectivamente, à hora marcada,
só estavam em Linda-a-Velha Manuel de Arriaga, Pinheiro Chagas e António Manuel
Belém. Elias Garcia demorou meia hora para despistar a polícia, mas também
chegou. Correia da Silva foi agredido pelas forças da ordem junto aos Jerónimos
e detido por uma noite. Magalhães Lima tentou despistar os polícias, entrando
na Rua dos Fanqueiros e subindo ao Hotel Pelicano, onde passou pela
mansarda do terceiro andar para a Rua da Madalena. Foi perseguido. Entrou numa
carruagem, ainda se deslocou até ao Largo de Santa Bárbara, mas o chefe
Ferreira, da polícia, deitou mão aos cavalos e a carruagem foi cercada. O duelo
estava comprometido.
Em Linda-a-Velha, num gesto de incrível
nobreza, Manuel de Arriaga prontificou-se a bater-se no lugar de Magalhães
Lima, se as testemunhas entendessem que não havia desaire ou ofensa ao nome do
seu amigo. Pinheiro Chagas recusou e todos abandonaram a zona rural tão feridos no orgulho como anteriormente.
No dia 5, emissários dos dois duelistas
visitaram o ministro Tomás Ribeiro e avisaram-no de que, ou a policia afrouxava
a vigilância, ou viajariam para uma região de fronteira para discutir a questão
pendente. O ministro aceitou por fim as condições e os duelistas agendaram a
refrega para a tarde do dia 8. Como mais tarde se escreveu, era um segredo de
polichinelo: todos em Lisboa sabiam a data e o local do famoso duelo.
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| "O Seculo", 10/04/1883, Publicação das actas que encerraram o caso (recuperado a partir do microfilme do arquivo da Biblioteca Nacional) |
O DUELO
O primeiro assalto durou cinco minutos e
não provocou danos. Enérgico, Pinheiro Chagas procurava aplicar as lições do
seu passado militar, que aliás levavam Eça de Queiroz a tratá-lo jocosamente
por “brigadeiro Chagas”. O sabre martelava na arma do adversário, mas a sua
miopia prejudicava-o.
Treinado diariamente pelo professor Cid,
sumidade da esgrima lisboeta, Magalhães Lima deixava o tempo correr,
defendendo-se e aguardando pela sua oportunidade.
Seguiu-se um novo assalto de três minutos
sem resultado e, no terceiro, aos dois minutos, o director de “O Seculo"
desferiu um golpe na mão direita do director de “O Diário da Manhã”. O médico
analisou o ferimento, mas, atendendo aos protestos de Chagas, não terminou o
duelo. Disputou-se assim um quarto assalto sem resultados palpáveis, findo o
qual os dois duelistas se abraçaram, trocaram palavras amáveis e consideraram
que não permanecia ódio ou rancor, estando a honra ilibada.
Ao contrário do que asseguram versões
posteriores sobre o acontecimento, nenhum vencedor emergiu do duelo. Numa
edição do “Correio da Manhã” de 1895 (o jornal que Pinheiro Chagas dirigiu
depois do “Diário da Manhã”) dedicada à morte do deputado monárquico, Magalhães
Lima contou: “Terminado o duelo, Pinheiro Chagas estendeu-me a mão e dirigiu-me
palavras afectuosas que guardo religiosamente no meu coração. À coragem e ao
denodo do homem físico, quis juntar a ombridade e a elevação do homem moral (…)
E, se por um lado, foi grande a minha mágoa por ter de me bater com um homem
que sempre me fora simpático e cujo talento me atraía irresistivelmente,
confesso, por outro lado, que me foi compensado esse desgosto por poder
acrescentar um novo título de glória a tantos outros que já admirava em
Pinheiro Chagas.”
EPÍLOGO
Este duelo inédito entre directores de
jornais ficou encerrado com a refrega de Linda-a-Velha. Daí para a frente, “O
Seculo" e “O Diário da Manhã” moderaram as suas palavras ao referirem-se
aos duelistas. Poucos meses depois, aliás, Pinheiro Chagas foi escolhido para
ministro, no lugar de José Barbosa du Bocage… tal como Silva Graça previra.
Morreria em 1895, e a monarquia só duraria mais quinze anos.
Magalhães Lima prosseguiu a sua batalha
verbal pela república e voltou ocasionalmente a bater-se em duelo, logo ele que
considerava bárbara esta forma de “debate”. Um ano depois destes
acontecimentos, em 1884, um comício no Funchal foi dispersado à bala pela
polícia. Sete apoiantes do Partido Republicano foram então mortos, levando
Magalhães Lima a redigir a sua coluna mais célebre. Intitulada “Bandidos
Célebres”, desafiou Dom Luís a bater-se com ele em duelo: “Eu não posso
bater-me com os lacaios de vossa majestade, mas se vossa majestade tem nas
veias o sangue quente dos seus avoengos, desça à rua e me encontrará um
adversário”. Foi naturalmente julgado e preso, cumprindo pena em Abril de 1885.
Viveu o suficiente para assistir à implantação da república, mas morreu já nos
alvores do Estado Novo, em 1928, com o seu sonho comprometido.
Como lembra Maria Rita Lino Garnel, uma
das suas biógrafas (em "A República de Sebastião de Magalhães Lima", de 2004), foi talvez a personagem oitocentista que melhor percebeu o
papel transformador da imprensa e o dirigente republicano, a par de Manuel de
Arriaga e Afonso Costa, que mais arriscou para ver concretizado o sonho em
1910.
Mesmo que isso implicasse pontualmente um
duelo de sabres com outro jornalista.
Outras histórias do jornalismo português:
Quarta-feira, Abril 17, 2013
Oito dias na vida do jornalista vagabundo
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| "Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930 (reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital) |
Seriam pouco
mais de nove horas desta noite fria e chuvosa de Inverno, quando Joaquim Vadio
interiorizou a sua nova situação. Nesta semana de Março de 1930, Joaquim não
tinha trabalho, abrigo, dinheiro ou comida. O mulato, mais um numa Lisboa com
gente de todos os cantos do império, vagueava por São Paulo, na zona baixa de
Lisboa, sem um propósito firme – mais um vagabundo miserável numa Lisboa de
vasta miséria, entre ilhas de luxo e glamour que se divertiam com as vitórias
no rugby e as festas elegantes, celebradas nas colunas de mundanidades dos
jornais.
Largando a
protecção do portal da Igreja de São Paulo, Joaquim enfrentou o frio,
encolhido, de mãos nos bolsos, com o estômago colado pela fome. Protegido por
uma boina coçada e uma camisa de ganga que resistira a muitos invernos,
procurava um rosto conhecido, sem se atrever a pedir esmola. “Cosido com a
parede”, foi avançando como um autómato até o som de notas musicais e
gargalhadas alegres o despertarem. Espreitou pela janela de um cabaret e observou os clientes, felizes, saciados,
reconfortados. “Num súbito rancor de homem que se sentia desapossado dos
direitos à ventura”, odiou instantaneamente toda aquela gente que se divertia,
alheia à miséria, indiferente a quem ainda não tinha jantado, nem sabia se,
naquela noite fria, teria abrigo que “não fosse um portal ou um vão de escada”.
No entanto,
Joaquim Vadio não era um vagabundo qualquer, nem estava propriamente à mercê do
destino e “dos primeiros latidos da fome”, como reclamava. Joaquim Vadio era um
repórter são-tomense e estava em missão. Chamava-se Mário Domingues (1899-1977)
e trabalhava para o “Notícias Ilustrado”, a revista de domingo do “Diário de
Notícias”. Aos 30 anos, Domingues tinha a tarimba de um veterano. Culto como
poucos, poliglota (aprendera francês com Marcel Meunier, famoso correspondente
do “Matin” em Lisboa e debicava inglês e alemão por influência dos marinheiros
que aportavam ao Café Royal), com espírito de aventura aprimorado na parceria
inesquecível formada com Reinaldo Ferreira (o famoso repórter X de que falarei
noutro dia), personificava um novo género jornalístico emergente nas
publicações portuguesas – a reportagem participante. E este trabalho seria a
sua coroa de glória.
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| "Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930 (reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital) |
PROJECTO SOCIAL
DOS JORNAIS
A miséria urbana
era há muito objecto de notícias nos jornais e revistas portugueses. Desde o
início do século XX que a imprensa republicana denunciava ardentemente as
condições desumanas em que se vivia em Lisboa e no Porto, incitando ao combate
ao desemprego e à doença. A implantação da República tardou em modificar estes
quadros de miséria humana, que chocavam os visitantes e envergonhavam os
locais. Nas duas primeiras décadas do século, as páginas dos periódicos
reflectiam o problema social, olhando-o do exterior, analisando-o,
dissecando-o, propondo causas e invectivando responsáveis, mas sem ousar passar
a fronteira da experiência directa. Espreitamos páginas da “Ilustração
Portuguesa”, revista semanal de “O Século”, sobre as comunidades urbanas e
pressentimos o desconforto de quem olha à distância, sentimento seguramente
partilhado pelos leitores que folheariam apressadamente a publicação ainda
elitista, suspirando por um mundo melhor.
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Miséria na Póvoa do Varzim, "Ilustração Portuguesa", 194, 1909
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
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O projecto de
Mário Domingues deverá ter começado em 1918, com uma farsa (entre tantas outras)
de Reinaldo Ferreira para o efémero jornal “A Manhã”. O jornalista vestiu-se
então de mendigo, foi fotografado a rigor, enganando durante a sessão alguns
transeuntes, que lhe deixaram esmolas. Reinaldo era entusiasta, mas não se
detinha no rigor factual (dizia-se, a certo ponto, que o R de Reinaldo valia
por “Realidade” e o F de Ferreira por “Fictícia”). Isolou-se durante três dias
e escreveu uma crónica pungente sobre a sua aventura como mendigo nas ruas da
cidade pobre, num texto tão expressivo e cativante como falso. Na verdade, o
futuro repórter X inventara praticamente toda a aventura, mas a sua reportagem
foi discutida nos principais fóruns da cidade. É provável que a semente da
ideia tenha perdurado no cérebro do amigo Mário Domingues, incitando-o a tentar
um projecto semelhante, mas jornalístico.
Domingues viria
a encontrar no cineasta e jornalista José Leitão de Barros o interlocutor
perfeito. Leitão de Barros dirigia então a revista do “Diário de Notícias”, à
qual imprimira um sentido estético e dramático muito diferente das publicações
concorrentes (é incomparável o seu investimento em fotografia, textos curtos e
dramáticos com, por exemplo, o “Domingo Ilustrado”, ainda dependente de
gravuras e fotos em pose). Neste ano de 1930, Leitão de Barros estreara o filme
“Lisboa”, num registo terno e romântico sobre as figuras de Lisboa (que “não
pretendia ser um documentário, mas sim uma crónica de aspectos particulares”,
garantia o autor numa carta ao “Diário de Lisboa” de 10 de Abril). Mas o cineasta
sabia que, para lá dos quadros típicos e estereotipados das varinas e das
aguadeiras, havia outra Lisboa. E que essa Lisboa, se bem representada, poderia
vender revistas, mesmo que fosse igualmente uma reconstituição artificial e
ideológica.
EM MISSÃO
Mário Domingues
passou oito dias sem retirar a máscara de vagabundo. Foi reconhecido uma vez no
porto de Lisboa por um amigo que, enternecido, se ofereceu para o ajudar a
endireitar a vida. Do ódio inicial face aos que se divertiam, a sua percepção
foi evoluindo para uma aceitação gradual do statu quo. Frequentou bares e tabernas. Relatou, com traços
realistas, a generosidade desinteressada dos lisboetas, mas também o alheamento
de quem passava por ele nas ruas e parecia não o ver. Conheceu ingleses e
galegos, coristas e taberneiros. Recebeu propostas de emprego e ofertas
desonestas. Foi aliciado com ofertas de emigração para o Brasil e para a
América, que ponderou, mas recusou em nome da sua paixão pela cidade.
Domingues
resistiu também à tentação de enquadrar o seu registo num quadro sobre o
racismo na cidade. As suas referências a africanos em dificuldades foram
cautelosas e não generalizaram o estereótipo. Aliás, todo o registo de
aventuras e desventuras obedeceu a um guião, expresso no último parágrafo da terceira
crónica, publicada no número 96, no final de Abril: “(…) esta Lisboa pobre,
pacata, mas que sabe, apesar de tudo, dispensar melhor do que as grandes
capitais do mundo alguns carinhos aos párias, aos que não possuem pão, nem
trabalho, nem abrigo”.
A miséria da
cidade, abrigada em barracas ou nas furnas de Monsanto, doente, faminta e
sobretudo dependente da caridade alheia, foi, de alguma forma, um objecto
distante na reportagem de Mário Domingues. Ela existe, mas não é reversível,
nem dissecada ao pormenor. No enquadramento que domina todo o texto,
adivinha-se a mensagem fundamental: a solução reside na entreajuda e nos golpes
de acaso, que podem mudar o destino, porque nada mais o fará, antecipando em
mais de uma década Tennessee Williams e a sua Blanche, vivendo sob a máxima
de que se pode sempre depender da bondade de um estranho.
Recebido o texto
e dividido por três edições, publicadas entre Março e Abril, Leitão de
Barros... retocou um pouco mais a realidade, aplicando-lhe preceitos
comerciais.
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| "Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930 (reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital) |
Na manchete do primeiro tomo, escreveu despudoradamente: “Nas Furnas de Monsanto! À Gandaia! I Sensacional Reportagem do Jornalista Vagabundo Mário Domingues, que passou oito dias e oito noites nos locais miseráveis de Lisboa, vivendo de esmolas e de roubos!” Em nenhum momento do texto, Domingues reconhecera ter roubado ou sequer infringido a lei, e as furnas de Lisboa praticamente não eram mencionadas. Na abertura do texto, introduziu-lhe a moral que faltava: “Para que saibam os da vida folgada e liberta, com abrigo certo, quanto é dura a existência dos que, nas grandes cidades, arrastam frios e fomes na luta pelo pão de cada dia.”
UMA CARREIRA
PROMISSORA
Sabe-se pouco
sobre a aceitação destes três textos entre os pares do jornalismo português. A
cumplicidade de Mário Domingues com Reinaldo Ferreira ou o registo de
envolvimento participante poderão ter prejudicado a credibilidade do seu relato
aos olhos dos companheiros de profissão mais tradicionalistas. A revista só
voltou ao tema mais uma vez, semanas mais tarde, ao reproduzir uma estranha
auto-entrevista de Mário Domingues a Joaquim Vadio, com ilustrações de Stuart
Carvalhais, ao longo da qual o jornalista anunciava a sua desistência do mundo
burguês e a sua adesão ao estilo de vida nómada dos “marginais de Lisboa”. Nos
jornais contemporâneos, em contrapartida, não encontrei referências à proeza,
nem sequelas do mesmo teor.
No “Diário de
Lisboa” de 12 de Abril, em texto não assinado, a miséria urbana voltou a ser
focada num registo “objectivo”, seguro, apontando causas da mendicidade e
sugerindo caminhos, mas sem ousar sentir na pele o que viviam os miseráveis de
Lisboa. O próprio Leitão de Barros dirigiria as edições seguintes da revista
para um registo mais informal, concentrando-se nas novidades do cinema e da
rádio portuguesas, suas paixões declaradas, e menos nas questões políticas e
sociais.
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| "Diário de Lisboa", 12 de Abril de 1930 (reproduzido a partir do arquivo da Fundação Mário Soares) |
Mário Domingues
foi quase de seguida convidado por Reinaldo Ferreira para dirigir o “Jornal do
Repórter X”, projecto pouco sustentado, que o são-tomense abandonaria
rapidamente. Em 1932, encontramo-lo numa publicação que mudaria a sua vida.
Dirigiu a revista “O Detective”, encontrando no registo da novela policial e no
contacto com as forças de segurança da cidade a matéria-prima para a carreira
que abraçaria de seguida.
Na verdade,
apesar de manter colaborações dispersas em jornais e de criar peças de teatro
(duas, por exemplo – “Má Raça” e “A Sombra do Passado” –, foram proibidas em
1938 pela Comissão de Censura por voltarem aos registos de crítica social e
denúncia da miséria, pouco interessantes para o regime), Mário Domingues
abraçou a carreira de escritor. Foi autor, nas décadas seguintes, de dezenas de
novelas policiais, vertendo para o papel a riqueza do contacto que absorvera na
relação com polícias e reclusos em “O Detective”. Cioso da importância do
estrangeiro nas indústrias culturais portuguesas, adoptou, como bem nota o
blogue Policiário de Bolso,
pseudónimos estrangeirados, uma prática que Dinis Machado também seguiria muito
mais tarde.
Espreite com
atenção a sua estante de livros mais antigos. É bem possível que ali encontre
obras de Fred Criswell, Henry Jackson, James Black, Joe Waterman, Marcel
Durand, Max Felton, Nelson MacKay, Peter O‘Brion, Thomas Birch ou W. Joelson.
Em comum entre estes prolíferos novelistas (e talvez outros de que ninguém
sabe), uma circunstância: todos foram obra da imaginação de Mário Domingues, o
jornalista nascido na Roça Infante Dom Henrique (na ilha de São Tomé), que
vivera na aldeia da Porcalhota na juventude, até se mudar com a avó e a irmã
mais velha para Lisboa, e que, um dia, abandonou a elite para viver durante oito
dias como vagabundo nos bairros pobres da cidade.
EPÍLOGO
Luís Dantas
escreveu, num e-book, a obra mais completa sobre Mário Domingues, reproduzindo
ali todo o texto publicado nos “Notícias Ilustrados” de 1930.
É através desta fonte que conhecemos mais duas facetas de Mário Domingues. Boa
parte do seu sustento nas décadas de 1930 e 1940 proveio das traduções de obras
estrangeiras. Mais tarde, o autor enveredou também pela biografia histórica,
assinando quase uma dezena de obras sobre personalidades da história
portuguesa, cuja relevância é discutível na medida em que expressam
documentação deficiente e liberdades criativas românticas, resultando em
exaltações e denúncias pouco credíveis de vários reinados portugueses.
Em 1959,
Domingues escreveu também um pequeno texto sobre o fecho do Café Royal, o seu
destino predilecto, em cujas mesas idealizara mil projectos com Reinaldo
Ferreira – a evocação (digitalizada aqui, página a página, pelo projecto Mosca da
Universidade de Évora)
vale como máquina do tempo para a Lisboa dos cafés e dos bares do início do
século. Em 1960, assinou a sua obra mais polémica, redigindo o “Menino Entre
Gigantes”, registo quase autobiográfico, no qual o tema do racismo aflora,
mesmo sob a vigilância da censura. Aos poucos, porém, o seu nome foi sendo
esquecido, tal como a memória da sua saga entre os miseráveis de Lisboa se foi
esfumando.
Socorro-me por
isso de um parágrafo das memórias de Luís Dantas para evocar este capítulo da
história do jornalismo que, se não tem outra validade, procura preservar o que
é efémero no mundo dos jornais: “Quando o conheci, por mero acaso, na redacção
do jornal O Século, não me percebi se o velho jornalista tinha desatinado.
Pareceu-me que andava por ali com olhar errante e coração fraquejado,
cumprimentando um ou outro colega com vénias para voltar a sair num choro
silencioso. Depois, agarrado ao bordão, retirava-se para as bandas da Ribeira
Nova, a São Paulo. Talvez fosse beber um bagaço e acender recordações de tempos
resplandecentes… E morreu assim, com essa mania, quase esquecido, em 1977.”
Outras histórias do jornalismo português:
Duelo entre jornalistas pela sorte da monarquia
Duelo entre jornalistas pela sorte da monarquia
Domingo, Abril 07, 2013
A notícia sobre o aeródromo que já existia, mas era secreto
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| "Diário Popular", 21/06/956 (reproduzido a partir de arquivo da Hemeroteca Digital) |
Ao regressar a casa naquele domingo, dia
24 de Setembro de 1944, o jornalista Marques Gastão estava exausto e ainda
incrédulo com o que lhe acontecera. Como qualquer repórter, já tinha vivido
situações em que, por descuido ou manipulação das fontes, publicara informação
incorrecta. Desta vez, porém, publicara informação correcta. E estava a ser
punido por isso.
A espiral parecia incontrolável.
Primeiro, o chefe de redacção Barradas de Oliveira fora admoestado por
telefone, na ausência de Manuel Múrias, o director, que estava em Espanha.
Depois, fora a chegada de funcionários da Censura à redacção do “Diário da Manhã”, na
Rua da Misericórdia, à sua procura. E, por fim, ficara a saber que o próprio
presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, tomara conhecimento do
caso e redigira uma nota clarificadora para o jornal, corrigindo a informação.
Enigmaticamente, Marques Gastão tinha
sido informado que o seu texto do dia 21 colocara em causa uma negociação
diplomática de longos meses com o país mais poderoso do planeta. Por mais que
lesse a sua notícia (não assinada) de coluna e meia, Marques Gastão não
conseguia perceber porquê. E, para os seus botões, amaldiçoava “o engenheiro”
que o tinha manipulado.
A NOTÍCIA
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| "Diário da Manhã", 21 de Setembro de 1944 (reproduzido a partir de microfilme do arquivo da Biblioteca Nacional) |
Encafuada na primeira página da edição de
21 de Setembro de 1944, entre títulos com bastante mais destaque, a notícia “A
Pan-American Vai Ampliar os Seus Serviços com a Utilização do Aeroporto da
Portela” parecia inofensiva. E, efectivamente, a maior parte do conteúdo era um
mero relato estatístico das empresas que começavam a utilizar o novo aeroporto
da Portela, acompanhando a evolução da aviação comercial que, aos poucos,
abandonava o paradigma do hidro-avião para assumir as virtudes do avião
terrestre.
Apesar da guerra, que entrava no seu
último ano, a aviação comercial trilhava já um novo caminho, encurtando
distâncias entre continentes e modificando para sempre a natureza do transporte
de pessoas, cargas e correio. A notícia de Marques Gastão citava o exemplo da
Pan American Airways que, apesar de ainda basear a sua operação em Lisboa no
aeroporto marítimo de Cabo Ruivo, intuía já essa transformação e começava a
pedir acesso a bases terrestres, como a Portela.
No quinto parágrafo, sem nunca referir a
fonte de informação, Marques Gastão escreveu: “É evidente que a realização dos
projectos a que aludimos não poderá dar-se senão, talvez, dentro de um ano,
pois a Pan American não tem ainda os aviões terrestres necessários que se
encontram ao serviço do exército americano, as instalações da Base de Santa Maria
dos Açores não estão ainda concluídas e as pistas só agora começaram a ser
ampliadas.”
Era este o parágrafo que fizera soar
alarmes na Presidência do Conselho, sobretudo por ter sido publicado no órgão
da União Nacional, partido único do regime, atribuindo assim carácter oficial a
uma informação sensível. Na verdade, sem o saber, o jornalista publicara duas
informações demasiado confidenciais: a ligação da Pan American ao exército
americano nunca fora tão directamente assumida nas notícias. E, sobretudo, em
Setembro de 1944, o aeródromo da ilha de Santa Maria constituía um segredo de
Estado.
O AERÓDROMO DE SANTA MARIA
Não tenho a pretensão de acrescentar
dados à investigação sobre a construção do aeródromo de Santa Maria (mais
tarde, aeroporto de Santa Maria). O corpo de conhecimento sobre o tema é
abundante, com publicações criteriosas por exemplo de Carlos Riley (aqui) ou Luís Nuno
Rodrigues e foi recentemente sintetizado num óptimo documentário da RTP2,
produzido pela Horizonte Filmes e realizado por Eberhard Schedl (v. “Santa
Maria Connection”, aqui). É aliás escudado nessas investigações que consigo contextualizar melhor o caso do “Diário da Manhã” nas negociações
entre os governos português e norte-americano para a utilização de uma base
aérea na ilha de Santa Maria.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a
importância dos Açores enquanto ponto de escala para a aviação militar foi
muito valorizada em Londres e em Washington. No documentário citado, sugere-se
mesmo que esse poderá ter sido um dos mais importantes factores que levaram os
Aliados a aceitar a neutralidade portuguesa.
Entre o final de 1943 e o início de 1944,
tornara-se óbvio em Lisboa que a guerra penderia para o lado anglófono e,
apesar da manutenção da neutralidade, o governo de Salazar aceitou a utilização
britânica (e, por inerência do acordo de guerra, norte-americana) de bases
militares em território português – sobretudo nas ilhas Terceira e em São
Miguel.
Luís Nuno Rodrigues documentou
exaustivamente o processo de negociação entre Salazar e o governo americano,
iniciado em 1943 e terminado em Novembro de 1944 (ler aqui). Sabe-se, por exemplo, que no
dia 30 de Maio de 1944, o telegrama n.º 296 expedido da Presidência do Conselho
para a embaixada portuguesa em Washington marcou um avanço decisivo. Através
deste documento confidencial, verifica-se que a embaixada receberia em breve
pedidos de visto de sete membros da missão de estudo para a constituição de um
aeródromo em Santa Maria. Esses membros viriam sob a fachada da Pan American,
mas estavam incumbidos pelo governo dos EUA de avaliar as condições de criação
de raiz de uma base que auxiliasse o esforço de guerra. Salazar mandou
transmitir que “o embaixador comunicará aqui nomes dentro alguns dias mas
vistos ficam desde já autorizados na conformidade do referido acima.” O sentido
de urgência do projecto era também transmitido pelo pedido de esclarecimento do
ditador quanto às condições em que a Pan American poderia realizar esse estudo
e em que datas o começaria. Segundo Luís Nuno Rodrigues, “o
chefe do governo respondeu que Portugal ‘não aceitava que um governo
estrangeiro custeasse despesas daquela natureza no seu território’”, preferindo
a ilusão de que o acordo para a utilização da base de Santa Maria seria
assinado com uma empresa e não com um governo estrangeiro.
Como lembra o futuro técnico de
aeronáutica Francisco Vitorino no documentário já referido, na ilha de Santa
Maria, em 1944, o transporte interno fazia-se de burro ou a cavalo. Havia
apenas dois carros no território, e duas embarcações – o Lima e o Carvalho Araújo – ligavam a ilha ao exterior uma vez por
mês. Seria para esta sociedade ainda rural que a comitiva se deslocaria no
Verão de 1944 (de 12 a 20 de Julho). No terreno, existia um aeródromo insípido,
construído pelo exército português, mas incapaz de dar resposta aos grande
aviões da Força Aérea americana.
Do escritório da Pan American em Lisboa,
na Rua do Comércio, emergiu mais uma peça importante: a delegação militar que
se deslocaria a Santa Maria viajaria com uniformes da Pan American,
contribuindo para o manto de ilusão comercial da operação. Sabemo-lo porque um
ofício de 18 de Julho de 1944 da Casa Branca para Salazar reafirmou a vontade
de o governo americano construir um aeródromo de raiz no local, lembrando aliás
que o relatório preliminar já fora aceite pelo governo português.
Nos dois meses seguintes, à medida que os
primeiros trabalhos avançavam na ilha, Salazar hesitou, talvez na expectativa
de notícias mais definitivas sobre a evolução da guerra: se os Aliados
garantissem a vitória, a cooperação com as autoridades americanas seria
decisiva para a aceitação das pretensões portuguesas sobre a possessão de
territórios ultramarinos; se o Eixo invertesse a derrota iminente, a decisão
teria constituído um erro colossal. De permeio, estava também a ocupação japonesa
de Timor e o futuro destino dessa colónia. Foi neste período decisivo de
reflexão que o “Diário da Manhã”, jornal oficial do partido único do regime,
escreveu a notícia, informando o público que a Pan American cedia aviões ao
exército americano e que já estava a trabalhar num aeródromo em Santa Maria.
No auge desta jogada de xadrez, que
vinculou o governo português ao acordo mais cedo do que o previsto, estava um
homem – o engenheiro Pedro Pinto Basto, principal rosto da Pan American em
Portugal e fonte de Marques Gastão na notícia em causa.
INCONFIDÊNCIA OU ESTRATÉGIA?
É difícil estimar a motivação de Pinto
Basto ao falar com o jornalista. Quer Marques Gastão, quer Barradas de Oliveira
produziram relatórios sobre o incidente para a Presidência do Conselho (v.
pasta do Arquivo Oliveira Salazar, PC 8D, Cx. 695, pt-1, folhas 397 à 407, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo),
datados de 23 e 24 de Setembro, que nos ajudam a perceber melhor o que se
passou.
Em pranto, Marques Gastão jurou pela
saúde da filha, à frente de Barradas de Oliveira e do engenheiro Pinto Basto,
que não cometera uma inconfidência voluntária, sobretudo porque até aquele dia
nada sabia sobre os planos da aviação militar ou comercial para os aeródromos
dos Açores. Limitara-se a seguir as pistas sobre o caso, que o levaram à
comissão administrativa do aeroporto da Portela, dali para a empresa Vacuum,
importante fornecedora de combustível em todos os aeródromos portugueses, e por
fim para a Pan American. Até aquele dia, nunca conhecera o engenheiro Pinto
Basto, nem tinha qualquer contacto com outras fontes da aviação.
Ao início da noite de sábado, dia 23,
Pinto Basto foi surpreendido em casa pela visita do chefe de redacção do
“Diário da Manhã” e colocado face a face com o repórter para impedir a
culpabilização de interlocutores não presentes. Mesmo assim, o engenheiro não
tremeu. Começou por sugerir, com ousadia, que os dois saíssem de sua casa, na Rua
do Sacramento à Lapa, n.º 11, pois nada tinha a dizer. Refugiou-se depois em
frases ambíguas, acusando o repórter de ter confundido “governo” com “exército”
americano e alegando nunca ter proferido o nome de Santa Maria, pois era
contrário à política da Pan American referir nomes de bases não confirmadas.
Marques Gastão indignou-se e fez questão de historiar, em três longas páginas,
todo o processo de produção da notícia, cuja fonte fora o responsável da Pan
American. Como sinal dos tempos, terminou a nota, referindo: “Se o soubesse
[que existiam planos para uma base em Santa Maria], nenhuma referência teria
feito, por todos os motivos e ainda porque sabia de antemão que a Censura a
cortaria imediatamente.”
É possível que a Pan American tenha decidido vincular publicamente o governo português ao acordo
através de uma inconfidência embaraçosa. Ou em alternativa terá sido um mero
descuido de uma fonte mais ansiosa. Fosse como fosse, o caso chegou à
presidência do Conselho. Do seu punho, com a tradicional caligrafia
impenetrável, Salazar redigiu no dia 22 de Setembro a súmula do
acontecimento, fornecendo publicamente a ilusão de que nenhum acordo fora
firmado:
“No artigo agora publicado ontem com a
epígrafe acima, passou por lapso uma referência ao campo de Santa Maria, quando
queríamos referir-nos ao campo de hangares na ilha Terceira. É esse campo que o
governo tenciona utilizar para as ligações aéreas entre o continente e o
arquipélago dos Açores e para a sua aviação comercial transatlântica. Por ele
poderão igualmente ser autorizados a passarem – e por outros hangares — com os quais o governo português tenha
acordos especiais para o efeito. A Pan American com os seus hidro-aviões utiliza
inclusivamente, como se sabe, desde o princípio da concessão de que é
beneficiária, o porto da Horta e em Lisboa as instalações de Cabo Ruivo.”
O “Diário da Manhã” apressou-se a
publicar o desmentido no dia 22, utilizando praticamente o texto do ditador,
mas a ilusão não surtiu efeito para os parceiros diplomáticos. No início de
Outubro, o governo português aceitou efectivamente a segunda fase de construção
e utilização da base, autorizada formalmente em Novembro. Pouco depois, ficou
concluída a pista prefabricada para uso militar, que substituiu a pista arcaica
portuguesa, e ali permaneceu em funções até Maio de 1945.
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| Anúncio da Pan American Airways no" Diário Popular" (Junho de 1956) (reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital) |
EPÍLOGO
O episódio não afectou decisivamente as
carreiras dos homens envolvidos. Marques Gastão ficou mais um ano no “Diário da
Manhã” e, em 1945, assumiu a direcção do gabinete de imprensa do novo aeroporto
da Portela até à década de 1960. Escreveu vários livros de memórias e
colectâneas de entrevistas que assinara como profissional do “Diário de
Lisboa”, do “Diário da Manhã” e de “O Seculo” – o mais famoso foi “Figuras do
Meu Tempo” (1961). Em largas centenas de páginas de recordações jornalísticas, nunca focou o caso de Santa Maria ou o nome de Pedro Pinto Basto. Culto, com mais de cinco dezenas de obras publicadas (entre contos, romances, ensaios e memórias), foi também chefe dos serviços de imprensa da
Fundação Calouste Gulbenkian. Faleceu em 1995, com 81 anos.
Barradas de Oliveira, pseudónimo de
Manuel Gomes, manteve a confiança em Marques Gastão. Em 1946, menos de dois
anos depois deste incidente, juntaram-se a Dutra Faria para criar a Agência de
Notícias e Informação (ANI), que manteria actividade até à Revolução de Abril.
Concentrou a sua produção literária em temas relacionados com as colónias
ultramarinas.
Manuel Múrias assegurou a direcção do
“Diário da Manhã” por mais doze anos, até 20 de Fevereiro de 1956. Foi então
substituído por José Manuel da Costa.
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| Revista de Marinha, 1939 |
Pedro Pinto Basto continuou a ser por
mais duas décadas o principal rosto da Pan American Airways em Portugal. A
empresa, que inaugurara as travessias transatlânticas para os Açores em 1939,
depois de seis anos de negociações com o governo português, continuou a ser o
mais importante transportador aéreo do arquipélago até à década de 1970,
momento em que a TAP, por fim, concentrou atenções nas regiões autónomas.
Curiosamente, em Junho de 1956, uma
notícia do “Diário Popular” voltou a juntar os personagens desta história,
provando que, na política e nos negócios, não há amizade ou inimizades eternas.
Comemorando os onze anos de actividade do gabinete de imprensa do aeroporto de
Portela e, em simultâneo, as 50 mil travessias atlânticas operadas pela Pan
American, um almoço em Lisboa juntou representantes de todas as companhias
aéreas. Marques Gastão, o assessor de imprensa, foi o principal agraciado. Pela
Pan American, falaram Henrique Pinto Balsemão e Pedro Pinto Bastos. A notícia
do “Diário Popular” termina deste modo: “O sr. Engenheiro Pedro Pinto Basto
recordou, depois, o período que antecedeu a realização dos primeiros voos
transatlânticos e a acção tomada pelo governo português que, pela sua
compreensão e exacta visão da política da aviação civil internacional, permitiu
a assinatura do acordo com a Pan American com o qual se abriram as portas da
aviação internacional no nosso país e se estreitaram, ainda mais, as relações
entre os Estados Unidos.”
Na sala, é provável que o coração de Marques Gastão tenha batido com mais velocidade nesta passagem, não fosse o homem da Pan American evocar os traumáticos acontecimentos de Setembro de 1944. Por descuido ou estratégia.
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| "Diário Popular", 22/06/1956 (reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital) |
NOTA FINAL
Este texto deve a Carlos Riley o entusiasmo despoletado pelas aventuras da Pan American em Portugal e a sugestão de bibliografia que ajudou a compreender o papel político desta companhia aérea na expansão dos interesses americanos pelo mundo fora.
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