terça-feira, maio 23, 2017

Os telegramas forjados da revolta da mornaça ou nove dias de fake news num jornal português

«A Aviação revolta-se», garantia o telegrama de Madrid. «A aviação militar da Amadora revoltou-se. Assumiu o comando o major Sarmento Beires.»
«Sabe-se com absoluta certeza que eclodiu em Angola a revolução», assegurava nova informação proveniente de «rádios ouvidos nesta cidade e confirmados pelo Funchal».
Mais telegramas. Mais notícias bombásticas. O fim da ditadura militar parece próximo. Cai Lisboa. O Porto é sacudido por violentos combates. Na fronteira, as tropas republicanas fazem frente aos raros defensores do golpe militar de 1926. As agências internacionais são unânimes: está prestes a tombar a ditadura e a resistência é inútil, depreende-se da leitura do Correio dos Açores entre 9 e 18 de Abril de 1931.
Há só um grão na engrenagem: todos os telegramas foram forjados pela imaginação de Leonel Ferro Alves (1905-1963), exilado na ilha de São Miguel por participação na tentativa de golpe de Estado de Fevereiro de 1927. Na realidade, a revolta só teve sucesso total na ilha da Madeira e parcial na ilha de São Miguel. O regime não cairá em 1931.

A primeira manchete do Correio dos Açores tomado pelos revolucionários.
(Arquivo da Biblioteca Nacional)

SEM UM TIRO
Foi surpreendentemente rápido o êxito da revolta de 31 oficiais e soldados exilados no arquipélago dos Açores na Primavera de 1931. «Em menos de vinte minutos, a cidade era nossa», contou Ferro Alves, no seu contundente A Mornaça, A Revolta nos Açores e na Madeira (1935). «Sem um tiro conquistámos a ilha, como sem um tiro a perdemos também. (…) Os funcionários dos Correios, os polícias cívicos, o guarda-fiscais – tudo aderiu com a rapidez do relâmpago. Nunca vi uma conversão tão súbita e, vamos lá, tão carente de hombridade.»
O poder muda de mãos em São Miguel e na Terceira. Nomeia-se uma Junta Revolucionária e prendem-se os raros oficiais que oferecem resistência. Ferro Alves e restantes camaradas propõem-se derrubar a primeira peça de dominó, esperando ingenuamente que as peças restantes tombem nas ilhas e no continente, destruindo o regime imposto pelo golpe militar de 1926.

Os exilados nas ilhas. Arquivo Bernardino Machado
(Fundação Mário Soares)
Ciente da necessidade de controlar a informação numa ilha onde não chega o telefone e onde os telegramas são rapidamente silenciados, Ferro Alves assume a direcção do Correio dos Açores, substituindo o director José Bruno Carreiro e o redactor João Simas. Os tipógrafos manifestam adesão à causa revolucionária e, nos dias seguintes, o Correio é escrito no singular pelo director/redactor/paginador e panfletista. As suas opiniões desassombradas sobre os açorianos tornam desconfortável a leitura do livro que mais tarde escreveu, mas tudo indica que as suas apreciações sobre a espontaneidade do vira-casaquismo dos líderes políticos locais são genuínas. «A metamorfose desses indivíduos inspirava piedade, tão degradante era», escreveu.
Antigo secretário do Presidente do Ministério António Maria da Silva, Ferro Alves rapidamente percebe que os líderes da revolta pouco confiam no seu êxito. Ao fim de dois dias, o pânico já se instalou entre os revolucionários, amedrontados com a resposta militar que certamente chegará de Lisboa. «A mais pequena luz era considerada como a manifestação incontroversa da presença de um submarino. Uma coruja cortando o espaço num voo pesado transformava-se num aeroplano, o mastro de um pesqueiro assumia proporções de um cruzador», escreveu. Tomam-se medidas simples de apaziguamento: cessa o recolher obrigatório, regressam as sessões nocturnas de cinema. Tudo está montado para criar a ilusão na população de que o golpe de São Miguel (tal como o do Funchal) é apenas um capítulo de uma revolução mais vasta e bem sucedida.
No jornal, Ferro Alves dá largas à imaginação e publica textos impensáveis em qualquer jornal português da época. A Ruína, publicado na edição de 10 de Abril, combate o alegado êxito da política fiscal de Salazar em Lisboa. O Divino Salazar ataca os tiques autoritários do ditador. Em O Louco em Acção, do dia 11, Ferro Alves escreve: «O capitalismo, o jesuitismo, são os únicos amores de Oliveira Salazar, a que bem se poderia chamar um desvio sexual.» É a Autópsia ao Cadáver da Ditadura que o Correio dos Açores oferece aos leitores, contra «a varinha fiscal salazariana aplicada como sanguessuga» (12 de Abril).

Excerto de uma das prosas de combate. Correio dos Açores, 17 de Abril de 1931
(Arquivo da Biblioteca Nacional)

AOS BOATEIROS
Algo, porém, está a mudar na temperatura da ilha. Proliferam boatos sobre o insucesso da revolução. Anunciam-se avistamentos de canhoneiras governamentais. Os micaelenses debatem avidamente a possibilidade de estarem a ser vítimas de um logro, sujeitos a regras impostas por um contingente de três dezenas de oficiais mal armados.
Ferro Alves decide, a partir do dia 12, publicar telegramas fabricados na rubrica Últimas Notícias. Fora jornalista na sua juventude durante a Primeira República e conhecia a forma de redacção dos despachos noticiosos das agências. São curtos e categóricos. Remetem para delegações estrangeiras de grandes agências. «Como as comunicações com o continente permaneciam controladas, nem eles nem nós sabíamos ao certo o que se passava no território da república.» E, sem qualquer problema de consciência, o director interino do Correio dos Açores fabrica dezenas de fake news, certo de que «ganharia a batalha psicológica quem afirmasse com maior segurança».

Telegramas forjados de 12 e 15 de Abril de 1931, Correio dos Açores.
(Arquivo da Biblioteca Nacional) 

Anunciam-se assim vitórias esmagadoras. Adesões simbólicas de velhos republicanos. Cidades que aderem ao movimento. «As únicas notícias recebidas do exterior resumiam-se ao serviço de presse radiodifundido por uma estação alemã (…) No Correio, publicavam-se diariamente como um aperitivo capitoso uns quantos telegramas baseados nas informações da rádio germânica e condimentados com uns temperos esquisitos. Os comprometidos no movimento devoravam-nos com canibalesca gula, embriagando-se com o perfume da vitória que latia nessas frases encantadoras. Os sobas mastigavam o seu furor, jurando entre praguedo e invectivas que os tais telegramas eram inventados por mim.» Como eram, de facto.
Como bom psicólogo de massas, Ferro Alves sabe que não conseguirá manter o logro durante muito tempo. Quando a tensão aumenta, Ferro Alves joga o seu bluff. No dia 16, publica a nota Para que Saibam, contestando os «boateiros, raivosos de despeito, que se entretêm a pôr em dúvida certos telegramas insertos neste jornal». Garantia a origem legítima dos relatos e explicava que a autenticidade era incontroversa. Quebrava assim «os dentes aos detractores», oferecendo espaço nas colunas do jornal a quem conseguisse provar que os telegramas eram forjados. Naturalmente, sem comunicações, ninguém o poderia fazer.

Correio dos Açores, 16 de Abril de 1931
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
A revolução perde por fim o controlo dos acontecimentos. Torna-se dolorosamente claro que o grandioso levantamento nacional não terá lugar. Alguns revoltosos preparam-se para abandonar a ilha na noite de 18 de Abril a bordo do Pêro de Alenquer. Meticuloso, Ferro Alves deixa ainda pronta uma edição do Correio dos Açores, correndo para o barco às 22h30. «O produto da venda do jornal durante esses dias lá ficou integralmente. Nem um centavo passou pelas minhas mãos», garantiu depois no livro que escreveu e que enfureceu os ultras do salazarismo. Na Gazeta dos Caminhos de Ferro de 16 de Novembro de 1935, o conselheiro Fernando de Sousa designará o relato como «um livro miserável», prometendo permanecer «na linha dos atiradores para ver se com uma boa dose de murraça o senhor Alves acorda da mornaça em que caiu».
A revolução morre como nascera: sem um tiro. Enviado-especial do Diário de Lisboa para relatar a revolução abortada, o jornalista Norberto Lopes telegrafa de Ponta Delgada para Lisboa: «Digam se convém ficar. Pessoalmente encantado [com a] viagem. Esforço profissional inútil.» Era um resumo adequado de uma revolta à portuguesa.

UM RENEGADO?
Leonel Ferro Alves exila-se em Espanha e em França. Vive intensamente o combate político eesanholas. olanholas 934o Brasil volta ] viagem. Esforço profissional inm, foi por uma necessidade imperativacorda da Mornaçtro ítico em terras m terras espanholas. Na grande greve de Outubro de 1934 nas Astúrias e na Catalunha, prenúncio da guerra civil que se anunciava, torna-se involuntariamente tema de notícia: é preso pelo governo carlista que o acusa de injúrias ao governo e ao Estado espanhol «num café repleto de patriotas» da Calle Alcalá em 14 de Outubro. Permanece detido durante dez dias, segundo despacho noticioso da Havas de 24 de Outubro. O seu nome corre então o mundo, sobretudo entre os jornais da esquerda europeia.

ABC de Madrid, 14 de Outubro de 1934
A partir desta data, o papel de Ferro Alves torna-se controverso. Tratando-se de um adversário do Estado Novo, é incompreensível que a censura tenha validado o seu nome como correspondente em Madrid do Diário de Lisboa  (aliás, o jornal bate-se galhardamente pela sua libertação, atestando o bom senso do jornalista). Data daí, nos meios da oposição democrática portuguesa, a acusação de que o antigo revolucionário de São Miguel registara uma reviravolta ideológica mal explicada. A publicação de Os Budas: O Contrabando de Armas, em 1935, denunciando o imobilismo do grupo de opositores radicado em Madrid, foi aliás recebida com fúria.

A defesa do Diário de Lisboa, 15 de Outubro de 1934
(Fundação Mário Soares)
É provável de facto que Ferro Alves tenha iniciado na década de 1930 uma colaboração secreta com o Estado Novo, cortando os laços com a oposição e recolhendo informação junto das facções beligerantes da guerra civil na qualidade de “jornalista”. A investigadora Heloísa Paulo, num artigo de 2006, chama-lhe mesmo «o espião do governo de Salazar» (Exilados e Emigrantes: O Brasil como Porto de Abrigo). Ferro Alves corresponde-se com Marcello Caetano, e os jornais da época listam-no até como um dos oradores no funeral do capitão Catella da PIDE, mas muito mais haverá ainda por investigar sobre esta complexa figura.
Sobre os dias em que produziu as fake news mais extraordinárias da ditadura militar, o oficial revoltoso resumia: «Constato com amargura a facilidade de sugestão da colectividade humana e, ao mesmo tempo, afirmo que, se procedi assim, foi por uma necessidade imperativa, pois nada repugna tanto ao meu espírito como as invenções descabeladas.»


Nota final: A Mornaça, o livro sobre estes acontecimentos, é uma das preciosidades literárias do século XX. Não pelo estilo narrativo, bem entendido, mas pela raridade. Poucas bibliotecas o têm, certamente devido às ordens de apreensão emitidas pelos serviços de censura. Devo o meu exemplar à amizade do José do Carmo Francisco.

domingo, maio 21, 2017

Quando o actor secundário "rouba" o protagonismo


Quando o abade Bringas foi finalmente punido pelos calores revolucionários franceses e sujeito à mesma pena de Robespierre, a multidão parisiense esperava da boca do antigo clérigo espanhol uma última explosão de raiva. O homem que apregoara a necessidade de o cadafalso produzir uma limpeza sanitária na sociedade francesa, o homem que jurara que a Revolução romperia a ordem burguesa via-se finalmente encurralado. Esperava-o a democrática guilhotina. Bringas tomou fôlego e, fiel à matriz disruptiva, gritou para a multidão: «Ide todos para o caralho!» Segundos depois, a sua cabeça tombou.
Acontece às vezes nos filmes: a personagem secundária “rouba” o holofote e toma conta da acção. Na literatura, é mais raro – afinal, é o autor que controla todos os cordelinhos da narrativa, assumindo as decisões. Mas essa é a primeira conclusão após a leitura de Homens Bons, de Arturo Pérez-Reverte (Asa, 2016). Bringas era uma personagem acessória, não mais do que o guia útil para introduzir os verdadeiros actores principais na complexidade de Paris durante o reinado de Luís XVI. As suas invectivas, porém, tornam-no imperdível. E Bringas “rouba” mesmo todo o protagonismo.
Reverte utiliza na obra uma descrição real de dois literatos da Academia Espanhola das Ciências – académicos envelhecidos com a missão de adquirirem em Paris a primeira edição de A Enciclópedia de Rousseau, D’Alambert, Diderot e restantes iluministas. É, portanto, sobre factos reais que o livro se ergue.
Através das cartas de um dele, Reverte reconstitui a intriga, imaginando os obstáculos da viagem típica do século XVIII agravada pelos actos de sabotagem de um bandoleiro contratado por uma dupla improvável de conspiradores científicos. «A guerra faz estranhos parceiros de cama», diz Shakespeare em A Tempestade. Também aqui um iluminista receoso da entrada demasiado rápida do conhecimento em Madrid junta esforços com um conservador demasiado temeroso da emancipação do espírito produzida pelo Iluminismo.
A narrativa – talvez a melhor de Pérez-Reverte – é interrompida regularmente para comentários explicativos do autor. Com mestria, Reverte quebra a acção para nos trazer ao presente, valorizando o processo de aquisição de informação para cada pedaço da narrativa. Ali se explicam todos os passos, todas as fontes – como notas de rodapé dignificadas no corpo da narrativa. Por vezes, até se prestam contas ao leitor, justificando por exemplo o salto narrativo desde a fronteira franco-espanhola até Paris por nada ter ocorrido que merecesse justificação.
       A interrupção final é preciosa. Pérez-Reverte justifica a dificuldade de concluir a história. Quase pede desculpa por o final ser mais abrupto e implausível do que a narrativa deixava antecipar. É um dos grandes livros de ficção traduzidos para português no último semestre (infelizmente, para o português do Acordo Ortográfico). Vale bem a leitura!

sábado, maio 20, 2017

A propósito de gaffes…


Faço notar que não é a primeira vez (nem pouco mais ou menos) que o DN "mata" uma figura nobre da literatura internacional numa notícia demasiado precoce.

Mais pormenores em breve num livraria perto de si!

quarta-feira, maio 17, 2017

Um espião entre amigos


Recomendo vivamente o livro mais recente de Ben MacIntyre. Explora dramaticamente os mais recentes ficheiros desclassificados do MI5 sobre os Cambridge Five, os cinco homens, ícones do sistema educativo britânico formal, de Eton e Cambridge, dos clubes de bridge e de Ascott, que traíram conscientemente, durante décadas, para os soviéticos. Anthony Blunt, Donald MacLean, Guy Burgess, John Cairncross e, claro, Kim Philby.
Muito bem escrito. Dramático. Brilhante. A conversa final entre Nicholas Elliot e Kim Philby é de cortar a respiração.
E trouxe uma novidade para mim que, bem investigada, dava outro livro – Philby foi, durante a Segunda Guerra Mundial, o controleiro da espionagem britânica para Portugal e Espanha, passando diligentemente tudo o que apurava para Moscovo. Boas leituras!

terça-feira, maio 09, 2017

O inesquecível Baptista-Bastos


Escolhido ao acaso. BB, Diário Popular, Fevereiro de 1967.

«Dizem-me os narradores da família que nasci sem chorar, condição indispensável para se estar catalogado na confraria humana. Como não chorasse, a parteira deu-me um par de galhetas tesas e tive de reagir à força. Nasci a apanhar tareia; e isso formou-me o carácter, conferiu às minhas ideias uma noção dubitativa sobre as coisas aparentemente mais concretas.»

domingo, abril 23, 2017

A aldrabice do Chicago Tribune

É uma das minhas histórias favoritas nas memórias de George Seldes, o repórter do Chicago Tribune que conheceu Lenine, Mussolini, Franco e Tito. Graças a ele, soube-se que o "furo" que celebrizou o repórter Henry Wales aquando da chegada do aviador Charles Lindbergh ao aeródromo de Le Bourget em 1927 foi uma farsa.

Todo o texto foi escrito horas antes de "Lindy" aterrar em França. Os pormenores que lemos numa das mais famosas primeiras páginas do Tribune foram todos fabricados. A frase "Estou mesmo aqui?"; o suor e o quase desmaio perante as aclamações da multidão; as confissões de pijama já vestido – uma farsa escrita por antecipação.
Wales sabia que não conseguiria comunicar a partir do aeródromo. Mal as autoridades francesas anunciaram que o avião chegara, o gabinete de Paris do Tribune divulgou o texto já preparado, pormenorizado mas totalmente fictício – foi um “furo” mundial, de uma certa maneira... 

Nem quando Wales morreu, em 1960, o jornal admitiu a farsa.