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quinta-feira, julho 31, 2025

Luís Alberto Ferreira e o prazer do narrador




​        «Já lhe contei aquela vez em que…» 

As nossas conversas começavam sempre assim. O Luís Alberto Ferreira sabia que eu me pelo por uma boa história e ele tinha-as com fartura, fruto de uma das mais longevas carreiras do jornalismo português. Tinha uma generosidade sem limites. Partilhava pelo gosto de partilhar. E era um contador de histórias insuperável.

«Já lhe contei aquela vez em que Marcelo Caetano me chamou filho da puta?» Ligou-me no dia a seguir ao Natal para me contar isto. E desbobinava pormenores sobre o dia de 1971 em que o Presidente do Conselho cuidara que estaria a sós com o embaixador americano em Lisboa e fora surpreendido por uma equipa da RTP – «mais oficial do que nós não havia» – à porta do local secreto de encontro por indiscrição de Manuel Maria Múrias. Irritado, Caetano, o catedrático, o pai do constitucionalismo, soltara o vernáculo. E o Luís Alberto ria, com aquela voz rouca.

Cultivava as palavras e fugia às escolhas óbvias como os matadores de Córdova que aprendera a estimar nas praças de touros do país vizinho. A reportagem escrita, para ele, implicava a recusa do atalho e o culto da expressão erudita. Ligou-me uma vez só para me dizer que tinha gostado muito da maneira como descrevi Jules Sauerwein: «um homem humilhado por não ter mais altura, que empertigava a cabeça para não perder um único centímetro da sua estatura». «Essa foi de antologia, meu caro Gonçalo.» E ria.

Fez quase tudo no jornalismo. Chegou muito cedo a Lisboa, vindo de Luanda. «Ainda a cheirar a navio», tentou a sorte em A Bola, onde chegou a assinar textos apenas como Alberto Ferreira, mas percebeu que, naquele contexto, no fim dos anos 1950, o jornal já estava servido com a nata dos repórteres do país. Fez o mais difícil: foi para Espanha. Durante uma década, viveu entre Sevilha, Madrid e Barcelona, familiarizando-se com a fina-flor da tauromaquia, do futebol, da ciência e dos jornais.

«Já lhe contei aquela vez em que entrevistei o cirurgião Gregório Marañon?» Tremera como varas verdes perante o grande homem da medicina espanhola e fora Marañon, achando graça ao miúdo mulato, que lhe pusera a mão sobre o ombro e lhe dissera: «Começa quando estiveres preparado.» Depois disso, «nunca mais tive medo de entrevistar ninguém.»

«Já lhe contei que estava no gabinete de Santiago Bernabéu quando a assistente dele entrou para alertar que o avião que transportava a equipa do Manchester United caíra?» Mais uma história. Mais uma aventura. Adorava Espanha e a abertura hispânica para pensar o mundo e tinha honra em ter desbravado caminho, encontrando nos jornais espanhóis o espaço que lhe faltara aqui. Por isso também sentiu, com uma ponta de orgulho, o dia em que lhe comuniquei que seguia as pisadas dele e tentaria a minha sorte na imprensa do país vizinho. «Meu caro Gonçalo, não se esqueça de me contar as suas aventuras nas inesquecíveis ramblas da Cidade Condal!» Tornou-se a senha das conversas dos últimos três anos. «Conte, conte, como está a mudar a face da Barcelona!» E eu corava.

Em textos já publicados, relatei vários episódios que lhe aconteceram. Tenho para aqui, em discos externos, horas a fio de gravações sobre tudo e nada. 

A primeira entrevista em Portugal com Alfredo di Stefano e o dia em que se atreveu a aconselhar o monstro sagrado do futebol.

O dia em que, despeitado com a pressão exercida pelo director de uma corrida de touros junto da administração da RTP, fez a locução tauromáquica em silêncio – 120 minutos sem dizer uma palavra a ponto de os espectadores ligarem para a 5 de Outubro perguntando se o problema estaria no seu receptor. 

A entrevista com o subcomandante Marcos, líder dos zapatistas, no México, depois de uma saga na montanha para fugir às tropas do governo. 

O texto provocatório contra Boavida Portugal, director do Mundo Desportivo, que lhe valeu o cancelamento da colaboração com o jornal. 

As aventuras com Kapuscinski em Angola, guiando o prestigiado jornalista por terrenos minados – literal e figurativamente – do novo regime.

A proibição de frequentar o balneário do Estádio das Antas e a resposta na ponta da língua: «Mas eu algum dia tomei banho no vosso balneário?»

Os galanteios e os piropos às mulheres bonitas.

«Já lhe contei aquela vez em que estive a um dia de entrevistar Saddam Hussein e disseram-me que não valia a pena?»

Nas conversas, não faltavam invariavelmente os filhos da puta com que também teve de lidar em jornais e televisões. Com nomes e currículos.

Em 1974, Luís Alberto Ferreira assinou uma série de 13 crónicas no jornal A Bola sobre racismo no desporto angolano. Chamou-lhes «futebol a preto e branco» e são monumentos à crónica. Ofereci-me há uns anos para as transcrever e passá-las ao nosso editor comum, na esperança de que os textos ganhassem uma perenidade bem merecida. Riu-se. «É prosa velha, mais gasta do que os pneumáticos de um camião de longo curso.» Não era. Não é. 

A partir de agora, cabe-me a mim – e a um punhado de outros – falar do Luís Alberto Ferreira, um jornalista que me deu a honra de ser meu amigo.

«Já vos contei aquela vez em que ele…»

segunda-feira, dezembro 02, 2024

A vida privada dos políticos

        Um amigo mostra-se indignado com a reportagem da família Montenegro na praia, em fotos claramente ensaiadas – ou pelo menos toleradas –, e queixa-se de um precedente que impedirá mais tarde o primeiro-ministro de exigir recato para a intimidade do lar. “Quem com ferros mata, com ferro morre.” Mas será uma novidade? 

       Mais do que ninguém antes de si, J.F. Kennedy transferiu a política do comício para a sala de estar e da página do jornal para o ecrã de televisão. Mostrou a mulher e os filhos como parte da sua visão de um homem novo na política americana e nada voltou a ser igual. 
       Por cá, pouco depois da Implantação da República, Teófilo Braga fez-se fotografar no eléctrico. Uma imagem engenhosa de Joshua Benoliel, planeada para romper com a distância formal dos Bragança, criando a percepção de um homem do povo que Teofilo não voltaria a ser. Mas funcionou. Não consta que o PR se deslocasse assim para Belém daí para a frente, mas a Internet está repleta de alegorias ao político proletário. Nem Mário Soares resistiu, nos livros-entrevista com Maria João Avillez, a fazer a apologia do Teófilo que se deslocava de transportes públicos. 


       A família foi, durante décadas, o bastião inacessível. Aparecia, no limite, na noite eleitoral (nos países que tinham eleições) ou na sombra. Foi fonte pontual de escândalos (basta ler as alegações brutais que se escreveram em 1906 sobre as amantes de Dom Carlos e o custo dessas aventuras para o Tesouro) e fez cair gabinetes, como sucedeu com Van Buren nos EUA, mas a mulher e os filhos do político eleito foram, durante décadas, uma zona desmilitarizada. 
       Algo mudou entretanto na intimidade dos líderes. E foi no seio da ditadura que essa percepção brotou. Nas renhidas eleições de 1958, onde pela primeira vez se apresentaram dois candidatos da Oposição (Humberto Delgado e Arlindo Vicente) contra o candidato da Situação (Américo Thomaz), a revista O Século Ilustrado acalmou subtilmente as acusações de fraude eleitoral. Logo após o acto controverso que elegeu Thomaz, Beatriz Ferreira fotografou o Presidente da República na intimidade do lar, com o neto João Paulo ao colo, brincando com um barco de madeira. 
        

       A interpretação proposta era a de um pacato cidadão, que vivia num terceiro andar da Avenida Defensores de Chaves, reunido com a família após a batalha eleitoral limpa e justa. 

       Em Setembro de 1973, aflito com o distanciamento e com a percepção de o verem só como um académico isolado em São Bento, também Marcelo Caetano abriu as portas de casa – desta vez, à revista Flama


       Num trabalho jornalístico íntimo, com poucos antecedentes por cá com um político, Edite Soeiro e o fotógrafo Lúcio mostravam os filhos, os netos e as irmãs do presidente do Conselho e publicavam os seus lamentos sobre a falta de tempo para ler poesia ou para ensinar os netinhos a andarem de bicicleta (não tenho maneira de o provar, mas, se tivesse de arriscar, diria que a reportagem nasceu do cérebro de Jorge Tavares Rodrigues para limar as arestas de um político bicudo). “Muitas vezes me tem acontecido julgar que vou descansar e… afinal não”, queixava-se. 


       Em 2008, Tony Blair explodiu e disse que a família tem de ser o reduto privado da vida de um político e que não há excepções. Foi tarde de mais. Esse Rubicão foi transposto há décadas e já não há retorno possível.

domingo, novembro 24, 2024

A Stern e os diários infames



       Esta semana, em jantar animado com alguns colegas, um deles lembrou um dos mais infames escândalos jornalísticos modernos – a publicação dos (falsos) diários de Hitler.

       No final da década de 1970, uma das vedetas da revista Stern, fascinada com a história do nazismo e proprietário de uma pequena colecção de memorabilia do III Reich, foi contactado por um alegado general da RDA. A fonte dizia ter diários redigidos pelo punho de Hitler, material perdido após a queda de um avião em Dresden em 1945, semanas antes do fim da guerra. Os diários – dizia o “general” – tinham sido guardados num celeiro e agora, com um incentivo para subornar os guardas na fronteira, poderiam ser comprados pela revista.

       O que se seguiu nos três anos seguintes foi a receita de como não gerir um “exclusivo”. A revista decidiu que quanto menos pessoas soubessem, melhor (como resultado, o maior especialista em Hitler na redacção não foi consultado); decidiu-se fazer apenas peritagem à caligrafia e não exames químicos à tinta e ao papel, que teriam de imediato provado a impossibilidade da autoria. Os exemplares usados para a comparação da caligrafia provinham da colecção de memorabilia do jornalista e também tinham sido adquiridos ao falsário. A caligrafia, de facto, correspondia. Mas não era de Hitler.



       Nas semanas que antecederam a publicação, em Abril de 1983, a Stern tentou vender o exclusivo a Rupert Murdoch, ao Paris-Match, à Newsweek e ao Grupo Zeta. Cada grupo editorial trouxe os seus peritos…


       Como fonte, o falsário usara uma obra em dois volumes, com todos os discursos de Hitler, de forma a poder situar no tempo cada informação. Polvilhava algumas datas com comentários picantes (“a Eva Braun diz que tenho mau hálito”, “razão tem o Stalin que despediu e matou toda a cúpula militar”).

       Como acontece tantas vezes em ciência, o primeiro especialista guiou-se – por azar –pela obra de referência consultada pelo falsário e validou os diários. Os seguintes seguiram a matilha. Alguns apostaram a reputação na veracidade. Outros validaram e recusaram a autoria hitleriana em 48 horas. Os dois que colocaram dúvidas e reticências foram ignorados.

       A Stern foi em frente. Já gastara 9 milhões de marcos na compra de 60 diários (o falsário chegou a produzir um novo diario em três dias para satisfazer a procura) e não podia recuar. Hitler vende e um “furo” é um doce irrecusável numa redacção, tolhendo o juízo e o bom senso.

       A edição infame foi publicada na última semana de Abril de 1983. Os parceiros internacionais também publicaram. E três dias depois tornou-se dolorosamente óbvio que se tratara de uma fraude. Prendeu-se o falsário e o jornalista que negociara a venda (e que arrecadara comissões). A Stern foi humilhada. Em Inglaterra, curiosamente, mesmo sabendo que publicara uma peça de ficção, Murdoch não perdeu dinheiro — vendeu uma barbaridade de cópias e ainda recebeu o dinheiro que pagara à Stern.

       Hoje, os diários são peças de museu. Ajudam a explicar o fascínio da cultura moderna com a figura de Hitler. 

       Lembrei-me disto quando um colega de uma revista de História me disse que nada vende melhor na capa do que Hitler ou Salazar.




segunda-feira, janeiro 23, 2023

Quando a fonte mais fidedigna sobre um cidadão não é o próprio cidadão

 


       No cinquentenário do Expresso, há uma história engraçada que, creio, não foi contada. Envolve o tenente-coronel Vítor Alves, alvo em 7 de Dezembro de 1985 de uma notícia sem fonte citada que dava como certo o seu apoio à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo. 
       Parecia apenas a espuma dos dias, própria das campanhas, mas Vítor Alves fez questão de escrever a José António Saraiva, director do jornal. Explicava, num ameno comentário (publicado uma semana mais tarde), que não aderira à candidatura da engenheira Pintassilgo nem a qualquer outra. 
       O incidente teria ficado sanado por aí, não fosse o jornal achar-se no direito de introduzir uma exótica nota de redacção após a carta do militar de Abril: «O Expresso não contactou, na verdade, o coronel [sic] Vítor Alves para confirmar o seu apoio à candidata Lourdes Pintasilgo [sic]. O candidato a deputado pelo PRD assegura nesta carta que não apoia qualquer candidatura. O Expresso limitar-se-á a acrescentar que mantém a sua informação, provindo de muito boa fonte, segundo a qual o ex-conselheiro da Revolução Vítor Alves tem vindo a manifestar as suas simpatias junto da candidatura da engenheira.» 


       Mantendo a elevação e o humor, mas com a mostarda já a chegar-lhe ao nariz, Vítor Alves lavrou um protesto ao Conselho de Imprensa. Queixava-se das fontes anónimas e das notas de redacção habituais no jornal, «receando que tenhamos chegado ao extremo ridículo em que a fonte mais fidedigna sobre um cidadão não seja o próprio cidadão, quando este decide clarificar as suas posições». 

Arquivo do Conselho de Imprensa/ANTT

       Na Duque de Palmela, Saraiva certamente percebeu que o jornal metera a pata na poça. Em Janeiro de 1986, argumentou ao Conselho de Imprensa que a nota de redacção «não foi inteiramente feliz». Mas reafirmava, em silogismo aristotélico de lógica irregular: «Uma fonte que tomamos como boa deu-nos essa informação. Cabe agora perguntar: foi a nossa fonte que se equivocou ou o ten. cor. Vítor Alves produziu alguma declaração que tenha legitimamente induzido em erro a fonte em causa? Caso se tenha verificado a segunda hipótese – e só o ten. cor. Vítor Alves poderá esclarecer o assunto – a culpa pelo mal-entendido seria imputável ao queixoso e não ao Expresso.» 
       Poucos episódios resumem tão bem o gosto do jornalismo político pelas fontes anónimas como este caso. A punchline? O Conselho de Imprensa entendeu «nada ter a condenar ao Expresso» ao abrigo da… Lei de Imprensa que Vítor Alves aprovara enquanto ministro.

domingo, janeiro 22, 2023

Um bom malandro, um deputado e uma eliminação do Sporting


       De vez em quando, três bons malandros reúnem-se em Odivelas, em frente de um tacho bem servido, e contam histórias uns aos outros. É uma espécie de competição saudável pela melhor narrativa. Esta semana ganhou um rapaz de Bogas com esta história que prova a omnipresença de A Bola de Vítor Santos, o humor de Jorge Sampaio e a memória dos tempos em que as sessões parlamentares decorriam pela noite dentro.

       Estávamos em Março de 1988 e a Assembleia fazia horas extra para aprovar legislação. Trabalhava-se a mata-cavalos e a ausência de peões neste xadrez implicava a aprovação matemática da legislação dos rivais.
       O governo era então suportado por uma maioria sólida de deputados do PSD, o que tornava hercúlea a tarefa do líder da bancada socialista, o futuro PR Jorge Sampaio, tentando segurar o dique contra a força da corrente.
       Às duas da manhã do dia 17, Sampaio pede clemência, lembrando que, na maioria dos parlamentos do mundo, só estão presentes os deputados com interesse evidente por um tema enquanto os outros trabalham no edifício noutros dossiers. Correia Afonso, pelo PSD, riposta de imediato, dizendo que os 80 deputados do seu partido ficarão ali até ser preciso.
       Sampaio contesta então: “Tenho estado a reparar – e devo dizer que cheio de inveja – que um dos tais 80 srs. deputados do PSD, por quem tenho tanta consideração e que se encontra na última fila da bancada, tem estado a ler o trissemanário A Bola, que é um jornal que também gosto muito de ler. Ora, eu, que também hoje comprei esse jornal, mas que ainda não o consegui ler porque me encontro na primeira fila da bancada, estou cheio de pena e se estivesse nas mesmas condições daquele Sr. Deputado, que tem todo o direito de ler A Bola, mas que infelizmente não tem um gabinete… A verdade é que, com estes novos aparelhos que permitem ver o que se passa no plenário, esse sr. Deputado poderia ter esta faculdade admirável que é ler A Bola e ouvir o que se passa no plenário.”
       Das bancadas ecoa uma gargalhada. O ambiente desanuvia. Na última fila da bancada do PSD (“o Terceiro Anel do Estádio Nacional de São Bento”), caçado pelo circuito interno televisivo, o jovem deputado Jaime Mil-Homens ruboriza e tenta fechar apressadamente as páginas gigantescas do jornal. Balbucia uma justificação. Calhou-lhe a fava, pois o jornal já percorrera toda a última fila.
       Correia Afonso brinca também: “Ler A Bola é olhar para um problema de desenvolvimento tecnológico”
       Sampaio remata: “Pois é, Sr. Deputado. Eu também lá estive pelo meu clube ontem na bancada.” E sacando do jornal do bolso, acrescenta: “Eu só queria dizer que, enquanto muitos deputados do PSD já tiveram tempo de ler A Bola de ponta a ponta, eu só na cama, antes de dormir, poderei saber como é que ‘isto’ correu ontem.”
       “Isto” era o empate do Sporting com a Atalanta na segunda mão dos quartos-de-final da Taça das Taças que custara a eliminação dos leões (também lá estive na bancada e vi o “frango” do Vítor Damas). Sampaio ganhou esse “round”, mas naturalmente perdeu a votação.
       Para provar que o Daniel não mente, aqui fica a página do Diário Parlamentar e uma crónica do autor em A Bola (10 de Fevereiro de 1995). As votações parlamentares nocturnas, essas, já são uma memória distante.

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Cinco instantâneos na vida de um grande jornalista

     


        Mundial de 1966. Eusébio dá nas vistas e chama todo o tipo de aventureiros. Uma marca de lâminas de barbear quer patrocinar o craque, mas não há ainda empresários, nem advogados. Eusébio não fala inglês. Pede ajuda a um calmeirão que se desenrasca bem em Londres (trabalha então para a BBC e para a Associated Press). Hernâni Santos negoceia por ele. Arranja-lhe dinheiro. Nao escreve sobre o tema para não criar invejas em Lisboa, nem atenção das finanças. Minutos depois, com os bolsos cheios, Eusébio volta ao hall do hotel. Reencontra Hernâni Santos. “Acho que podíamos ter extraído mais aos tipos, pá. E o Coluna também acha que sim.” Primeira lição: os craques do mundo podem ter pés de barro.


     Munique, 1972. Um repórter desportivo do Diário de Lisboa monta uma das grandes trapaças do ano. Faz-se fotografar numa fila da aldeia olímpica, logo atrás do campeão olímpico Valery Borzov. No instante exacto do disparo, faz uma pergunta inócua ao soviético. Pela foto, parece uma conversa. O redactor manda para Lisboa uma sensacional entrevista, inventada do princípio ao fim. O jornal publica e só descobre a trama dias depois. Hernâni Santos, um dos responsáveis, dá uma bronca épica ao infractor, mas não o despede. Sabe por experiência própria que a pena capital não se justifica à primeira ofensa. 


     Lisboa, 1979. Mega Ferreira congela perante as câmaras de televisão. Apresenta o programa de notícias da RTP 2, uma aposta directa da direcção de Informação de Hernâni Santos, e fica largos segundos parado, em silêncio. É uma bronca num canal que ainda está a provar a sua razão de existência. Pede-se a cabeça do jornalista. Hernâni defende-o apesar das pressões. No jornalismo, mandam os jornalistas. Pouco depois é Hernâni quem bate com a porta. “Não pactuo com filhos da puta.”


    Goa, 1980. Vassalo e Silva regressa ao local onde se rendera duas décadas antes. É uma cerimónia de reconciliação entre o novo poder democrático português e o regime indiano. O tom, porém, é azedo. Vassalo e Silva é condicionado a pedir desculpa à Índia, em nome de Portugal. Um embaraço diplomático. Só um jornalista está lá – Hernâni Santos, pelo Expresso. “Dá trabalho ter sorte.”


     Castelo Branco, 1981. Um contacto no mundo da espionagem britânica avisa Hernâni Santos de que um homem condenado por traição durante a Segunda Guerra Mundial está vivo em Portugal. A equipa do Tal & Qual descobre-o em Castelo Branco. É um discreto professor de liceu. Há quem não queira publicar a história para poupar o espião nazi ao embaraço. “Publicamos os factos, o público fará juízos morais.” A história sai. Como sempre saíram as histórias de Hernâni Santos.


     Grato pela amizade, Hernâni. Foi verdadeiramente um prazer!


 


sábado, dezembro 03, 2022

Espião, jornalista e empresário #2



       No Verão de 1935, Walt Disney realiza uma grande viagem de promoção pela Europa. O pretexto é a recolha de fontes de inspiração e locais de filmagem para os seus filmes, mas o motivo mais directo é comercial – Disney quer furar no Velho Continente. 
       Portugal entra na rota de Disney e a sua vinda é anunciada, embora a viagem não se concretize porque Walt teme um país mal servido por transportes e estradas. Mesmo assim, tem o cuidado de enviar presentes e brindes. Para esta campanha europeia, Walt traz centenas de bonecos de peluche e desenhos da sua famosa criação, o Rato Mickey. Traz também insufláveis gigantes que enchem os céus das capitais europeias. Distribui-os a personalidades que podem influenciar o sucesso da sua marca. Em Roma, as netas de Benito Mussolini são premiadas com peluches. Em Portugal, o pequeno Luís Fraga, neto do jornalista Acúrcio Pereira e afilhado de Luís Lupi, também recebe um.
       Descobrimo-lo da maneira mais inesperada. Quando “O Século” celebrou o Natal de 1940, publicou a fotografia de um bebé na primeira página – era Luís Fraga, com um ano de vida, rodeado de brinquedos e com o Rato Mickey em destaque. Lupi furara uma vez mais.
       No dia 6 de Dezembro, na Casa da Imprensa, lançamento do livro “Jornalista, Espião e Empresário” (Âncora), de Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira, com apresentação de Joaquim Vieira.

quarta-feira, novembro 30, 2022

A Gaffe do bruxo angolano


O Campeonato do Mundo de 2006 estava em curso e Angola estreava-se na grande competição de futebol. Por ironia do sorteio, a selecção africana fora colocada no mesmo grupo de Portugal. Tratando-se de uma nação com evidentes afinidades culturais, os jornalistas portugueses desdobravam-se para acompanhar o quotidiano dos palancas. 

Quem já acompanhou uma prova desportiva destas por um jornal sabe que é um trabalho maçador e pouco desafiante. É como uma refeição liofilizada que sabe ao mesmo para todos. O acesso aos protagonistas é mediado através de conferências de imprensa. Observam-se cinco minutos de um treino e é preciso empolar o mínimo pormenor para encher uma página de jornal ou 5 minutos de televisão.

Em Hannover, a acompanhar a selecção do sisudo mas competente Oliveira Gonçalves, estava um pequeno grupo de jornalistas portugueses. Um deles, enviado-especial do Record, conhecido pelo humor contagiante e desrespeito saudável pelas regras, lembrou-se de apimentar o dia 13 de Junho. Quando a comitiva técnica de Angola saiu do balneário para o relvado, apontou da bancada de imprensa para um elemento discreto, à paisana, que seguia os restantes treinadores a alguma distância. Baixou a voz e anunciou para os companheiros: «Sabem quem é? É o bruxo da selecção angolana. Foi importantíssimo para o apuramento.» Angola, de facto, qualificara-se in extremis, num jogo dramático no Ruanda.

O grupo riu-se. Não pensou mais na brincadeira. Alguns sabiam que se tratava do responsável pelas estatísticas da selecção. Era obviamente uma graça, mas há sempre um crédulo com complexos de Bob Woodward.

Nessa noite, na peça que a RTP transmitiu de Hannover, um dos jornalistas da estação pública contou aos portugueses – sem margem para dúvidas – que a selecção angolana empregava um bruxo para melhorar o desempenho no Mundial. Juntou mais alguns pormenores da sua lavra “à fonte original” e compôs o “furo”. Foi o pandemónio. A fake-news tornara-se real.

Na conferência do dia 15 de Junho, Oliveira Gonçalves denunciou a notícia. Compreensivelmente agastado e de dedo em riste para o jornalista da RTP, lembrou que a sua equipa técnica estudara nas melhores escolas de desporto, como os portugueses. E, com razão, disse também que a notícia da bruxaria só fora plausível porque envolvia uma selecção africana. Vermelho de raiva, não parava. E quanto mais se apercebia de que parte dos jornalistas portugueses já não conseguia disfarçar o riso ou manter-se de pé, mais se enfurecia.

Angola conseguiu dois empates históricos nesse Mundial. Talvez o bruxo tenha ajudado.

sábado, novembro 26, 2022

Espião, jornalista e empresário


       Esta história começou há muitos anos, no dia em que uma viúva entrou na sede de uma agência noticiosa e pediu para falar com alguém que a ajudasse a clarificar o papel do marido na história do jornalismo, da política e da diplomacia portuguesa.

       Foi o fio que revelaria a meada do trabalho que o Wilton e eu fomos desfiando nos últimos anos. Falarei bastante sobre este projecto nas próximas duas semanas, mas, para já, estão convidados a guardar a tarde de dia 6 na agenda. Espero ver-vos na Casa da Imprensa.


sábado, novembro 19, 2022

O Mundial da Junta


       As indignações sobre o Campeonato do Mundo de futebol organizado no Qatar revelam como sempre memória curta. Esta não foi a única atribuição polémica de uma grande prova desportiva a um regime questionável nem será a última. Houve outra que bem merece uma crónica porque envolve o maior jornal desportivo nacional e um episódio de censura flagrante.

       A atribuição da organização do Mundial de 1978 à Argentina fora decidida 12 anos antes, em Inglaterra, e não mereceu contestação. O cartaz oficial da prova, aliás, reproduz a saudação clássica de Juan Perón às multidões, com os dois braços erguidos. A FIFA só não contou com o golpe militar de 1976. A partir de então, ficou a braços com um problema diplomático, mas decidiu não agitar as águas. 

       O país sul-americano passou a ser governado por uma junta militar que fazia desaparecer pessoas e que rapidamente viu na prova uma oportunidade de limpar a sua imagem à escala global. O cartaz peronista, já amplamente divulgado, não foi substituído, mas a Junta meteu a pata em tudo e ainda hoje subsistem acusações de que a selecção da casa foi “empurrada” até à final.

       Mal a bola começou a rolar (tal como vai suceder no Qatar), as críticas perderam força. Só interessava o jogo. A imprensa portuguesa estava então praticamente estatizada e poucos jornais puderam levar enviados-especiais a Buenos Aires, sobretudo porque a selecção portuguesa voltava a não marcar presença. “A Bola” foi uma das excepções — enviou Vítor Santos, o chefe da redacção, e um segundo jornalista.

       Enquanto estiveram na Argentina, os jornalistas de “A Bola” (o segundo identificar-se-á se quiser porque anda por aqui) cobriram como puderam os jogos da prova. E fizeram em Buenos Aires o que Vítor Santos sempre pedia aos jornalistas no estrangeiro: crónica de costumes. 

       Mais afoito do que o chefe da redacção, o segundo jornalista andou pelas ruas, visitou o cemitério onde está sepultada Evita Perón, recolheu notas sobre o movimento das mães da Plaza de Mayo, que se juntavam em silêncio para chorar o desaparecimento dos filhos. Publicou o que pôde (no dia 29 de Maio, perguntava: “Um hino nacional que fala em liberdade pode ser cantado por todos os argentinos?”) e guardou os textos mais cáusticos para quando regressasse a Portugal para «não desaparecer também», como me contou.

       O Mundial acabou no dia 25 de Junho de 1978 e os enviados-especiais regressaram a Lisboa. 

       O jornalista escreveu duas a três crónicas com as suas impressões. Carlos Miranda, o director, já estava em França, acompanhando a Volta velocipédica e Vítor Santos, ansioso pelo descanso, seguiu para férias em Portimão, o refúgio informal das chefias de ”A Bola”. Na azáfama de um jornal efervescente, Alfredo Farinha seguira para a China acompanhando uma digressão do Sporting e Joaquim Rita para o Canadá com o Benfica. Ficaram a subdirectora Margarida Ribeiro dos Reis, filha de um dos fundadores do jornal, e Carlos Pinhão, subchefe da redacção.

       Os textos foram entregues. Os dias passaram e o jornal não os publicava. A subdirectora vetou-os porque continham «ofensas a um chefe de Estado» – ofensa proibida pela Constituição portuguesa. Era o argumento escolhido para não agitar águas num país ainda barricado em facções políticas e num jornal que quase sempre preferiu a prudência à temeridade. Gerou-se discussão na redacção quando o caso foi conhecido. Dividiram-se os campos, como sempre acontece. Carlos Pinhão não se pronunciou.

       O processo chegou ao Conselho de Redacção, que emitiu uma nota de censura à direcção. O passo seguinte deveria ter sido a entrega do caso ao Conselho de Imprensa, nos termos da lei, mas o regresso do director acalmou as águas. “A Bola” não escreveu sobre a Junta Militar da Argentina em 1978, o país onde desapareciam pessoas sem deixar rasto.

* Versão actualizada com correcção de dois erros factuais.

domingo, dezembro 26, 2021

Morreu o João Paulo Cotrim

 


       Morreu hoje o João Paulo Cotrim e o dia ficou ainda mais triste. 
       Alguns recordá-lo-ão (e bem) como o jornalista que extraiu de Luiz Pacheco a frase emblemática. Outros (e bem) como o divulgador de banda desenhada, a paixão da sua vida. Outros ainda (com justiça) como o editor literário da Abysmo e da Arranha-Céus. Recordo, neste cantinho, o João como camarada de tertúlia e dos almoços épicos na Mimosa. 
       Homem de extravagâncias culinárias e de generosidade inigualável. Editor corajoso e apaixonado por uma boa história, qualquer que fosse o veículo de transmissão. Nunca dizia que não. Abraçava os projectos. Envolvia-se. Encorajava. As aventuras que tive na banda desenhada devo-as a ele e à maneira cinematográfica como projectava os guiões. 
       Deixou dezenas de livros por escrever, apesar de ter indexadas na Biblioteca Nacional pelo menos 76 obras com o seu nome. Releio o que ele escreveu em 2012, em Jogo da Glória, sobre Stuart Carvalhais e percebo agora que, de alguma maneira, o João também já estava a escrever sobre si: «Stuart não foi um autor qualquer: foi livre como uma nuvem. Participou nos movimentos artísticos do seu tempo, mas não produziu obra. Assinou milhares de estilos, mas não se pode dizer que pertença aqui ou ali. Possuía cartas de nobreza que cuspiu nos códigos de conduta e de vida triste. Andou pelos salões da intelectualidade, mas escolheu a rua. Esta absoluta liberdade, também ideológica, tornou-o oficiante da vida popular contra todos os preconceitos burgueses, mesmo aqueles dos supostos anti-burgueses. Cantou a Lisboa suja e dos gatos. Perseguiu as varinas e nelas as pernas, sinal maior do movimento. Aceitou a droga, o álcool e a Lua, e em sua companhia foi ao encontro de rostos conhecidos, da miséria e dos miseráveis, da novidade que se escondia no cinema, da vertigem das redacções, da amizade, dos amores. Não fez profissão do desenho de humor, mas um desejo ardente que aqui e ali o alimentou. Ocupou-se essencialmente em viver, tendo o desenho como ferramenta, arma, bengala e ei-lo personagem principal de um romance.» 
         Que saudades vamos ter de ti, João! Um beijinho para a Isabel!

terça-feira, outubro 19, 2021

Quem desenhou a Noite Sangrenta?

 


        Os jornais de hoje estão repletos (e bem) de Aristides Sousa Mendes, mas hoje cumpre-se também uma efeméride trágica – o centenário da Noite Sangrenta, a noite de 19 de Outubro de 1921 durante a qual foram abatidas seis pessoas, incluindo o primeiro-ministro António Granjo e Machado Santos, o herói da Rotunda. 
        O episódio foi interpretado e estudado amiúde ao longo deste centenário, desde o opúsculo de Berta Maia sobre as suas conversas com o «Dente de Ouro» (As Minhas Entrevistas com Abel Olímpio, o ‘Dente de Ouro’) à reflexão de Bourbon e Meneses sobre o caso (Os Crimes de 19 de Outubro), passando pela reconstituição de Consiglieri Sá Pereira (A Noite Sangrenta) e pela obra importante de José Brandão (A Noite Sangrenta), não esquecendo a peça de teatro premiada de Hélder Costa (O Mistério da Camioneta Fantasma). 
        Este contributo é infinitamente mais modesto. Nas semanas subsequentes à matança, foi divulgada uma gravura nas páginas da imprensa. O jornal A Imprensa da Manhã, que ajudara a acicatar os ânimos e que, no próprio dia da chacina, apelara à audácia dos revolucionários à maneira de Danton, publicou-a. O desenho tornou-se, de alguma maneira, o ícone do episódio. Representa Granjo no Arsenal da Marinha, indefeso perante a turba que o executa a sangue frio e não costuma ser creditado. 
        Tudo indica, porém, que a ilustração foi criada pelo jovem Leitão de Barros, então com 25 anos e à procura de uma oportunidade profissional. O gravador terá sido Martins Barata. Não só o crédito de ambos figura nas páginas do jornal de 11 de Novembro de 1921 como Barros é protagonista de uma carta surreal no dia 27 – carta essa que, adivinho, bem gostaria de varrer para debaixo do tapete nos anos seguintes. 
        Leitão de Barros terá então escrito ao jornal, queixando-se: «Como sou desenhador e ganho dinheiro desenhando, entendi que tinha o direito de exercer a minha profissão executando a iconografia dos sucessos da noite de 19 de Outubro. Nada absolutamente tenho nem quero ter com política», dizia. 
        «Segundo os relatos de alguns jornais, reconstituí o crime de que foi vítima António Granjo, ex-Presidente do Conselho, tendo todo o cuidado de desenhar apenas figuras perfeitamente anónimas para não levantar suspeitas ou ferir injustamente quem quer que fosse. Segundo o relato do ministro da Marinha do governo Manuel Maria Coelho, era um facto que indivíduos vestidos de marinheiros tinham tido acção neste caso, motivo porque lá aparece realmente uma figura fardada» – continuava. 
        Leitão de Barros lembrava que também no regicídio de 1908 se reconstituíra o atentado em todo o mundo sem que ninguém se sentisse lesado. Desta vez, porém, a Marinha sentira-se vexada. «Pois, senhor redactor, acabam de me proibir de vender os postais que reproduzem o desenho publicado pela Imprensa da Manhã (que aliás não foi apreendida e fez até duas edições) e de intimar a Casa Paulo Guedes a retirar das suas montras o original desse desenho.» 
        O desenhador sentia-se atacado na bolsa. «Com que direito se pode proibir um pacato cidadão que paga os seus impostos o exercício da sua profissão? Quem me indemniza dos prejuízos que tal proibição me causa? (…) O público que ajuíze e eu que pague… e me cale.»

A Imprensa da Manhã, 27 de Novembro de 1921

terça-feira, setembro 07, 2021

Talvez em 2022

 


    Comemora-se hoje mais um aniversário da independência do Brasil e estamos portanto a 365 dias do segundo centenário do país irmão. Talvez seja a altura de debater a possibilidade de Portugal fazer melhor figura do que fez no primeiro centenário. 
    Na verdade, o ano de 1922 até começara bem. A chegada apoteótica de Sacadura Cabral e Gago Coutinho à costa brasileira, em Junho, com sucessivos voos comemorativos entre cidades costeiras marcara uma aproximação cultural entre os dois países. Era o mundo latino que reivindicava destaque na corrida da aviação, uma vez que as grandes proezas aeronáuticas até então tinham sido entre países anglófonos. 
     António José de Almeida, o Presidente da República, foi convidado a comparecer nas cerimónias de 7 de Setembro. A partir daí, correu tudo mal. No Verão, foi declarado estado de sítio e recolher obrigatório – circunstâncias que aconselhariam contenção dos principais órgãos de Estado. A depauperação dos cofres recomendava igualmente uma missão modesta. Debalde. Toda a gente foi. 
     Acompanhando os preparativos da viagem pelas páginas da imprensa da época, constata-se a sucessão de incidentes embaraçosos. Começou com a escolha da missão intelectual que acompanharia o PR. À boa maneira portuguesa, todos os nomes estavam mal escolhidos. O Século ridicularizou o arabista David Lopes. O Dia não queria que o filósofo Leonardo Coimbra chefiasse a missão. Como na canção dos Deolinda, «há trolhas escritores, / Letrados estucadores e serventes poetas / E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.» 
     No Diário de Lisboa, Joaquim Manso ironizou: os ases da pátria são sempre os que ficam cá. 
     Seguiu-se a escolha dos repórteres que deveriam acompanhar a missão. O governo cometera um erro com a viagem dos aviadores, atribuindo a um único jornalista (Paulo Freire) a missão de informar todos os jornais. Fora severamente criticado por isso e agora fora decidido que uma dezena de repórteres poderia subir a bordo, com as despesas pagas. Protestou a imprensa monárquica, tomando a medida como os tiques dos fidalgos arruinados.
     Depois, foi o problema naval. António José de Almeida confiou num velho navio apreendido aos alemães na Grande Guerra (o Porto) e temeu mais críticas de despesismo caso exigisse o regresso do couraçado Vasco da Gama ao continente. O Porto, porém, já não estava em condições. Demorou semanas em reparações. Era bafiento e malcheiroso. Partiu tarde de Lisboa e demorou de mais. Por essa altura, os críticos do regime já não poupavam nas chalaças. O navio era o Enguiço; a missão presidencial era leopárdica
     Assim, no glorioso dia 7 de Setembro de 1922, quando a missão portuguesa já deveria estar no Rio de Janeiro, a Nau Catrineta, como lhe chamou O Dia, ainda estava em Cabo Verde e decidiu comemorar ali, no mar, o centenário, com récita e champanhe. «Chegará trop tard como os clássicos carabineiros de opereta», ironizava Moreira de Almeida. «No segundo centenário, deve chegar a horas…» Chegou ao Brasil no dia 9 de Setembro.
     Só para lembrar, portanto, que há uma imagem a limpar no próximo ano.

sexta-feira, setembro 03, 2021

Mulheres jornalistas

 



       Na primeira metade do século XX, eram raras as mulheres nas redacções portuguesas. Tão raras que, da dúzia de senhoras que se destacaram, já deveria haver biografias mais substanciais sobre cada uma. 
       Maria Augusta Seixas deu-nos uma boa tese de mestrado sobre Virgínia Quaresma, a pioneira das pioneiras (embora não editada em livro). 
       O Wilton Fonseca descobriu um filão na brilhante Alice Oram, luso-britânica que relatou golpes e revoluções para os jornais ingleses. Começou também a identificar o papel de Joe Schercliff na política e no jornalismo portugueses de 1940-1960. 
       Com imodéstia, acho que dei a conhecer um pouco mais sobre a luso-brasileira Fernanda Reis, que saltou de pára-quedas na guerra da Coreia como enviada-especial de O Globo e foi redactora do Diário Popular, entre outros jornais. 
       Manuela Azevedo ditou memórias (falíveis e sinuosas, mas memórias) a Luís Humberto Marcos. 
       Maria Antónia Fiadeiro dedicou a sua tese a Maria Lamas em todas as suas dimensões – política, literária e jornalística. 
       Dina Botelho tratou a vida de Maria Archer. 
       Há dois anos, Isabel Baltazar publicou um primeiro opúsculo, com apoio da CM Arganil, sobre Irene de Vasconcelos, a primeira portuguesa licenciada na Sorbonne e correspondente do Diário de Lisboa durante quase uma década, cobrindo as sessões da Sociedade das Nações e entrevistando Mussolini e Briand. Julgo que esse trabalho está a ser continuado pela autora (encontrei, num arquivo que exploro, cartas inéditas de Irene que terão talvez alguma importância). 
       Faltam naturalmente outras. Carmen Marques, fundadora do Diário de Lisboa; Oliva Guerra, cantora e crítica musical; Francine Benoit, indecemente travada no Conservatório, mas com uma persistente acção corajosa de crítica de música no D. Lisboa; Aurora Jardim, cronista do Jornal de Notícias; Marta Mesquita da Câmara, primeira redactora de O Primeiro de Janeiro; e até Carlota Serpa Pinto, a Clarinha do "Chá das Cinco". 
       Há trabalho para fazer nesta área. Um bom ponto de partida é este livrinho e esta senhora, que tratava Indalécio Prieto por tu antes de este partir para a aventura da república espanhola.

quarta-feira, junho 02, 2021

O historiador que era jornalista às escondidas

 


        Era, afinal, um segredo de polichinelo.    
       Em 1938, a Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias, editou um livro muito curioso, único no seu género. Grandes Reportagens de Outros Tempos é um exercício de história e de jornalismo. Regressa aos momentos épicos da história de Portugal como se um repórter tivesse estado presente na época, usando a linguagem colorida dos homens dos jornais. São reportagens fora de tempo, com títulos provocatórios e descrições adjectivadas, embora recorrendo às fontes documentais de cada época. Reconhecem-se nelas as marcas de ourives do repórter, os tiques, os códigos profissionais. 
        As figuras históricas ou os observadores acidentais são entrevistados como no noticiário de crime dos periódicos. O marinheiro Artur Rodrigues, por exemplo, membro da expedição de Vasco da Gama, conta ao repórter, com as pupilas rebrilhando «de comoção», como foi a recepção real, empertigando-se «um tanto comicamente». 
        Em contrapartida, em 1667, o duque de Cadaval recusa-se polidamente a fornecer ao repórter um apontamento do pedido da princesa ao cabido da Sé de Lisboa para anular o casamento com Dom Afonso VI. «Sua Excelência negou-se, em termos corteses mas terminantes, a fornecer-me elementos sobre a petição ou mesmo sobre o andamento do processo». E, num exemplo precoce do uso da confidencialidade, «pessoa cujo nome devo ocultar passou-me para as mãos o papel, que me garantiu ser a expressão fiel da carta que Sua Majestade dirigiu ao cabido». 
        O repórter, por vezes, corre perigo. No enforcamento de Gomes Freire, «o Dr. Duarte, colérico, olhou-me com arrogância e convidou-se secamente a sair da torre». Noutras ocasiões, a sua presença é tolerada. Também acontece ser enxotado de uma sala para que os protagonistas possam falar livremente. 
        Por que motivo falo hoje deste livro? Prefaciado pelo historiador Caetano Beirão e ilustrado por Martins Barata (aliás, magníficas estampas que devem estar, se Zeus quiser, no arquivo do Diário de Notícias, a salvo de raposas e galinhas), o livro foi publicado em 1938 com a assinatura de Amador Patrício, um pseudónimo que já fora usado no século XVIII por um comentador da política lisboeta. Alguns autores defendem até que Amador Patrício escondia a pena do Marquês de Pombal (embora a tese mais consensual defenda que se tratava de Francisco José Freire).



        Desde a primeira leitura do livro que me questiono sobre a identidade do autor. No prefácio, Caetano informa que «o meu amigo Amador Patrício» pedira «algumas palavras para apresentação deste seu livro ao público». Conta também que o desafio partira de Eduardo Schwalbach, então director do Diário de Notícias, que encomendara as “reportagens” para publicação regular no jornal, mas que o próprio Caetano sentira que, sendo apenas «um obscuro investigador de coisas históricas» e não um jornalista, não podia aceder. «Lembrei-me então do meu amigo Amador Patrício.» 
        Não havia pistas aqui. Afinal, o próprio Caetano Beirão reconhecia que «numa reportagem de hoje ou de então, não importa conhecer quem a faz (…) Convém saber é se ela foi feita com probidade e interesse». 
        Na verdade, a resposta estava à frente dos meus olhos. No Dicionário de Pseudónimos, Albino Lapa não hesita em identificar Caetano Beirão com Amador Patrício. Cita aliás um texto do Diário de Notícias, de Fevereiro de 1938, altura em que o jornal terminou a publicação das reportagens históricas e anunciou discretamente a autoria. Pelo mesmo diapasão alinhou Adriano da Guerra Andrade no seu Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses
        Foi afinal Caetano Beirão quem prefaciou a sua própria obra. Sobrinho do professor Caetano Beirão da Veiga, também administrador da Empresa Nacional de Publicidade e grande impulsionador do novo edifício do jornal na Avenida de Liberdade, Caetano Beirão era chefe da secção de Correspondência do Diário de Notícias e historiador. 
        Talvez Caetano Beirão tenha tido para Amador Patrício a mesma ambição com que terminara a reportagem sobre a fuga do infante Dom Manuel em 1715. «Logo que tenhamos conhecimento do seu paradeiro, daremos dele conta aos nossos leitores que decerto ficarão ansiosos por conhecer a sorte de tão estimado e valoroso príncipe.» 
         Grato ao José do Carmo Francisco pela oferta de um volume que eu já julgava perdido.

terça-feira, dezembro 29, 2020

O director que recusava sair de cena

Caricatura de Schwalbach por Teixeira Cabral. Colecção do autor

 O Diário de Notícias completa hoje 156 anos e regressa às bancas. Evocando a longa história do jornal, a edição de hoje recupera três histórias batidíssimas (os relatos de Eça no Suez, a entrevista falhada com Hitler e o debate sobre a abolição da pena de morte). Salvam-se mais pela reflexão das autoras (Francisca Van Dunem, Maria Filomena Mónica e Irene Pimentel) do que pela novidade. Dou assim o meu contributo: eis a história (inédita) do director teimoso que recusava sair de cena.

 

Eduardo Schwalbach era um homem do século XIX. Vivera o tempo das gazetilhas e dos jornais programáticos, muitas vezes filiados nas ideias de um só líder político. Fizera carreira no teatro como dramaturgo e no Conservatório como professor. Não se lhe conhecia uma ideia firme sobre o regime ou a Igreja, sobre o partidarismo ou questões cambiais. Deu por isso um estupendo director de jornal quando Augusto de Castro, concluído o primeiro ciclo na direcção do Diário de Notícias, abraçou a carreira diplomática e partiu para o estrangeiro. Castro deixou o DN nas mãos do amigo e com uma cláusula que lhe permitia regressar. 

Schwalbach, em compensação, adorou as mordomias do cargo: o salário, o carro com motorista, a ausência de responsabilidades, as vénias e os salamaleques. Acúrcio Pereira, Rocha Júnior e depois Aprígio Mafra garantiam os fundos editoriais e os combates na primeira página. Schwalbach assistia às premières do Teatro Dona Maria.

Caiu o regime em 1926 e o cargo complicou-se. Numa das intentonas, em 7 de Fevereiro de 1927, o sempre prudente Diário de Notícias apostou mal por uma vez. Um golpe mal esclarecido na estrutura do jornal levou à publicação de uma edição clandestina de 2 páginas, não censurada, de apoio aos revoltosos no Porto e em Lisboa. Quando a revolta foi extinta (do lado do governo bateram-se Humberto Delgado e Henrique Galvão nos combates do Largo do Rato), Schwalbach ficou em maus lençóis. Devo a Mário Matos e Lemos a cedência de um curioso inquérito promovido pelo major Viegas Ventura e pelo capitão Galvão para apurar responsabilidades pelo motim. 

O suplemento clandestino. Arquivo de Carlos Ferrão


Diário de Notícias esteve proibido de sair durante quatro dias e, ao regressar, não trazia o nome de Schwalbach como director (o tenente-coronel Pestana de Vasconcelos assegurou a direcção interina). À boa maneira portuguesa, o inquérito culpou figuras menores – Mário Pires e Carlos Neves seriam despedidos e Rocha Júnior colocado na prateleira. Schwalbach foi forçado a fazer prova de fé. Não hesitou. O Diário de Notícias tornou-se um ardente defensor da ditadura militar.

Em 1939, na alvorada da Segunda Guerra Mundial, Castro regressou a Portugal escaldado por um escândalo diplomático na legação portuguesa na Bélgica. O genro e a filha tinham-se mostrado favoráveis aos republicanos na Guerra Civil espanhola e chegaram ao Ministério boatos piores sobre correspondência do diplomata. A sua boa estrela parecia finar-se.

Arregaçando as mangas, Augusto de Castro fundou A Noite, dando-lhe o brilho que mais nenhum jornal tinha. Desafiou Artur Maciel para a equipa e propôs, em fundo editorial, o ano de 1940 como lançamento das comemorações henriquinas. Voltou a alinhar-se com Salazar. Foi-lhe confiado o comissariado-geral da Exposição do Mundo Português. Em breve recuperou também a sinecura do Diário de Notícias, empurrando Schwalbach para a reforma aos 80 anos.

Perdia-se o salário, o carro com mordomo, as vénias devidas ao cargo. Em 1944, o ano em que esta história tem lugar, Schwalbach deve ter sentido que lhe deviam uma vénia final.

Alunos, actores, jornalistas e até o presidente Carmona cozinharam uma gala de homenagem ao dramaturgo no Teatro Nacional Dona Maria, prevista para o dia 26 de Fevereiro de 1944, com a representação de A Bisbilhoteira, uma peça de Schwalbach com algum odor a bafio. Os bilhetes, porém, não se vendiam apesar de o Diário de Notícias publicar uma notícia diária na primeira página em louvor do seu antigo director.

Velha raposa, Schwalbach percebeu que precisava de um golpe de asa – um pretexto para que o seu nome fosse recordado.

No dia 18 de Fevereiro, um ancião de 83 anos sobe a bordo de um carro eléctrico da Carris. A empresa estipulara há muito que entre Novembro e Fevereiro não se podia fumar a bordo para não contaminar mais o ar carregado do interior.

«Mestre Schwalbach, fumador impenitente (…), muniu-se de um cigarrinho, meteu-o na boquilha, meteu esta na boca e preparou-se para seguir o seu destino», narra a notícia do Diário Popular. Foi interpelado pelo fiscal. Recusou cumprir, argumentando com a semântica: «Fumar significa tirar fumaça de um cigarro. Mas, para isso, é necessário que o cigarro esteja aceso. Ora, o meu, como vê, está apagado.» 

O fiscal chamou o guarda-freios. Conferenciaram. Intimaram. Ameaçaram. Deverá ter saído fumo de tais cabeças pensantes. Por fim, chamaram a guarda que não teve outro remédio que não fosse conduzir o antigo director do Diário de Notícias à esquadra do Teatro Nacional, onde os grandes reclames já chamavam a atenção dos transeuntes para a gala. Esclareceu-se a controvérsia, Schwalbach não chegou a ser preso, mas fez questão de chamar os jornalistas para dizer que o fora. O seu nome voltou a ser falado em toda a cidade.

A gala do dia 26, segundo o Diário de Notícias, estava à pinha.

É assim que se vende um produto: com histórias novas e atrevimento. Que aliás parecem faltar ao novo Diário de Notícias que ontem cumpriu só meio desígnio – foi diário, mas não deu notícias.

Schwalbach e Castro numa notícia do ABC, 26 de Junho de 1924