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Comemora-se hoje mais um aniversário da independência do Brasil e estamos portanto a 365 dias do segundo centenário do país irmão. Talvez seja a altura de debater a possibilidade de Portugal fazer melhor figura do que fez no primeiro centenário.
Na verdade, o ano de 1922 até começara bem. A chegada apoteótica de Sacadura Cabral e Gago Coutinho à costa brasileira, em Junho, com sucessivos voos comemorativos entre cidades costeiras marcara uma aproximação cultural entre os dois países. Era o mundo latino que reivindicava destaque na corrida da aviação, uma vez que as grandes proezas aeronáuticas até então tinham sido entre países anglófonos.
António José de Almeida, o Presidente da República, foi convidado a comparecer nas cerimónias de 7 de Setembro. A partir daí, correu tudo mal. No Verão, foi declarado estado de sítio e recolher obrigatório – circunstâncias que aconselhariam contenção dos principais órgãos de Estado. A depauperação dos cofres recomendava igualmente uma missão modesta. Debalde. Toda a gente foi.
Acompanhando os preparativos da viagem pelas páginas da imprensa da época, constata-se a sucessão de incidentes embaraçosos. Começou com a escolha da missão intelectual que acompanharia o PR. À boa maneira portuguesa, todos os nomes estavam mal escolhidos. O Século ridicularizou o arabista David Lopes. O Dia não queria que o filósofo Leonardo Coimbra chefiasse a missão. Como na canção dos Deolinda,
«há trolhas escritores, /
Letrados estucadores e serventes poetas /
E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.»
No Diário de Lisboa, Joaquim Manso ironizou: os ases da pátria são sempre os que ficam cá.
Seguiu-se a escolha dos repórteres que deveriam acompanhar a missão. O governo cometera um erro com a viagem dos aviadores, atribuindo a um único jornalista (Paulo Freire) a missão de informar todos os jornais. Fora severamente criticado por isso e agora fora decidido que uma dezena de repórteres poderia subir a bordo, com as despesas pagas. Protestou a imprensa monárquica, tomando a medida como os tiques dos fidalgos arruinados.
Depois, foi o problema naval. António José de Almeida confiou num velho navio apreendido aos alemães na Grande Guerra (o Porto) e temeu mais críticas de despesismo caso exigisse o regresso do couraçado Vasco da Gama ao continente. O Porto, porém, já não estava em condições. Demorou semanas em reparações. Era bafiento e malcheiroso. Partiu tarde de Lisboa e demorou de mais. Por essa altura, os críticos do regime já não poupavam nas chalaças. O navio era o Enguiço; a missão presidencial era leopárdica.
Assim, no glorioso dia 7 de Setembro de 1922, quando a missão portuguesa já deveria estar no Rio de Janeiro, a Nau Catrineta, como lhe chamou O Dia, ainda estava em Cabo Verde e decidiu comemorar ali, no mar, o centenário, com récita e champanhe. «Chegará trop tard como os clássicos carabineiros de opereta», ironizava Moreira de Almeida. «No segundo centenário, deve chegar a horas…» Chegou ao Brasil no dia 9 de Setembro.
Só para lembrar, portanto, que há uma imagem a limpar no próximo ano.
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