terça-feira, novembro 30, 2004

Alcatraz do monte da Caparica

Absolutamente fascinante! A entrada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL), no monte da Caparica, tornou-se mais difícil do que o acesso a prisões de alta segurança. Pelo menos para quem cumpre as regras e se anuncia na portaria.
14 horas. Com uma entrevista marcada com um docente, esperava, na minha ingenuidade, anunciar-me, entrar no recinto e dirigir-me ao gabinete do investigador que me esperava. Puro engano! O procedimento de verificação de viaturas é meticuloso e é seguido com minúcia. Tive de repetir três vezes quem era, ao que ia e porque vinha. Fui, desde logo, compelido a "encostar" o carro enquanto o Gabinete de Segurança Interna (nome pomposo, este) confirmava as minhas credenciais. Pelo tempo que demoraram, apostaria que pesquisaram o meu nome nas bases de dados mais terríveis do globo. Quem sabe se não anda na margem sul uma célula vocacionada para ataques a instituições universitárias?
Esperei, esperei... De vez em quando, do lado de dentro do "guichet", olhavam-me com desconfiança. Que diabo! Senti-me como os foragidos da guerra fria no checkpoint Charlie, de Berlim.
O tempo foi passando, e o docente, algures num gabinete, ia desesperando. Fui entretanto informado de que cometi um erro processual: na FCT/UNL, as entrevistas têm de ser anunciadas previamente ao Gabinete de Segurança Interna (GSI). Desconheço os motivos. Será uma questão de juri? Imagino um painel de seguranças, em redor de uma mesa, cogitando sobre a pertinência do meu pedido de entrevista com um docente de mineralogia, curiosos perante o meu interesse num projecto de química orgânica ou intrigados pela minhas solicitações sobre a qualidade do ar.
Enquanto aguardo, verifico que outros carros entram e saem sem verificações. Aparentemente, esbarrei numa greve de zelo, tanto mais que, à saída, não há qualquer controlo. Perguntou por isso à fucionária se poderei estacionar no exterior e entrar a pé. Travo um diálogo de surdos.
"Também não pode entrar incógnito", responde ela, como se não visse as dezenas de pessoas que entram e saem sem qualquer controlo.
"E se eu não me anunciasse, como saberia o GSI quem eu era e se me deveria barrar a entrada?"
"Nós descobríamo-lo", retorque com um sorriso próprio de quem está seguro por um sistema de vigilância electrónica. Encolho os ombros. Deve ser para os "apanhados". E não evito um sorriso interior, enquanto imagino patrulhas de elementos do GSI vigiando as várias avenidas da FCT/UNL.
Finalmente, o meu pedido foi "deferido" e entrei. No interior dos departamentos, como seria de esperar, é a confusão total e dou por mim, semiperdido e isolado, num laboratório com espectómetros que valem certamente mais de 100 mil euros. Ninguém me diz nada e pondero a possibilidade de pegar num microscópio e levá-lo debaixo do braço. Na portaria, aposto, ninguém daria por nada. Porque, ao contrário de Alcatraz , no monte da Caparica não se consegue entrar, mas sai-se com toda a limpeza.

5 comentários:

Anónimo disse...

Muito kafkiano. Acredito que tenha acontecido. She o "Professorices" sabe desta cena, que dirá ele?

fmiguel disse...

Pode ter a certeza absoluta que se tivesse entrado a pé, a Segurança(?)tê-lo-ia ignorado, quer à entrada, quer à saída.

Ana disse...

Da próxima vez dê a volta por trás do campus e entre e estacione num dos parques dos alunos. Ninguém está lá a fingir que controla alguma coisa e vai à sua vida descansado. Quanto a saber onde é o local que procura, o melhor é perguntar aos transeuntes ou às senhoras da "recepção", uns balcões ao lado das entradas...

Anónimo disse...

Se quiser comprar droga da boa dê também a volta por trás do campus, entre e estacione num dos parques dos alunos.

Miguel Borges disse...

Ser "barrado" é tramado. Mas se fosse assaltado na FCT era bem pior não acha? Na verdade a falha também advém do docente que o convidou a vir (de certeza que este tb passa pelo sistema de segurança). A verdade é que teria passado a pé. A segurança é necessária para não haverem casos de "aluno esfaqueados à porta da faculdade" como já aconteceu.

Enfim, foi um dia confuso, acontece, mas não acha que o seguro morreu de velho? Abraço