Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

 

Os tolinhos da turma

Permitam-me que comece o ano com umas gotas de azedume. Nos últimos dias, recordei várias vezes a triste figura dos tolinhos da turma, os tontinhos que se calavam quando deviam falar e que só abriam a boca, em ruidosos protestos, quando a segurança dos números impedia que caíssem no ridículo. Todas as turmas de escola os tinham, mas seria de esperar que a idade adulta trouxesse alguma racionalidade. Infelizmente, não trouxe. E encontramo-los no quotidiano, nos escritórios, nas lojas, nos partidos, fascinados e exaltados se alguém os leva ao sério, calados que nem um rato quando a maré vai vazando.
O túnel rodoviário do marquês do Pombal é um bom exemplo - quase um laboratório social do fenómeno. Já escrevi sobre os motivos que, na minha opinião, não justificam a obra (ver "post" integral aqui). Mas pasmo agora com a notável eloquência dos comerciantes da zona, dos repórteres e analistas, dos leitores que remetem cartas ao director (ui, se falássemos disso!) e dos cidadãos escolhidos ao acaso nos inquéritos de rua de que os jornais tanto gostam e que não são mais do que um espelho fusco da nação inconstante. Com a voracidade de uma alcateia, a turba atira-se agora a Sá Fernandes, escudada que está nesse pedido de indemnização mentecapto que a Câmara Municipal de Lisboa resolveu interpor contra o autor da providência cautelar. Sá Fernandes tornou-se o saco de pancada dos lisboetas, como se tivesse sido ele que projectou o declive absurdo, o túnel que roça as galerias do metro, as obras que minam o centro há três anos. Mas o povo acha que sim. Acha que o estudo de impacte ambiental deu razão à edilidade (não deu). Acha que a providência cautelar foi inútil (não foi). Acha que o novo plano rodoviário vai permitir mais e melhores acessos da linha de Cascais ao centro de Lisboa (não vai). Acha que o trânsito não será agravado (veremos). E, se for preciso, o povo ainda opina com prognósticos para a bola no sábado, para as eleições legislativas de Fevereiro e sobre o destino da Casa da Música. O povo adora microfones e gosta de ser "sondado". Sobretudo, quando se pode queixar, apontar um culpado e escudar-se na segurança dos números. Os tolinhos da turma cresceram e continuam iguaizinhos.
Há muito que se fala do défice de participação cívica dos portugueses. Ele é real, é incontornável. E este caso foi, em todas as fases, um laboratório social. Vejamos:
I) A coligação que venceu as eleições autárquicas de 2001 prometeu o túnel e avançou para a obra. A população resmungou entre dentes. Mas ninguém estava ainda afectado. Poucos protestaram.
II) Quando as obras começaram e a escavação avançou, iniciou-se o pandemónio. Residentes e não residentes rosnaram de desagrado. Aqui d'el rei que estamos a ser prejudicados. Mas poucos se organizaram e utilizaram os mecanismos legais contra um empreendimento que queimou etapas e dispensou procedimentos para acelerar a marcha.
III) O advogado Sá Fernandes solicitou a interrupção das obras até à realização do indispensável estudo de impacte ambiental, que deveria ter sido feito de raiz, antes de se furar a Avenida Joaquim António de Aguiar. A obra parou, a turba achou graça, o caso seguiu para tribunal.
IV) À medida que o impacte do estaleiro ameaçou, mais ainda!, a sobrevivência das lojas da zona e afectou, mais ainda!, o trânsito do centro, a turba iniciou a intifada contra... Sá Fernandes. Não foi contra a edilidade ou contra o edil que partiu sem olhar para trás. A culpa "disto", envolvendo no "isto" tudo e mais alguma coisa desde a revolução liberal de 1820 até ao jejum de títulos do Benfica , é do advogado, "que só quer propaganda", "que é um mau lisboeta", "que não quer o desenvolvimento" e "que agora devia pagar as falências das lojas todas".
Ninguém quis saber do estudo de impacte ambiental e suspeito que a maioria dos críticos não o leu e nem faz tenções disso. Nem é preciso. Os tolinhos da turma falam a destempo, ignoram os factos e protegem-se na segurança dos números. Sempre foi assim.

Comments:
Como gostava de escrever assim. Subscrevo totalmente este post. É pena não haver mais gente em mais lugares dizer o mesmo. Aproveito para agradecer o comentário que deixou no Ondas e desejar-lhe um Bom Ano Novo cheio de saúde. Um abraço. OLima. (ondas.blogs.sapo.pt)
 
E eu a pensar que o melhor de ter acabado os estudos (pelo menos por agora) era exactamente deixar de aturar os tolinhos da turma.
 
O túnel do Marquês é um erro, e um erro que se tornará mais evidente quando as obras estiverem concluídas e os benefícios prometidos ficarem aquém do esperado.

Exactamente por isso, e porque não acredito que nenhum projecto deva avançar sem o necessário estudo de impacto ambiental (ainda para mais com os evidentes problemas de concepção que esta obra tem), defendi a posição do advogado Sá Fernandes.

Hoje, confessando desde logo que não li as conclusões do estudo ambiental, continuo convencido que a posição do advogado em causa é louvável.

O que eu não consigo compreender é o seu comentário que esta providência cautelar não foi inútil.

Tanto quanto sei, as obras já recomeçaram e não houve qualquer alteração ao projecto do túnel.

Se assim for, a única vantagem foi talvez, e apenas talvez, lançar um sinal de alarme para o próximo autarca que decida lançar um projecto a correr, apenas para vê-lo concluído a tempo das próximas eleições autárquicas.

Caso contrário, e tenho pena de dizê-lo, os resultados práticos de todo este caso foram apenas mais uns meses de caos para a zona das Amoreiras e do Marquês.

RR - Lisboa
 
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