segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Morte Lenta

Aproveitando a agitada gincana em que as eleições se transformaram, cometeram-se algumas barbaridades nas últimas semanas. Por baixo da mesa, como um ilusionista que desvia a atenção da audiência para poder realizar o truque de "magia", vamos conhecendo, aos poucos, atropelos à lógica e à lei. É aliás bem possível que o que sobe à tona seja apenas a ponta do icebergue.
Recebi de um arqueólogo amigo a seguinte nota que, pelo seu interesse, partilho com os leiores do Ecosfera:


"Novas instalações para a Escola Portuguesa de Arte Equestre e Museu dos Coches
2005-02-10
Novas instalações para a Escola Portuguesa de Arte Equestre e Museu dos Coches
Numa cerimónia presidida pelo Primeiro-Ministro, Dr. Pedro Santana Lopes, foi assinado, esta quinta-feira, um protocolo que permitirá instalar o Museu dos Coches e a Escola Portuguesa de Arte Equestre no espaço das antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, situadas na Avenida de Índia.
O protocolo entre o Serviço Nacional Coudélico, o Instituto Português do Património Arquitectónico e a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais permitirá igualmente restituir ao actual edifício do Museu dos Coches as suas funções originais de Picadeiro.
O plano de instalação prevê que todos os passos a dar permitam que a construção se inicie em 2007 e que o novo espaço entre em funcionamento em 2008.
Recorde-se que desde 1979 que as instituições em causa aguardam a sua instalação nas antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia."

Pois é, assim sem mais, a notícia surge com uma simplicidade tocante.
Mas, e há sempre um pequeno mas, as antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia não constituem propriamente um imóvel devoluto ou abandonado.
Entre outros serviços, eventualmente de menor expressão, do Ministério da Cultura, trata-se do local onde está sediado o Instituto Português de Arqueologia (o instituto público a quem compete o inventário e salvaguarda do património arqueológico nacional), o CIPA (Centro de Investigação de Paleoecologia, um organismo científico da maior importância para o estudo das realidades ambientais antigas, do espaço que hoje é Portugal), o CNANS (Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, a entidade pública que vela pela salvaguarda do património histórico nacional, em meio subaquático). Como se não bastasse, é no IPA também que se encontra a mais importante biblioteca de Arqueologia existente em Portugal. Uma biblioteca que foi constituída com o fundo bibliográfico da antiga delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão, cedida ao Estado português por um acordo de comodato, que implica obrigações por parte do nosso Estado. Este núcleo inicial, foi acrescentado em poucos anos, mercê de uma lúcida e eficaz política de aquisições e permuta de publicações. Tão importante é esta entidade que, em boa hora, foi decidido resguardá-la em novas e mais dignas instalações, justamente na Av. da Índia, que se encontram em fase de acabamento e onde, ironicamente, foi assinado o protocolo a que se refere a notícia em epígrafe.
No puro domínio do surrealismo, haveria a registar o facto de as instalações da dita biblioteca, ainda por inaugurar, terem servido para assinar um protocolo que ditará forçosamente a destruição dessas mesmas instalações. Tal diz muito sobre o conceito de boa utilização dos fundos públicos e de planificação estratégica das actividades dos organismos públicos.
Mas o que verdadeiramente interessa perguntar é:

1 – Para onde irá o IPA e se continuará a existir enquanto organismo autónomo?
2 – Naturalmente, também, para onde irão o CIPA e o CNANS e se continuarão a existir enquanto entidades?
3 – Para onde irá a Biblioteca e se o Estado português continuará a honrar os compromissos assumidos no passado?

Em suma, três questões relevantes e de superior interesse público.
Naturalmente, numa perspectiva cínica, poderíamos dizer que se trata tão-somente de mais uma iniciativa desastrada de S. Exª o Sr. Primeiro-Ministro e que nada disto fará sentido no dia 21 de Fevereiro.
No entanto, porque os assuntos são sérios, porque em eleições, como em tudo na vida, não há vencedores e vencidos antecipados, e porque estamos em campanha eleitoral, seria interessante saber o que cada partido tem a dizer sobre estes temas.

Aceitam-se comentários.

1 comentário:

Helena Abreu disse...

É bom relembrar que o nosso actual primeiro ministro foi em tempos o Secretário de Estado responsável pela tentativa de abrir as águas nacionais a potenciais "piratas" estrangeiros interessados na exploração dos vestígios subaquáticos. De relembrar ainda que o advigado envolvido neste processo (na criação dos meios legais para viabilizar a "negociata"!) era nem mais nem menos que Rui Gomes da Silva (envolvido actualmente na "estranha" saída do prof. Marcelo Rebelo de Sousa da TVI). Coincidência? ou talvez não!
É bom de ver que a cultura não é o forte do actual executivo, tal como não o foi quando Santana Lopes era apenas um secretário de Estado da Cultura. É que isto da cultura tem muito que se lhe diga. Pena é que se entenda cultura como algo que serve apenas para "animar a malta". E que um picadeiro é um bem de primeira necessidade toda a gente sabe!
Mais uma vez: pena é que sejamos invariavelmente governados (por nossa escolha, é bem verdade!)por gente de curta visão. De qualquer forma, como há pouco tempo se ouvia no Fórum da TSF: "nem estamos mal se nos considerarmos um país do norte de África!".