domingo, fevereiro 06, 2005

Ao menos aqui há rumo


Caldeira Velha - São Miguel

(Açores) Suponho que quem vive no continente, como eu, sente frequentemente que o barco da conservação da natureza não leva ninguém ao leme. É um imenso "Holandês Voador" à deriva, sem rumo, guiado pelas correntes até chocar algures. Não se sabe quando, mas chocará.
Ora, acabo este périplo açoriano com a distinta sensação de que aqui, em pleno oceano Atlântico, as trapalhadas da República não perturbam tanto. É certo que ainda há um ministro da República para os Açores, espécie reciclada de governador manuelino e figura colonial muito invectivada. Mas talvez a distância geográfica tenha a vantagem de impermeabilizar os Açores. É longe, é remoto, o Ministério do Ambiente praticamente não mete o bedelho aqui e concede autonomia às secretarias regionais para gerir patrimónios naturais com parcimónia. Seguindo o mesmo raciocínio, as ONGS também aqui são mais engenhosas, contestam mas também propõem, refilam mas também agem. Dois exemplos:
1) Há três anos, estive na Caldeira Velha de São Miguel e fiquei desgostoso com o que então vi. Lixo acumulado em jeito de «bibelots» paisagísticos; caminhos sulcados pela chuva, que pareciam crateras lunares; uma imundice de bradar aos céus; e as estruturas de madeira, que marcavam os caminhos e delimitavam estruturas, há muito tinham sido predadas para a construção privada de galinheiros e obras afins. Em Agosto de 2004, as caldeiras foram classificadas como monumentos naturais, e todo o espaço de visita foi arranjado, limpo e barrado ao trânsito. Hoje, dá gosto ir ali. Já lá vão seis meses desde a inauguração e a estrutura permanece nobre e apetecível. Ora verifiquem da próxima vez que ali passarem.
2) Assisti praticamente ao nascimento de uma organização sem fins lucrativos - o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA). Desde 2001 até hoje é verdadeiramente notável a actividade do jovem OVGA e dos seus dirigentes. Edita livros (não percam o "Atlas Básico dos Açores", obra que embaraça a Madeira e faz o continente corar de vergonha ). Emite pareceres. Realiza investigação e torna-a acessível ao público (um milagre para quem se habituou a (des)esperar pelos relatórios do Instituto de Meteorologia). Mais importante ainda, construiu uma sede na Lagoa (São Miguel), espaço museológico sem bafio, obra moderna e pioneira, que se arrisca a fazer parte de todas a visitas turísticas à ilha.
Desde a réplica de um túnel lávico ao bar "Treme Treme", a sede do OVGA foi pensada para desmitificar os vulcões, para aproximar visitantes e populações locais do fenómeno que gerou o arquipélago e que continuará ciclicamente a fazer parte do quotidiano.
O conceito associado ao espaço é pioneiro. Imaginem um museu pensado para não aborrecer, pedagógico mas não exaustivo. E, clato, a paisagem também ajuda. De frente, a lava solidificada contextualiza a visita; por trás, dois cones vulcânicos recordam a génese da vulcanologia.
Por isso digo que há vantagens por estar longe de Lisboa. Há dias, um político reformado dizia-me, desapontado com a política centralista da capital, que nos territórios onde há calores de ananases, como Portugal continental, normalmente não se dá a civilização. Sendo assim, viva a neblina e a insularidade!

2 comentários:

Anónimo disse...

Estou vendo que a telúrica natureza açoriana está a exercer uma influência muito boa em si. :))
Um abraço. Octávio Lima

FORJAZ disse...

A morte de 3 pessoas,a semana passada,na estrada Furnas-Povoação,
onde a viatura foi arrastada por um deslizamento de terras,prova que a)na vida há azares e sortes (azares pelos que pereceram e sortes por que não foi um autocarro de passageiros b) assim como existe pouca educação ambiental tamb.existe pouca cultura de protecção civil c)se deve rever a sinalização de certas estradas (por isso existem aqui deputados...) ABRºVHF