quinta-feira, junho 20, 2019

As lições a reter da Vénus de Beringel

Fragmento da colecção do Museu Regional de Beja.
Imagem recolhida em "Ártemis Efésia na Lusitânia", de Graça Cravinho

Tudo começou com uma descoberta fortuita em Fevereiro de 1943. Na herdade do engenheiro Mira Galvão em Beringel, perto de Beja, encontrou-se por acidente durante trabalhos agrícolas o fragmento de uma estátua nobre. O Diário de Lisboa reportou o achado e a oferta do mesmo ao arqueólogo Abel Viana, um homem do Minho há muito radicado no Alentejo.
Sagaz, Viana intuiu que se trataria de uma representação de Vénus Afrodite e assegurou a peça para o Museu Regional de Beja. Conhecedor da natureza humana, assegurou também que o engenheiro florestal (e futuro deputado na Assembleia Nacional) receberia igualmente crédito pelo acto de filantropia.
 
Diário de Lisboa, 27 de Fevereiro de 1943
(a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)
Os anos avançaram. No Museu Nacional de Arqueologia, Manuel Heleno, uma das figuras mais complexas da ciência portuguesa do século XX, tomou posse desta disciplina como um governador provincial romano. Em breve, criaria anticorpos de Norte a Sul, como a correspondência entre Abel Viana e O. da Veiga Ferreira (publicada por João Luís Cardoso) eloquentemente demonstra. Viana designava Heleno depreciativamente como “o Grego”, juntando normalmente outros qualificativos como "o traste" ou "o invejoso do Heleno"
Beringel voltou ao mapa da arqueologia portuguesa uma década depois. Em 1953, Abel Viana voltou a ser alertado para uma descoberta fortuita numa herdade de Beringel. Tratava-se de uma ara votiva dedicada a Apolo e, desta feita, o artefacto nem estava enterrado: «Se o invejoso do Grego adivinhasse que estava a um canto de um lagar de azeite em reconstrução, que nem porta tinha…», brincou.
Repetiu o processo. Lisonjeou o filantropo (ao tempo, vice-presidente da autarquia de Beja) e levou a ara para o Museu. Em carta para O. da Veiga Ferreira datada de 1 de Janeiro de 1954, deixou estes pensamentos menos nobres sobre os motivos para o seu contentamento: «Descobri uma coisa raríssima, uma importantíssima peça arqueológica. Mas não vai para Belém, não senhor! Se aquele idiota não procedesse da maneira infame de que tem usado para comigo, já lá teria muitíssima coisa. Assim, não chupa nada. O homenzinho vai ficar sem pinga de sangue... Mas há-de gramar o desapontamento.»
Lembrei-me desta história na semana em curso ao assistir a uma luta de demarcação sobre quem tem direito a investigar uma certa área. Ao investigador reprimido, recomendo uma resposta semelhante à que Abel Viana proferiu então: «Que diabo quer esse homem? Então ninguém em Portugal pode estudar arqueologia? Teremos todos que andar a rastejar perante o cavalheiro? Tenho a certeza de que o aleijo!»
Carta inserida em "Correspondência Anotada de Abel Viana a O. da Veiga Ferreira 1947-1964",
de João Luís Cardoso, Oeiras, 2001/2002



2 comentários:

Maria João Silva disse...

Três anos depois (em 1947) haveria outro achado arqueológico muito importante no Alentejo - a descoberta dos mosaicos romanos de Torre Palma. Mas esses Manuel Heleno não deixou escapar e estão hoje nas reservas do Museu Nacional de Arqueologia...
Nos 70 anos da descoberta publicámos um pequeno texto sobre esse achado. Se tiver curiosidade em ler está aqui: https://coisasinfungiveis.wordpress.com/2017/05/29/apareceu-monforte-mosaico-romano-com-figuras-ha-setenta-anos/

Gonçalo Pereira disse...

Muito obrigado! Vou ler com muito interesse.