sábado, fevereiro 07, 2026

O falsário erudito


Barcelona – Estou no gabinete de Ignasi Adiego, na velhinha Universidade de Barcelona, discutindo o fascinante tema das fraudes na história da epigrafia. Ignasi é um dos mais conceituados linguistas europeus e um dos poucos que podem orgulhar-se de ter decifrado uma escrita – o cário, da Anatólia.

       “As fraudes são complexas, mas não costumam ser infalíveis”, diz. “Ou o falsário percebe pouco da escrita em causa e introduz gatafunhos na inscrição ou copia texto de outras inscrições que acabam por aparecer.” Faz uma pausa e acrescenta: “Claro que é bastante mais complicado quando o falsário é especialista…”

       O meu interlocutor não mo diz mas é provável que estivesse a pensar no estranho caso de James Mellaart, o arqueólogo britânico que trabalhou na Turquia e que foi decisivo para explicar a Idade do Bronze nesta região. Entre 1958 e 1965, Mellaart deu a conhecer Çatalhöyük ao mundo, um dos mais extraordinários sítios neolíticos do mundo. Só que fez mais do que isso.

       Em algum momento do seu trajecto, apaixonou-se pela atenção global que as suas teorias mereciam e começou a falsificar evidências. Apresentava a informação como proveniente de colecções privadas ou copiada de alguém que vira o original no século XIX, antes de a peça se perder para sempre.

       A academia tem muitas virtudes, mas não desconfia das suas estrelas do norte. É provável que os actuais especialistas em Neolítico tenham estudado pelas suas obras sobre o Próximo Oriente e baixaram a guarda. Quando Melaart apresentou evidências de uma extraordinária inscrição luvita, ninguém parou para pensar. Os signos tinham sido preparados no seu escritório — descobriu-se após a sua morte. Os investigadores que analisaram o seu espólio descobriram esboços e até anotações como “demasiado óbvio”, junto de propostas alternativas de glifos e símbolos.

       Mellaart pregara a partida definitiva aos seus colegas e discípulos. Alguns hesitaram. O suíço Eberhard Zangger escreveu um perfil decepcionado do mestre e amigo. Outros reagiram com repugnância.

        Mellaart fez recuar o seu campo de trabalho em décadas. Tornou difícil distinguir os contributos válidos dos inválidos no seu percurso. E, no estudo da escrita luvita, contaminou para sempre a investigação.

        É bem pior quando a maçã bichada é a mais robusta da árvore.