sexta-feira, novembro 22, 2019

Sessenta anos na gaveta


Durante sessenta anos, ninguém ligou ao diário de Mircea Eliade. Entre 1941 e 45, o escritor foi adido cultural da embaixada do seu país em Lisboa. Conheceu Salazar e Carmona, travou amizade com António Ferro, Correia Marques e Manuel Múrias e viu com apreensão a caminhada da Roménia para o abismo, à medida que o regime fascista de Bucareste participava na guerra. O diário foi descoberto em 2006, publicado em romeno, em castelhano e por fim em português.
Em 1941, note-se, Eliade é um conservador. Admira Salazar, mas abomina Hitler. Adora Lisboa, mas queixa-se da «pobreza intelectual desta gente». Escrevia uma página diária num caderno de escola e arrancava-a para a juntar ao esconderijo das outras, não fosse alguém na embaixada ler as suas reflexões. Deixou-nos neste diário um relato psicológico da Lisboa em tempo de guerra que vale a pena ler. Um exemplo: 
«17 de Dezembro de 1941. Desde que os Estados Unidos entraram na guerra, aqui mudou a atmosfera: os portugueses estão nervosos, têm medo, receiam... os sucessos navais alemães intimidaram-nos. Estava numa tabacaria quando se soube que o Prince of Wales e o Repulse tinham sido afundados. Dois burgueses olharam um para o outro, pálidos: – Por este andar, com dois couraçados por dia, estamos f......! Há alguns dias, rumores lançados pelos ingleses: os japoneses entraram em Macau, os alemães vão ocupar Portugal...
Hoje fala-se em Timor sem nada de concreto.
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