segunda-feira, outubro 14, 2019

Os jornais e os repórteres nas 50 Voltas de Guita Júnior


Entre 1950 e 2013, Guita Júnior acompanhou 50 Voltas a Portugal como jornalista de diversas publicações. À sua frente, desfilaram campeões e aspirantes, mas ficou sobretudo registada uma história de amor entre um jornalista e o seu desporto.

Ilustração de Luís Taklim

Esta história começa na velha estrada entre Braga e o Porto num fim de sábado primaveril de 1939. O automóvel do Diário de Notícias é conduzido pelo jornalista Raul de Oliveira, director do jornal Os Sports. A seu lado, segue o tenente-coronel aviador Pinheiro Correia. O modelo do automóvel é britânico, pelo que Oliveira conduz do lado direito, apoiando «confiadamente o braço direito na porta do carro, como quem não receasse qualquer acidente». Ao quilómetro 16, à passagem do «fatídico lugarejo» Peça Má, o condutor falha uma curva. «O veículo derrapou inesperada e violentamente para galgar depois a berma da estrada e embater de encontro a um muro de vedação de uma propriedade rústica.»
À primeira vista, Pinheiro Correia acredita que o acidente não deixou sequelas.
      Eh Raul, aguenta-te! Haja saúde!…
Com extraordinário sangue frio, o jornalista «voltou-se para o seu companheiro de viagem e, sem um grito, sem um queixume, sem um desânimo, apenas lhe respondeu nestes precisos termos:
      Estou mutilado…»
O capítulo seguinte decorre no Hospital da Misercórdia de Braga. São prestados os primeiros socorros ao director do mais lido jornal desportivo da nação neste ano de 1939.  Os médicos de serviço (Joaquim Graça, Araújo Teixeira e Gil da Costa) percebem rapidamente que o infeliz condutor só tem uma hipótese de sobrevivência – o braço direito terá de ser amputado.
Diário de Notícias, 26 de Março de 1939
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Acompanhemos o pulso da extraordinária reportagem do Diário de Notícias, jornal-irmão de Os Sports sob o chapéu da Empresa Nacional de Publicidade. «Quando os médicos se predispunham a preparar o sinistrado para essa melindrosa operação, foram surpreendidos pela extraordinária coragem moral de Raul de Oliveira que, sem um queixume, declarou prontamente estar pronto a esse irremediável sacrifício. E, esforçando-se por incutir ânimo aos que o rodeavam, Raul de Oliveira pediu um cigarro e, quase sorridente, lá se ajeitou na maca rodada que o transportou até à sala de operações onde os referidos clínicos, visivelmente comovidos, lhe amputaram o braço direito.»
Ao fotógrafo Marques da Costa, Raul de Oliveira entrega uma última mensagem:
– Antes de me fazerem a amputação, transmite um abraço a todos os nossos camaradas. E avisa a minha esposa [Alda de Oliveira]. É preciso que ela saiba tudo e que venha sem demora.
Nessa tarde de 25 de Março de 1939, um dos pais do ciclismo em Portugal sofre o maior desgosto da sua vida, mas renovará energias para, nas três décadas seguintes, inspirar atletas e jornalistas, como o protagonista da história que agora se contará.
Raul de Oliveira e Tavares da Silva, dois pioneiros do jornalismo desportivo
(Arquivo Revista Stadium – Hemeroteca de Lisboa)
A VOLTA DE 1950
Avancemos 11 anos no calendário. No Estádio do Lima, no Porto, 68 ciclistas agitam-se com nervosismo antes da partida da XV Volta a Portugal de 1950. Como em muitas edições anteriores, a realização da prova esteve na corda bamba. Por falta de interessados, a Federação Portuguesa de Ciclismo organizara as edições dos dois anos anteriores, com avultados prejuízos e reclamações de amadorismo. Estava fora de questão nova aventura financeira e a Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias e do Mundo Desportivo (jornais que, com o Sports, tinham assegurado boa parte das edições anteriores), também não mostrava vontade de repetir a loucura.
Avançou por isso o Norte. Desde 1927, o ano da primeira Volta a Portugal, que o Norte de Portugal fervilhava com uma emoção muito própria à passagem dos ciclistas. Logo no primeiro ano, existira até a tentação de replicar a Volta num percurso circunscrito ao Norte, prova que a imprensa de Lisboa, sempre gozona, designara por Voltinha. Desta feita, o Diário do Norte, através do seu diligente director António Cruz, responsabilizou-se pela prova. Assim, no dia 26 de Julho de 1950, o pelotão junta-se no Porto para nova aventura.
A nata da imprensa desportiva da época está presente. Afonso Lacerda e Mário de Oliveira representam A Bola. São pesos-pesados da modalidade. Enquanto lhe permitirem escrever em A Bola, Lacerda será um dos mais exuberantes cronistas da sua geração. Arrumado numa prateleira do dirigismo desportivo, será depois injustamente esquecido na partilha de quotas do jornal realizada em 1960. Mário de Oliveira, em contrapartida, fora um dos pais da Volta a Portugal como redactor do Sports e cumpria nesta edição uma das suas últimas campanhas.
António Cruz, José Devezas e Manuel Vasconcelos representam o Diário do Norte. Silva e Costa carrega o estandarte de O Século. Artur Agostinho narra todas as peripécias aos microfones da Emissora Nacional. Justino Lopes, correspondente de A Bola no Porto, trabalha para o Comércio do Porto. Do Jornal de Notícias, seguem Eduardo Soares e Manuel Ramos. Manuel Mota cobre a Volta para o Diário de Notícias e o popular Zé de Gaia para O Primeiro de Janeiro. Tavares da Silva, criador de metáforas inesquecíveis, divide as suas horas pelo Diário de Lisboa (DL) e pela revista Stadium. Valentim de Campos escreve para Sporting e Fernando Ávila para o Diário Popular. Atentemos, porém, nos dois últimos representantes da tribo ecléctica da imprensa.
De um lado, está Raul de Oliveira. Em boa medida, o director do Mundo Desportivo é a razão para toda a multidão se concentrar hoje aqui. Começara a carreira no Sports Lisboa, antes de cumprir o serviço militar no Regimento de Transmissões durante a Primeira Guerra Mundial. Entre 1917 e 1918, esteve em França e na Bélgica e, apesar dos horrores que viu em La Lys e na região de Arras, ficou igualmente encantado com as provas velocipédicas que ali tinham lugar. Ganhou o bichinho do ciclismo. Em 1923, ao ganhar um prémio de lotaria, investiu o pecúlio na organização da I Volta a Lisboa, um sucesso relativo quando se subtraíram as despesas aos ganhos, mas um fenómeno notável de adesão popular. Dinâmico, organizou provas e pugnou pela promoção do desporto. Foi dele a ideia pioneira, durante os Jogos Olímpicos de Amsterdão de 1928, de organizar no Rossio um quadro eléctrico que representava «um campo de futebol e onde uma bolinha, comandada electricamente, acompanhava a evolução que, lá longe, tinha a bola a sério», lembrou o seu jornal de sempre em 1972. As multidões aglomeravam-se na praça seguindo a bolinha mágica, presas ao que ela significava.
Em 1927, Raul de Oliveira propôs à administração do DN e do Sports a organização de uma Volta que se tornaria a menina dos seus olhos (Fernando Ávila virá mais tarde a creditar também Cândido de Oliveira pela ideia, mas a sua tese carece de evidências documentais). A paixão pelo ciclismo teria custos dolorosos. Em Março de 1939, já vimos como terminou uma viagem de rotina para escolha de cidades capazes de acolher uma etapa da Volta. Sem braço daí para a frente, mas com o espírito de sempre, o director do Mundo Desportivo prosseguiu a sua missão, que o levaria igualmente a outras conquistas: foi ele também quem persuadiu as autoridades a colocarem potentes projectores no Estádio Nacional de forma a viabilizar o primeiro jogo nocturno de futebol no país.
Perto do homem que chefiou o Sports e o seu continuador, o Mundo Desportivo, está um jovem algarvio, de 21 anos, chamado Eduardo Guita Júnior. Nascido em Olhão, crescera no Barreiro.  Na Grande Lisboa polarizada entre o Sporting e o Benfica, Guita Júnior escolheu o Belenenses como clube da sua afeição. Num país monoteísta no que toca ao domínio do futebol, Guita Júnior escolheu o ciclismo como modalidade predilecta.
A primeira fotografia de Guita Júnior publicada no Record, em 1950
(Biblioteca Nacional)
Na Volta de 1950, Guita Júnior escreve para um jornal recém-nascido, o Record, então apenas publicado ao sábado. Nascera das artes do acaso. O atleta do Benfica Manuel Dias ganhara um prémio gordo da lotaria (sempre a lotaria…) e decidira investir o dinheiro num novo jornal. Recorreu a quem melhor conhecia. Fernando Ferreira, treinador e preparador físico do clube, assumiu a direcção. Monteiro Poças organizou as secções de um jornal que rapidamente recrutou nomes que dariam que falar, como Alves dos Santos, Henrique Parreirão, Mário Cília e... Guita Júnior. Estava previsto que Afonso Lacerda chefiasse a redacção (e o seu nome até consta do primeiro número do jornal), mas o grande jornalista terá tido pouca confiança no sucesso e deixou-se ficar em A Bola «por motivos da sua vida particular».
«Em miúdo, terei assistido a duas ou três chegadas de etapas, mas o bichinho do ciclismo ficou logo cá», conta Guita Júnior, hoje com 90 anos, no seu gabinete da Federação Portuguesa de Ciclismo. «Em 1950, fiz a cobertura parcial da Volta a Portugal para o meu jornal e fiquei apaixonado pela aventura. O factor mais cativante do ciclismo era a aventura. Eram três semanas de obstáculos imponderáveis. Estradas poeirentas ou de macadame. Caminhos florestais. Travessia de linhas férreas e de ribeiros que, por vezes, estavam mais cheios do que o previsto. Quedas, furos, acidentes. Vantagens que desapareciam porque o atleta perdia dez minutos à espera de uma nova bicicleta. Aquilo era épico.»
Uma das fantásticas primeiras páginas da Stadium sobre a Volta de 1950
(Hemeroteca de Lisboa)
O perfil do ciclista da época era igualmente diferente dos restantes desportistas. «Muitos vinham da vida rural. Era gente de fibra. O ciclismo começou por ser passatempo de ricos, mas, quando as provas endureceram, essa gente já não conseguia aguentar. Ganhavam os homens do campo, muitos dos quais, apesar de competirem durante três semanas, acabavam a Volta com mais peso do que tinham começado», conta Guita Júnior. «Nesse período, tinham acesso a refeições a que não estavam habituados.»
Os imponderáveis do ciclismo – um furo, como sucedeu a Félix Bermudes, levava à perda de dezenas de minutos

A Volta de 1950 ficou marcada por várias peripécias. Na mais famosa, em Castelo Branco, o vencedor da etapa cortou a meta no sentido contrário ao previsto por deficiente sinalização na cidade. Em Vila do Conde, no circuito velocipédico que fechava outra etapa, os ciclistas hesitaram entre o número de voltas que era suposto dar. Discutiam-se prémios. A Ovomaltine, patrocinadora da prova, conseguia vergonhosamente inserir mensagens publicitárias no corpo das reportagens de Tavares da Silva no Diário de Lisboa. Nada disto esmoreceu o entusiasmo de Guita Júnior. «Era um mundo apaixonante. Acompanhávamos os ciclistas num carro que não estava sujeito às regras modernas. Andávamos para a frente e para trás, falando com os ciclistas, partilhávamos as suas dores e nunca sabíamos o que iria acontecer. Os pelotões também eram mais fragmentados do que hoje – cinco ciclistas aqui, mais quatro acolá.»
Como tudo na vida, o dinheiro fazia alguma diferença, mesmo na cobertura da Volta. Jornais mais endinheirados como A Bola ou o Diário de Lisboa contavam com um carro próprio (no caso do DL, um vistoso Austin preto) e telefonavam os seus relatos para as redacções. Mais modesto, o Record acompanhava como podia. «No primeiro ano, nós e o Diário Popular alugámos um táxi para seguir a prova», conta Guita Júnior com uma gargalhada. Como o jornal não era diário, o repórter enviava no final do dia as folhas de texto e os rolos de fotografia pelo serviço de camionagem, combinando com um camarada o ponto de entrega dos materiais em Lisboa.
Guita Júnior com Carlos Gomes, guarda-redes do Sporting da década de 1950
(Arquivo de Guita Júnior)
69 anos de amor pelo ciclismo
Os primeiros trabalhos de Guita Júnior captaram a atenção do Diário de Lisboa. A partir de 1951, o jornalista juntou as tarefas no Record ao serviço desportivo do DL, onde Tavares da Silva se destacava e era respeitado por... quase todos (eram conhecidos os atritos entre a equipa de A Bola e o homem que cunhara a expressão dos cinco violinos). Em 1957, quando o Diário Ilustrado foi fundado, Guita Júnior aceitou o convite de outro gigante da imprensa desportiva já esquecido, Trabucho Alexandre. Ali trabalharia entre 1957 e 1958, num jornal que seria agitado em breve pela debandada de boa parte da equipa redactorial e onde Miguel Urbano Rodrigues, Nuno Rocha ou Carlos Eurico da Costa deixaram marcas duradouras.
Em 1960, Guita Júnior teve a oportunidade de se profissionalizar, após convite do Mundo Desportivo de Raul de Oliveira. No jornal da Empresa Nacional de Publicidade, raramente falhou uma grande prova velocipédica e juntou-se mesmo ao director quando este, em 1965, retomou o sonho de organizar novamente a Volta. «Foi uma experiência educativa. Percebi a dificuldade de prever todos os imponderáveis. O Raul imaginou então o projecto de um acampamento móvel: os ciclistas pernoitavam nas tendas que, no dia seguinte, já estariam montadas noutra cidade, com a cozinha de campanha e todas as comodidades.»
Os municípios ainda não pagavam para acolher uma etapa da Volta e seria uma reunião em Pontevedra (Espanha) a mudar o paradigma: «O governador local recebeu-nos porque tínhamos pensado em levar a Volta por estradas galegas. Só queríamos autorização para passar a fronteira, mas ele ofereceu 300 mil pesetas para acolher a etapa. Entreolhámo-nos. Nunca tínhamos imaginado tal hipótese.»
Guita Júnior entre os ciclistas Américo Silva e José Poeira
(Arquivo de Guita Júnior)
Em 50 Voltas a Portugal, Guita Júnior viveu peripécias inesquecíveis. «A mais engraçada ocorreu com o fotógrafo Jorge Garcia. Numa etapa sob chuva inclemente, sucediam-se as quedas, mas nenhuma à frente do nosso carro», conta. «O Garcia estava cada vez mais frustrado e só se queixava do ‘azar’ por não captar nada. Por fim, à nossa frente, caiu mais um ciclista e o Garcia abriu a porta do carro. Para sua surpresa, tinha outro ciclista tombado mesmo ali. Fotografou-o e comentou: ‘Que sorte, viste? Que sorte.’ Julgo que nem percebeu que fora ele com a porta do carro a fazer tombar o infeliz.»
O dia mais negro, esse, ocorreu na Volta ao Algarve de 1984. Guita Júnior, então ao serviço do Correio da Manhã, estava na meta à espera do final da etapa quando Joaquim Agostinho caiu na tentativa vã de evitar um cão. «Não o vi cair, mas vi-o chegar à meta, amparado por dois colegas. Sentou-se num lancil do passeio, atordoado, mesmo ao lado de uma ambulância. Sugeriram-lhe que fosse ao hospital, mas teimou que não precisava e, pelo seu próprio pé, caminhou para a pensão onde estava alojado. Ali perdeu horas decisivas. Entre esse acidente e os dez dias seguintes em que o Agostinho esteve em coma, vivi os dias mais tristes da minha carreira.»
Do Mundo Desportivo, Guita Júnior saiu novamente para o Diário de Lisboa, depois para a Época e para o Diário de Notícias, antes de rumar ao Correio da Manhã em 1982. «Eu estava no Diário do Lisboa no dia da década de 1950 em que dois jovens aprendizes entraram ali, muito imberbes, para aprenderem a ser jornalistas. Um era o Carlos Eurico da Costa e o outro o Vítor Direito. Quando o Vítor fundou, com Nuno Rocha e Carlos Barbosa o Correio da Manhã, acreditei no projecto.» Ali trabalhou até se reformar em 1995.
Um dia, Guita Júnior foi mesmo involuntariamente o objecto da notícia. Na Volta de 1986, o carro do seu jornal capotou. «Ficámos de pernas para o ar e tivemos de sair pela janela», conta. «Foi aparatoso, mas sem consequências. Nesse dia, contra minha vontade, fui eu o tema da notícia!»
Em 2011, Eduardo Guita Júnior completou a cobertura jornalística da sua 49.ª Volta a Portugal, um recorde absoluto em todo o mundo. Pensou que ficaria por ali, mas Fernando Emílio, de A Bola, prestou ao jornalista a homenagem que só a tribo do ciclismo poderia prestar. Convidou o jornalista a acompanhar os repórteres do jornal na Volta de 2013, assegurando uma crónica diária. «Presentearam-me com uma camisola amarela na qual figurava o meu nome e o número 50. Fiz assim a minha 50.ª Volta. Julgo que ninguém fará igual», remata.

PUBLICADO NO N.º 70 DA REVISTA "JORNALISMO E JORNALISTAS", DO CLUBE DE JORNALISTAS, JULHO/SETEMBRO 2019, PP. 48-52