sexta-feira, outubro 22, 2021

A estátua de Dona Leonor

          Já reparou neste monumento dedicado a Dona Leonor nas Caldas da Rainha? 

Magnânima, de Maximiano Alves

        E neste, também consagrado à rainha que fundou e custeou as obras do hospital termal? Também não?       
Proposta de Leopoldo Almeida e Carlos Ramos

        Na verdade, eles só existiram em maqueta, mas foram peças importantes de um escândalo que divertiu Lisboa no Verão de 1930 e irritou os caldenses. 
        A história não poderia ser mais portuguesa nos seus pormenores requintados. 
        No dia 21 de Março, o jornal A Gazeta das Caldas abriu um concurso para a execução de uma peça escultórica consagrada à rainha Dona Leonor. Iniciou-se uma subscrição pública, que rapidamente superou a fasquia de cem contos. O resultado do concurso foi desvendado no dia 10 de Agosto, depois de a Comissão Executiva do Monumento ter solicitado à Sociedade dos Arquitectos, à Sociedade Nacional de Belas-Artes e à Comissão Administrativa das Caldas da Rainha a nomeação de um júri constituído por três arquitectos e dois escultores. Foram escolhidos para o júri os arquitectos Adolfo Marques da Silva, José Coelho (em substituição de Porfírio Pardal Monteiro) e Eugénio Correia, os escultores Salvador Barata Feyo e Raul Maria Xavier e o pintor Eduardo Romero. 
        Foram a concurso treze propostas, um número fatídico como mais tarde se veria. 
        Após deliberação, o júri premiou a proposta do escultor Maximiano Alves em parceria com os arquitectos Carlos e Guilherme Rebelo de Andrade. A obra intitulava-se Magnânima e a apreciação do crítico do Diário de Lisboa no dia 11 de Agosto (presume-se que Artur Portela) concordou com a escolha, não deixando de notar que «não nos parece de boa doutrina discutir as decisões do júri, visto que todos os artistas que entraram no concurso tinham conhecimento da sua constituição (…)». O texto parece sugerir que a própria sessão de divulgação de resultados foi agitada. «O júri escolheu por maioria a obra de Maximiano Alves e irmãos Andrade, sem parcialismos [sic] nem camaradagens suspeitas. Entre as treze maquetas apresentadas, triunfou de facto a que merecia o primeiro prémio», certificou o crítico. 
        Nem todos viram assim o assunto. Uma semana mais tarde, o Notícias Ilustrado, dirigido por Leitão de Barros, lançou a confusão. «Já é tempo de se exigir que os monumentos da nossa terra sejam feitos pelos que têm valor para os fazerem e não pelo primeiro negociante de estátuas que só vê o negócio», escreveu-se. A revista quebrou igualmente as regras de anonimato, contando aos leitores quem apresentara cada proposta, embora as maquetas fossem anónimas e apenas tivessem sido identificados formalmente os dois primeiros prémios. A partir de então, estoiram como «bombas de grande potência vários protestos de autores que se acham lesados», escreveu A Gazeta das Caldas
Maximiano Alves em fotografia de O Século


        O Diário de Lisboa foi o campo de batalha e o escultor António da Costa, cuja proposta fora mal pontuada, investiu como um touro: «A decisão tomada pelo júri (…) não só não satisfez mas indignou todos os artistas.» O escultor apontava critérios estéticos para considerar melhor a segunda maqueta, da autoria de Leopoldo Almeida e Carlos Ramos e lançava depois uma acusação grave: «Um dos escultores (Raul Xavier) é, além de companheiro de atelier, colaborador do escultor classificado em primeiro lugar. É isto admissível?» 
        Três dias mais tarde, a 15, António Montês, membro do júri, defendia-se: «Falta de competência dos júris ou falta de competência dos nossos artistas?», perguntava. «Sou de opinião, neste caso em que tive interferência, que a falta é dos segundos e não dos primeiros. (…) As Caldas querem unicamente um monumento em tudo condigno da figura a glorificar (…) Dá vontade de pôr uma pedra sobre tudo isto e de levantar nas Caldas, em lugar do monumento, um edifício moderno, onde se instalasse qualquer obra de assistência que talvez fosse a melhor homenagem à benemérita rainha Dona Leonor e que constituiria um grande ensinamento aos nossos artistas.» 
        No dia 21, o pintor Eduardo Romero questionava António da Costa sobre as incompetências apontadas: «Permita-me o distinto escultor [que] lhe pergunte onde acaba esta para me habilitar e não ficar convencido de que a sua irritabilidade é motivada apenas por divergências de opiniões sobre matéria de arte.» 
        Picado, o escultor rebateria de imediato a charge, acusando um dos escultores do júri de… nem sequer ser escultor: «Qual é a obra do sr. Raul Xavier – que nem o 1.º ano do curso de escultura de qualquer escola de Belas-Artes tem – que lhe dá competência para julgar trabalhos de escultores com o curso da especialidade, alguns dos quais são mestres consagrados?» E voltava a lembrar a proximidade do visado com o escultor premiado. 
        No dia 26, numa longa carta, Raul Xavier defendia-se. Lembrava que o escultor Francisco Franco também só obtivera a carta de curso em 1930 porque em Portugal esta era difícil de obter. Recordava que Ernesto do Canto também não a tinha. E dizia: «O sr. António da Costa finge ignorar obras minhas. Esqueceu-se, porém de que trabalhou no meu atelier enquanto não teve atelier seu. Viu-me trabalhar a seu lado no barro e cortar o mármore (coisa que o sr. António da Costa nunca fez). Sou de facto amigo e frequento o atelier do sr. Maximiano Alves, onde tenho trabalhado. Essa circunstância levou este meu colega a procurar-me na manhã do dia 10 do mês passado e observar-me que eu deveria declinar o cargo para que tinha sido nomeado, não fosse esta nossa boa camaradagem ser malevolamente explorada, como, penoso é dizê-lo, se está fazendo. Observei-lhe que tinha e tenho uma noção bem definida do que é a dignidade e que portanto o meu voto iria para a maquette que em meu entender o merecesse – e assim fiz».
        Raul Xavier terminava a sua carta com um repto: «Intimo o sr. António da Costa a, em concorrência comigo e perante um júri idóneo, modelar um modelo nu e passá-lo à pedra desde o bloco em bruto até ao seu final acabamento. Estas provas serão prestadas na Sociedade Nacional de Belas-Artes de que ambos somos sócios, em quarto fechado. (…) Desde já fique bem assente que qualquer escusa do sr. António da Costa classificará a sua competência e dignidade profissional.» 
        O repto não foi aceite. Outros intervenientes escreveram. Por fim, os vencedores da proposta entraram na liça, questionando o mau perder de todos os envolvidos. Perante tamanha controvérsia, a Comissão Executiva decidiu cancelar o concurso em Janeiro de 1931. Todas as maquetas foram portanto rejeitadas. 

A estátua de Francisco Franco 

        O monumento foi depois encomendado directamente a Francisco Franco (que não participara no concurso original e que já então era um artista consagrado, tendo modelado o famoso busto de Salazar). É essa a estátua que está, desde então, nas Caldas da Rainha.

A proposta de Anjos Teixeira

A proposta de António da Costa


A proposta de Francisco dos Santos 

A proposta de Júlio Vaz


A proposta de Luís Fernandes

A proposta de Norte Júnior

A proposta de Simões de Almeida, Leopoldo de Almeida e Carlos Ramos


terça-feira, outubro 19, 2021

Quem desenhou a Noite Sangrenta?

 


        Os jornais de hoje estão repletos (e bem) de Aristides Sousa Mendes, mas hoje cumpre-se também uma efeméride trágica – o centenário da Noite Sangrenta, a noite de 19 de Outubro de 1921 durante a qual foram abatidas seis pessoas, incluindo o primeiro-ministro António Granjo e Machado Santos, o herói da Rotunda. 
        O episódio foi interpretado e estudado amiúde ao longo deste centenário, desde o opúsculo de Berta Maia sobre as suas conversas com o «Dente de Ouro» (As Minhas Entrevistas com Abel Olímpio, o ‘Dente de Ouro’) à reflexão de Bourbon e Meneses sobre o caso (Os Crimes de 19 de Outubro), passando pela reconstituição de Consiglieri Sá Pereira (A Noite Sangrenta) e pela obra importante de José Brandão (A Noite Sangrenta), não esquecendo a peça de teatro premiada de Hélder Costa (O Mistério da Camioneta Fantasma). 
        Este contributo é infinitamente mais modesto. Nas semanas subsequentes à matança, foi divulgada uma gravura nas páginas da imprensa. O jornal A Imprensa da Manhã, que ajudara a acicatar os ânimos e que, no próprio dia da chacina, apelara à audácia dos revolucionários à maneira de Danton, publicou-a. O desenho tornou-se, de alguma maneira, o ícone do episódio. Representa Granjo no Arsenal da Marinha, indefeso perante a turba que o executa a sangue frio e não costuma ser creditado. 
        Tudo indica, porém, que a ilustração foi criada pelo jovem Leitão de Barros, então com 25 anos e à procura de uma oportunidade profissional. O gravador terá sido Martins Barata. Não só o crédito de ambos figura nas páginas do jornal de 11 de Novembro de 1921 como Barros é protagonista de uma carta surreal no dia 27 – carta essa que, adivinho, bem gostaria de varrer para debaixo do tapete nos anos seguintes. 
        Leitão de Barros terá então escrito ao jornal, queixando-se: «Como sou desenhador e ganho dinheiro desenhando, entendi que tinha o direito de exercer a minha profissão executando a iconografia dos sucessos da noite de 19 de Outubro. Nada absolutamente tenho nem quero ter com política», dizia. 
        «Segundo os relatos de alguns jornais, reconstituí o crime de que foi vítima António Granjo, ex-Presidente do Conselho, tendo todo o cuidado de desenhar apenas figuras perfeitamente anónimas para não levantar suspeitas ou ferir injustamente quem quer que fosse. Segundo o relato do ministro da Marinha do governo Manuel Maria Coelho, era um facto que indivíduos vestidos de marinheiros tinham tido acção neste caso, motivo porque lá aparece realmente uma figura fardada» – continuava. 
        Leitão de Barros lembrava que também no regicídio de 1908 se reconstituíra o atentado em todo o mundo sem que ninguém se sentisse lesado. Desta vez, porém, a Marinha sentira-se vexada. «Pois, senhor redactor, acabam de me proibir de vender os postais que reproduzem o desenho publicado pela Imprensa da Manhã (que aliás não foi apreendida e fez até duas edições) e de intimar a Casa Paulo Guedes a retirar das suas montras o original desse desenho.» 
        O desenhador sentia-se atacado na bolsa. «Com que direito se pode proibir um pacato cidadão que paga os seus impostos o exercício da sua profissão? Quem me indemniza dos prejuízos que tal proibição me causa? (…) O público que ajuíze e eu que pague… e me cale.»

A Imprensa da Manhã, 27 de Novembro de 1921

quarta-feira, outubro 06, 2021

Os ovos de Velázquez

 


       Foi um dos trabalhos mais ousados do jovem Diego Velázquez e poderia estar em Portugal. Uma Velha Cozinhando Ovos terá sido pintado em 1618, aos 19 anos, pelo artista sevilhano (neto aliás de um portuense). 
       Já contém as marcas que farão de Velázquez o artista de referência no século XVII espanhol: o jogo entre claros e escuros, a definição criteriosa do movimento e das personagens, a representação das actividades de quotidiano que tanto chocavam os contemporâneos. 
       Uma década mais tarde, Vicente Carducho, pintor e historiador, lastimará a representação na tela “dos homens de trabalho, sem conhecimento ou reflexão, que degradam a arte nobre para noções vulgares, como hoje vemos nas representações dos bodegones”. O catálogo do Museu Metropolitano de Nova Iorque consagrado à exposição do pintor em 1989-90 não teve dúvidas em considerar que Carducho escrevia sobre Velázquez. 
       O quadro, pintado por Velázquez antes de se radicar em Madrid, viajou mais do que muitos seres humanos: sabe-se que, no século XVIII, já não estaria em Espanha, vendido para a Bélgica e depois para Paris. Foi comprado num leilão em 1813 por Samuel Peach, que o adquiriu por engano – julgava comprar uma obra de Bartolomé Murillo e levou um Velázquez! Reconhecida a autoria, a obra foi vendida em mais duas ocasiões até chegar, em 1863, às mãos de Francis Cook. 
       Este industrial têxtil inglês escolhera então Monserrate para passar as temporadas de Verão. Reconstruiu o palácio, criou os jardins e começou a constituir uma colecção ecléctica em Sintra, semelhante à dos velhos gabinetes de curiosidades: um busto romano aqui, uma estátua grega acolá, sarcófagos e múmias, quadros clássicos e modernos. Em 1863, adquiriu esta obra, embora não se saiba se chegou a estar exposta em Sintra ou apenas na sua residência londrina. 
       O tempo passa e as fortunas esfumam-se. As duas guerras mundiais abalaram as finanças familiares. As três gerações seguintes procuraram manter incólume a colecção artística, bem como o jardim e palácio de Monserrate. Em 1929, foi feito um primeiro contacto para tentar que o governo português adquirisse a propriedade e recheio, evitando o loteamento. Em vão. 
       Em 1946, a família fartou-se de esperar e iniciou a venda rápida de todos os bens móveis. Houve um leilão em Lisboa, despachado em três dias. Os directores dos principais museus nacionais compareceram, mas limitaram-se a seguir com os olhos as peças que voavam para o estrangeiro. Monserrate foi vendida a um industrial português que, um ano depois, foi “persuadido” a vender ao governo. Já estava então sem recheio e em acelerado processo de decomposição. 
       Saúl Saragga, o industrial, pretendia dividir Monserrate em várias parcelas. Como notou a dissertação de mestrado de Marta Ribeiro, foi necessário que Flávio Resende, director da Faculdade de Ciências de Lisboa, intercedesse directamente junto de Salazar para que o processo irreparável fosse travado. Em 25 de Maio de 1949, a velha propriedade de Cook tornou-se, por fim, pública. 
       E Velázquez? A família manteve o quadro na sua posse por mais uma década, talvez ciosa do carinho que o patriarca mantivera pela velha cozinheira. Em 1955, finalmente, os Trustees da Família Cook cederam-no à National Gallery de Edimburgo, onde está exposto desde então. Assim fugiu um Velázquez que poderia cá estar.

domingo, setembro 26, 2021

A mosca Peter Pan


 

        Era perfeita de mais. Os entomólogos chamavam-lhe a mosca Peter Pan porque 38 milhões de anos de evolução pareciam não ter afectado a morfologia do insecto. Até que se descobriu que era uma fraude da época victoriana, embora já constasse em todas as bíblias da entomologia. 
    
        É uma pena que o Museu de História Natural de Londres já não tenha em exposição a peça que, durante sete décadas, foi uma estrela da colecção de referência de insectos. A mosca Fannia scalaris, capturada em âmbar, chegara ao museu londrino com a indicação de que provinha do Báltico Foi estudada e valorizada por ser, de longe, o exemplar mais antigo conhecido da família Muscidae, a das moscas domésticas. Era apontada como uma irregularidade – um exemplo de um organismo que permanecera quase idêntico ao longo do seu percurso evolutivo, sem deixar descendência e adquirindo características que os membros da sua família tardaram milhões de anos em adquirir. Era o Peter Pan das moscas, eternamente jovem. 

    Certo dia de 1993, o estudante Andrew Ross examinou-a ao microscópio. Apercebeu-se então de algo que nunca ninguém notara: uma linha de fractura corria ao longo de toda a peça de âmbar. Compreendeu que tinha em mãos uma fraude: no século XIX, uma peça genuína de âmbar do Báltico fora cortada ao meio por um ourives, que depois escavara um pequeno orifício para depositar a mosca. Infiltrou a mosca e preencheu a cavidade com resina. A fase derradeira da burla foi colar de novo o âmbar, de forma suficientemente credível para enganar um dos muitos coleccionadores daquela época. 

    Não se sabe quem comprou a peça, mas poderá ter sido o entomólogo alemão H.F. Loew, que a referiu pela primeira vez em 1850. Em 1922, o Museu de História Natural comprou trezentos espécimes do espólio de Loew e a mosca veio nesse lote. Foi citada desde então. 
    
 Se eu fosse curador de um museu de história natural, não deixaria de expor exemplares como estes. Um fóssil que não é fóssil é um testemunho da avidez com que, no século XIX, se procuravam espécimes raros sem as precauções mínimas. Estou certo de que, nas nossas colecções, também existem fraudes destas. Fósseis que não são fósseis; peças arqueológicas fabricadas em laboratório; documentos medievais escritos na véspera. À sua maneira, também contam a história da ciência.

quinta-feira, setembro 23, 2021

Ensaio sobre um arqueólogo apaixonado pelo que fazia


 

    Por José de Encarnação, soube agora que faleceu o arqueólogo Manuel Maia e, com ele, vai também uma época especial da arqueologia portuguesa – não discuto se pior ou melhor, se mais ou menos empenhada, se mais ou menos politizada. Esse debate pertence à esfera dos especialistas e dos praticantes da disciplina. 

     Direi apenas que me entendi com Manuel Maia por sinais de fumo. Tinha um faro de perdigueiro, um jeito natural para as descobertas retumbantes. Bem sei que a arqueologia se faz mais de regularidades do que de excepções, mas o casal Manuel & Maria Maia foi, à sua conta, responsável por algumas das mais notáveis descobertas dos últimos trinta anos no Sul de Portugal. E isso, tenham a paciência, terá de constar em qualquer obituário escrito sobre Manuel Maia. 

     Os detractores (porque os também os tinha) revoltavam-se com a sorte. Em vários pontos do país, ouvi gente a barafustar com a facilidade com que, à primeira cavadela, os Maias encontravam um filão. Foi assim por exemplo com o signário de Espanca, a pedra de Roseta da escrita do Sudoeste – o único exemplar conhecido de uma estela onde um mestre escreveu o abecedário dessa escrita invulgar e um aprendiz tentou replicar os signos. A peça da Idade do Bronze deverá ter estado colada a uma parede com barro e caiu durante as escavações de 1996. A seus pés. “Sorte é estar lá e perceber a importância do que se encontra”, disse-me em 2005 ou 2006. Bem à sua maneira, ouvi-o esbracejar mais tarde: “Evito este termo de escrita do Sudoeste que por aí anda. Prefiro escrita turdetana.” 



     Em 1994, durante uma escavação em Santa Bárbara dos Padrões, um dos estudantes envolvido numa escavação de emergência (a autarquia entrara de bulldozzer no terreno contíguo a um velho cemitério) entrou na vala e saiu de lá com meia lucerna. “Nesse dia, trouxemos cinco sacos de supermercado repletos de fragmentos.” A escavação que seria de poucos dias transformou-se numa campanha de quatro meses. Apareceu uma vala cheia de lucernas, um depósito do mundo romano. Cinco, cem, mil... “Terão sido dispostas em cestos, como as chávenas numa máquina de lavar moderna”, explicou, com a habitual paciência do divulgador de ciência que também era. Com o tempo, apareceram 20 mil lucernas, a maior colecção do mundo, naquilo que terá sido um importante santuário do mundo romano. “E há mais para escavar, Gonçalo” – disse-me em Fevereiro de 2018. “Há mais...” 



     Tinha curiosidade genuína sobre os assuntos que estudava. Sabia também as suas limitações. Nunca hesitou em chamar peritos de outros campos, como o géografo que o ajudou a extrair sentido do Itinerário de Antonino Pio, ou a química que lhe pediu para colher amostras das lucernas para tentar perceber que substâncias se queimariam na Antiguidade (veio a descobrir-se que, além do azeite, também a cera de abelha e a resina serviriam). 

     Perdeu-se por vezes em polémicas e não esquecia as afrontas. Nunca escondeu por que não foi aceite para doutoramento nem as causas que (achava ele) tinham estado subjacentes à decisão universitária. Batia-se pelo princípio de que concederia o ponto se lhe provassem que não tinha razão. Morreu convencido de que Castro Verde fora Aramis, dos aramitanos, citados por Plínio. Adorava mostrar as Larnakés encontradas no sítio de Neves I como prova da influência evidente das culturas do Mediterrâneo Oriental na Península Ibérica. Propunha a tese da proliferação dos castelos no Sul do país como marca da presença romana não exclusivamente militar. Com dois elementos, fazia conjecturas e explorava hipóteses. Essa predisposição para a imaginação valeu-lhe alguma sátira. Nunca se ralou. Era um franco-atirador e os francos-atiradores também falham tiros.



     A morte da esposa foi um golpe rude. Houve um ano em que não consegui sequer contactá-lo. Recompôs-se. Pôs-se de pé e fez, no Museu da Lucerna, um pequeno altar com as recordações da carreira da mulher. 

    Fascinava-me sobretudo pela memória. Foi com ele que debati o fascínio dos pides pela arqueologia no Alentejo e as figuras controversas de Manuel Heleno, Farinha dos Santos e Caetano Beirão, que ainda fora seu mestre. “Gonçalo, parece que ainda o estou a ver nas viagens de carro, quando se irritava”, contou-me. “’Vocês não percebem nada do meu bom e amado Führer.’ Era a frase que Caetano usava – provavelmente mais para nos irritar do que sentida.” Mas, ideologias à parte, também reconhecia que a questão da escrita do Sudoeste ficara a dever muitíssimo às recolhas exaustivas de Caetano Beirão. 

     Terei saudades de Manuel Maia, um arqueólogo apaixonado pelo que fazia, um excelente divulgador de ciência e um tipo divertídissimo.
(as fotografias são do António Cunha, outro amigo de Manuel Maia, a quem peço desculpa pelo abuso)

terça-feira, setembro 07, 2021

Talvez em 2022

 


    Comemora-se hoje mais um aniversário da independência do Brasil e estamos portanto a 365 dias do segundo centenário do país irmão. Talvez seja a altura de debater a possibilidade de Portugal fazer melhor figura do que fez no primeiro centenário. 
    Na verdade, o ano de 1922 até começara bem. A chegada apoteótica de Sacadura Cabral e Gago Coutinho à costa brasileira, em Junho, com sucessivos voos comemorativos entre cidades costeiras marcara uma aproximação cultural entre os dois países. Era o mundo latino que reivindicava destaque na corrida da aviação, uma vez que as grandes proezas aeronáuticas até então tinham sido entre países anglófonos. 
     António José de Almeida, o Presidente da República, foi convidado a comparecer nas cerimónias de 7 de Setembro. A partir daí, correu tudo mal. No Verão, foi declarado estado de sítio e recolher obrigatório – circunstâncias que aconselhariam contenção dos principais órgãos de Estado. A depauperação dos cofres recomendava igualmente uma missão modesta. Debalde. Toda a gente foi. 
     Acompanhando os preparativos da viagem pelas páginas da imprensa da época, constata-se a sucessão de incidentes embaraçosos. Começou com a escolha da missão intelectual que acompanharia o PR. À boa maneira portuguesa, todos os nomes estavam mal escolhidos. O Século ridicularizou o arabista David Lopes. O Dia não queria que o filósofo Leonardo Coimbra chefiasse a missão. Como na canção dos Deolinda, «há trolhas escritores, / Letrados estucadores e serventes poetas / E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.» 
     No Diário de Lisboa, Joaquim Manso ironizou: os ases da pátria são sempre os que ficam cá. 
     Seguiu-se a escolha dos repórteres que deveriam acompanhar a missão. O governo cometera um erro com a viagem dos aviadores, atribuindo a um único jornalista (Paulo Freire) a missão de informar todos os jornais. Fora severamente criticado por isso e agora fora decidido que uma dezena de repórteres poderia subir a bordo, com as despesas pagas. Protestou a imprensa monárquica, tomando a medida como os tiques dos fidalgos arruinados.
     Depois, foi o problema naval. António José de Almeida confiou num velho navio apreendido aos alemães na Grande Guerra (o Porto) e temeu mais críticas de despesismo caso exigisse o regresso do couraçado Vasco da Gama ao continente. O Porto, porém, já não estava em condições. Demorou semanas em reparações. Era bafiento e malcheiroso. Partiu tarde de Lisboa e demorou de mais. Por essa altura, os críticos do regime já não poupavam nas chalaças. O navio era o Enguiço; a missão presidencial era leopárdica
     Assim, no glorioso dia 7 de Setembro de 1922, quando a missão portuguesa já deveria estar no Rio de Janeiro, a Nau Catrineta, como lhe chamou O Dia, ainda estava em Cabo Verde e decidiu comemorar ali, no mar, o centenário, com récita e champanhe. «Chegará trop tard como os clássicos carabineiros de opereta», ironizava Moreira de Almeida. «No segundo centenário, deve chegar a horas…» Chegou ao Brasil no dia 9 de Setembro.
     Só para lembrar, portanto, que há uma imagem a limpar no próximo ano.

sexta-feira, setembro 03, 2021

Mulheres jornalistas

 



       Na primeira metade do século XX, eram raras as mulheres nas redacções portuguesas. Tão raras que, da dúzia de senhoras que se destacaram, já deveria haver biografias mais substanciais sobre cada uma. 
       Maria Augusta Seixas deu-nos uma boa tese de mestrado sobre Virgínia Quaresma, a pioneira das pioneiras (embora não editada em livro). 
       O Wilton Fonseca descobriu um filão na brilhante Alice Oram, luso-britânica que relatou golpes e revoluções para os jornais ingleses. Começou também a identificar o papel de Joe Schercliff na política e no jornalismo portugueses de 1940-1960. 
       Com imodéstia, acho que dei a conhecer um pouco mais sobre a luso-brasileira Fernanda Reis, que saltou de pára-quedas na guerra da Coreia como enviada-especial de O Globo e foi redactora do Diário Popular, entre outros jornais. 
       Manuela Azevedo ditou memórias (falíveis e sinuosas, mas memórias) a Luís Humberto Marcos. 
       Maria Antónia Fiadeiro dedicou a sua tese a Maria Lamas em todas as suas dimensões – política, literária e jornalística. 
       Dina Botelho tratou a vida de Maria Archer. 
       Há dois anos, Isabel Baltazar publicou um primeiro opúsculo, com apoio da CM Arganil, sobre Irene de Vasconcelos, a primeira portuguesa licenciada na Sorbonne e correspondente do Diário de Lisboa durante quase uma década, cobrindo as sessões da Sociedade das Nações e entrevistando Mussolini e Briand. Julgo que esse trabalho está a ser continuado pela autora (encontrei, num arquivo que exploro, cartas inéditas de Irene que terão talvez alguma importância). 
       Faltam naturalmente outras. Carmen Marques, fundadora do Diário de Lisboa; Oliva Guerra, cantora e crítica musical; Francine Benoit, indecemente travada no Conservatório, mas com uma persistente acção corajosa de crítica de música no D. Lisboa; Aurora Jardim, cronista do Jornal de Notícias; Marta Mesquita da Câmara, primeira redactora de O Primeiro de Janeiro; e até Carlota Serpa Pinto, a Clarinha do "Chá das Cinco". 
       Há trabalho para fazer nesta área. Um bom ponto de partida é este livrinho e esta senhora, que tratava Indalécio Prieto por tu antes de este partir para a aventura da república espanhola.

domingo, julho 18, 2021

Quem, afinal, descobriu a Madona de Álvaro Pires?


 

         Pode um mistério estar à vista de todos durante quatrocentos anos e não ser descodificado?        

         Atente-se na história desta Madona com o Menino e Anjos Músicos (1415). No início do século XIX, pouco se sabia em Portugal sobre o pintor Álvaro Pires, de Évora. Giorgio Vassari, na sua memória do pintor renascentista Taddeo Bartoli, mencionara-o vagamente, como Alvaro Piero di Portogallo. José da Cunha Taborda, em Regras da Arte da Pintura, fazia-lhe alusão em 1815, repetindo a informação do historiador quinhentista. Em 1846, G. Milanesi acrescentara um dado importante, confessando ter visto um quadro assinado pelo pintor numa igreja dos arredores de Pisa. E pouco mais.      

        Em 1922, o médico Reinaldo dos Santos visitou Itália. Ia em missão a um congresso médico em Génova, mas, apaixonado por história de arte e amigo de José de Figueiredo, director e fundador do Museu Nacional de Arte Antiga, adicionou um itinerário invulgar ao périplo. Visava sobretudo uma igreja remota, a Igreja de Santa Croce de Fossabanda. Dando «um pequeno repouso às minhas preocupações profissionais», decidiu investigar. Pisa, porém, mudara muito. De igreja em igreja, Reinaldo acabou por terminar a busca num templo meio arruinado, ladeado pela cerca de um convento.      

        «Na galilé, toda especada em esporas, floriam sobre os fustes desaprumados alguns capitéis de velha arte pisana. A sua antiguidade pareceu-me de bom augúrio», escreveu numa crónica para o Diário de Lisboa no dia 10 de Julho de 1922. «Entretanto, um franciscano abriu o portal e logo, ao ouvir declinar a minha nacionalidade e o interesse em visitar a igreja, perguntou-me, sorrindo: “Vem então para ver o Álvaro?” Alguns minutos depois, toda a incerteza estava maravilhosamente dissipada. Não era o deslumbramento de me encontrar diante de uma das mais encantadoras madonas que a arte do quattrocento deixara no vale do Arno. Era, sobretudo, a emoção de ver – distintamente escrita em português – a assinatura do artista, cujas letras brilhavam diante dos meus olhos comovidos: “Álvaro Pires d’Evora Pintou”.»      

        O artigo de Reinaldo dos Santos no Diário de Lisboa (que precedeu a publicação de um opúsculo sobre o caso) motivou uma réplica de Carlos Lobo, outro erudito amador, que garantia ter visto o mesmo quadro «num dia de Inverno de 1912» enquanto andava «solitário, percorrendo a grande nave da Igreja de San Francesco, em busca do panteão da família Della Gherardesca a que pertencia o famoso conde Ugolino». Ali encontrara um frade que, vendo-o interessado, lhe perguntou se não quereria ver o «quadro de um espanhol» numa igreja próxima. A obra estava então escondida «por detrás de uma cortina de chita encarnada. O frade puxou um cordelinho e o quadro apareceu!»      

         Lobo teve a mesma epifania de Reinaldo dez anos depois, ao contemplar a assinatura de Álvaro Pires. De regresso a Lisboa, escreveu a José de Figueiredo e deu-lhe conta do achado. O director do MNA escreveu um artigo em O Século, de 5 de Março de 1913, contando a descoberta singular.      

        Três dias depois do artigo de Carlos Lobo, no dia 15 de Julho de 1922, Reinaldo encerrou a polémica: «Nada mais fútil nas questões históricas do que uma discussão de prioridades», começou. «Nem eu, ao procurar intencionalmente em Santa Croce, a Madona de Álvaro, nem V. Ex.ª ao tê-la encontrado inesperadamente em Pisa, a descobrimos senão para nós. Para a história da arte, foi Milanesi quem, no meado do século passado, a descobriu.»     

        Reinaldo teria mais concorrência nesse mesmo ano, pois também Vergílio Correia, o historiador de Coimbra, publicou um opúsculo com informação biográfica inédita sobre o pintor alentejano. Quem, afinal, descobriu para os portugueses a Madona de Álvaro Pires? Carlos Lobo? José de Figueiredo? Reinaldo dos Santos? Vergílio Correia?      

         Na verdade, não parece ter sido nenhum deles e a resposta não é particularmente gloriosa. Joaquim Vasconcelos, o historiador de arte do Porto, publicou, em 1896, um volume monumental sobre o grande Francisco de Holanda e, nele, en passant, contava a história da Madona de Pisa. Estava tão obcecado por Francisco de Holanda e Albrecht Dürer que não valorizou excessivamente que tinha em mãos o primeiro pintor português de Quatrocentos.



segunda-feira, julho 05, 2021

Ah! Isso é a vida!

 



        Já aqui contei que colecciono avidamente os livros de ficção portuguesa que colocam jornais e jornalistas no centro da acção. A lista vai crescendo com vagar, embora a amostra não seja extensa. Junto-lhe hoje mais um – Torel-Norte, 5853, de Artur Inês (publicado em 1934 pela Guimarães Editora). 
    Trata-se do único volume de ficção publicado pelo antigo subchefe da redacção da República e percebe-se porquê. Torel-Norte, 5853 é um livro ingénuo. A acção decorre entre o Bairro Alto dos jornais e a Estrada de Loures, «passada a Porta de Carriche» e, portanto, já fora da grande cidade. As acções precipitam-se sem que o leitor possa assimilar cada personagem. Começamos a compreender o escritor Mariano de Paiva e Inês mata-o com um tiro «que parte das trevas». Assimilamos a personagem do capitão-aviador Óscar de Mendonça e Inês mata-o num acidente de aviação. Apresenta-nos Arnaldo Cruz, o homem-criado dos ingleses do Estoril que parece ter alguma influência na narrativa, mas afoga-o de seguida. As personagens de Artur Inês duram menos do que as seis mulheres de Henrique VIII. 
        Artur Inês não era um esteta: a linguagem de Torel-Norte, 5853 é rude e as personagens de uma simplicidade pueril. O próprio título, aparentemente enigmático, não é mais do que a extensão telefónica da esquadra de polícia. Dir-se-ia que o próprio autor se enfastia do enredo. Há, claro, um génio na narrativa – o jornalista (é um must do estilo). Rui Galvão, redactor político, ligeiramente enjoado e empertigado, descobre tudo sem ajuda. Manda os agentes de polícia executarem detenções e ainda vai a tempo de assistir à sessão da noite «de um grande filme americano no São Luiz». Seduz mulheres e desarma fontes só com perguntas penetrantes. Não dá qualquer explicação sobre as pistas que o conduzem ao desfecho. As mulheres, essas, são sedutoras até desatarem em pranto, com «os olhos sufocados de lágrimas». Desmoronam-se ao primeiro grito, as pobres. 
        Como é natural, não é minha intenção destruir um livro publicado há 86 anos e ao qual o Diário de Lisboa recusou a recensão, limitando-se a um eco de seis curtas linhas – talvez tenha sido a justa paga de Joaquim Manso pela caracterização que Inês fez do Ecos de Lisboa no seu romance e de um certo «Oliveira e Silva», director de O Sul, que escreve sempre o mesmo artigo. 
        Interessam-me nestas obras as marcas do ofício e as personagens encriptadas. No Ecos de Lisboa, rival de O Sul dos nossos protagonistas, trabalha Adelino Mendia, «um renegado, com algum talento e muitas ambições, que escrevia com a ponta de uma navalha, a coberto de uma impunidade infame». Não é preciso muito para deduzir que é Adelino Mendes, o redactor de O Século que ali figura – o homem que criava ou destroçava reputações à medida dos desejos do patrão. 
        O jornal O Sul é uma réplica dos jornais possíveis da década de 1930, com um fundo editorial que ninguém lê, um cronista político que encadeia factos e discursos em previsões da semana que nunca se confirmam e amplo espaço consagrado ao noticiário criminal. Num desabafo, o herói Rui Galvão dirá: «Aí está um género de jornalismo que não me interessa, mas que interessa o grande burro que é o público… e a grande burra do patrão.» 
        Os repórteres rivais cooperam, zombando dos polícias. Quando não podem acorrer a um serviço, pedem um caldo a um camarada, que lhes levará ao final da noite os pormenores essenciais da notícia. E os textos de última hora são enviados para a tipografia sem revisão. Pressupõe-se que um jornalista tarimbado consegue encadear a sua notícia sem precisar de a reler. Por isso, Gervásio (que recebe de Rui Galvão a prenda do exclusivo, pois o herói tem repugnância desses pequenos triunfos), «à medida que ia escrevendo os linguados, ia-os mandando para a tipografia pelo velho Militão». Quando acabou, «foi ele próprio levar o último quarto de papel ao tipógrafo de piquete». 
        Terminada a faina da impressão do jornal do dia (e Artur Inês conhecia-a na perfeição pois começara a carreira como tipógrafo antes de enveredar pelo jornalismo desportivo e, mais tarde, pelos jornais da oposição depois de assinar o muito controverso opúsculo Ouça, António Ferro!), lança-se «serradura humedecida no chão da tipografia», como nas tabernas, varrendo-se em seguida a mistura para que no dia seguinte o espaço seja de novo transitável. 
        Há uma última nota que merece ser feita a propósito de Torel-Norte, 5853: a naturalidade da violação. Na manhã em que tudo se revela, há apenas duas pessoas na sede do jornal O Sul: o velho contínuo Militão e a pequena Josefina, «mocetona de Silves». Em menos tempo do que demora a pronunciar a palavra «violador», já Militão, «doido e feroz», está a abusar da rapariga. Tudo na cena é atroz. A brutalidade. A inutilidade para o enredo. A circunstância de ser a violada a dizer: «Vocemecê está doido, tio Militão. Isto nem sei o que foi… mas acabou. A gente tem de esquecer isto…» Ou a cereja em cima do bolo: o herói Rui Galvão, que chega ao local de trabalho, percebe logo o que se passou e sorri com indulgência, ignorando um queixume da rapariga com a sentença: «Ah! Isso é a vida!» 
        Há livros que envelhecem bem e outros nem por isso. Apesar da belíssima ilustração de Roberto Nobre na capa, Torel-Norte, 5853 apodreceu.



quarta-feira, junho 02, 2021

O historiador que era jornalista às escondidas

 


        Era, afinal, um segredo de polichinelo.    
       Em 1938, a Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias, editou um livro muito curioso, único no seu género. Grandes Reportagens de Outros Tempos é um exercício de história e de jornalismo. Regressa aos momentos épicos da história de Portugal como se um repórter tivesse estado presente na época, usando a linguagem colorida dos homens dos jornais. São reportagens fora de tempo, com títulos provocatórios e descrições adjectivadas, embora recorrendo às fontes documentais de cada época. Reconhecem-se nelas as marcas de ourives do repórter, os tiques, os códigos profissionais. 
        As figuras históricas ou os observadores acidentais são entrevistados como no noticiário de crime dos periódicos. O marinheiro Artur Rodrigues, por exemplo, membro da expedição de Vasco da Gama, conta ao repórter, com as pupilas rebrilhando «de comoção», como foi a recepção real, empertigando-se «um tanto comicamente». 
        Em contrapartida, em 1667, o duque de Cadaval recusa-se polidamente a fornecer ao repórter um apontamento do pedido da princesa ao cabido da Sé de Lisboa para anular o casamento com Dom Afonso VI. «Sua Excelência negou-se, em termos corteses mas terminantes, a fornecer-me elementos sobre a petição ou mesmo sobre o andamento do processo». E, num exemplo precoce do uso da confidencialidade, «pessoa cujo nome devo ocultar passou-me para as mãos o papel, que me garantiu ser a expressão fiel da carta que Sua Majestade dirigiu ao cabido». 
        O repórter, por vezes, corre perigo. No enforcamento de Gomes Freire, «o Dr. Duarte, colérico, olhou-me com arrogância e convidou-se secamente a sair da torre». Noutras ocasiões, a sua presença é tolerada. Também acontece ser enxotado de uma sala para que os protagonistas possam falar livremente. 
        Por que motivo falo hoje deste livro? Prefaciado pelo historiador Caetano Beirão e ilustrado por Martins Barata (aliás, magníficas estampas que devem estar, se Zeus quiser, no arquivo do Diário de Notícias, a salvo de raposas e galinhas), o livro foi publicado em 1938 com a assinatura de Amador Patrício, um pseudónimo que já fora usado no século XVIII por um comentador da política lisboeta. Alguns autores defendem até que Amador Patrício escondia a pena do Marquês de Pombal (embora a tese mais consensual defenda que se tratava de Francisco José Freire).



        Desde a primeira leitura do livro que me questiono sobre a identidade do autor. No prefácio, Caetano informa que «o meu amigo Amador Patrício» pedira «algumas palavras para apresentação deste seu livro ao público». Conta também que o desafio partira de Eduardo Schwalbach, então director do Diário de Notícias, que encomendara as “reportagens” para publicação regular no jornal, mas que o próprio Caetano sentira que, sendo apenas «um obscuro investigador de coisas históricas» e não um jornalista, não podia aceder. «Lembrei-me então do meu amigo Amador Patrício.» 
        Não havia pistas aqui. Afinal, o próprio Caetano Beirão reconhecia que «numa reportagem de hoje ou de então, não importa conhecer quem a faz (…) Convém saber é se ela foi feita com probidade e interesse». 
        Na verdade, a resposta estava à frente dos meus olhos. No Dicionário de Pseudónimos, Albino Lapa não hesita em identificar Caetano Beirão com Amador Patrício. Cita aliás um texto do Diário de Notícias, de Fevereiro de 1938, altura em que o jornal terminou a publicação das reportagens históricas e anunciou discretamente a autoria. Pelo mesmo diapasão alinhou Adriano da Guerra Andrade no seu Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses
        Foi afinal Caetano Beirão quem prefaciou a sua própria obra. Sobrinho do professor Caetano Beirão da Veiga, também administrador da Empresa Nacional de Publicidade e grande impulsionador do novo edifício do jornal na Avenida de Liberdade, Caetano Beirão era chefe da secção de Correspondência do Diário de Notícias e historiador. 
        Talvez Caetano Beirão tenha tido para Amador Patrício a mesma ambição com que terminara a reportagem sobre a fuga do infante Dom Manuel em 1715. «Logo que tenhamos conhecimento do seu paradeiro, daremos dele conta aos nossos leitores que decerto ficarão ansiosos por conhecer a sorte de tão estimado e valoroso príncipe.» 
         Grato ao José do Carmo Francisco pela oferta de um volume que eu já julgava perdido.

sábado, abril 17, 2021

Quem corre tropeça


 

    Ontem, num estimulante webinar promovido pelo Museu da Farmácia e pelo João Neto, debateu-se o tema da mediação das publicações jornalísticas entre a comunidade de especialistas e o público. 
    Não se argumentou, naturalmente, que os media são o único veículo de transmissão – muitos cientistas fazem hoje by-pass a essa mediação, comunicando directamente com as comunidades interessadas através de podcasts, páginas de Internet, vlogs e afins e são bem sucedidos. A rede de centros de ciência e museus fornece igualmente uma alternativa eficaz de disseminação, mas uma das questões que mais me interessou foi a do tempo consagrado à mediação. 
    Gosto sempre de dar o exemplo da descoberta de Machu Picchu. Hiram Bingham identificou a cidade perdida dos incas em Julho de 1911 (há indícios de que outros já lá tinham estado, mas isso é conversa para outra ocasião). Guardou a descoberta para o seu diário e, nas campanhas desse ano e do ano seguinte, acumulou informação, fotografias, desenhos e… artefactos. Passaram quase dois anos, até Abril de 1913, mês em que a National Geographic consagrou uma edição às campanhas de Bingham, anunciando finalmente a descoberta ao público. Como seria hoje? 
    Hoje em dia, pasmo com frequência quando vejo nas redes sociais alguns arqueólogos a divulgarem de imediato os achados sonantes, ainda cobertos de poeira, sem qualquer tempo de reflexão ou ponderação sobre o seu significado ou a sua comparação com acervos daquele e de outros sítios arqueológicos. Com que fim? 
    Consigo perceber a urgência quando há donos de obra. Os municípios (particularmente em ano eleitoral) vivem com a obsessão de mostrar serviço. A emergência de um artefacto “popular” é pretexto para uma campanha massificada de divulgação, disparando em todas as direcções, simplificando em dois parágrafos a importância deduzida da descoberta (quantas vezes exagerada) que, por sua vez, serão lidos superficialmente (ou até partilhados em função do título). A mentalidade de manada dos meios de comunicação faz o resto, replicando ad nauseam o press release original, sem questionamento ou contextualização. Ninguém acrescenta uma voz complementar. Ninguém contesta a premissa de partida. Passadas 24 horas sobre a massificação de gostos, partilhas e comentários inocentes e tontos, o que fica do processo? Uma vaga ideia de que alguém descobriu alguma coisa que deve ter a sua importância. 
    Em 1896, o Museu do Louvre cometeu um dos seus piores erros. Foi-lhe apresentada uma antiga tiara de ouro com a alegação de que pertencera ao rei cítio Saitafarnes. A nova aquisição figurou em posição proeminente na sala até Adolf Furtwängler, um arqueólogo alemão, questionar a sua autenticidade. A glória do Louvre não durou muito. Em 1903, um ourives de Odessa admitiu que criara a famosa coroa a pedido de filantropos russos e que nunca lhe passara pela cabeça as voltas que a peça daria ou a alegação de que fora burilada há milénios. 
    Em Romeu e Julieta, o frei de Shakespeare avisa Romeu: “Muita calma. Quem corre só tropeça!” Talvez valha a pena pensar (também) nisso.

terça-feira, dezembro 29, 2020

O director que recusava sair de cena

Caricatura de Schwalbach por Teixeira Cabral. Colecção do autor

 O Diário de Notícias completa hoje 156 anos e regressa às bancas. Evocando a longa história do jornal, a edição de hoje recupera três histórias batidíssimas (os relatos de Eça no Suez, a entrevista falhada com Hitler e o debate sobre a abolição da pena de morte). Salvam-se mais pela reflexão das autoras (Francisca Van Dunem, Maria Filomena Mónica e Irene Pimentel) do que pela novidade. Dou assim o meu contributo: eis a história (inédita) do director teimoso que recusava sair de cena.

 

Eduardo Schwalbach era um homem do século XIX. Vivera o tempo das gazetilhas e dos jornais programáticos, muitas vezes filiados nas ideias de um só líder político. Fizera carreira no teatro como dramaturgo e no Conservatório como professor. Não se lhe conhecia uma ideia firme sobre o regime ou a Igreja, sobre o partidarismo ou questões cambiais. Deu por isso um estupendo director de jornal quando Augusto de Castro, concluído o primeiro ciclo na direcção do Diário de Notícias, abraçou a carreira diplomática e partiu para o estrangeiro. Castro deixou o DN nas mãos do amigo e com uma cláusula que lhe permitia regressar. 

Schwalbach, em compensação, adorou as mordomias do cargo: o salário, o carro com motorista, a ausência de responsabilidades, as vénias e os salamaleques. Acúrcio Pereira, Rocha Júnior e depois Aprígio Mafra garantiam os fundos editoriais e os combates na primeira página. Schwalbach assistia às premières do Teatro Dona Maria.

Caiu o regime em 1926 e o cargo complicou-se. Numa das intentonas, em 7 de Fevereiro de 1927, o sempre prudente Diário de Notícias apostou mal por uma vez. Um golpe mal esclarecido na estrutura do jornal levou à publicação de uma edição clandestina de 2 páginas, não censurada, de apoio aos revoltosos no Porto e em Lisboa. Quando a revolta foi extinta (do lado do governo bateram-se Humberto Delgado e Henrique Galvão nos combates do Largo do Rato), Schwalbach ficou em maus lençóis. Devo a Mário Matos e Lemos a cedência de um curioso inquérito promovido pelo major Viegas Ventura e pelo capitão Galvão para apurar responsabilidades pelo motim. 

O suplemento clandestino. Arquivo de Carlos Ferrão


Diário de Notícias esteve proibido de sair durante quatro dias e, ao regressar, não trazia o nome de Schwalbach como director (o tenente-coronel Pestana de Vasconcelos assegurou a direcção interina). À boa maneira portuguesa, o inquérito culpou figuras menores – Mário Pires e Carlos Neves seriam despedidos e Rocha Júnior colocado na prateleira. Schwalbach foi forçado a fazer prova de fé. Não hesitou. O Diário de Notícias tornou-se um ardente defensor da ditadura militar.

Em 1939, na alvorada da Segunda Guerra Mundial, Castro regressou a Portugal escaldado por um escândalo diplomático na legação portuguesa na Bélgica. O genro e a filha tinham-se mostrado favoráveis aos republicanos na Guerra Civil espanhola e chegaram ao Ministério boatos piores sobre correspondência do diplomata. A sua boa estrela parecia finar-se.

Arregaçando as mangas, Augusto de Castro fundou A Noite, dando-lhe o brilho que mais nenhum jornal tinha. Desafiou Artur Maciel para a equipa e propôs, em fundo editorial, o ano de 1940 como lançamento das comemorações henriquinas. Voltou a alinhar-se com Salazar. Foi-lhe confiado o comissariado-geral da Exposição do Mundo Português. Em breve recuperou também a sinecura do Diário de Notícias, empurrando Schwalbach para a reforma aos 80 anos.

Perdia-se o salário, o carro com mordomo, as vénias devidas ao cargo. Em 1944, o ano em que esta história tem lugar, Schwalbach deve ter sentido que lhe deviam uma vénia final.

Alunos, actores, jornalistas e até o presidente Carmona cozinharam uma gala de homenagem ao dramaturgo no Teatro Nacional Dona Maria, prevista para o dia 26 de Fevereiro de 1944, com a representação de A Bisbilhoteira, uma peça de Schwalbach com algum odor a bafio. Os bilhetes, porém, não se vendiam apesar de o Diário de Notícias publicar uma notícia diária na primeira página em louvor do seu antigo director.

Velha raposa, Schwalbach percebeu que precisava de um golpe de asa – um pretexto para que o seu nome fosse recordado.

No dia 18 de Fevereiro, um ancião de 83 anos sobe a bordo de um carro eléctrico da Carris. A empresa estipulara há muito que entre Novembro e Fevereiro não se podia fumar a bordo para não contaminar mais o ar carregado do interior.

«Mestre Schwalbach, fumador impenitente (…), muniu-se de um cigarrinho, meteu-o na boquilha, meteu esta na boca e preparou-se para seguir o seu destino», narra a notícia do Diário Popular. Foi interpelado pelo fiscal. Recusou cumprir, argumentando com a semântica: «Fumar significa tirar fumaça de um cigarro. Mas, para isso, é necessário que o cigarro esteja aceso. Ora, o meu, como vê, está apagado.» 

O fiscal chamou o guarda-freios. Conferenciaram. Intimaram. Ameaçaram. Deverá ter saído fumo de tais cabeças pensantes. Por fim, chamaram a guarda que não teve outro remédio que não fosse conduzir o antigo director do Diário de Notícias à esquadra do Teatro Nacional, onde os grandes reclames já chamavam a atenção dos transeuntes para a gala. Esclareceu-se a controvérsia, Schwalbach não chegou a ser preso, mas fez questão de chamar os jornalistas para dizer que o fora. O seu nome voltou a ser falado em toda a cidade.

A gala do dia 26, segundo o Diário de Notícias, estava à pinha.

É assim que se vende um produto: com histórias novas e atrevimento. Que aliás parecem faltar ao novo Diário de Notícias que ontem cumpriu só meio desígnio – foi diário, mas não deu notícias.

Schwalbach e Castro numa notícia do ABC, 26 de Junho de 1924


quarta-feira, novembro 11, 2020

Portela, um gigante contrariado


 

     Cioso como era da imagem que a posteridade guardaria dele, Artur Portela provavelmente não gostaria de ler este obituário. Foi um dos gigantes do jornalismo do século XX, mas sempre ligeiramente desfasado do contexto histórico, como um bailarino sem sintonia com o resto da companhia de dança. 
     Começou cedo nos jornais. Frequentou a escola ao fundo da Rua Luz Soriano e o Diário de Lisboa foi o prolongamento natural da escola tradicional. Entrou ali de bibe. Era o Arturzinho, o filho de Artur Portela, cronista jactante das artes e letras desde a fundação do jornal. Esse rótulo aborrecia-o. Para muitos, um apelido famoso seria uma bênção, um abre-latas de oportunidades. Para Artur Portela Filho, implicou durante décadas o ónus da comparação. 
     Poucos conheceram tão bem o jornal fundado por Joaquim Manso como Artur Portela. Passou por todas as secções. Viu o jornal composto à mão. Conhecia os tipógrafos tão bem como o director. Podia ter sido o sucessor natural de Norberto Lopes que, por sua vez, sucedera em 1956 a Joaquim Manso. Bastar-lhe-ia para isso o exercício da paciência e da subserviência ao doutor Norberto, virtudes (ou defeitos) que Artur Portela cedo demonstrou não ter. 
     Não era um repórter no sentido operário do termo. Aborrecia-o a reportagem quotidiana e anónima com que se constrói um jornal. Queria os serviços nobres, a crónica literária, a apreciação de espectáculos e de luces. Foi esse o motivo para a espectacular ruptura que Portela, José Sasportes, Urbano Tavares Rodrigues, Veiga Pereira, Renato Boaventura e o jovem imberbe Vasco Pulido Valente promoveram, no final de 1961, no Diário de Lisboa. Os meninos só queriam relatar espectáculos e fazer literatura. O atendimento de telefones, o pequeno incêndio, o roubo de faca e alguidar não lhes servia. Exigiram horas extraordinárias para relatarem a actividade nocturna da Lisboa das Artes – uma exigência inédita num jornal operário onde até Norberto Lopes atendia telefones e falava com os quartéis de bombeiros. Esbarraram no muro da intransigência de Mário Neves. Até final, Portela dedicaria a Neves – em muitos aspectos um correligionário político – as palavras mais duras que lhe ouvi. 
     Bateram com a porta, um gesto romântico, quixotesco e – contou-me ele em entrevista – errado. Julgavam que, na mesma rua, o administrador do Diário Popular lhes abriria a porta. Não abriu e os dissidentes experimentaram na pele o destino dos imprevidentes: perderam o emprego e ganharam ficha na PIDE por dissidência perigosa. 
     A carreira jornalística de Artur Portela foi, em muitos aspectos, uma repetição desta história – uma repetição de oportunidades perdidas. Em Fevereiro de 1960, fora enviado pelo jornal a Agadir para cobrir o terrível sismo que devastara a cidade marroquina. Ficou no hotel, prudente, como outros. Só Urbano Carrasco e Artur Agostinho se aventuraram pelos escombros. Trouxeram novidades e partilharam-nas com os restantes correspondentes. Para surpresa de todos, Portela mandou para o Diário de Lisboa um relato presencial, dramático, da tragédia. Foi uma farsa, como tantas outras na pequena história do nosso jornalismo. O logro ficou durante anos restrito no seio da famiglia que estivera em Marrocos. As coisas tratavam-se assim nos anos 1960. Era uma diatribe do Arturzinho. 
     Nas redacções por onde passou, recolhia admiração e ódio. Bastava uma crónica para se perceber que estava ali um pequeno génio. Dominava a língua e as figuras de estilo como poucos. Fez-se cronista ímpar, talvez o melhor do século – o que não é pouco. Mas zombava dos que não conseguiam escrever como ele. Tinha uma altivez irritante ao primeiro contacto. Manuela de Azevedo, também ela uma flor com espinhos, chamava-lhe o «filho do Artur» só para o irritar. Vera Lagoa apodou-o de «órfãozinho». Nenhuma tinha, claro, a verve literária de Artur Portela. Nem a coragem no Portugal fascista de atacar tudo e todos. Sobre Vera Lagoa, Portela dirá a José Vilhena: «Nada tenho de especial contra ela, só não me parece justo respirar o mesmo ar que ela respira. Acho que devíamos viver em planetas diferentes.» 
     No Jornal do Fundão, por cortesia de António Paulouro, Portela encontrou abrigo para manter o seu nome à tona de água, enquanto leccionava em escolas secundárias. A Funda, colecção de crónicas semanais publicadas no jornal beirão, é um extraordinário repositório de crítica ácida e corajosa. Foi chamado à DGS (a outra, a da Segurança e não a da Saúde) por culpa desses textos. Foi representado por Francisco Balsemão que mostrava mais medo do que Artur Portela no confronto com os polícias. Contava o Artur que Balsemão ficara azul quando o seu representado disse ao agente que não assinava a declaração porque ela estava cheia de erros ortográficos e de português. Era assim o Artur. Tinha uma coragem deslocada. 
     No início dos anos 1970, por amizade com Carlos Eurico da Costa, Artur Portela entrou no mundo da publicidade e do dinheiro. Tinha um talento nato para essa arte. Foi dele a frase «Expresso, o jornal dos que sabem ler», apelando à leitura nas entrelinhas do novo semanário. Na Ciesa, ganhou dinheiro, algum dinheiro. Não foi totalmente leal com Artur Agostinho. 
     A revolução de 1974 apanhou-o com 37 anos e tomou-a como o sinal de ruptura por que tanto esperara. Interpretou-a mal ou, se preferirem, escolheu o lado que poucos escolheram. Fundou o Jornal Novo, com José Sasportes, pago pela Confederação da Indústria, desejosa de mostrar credenciais revolucionárias ao novo regime. Durante meses, foi o cronista mais lido e respeitado do país. A sua crónica e a fotomontagem associada, na primeira página de um jornal simples, vendia-se loucamente. Algumas edições fizeram tiragens superiores a cem mil exemplares. Ao contrário de tantos outros que se pintaram de esquerda em Abril de 1974, Artur Portela tinha credenciais impolutas e não estava amarrado a um partido. 
     Dois incidentes marcam a curta vida do Jornal Novo com Artur Portela (o jornal prosseguiu sem ele, em 1976, sem qualquer prestígio ou influência e chegou a ser dirigido por Proença de Carvalho…). Em Agosto de 1975, no auge do calor revolucionário, o grupo de Melo Antunes, já em ruptura com Vasco Gonçalves, distribuiu um comunicado pelas redacções. Era o «documento dos Nove». Foi pedido embargo até à manhã do dia seguinte. Portela pegou no comunicado e publicou-o numa edição da noite do Jornal Novo. Um escândalo. A irreverência de Artur Portela estava sempre à espreita. Talvez se tenha esfumado aí o fantasma do pai. 
     No 25 de Novembro, o Jornal Novo escolhe mal os aliados. O país está a mudar e Portela não lê bem a situação. Como as crónicas de Afonso Praça sobre a Linha Férrea do Sabor, espera um comboio da terceira via que já não vai passar. A Confederação da Indústria paga o compromisso de Artur Portela no jornal com o despedimento sumário. «Fiz-me difícil, sabe?», contou-me. «Andei dias fugido para não ser notificado.» 
      Escreveu um livro (Fotomontagem) sobre o caso, que se lê num jacto, tal como, em 1963, fustigara Norberto, Mário Neves e todos os outros com Código de Hamurabi, um romance em código sobre o seu afastamento do Diário de Lisboa. Para mim, são os seus melhores trabalhos literários, embora ele preferisse Rama, Verdadeiramente, um dos primeiros livros do nouveau roman em Portugal. 
     Escreveu muito. Ninguém interpretou Eça como ele. Ninguém quis ser Eça como ele. 
     Depois da aventura na revista Opção, as portas dos jornais fecharam-se. Artur Portela institucionalizou-se. O estilo de A Funda, críptico, com meias palavras, já não fazia sentido no Portugal democrático, onde, em teoria, podiam chamar-se os bois pelo seu nome. Foi desaparecendo do espaço público, apesar de algumas crónicas dispersas pelo Tal & Qual (A Feira das Vaidades foi o título que escolheu) e por O Jornal. A sua intervenção pública passou a ser feita através de livros-entrevista (maravilhoso o volume com José Cardoso Pires) e da ficção (nem sempre bem recebida pela crítica). 
     Ficou a dever-nos um livro de memórias. 
      Ficou a dever-me uma chave para confirmar todos os nomes encriptados no Código de Hamurabi
      Ficou a dever-me mais um café na Versalhes. 
      Foi um gigante contrariado, um jornalista que criou o seu próprio carril, que mais nenhuma locomotiva conseguiria trilhar. O que não é pouco.


quinta-feira, novembro 05, 2020

O espião de Castelo Branco



Há quem diga que os livros são mais perigosos do que as armas. 

A história de Rogério Teixeira de Menezes foi conhecida em Portugal através do livro do espião dissidente Kim Philby. Foi depois contada com pormenor em livros de José António Barreiros e de Rui Araújo. Nos anos 1990, Barreiros conseguiu até entrevistar o diplomata português que, em 1943, enviara 10 a 12 mensagens disfarçadas com tinta simpática da embaixada portuguesa em Londres para contactos alemães em Lisboa. Foi condenado à morte, pena depois convertida em prisão perpétua e por fim reconvertida em expulsão do país. Foi de novo preso à chegada a Lisboa. 

Essa é a parte da história conhecida. Em 1981, porém, o Tal & Qual descobriu-o em Castelo Branco. Hernâni Santos lera o livro de Philby em Inglaterra. Colocou a hipótese de o velho espião ainda estar vivo. Ele, Rui Cabral e um fotógrafo que opto por não identificar na história descobriram-no no Liceu de Castelo Branco. Como Hanna Arendt no julgamento de Eichmann, esperavam encontrar a personificação do mal. Encontraram um homem normal, adorado pelos seus alunos. 

Esta é a história de uma reportagem que mudou para sempre a vida de Rogério Menezes. Na "Jornalismo e Jornalistas", n.º 73. Disponível aqui.  

E a ilustração é do Luís Taklim!

terça-feira, novembro 03, 2020

Semiótica na primeira página

Público, 3 de Novembro de 2020


Ia escrever sobre outro tópico, mas chamou-me a atenção a leitura que o Luís Paixão Martins fez desta manchete do Público. "O dia da América" pode ser lido com malícia como "Odiada América". É uma gracinha que permite sempre ao jornal recuar e alegar que não foi isso que se escreveu. É o equivalente à pergunta maliciosa do advogado de acusação nas séries televisivas, que retira de imediato a questão, deixando-a porém planar sobre a mente dos membros do júri.
Estes jogos semióticos na primeira página dos jornais são populares entre os redactores há muitos anos.
No Correio da Manhã, Vítor Direito fez pelo menos três em dia de eleições (1980, 1982 e 1983), apelando discretamente ao voto sem nunca o assumir.


Correio da Manhã, 5 de Outubro de 1980



Correio da Manhã, 12 de Dezembro de 1982



Correio da Manhã, 25 de Abril de 1983

Em 2011, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias cederam à graçola fácil associada à polissemia do "buraco" orçamental.


 


E, nesta lista de aventuras semióticas, não poderia faltar a primeira página que José Manuel Fernandes preparou maldosamente no dia em que o Tribunal da Relação absolveu Paulo Pedroso do crime de pedofilia.



Na essência, são pouco mais do que graffiti anónimos numa parede. Mas fazem estragos.