sexta-feira, outubro 16, 2026

Letria, o homem-orquestra




Dos jornais e revistas às agências noticiosas e da rádio à televisão, Letria fez de tudo. Em século e meio de história do jornalismo em Portugal, nunca houve um jornalista com um domínio tão completo do arsenal dos repórteres.

 

Desde o papado de Pio XI que São Francisco de Sales foi designado como padroeiro dos jornalistas. Se se der o caso de Joaquim Letria se cruzar brevemente com este santo (o que aliás seria uma surpresa para Letria, agnóstico firme), é mais do que justo que seja Sales a tratá-lo com deferência e que se levante para lhe dar o lugar. Nada, na carreira de Letria, foi oferecido. Nada foi planeado. Construiu à força de golpes de catana o trilho por onde nunca ninguém seguira. E, quando chegou à meta, com um panorama desobstruído e a sensação de não haver mais mundo no jornalismo para desbravar, sentou-se, com o ar trocista de sempre, à espera que mais alguém o seguisse. Ninguém o conseguiu.

Joaquim José da Conceição Letria enfrentou a primeira batalha da sua vida aos 10 anos.  A poliomielite poderia ter-lhe roubado a vida ou a capacidade de locomoção. Acabou por lhe afectar a mobilidade de um braço, mas moldou-lhe sobretudo a resolução. «Mostrou-me que estamos à mercê de um acaso», contou em entrevista. «Fortaleceu o meu desejo de não desperdiçar uma oportunidade.»

Vivendo em Campolide, bairro lisboeta de tradição operária, assimilou as lutas do seu tempo e escolheu o seu lado da barricada – ingressou nas juventudes operárias e depois no Partido Comunista Português contra a ditadura. O jardim do avô dispunha de um barracão discreto e conduziam-se ali reuniões que impressionavam o jovem Joaquim, militante quase anónimo com o pseudónimo «Tomás». Conheceu os líderes comunistas nas suas nobrezas e fraquezas. Mais tarde, quando o defrontou como adversário em debates políticos, Álvaro Cunhal nunca escondeu algum desconforto. Letria – que aliás o admirava – conhecia-o bem de mais.

Liderou protestos na Pró-Associação dos Liceus e participou na crise estudantil de 1962. Por força disso, foi um entre dezenas de estudantes presos. «Poderia ter ficado arrumado ali», contou. «Se se tivesse provado a filiação no PCP, nunca me teriam soltado.» Valeu-lhe um camarada que, mesmo sob tortura e intimidação, não revelou o seu nome. «Francisco Rego Chaves fez o favor de não falar no meu nome na PIDE, o que é notável – um daqueles favores que não se pagam», contou. «Se não fosse ele, eu teria ido dentro.» Letria também era assim: amigo até à última gota, solidário e reconhecido.

 

No Diário de Lisboa

​Em 1962, o Diário de Lisboa era o jornal lido e respeitado pelos jovens lisboetas. A filha do subdirector Mário Neves, Maria Emília, mete-se em constantes sarilhos nas juventudes estudantis. Em Abril, é detida pela PIDE, o que requer uma solução criativa. A mulher do director, Norberto Lopes, assume-se como vidente (virá a assinar crónica astrológica com o pseudónimo de «Sibila») e dá consultas a Salazar. Será através de uma palavra deixada cair durante uma sessão espírita que Maria Emília receberá uma inesperada ordem de soltura. «A Maria Emília, colega de luta e amiga, foi a minha porta de entrada no jornalismo», explicou Letria a propósito da sequência de coincidências que lhe abriu a porta do jornal.

​Mesmo com a cunha da filha, Mário Neves faz-lhe a vida difícil. Força Letria a vir todos os dias ao seu gabinete durante um mês e meio antes de aceitar a sua candidatura. Por fim, pergunta-lhe: «Quer um emprego ou quer ser jornalista? É que são coisas diferentes.» Letria nunca esquecerá a lição: o jornalismo que praticará nos quarenta anos seguintes será sempre uma vocação.

Com a voragem da juventude, Letria sobe degraus e acumula proezas jornalísticas. Teimoso, versátil e poliglota, entrevista personalidades reticentes como Paul McCartney. «O Quinzinho lá se safa» – gostava de dizer, galhofeiro, de cada vez que batia a concorrência. Ganha créditos no jornal e a estima de Vítor Direito, «o melhor fazedor de jornais que conheci ». Revela-se também por aqueles anos o feitio nem sempre fácil de Joaquim. «Desentendi-me com o Direito por uma tontice e ficámos zangados durante meses», contou. «E foi ele que teve a nobreza de me dizer um dia: ‘O menino deixe-se de fitas e junte-se a nós.’, sanando o conflito.»

Como muitos repórteres daquele tempo, Letria acumula ganchos para pagar as contas. Colabora com o Rádio Clube Português e com a Associated Press e verifica, no trabalho de agência, como as regras das redacções portuguesas já estão obsoletas. Escreve crónicas semanais para a revista Flama. Conhece meio mundo do teatro e da revista. Entrevista desportistas com isenção britânica – ele, benfiquista fervoroso e supersticioso, que chega a abdicar da comparência no Estádio do Luz por considerar que traz o azar com ele.

Afasta-se progressivamente do PCP e rompe em 1968, desiludido com o episódio de Praga. Antes, porém, sofre outro calvário.


 

Com o autor, António Baptista-Lopes, Wilton Fonseca e Ramón Font, Fevereiro 2026

Na PIDE por 12 horas

Em 1967, Letria ainda não usa a barba que se tornará uma imagem de marca – será numa reportagem de longo curso na Amazónia que a deixará crescer e nunca mais a cortará.

Em Abril desse ano, escreve uma curta notícia sobre um assalto na Rua António Maria Cardoso, a mesma onde está implantada a sede da PIDE. Brinca com o fogo e escreve no texto (publicado no Diário de Lisboa sem assinatura) que o assalto aconteceu nas barbas da polícia política. A PIDE inicia um inquérito e o jornal é intimado a fornecer a identidade do autor da notícia que zombou com as autoridades. Para surpresa e repugnância de Letria, Norberto Lopes, o velho director do jornal, dá o seu nome.

É interrogado durante horas e pressionado (embora sem castigos físicos) pelo inspector Abílio Pires. Aproveita para reflectir – talvez pela primeira vez – sobre o modo como os redactores estão sujeitos aos caprichos dos directores. Se um dia dirigir um jornal – promete para os seus botões – nunca atirará um dos seus jornalistas para a frente do carro.

Sufocado em Portugal, Letria tenta a sorte em Londres. Conhece ali Hernâni Santos, que o ajuda a integrar-se na secção portuguesa da BBC. Ganha tarimba e contactos. 

 

O grande debate e o grande jornal

Regressa a Portugal em Maio de 1974. Candidata-se à RTP e é aprovado. Conhece o major Eanes na sala de espera – Eanes vai presidir à estação, Letria entra para a Direcção de Informação. Como não tem esqueletos no armário nem anticorpos entre as forças vencedoras da revolução, sobe rapidamente na hierarquia e assume funções na condução do Telejornal. Não deixa, porém, de se surpreender com a vaga súbita de convertidos à democracia na estação pública. Cunhará para eles um termo que vingou: «os pintados de esquerda».

Para um espírito livre, o período revolucionário é um calvário. As direcções da RTP sucedem-se (um administrador militar chega a dirigir a estação por 12 horas). Letria prova o sabor amargo da censura quando Spínola exige que o autor de uma entrevista a Pedro Pires, dirigente do PAIGC, seja despedido da RTP. E os portugueses ficam a conhecê-lo quando manda calar José Durão Barroso, dirigente do MRPP, que pretende ler em antena um longo comunicado de 17 páginas.

Após a saída de Ramalho Eanes da RTP na sequência do 11 de Março de 1975, Letria bate também com a porta. Decide fundar um jornal e, com 15 camaradas, forma a cooperativa de O Jornal, lufada de ar fresco num sector então estatizado. «Tínhamos decidido que, para entrar mais alguém para o jornal, teria de ser com aprovação de todos», contou. «Uma bola preta e já não entrava. Foi assim que aquele grupo nasceu. Passado pouco tempo, tinha de andar encostado à parede para não levar uma facada tal não era o ambiente.» Hernâni Santos é o primeiro a abandonar o barco, Letria segue-lhe os passos. Entre os dois mantém-se o sonho de, um dia, fundarem um jornal… de jornalistas.

Sempre em movimento, é contratado pela ANOP, precursora da Lusa e inicia uma colaboração com a RDP. Na agência, é preso ao tentar entrar no Sudão – no passaporte, tinha um visto da alfândega israelita que despertou suspeitas. Mas a RTP é uma obsessão persistente. Regressa em finais de 1975. Quando são necessários moderadores para o grande debate de 6 de Novembro desse ano, Joaquim Letria e José Carlos Megre são nomes consensuais. Letria tem de mentir para conseguir juntar na mesma sala Mário Soares e Álvaro Cunhal: assegura a cada um que o rival já aceitou a contenda. É a magia do Quinzinho que safa o primeiro debate televisivo político a que o país assiste.

Entre vagas de fumo no estúdio e um clima de cortar à faca, Letria torna fácil o que poderia ser o cemitério de uma carreira. Conduz o debate de quatro horas que opõe Soares a Cunhal e escuta o famoso «Olhe que não, sotôr, olhe que não» de Cunhal sem pestanejar nem mostrar emoções. É, nesse momento, o pêndulo de equilíbrio de que o país fracturado precisa.

A RTP é o saco de boxe dos partidos e a Direcção de Informação voga ao sabor das correntes. Letria farta-se. Mantém um pé na televisão, como apresentador de programas de variedades, mas não está feliz. Em 1980, apresenta o programa Tal & Qual na televisão – um dos mais populares de então. Uma entrevista controversa é pretexto para Victor Cunha Rego mandar censurar o programa e Letria volta a bater com a porta. É noite de Santos Populares e, com o amigo catalão Ramón Font,dirige-se a Alfama para carpir as mágoas. Talvez seja o álcool a falar, mas desafiam-se mutuamente: o país está maduro para um novo jornal independente, de notícias directas, sem partidos nem vacas sagradas. Em três semanas, está nas bancas o primeiro número do Tal & Qual. Hernâni Santos e o jovem Rocha Vieira completam o quarteto fundador.

Nada na vida profissional de Letria é simples ou duradouro. Seis meses mais tarde, Ramalho Eanes convida-o para a assessoria da Presidência da República. Letria deixa o jornal por incompatibilidade. Alguns dos fundadores zangam-se. O jornal, porém, já é um espírito livre e prossegue o seu curso por mais 27 anos até terminar a primeira série.

Ao longo da década de 1980, Letria faz rádio e cativa a audiência com o programa Cobras e Lagartos na Antena 1. Funda a revista Sábado e apresenta Apanhados na televisão. Escreve furiosamente em jornais e revistas. Não esconde opiniões polémicas nem foge à luta. Quando Miguel Cadilhe lhe faz a desfeita de não comparecer a uma entrevista para a qual se comprometera na RTP2, Letria entrevista a… cadeira vazia do ministro. Em crónicas polémicas, faz a apologia da tourada e das mulheres bonitas, do futebol e dos marialvas. Recusa desqualificar um interlocutor pelo simples facto de pertencer a outra barricada e critica a nova censura, a dos «donos da verdade».

À distância, acompanha o seu jornal de sempre e incentiva a nova vaga de repórteres. Partilha com todos a máxima jornalística que aprendera na BBC: «A tua mãe diz que te adora? Investiga. Investiga todas as pistas! Não deixes de ter curiosidade.»

Quando a segunda série do Tal & Qual é iniciada, no início de Junho de 2021, Joaquim Letria emociona-se. «Não poupem ninguém» – recomenda. «Nem a mim.» 

Os americanos têm um termo carinhoso para os pioneiros da sua Constituição – são os pais fundadores. OTal & Qual perdeu esta semana o seu pai fundador, mas, com probabilidade, Joaquim Letria, de charuto na mão e sorriso rasgado, já está a montar uma nova redacção. Vai ser outro jornal dos diabos!


 

sábado, fevereiro 07, 2026

O falsário erudito


Barcelona – Estou no gabinete de Ignasi Adiego, na velhinha Universidade de Barcelona, discutindo o fascinante tema das fraudes na história da epigrafia. Ignasi é um dos mais conceituados linguistas europeus e um dos poucos que podem orgulhar-se de ter decifrado uma escrita – o cário, da Anatólia.

       “As fraudes são complexas, mas não costumam ser infalíveis”, diz. “Ou o falsário percebe pouco da escrita em causa e introduz gatafunhos na inscrição ou copia texto de outras inscrições que acabam por aparecer.” Faz uma pausa e acrescenta: “Claro que é bastante mais complicado quando o falsário é especialista…”

       O meu interlocutor não mo diz mas é provável que estivesse a pensar no estranho caso de James Mellaart, o arqueólogo britânico que trabalhou na Turquia e que foi decisivo para explicar a Idade do Bronze nesta região. Entre 1958 e 1965, Mellaart deu a conhecer Çatalhöyük ao mundo, um dos mais extraordinários sítios neolíticos do mundo. Só que fez mais do que isso.

       Em algum momento do seu trajecto, apaixonou-se pela atenção global que as suas teorias mereciam e começou a falsificar evidências. Apresentava a informação como proveniente de colecções privadas ou copiada de alguém que vira o original no século XIX, antes de a peça se perder para sempre.

       A academia tem muitas virtudes, mas não desconfia das suas estrelas do norte. É provável que os actuais especialistas em Neolítico tenham estudado pelas suas obras sobre o Próximo Oriente e baixaram a guarda. Quando Melaart apresentou evidências de uma extraordinária inscrição luvita, ninguém parou para pensar. Os signos tinham sido preparados no seu escritório — descobriu-se após a sua morte. Os investigadores que analisaram o seu espólio descobriram esboços e até anotações como “demasiado óbvio”, junto de propostas alternativas de glifos e símbolos.

       Mellaart pregara a partida definitiva aos seus colegas e discípulos. Alguns hesitaram. O suíço Eberhard Zangger escreveu um perfil decepcionado do mestre e amigo. Outros reagiram com repugnância.

        Mellaart fez recuar o seu campo de trabalho em décadas. Tornou difícil distinguir os contributos válidos dos inválidos no seu percurso. E, no estudo da escrita luvita, contaminou para sempre a investigação.

        É bem pior quando a maçã bichada é a mais robusta da árvore.

sábado, janeiro 17, 2026

Costa Carvalho, o mestre com mil discípulos




A notícia da morte de José Costa Carvalho apanhou-me em Espanha e não pude prestar-lhe a homenagem que queria. Sabia-o doente e adivinhava o final, mas custa ver soltar-se um pedaço, grande como um icebergue, da plataforma do jornalismo portuense. Tínhamos falado em Novembro, quando voltou a insistir que me cabia escrever a história dos dias finais de um grande escritor português. Passou-me documentação, um testemunho e uma torrente de correios electrónicos entre os últimos amigos do escritor, todos já desaparecidos. «Não nos deixe mal» – pediu. Já veremos se cumpro o desígnio e se faço justiça ao Altino...

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​Costa Carvalho escrevia em maiúsculas. Não o fazia por soberba nem por insulto. «É para poder ler o que escrevo», disse-me um dia. E, no entanto, se alguém no jornalismo do Porto poderia falar de cátedra seria ele, o único que chegou a cargos de direcção nos três grandes jornais da cidade, o fundador da primeira instituição de ensino de jornalismo do Porto, o formador de tantas levas de jornalistas que lhe chamavam «mestre» com carinho e que o choraram por essas páginas de Facebook fora nas últimas horas.

​O meu primeiro chefe da redacção não gostava do Costa Carvalho. Comunista do princípio ao fim, creio que nunca percebeu que o partido do Costa Carvalho era o jornalismo. Foi um erro habitual antes e depois da revolução.​ Os jornalistas vinculados a partidos nunca perceberam um homem que foi sempre livre. Entre 1977 e 1979, o Diário de Lisboa e o Página Um acusaram-no de maquinações extravagantes, de viagens à República Federal Alemã e de adesão a um comité da contra-revolução. Carvalho nunca vergou: defendeu-se em Conselho de Imprensa e ganhou sempre esses casos. Ria-se. O currículo dele na polícia política era mais extenso do que o dos revolucionários pintados à pressão.

​Tinha respeito pelos homens de convicção. «O Comércio do meu tempo [em 1974] era um albergue de comunistas. Genuínos, não eram convertidos à pressa. Deram-me água pela barba. Sacanagem atrás de sacanagem. Mas eram genuínos», disse-me numa entrevista em 2023 no seu apartamento desarrumado e cheio de livros em todos os recantos, durante a qual devorou cigarros atrás de cigarros.

​A história das suas entradas e saídas nos jornais do Porto merecia um livro. Entrou para o JN num aperto, em 1961. Não havia ninguém, o Benfica jogava em Berna a primeira final europeia. «Era colaborador. E o senhor Manuel Ramos pediu-me para fazer a página de desporto porque o chefe tinha ido para casa – a mulher tivera um parto e a coisa correra mal. O senhor Ferreira, mais conhecido como o Alemão, era o chefe da tipografia e disse logo que me ajudava. E o senhor Manuel Ramos acompanhou-me. Eu transpirava por todos os lados, tratando-os por senhores. Os colaboradores chegavam, deixavam a prosa e piravam-se. Saí todo esbodegado, mas, no dia seguinte, convidaram-me para entrar para o quadro»

​No JN de Pacheco Miranda, formou, com Frederico Martins Mendes, Serafim Ferreira e José Luís Simões de Abreu, o quarteto dos intelectuais da bola. O jornal salvou-se, ganhou respeito. «O jornal era feito no Porto, mas feito para entrar no Porto por fora, por via das pessoas que aqui vinham trabalhar», explicou-me quando lhe perguntei como salvara Miranda um jornal destinado a fechar. «A ideia era que todos os concelhos do Norte estivessem representados nas nossas páginas. Nenhuma notícia era demasiado pequena»

​Correu todas as secções. Fez-se grande repórter. Em 1973, viajou para a Guiné e entrevistou Spínola – uma entrevista que deu sarilho pelo conteúdo e porque as fotografias mostravam os oficiais portugueses desgrenhados e mal vestidos. «O Spínola na altura disse-me que a guerra estava perdida, mas que eu não podia escrever nada. É curioso: a Censura teve instruções para não mudar uma vírgula do que escrevi...  Havia muita coisa a correr nos bastidores que nós nunca soubemos.»

​Pouco antes da revolução, Costa Carvalho trocou o JN pelo Comércio do Porto. «Fui receber mais do dobro porque tinha quatro passarinhos a meu cargo», disse-me. Mas o jornal estava um caos e, no xadrez da luta política, passou a apoiar Veloso, contra todas as evidências. «Mais tarde, já deputado, ainda deitei a mão ao Comércio para não o fecharem por dívidas, mas foi só um adiamento de sentença.»

​O mestre foi depois integrado no Primeiro Janeiro, já depois da morte do grande director que foi Pinto de Azevedo. Foi dele que escutei as histórias mirabolantes sobre a tipografia e o sistema de envio de originais por tubagens que o director tinha visto em Inglaterra. «Aquela merda encravava», explicou-me Costa Carvalho. «O tubo mal chegava à tipografia e ficava entupido. Era um horror.» Foi também por ele que soube que o prestígio e fortuna de Pinto de Azevedo eram tais que, em Toledo, conseguiu que desligassem as luzes da catedral para que o grande industrial pudesse ver as pinturas de El Greco à luz de tochas, tal como o artista desejara que fossem entendidas.

​Com Freitas Cruz na direcção até 1981, o Janeiro virou à direita. Nunca esquecerei a descrição que Costa Carvalho me fez da primeira reunião em que a administração explicava como seria a “isenção” a adoptar no noticiário das campanhas eleitorais: «Disse-nos que o jornal acompanharia a campanha com isenção, mas moderação. E eu, que já não era ingénuo, perguntei: “Ó director, como é? Dê-me um exemplo.” Ele pegou no jornal e mostrou: “Faz-se uma notícia grande para transmitir o que Sá Carneiro disse no dia em causa e depois põe-se uma bolinha pequena para explicar que Mário Soares esteve em Esposende.” Eu não tinha nada a favor nem contra Soares, mas aquilo não era jornalismo.»

​As histórias com Freitas Cruz, aliás, davam para um livro, tal como o ano e pouco de convívio que Costa Carvalho teve com a escritora Agustina Bessa-Luís em 1986 e 1987, quando esta se tornou a primeira mulher directora de um jornal diário português e Carvalho foi o seu director-adjunto. «O que nós nos ríamos dos calaceiros que lá tínhamos na redacção. Um passava o dia ao telefone para parecer que estava ocupado. Outro levava dois casacos para deixar um na cadeira e parecer que estava em serviço. E a Dona Agustina ria-se destas pequenas coisas do submundo, a fazer lembrar o Almeida Garrett.»

​Costa Carvalho voltou ao JN no último período áureo do jornal, entre o final da década de 1980 e o fim do século. Foi um senhor até ao fim, mesmo quando o puseram de castigo no arquivo, a colar e a fazer recortes. E, quando negociou a saída, inscreveu-se no mestrado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde produziu uma tese notável sobre o escritor Gomes de Amorim.

​Não concordámos em tudo. Eu dizia-lhe que, em duas gerações, Agustina ficará esquecida e ele zangava-se. Chateava-me com o meu Sporting e eu não tive coragem de o chatear quando o Boavista dele iniciou a espiral de decadência. Aprendi com ele a gostar de Amarante, de Teixeira Pascoais e das tradições de São Gonçalo. Em contrapartida, ele nunca percebeu o meu interesse pelo Tal & Qual e achou o livro que escrevi, com o José Paulo Fafe, o mais frágil de todos os que produzi. 

Talvez o episódio que melhor o defina tenha sido o dia em que percebeu que Ramalho Eanes abandonava o Partido Renovador Democrático à sua sorte. «Na última reunião do grupo parlamentar, que tinha 45 deputados, eu disse. “Salvo melhor opinião, vim fazer o meu baptismo político porque nunca me tinha metido em política. Como sabe, fui convidado, não me propus ao lugar. Continuarei como independente até às eleições. Mas quero dizer-lhe que enganei-me na igreja, enganei-me na pia baptismal e enganei-me no padre.”» E o jornalista-feito-deputado nunca mais se meteu em política.

Com Costa Carvalho, desaparece o Porto dos jornais. Saibamos ser dignos do seu legado.

 

quinta-feira, julho 31, 2025

Luís Alberto Ferreira e o prazer do narrador




​        «Já lhe contei aquela vez em que…» 

​As nossas conversas começavam sempre assim. O Luís Alberto Ferreira sabia que eu me pelo por uma boa história e ele tinha-as com fartura, fruto de uma das mais longevas carreiras do jornalismo português. Tinha uma generosidade sem limites. Partilhava pelo gosto de partilhar. E era um contador de histórias insuperável.

​«Já lhe contei aquela vez em que Marcelo Caetano me chamou filho da puta?» Ligou-me no dia a seguir ao Natal para me contar isto. E desbobinava pormenores sobre o dia de 1971 em que o Presidente do Conselho cuidara que estaria a sós com o embaixador americano em Lisboa e fora surpreendido por uma equipa da RTP – «mais oficial do que nós não havia» – à porta do local secreto de encontro por indiscrição de Manuel Maria Múrias. Irritado, Caetano, o catedrático, o pai do constitucionalismo, soltara o vernáculo. E o Luís Alberto ria, com aquela voz rouca.

​Cultivava as palavras e fugia às escolhas óbvias como os matadores de Córdova que aprendera a estimar nas praças de touros do país vizinho. A reportagem escrita, para ele, implicava a recusa do atalho e o culto da expressão erudita. Ligou-me uma vez só para me dizer que tinha gostado muito da maneira como descrevi Jules Sauerwein: «um homem humilhado por não ter mais altura, que empertigava a cabeça para não perder um único centímetro da sua estatura». «Essa foi de antologia, meu caro Gonçalo.» E ria.

​Fez quase tudo no jornalismo. Chegou muito cedo a Lisboa, vindo de Luanda. «Ainda a cheirar a navio», tentou a sorte em A Bola, onde chegou a assinar textos apenas como Alberto Ferreira, mas percebeu que, naquele contexto, no fim dos anos 1950, o jornal já estava servido com a nata dos repórteres do país. Fez o mais difícil: foi para Espanha. Durante uma década, viveu entre Sevilha, Madrid e Barcelona, familiarizando-se com a fina-flor da tauromaquia, do futebol, da ciência e dos jornais.

​«Já lhe contei aquela vez em que entrevistei o cirurgião Gregório Marañon?» Tremera como varas verdes perante o grande homem da medicina espanhola e fora Marañon, achando graça ao miúdo mulato, que lhe pusera a mão sobre o ombro e lhe dissera: «Começa quando estiveres preparado.» Depois disso, «nunca mais tive medo de entrevistar ninguém.»

​«Já lhe contei que estava no gabinete de Santiago Bernabéu quando a assistente dele entrou para alertar que o avião que transportava a equipa do Manchester United caíra?» Mais uma história. Mais uma aventura. Adorava Espanha e a abertura hispânica para pensar o mundo e tinha honra em ter desbravado caminho, encontrando nos jornais espanhóis o espaço que lhe faltara aqui. Por isso também sentiu, com uma ponta de orgulho, o dia em que lhe comuniquei que seguia as pisadas dele e tentaria a minha sorte na imprensa do país vizinho. «Meu caro Gonçalo, não se esqueça de me contar as suas aventuras nas inesquecíveis ramblas da Cidade Condal!» Tornou-se a senha das conversas dos últimos três anos. «Conte, conte, como está a mudar a face da Barcelona!» E eu corava.

​Em textos já publicados, relatei vários episódios que lhe aconteceram. Tenho para aqui, em discos externos, horas a fio de gravações sobre tudo e nada. 

​A primeira entrevista em Portugal com Alfredo di Stefano e o dia em que se atreveu a aconselhar o monstro sagrado do futebol.

​O dia em que, despeitado com a pressão exercida pelo director de uma corrida de touros junto da administração da RTP, fez a locução tauromáquica em silêncio – 120 minutos sem dizer uma palavra a ponto de os espectadores ligarem para a 5 de Outubro perguntando se o problema estaria no seu receptor. 

​A entrevista com o subcomandante Marcos, líder dos zapatistas, no México, depois de uma saga na montanha para fugir às tropas do governo. 

​O texto provocatório contra Boavida Portugal, director do Mundo Desportivo, que lhe valeu o cancelamento da colaboração com o jornal. 

​As aventuras com Kapuscinski em Angola, guiando o prestigiado jornalista por terrenos minados – literal e figurativamente – do novo regime.

​A proibição de frequentar o balneário do Estádio das Antas e a resposta na ponta da língua: «Mas eu algum dia tomei banho no vosso balneário?»

​Os galanteios e os piropos às mulheres bonitas.

​«Já lhe contei aquela vez em que estive a um dia de entrevistar Saddam Hussein e disseram-me que não valia a pena?»

​Nas conversas, não faltavam invariavelmente os filhos da puta com que também teve de lidar em jornais e televisões. Com nomes e currículos.

​Em 1974, Luís Alberto Ferreira assinou uma série de 13 crónicas no jornal A Bola sobre racismo no desporto angolano. Chamou-lhes «futebol a preto e branco» e são monumentos à crónica. Ofereci-me há uns anos para as transcrever e passá-las ao nosso editor comum, na esperança de que os textos ganhassem uma perenidade bem merecida. Riu-se. «É prosa velha, mais gasta do que os pneumáticos de um camião de longo curso.» Não era. Não é. 

​A partir de agora, cabe-me a mim – e a um punhado de outros – falar do Luís Alberto Ferreira, um jornalista que me deu a honra de ser meu amigo.

​«Já vos contei aquela vez em que ele…»