domingo, julho 18, 2021

Quem, afinal, descobriu a Madona de Álvaro Pires?


 

         Pode um mistério estar à vista de todos durante quatrocentos anos e não ser descodificado?        

         Atente-se na história desta Madona com o Menino e Anjos Músicos (1415). No início do século XIX, pouco se sabia em Portugal sobre o pintor Álvaro Pires, de Évora. Giorgio Vassari, na sua memória do pintor renascentista Taddeo Bartoli, mencionara-o vagamente, como Alvaro Piero di Portogallo. José da Cunha Taborda, em Regras da Arte da Pintura, fazia-lhe alusão em 1815, repetindo a informação do historiador quinhentista. Em 1846, G. Milanesi acrescentara um dado importante, confessando ter visto um quadro assinado pelo pintor numa igreja dos arredores de Pisa. E pouco mais.      

        Em 1922, o médico Reinaldo dos Santos visitou Itália. Ia em missão a um congresso médico em Génova, mas, apaixonado por história de arte e amigo de José de Figueiredo, director e fundador do Museu Nacional de Arte Antiga, adicionou um itinerário invulgar ao périplo. Visava sobretudo uma igreja remota, a Igreja de Santa Croce de Fossabanda. Dando «um pequeno repouso às minhas preocupações profissionais», decidiu investigar. Pisa, porém, mudara muito. De igreja em igreja, Reinaldo acabou por terminar a busca num templo meio arruinado, ladeado pela cerca de um convento.      

        «Na galilé, toda especada em esporas, floriam sobre os fustes desaprumados alguns capitéis de velha arte pisana. A sua antiguidade pareceu-me de bom augúrio», escreveu numa crónica para o Diário de Lisboa no dia 10 de Julho de 1922. «Entretanto, um franciscano abriu o portal e logo, ao ouvir declinar a minha nacionalidade e o interesse em visitar a igreja, perguntou-me, sorrindo: “Vem então para ver o Álvaro?” Alguns minutos depois, toda a incerteza estava maravilhosamente dissipada. Não era o deslumbramento de me encontrar diante de uma das mais encantadoras madonas que a arte do quattrocento deixara no vale do Arno. Era, sobretudo, a emoção de ver – distintamente escrita em português – a assinatura do artista, cujas letras brilhavam diante dos meus olhos comovidos: “Álvaro Pires d’Evora Pintou”.»      

        O artigo de Reinaldo dos Santos no Diário de Lisboa (que precedeu a publicação de um opúsculo sobre o caso) motivou uma réplica de Carlos Lobo, outro erudito amador, que garantia ter visto o mesmo quadro «num dia de Inverno de 1912» enquanto andava «solitário, percorrendo a grande nave da Igreja de San Francesco, em busca do panteão da família Della Gherardesca a que pertencia o famoso conde Ugolino». Ali encontrara um frade que, vendo-o interessado, lhe perguntou se não quereria ver o «quadro de um espanhol» numa igreja próxima. A obra estava então escondida «por detrás de uma cortina de chita encarnada. O frade puxou um cordelinho e o quadro apareceu!»      

         Lobo teve a mesma epifania de Reinaldo dez anos depois, ao contemplar a assinatura de Álvaro Pires. De regresso a Lisboa, escreveu a José de Figueiredo e deu-lhe conta do achado. O director do MNA escreveu um artigo em O Século, de 5 de Março de 1913, contando a descoberta singular.      

        Três dias depois do artigo de Carlos Lobo, no dia 15 de Julho de 1922, Reinaldo encerrou a polémica: «Nada mais fútil nas questões históricas do que uma discussão de prioridades», começou. «Nem eu, ao procurar intencionalmente em Santa Croce, a Madona de Álvaro, nem V. Ex.ª ao tê-la encontrado inesperadamente em Pisa, a descobrimos senão para nós. Para a história da arte, foi Milanesi quem, no meado do século passado, a descobriu.»     

        Reinaldo teria mais concorrência nesse mesmo ano, pois também Vergílio Correia, o historiador de Coimbra, publicou um opúsculo com informação biográfica inédita sobre o pintor alentejano. Quem, afinal, descobriu para os portugueses a Madona de Álvaro Pires? Carlos Lobo? José de Figueiredo? Reinaldo dos Santos? Vergílio Correia?      

         Na verdade, não parece ter sido nenhum deles e a resposta não é particularmente gloriosa. Joaquim Vasconcelos, o historiador de arte do Porto, publicou, em 1896, um volume monumental sobre o grande Francisco de Holanda e, nele, en passant, contava a história da Madona de Pisa. Estava tão obcecado por Francisco de Holanda e Albrecht Dürer que não valorizou excessivamente que tinha em mãos o primeiro pintor português de Quatrocentos.



segunda-feira, julho 05, 2021

Ah! Isso é a vida!

 



        Já aqui contei que colecciono avidamente os livros de ficção portuguesa que colocam jornais e jornalistas no centro da acção. A lista vai crescendo com vagar, embora a amostra não seja extensa. Junto-lhe hoje mais um – Torel-Norte, 5853, de Artur Inês (publicado em 1934 pela Guimarães Editora). 
    Trata-se do único volume de ficção publicado pelo antigo subchefe da redacção da República e percebe-se porquê. Torel-Norte, 5853 é um livro ingénuo. A acção decorre entre o Bairro Alto dos jornais e a Estrada de Loures, «passada a Porta de Carriche» e, portanto, já fora da grande cidade. As acções precipitam-se sem que o leitor possa assimilar cada personagem. Começamos a compreender o escritor Mariano de Paiva e Inês mata-o com um tiro «que parte das trevas». Assimilamos a personagem do capitão-aviador Óscar de Mendonça e Inês mata-o num acidente de aviação. Apresenta-nos Arnaldo Cruz, o homem-criado dos ingleses do Estoril que parece ter alguma influência na narrativa, mas afoga-o de seguida. As personagens de Artur Inês duram menos do que as seis mulheres de Henrique VIII. 
        Artur Inês não era um esteta: a linguagem de Torel-Norte, 5853 é rude e as personagens de uma simplicidade pueril. O próprio título, aparentemente enigmático, não é mais do que a extensão telefónica da esquadra de polícia. Dir-se-ia que o próprio autor se enfastia do enredo. Há, claro, um génio na narrativa – o jornalista (é um must do estilo). Rui Galvão, redactor político, ligeiramente enjoado e empertigado, descobre tudo sem ajuda. Manda os agentes de polícia executarem detenções e ainda vai a tempo de assistir à sessão da noite «de um grande filme americano no São Luiz». Seduz mulheres e desarma fontes só com perguntas penetrantes. Não dá qualquer explicação sobre as pistas que o conduzem ao desfecho. As mulheres, essas, são sedutoras até desatarem em pranto, com «os olhos sufocados de lágrimas». Desmoronam-se ao primeiro grito, as pobres. 
        Como é natural, não é minha intenção destruir um livro publicado há 86 anos e ao qual o Diário de Lisboa recusou a recensão, limitando-se a um eco de seis curtas linhas – talvez tenha sido a justa paga de Joaquim Manso pela caracterização que Inês fez do Ecos de Lisboa no seu romance e de um certo «Oliveira e Silva», director de O Sul, que escreve sempre o mesmo artigo. 
        Interessam-me nestas obras as marcas do ofício e as personagens encriptadas. No Ecos de Lisboa, rival de O Sul dos nossos protagonistas, trabalha Adelino Mendia, «um renegado, com algum talento e muitas ambições, que escrevia com a ponta de uma navalha, a coberto de uma impunidade infame». Não é preciso muito para deduzir que é Adelino Mendes, o redactor de O Século que ali figura – o homem que criava ou destroçava reputações à medida dos desejos do patrão. 
        O jornal O Sul é uma réplica dos jornais possíveis da década de 1930, com um fundo editorial que ninguém lê, um cronista político que encadeia factos e discursos em previsões da semana que nunca se confirmam e amplo espaço consagrado ao noticiário criminal. Num desabafo, o herói Rui Galvão dirá: «Aí está um género de jornalismo que não me interessa, mas que interessa o grande burro que é o público… e a grande burra do patrão.» 
        Os repórteres rivais cooperam, zombando dos polícias. Quando não podem acorrer a um serviço, pedem um caldo a um camarada, que lhes levará ao final da noite os pormenores essenciais da notícia. E os textos de última hora são enviados para a tipografia sem revisão. Pressupõe-se que um jornalista tarimbado consegue encadear a sua notícia sem precisar de a reler. Por isso, Gervásio (que recebe de Rui Galvão a prenda do exclusivo, pois o herói tem repugnância desses pequenos triunfos), «à medida que ia escrevendo os linguados, ia-os mandando para a tipografia pelo velho Militão». Quando acabou, «foi ele próprio levar o último quarto de papel ao tipógrafo de piquete». 
        Terminada a faina da impressão do jornal do dia (e Artur Inês conhecia-a na perfeição pois começara a carreira como tipógrafo antes de enveredar pelo jornalismo desportivo e, mais tarde, pelos jornais da oposição depois de assinar o muito controverso opúsculo Ouça, António Ferro!), lança-se «serradura humedecida no chão da tipografia», como nas tabernas, varrendo-se em seguida a mistura para que no dia seguinte o espaço seja de novo transitável. 
        Há uma última nota que merece ser feita a propósito de Torel-Norte, 5853: a naturalidade da violação. Na manhã em que tudo se revela, há apenas duas pessoas na sede do jornal O Sul: o velho contínuo Militão e a pequena Josefina, «mocetona de Silves». Em menos tempo do que demora a pronunciar a palavra «violador», já Militão, «doido e feroz», está a abusar da rapariga. Tudo na cena é atroz. A brutalidade. A inutilidade para o enredo. A circunstância de ser a violada a dizer: «Vocemecê está doido, tio Militão. Isto nem sei o que foi… mas acabou. A gente tem de esquecer isto…» Ou a cereja em cima do bolo: o herói Rui Galvão, que chega ao local de trabalho, percebe logo o que se passou e sorri com indulgência, ignorando um queixume da rapariga com a sentença: «Ah! Isso é a vida!» 
        Há livros que envelhecem bem e outros nem por isso. Apesar da belíssima ilustração de Roberto Nobre na capa, Torel-Norte, 5853 apodreceu.



quarta-feira, junho 02, 2021

O historiador que era jornalista às escondidas

 


        Era, afinal, um segredo de polichinelo.    
       Em 1938, a Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias, editou um livro muito curioso, único no seu género. Grandes Reportagens de Outros Tempos é um exercício de história e de jornalismo. Regressa aos momentos épicos da história de Portugal como se um repórter tivesse estado presente na época, usando a linguagem colorida dos homens dos jornais. São reportagens fora de tempo, com títulos provocatórios e descrições adjectivadas, embora recorrendo às fontes documentais de cada época. Reconhecem-se nelas as marcas de ourives do repórter, os tiques, os códigos profissionais. 
        As figuras históricas ou os observadores acidentais são entrevistados como no noticiário de crime dos periódicos. O marinheiro Artur Rodrigues, por exemplo, membro da expedição de Vasco da Gama, conta ao repórter, com as pupilas rebrilhando «de comoção», como foi a recepção real, empertigando-se «um tanto comicamente». 
        Em contrapartida, em 1667, o duque de Cadaval recusa-se polidamente a fornecer ao repórter um apontamento do pedido da princesa ao cabido da Sé de Lisboa para anular o casamento com Dom Afonso VI. «Sua Excelência negou-se, em termos corteses mas terminantes, a fornecer-me elementos sobre a petição ou mesmo sobre o andamento do processo». E, num exemplo precoce do uso da confidencialidade, «pessoa cujo nome devo ocultar passou-me para as mãos o papel, que me garantiu ser a expressão fiel da carta que Sua Majestade dirigiu ao cabido». 
        O repórter, por vezes, corre perigo. No enforcamento de Gomes Freire, «o Dr. Duarte, colérico, olhou-me com arrogância e convidou-se secamente a sair da torre». Noutras ocasiões, a sua presença é tolerada. Também acontece ser enxotado de uma sala para que os protagonistas possam falar livremente. 
        Por que motivo falo hoje deste livro? Prefaciado pelo historiador Caetano Beirão e ilustrado por Martins Barata (aliás, magníficas estampas que devem estar, se Zeus quiser, no arquivo do Diário de Notícias, a salvo de raposas e galinhas), o livro foi publicado em 1938 com a assinatura de Amador Patrício, um pseudónimo que já fora usado no século XVIII por um comentador da política lisboeta. Alguns autores defendem até que Amador Patrício escondia a pena do Marquês de Pombal (embora a tese mais consensual defenda que se tratava de Francisco José Freire).



        Desde a primeira leitura do livro que me questiono sobre a identidade do autor. No prefácio, Caetano informa que «o meu amigo Amador Patrício» pedira «algumas palavras para apresentação deste seu livro ao público». Conta também que o desafio partira de Eduardo Schwalbach, então director do Diário de Notícias, que encomendara as “reportagens” para publicação regular no jornal, mas que o próprio Caetano sentira que, sendo apenas «um obscuro investigador de coisas históricas» e não um jornalista, não podia aceder. «Lembrei-me então do meu amigo Amador Patrício.» 
        Não havia pistas aqui. Afinal, o próprio Caetano Beirão reconhecia que «numa reportagem de hoje ou de então, não importa conhecer quem a faz (…) Convém saber é se ela foi feita com probidade e interesse». 
        Na verdade, a resposta estava à frente dos meus olhos. No Dicionário de Pseudónimos, Albino Lapa não hesita em identificar Caetano Beirão com Amador Patrício. Cita aliás um texto do Diário de Notícias, de Fevereiro de 1938, altura em que o jornal terminou a publicação das reportagens históricas e anunciou discretamente a autoria. Pelo mesmo diapasão alinhou Adriano da Guerra Andrade no seu Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses
        Foi afinal Caetano Beirão quem prefaciou a sua própria obra. Sobrinho do professor Caetano Beirão da Veiga, também administrador da Empresa Nacional de Publicidade e grande impulsionador do novo edifício do jornal na Avenida de Liberdade, Caetano Beirão era chefe da secção de Correspondência do Diário de Notícias e historiador. 
        Talvez Caetano Beirão tenha tido para Amador Patrício a mesma ambição com que terminara a reportagem sobre a fuga do infante Dom Manuel em 1715. «Logo que tenhamos conhecimento do seu paradeiro, daremos dele conta aos nossos leitores que decerto ficarão ansiosos por conhecer a sorte de tão estimado e valoroso príncipe.» 
         Grato ao José do Carmo Francisco pela oferta de um volume que eu já julgava perdido.

sábado, abril 17, 2021

Quem corre tropeça


 

    Ontem, num estimulante webinar promovido pelo Museu da Farmácia e pelo João Neto, debateu-se o tema da mediação das publicações jornalísticas entre a comunidade de especialistas e o público. 
    Não se argumentou, naturalmente, que os media são o único veículo de transmissão – muitos cientistas fazem hoje by-pass a essa mediação, comunicando directamente com as comunidades interessadas através de podcasts, páginas de Internet, vlogs e afins e são bem sucedidos. A rede de centros de ciência e museus fornece igualmente uma alternativa eficaz de disseminação, mas uma das questões que mais me interessou foi a do tempo consagrado à mediação. 
    Gosto sempre de dar o exemplo da descoberta de Machu Picchu. Hiram Bingham identificou a cidade perdida dos incas em Julho de 1911 (há indícios de que outros já lá tinham estado, mas isso é conversa para outra ocasião). Guardou a descoberta para o seu diário e, nas campanhas desse ano e do ano seguinte, acumulou informação, fotografias, desenhos e… artefactos. Passaram quase dois anos, até Abril de 1913, mês em que a National Geographic consagrou uma edição às campanhas de Bingham, anunciando finalmente a descoberta ao público. Como seria hoje? 
    Hoje em dia, pasmo com frequência quando vejo nas redes sociais alguns arqueólogos a divulgarem de imediato os achados sonantes, ainda cobertos de poeira, sem qualquer tempo de reflexão ou ponderação sobre o seu significado ou a sua comparação com acervos daquele e de outros sítios arqueológicos. Com que fim? 
    Consigo perceber a urgência quando há donos de obra. Os municípios (particularmente em ano eleitoral) vivem com a obsessão de mostrar serviço. A emergência de um artefacto “popular” é pretexto para uma campanha massificada de divulgação, disparando em todas as direcções, simplificando em dois parágrafos a importância deduzida da descoberta (quantas vezes exagerada) que, por sua vez, serão lidos superficialmente (ou até partilhados em função do título). A mentalidade de manada dos meios de comunicação faz o resto, replicando ad nauseam o press release original, sem questionamento ou contextualização. Ninguém acrescenta uma voz complementar. Ninguém contesta a premissa de partida. Passadas 24 horas sobre a massificação de gostos, partilhas e comentários inocentes e tontos, o que fica do processo? Uma vaga ideia de que alguém descobriu alguma coisa que deve ter a sua importância. 
    Em 1896, o Museu do Louvre cometeu um dos seus piores erros. Foi-lhe apresentada uma antiga tiara de ouro com a alegação de que pertencera ao rei cítio Saitafarnes. A nova aquisição figurou em posição proeminente na sala até Adolf Furtwängler, um arqueólogo alemão, questionar a sua autenticidade. A glória do Louvre não durou muito. Em 1903, um ourives de Odessa admitiu que criara a famosa coroa a pedido de filantropos russos e que nunca lhe passara pela cabeça as voltas que a peça daria ou a alegação de que fora burilada há milénios. 
    Em Romeu e Julieta, o frei de Shakespeare avisa Romeu: “Muita calma. Quem corre só tropeça!” Talvez valha a pena pensar (também) nisso.

terça-feira, dezembro 29, 2020

O director que recusava sair de cena

Caricatura de Schwalbach por Teixeira Cabral. Colecção do autor

 O Diário de Notícias completa hoje 156 anos e regressa às bancas. Evocando a longa história do jornal, a edição de hoje recupera três histórias batidíssimas (os relatos de Eça no Suez, a entrevista falhada com Hitler e o debate sobre a abolição da pena de morte). Salvam-se mais pela reflexão das autoras (Francisca Van Dunem, Maria Filomena Mónica e Irene Pimentel) do que pela novidade. Dou assim o meu contributo: eis a história (inédita) do director teimoso que recusava sair de cena.

 

Eduardo Schwalbach era um homem do século XIX. Vivera o tempo das gazetilhas e dos jornais programáticos, muitas vezes filiados nas ideias de um só líder político. Fizera carreira no teatro como dramaturgo e no Conservatório como professor. Não se lhe conhecia uma ideia firme sobre o regime ou a Igreja, sobre o partidarismo ou questões cambiais. Deu por isso um estupendo director de jornal quando Augusto de Castro, concluído o primeiro ciclo na direcção do Diário de Notícias, abraçou a carreira diplomática e partiu para o estrangeiro. Castro deixou o DN nas mãos do amigo e com uma cláusula que lhe permitia regressar. 

Schwalbach, em compensação, adorou as mordomias do cargo: o salário, o carro com motorista, a ausência de responsabilidades, as vénias e os salamaleques. Acúrcio Pereira, Rocha Júnior e depois Aprígio Mafra garantiam os fundos editoriais e os combates na primeira página. Schwalbach assistia às premières do Teatro Dona Maria.

Caiu o regime em 1926 e o cargo complicou-se. Numa das intentonas, em 7 de Fevereiro de 1927, o sempre prudente Diário de Notícias apostou mal por uma vez. Um golpe mal esclarecido na estrutura do jornal levou à publicação de uma edição clandestina de 2 páginas, não censurada, de apoio aos revoltosos no Porto e em Lisboa. Quando a revolta foi extinta (do lado do governo bateram-se Humberto Delgado e Henrique Galvão nos combates do Largo do Rato), Schwalbach ficou em maus lençóis. Devo a Mário Matos e Lemos a cedência de um curioso inquérito promovido pelo major Viegas Ventura e pelo capitão Galvão para apurar responsabilidades pelo motim. 

O suplemento clandestino. Arquivo de Carlos Ferrão


Diário de Notícias esteve proibido de sair durante quatro dias e, ao regressar, não trazia o nome de Schwalbach como director (o tenente-coronel Pestana de Vasconcelos assegurou a direcção interina). À boa maneira portuguesa, o inquérito culpou figuras menores – Mário Pires e Carlos Neves seriam despedidos e Rocha Júnior colocado na prateleira. Schwalbach foi forçado a fazer prova de fé. Não hesitou. O Diário de Notícias tornou-se um ardente defensor da ditadura militar.

Em 1939, na alvorada da Segunda Guerra Mundial, Castro regressou a Portugal escaldado por um escândalo diplomático na legação portuguesa na Bélgica. O genro e a filha tinham-se mostrado favoráveis aos republicanos na Guerra Civil espanhola e chegaram ao Ministério boatos piores sobre correspondência do diplomata. A sua boa estrela parecia finar-se.

Arregaçando as mangas, Augusto de Castro fundou A Noite, dando-lhe o brilho que mais nenhum jornal tinha. Desafiou Artur Maciel para a equipa e propôs, em fundo editorial, o ano de 1940 como lançamento das comemorações henriquinas. Voltou a alinhar-se com Salazar. Foi-lhe confiado o comissariado-geral da Exposição do Mundo Português. Em breve recuperou também a sinecura do Diário de Notícias, empurrando Schwalbach para a reforma aos 80 anos.

Perdia-se o salário, o carro com mordomo, as vénias devidas ao cargo. Em 1944, o ano em que esta história tem lugar, Schwalbach deve ter sentido que lhe deviam uma vénia final.

Alunos, actores, jornalistas e até o presidente Carmona cozinharam uma gala de homenagem ao dramaturgo no Teatro Nacional Dona Maria, prevista para o dia 26 de Fevereiro de 1944, com a representação de A Bisbilhoteira, uma peça de Schwalbach com algum odor a bafio. Os bilhetes, porém, não se vendiam apesar de o Diário de Notícias publicar uma notícia diária na primeira página em louvor do seu antigo director.

Velha raposa, Schwalbach percebeu que precisava de um golpe de asa – um pretexto para que o seu nome fosse recordado.

No dia 18 de Fevereiro, um ancião de 83 anos sobe a bordo de um carro eléctrico da Carris. A empresa estipulara há muito que entre Novembro e Fevereiro não se podia fumar a bordo para não contaminar mais o ar carregado do interior.

«Mestre Schwalbach, fumador impenitente (…), muniu-se de um cigarrinho, meteu-o na boquilha, meteu esta na boca e preparou-se para seguir o seu destino», narra a notícia do Diário Popular. Foi interpelado pelo fiscal. Recusou cumprir, argumentando com a semântica: «Fumar significa tirar fumaça de um cigarro. Mas, para isso, é necessário que o cigarro esteja aceso. Ora, o meu, como vê, está apagado.» 

O fiscal chamou o guarda-freios. Conferenciaram. Intimaram. Ameaçaram. Deverá ter saído fumo de tais cabeças pensantes. Por fim, chamaram a guarda que não teve outro remédio que não fosse conduzir o antigo director do Diário de Notícias à esquadra do Teatro Nacional, onde os grandes reclames já chamavam a atenção dos transeuntes para a gala. Esclareceu-se a controvérsia, Schwalbach não chegou a ser preso, mas fez questão de chamar os jornalistas para dizer que o fora. O seu nome voltou a ser falado em toda a cidade.

A gala do dia 26, segundo o Diário de Notícias, estava à pinha.

É assim que se vende um produto: com histórias novas e atrevimento. Que aliás parecem faltar ao novo Diário de Notícias que ontem cumpriu só meio desígnio – foi diário, mas não deu notícias.

Schwalbach e Castro numa notícia do ABC, 26 de Junho de 1924


quarta-feira, novembro 11, 2020

Portela, um gigante contrariado


 

     Cioso como era da imagem que a posteridade guardaria dele, Artur Portela provavelmente não gostaria de ler este obituário. Foi um dos gigantes do jornalismo do século XX, mas sempre ligeiramente desfasado do contexto histórico, como um bailarino sem sintonia com o resto da companhia de dança. 
     Começou cedo nos jornais. Frequentou a escola ao fundo da Rua Luz Soriano e o Diário de Lisboa foi o prolongamento natural da escola tradicional. Entrou ali de bibe. Era o Arturzinho, o filho de Artur Portela, cronista jactante das artes e letras desde a fundação do jornal. Esse rótulo aborrecia-o. Para muitos, um apelido famoso seria uma bênção, um abre-latas de oportunidades. Para Artur Portela Filho, implicou durante décadas o ónus da comparação. 
     Poucos conheceram tão bem o jornal fundado por Joaquim Manso como Artur Portela. Passou por todas as secções. Viu o jornal composto à mão. Conhecia os tipógrafos tão bem como o director. Podia ter sido o sucessor natural de Norberto Lopes que, por sua vez, sucedera em 1956 a Joaquim Manso. Bastar-lhe-ia para isso o exercício da paciência e da subserviência ao doutor Norberto, virtudes (ou defeitos) que Artur Portela cedo demonstrou não ter. 
     Não era um repórter no sentido operário do termo. Aborrecia-o a reportagem quotidiana e anónima com que se constrói um jornal. Queria os serviços nobres, a crónica literária, a apreciação de espectáculos e de luces. Foi esse o motivo para a espectacular ruptura que Portela, José Sasportes, Urbano Tavares Rodrigues, Veiga Pereira, Renato Boaventura e o jovem imberbe Vasco Pulido Valente promoveram, no final de 1961, no Diário de Lisboa. Os meninos só queriam relatar espectáculos e fazer literatura. O atendimento de telefones, o pequeno incêndio, o roubo de faca e alguidar não lhes servia. Exigiram horas extraordinárias para relatarem a actividade nocturna da Lisboa das Artes – uma exigência inédita num jornal operário onde até Norberto Lopes atendia telefones e falava com os quartéis de bombeiros. Esbarraram no muro da intransigência de Mário Neves. Até final, Portela dedicaria a Neves – em muitos aspectos um correligionário político – as palavras mais duras que lhe ouvi. 
     Bateram com a porta, um gesto romântico, quixotesco e – contou-me ele em entrevista – errado. Julgavam que, na mesma rua, o administrador do Diário Popular lhes abriria a porta. Não abriu e os dissidentes experimentaram na pele o destino dos imprevidentes: perderam o emprego e ganharam ficha na PIDE por dissidência perigosa. 
     A carreira jornalística de Artur Portela foi, em muitos aspectos, uma repetição desta história – uma repetição de oportunidades perdidas. Em Fevereiro de 1960, fora enviado pelo jornal a Agadir para cobrir o terrível sismo que devastara a cidade marroquina. Ficou no hotel, prudente, como outros. Só Urbano Carrasco e Artur Agostinho se aventuraram pelos escombros. Trouxeram novidades e partilharam-nas com os restantes correspondentes. Para surpresa de todos, Portela mandou para o Diário de Lisboa um relato presencial, dramático, da tragédia. Foi uma farsa, como tantas outras na pequena história do nosso jornalismo. O logro ficou durante anos restrito no seio da famiglia que estivera em Marrocos. As coisas tratavam-se assim nos anos 1960. Era uma diatribe do Arturzinho. 
     Nas redacções por onde passou, recolhia admiração e ódio. Bastava uma crónica para se perceber que estava ali um pequeno génio. Dominava a língua e as figuras de estilo como poucos. Fez-se cronista ímpar, talvez o melhor do século – o que não é pouco. Mas zombava dos que não conseguiam escrever como ele. Tinha uma altivez irritante ao primeiro contacto. Manuela de Azevedo, também ela uma flor com espinhos, chamava-lhe o «filho do Artur» só para o irritar. Vera Lagoa apodou-o de «órfãozinho». Nenhuma tinha, claro, a verve literária de Artur Portela. Nem a coragem no Portugal fascista de atacar tudo e todos. Sobre Vera Lagoa, Portela dirá a José Vilhena: «Nada tenho de especial contra ela, só não me parece justo respirar o mesmo ar que ela respira. Acho que devíamos viver em planetas diferentes.» 
     No Jornal do Fundão, por cortesia de António Paulouro, Portela encontrou abrigo para manter o seu nome à tona de água, enquanto leccionava em escolas secundárias. A Funda, colecção de crónicas semanais publicadas no jornal beirão, é um extraordinário repositório de crítica ácida e corajosa. Foi chamado à DGS (a outra, a da Segurança e não a da Saúde) por culpa desses textos. Foi representado por Francisco Balsemão que mostrava mais medo do que Artur Portela no confronto com os polícias. Contava o Artur que Balsemão ficara azul quando o seu representado disse ao agente que não assinava a declaração porque ela estava cheia de erros ortográficos e de português. Era assim o Artur. Tinha uma coragem deslocada. 
     No início dos anos 1970, por amizade com Carlos Eurico da Costa, Artur Portela entrou no mundo da publicidade e do dinheiro. Tinha um talento nato para essa arte. Foi dele a frase «Expresso, o jornal dos que sabem ler», apelando à leitura nas entrelinhas do novo semanário. Na Ciesa, ganhou dinheiro, algum dinheiro. Não foi totalmente leal com Artur Agostinho. 
     A revolução de 1974 apanhou-o com 37 anos e tomou-a como o sinal de ruptura por que tanto esperara. Interpretou-a mal ou, se preferirem, escolheu o lado que poucos escolheram. Fundou o Jornal Novo, com José Sasportes, pago pela Confederação da Indústria, desejosa de mostrar credenciais revolucionárias ao novo regime. Durante meses, foi o cronista mais lido e respeitado do país. A sua crónica e a fotomontagem associada, na primeira página de um jornal simples, vendia-se loucamente. Algumas edições fizeram tiragens superiores a cem mil exemplares. Ao contrário de tantos outros que se pintaram de esquerda em Abril de 1974, Artur Portela tinha credenciais impolutas e não estava amarrado a um partido. 
     Dois incidentes marcam a curta vida do Jornal Novo com Artur Portela (o jornal prosseguiu sem ele, em 1976, sem qualquer prestígio ou influência e chegou a ser dirigido por Proença de Carvalho…). Em Agosto de 1975, no auge do calor revolucionário, o grupo de Melo Antunes, já em ruptura com Vasco Gonçalves, distribuiu um comunicado pelas redacções. Era o «documento dos Nove». Foi pedido embargo até à manhã do dia seguinte. Portela pegou no comunicado e publicou-o numa edição da noite do Jornal Novo. Um escândalo. A irreverência de Artur Portela estava sempre à espreita. Talvez se tenha esfumado aí o fantasma do pai. 
     No 25 de Novembro, o Jornal Novo escolhe mal os aliados. O país está a mudar e Portela não lê bem a situação. Como as crónicas de Afonso Praça sobre a Linha Férrea do Sabor, espera um comboio da terceira via que já não vai passar. A Confederação da Indústria paga o compromisso de Artur Portela no jornal com o despedimento sumário. «Fiz-me difícil, sabe?», contou-me. «Andei dias fugido para não ser notificado.» 
      Escreveu um livro (Fotomontagem) sobre o caso, que se lê num jacto, tal como, em 1963, fustigara Norberto, Mário Neves e todos os outros com Código de Hamurabi, um romance em código sobre o seu afastamento do Diário de Lisboa. Para mim, são os seus melhores trabalhos literários, embora ele preferisse Rama, Verdadeiramente, um dos primeiros livros do nouveau roman em Portugal. 
     Escreveu muito. Ninguém interpretou Eça como ele. Ninguém quis ser Eça como ele. 
     Depois da aventura na revista Opção, as portas dos jornais fecharam-se. Artur Portela institucionalizou-se. O estilo de A Funda, críptico, com meias palavras, já não fazia sentido no Portugal democrático, onde, em teoria, podiam chamar-se os bois pelo seu nome. Foi desaparecendo do espaço público, apesar de algumas crónicas dispersas pelo Tal & Qual (A Feira das Vaidades foi o título que escolheu) e por O Jornal. A sua intervenção pública passou a ser feita através de livros-entrevista (maravilhoso o volume com José Cardoso Pires) e da ficção (nem sempre bem recebida pela crítica). 
     Ficou a dever-nos um livro de memórias. 
      Ficou a dever-me uma chave para confirmar todos os nomes encriptados no Código de Hamurabi
      Ficou a dever-me mais um café na Versalhes. 
      Foi um gigante contrariado, um jornalista que criou o seu próprio carril, que mais nenhuma locomotiva conseguiria trilhar. O que não é pouco.


quinta-feira, novembro 05, 2020

O espião de Castelo Branco



Há quem diga que os livros são mais perigosos do que as armas. 

A história de Rogério Teixeira de Menezes foi conhecida em Portugal através do livro do espião dissidente Kim Philby. Foi depois contada com pormenor em livros de José António Barreiros e de Rui Araújo. Nos anos 1990, Barreiros conseguiu até entrevistar o diplomata português que, em 1943, enviara 10 a 12 mensagens disfarçadas com tinta simpática da embaixada portuguesa em Londres para contactos alemães em Lisboa. Foi condenado à morte, pena depois convertida em prisão perpétua e por fim reconvertida em expulsão do país. Foi de novo preso à chegada a Lisboa. 

Essa é a parte da história conhecida. Em 1981, porém, o Tal & Qual descobriu-o em Castelo Branco. Hernâni Santos lera o livro de Philby em Inglaterra. Colocou a hipótese de o velho espião ainda estar vivo. Ele, Rui Cabral e um fotógrafo que opto por não identificar na história descobriram-no no Liceu de Castelo Branco. Como Hanna Arendt no julgamento de Eichmann, esperavam encontrar a personificação do mal. Encontraram um homem normal, adorado pelos seus alunos. 

Esta é a história de uma reportagem que mudou para sempre a vida de Rogério Menezes. Na "Jornalismo e Jornalistas", n.º 73. Disponível aqui.  

E a ilustração é do Luís Taklim!

terça-feira, novembro 03, 2020

Semiótica na primeira página

Público, 3 de Novembro de 2020


Ia escrever sobre outro tópico, mas chamou-me a atenção a leitura que o Luís Paixão Martins fez desta manchete do Público. "O dia da América" pode ser lido com malícia como "Odiada América". É uma gracinha que permite sempre ao jornal recuar e alegar que não foi isso que se escreveu. É o equivalente à pergunta maliciosa do advogado de acusação nas séries televisivas, que retira de imediato a questão, deixando-a porém planar sobre a mente dos membros do júri.
Estes jogos semióticos na primeira página dos jornais são populares entre os redactores há muitos anos.
No Correio da Manhã, Vítor Direito fez pelo menos três em dia de eleições (1980, 1982 e 1983), apelando discretamente ao voto sem nunca o assumir.


Correio da Manhã, 5 de Outubro de 1980



Correio da Manhã, 12 de Dezembro de 1982



Correio da Manhã, 25 de Abril de 1983

Em 2011, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias cederam à graçola fácil associada à polissemia do "buraco" orçamental.


 


E, nesta lista de aventuras semióticas, não poderia faltar a primeira página que José Manuel Fernandes preparou maldosamente no dia em que o Tribunal da Relação absolveu Paulo Pedroso do crime de pedofilia.



Na essência, são pouco mais do que graffiti anónimos numa parede. Mas fazem estragos.




segunda-feira, outubro 05, 2020

As voltas de um documento

Proclamação da República. Documento do Espólio de Carlos Ferrão (CML)
 

Este suplemento do Diário do Governo foi afixado nas ruas de Lisboa na noite do 5 de Outubro de 1910. Ainda contém o nome de Basílio Teles que, no dia 8, recusará a pasta da Fazenda, depois oferecida a José Relvas.

Mas é o documento, em si, que me interessa. Foi amorosamente coleccionado pelo jornalista Carlos Ferrão, do ABC, de O Século e do Diário de Lisboa. Foi mantido em segurança até à década de 1970. Vendido à Câmara Municipal de Lisboa, lá foi acomodado na Biblioteca-Museu República e Resistência, onde pude consultá-lo muito mais tarde, juntamente com outros fragmentos da história contemporânea. Hoje, desmembrada a Biblioteca, esta peça de museu está em parte incerta. Triste sina, a nossa!

sexta-feira, setembro 04, 2020

Tal&Qual #1 «Isto não é um jornal – é um golpe!»


Dois meses depois do lançamento, a “imprensa séria” lança dúvidas sobre a verdadeira agenda do jornal impertinente que já pisou vários calos e os mandantes que figuram na sombra. O Tal & Qual responde em artigo inesquecível de 14 de Agosto de 1980. O editorialista assume tudo: «Começa por lamentar ter sido descoberto “que somos financiados pela Frente Republicana e Socialista (…). O apoio discreto é-nos dado directamente pelo Dr. Arnaud, através de uma sobrinhita que está à espera do Serviço Nacional de Saúde para crescer, pois tem já 48 anos e apenas um metro e 15 de altura”. Igualmente decisivo é o apoio financeiro do Partido Comunista: “Claro que o PCP não nos falta com nada. Mas, cuidado, que aqui as coisas fiam mais fino. Temos de ir buscar o nosso às mãos do José Luís Judas, que o recebe de uma tia do Dias Lourenço, senhora que faz ponto de cruz e a barba com navalha.” Do Partido Social Democrata, também não falta apoio: «Não ficaríamos de bem com a nossa consciência sem revelar as jogadas discretas do técnico de contas Ângelo Correia que, a troco de favores políticos, quis aparecer na nossa primeira página com a perninha gorducha ao léu para tirar teimas a uns meninos amigos dele que andam a espalhar por aí pequeninas sevícias acerca da fidelidade carneiral do simpático deputado.» Reconhece-se ainda apoio da Albânia, da Finlândia, do governo e de Beatriz Costa. Podia ser só um grito de independência. É a loucura em letra de forma.»
Memórias de um Jornalismo Tal & Qual, José Paulo Fafe e Gonçalo Pereira Rosa, Âncora Editora. Lançamento agendado para quinta-feira, dia 10, 17h45, Feira do Livro de Lisboa. 

terça-feira, setembro 01, 2020

Uma rua para Baptista-Bastos


Uma profissão que não presta culto aos seus é uma profissão sem futuro, na medida em que apaga o passado. Falta um último acto de reparação histórica em Lisboa. Este é o meu artigo que o Público amavelmente traz à estampa hoje. 1 de Setembro, 2020.


segunda-feira, agosto 31, 2020

Memórias de um Jornalismo Tal & Qual


Era uma vez um jornal inventado em duas semanas por quatro jornalistas. Era uma vez um semanário que dava notícias que escapavam aos outros. Era uma vez um periódico que desafiava as convenções do respeitinho e da filiação partidária e investia como um touro sobre cada tema. Era uma vez…
Este livro, que será lançado na próxima quinta-feira, dia 10, pelas 17h45 na Feira do Livro de Lisboa, resulta em primeiro lugar de um desafio do Jose Paulo Fernandes-Fafe que nunca se contentou com a morte – sem velório – do Tal & Qual. Resulta também da generosidade dos fundadores, Joaquim Letria, Ramon Font, Hernâni Santos e José Rocha Vieira, que aceitaram contar histórias genuínas do jornal. Cabe-me também agradecer a Rui Ochoa, João Marques ValentimJose Carlos Pratas Henriques e Rui Cabral, testemunhas privilegiadas que contaram histórias do arco da velha, não esquecendo o Frederico Duarte Carvalho, o Frederico Madeira, o Wilton Fonseca, o Acácio Franco e o Luiz Carvalho que esclareceram pormenores e terraplenaram algumas dificuldades de contacto.
Vinte e dois jornalistas retiraram por um dia o radar que nos obriga a sondar o caminho para a frente e olharam para atrás, analisando (a seu gosto) o(s) episódio(s) que mais prazer lhes deu(ram) no Tal & Qual.
Nos próximos dias, em jeito de contagem decrescente, contarei algumas histórias incluídas no livro. Para já, permitam que sublinhe a coragem de António Baptista Lopes, da Âncora Editora, genuíno belenense, que, em ano de pandemia, lançou este livro ao mar, esperando que os ventos estejam de feição e a viagem seja aventurosa.
Obrigado a todos!