sábado, janeiro 17, 2026

Costa Carvalho, o mestre com mil discípulos




A notícia da morte de José Costa Carvalho apanhou-me em Espanha e não pude prestar-lhe a homenagem que queria. Sabia-o doente e adivinhava o final, mas custa ver soltar-se um pedaço, grande como um icebergue, da plataforma do jornalismo portuense. Tínhamos falado em Novembro, quando voltou a insistir que me cabia escrever a história dos dias finais de um grande escritor português. Passou-me documentação, um testemunho e uma torrente de correios electrónicos entre os últimos amigos do escritor, todos já desaparecidos. «Não nos deixe mal» – pediu. Já veremos se cumpro o desígnio e se faço justiça ao Altino...

****

Costa Carvalho escrevia em maiúsculas. Não o fazia por soberba nem por insulto. «É para poder ler o que escrevo», disse-me um dia. E, no entanto, se alguém no jornalismo do Porto poderia falar de cátedra seria ele, o único que chegou a cargos de direcção nos três grandes jornais da cidade, o fundador da primeira instituição de ensino de jornalismo do Porto, o formador de tantas levas de jornalistas que lhe chamavam «mestre» com carinho e que o choraram por essas páginas de Facebook fora nas últimas horas.

O meu primeiro chefe da redacção não gostava do Costa Carvalho. Comunista do princípio ao fim, creio que nunca percebeu que o partido do Costa Carvalho era o jornalismo. Foi um erro habitual antes e depois da revolução. Os jornalistas vinculados a partidos nunca perceberam um homem que foi sempre livre. Entre 1977 e 1979, o Diário de Lisboa e o Página Um acusaram-no de maquinações extravagantes, de viagens à República Federal Alemã e de adesão a um comité da contra-revolução. Carvalho nunca vergou: defendeu-se em Conselho de Imprensa e ganhou sempre esses casos. Ria-se. O currículo dele na polícia política era mais extenso do que o dos revolucionários pintados à pressão.

Tinha respeito pelos homens de convicção. «O Comércio do meu tempo [em 1974] era um albergue de comunistas. Genuínos, não eram convertidos à pressa. Deram-me água pela barba. Sacanagem atrás de sacanagem. Mas eram genuínos», disse-me numa entrevista em 2023 no seu apartamento desarrumado e cheio de livros em todos os recantos, durante a qual devorou cigarros atrás de cigarros.

A história das suas entradas e saídas nos jornais do Porto merecia um livro. Entrou para o JN num aperto, em 1961. Não havia ninguém, o Benfica jogava em Berna a primeira final europeia. «Era colaborador. E o senhor Manuel Ramos pediu-me para fazer a página de desporto porque o chefe tinha ido para casa – a mulher tivera um parto e a coisa correra mal. O senhor Ferreira, mais conhecido como o Alemão, era o chefe da tipografia e disse logo que me ajudava. E o senhor Manuel Ramos acompanhou-me. Eu transpirava por todos os lados, tratando-os por senhores. Os colaboradores chegavam, deixavam a prosa e piravam-se. Saí todo esbodegado, mas, no dia seguinte, convidaram-me para entrar para o quadro»

No JN de Pacheco Miranda, formou, com Frederico Martins Mendes, Serafim Ferreira e José Luís Simões de Abreu, o quarteto dos intelectuais da bola. O jornal salvou-se, ganhou respeito. «O jornal era feito no Porto, mas feito para entrar no Porto por fora, por via das pessoas que aqui vinham trabalhar», explicou-me quando lhe perguntei como salvara Miranda um jornal destinado a fechar. «A ideia era que todos os concelhos do Norte estivessem representados nas nossas páginas. Nenhuma notícia era demasiado pequena»

Correu todas as secções. Fez-se grande repórter. Em 1973, viajou para a Guiné e entrevistou Spínola – uma entrevista que deu sarilho pelo conteúdo e porque as fotografias mostravam os oficiais portugueses desgrenhados e mal vestidos. «O Spínola na altura disse-me que a guerra estava perdida, mas que eu não podia escrever nada. É curioso: a Censura teve instruções para não mudar uma vírgula do que escrevi...  Havia muita coisa a correr nos bastidores que nós nunca soubemos.»

Pouco antes da revolução, Costa Carvalho trocou o JN pelo Comércio do Porto«Fui receber mais do dobro porque tinha quatro passarinhos a meu cargo», disse-me. Mas o jornal estava um caos e, no xadrez da luta política, passou a apoiar Veloso, contra todas as evidências. «Mais tarde, já deputado, ainda deitei a mão ao Comércio para não o fecharem por dívidas, mas foi só um adiamento de sentença.»

O mestre foi depois integrado no Primeiro Janeiro, já depois da morte do grande director que foi Pinto de Azevedo. Foi dele que escutei as histórias mirabolantes sobre a tipografia e o sistema de envio de originais por tubagens que o director tinha visto em Inglaterra. «Aquela merda encravava», explicou-me Costa Carvalho. «O tubo mal chegava à tipografia e ficava entupido. Era um horror.» Foi também por ele que soube que o prestígio e fortuna de Pinto de Azevedo eram tais que, em Toledo, conseguiu que desligassem as luzes da catedral para que o grande industrial pudesse ver as pinturas de El Greco à luz de tochas, tal como o artista desejara que fossem entendidas.

Com Freitas Cruz na direcção até 1981, o Janeiro virou à direita. Nunca esquecerei a descrição que Costa Carvalho me fez da primeira reunião em que a administração explicava como seria a isenção a adoptar no noticiário das campanhas eleitorais: «Disse-nos que o jornal acompanharia a campanha com isenção, mas moderação. E eu, que já não era ingénuo, perguntei: “Ó director, como é? Dê-me um exemplo.” Ele pegou no jornal e mostrou: “Faz-se uma notícia grande para transmitir o que Sá Carneiro disse no dia em causa e depois põe-se uma bolinha pequena para explicar que Mário Soares esteve em Esposende.” Eu não tinha nada a favor nem contra Soares, mas aquilo não era jornalismo.»

As histórias com Freitas Cruz, aliás, davam para um livro, tal como o ano e pouco de convívio que Costa Carvalho teve com a escritora Agustina Bessa-Luís em 1986 e 1987, quando esta se tornou a primeira mulher directora de um jornal diário português e Carvalho foi o seu director-adjunto. «O que nós nos ríamos dos calaceiros que lá tínhamos na redacção. Um passava o dia ao telefone para parecer que estava ocupado. Outro levava dois casacos para deixar um na cadeira e parecer que estava em serviço. E a Dona Agustina ria-se destas pequenas coisas do submundo, a fazer lembrar o Almeida Garrett.»

Costa Carvalho voltou ao JN no último período áureo do jornal, entre o final da década de 1980 e o fim do século. Foi um senhor até ao fim, mesmo quando o puseram de castigo no arquivo, a colar e a fazer recortes. E, quando negociou a saída, inscreveu-se no mestrado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde produziu uma tese notável sobre o escritor Gomes de Amorim.

Não concordámos em tudo. Eu dizia-lhe que, em duas gerações, Agustina ficará esquecida e ele zangava-se. Chateava-me com o meu Sporting e eu não tive coragem de o chatear quando o Boavista dele iniciou a espiral de decadência. Aprendi com ele a gostar de Amarante, de Teixeira Pascoais e das tradições de São Gonçalo. Em contrapartida, ele nunca percebeu o meu interesse pelo Tal & Qual e achou o livro que escrevi, com o José Paulo Fafe, o mais frágil de todos os que produzi. 

Talvez o episódio que melhor o defina tenha sido o dia em que percebeu que Ramalho Eanes abandonava o Partido Renovador Democrático à sua sorte. «Na última reunião do grupo parlamentar, que tinha 45 deputados, eu disse. “Salvo melhor opinião, vim fazer o meu baptismo político porque nunca me tinha metido em política. Como sabe, fui convidado, não me propus ao lugar. Continuarei como independente até às eleições. Mas quero dizer-lhe que enganei-me na igreja, enganei-me na pia baptismal e enganei-me no padre.”» E o jornalista-feito-deputado nunca mais se meteu em política.

Com Costa Carvalho, desaparece o Porto dos jornais. Saibamos ser dignos do seu legado.

 

quinta-feira, julho 31, 2025

Luís Alberto Ferreira e o prazer do narrador




​        «Já lhe contei aquela vez em que…» 

As nossas conversas começavam sempre assim. O Luís Alberto Ferreira sabia que eu me pelo por uma boa história e ele tinha-as com fartura, fruto de uma das mais longevas carreiras do jornalismo português. Tinha uma generosidade sem limites. Partilhava pelo gosto de partilhar. E era um contador de histórias insuperável.

«Já lhe contei aquela vez em que Marcelo Caetano me chamou filho da puta?» Ligou-me no dia a seguir ao Natal para me contar isto. E desbobinava pormenores sobre o dia de 1971 em que o Presidente do Conselho cuidara que estaria a sós com o embaixador americano em Lisboa e fora surpreendido por uma equipa da RTP – «mais oficial do que nós não havia» – à porta do local secreto de encontro por indiscrição de Manuel Maria Múrias. Irritado, Caetano, o catedrático, o pai do constitucionalismo, soltara o vernáculo. E o Luís Alberto ria, com aquela voz rouca.

Cultivava as palavras e fugia às escolhas óbvias como os matadores de Córdova que aprendera a estimar nas praças de touros do país vizinho. A reportagem escrita, para ele, implicava a recusa do atalho e o culto da expressão erudita. Ligou-me uma vez só para me dizer que tinha gostado muito da maneira como descrevi Jules Sauerwein: «um homem humilhado por não ter mais altura, que empertigava a cabeça para não perder um único centímetro da sua estatura». «Essa foi de antologia, meu caro Gonçalo.» E ria.

Fez quase tudo no jornalismo. Chegou muito cedo a Lisboa, vindo de Luanda. «Ainda a cheirar a navio», tentou a sorte em A Bola, onde chegou a assinar textos apenas como Alberto Ferreira, mas percebeu que, naquele contexto, no fim dos anos 1950, o jornal já estava servido com a nata dos repórteres do país. Fez o mais difícil: foi para Espanha. Durante uma década, viveu entre Sevilha, Madrid e Barcelona, familiarizando-se com a fina-flor da tauromaquia, do futebol, da ciência e dos jornais.

«Já lhe contei aquela vez em que entrevistei o cirurgião Gregório Marañon?» Tremera como varas verdes perante o grande homem da medicina espanhola e fora Marañon, achando graça ao miúdo mulato, que lhe pusera a mão sobre o ombro e lhe dissera: «Começa quando estiveres preparado.» Depois disso, «nunca mais tive medo de entrevistar ninguém.»

«Já lhe contei que estava no gabinete de Santiago Bernabéu quando a assistente dele entrou para alertar que o avião que transportava a equipa do Manchester United caíra?» Mais uma história. Mais uma aventura. Adorava Espanha e a abertura hispânica para pensar o mundo e tinha honra em ter desbravado caminho, encontrando nos jornais espanhóis o espaço que lhe faltara aqui. Por isso também sentiu, com uma ponta de orgulho, o dia em que lhe comuniquei que seguia as pisadas dele e tentaria a minha sorte na imprensa do país vizinho. «Meu caro Gonçalo, não se esqueça de me contar as suas aventuras nas inesquecíveis ramblas da Cidade Condal!» Tornou-se a senha das conversas dos últimos três anos. «Conte, conte, como está a mudar a face da Barcelona!» E eu corava.

Em textos já publicados, relatei vários episódios que lhe aconteceram. Tenho para aqui, em discos externos, horas a fio de gravações sobre tudo e nada. 

A primeira entrevista em Portugal com Alfredo di Stefano e o dia em que se atreveu a aconselhar o monstro sagrado do futebol.

O dia em que, despeitado com a pressão exercida pelo director de uma corrida de touros junto da administração da RTP, fez a locução tauromáquica em silêncio – 120 minutos sem dizer uma palavra a ponto de os espectadores ligarem para a 5 de Outubro perguntando se o problema estaria no seu receptor. 

A entrevista com o subcomandante Marcos, líder dos zapatistas, no México, depois de uma saga na montanha para fugir às tropas do governo. 

O texto provocatório contra Boavida Portugal, director do Mundo Desportivo, que lhe valeu o cancelamento da colaboração com o jornal. 

As aventuras com Kapuscinski em Angola, guiando o prestigiado jornalista por terrenos minados – literal e figurativamente – do novo regime.

A proibição de frequentar o balneário do Estádio das Antas e a resposta na ponta da língua: «Mas eu algum dia tomei banho no vosso balneário?»

Os galanteios e os piropos às mulheres bonitas.

«Já lhe contei aquela vez em que estive a um dia de entrevistar Saddam Hussein e disseram-me que não valia a pena?»

Nas conversas, não faltavam invariavelmente os filhos da puta com que também teve de lidar em jornais e televisões. Com nomes e currículos.

Em 1974, Luís Alberto Ferreira assinou uma série de 13 crónicas no jornal A Bola sobre racismo no desporto angolano. Chamou-lhes «futebol a preto e branco» e são monumentos à crónica. Ofereci-me há uns anos para as transcrever e passá-las ao nosso editor comum, na esperança de que os textos ganhassem uma perenidade bem merecida. Riu-se. «É prosa velha, mais gasta do que os pneumáticos de um camião de longo curso.» Não era. Não é. 

A partir de agora, cabe-me a mim – e a um punhado de outros – falar do Luís Alberto Ferreira, um jornalista que me deu a honra de ser meu amigo.

«Já vos contei aquela vez em que ele…»

segunda-feira, dezembro 02, 2024

A vida privada dos políticos

        Um amigo mostra-se indignado com a reportagem da família Montenegro na praia, em fotos claramente ensaiadas – ou pelo menos toleradas –, e queixa-se de um precedente que impedirá mais tarde o primeiro-ministro de exigir recato para a intimidade do lar. “Quem com ferros mata, com ferro morre.” Mas será uma novidade? 

       Mais do que ninguém antes de si, J.F. Kennedy transferiu a política do comício para a sala de estar e da página do jornal para o ecrã de televisão. Mostrou a mulher e os filhos como parte da sua visão de um homem novo na política americana e nada voltou a ser igual. 
       Por cá, pouco depois da Implantação da República, Teófilo Braga fez-se fotografar no eléctrico. Uma imagem engenhosa de Joshua Benoliel, planeada para romper com a distância formal dos Bragança, criando a percepção de um homem do povo que Teofilo não voltaria a ser. Mas funcionou. Não consta que o PR se deslocasse assim para Belém daí para a frente, mas a Internet está repleta de alegorias ao político proletário. Nem Mário Soares resistiu, nos livros-entrevista com Maria João Avillez, a fazer a apologia do Teófilo que se deslocava de transportes públicos. 


       A família foi, durante décadas, o bastião inacessível. Aparecia, no limite, na noite eleitoral (nos países que tinham eleições) ou na sombra. Foi fonte pontual de escândalos (basta ler as alegações brutais que se escreveram em 1906 sobre as amantes de Dom Carlos e o custo dessas aventuras para o Tesouro) e fez cair gabinetes, como sucedeu com Van Buren nos EUA, mas a mulher e os filhos do político eleito foram, durante décadas, uma zona desmilitarizada. 
       Algo mudou entretanto na intimidade dos líderes. E foi no seio da ditadura que essa percepção brotou. Nas renhidas eleições de 1958, onde pela primeira vez se apresentaram dois candidatos da Oposição (Humberto Delgado e Arlindo Vicente) contra o candidato da Situação (Américo Thomaz), a revista O Século Ilustrado acalmou subtilmente as acusações de fraude eleitoral. Logo após o acto controverso que elegeu Thomaz, Beatriz Ferreira fotografou o Presidente da República na intimidade do lar, com o neto João Paulo ao colo, brincando com um barco de madeira. 
        

       A interpretação proposta era a de um pacato cidadão, que vivia num terceiro andar da Avenida Defensores de Chaves, reunido com a família após a batalha eleitoral limpa e justa. 

       Em Setembro de 1973, aflito com o distanciamento e com a percepção de o verem só como um académico isolado em São Bento, também Marcelo Caetano abriu as portas de casa – desta vez, à revista Flama


       Num trabalho jornalístico íntimo, com poucos antecedentes por cá com um político, Edite Soeiro e o fotógrafo Lúcio mostravam os filhos, os netos e as irmãs do presidente do Conselho e publicavam os seus lamentos sobre a falta de tempo para ler poesia ou para ensinar os netinhos a andarem de bicicleta (não tenho maneira de o provar, mas, se tivesse de arriscar, diria que a reportagem nasceu do cérebro de Jorge Tavares Rodrigues para limar as arestas de um político bicudo). “Muitas vezes me tem acontecido julgar que vou descansar e… afinal não”, queixava-se. 


       Em 2008, Tony Blair explodiu e disse que a família tem de ser o reduto privado da vida de um político e que não há excepções. Foi tarde de mais. Esse Rubicão foi transposto há décadas e já não há retorno possível.

domingo, novembro 24, 2024

A Stern e os diários infames



       Esta semana, em jantar animado com alguns colegas, um deles lembrou um dos mais infames escândalos jornalísticos modernos – a publicação dos (falsos) diários de Hitler.

       No final da década de 1970, uma das vedetas da revista Stern, fascinada com a história do nazismo e proprietário de uma pequena colecção de memorabilia do III Reich, foi contactado por um alegado general da RDA. A fonte dizia ter diários redigidos pelo punho de Hitler, material perdido após a queda de um avião em Dresden em 1945, semanas antes do fim da guerra. Os diários – dizia o “general” – tinham sido guardados num celeiro e agora, com um incentivo para subornar os guardas na fronteira, poderiam ser comprados pela revista.

       O que se seguiu nos três anos seguintes foi a receita de como não gerir um “exclusivo”. A revista decidiu que quanto menos pessoas soubessem, melhor (como resultado, o maior especialista em Hitler na redacção não foi consultado); decidiu-se fazer apenas peritagem à caligrafia e não exames químicos à tinta e ao papel, que teriam de imediato provado a impossibilidade da autoria. Os exemplares usados para a comparação da caligrafia provinham da colecção de memorabilia do jornalista e também tinham sido adquiridos ao falsário. A caligrafia, de facto, correspondia. Mas não era de Hitler.



       Nas semanas que antecederam a publicação, em Abril de 1983, a Stern tentou vender o exclusivo a Rupert Murdoch, ao Paris-Match, à Newsweek e ao Grupo Zeta. Cada grupo editorial trouxe os seus peritos…


       Como fonte, o falsário usara uma obra em dois volumes, com todos os discursos de Hitler, de forma a poder situar no tempo cada informação. Polvilhava algumas datas com comentários picantes (“a Eva Braun diz que tenho mau hálito”, “razão tem o Stalin que despediu e matou toda a cúpula militar”).

       Como acontece tantas vezes em ciência, o primeiro especialista guiou-se – por azar –pela obra de referência consultada pelo falsário e validou os diários. Os seguintes seguiram a matilha. Alguns apostaram a reputação na veracidade. Outros validaram e recusaram a autoria hitleriana em 48 horas. Os dois que colocaram dúvidas e reticências foram ignorados.

       A Stern foi em frente. Já gastara 9 milhões de marcos na compra de 60 diários (o falsário chegou a produzir um novo diario em três dias para satisfazer a procura) e não podia recuar. Hitler vende e um “furo” é um doce irrecusável numa redacção, tolhendo o juízo e o bom senso.

       A edição infame foi publicada na última semana de Abril de 1983. Os parceiros internacionais também publicaram. E três dias depois tornou-se dolorosamente óbvio que se tratara de uma fraude. Prendeu-se o falsário e o jornalista que negociara a venda (e que arrecadara comissões). A Stern foi humilhada. Em Inglaterra, curiosamente, mesmo sabendo que publicara uma peça de ficção, Murdoch não perdeu dinheiro — vendeu uma barbaridade de cópias e ainda recebeu o dinheiro que pagara à Stern.

       Hoje, os diários são peças de museu. Ajudam a explicar o fascínio da cultura moderna com a figura de Hitler. 

       Lembrei-me disto quando um colega de uma revista de História me disse que nada vende melhor na capa do que Hitler ou Salazar.




quinta-feira, outubro 05, 2023

Miguel Reis e a Frente Polisário


      Descubro pelo Facebook que morreu o Miguel Reis. Durante uma década – a década escaldante – o Miguel foi jornalista e não advogado. Os obituários que se escreverem provavelmente evocarão a curta temporada que dedicou ao jornal A Luta e a direcção do Portugal Hoje – em ambos casos, percursos pelo menos tão partidários como profissionais de que não se orgulhava muito. Prefiro celebrar o Miguel Reis do Jornal de Notícias.

A revolução de 1974 apanhou-o nas fileiras do jornal de Pacheco de Miranda, onde foi dos mais combativos. Tinha feito um curso de especialização em Paris e estava desejoso de mostrar os dentes. Entrevistou em exclusivo Emídio Guerreiro, logo em Maio desse ano – uma entrevista explosiva de Guerreiro sobre o círculo que rodeara Humberto Delgado no exílio. Obteve de Salgado Zenha uma confidência precoce de que os quadros da Polícia Judiciária seriam saneados. Era bom. Era muito bom jornalista.

Com bom acesso aos membros da Comissão de Extinção da Censura, foi dos primeiros a publicar materiais vetados durante o Estado Novo. A coluna chamava-se “Coisas da Censura” e recuperou pequenas pérolas como a circular de 1959, logo após o golpe castrista, que exigia: «Eliminar, no respectivo noticiário ou em artigos, referências a actos de crueldade ou fortunas acumuladas durante o regime de Baptista. Eliminar também a expressão fidelizar ou semelhantes, alusivas à instauração do esquerdismo revolucionário e anarquizante. Eliminar tudo que apresente Fidel Castro como grande personalidade e bem assim quaisquer referências elogiosas. São de publicar, porém, todas as críticas ou alusões pejorativas e ridicularizantes.» 

Teve chatices no JN, como tiveram vários jornalistas mais ligados ao Partido Socialista – sobretudo na delegação de Lisboa. Mas prefiro celebrar a sua coroa de glória, o episódio em que o Miguel bateu toda a concorrência e, com o Rui Ochoa e o embaixador Menezes Cordeiro, teve acesso exclusivo ao território sarauí. Os pescadores do “Rio Vouga” tinham sido raptados e um camarada argelino do Miguel perguntou-lhe se não queria obter o exclusivo de como eles eram bem tratados no deserto. O exclusivo sarauí foi do JN e o Miguel assegurou-me que chegou a ver, na embaixada portuguesa de Argel, um telegrama pessoal de Sá Carneiro «autorizando [Luís] Fontoura a reconhecer o novo estado», se preciso fosse. Fontoura era o advogado a quem fora atribuída a missão de trazer de volta os 15 pescadores.

Talvez a faceta que mais o divertiu em todo o casofora o desabafo de Luís Fontoura ao Conselho de Ministros: “Sobre a posição dos sarauís, o Jornal de Notícias sabe tanto ou mais do que eu.” 

 

sábado, janeiro 28, 2023

Fake news do século XVI

 




Granada, 29. A minha história favorita de Granada não tem que ver com o Alhambra. Está associada à Abadia do Sacromonte e envolve uma das maiores f alsificações da história.  Conto a versão abreviada e excessivamente simplificada. 
       Após a toma do Alhambra, em 1492, os muitos mouriscos de Granada ficaram em situação periclitante. Foram tolerados durante um século, mas seriam forçados por Filipe à conversão ou à expulsão na segunda década do século XVII. 
       Em 1588, como que por milagre, foi anunciada uma estranha descoberta nas grutas da colina sobranceira ao Albaicin – ao lado de restos humanos carbonizados, apareceram placas de chumbo com uma versão radicalmente nova dos Evangelhos. O monte, antes conhecido por Valparaiso, tornou-se Sacromonte.  
       Interpretados como textos do século I, contavam a vida de Jesus, filho de Maria, mas não o davam como filho de Deus — uma versão compatível com o credo muçulmano. Sugeriu-se a possibilidade de se tratar de um novo evangelho, escrito em latim e estranhos caracteres árabes, trazido para Espanha por São Cecílio (uma das figuras martirizadas na gruta). 
       A “descoberta” tinha fortes consequências. Sugeria que a população mourisca teria tanta legitimidade como a cristã para permanecer no reino. Iniciou-se um culto a São Cecílio e a abadia começou a ser erguida pouco depois. 
       Os documentos, apesar das reticências de alguns que desconfiaram do uso do latim num documento religioso tão antigo, foram enviados para a Santa Sé para estudo. Houve debate durante 40 anos. Durante 400 anos permaneceram ali (o cardeal Ratzinger só os devolveu a Granada no ano 2000). Mas sabe-se desde o século XVII que são falsos: eram engenhosas fabricações quinhentistas, criadas aparentemente por membros destacados da comunidade mourisca para legitimar a sua cultura num momento crítico. 
       Os livros plúmbeos são falsos, mas a abadia mandada construir por cima das grutas sagradas é bem real. Tal como a procissão de São Cecílio, que volta a sair à rua na próxima quarta-feira. Nunca se testaram as relíquias para confirmar as datações da Antiguidade.  
       Como dizem os italianos, non è vero ma ben trovato.

segunda-feira, janeiro 23, 2023

Quando a fonte mais fidedigna sobre um cidadão não é o próprio cidadão

 


       No cinquentenário do Expresso, há uma história engraçada que, creio, não foi contada. Envolve o tenente-coronel Vítor Alves, alvo em 7 de Dezembro de 1985 de uma notícia sem fonte citada que dava como certo o seu apoio à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintassilgo. 
       Parecia apenas a espuma dos dias, própria das campanhas, mas Vítor Alves fez questão de escrever a José António Saraiva, director do jornal. Explicava, num ameno comentário (publicado uma semana mais tarde), que não aderira à candidatura da engenheira Pintassilgo nem a qualquer outra. 
       O incidente teria ficado sanado por aí, não fosse o jornal achar-se no direito de introduzir uma exótica nota de redacção após a carta do militar de Abril: «O Expresso não contactou, na verdade, o coronel [sic] Vítor Alves para confirmar o seu apoio à candidata Lourdes Pintasilgo [sic]. O candidato a deputado pelo PRD assegura nesta carta que não apoia qualquer candidatura. O Expresso limitar-se-á a acrescentar que mantém a sua informação, provindo de muito boa fonte, segundo a qual o ex-conselheiro da Revolução Vítor Alves tem vindo a manifestar as suas simpatias junto da candidatura da engenheira.» 


       Mantendo a elevação e o humor, mas com a mostarda já a chegar-lhe ao nariz, Vítor Alves lavrou um protesto ao Conselho de Imprensa. Queixava-se das fontes anónimas e das notas de redacção habituais no jornal, «receando que tenhamos chegado ao extremo ridículo em que a fonte mais fidedigna sobre um cidadão não seja o próprio cidadão, quando este decide clarificar as suas posições». 

Arquivo do Conselho de Imprensa/ANTT

       Na Duque de Palmela, Saraiva certamente percebeu que o jornal metera a pata na poça. Em Janeiro de 1986, argumentou ao Conselho de Imprensa que a nota de redacção «não foi inteiramente feliz». Mas reafirmava, em silogismo aristotélico de lógica irregular: «Uma fonte que tomamos como boa deu-nos essa informação. Cabe agora perguntar: foi a nossa fonte que se equivocou ou o ten. cor. Vítor Alves produziu alguma declaração que tenha legitimamente induzido em erro a fonte em causa? Caso se tenha verificado a segunda hipótese – e só o ten. cor. Vítor Alves poderá esclarecer o assunto – a culpa pelo mal-entendido seria imputável ao queixoso e não ao Expresso.» 
       Poucos episódios resumem tão bem o gosto do jornalismo político pelas fontes anónimas como este caso. A punchline? O Conselho de Imprensa entendeu «nada ter a condenar ao Expresso» ao abrigo da… Lei de Imprensa que Vítor Alves aprovara enquanto ministro.

domingo, janeiro 22, 2023

Um bom malandro, um deputado e uma eliminação do Sporting


       De vez em quando, três bons malandros reúnem-se em Odivelas, em frente de um tacho bem servido, e contam histórias uns aos outros. É uma espécie de competição saudável pela melhor narrativa. Esta semana ganhou um rapaz de Bogas com esta história que prova a omnipresença de A Bola de Vítor Santos, o humor de Jorge Sampaio e a memória dos tempos em que as sessões parlamentares decorriam pela noite dentro.

       Estávamos em Março de 1988 e a Assembleia fazia horas extra para aprovar legislação. Trabalhava-se a mata-cavalos e a ausência de peões neste xadrez implicava a aprovação matemática da legislação dos rivais.
       O governo era então suportado por uma maioria sólida de deputados do PSD, o que tornava hercúlea a tarefa do líder da bancada socialista, o futuro PR Jorge Sampaio, tentando segurar o dique contra a força da corrente.
       Às duas da manhã do dia 17, Sampaio pede clemência, lembrando que, na maioria dos parlamentos do mundo, só estão presentes os deputados com interesse evidente por um tema enquanto os outros trabalham no edifício noutros dossiers. Correia Afonso, pelo PSD, riposta de imediato, dizendo que os 80 deputados do seu partido ficarão ali até ser preciso.
       Sampaio contesta então: “Tenho estado a reparar – e devo dizer que cheio de inveja – que um dos tais 80 srs. deputados do PSD, por quem tenho tanta consideração e que se encontra na última fila da bancada, tem estado a ler o trissemanário A Bola, que é um jornal que também gosto muito de ler. Ora, eu, que também hoje comprei esse jornal, mas que ainda não o consegui ler porque me encontro na primeira fila da bancada, estou cheio de pena e se estivesse nas mesmas condições daquele Sr. Deputado, que tem todo o direito de ler A Bola, mas que infelizmente não tem um gabinete… A verdade é que, com estes novos aparelhos que permitem ver o que se passa no plenário, esse sr. Deputado poderia ter esta faculdade admirável que é ler A Bola e ouvir o que se passa no plenário.”
       Das bancadas ecoa uma gargalhada. O ambiente desanuvia. Na última fila da bancada do PSD (“o Terceiro Anel do Estádio Nacional de São Bento”), caçado pelo circuito interno televisivo, o jovem deputado Jaime Mil-Homens ruboriza e tenta fechar apressadamente as páginas gigantescas do jornal. Balbucia uma justificação. Calhou-lhe a fava, pois o jornal já percorrera toda a última fila.
       Correia Afonso brinca também: “Ler A Bola é olhar para um problema de desenvolvimento tecnológico”
       Sampaio remata: “Pois é, Sr. Deputado. Eu também lá estive pelo meu clube ontem na bancada.” E sacando do jornal do bolso, acrescenta: “Eu só queria dizer que, enquanto muitos deputados do PSD já tiveram tempo de ler A Bola de ponta a ponta, eu só na cama, antes de dormir, poderei saber como é que ‘isto’ correu ontem.”
       “Isto” era o empate do Sporting com a Atalanta na segunda mão dos quartos-de-final da Taça das Taças que custara a eliminação dos leões (também lá estive na bancada e vi o “frango” do Vítor Damas). Sampaio ganhou esse “round”, mas naturalmente perdeu a votação.
       Para provar que o Daniel não mente, aqui fica a página do Diário Parlamentar e uma crónica do autor em A Bola (10 de Fevereiro de 1995). As votações parlamentares nocturnas, essas, já são uma memória distante.

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Cinco instantâneos na vida de um grande jornalista

     


        Mundial de 1966. Eusébio dá nas vistas e chama todo o tipo de aventureiros. Uma marca de lâminas de barbear quer patrocinar o craque, mas não há ainda empresários, nem advogados. Eusébio não fala inglês. Pede ajuda a um calmeirão que se desenrasca bem em Londres (trabalha então para a BBC e para a Associated Press). Hernâni Santos negoceia por ele. Arranja-lhe dinheiro. Nao escreve sobre o tema para não criar invejas em Lisboa, nem atenção das finanças. Minutos depois, com os bolsos cheios, Eusébio volta ao hall do hotel. Reencontra Hernâni Santos. “Acho que podíamos ter extraído mais aos tipos, pá. E o Coluna também acha que sim.” Primeira lição: os craques do mundo podem ter pés de barro.


     Munique, 1972. Um repórter desportivo do Diário de Lisboa monta uma das grandes trapaças do ano. Faz-se fotografar numa fila da aldeia olímpica, logo atrás do campeão olímpico Valery Borzov. No instante exacto do disparo, faz uma pergunta inócua ao soviético. Pela foto, parece uma conversa. O redactor manda para Lisboa uma sensacional entrevista, inventada do princípio ao fim. O jornal publica e só descobre a trama dias depois. Hernâni Santos, um dos responsáveis, dá uma bronca épica ao infractor, mas não o despede. Sabe por experiência própria que a pena capital não se justifica à primeira ofensa. 


     Lisboa, 1979. Mega Ferreira congela perante as câmaras de televisão. Apresenta o programa de notícias da RTP 2, uma aposta directa da direcção de Informação de Hernâni Santos, e fica largos segundos parado, em silêncio. É uma bronca num canal que ainda está a provar a sua razão de existência. Pede-se a cabeça do jornalista. Hernâni defende-o apesar das pressões. No jornalismo, mandam os jornalistas. Pouco depois é Hernâni quem bate com a porta. “Não pactuo com filhos da puta.”


    Goa, 1980. Vassalo e Silva regressa ao local onde se rendera duas décadas antes. É uma cerimónia de reconciliação entre o novo poder democrático português e o regime indiano. O tom, porém, é azedo. Vassalo e Silva é condicionado a pedir desculpa à Índia, em nome de Portugal. Um embaraço diplomático. Só um jornalista está lá – Hernâni Santos, pelo Expresso. “Dá trabalho ter sorte.”


     Castelo Branco, 1981. Um contacto no mundo da espionagem britânica avisa Hernâni Santos de que um homem condenado por traição durante a Segunda Guerra Mundial está vivo em Portugal. A equipa do Tal & Qual descobre-o em Castelo Branco. É um discreto professor de liceu. Há quem não queira publicar a história para poupar o espião nazi ao embaraço. “Publicamos os factos, o público fará juízos morais.” A história sai. Como sempre saíram as histórias de Hernâni Santos.


     Grato pela amizade, Hernâni. Foi verdadeiramente um prazer!


 


sábado, dezembro 03, 2022

Espião, jornalista e empresário #2



       No Verão de 1935, Walt Disney realiza uma grande viagem de promoção pela Europa. O pretexto é a recolha de fontes de inspiração e locais de filmagem para os seus filmes, mas o motivo mais directo é comercial – Disney quer furar no Velho Continente. 
       Portugal entra na rota de Disney e a sua vinda é anunciada, embora a viagem não se concretize porque Walt teme um país mal servido por transportes e estradas. Mesmo assim, tem o cuidado de enviar presentes e brindes. Para esta campanha europeia, Walt traz centenas de bonecos de peluche e desenhos da sua famosa criação, o Rato Mickey. Traz também insufláveis gigantes que enchem os céus das capitais europeias. Distribui-os a personalidades que podem influenciar o sucesso da sua marca. Em Roma, as netas de Benito Mussolini são premiadas com peluches. Em Portugal, o pequeno Luís Fraga, neto do jornalista Acúrcio Pereira e afilhado de Luís Lupi, também recebe um.
       Descobrimo-lo da maneira mais inesperada. Quando “O Século” celebrou o Natal de 1940, publicou a fotografia de um bebé na primeira página – era Luís Fraga, com um ano de vida, rodeado de brinquedos e com o Rato Mickey em destaque. Lupi furara uma vez mais.
       No dia 6 de Dezembro, na Casa da Imprensa, lançamento do livro “Jornalista, Espião e Empresário” (Âncora), de Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira, com apresentação de Joaquim Vieira.

quarta-feira, novembro 30, 2022

A Gaffe do bruxo angolano


O Campeonato do Mundo de 2006 estava em curso e Angola estreava-se na grande competição de futebol. Por ironia do sorteio, a selecção africana fora colocada no mesmo grupo de Portugal. Tratando-se de uma nação com evidentes afinidades culturais, os jornalistas portugueses desdobravam-se para acompanhar o quotidiano dos palancas. 

Quem já acompanhou uma prova desportiva destas por um jornal sabe que é um trabalho maçador e pouco desafiante. É como uma refeição liofilizada que sabe ao mesmo para todos. O acesso aos protagonistas é mediado através de conferências de imprensa. Observam-se cinco minutos de um treino e é preciso empolar o mínimo pormenor para encher uma página de jornal ou 5 minutos de televisão.

Em Hannover, a acompanhar a selecção do sisudo mas competente Oliveira Gonçalves, estava um pequeno grupo de jornalistas portugueses. Um deles, enviado-especial do Record, conhecido pelo humor contagiante e desrespeito saudável pelas regras, lembrou-se de apimentar o dia 13 de Junho. Quando a comitiva técnica de Angola saiu do balneário para o relvado, apontou da bancada de imprensa para um elemento discreto, à paisana, que seguia os restantes treinadores a alguma distância. Baixou a voz e anunciou para os companheiros: «Sabem quem é? É o bruxo da selecção angolana. Foi importantíssimo para o apuramento.» Angola, de facto, qualificara-se in extremis, num jogo dramático no Ruanda.

O grupo riu-se. Não pensou mais na brincadeira. Alguns sabiam que se tratava do roupeiro da selecção. Era obviamente uma graça, mas há sempre um crédulo com complexos de Bob Woodward.

Nessa noite, na peça que a RTP transmitiu de Hannover, um dos jornalistas da estação pública contou aos portugueses – sem margem para dúvidas – que a selecção angolana empregava um bruxo para melhorar o desempenho no Mundial. Juntou mais alguns pormenores da sua lavra “à fonte original” e compôs o “furo”. Foi o pandemónio. A fake-news tornara-se real.

Na conferência do dia 15 de Junho, Oliveira Gonçalves denunciou a notícia. Compreensivelmente agastado e de dedo em riste para o jornalista da RTP, lembrou que a sua equipa técnica estudara nas melhores escolas de desporto, como os portugueses. E, com razão, disse também que a notícia da bruxaria só fora plausível porque envolvia uma selecção africana. Vermelho de raiva, não parava. E quanto mais se apercebia de que parte dos jornalistas portugueses já não conseguia disfarçar o riso ou manter-se de pé, mais se enfurecia.

Angola conseguiu dois empates históricos nesse Mundial. Talvez o bruxo tenha ajudado.

domingo, novembro 27, 2022

Espião, jornalista e empresário #1

        Na manhã de 24 de Março de 1946, uma criada entra no quarto 43 do Hotel do Parque, no Estoril, e encontra o xadrezista Alekhine morto, sentado num cadeirão, com os restos do jantar da véspera e com um tabuleiro em situação de jogo à sua frente. 

        Luís Lupi, correspondente da Associated Press, corre para o Estoril. Pede emprestada uma máquina fotográfica a um funcionário do hotel e capta três fotografias no quarto de Alekhine. São imagens macabras destinadas à imprensa internacional. Nenhum jornal nacional as publica.

        Há suspeitas de que Lupi compôs o cenário e até de que foi dele a ideia de colocar um tabuleiro à frente do defunto. Sempre dramático, o jornalista escreve para a sede da AP em Nova Iorque: “O gigante do xadrez, morto, parecia um cavalo derrubado”.




No dia 6 de Dezembro, na Casa da Imprensa, lançamento do livro “Espião, Jornalista e Empresário” (Âncora), de Wilton Fonseca e Gonçalo Pereira Rosa, com apresentação de Joaquim Vieira.

sábado, novembro 26, 2022

Espião, jornalista e empresário


       Esta história começou há muitos anos, no dia em que uma viúva entrou na sede de uma agência noticiosa e pediu para falar com alguém que a ajudasse a clarificar o papel do marido na história do jornalismo, da política e da diplomacia portuguesa.

       Foi o fio que revelaria a meada do trabalho que o Wilton e eu fomos desfiando nos últimos anos. Falarei bastante sobre este projecto nas próximas duas semanas, mas, para já, estão convidados a guardar a tarde de dia 6 na agenda. Espero ver-vos na Casa da Imprensa.


sábado, novembro 19, 2022

O Mundial da Junta


       As indignações sobre o Campeonato do Mundo de futebol organizado no Qatar revelam como sempre memória curta. Esta não foi a única atribuição polémica de uma grande prova desportiva a um regime questionável nem será a última. Houve outra que bem merece uma crónica porque envolve o maior jornal desportivo nacional e um episódio de censura flagrante.

       A atribuição da organização do Mundial de 1978 à Argentina fora decidida 12 anos antes, em Inglaterra, e não mereceu contestação. O cartaz oficial da prova, aliás, reproduz a saudação clássica de Juan Perón às multidões, com os dois braços erguidos. A FIFA só não contou com o golpe militar de 1976. A partir de então, ficou a braços com um problema diplomático, mas decidiu não agitar as águas. 

       O país sul-americano passou a ser governado por uma junta militar que fazia desaparecer pessoas e que rapidamente viu na prova uma oportunidade de limpar a sua imagem à escala global. O cartaz peronista, já amplamente divulgado, não foi substituído, mas a Junta meteu a pata em tudo e ainda hoje subsistem acusações de que a selecção da casa foi “empurrada” até à final.

       Mal a bola começou a rolar (tal como vai suceder no Qatar), as críticas perderam força. Só interessava o jogo. A imprensa portuguesa estava então praticamente estatizada e poucos jornais puderam levar enviados-especiais a Buenos Aires, sobretudo porque a selecção portuguesa voltava a não marcar presença. “A Bola” foi uma das excepções — enviou Vítor Santos, o chefe da redacção, e um segundo jornalista.

       Enquanto estiveram na Argentina, os jornalistas de “A Bola” (o segundo identificar-se-á se quiser porque anda por aqui) cobriram como puderam os jogos da prova. E fizeram em Buenos Aires o que Vítor Santos sempre pedia aos jornalistas no estrangeiro: crónica de costumes. 

       Mais afoito do que o chefe da redacção, o segundo jornalista andou pelas ruas, visitou o cemitério onde está sepultada Evita Perón, recolheu notas sobre o movimento das mães da Plaza de Mayo, que se juntavam em silêncio para chorar o desaparecimento dos filhos. Publicou o que pôde (no dia 29 de Maio, perguntava: “Um hino nacional que fala em liberdade pode ser cantado por todos os argentinos?”) e guardou os textos mais cáusticos para quando regressasse a Portugal para «não desaparecer também», como me contou.

       O Mundial acabou no dia 25 de Junho de 1978 e os enviados-especiais regressaram a Lisboa. 

       O jornalista escreveu duas a três crónicas com as suas impressões. Carlos Miranda, o director, já estava em França, acompanhando a Volta velocipédica e Vítor Santos, ansioso pelo descanso, seguiu para férias em Portimão, o refúgio informal das chefias de ”A Bola”. Na azáfama de um jornal efervescente, Alfredo Farinha seguira para a China acompanhando uma digressão do Sporting e Joaquim Rita para o Canadá com o Benfica. Ficaram a subdirectora Margarida Ribeiro dos Reis, filha de um dos fundadores do jornal, e Carlos Pinhão, subchefe da redacção.

       Os textos foram entregues. Os dias passaram e o jornal não os publicava. A subdirectora vetou-os porque continham «ofensas a um chefe de Estado» – ofensa proibida pela Constituição portuguesa. Era o argumento escolhido para não agitar águas num país ainda barricado em facções políticas e num jornal que quase sempre preferiu a prudência à temeridade. Gerou-se discussão na redacção quando o caso foi conhecido. Dividiram-se os campos, como sempre acontece. Carlos Pinhão não se pronunciou.

       O processo chegou ao Conselho de Redacção, que emitiu uma nota de censura à direcção. O passo seguinte deveria ter sido a entrega do caso ao Conselho de Imprensa, nos termos da lei, mas o regresso do director acalmou as águas. “A Bola” não escreveu sobre a Junta Militar da Argentina em 1978, o país onde desapareciam pessoas sem deixar rasto.

* Versão actualizada com correcção de dois erros factuais.