sábado, abril 17, 2021

Quem corre tropeça


 

    Ontem, num estimulante webinar promovido pelo Museu da Farmácia e pelo João Neto, debateu-se o tema da mediação das publicações jornalísticas entre a comunidade de especialistas e o público. 
    Não se argumentou, naturalmente, que os media são o único veículo de transmissão – muitos cientistas fazem hoje by-pass a essa mediação, comunicando directamente com as comunidades interessadas através de podcasts, páginas de Internet, vlogs e afins e são bem sucedidos. A rede de centros de ciência e museus fornece igualmente uma alternativa eficaz de disseminação, mas uma das questões que mais me interessou foi a do tempo consagrado à mediação. 
    Gosto sempre de dar o exemplo da descoberta de Machu Picchu. Hiram Bingham identificou a cidade perdida dos incas em Julho de 1911 (há indícios de que outros já lá tinham estado, mas isso é conversa para outra ocasião). Guardou a descoberta para o seu diário e, nas campanhas desse ano e do ano seguinte, acumulou informação, fotografias, desenhos e… artefactos. Passaram quase dois anos, até Abril de 1913, mês em que a National Geographic consagrou uma edição às campanhas de Bingham, anunciando finalmente a descoberta ao público. Como seria hoje? 
    Hoje em dia, pasmo com frequência quando vejo nas redes sociais alguns arqueólogos a divulgarem de imediato os achados sonantes, ainda cobertos de poeira, sem qualquer tempo de reflexão ou ponderação sobre o seu significado ou a sua comparação com acervos daquele e de outros sítios arqueológicos. Com que fim? 
    Consigo perceber a urgência quando há donos de obra. Os municípios (particularmente em ano eleitoral) vivem com a obsessão de mostrar serviço. A emergência de um artefacto “popular” é pretexto para uma campanha massificada de divulgação, disparando em todas as direcções, simplificando em dois parágrafos a importância deduzida da descoberta (quantas vezes exagerada) que, por sua vez, serão lidos superficialmente (ou até partilhados em função do título). A mentalidade de manada dos meios de comunicação faz o resto, replicando ad nauseam o press release original, sem questionamento ou contextualização. Ninguém acrescenta uma voz complementar. Ninguém contesta a premissa de partida. Passadas 24 horas sobre a massificação de gostos, partilhas e comentários inocentes e tontos, o que fica do processo? Uma vaga ideia de que alguém descobriu alguma coisa que deve ter a sua importância. 
    Em 1896, o Museu do Louvre cometeu um dos seus piores erros. Foi-lhe apresentada uma antiga tiara de ouro com a alegação de que pertencera ao rei cítio Saitafarnes. A nova aquisição figurou em posição proeminente na sala até Adolf Furtwängler, um arqueólogo alemão, questionar a sua autenticidade. A glória do Louvre não durou muito. Em 1903, um ourives de Odessa admitiu que criara a famosa coroa a pedido de filantropos russos e que nunca lhe passara pela cabeça as voltas que a peça daria ou a alegação de que fora burilada há milénios. 
    Em Romeu e Julieta, o frei de Shakespeare avisa Romeu: “Muita calma. Quem corre só tropeça!” Talvez valha a pena pensar (também) nisso.

terça-feira, dezembro 29, 2020

O director que recusava sair de cena

Caricatura de Schwalbach por Teixeira Cabral. Colecção do autor

 O Diário de Notícias completa hoje 156 anos e regressa às bancas. Evocando a longa história do jornal, a edição de hoje recupera três histórias batidíssimas (os relatos de Eça no Suez, a entrevista falhada com Hitler e o debate sobre a abolição da pena de morte). Salvam-se mais pela reflexão das autoras (Francisca Van Dunem, Maria Filomena Mónica e Irene Pimentel) do que pela novidade. Dou assim o meu contributo: eis a história (inédita) do director teimoso que recusava sair de cena.

 

Eduardo Schwalbach era um homem do século XIX. Vivera o tempo das gazetilhas e dos jornais programáticos, muitas vezes filiados nas ideias de um só líder político. Fizera carreira no teatro como dramaturgo e no Conservatório como professor. Não se lhe conhecia uma ideia firme sobre o regime ou a Igreja, sobre o partidarismo ou questões cambiais. Deu por isso um estupendo director de jornal quando Augusto de Castro, concluído o primeiro ciclo na direcção do Diário de Notícias, abraçou a carreira diplomática e partiu para o estrangeiro. Castro deixou o DN nas mãos do amigo e com uma cláusula que lhe permitia regressar. 

Schwalbach, em compensação, adorou as mordomias do cargo: o salário, o carro com motorista, a ausência de responsabilidades, as vénias e os salamaleques. Acúrcio Pereira, Rocha Júnior e depois Aprígio Mafra garantiam os fundos editoriais e os combates na primeira página. Schwalbach assistia às premières do Teatro Dona Maria.

Caiu o regime em 1926 e o cargo complicou-se. Numa das intentonas, em 7 de Fevereiro de 1927, o sempre prudente Diário de Notícias apostou mal por uma vez. Um golpe mal esclarecido na estrutura do jornal levou à publicação de uma edição clandestina de 2 páginas, não censurada, de apoio aos revoltosos no Porto e em Lisboa. Quando a revolta foi extinta (do lado do governo bateram-se Humberto Delgado e Henrique Galvão nos combates do Largo do Rato), Schwalbach ficou em maus lençóis. Devo a Mário Matos e Lemos a cedência de um curioso inquérito promovido pelo major Viegas Ventura e pelo capitão Galvão para apurar responsabilidades pelo motim. 

O suplemento clandestino. Arquivo de Carlos Ferrão


Diário de Notícias esteve proibido de sair durante quatro dias e, ao regressar, não trazia o nome de Schwalbach como director (o tenente-coronel Pestana de Vasconcelos assegurou a direcção interina). À boa maneira portuguesa, o inquérito culpou figuras menores – Mário Pires e Carlos Neves seriam despedidos e Rocha Júnior colocado na prateleira. Schwalbach foi forçado a fazer prova de fé. Não hesitou. O Diário de Notícias tornou-se um ardente defensor da ditadura militar.

Em 1939, na alvorada da Segunda Guerra Mundial, Castro regressou a Portugal escaldado por um escândalo diplomático na legação portuguesa na Bélgica. O genro e a filha tinham-se mostrado favoráveis aos republicanos na Guerra Civil espanhola e chegaram ao Ministério boatos piores sobre correspondência do diplomata. A sua boa estrela parecia finar-se.

Arregaçando as mangas, Augusto de Castro fundou A Noite, dando-lhe o brilho que mais nenhum jornal tinha. Desafiou Artur Maciel para a equipa e propôs, em fundo editorial, o ano de 1940 como lançamento das comemorações henriquinas. Voltou a alinhar-se com Salazar. Foi-lhe confiado o comissariado-geral da Exposição do Mundo Português. Em breve recuperou também a sinecura do Diário de Notícias, empurrando Schwalbach para a reforma aos 80 anos.

Perdia-se o salário, o carro com mordomo, as vénias devidas ao cargo. Em 1944, o ano em que esta história tem lugar, Schwalbach deve ter sentido que lhe deviam uma vénia final.

Alunos, actores, jornalistas e até o presidente Carmona cozinharam uma gala de homenagem ao dramaturgo no Teatro Nacional Dona Maria, prevista para o dia 26 de Fevereiro de 1944, com a representação de A Bisbilhoteira, uma peça de Schwalbach com algum odor a bafio. Os bilhetes, porém, não se vendiam apesar de o Diário de Notícias publicar uma notícia diária na primeira página em louvor do seu antigo director.

Velha raposa, Schwalbach percebeu que precisava de um golpe de asa – um pretexto para que o seu nome fosse recordado.

No dia 18 de Fevereiro, um ancião de 83 anos sobe a bordo de um carro eléctrico da Carris. A empresa estipulara há muito que entre Novembro e Fevereiro não se podia fumar a bordo para não contaminar mais o ar carregado do interior.

«Mestre Schwalbach, fumador impenitente (…), muniu-se de um cigarrinho, meteu-o na boquilha, meteu esta na boca e preparou-se para seguir o seu destino», narra a notícia do Diário Popular. Foi interpelado pelo fiscal. Recusou cumprir, argumentando com a semântica: «Fumar significa tirar fumaça de um cigarro. Mas, para isso, é necessário que o cigarro esteja aceso. Ora, o meu, como vê, está apagado.» 

O fiscal chamou o guarda-freios. Conferenciaram. Intimaram. Ameaçaram. Deverá ter saído fumo de tais cabeças pensantes. Por fim, chamaram a guarda que não teve outro remédio que não fosse conduzir o antigo director do Diário de Notícias à esquadra do Teatro Nacional, onde os grandes reclames já chamavam a atenção dos transeuntes para a gala. Esclareceu-se a controvérsia, Schwalbach não chegou a ser preso, mas fez questão de chamar os jornalistas para dizer que o fora. O seu nome voltou a ser falado em toda a cidade.

A gala do dia 26, segundo o Diário de Notícias, estava à pinha.

É assim que se vende um produto: com histórias novas e atrevimento. Que aliás parecem faltar ao novo Diário de Notícias que ontem cumpriu só meio desígnio – foi diário, mas não deu notícias.

Schwalbach e Castro numa notícia do ABC, 26 de Junho de 1924


quarta-feira, novembro 11, 2020

Portela, um gigante contrariado


 

     Cioso como era da imagem que a posteridade guardaria dele, Artur Portela provavelmente não gostaria de ler este obituário. Foi um dos gigantes do jornalismo do século XX, mas sempre ligeiramente desfasado do contexto histórico, como um bailarino sem sintonia com o resto da companhia de dança. 
     Começou cedo nos jornais. Frequentou a escola ao fundo da Rua Luz Soriano e o Diário de Lisboa foi o prolongamento natural da escola tradicional. Entrou ali de bibe. Era o Arturzinho, o filho de Artur Portela, cronista jactante das artes e letras desde a fundação do jornal. Esse rótulo aborrecia-o. Para muitos, um apelido famoso seria uma bênção, um abre-latas de oportunidades. Para Artur Portela Filho, implicou durante décadas o ónus da comparação. 
     Poucos conheceram tão bem o jornal fundado por Joaquim Manso como Artur Portela. Passou por todas as secções. Viu o jornal composto à mão. Conhecia os tipógrafos tão bem como o director. Podia ter sido o sucessor natural de Norberto Lopes que, por sua vez, sucedera em 1956 a Joaquim Manso. Bastar-lhe-ia para isso o exercício da paciência e da subserviência ao doutor Norberto, virtudes (ou defeitos) que Artur Portela cedo demonstrou não ter. 
     Não era um repórter no sentido operário do termo. Aborrecia-o a reportagem quotidiana e anónima com que se constrói um jornal. Queria os serviços nobres, a crónica literária, a apreciação de espectáculos e de luces. Foi esse o motivo para a espectacular ruptura que Portela, José Sasportes, Urbano Tavares Rodrigues, Veiga Pereira, Renato Boaventura e o jovem imberbe Vasco Pulido Valente promoveram, no final de 1961, no Diário de Lisboa. Os meninos só queriam relatar espectáculos e fazer literatura. O atendimento de telefones, o pequeno incêndio, o roubo de faca e alguidar não lhes servia. Exigiram horas extraordinárias para relatarem a actividade nocturna da Lisboa das Artes – uma exigência inédita num jornal operário onde até Norberto Lopes atendia telefones e falava com os quartéis de bombeiros. Esbarraram no muro da intransigência de Mário Neves. Até final, Portela dedicaria a Neves – em muitos aspectos um correligionário político – as palavras mais duras que lhe ouvi. 
     Bateram com a porta, um gesto romântico, quixotesco e – contou-me ele em entrevista – errado. Julgavam que, na mesma rua, o administrador do Diário Popular lhes abriria a porta. Não abriu e os dissidentes experimentaram na pele o destino dos imprevidentes: perderam o emprego e ganharam ficha na PIDE por dissidência perigosa. 
     A carreira jornalística de Artur Portela foi, em muitos aspectos, uma repetição desta história – uma repetição de oportunidades perdidas. Em Fevereiro de 1960, fora enviado pelo jornal a Agadir para cobrir o terrível sismo que devastara a cidade marroquina. Ficou no hotel, prudente, como outros. Só Urbano Carrasco e Artur Agostinho se aventuraram pelos escombros. Trouxeram novidades e partilharam-nas com os restantes correspondentes. Para surpresa de todos, Portela mandou para o Diário de Lisboa um relato presencial, dramático, da tragédia. Foi uma farsa, como tantas outras na pequena história do nosso jornalismo. O logro ficou durante anos restrito no seio da famiglia que estivera em Marrocos. As coisas tratavam-se assim nos anos 1960. Era uma diatribe do Arturzinho. 
     Nas redacções por onde passou, recolhia admiração e ódio. Bastava uma crónica para se perceber que estava ali um pequeno génio. Dominava a língua e as figuras de estilo como poucos. Fez-se cronista ímpar, talvez o melhor do século – o que não é pouco. Mas zombava dos que não conseguiam escrever como ele. Tinha uma altivez irritante ao primeiro contacto. Manuela de Azevedo, também ela uma flor com espinhos, chamava-lhe o «filho do Artur» só para o irritar. Vera Lagoa apodou-o de «órfãozinho». Nenhuma tinha, claro, a verve literária de Artur Portela. Nem a coragem no Portugal fascista de atacar tudo e todos. Sobre Vera Lagoa, Portela dirá a José Vilhena: «Nada tenho de especial contra ela, só não me parece justo respirar o mesmo ar que ela respira. Acho que devíamos viver em planetas diferentes.» 
     No Jornal do Fundão, por cortesia de António Paulouro, Portela encontrou abrigo para manter o seu nome à tona de água, enquanto leccionava em escolas secundárias. A Funda, colecção de crónicas semanais publicadas no jornal beirão, é um extraordinário repositório de crítica ácida e corajosa. Foi chamado à DGS (a outra, a da Segurança e não a da Saúde) por culpa desses textos. Foi representado por Francisco Balsemão que mostrava mais medo do que Artur Portela no confronto com os polícias. Contava o Artur que Balsemão ficara azul quando o seu representado disse ao agente que não assinava a declaração porque ela estava cheia de erros ortográficos e de português. Era assim o Artur. Tinha uma coragem deslocada. 
     No início dos anos 1970, por amizade com Carlos Eurico da Costa, Artur Portela entrou no mundo da publicidade e do dinheiro. Tinha um talento nato para essa arte. Foi dele a frase «Expresso, o jornal dos que sabem ler», apelando à leitura nas entrelinhas do novo semanário. Na Ciesa, ganhou dinheiro, algum dinheiro. Não foi totalmente leal com Artur Agostinho. 
     A revolução de 1974 apanhou-o com 37 anos e tomou-a como o sinal de ruptura por que tanto esperara. Interpretou-a mal ou, se preferirem, escolheu o lado que poucos escolheram. Fundou o Jornal Novo, com José Sasportes, pago pela Confederação da Indústria, desejosa de mostrar credenciais revolucionárias ao novo regime. Durante meses, foi o cronista mais lido e respeitado do país. A sua crónica e a fotomontagem associada, na primeira página de um jornal simples, vendia-se loucamente. Algumas edições fizeram tiragens superiores a cem mil exemplares. Ao contrário de tantos outros que se pintaram de esquerda em Abril de 1974, Artur Portela tinha credenciais impolutas e não estava amarrado a um partido. 
     Dois incidentes marcam a curta vida do Jornal Novo com Artur Portela (o jornal prosseguiu sem ele, em 1976, sem qualquer prestígio ou influência e chegou a ser dirigido por Proença de Carvalho…). Em Agosto de 1975, no auge do calor revolucionário, o grupo de Melo Antunes, já em ruptura com Vasco Gonçalves, distribuiu um comunicado pelas redacções. Era o «documento dos Nove». Foi pedido embargo até à manhã do dia seguinte. Portela pegou no comunicado e publicou-o numa edição da noite do Jornal Novo. Um escândalo. A irreverência de Artur Portela estava sempre à espreita. Talvez se tenha esfumado aí o fantasma do pai. 
     No 25 de Novembro, o Jornal Novo escolhe mal os aliados. O país está a mudar e Portela não lê bem a situação. Como as crónicas de Afonso Praça sobre a Linha Férrea do Sabor, espera um comboio da terceira via que já não vai passar. A Confederação da Indústria paga o compromisso de Artur Portela no jornal com o despedimento sumário. «Fiz-me difícil, sabe?», contou-me. «Andei dias fugido para não ser notificado.» 
      Escreveu um livro (Fotomontagem) sobre o caso, que se lê num jacto, tal como, em 1963, fustigara Norberto, Mário Neves e todos os outros com Código de Hamurabi, um romance em código sobre o seu afastamento do Diário de Lisboa. Para mim, são os seus melhores trabalhos literários, embora ele preferisse Rama, Verdadeiramente, um dos primeiros livros do nouveau roman em Portugal. 
     Escreveu muito. Ninguém interpretou Eça como ele. Ninguém quis ser Eça como ele. 
     Depois da aventura na revista Opção, as portas dos jornais fecharam-se. Artur Portela institucionalizou-se. O estilo de A Funda, críptico, com meias palavras, já não fazia sentido no Portugal democrático, onde, em teoria, podiam chamar-se os bois pelo seu nome. Foi desaparecendo do espaço público, apesar de algumas crónicas dispersas pelo Tal & Qual (A Feira das Vaidades foi o título que escolheu) e por O Jornal. A sua intervenção pública passou a ser feita através de livros-entrevista (maravilhoso o volume com José Cardoso Pires) e da ficção (nem sempre bem recebida pela crítica). 
     Ficou a dever-nos um livro de memórias. 
      Ficou a dever-me uma chave para confirmar todos os nomes encriptados no Código de Hamurabi
      Ficou a dever-me mais um café na Versalhes. 
      Foi um gigante contrariado, um jornalista que criou o seu próprio carril, que mais nenhuma locomotiva conseguiria trilhar. O que não é pouco.


quinta-feira, novembro 05, 2020

O espião de Castelo Branco



Há quem diga que os livros são mais perigosos do que as armas. 

A história de Rogério Teixeira de Menezes foi conhecida em Portugal através do livro do espião dissidente Kim Philby. Foi depois contada com pormenor em livros de José António Barreiros e de Rui Araújo. Nos anos 1990, Barreiros conseguiu até entrevistar o diplomata português que, em 1943, enviara 10 a 12 mensagens disfarçadas com tinta simpática da embaixada portuguesa em Londres para contactos alemães em Lisboa. Foi condenado à morte, pena depois convertida em prisão perpétua e por fim reconvertida em expulsão do país. Foi de novo preso à chegada a Lisboa. 

Essa é a parte da história conhecida. Em 1981, porém, o Tal & Qual descobriu-o em Castelo Branco. Hernâni Santos lera o livro de Philby em Inglaterra. Colocou a hipótese de o velho espião ainda estar vivo. Ele, Rui Cabral e um fotógrafo que opto por não identificar na história descobriram-no no Liceu de Castelo Branco. Como Hanna Arendt no julgamento de Eichmann, esperavam encontrar a personificação do mal. Encontraram um homem normal, adorado pelos seus alunos. 

Esta é a história de uma reportagem que mudou para sempre a vida de Rogério Menezes. Na "Jornalismo e Jornalistas", n.º 73. Disponível aqui.  

E a ilustração é do Luís Taklim!

terça-feira, novembro 03, 2020

Semiótica na primeira página

Público, 3 de Novembro de 2020


Ia escrever sobre outro tópico, mas chamou-me a atenção a leitura que o Luís Paixão Martins fez desta manchete do Público. "O dia da América" pode ser lido com malícia como "Odiada América". É uma gracinha que permite sempre ao jornal recuar e alegar que não foi isso que se escreveu. É o equivalente à pergunta maliciosa do advogado de acusação nas séries televisivas, que retira de imediato a questão, deixando-a porém planar sobre a mente dos membros do júri.
Estes jogos semióticos na primeira página dos jornais são populares entre os redactores há muitos anos.
No Correio da Manhã, Vítor Direito fez pelo menos três em dia de eleições (1980, 1982 e 1983), apelando discretamente ao voto sem nunca o assumir.


Correio da Manhã, 5 de Outubro de 1980



Correio da Manhã, 12 de Dezembro de 1982



Correio da Manhã, 25 de Abril de 1983

Em 2011, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias cederam à graçola fácil associada à polissemia do "buraco" orçamental.


 


E, nesta lista de aventuras semióticas, não poderia faltar a primeira página que José Manuel Fernandes preparou maldosamente no dia em que o Tribunal da Relação absolveu Paulo Pedroso do crime de pedofilia.



Na essência, são pouco mais do que graffiti anónimos numa parede. Mas fazem estragos.




segunda-feira, outubro 05, 2020

As voltas de um documento

Proclamação da República. Documento do Espólio de Carlos Ferrão (CML)
 

Este suplemento do Diário do Governo foi afixado nas ruas de Lisboa na noite do 5 de Outubro de 1910. Ainda contém o nome de Basílio Teles que, no dia 8, recusará a pasta da Fazenda, depois oferecida a José Relvas.

Mas é o documento, em si, que me interessa. Foi amorosamente coleccionado pelo jornalista Carlos Ferrão, do ABC, de O Século e do Diário de Lisboa. Foi mantido em segurança até à década de 1970. Vendido à Câmara Municipal de Lisboa, lá foi acomodado na Biblioteca-Museu República e Resistência, onde pude consultá-lo muito mais tarde, juntamente com outros fragmentos da história contemporânea. Hoje, desmembrada a Biblioteca, esta peça de museu está em parte incerta. Triste sina, a nossa!

sexta-feira, setembro 04, 2020

Tal&Qual #1 «Isto não é um jornal – é um golpe!»


Dois meses depois do lançamento, a “imprensa séria” lança dúvidas sobre a verdadeira agenda do jornal impertinente que já pisou vários calos e os mandantes que figuram na sombra. O Tal & Qual responde em artigo inesquecível de 14 de Agosto de 1980. O editorialista assume tudo: «Começa por lamentar ter sido descoberto “que somos financiados pela Frente Republicana e Socialista (…). O apoio discreto é-nos dado directamente pelo Dr. Arnaud, através de uma sobrinhita que está à espera do Serviço Nacional de Saúde para crescer, pois tem já 48 anos e apenas um metro e 15 de altura”. Igualmente decisivo é o apoio financeiro do Partido Comunista: “Claro que o PCP não nos falta com nada. Mas, cuidado, que aqui as coisas fiam mais fino. Temos de ir buscar o nosso às mãos do José Luís Judas, que o recebe de uma tia do Dias Lourenço, senhora que faz ponto de cruz e a barba com navalha.” Do Partido Social Democrata, também não falta apoio: «Não ficaríamos de bem com a nossa consciência sem revelar as jogadas discretas do técnico de contas Ângelo Correia que, a troco de favores políticos, quis aparecer na nossa primeira página com a perninha gorducha ao léu para tirar teimas a uns meninos amigos dele que andam a espalhar por aí pequeninas sevícias acerca da fidelidade carneiral do simpático deputado.» Reconhece-se ainda apoio da Albânia, da Finlândia, do governo e de Beatriz Costa. Podia ser só um grito de independência. É a loucura em letra de forma.»
Memórias de um Jornalismo Tal & Qual, José Paulo Fafe e Gonçalo Pereira Rosa, Âncora Editora. Lançamento agendado para quinta-feira, dia 10, 17h45, Feira do Livro de Lisboa. 

terça-feira, setembro 01, 2020

Uma rua para Baptista-Bastos


Uma profissão que não presta culto aos seus é uma profissão sem futuro, na medida em que apaga o passado. Falta um último acto de reparação histórica em Lisboa. Este é o meu artigo que o Público amavelmente traz à estampa hoje. 1 de Setembro, 2020.


segunda-feira, agosto 31, 2020

Memórias de um Jornalismo Tal & Qual


Era uma vez um jornal inventado em duas semanas por quatro jornalistas. Era uma vez um semanário que dava notícias que escapavam aos outros. Era uma vez um periódico que desafiava as convenções do respeitinho e da filiação partidária e investia como um touro sobre cada tema. Era uma vez…
Este livro, que será lançado na próxima quinta-feira, dia 10, pelas 17h45 na Feira do Livro de Lisboa, resulta em primeiro lugar de um desafio do Jose Paulo Fernandes-Fafe que nunca se contentou com a morte – sem velório – do Tal & Qual. Resulta também da generosidade dos fundadores, Joaquim Letria, Ramon Font, Hernâni Santos e José Rocha Vieira, que aceitaram contar histórias genuínas do jornal. Cabe-me também agradecer a Rui Ochoa, João Marques ValentimJose Carlos Pratas Henriques e Rui Cabral, testemunhas privilegiadas que contaram histórias do arco da velha, não esquecendo o Frederico Duarte Carvalho, o Frederico Madeira, o Wilton Fonseca, o Acácio Franco e o Luiz Carvalho que esclareceram pormenores e terraplenaram algumas dificuldades de contacto.
Vinte e dois jornalistas retiraram por um dia o radar que nos obriga a sondar o caminho para a frente e olharam para atrás, analisando (a seu gosto) o(s) episódio(s) que mais prazer lhes deu(ram) no Tal & Qual.
Nos próximos dias, em jeito de contagem decrescente, contarei algumas histórias incluídas no livro. Para já, permitam que sublinhe a coragem de António Baptista Lopes, da Âncora Editora, genuíno belenense, que, em ano de pandemia, lançou este livro ao mar, esperando que os ventos estejam de feição e a viagem seja aventurosa.
Obrigado a todos!

domingo, maio 31, 2020

Onde se fala da Procissão dos Abalos e de cocó de índio

Fotografia de Paulo Henrique Silva
Fotografia de Alberto Plácido
Já vinha de trás. No Verão passado, Jair Bolsonaro desvalorizara como «cocó de índio petrificado» um sítio arqueológico brasileiro responsável por uma moratória que travava a construção de um terminal de contentores em Paraná. Quando a extensão da BR-116 em Pelotas, Rio Grande do Sul, foi travada por esventrar um sítio arqueológico, Jair puxou de novo do grande livro das metáforas e justificou o obstáculo com a descoberta de «cocozinho em índio». Agora, com a divulgação da reunião do Conselho de Ministros do dia 23 de Abril, verifica-se a reincidência. Bolsonaro considerou o património arqueológico como «cocó petrificado de índio». Gabe-se-lhe a consistência das afirmações, embora o repertório esteja um bocadinho gasto.
As afirmações tontas da principal figura de Estado do Brasil são uma caricatura, coerente com a capacidade cognitiva da personagem, mas tipificadoras de uma percepção mais alargada de que nem todo o património cultural (arqueológico, etnográfico, arquitectónico ou imaterial) vale a pena preservar.
Vem isto a propósito da Procissão dos Abalos, que hoje deveria ter tido mais uma edição na ilha Terceira, não fossem as restrições impostas pela pandemia. No dia 31 de Maio de 2005, o pároco deu-nos autorização para acompanharmos todo o processo no âmbito de uma reportagem que publicámos sobre a capacidade dos açorianos para dormirem tranquilamente sabendo que, em toda a região autónoma, há vulcões activos. Para mim, ateu nunca tocado pela graça da fé, foi uma experiência notável. Para o Alberto Plácido, foi a oportunidade de fotografar uma experiência cultural rara. Para o vulcanológo Victor Hugo Forjaz, foi o pretexto ideal para gozar das carantonhas que nós fazíamos sempre que se escutava a ladainha.
Ao contrário de muitas outras procissões açorianas, a Procissão dos Abalos não celebra uma experiência mística, nem um culto popular. É uma das mais antigas procissões insulares (há uma mais antiga no Faial, mas com menor intensidade) criadas após (e devido a) uma manifestação vulcânica.
Entre 1867 e 1868, o vulcão submarino da Serreta entrou em actividade para pânico dos terceirenses. Antes desta, não se conhecia outra manifestação vulcanológica submarina desde o povoamento – depois, claro, tivemos os Capelinhos em 1957/58 e a Serreta de novo em 1998.
As casas frágeis tremeram durante um ano. A igreja abriu fendas. A população temeu pela vida. Na madrugada do dia 30 de Maio de 1867, espontaneamente, saiu pela primeira vez à rua uma procissão. Os participantes levaram as coroas do Espírito Santo e seguiram do cabo do Raminho até à Serreta. No regresso, a terra tremeu onze vezes. De cada vez que o solo estremecia, os participantes prostravam-se de joelhos e rezavam virados para o mar. Caminharam quase sete quilómetros. No cabo, foi rezada missa campal.
Se estavam à espera de uma narrativa mística, desenganem-se. A procissão não resolveu a catástrofe. Nos dias seguintes, mantiveram-se os abalos, mas, poucos dias depois da procissão, de facto, surgiu finalmente a erupção no mar, na ponta da Serreta, daquilo a que hoje chamamos uma erupção do tipo surtseyiano. O mar agitou-se. A lava brotou. A pesca tornou-se impossível durante semanas. É curioso que a população tenha caminhado precisamente para o ponto da ilha onde o vulcão se formava sob a superfície. Mais importante: graças a esta manifestação etnográfica, conseguimos cartografar a erupção, reconhecendo os pontos de reavivamento e de acalmia.
O vulcão cumpriu o seu ciclo de vida, avesso às tradições dos homens. A Procissão dos Abalos, que se passou a realizar sempre no dia 31 (de madrugada quando calha ao fim-de-semana ou ao fim da tarde quando o dia 31 coincide com um dia de semana) é uma das manifestações mais fervorosas do carácter açoriano. Ao observador ocasional poderá parecer pouco relevante ou mais uma entre muitas. Ao Presidente do Brasil, certamente pareceria cocó de índio. Mas é, na essência, um dos tijolos mais firmes do carácter terceirense. Fala-se muito agora em património imaterial, em tradições enraizadas no código genético de uma cultura. Não encontrarão melhor exemplo do que a Procissão dos Abalos, iniciada para aplacar a ira de um vulcão.
Garante-vos este ateu nunca tocado pela graça da fé. 

Da obsolescência dos conselhos de redacção

Nesta rábula da Direcção de Informação da TVI e do programa de Ana Leal, escreveu-se esta semana que o Conselho de Redacção (CR) da estação foi decisivo no processo instaurado à jornalista, dado o desconforto do CR com a revelação de mensagens particulares trocadas por Leal com Sérgio Figueiredo. É bonita esta valorização do papel de Conselho de Redacção, mas ela vem deslocada. 
Os conselhos de redacção morreram. Estão extintos. Arrumados nas prateleiras da obsolescência. Não têm peso nas nomeações e demissões dos cargos de chefia, excepto nos órgãos de comunicação social do sector público, onde ainda geram ruído. Fazem, nos jornais, rádios e televisões, o papel do avô irascível no sofá da sala, que protesta vigorosamente com o estado a que isto chegou, mas que ninguém atende.
A tendência não é recente. No final da década de 1990, esvaziou-se progressivamente o poder deste órgão interno, removendo a capacidade decisória e tornando-o uma mera caixa de amplificação de decisões já tomadas. Agora, repito, é tarde. Dou-vos um exemplo, talvez o mais caricato, porque chegou a ser publicado em livro e ninguém fez caso.
Nas Confissões, segundo volume de memórias de José António Saraiva (Oficina do Livro, 2006), relata-se com pormenores abundantes o processo de sucessão de Saraiva na direcção do Expresso, no final de 2005. O essencial era conhecido: Saraiva propôs Mário Ramires para o seu lugar, Pedro Norton e Mónica Balsemão escolheram Henrique Monteiro. Balsemão absteve-se e Luiz Vasconcellos murmurou qualquer coisa ininteligível.
Foi escolhido, portanto, Monteiro pelo proprietário, como aliás era seu direito. Passo a palavra ao arquitecto (pg. 74 e 75): «Arranjei ainda milagrosamente tempo e energia para reunir o Conselho de Redacção, que obrigatoriamente tem de se pronunciar sobre a indigitação do director. Fi-lo, por razões óbvias, antes de anunciar formalmente o nome de Henrique Monteiro à redacção – de modo que, quando se deu esse anúncio, o Conselho pôde manifestar-se logo a seguir.
A reunião do Conselho de Redacção, sendo bastante pacífica, encerrou, porém, um pequeno episódio que poderia ter tido consequências trágicas. Embora de início eu tenha defendido uma solução diferente para a minha sucessão, a partir do momento em que a administração decidiu seguir outro caminho, eu empenhei-me em que as coisas corressem da melhor (e mais correcta) forma possível. Expus o assunto tranquilamente aos membros do Conselho e pedi-lhes a aprovação do nome do Henrique Monteiro. Não me pareceu haver grandes divergências – mas um dos membros suscitou uma questão: por coerência com uma prática seguida no passado, a redacção deveria ser consultada. Era um berbicacho!
Além de se atrasar o processo, não havia nenhuma garantia sobre o modo como a redacção se pronunciaria em consulta secreta. No Conselho de Redacção, não havia objecções à nomeação do Henrique – mas já era notório que o mesmo não se passava na redacção. A proposta causou, pois, embaraço – mas acabou por ser rejeitada ali mesmo para alívio geral. Todos queríamos aquele assunto resolvido o mais rapidamente possível. Fazer uma consulta à redacção teria sido abrir uma caixa de Pandora. O Conselho daria assim, por unanimidade, parecer favorável à nomeação do novo director, depois de o ouvir e de ele ter declarado prosseguir uma linha de continuidade com a direcção cessante.»


Falta o punch line. É o mesmo Henrique Monteiro que, hoje, na penúltima página do Expresso, vem lembrar que Bruno de Carvalho foi expulso de associado do Sporting por desrespeitar os estatutos do clube. Os estatutos e o protocolo, às vezes, têm importância; outras vezes, não.