Desde o papado de Pio XI que São Francisco de Sales foi designado como padroeiro dos jornalistas. Se se der o caso de Joaquim Letria se cruzar brevemente com este santo (o que aliás seria uma surpresa para Letria, agnóstico firme), é mais do que justo que seja Sales a tratá-lo com deferência e que se levante para lhe dar o lugar. Nada, na carreira de Letria, foi oferecido. Nada foi planeado. Construiu à força de golpes de catana o trilho por onde nunca ninguém seguira. E, quando chegou à meta, com um panorama desobstruído e a sensação de não haver mais mundo no jornalismo para desbravar, sentou-se, com o ar trocista de sempre, à espera que mais alguém o seguisse. Ninguém o conseguiu.
Joaquim José da Conceição Letria enfrentou a primeira batalha da sua vida aos 10 anos. A poliomielite poderia ter-lhe roubado a vida ou a capacidade de locomoção. Acabou por lhe afectar a mobilidade de um braço, mas moldou-lhe sobretudo a resolução. «Mostrou-me que estamos à mercê de um acaso», contou em entrevista. «Fortaleceu o meu desejo de não desperdiçar uma oportunidade.»
Vivendo em Campolide, bairro lisboeta de tradição operária, assimilou as lutas do seu tempo e escolheu o seu lado da barricada – ingressou nas juventudes operárias e depois no Partido Comunista Português contra a ditadura. O jardim do avô dispunha de um barracão discreto e conduziam-se ali reuniões que impressionavam o jovem Joaquim, militante quase anónimo com o pseudónimo «Tomás». Conheceu os líderes comunistas nas suas nobrezas e fraquezas. Mais tarde, quando o defrontou como adversário em debates políticos, Álvaro Cunhal nunca escondeu algum desconforto. Letria – que aliás o admirava – conhecia-o bem de mais.
Liderou protestos na Pró-Associação dos Liceus e participou na crise estudantil de 1962. Por força disso, foi um entre dezenas de estudantes presos. «Poderia ter ficado arrumado ali», contou. «Se se tivesse provado a filiação no PCP, nunca me teriam soltado.» Valeu-lhe um camarada que, mesmo sob tortura e intimidação, não revelou o seu nome. «Francisco Rego Chaves fez o favor de não falar no meu nome na PIDE, o que é notável – um daqueles favores que não se pagam», contou. «Se não fosse ele, eu teria ido dentro.» Letria também era assim: amigo até à última gota, solidário e reconhecido.
No Diário de Lisboa
Em 1962, o Diário de Lisboa era o jornal lido e respeitado pelos jovens lisboetas. A filha do subdirector Mário Neves, Maria Emília, mete-se em constantes sarilhos nas juventudes estudantis. Em Abril, é detida pela PIDE, o que requer uma solução criativa. A mulher do director, Norberto Lopes, assume-se como vidente (virá a assinar crónica astrológica com o pseudónimo de «Sibila») e dá consultas a Salazar. Será através de uma palavra deixada cair durante uma sessão espírita que Maria Emília receberá uma inesperada ordem de soltura. «A Maria Emília, colega de luta e amiga, foi a minha porta de entrada no jornalismo», explicou Letria a propósito da sequência de coincidências que lhe abriu a porta do jornal.
Mesmo com a cunha da filha, Mário Neves faz-lhe a vida difícil. Força Letria a vir todos os dias ao seu gabinete durante um mês e meio antes de aceitar a sua candidatura. Por fim, pergunta-lhe: «Quer um emprego ou quer ser jornalista? É que são coisas diferentes.» Letria nunca esquecerá a lição: o jornalismo que praticará nos quarenta anos seguintes será sempre uma vocação.
Com a voragem da juventude, Letria sobe degraus e acumula proezas jornalísticas. Teimoso, versátil e poliglota, entrevista personalidades reticentes como Paul McCartney. «O Quinzinho lá se safa» – gostava de dizer, galhofeiro, de cada vez que batia a concorrência. Ganha créditos no jornal e a estima de Vítor Direito, «o melhor fazedor de jornais que conheci ». Revela-se também por aqueles anos o feitio nem sempre fácil de Joaquim. «Desentendi-me com o Direito por uma tontice e ficámos zangados durante meses», contou. «E foi ele que teve a nobreza de me dizer um dia: ‘O menino deixe-se de fitas e junte-se a nós.’, sanando o conflito.»
Como muitos repórteres daquele tempo, Letria acumula ganchos para pagar as contas. Colabora com o Rádio Clube Português e com a Associated Press e verifica, no trabalho de agência, como as regras das redacções portuguesas já estão obsoletas. Escreve crónicas semanais para a revista Flama. Conhece meio mundo do teatro e da revista. Entrevista desportistas com isenção britânica – ele, benfiquista fervoroso e supersticioso, que chega a abdicar da comparência no Estádio do Luz por considerar que traz o azar com ele.
Afasta-se progressivamente do PCP e rompe em 1968, desiludido com o episódio de Praga. Antes, porém, sofre outro calvário.

Com o autor, António Baptista-Lopes, Wilton Fonseca e Ramón Font, Fevereiro 2026
Na PIDE por 12 horas
Em 1967, Letria ainda não usa a barba que se tornará uma imagem de marca – será numa reportagem de longo curso na Amazónia que a deixará crescer e nunca mais a cortará.
Em Abril desse ano, escreve uma curta notícia sobre um assalto na Rua António Maria Cardoso, a mesma onde está implantada a sede da PIDE. Brinca com o fogo e escreve no texto (publicado no Diário de Lisboa sem assinatura) que o assalto aconteceu nas barbas da polícia política. A PIDE inicia um inquérito e o jornal é intimado a fornecer a identidade do autor da notícia que zombou com as autoridades. Para surpresa e repugnância de Letria, Norberto Lopes, o velho director do jornal, dá o seu nome.
É interrogado durante horas e pressionado (embora sem castigos físicos) pelo inspector Abílio Pires. Aproveita para reflectir – talvez pela primeira vez – sobre o modo como os redactores estão sujeitos aos caprichos dos directores. Se um dia dirigir um jornal – promete para os seus botões – nunca atirará um dos seus jornalistas para a frente do carro.
Sufocado em Portugal, Letria tenta a sorte em Londres. Conhece ali Hernâni Santos, que o ajuda a integrar-se na secção portuguesa da BBC. Ganha tarimba e contactos.
O grande debate e o grande jornal
Regressa a Portugal em Maio de 1974. Candidata-se à RTP e é aprovado. Conhece o major Eanes na sala de espera – Eanes vai presidir à estação, Letria entra para a Direcção de Informação. Como não tem esqueletos no armário nem anticorpos entre as forças vencedoras da revolução, sobe rapidamente na hierarquia e assume funções na condução do Telejornal. Não deixa, porém, de se surpreender com a vaga súbita de convertidos à democracia na estação pública. Cunhará para eles um termo que vingou: «os pintados de esquerda».
Para um espírito livre, o período revolucionário é um calvário. As direcções da RTP sucedem-se (um administrador militar chega a dirigir a estação por 12 horas). Letria prova o sabor amargo da censura quando Spínola exige que o autor de uma entrevista a Pedro Pires, dirigente do PAIGC, seja despedido da RTP. E os portugueses ficam a conhecê-lo quando manda calar José Durão Barroso, dirigente do MRPP, que pretende ler em antena um longo comunicado de 17 páginas.
Após a saída de Ramalho Eanes da RTP na sequência do 11 de Março de 1975, Letria bate também com a porta. Decide fundar um jornal e, com 15 camaradas, forma a cooperativa de O Jornal, lufada de ar fresco num sector então estatizado. «Tínhamos decidido que, para entrar mais alguém para o jornal, teria de ser com aprovação de todos», contou. «Uma bola preta e já não entrava. Foi assim que aquele grupo nasceu. Passado pouco tempo, tinha de andar encostado à parede para não levar uma facada tal não era o ambiente.» Hernâni Santos é o primeiro a abandonar o barco, Letria segue-lhe os passos. Entre os dois mantém-se o sonho de, um dia, fundarem um jornal… de jornalistas.
Sempre em movimento, é contratado pela ANOP, precursora da Lusa e inicia uma colaboração com a RDP. Na agência, é preso ao tentar entrar no Sudão – no passaporte, tinha um visto da alfândega israelita que despertou suspeitas. Mas a RTP é uma obsessão persistente. Regressa em finais de 1975. Quando são necessários moderadores para o grande debate de 6 de Novembro desse ano, Joaquim Letria e José Carlos Megre são nomes consensuais. Letria tem de mentir para conseguir juntar na mesma sala Mário Soares e Álvaro Cunhal: assegura a cada um que o rival já aceitou a contenda. É a magia do Quinzinho que safa o primeiro debate televisivo político a que o país assiste.
Entre vagas de fumo no estúdio e um clima de cortar à faca, Letria torna fácil o que poderia ser o cemitério de uma carreira. Conduz o debate de quatro horas que opõe Soares a Cunhal e escuta o famoso «Olhe que não, sotôr, olhe que não» de Cunhal sem pestanejar nem mostrar emoções. É, nesse momento, o pêndulo de equilíbrio de que o país fracturado precisa.
A RTP é o saco de boxe dos partidos e a Direcção de Informação voga ao sabor das correntes. Letria farta-se. Mantém um pé na televisão, como apresentador de programas de variedades, mas não está feliz. Em 1980, apresenta o programa Tal & Qual na televisão – um dos mais populares de então. Uma entrevista controversa é pretexto para Victor Cunha Rego mandar censurar o programa e Letria volta a bater com a porta. É noite de Santos Populares e, com o amigo catalão Ramón Font,dirige-se a Alfama para carpir as mágoas. Talvez seja o álcool a falar, mas desafiam-se mutuamente: o país está maduro para um novo jornal independente, de notícias directas, sem partidos nem vacas sagradas. Em três semanas, está nas bancas o primeiro número do Tal & Qual. Hernâni Santos e o jovem Rocha Vieira completam o quarteto fundador.
Nada na vida profissional de Letria é simples ou duradouro. Seis meses mais tarde, Ramalho Eanes convida-o para a assessoria da Presidência da República. Letria deixa o jornal por incompatibilidade. Alguns dos fundadores zangam-se. O jornal, porém, já é um espírito livre e prossegue o seu curso por mais 27 anos até terminar a primeira série.
Ao longo da década de 1980, Letria faz rádio e cativa a audiência com o programa Cobras e Lagartos na Antena 1. Funda a revista Sábado e apresenta Apanhados na televisão. Escreve furiosamente em jornais e revistas. Não esconde opiniões polémicas nem foge à luta. Quando Miguel Cadilhe lhe faz a desfeita de não comparecer a uma entrevista para a qual se comprometera na RTP2, Letria entrevista a… cadeira vazia do ministro. Em crónicas polémicas, faz a apologia da tourada e das mulheres bonitas, do futebol e dos marialvas. Recusa desqualificar um interlocutor pelo simples facto de pertencer a outra barricada e critica a nova censura, a dos «donos da verdade».
À distância, acompanha o seu jornal de sempre e incentiva a nova vaga de repórteres. Partilha com todos a máxima jornalística que aprendera na BBC: «A tua mãe diz que te adora? Investiga. Investiga todas as pistas! Não deixes de ter curiosidade.»
Quando a segunda série do Tal & Qual é iniciada, no início de Junho de 2021, Joaquim Letria emociona-se. «Não poupem ninguém» – recomenda. «Nem a mim.»
Os americanos têm um termo carinhoso para os pioneiros da sua Constituição – são os pais fundadores. OTal & Qual perdeu esta semana o seu pai fundador, mas, com probabilidade, Joaquim Letria, de charuto na mão e sorriso rasgado, já está a montar uma nova redacção. Vai ser outro jornal dos diabos!








