Ontem, num estimulante webinar promovido pelo Museu da Farmácia e pelo João Neto, debateu-se o tema da mediação das publicações jornalísticas entre a comunidade de especialistas e o público.
sábado, abril 17, 2021
Quem corre tropeça
Ontem, num estimulante webinar promovido pelo Museu da Farmácia e pelo João Neto, debateu-se o tema da mediação das publicações jornalísticas entre a comunidade de especialistas e o público.
terça-feira, dezembro 29, 2020
O director que recusava sair de cena
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| Caricatura de Schwalbach por Teixeira Cabral. Colecção do autor |
O Diário de Notícias completa hoje 156 anos e regressa às bancas. Evocando a longa história do jornal, a edição de hoje recupera três histórias batidíssimas (os relatos de Eça no Suez, a entrevista falhada com Hitler e o debate sobre a abolição da pena de morte). Salvam-se mais pela reflexão das autoras (Francisca Van Dunem, Maria Filomena Mónica e Irene Pimentel) do que pela novidade. Dou assim o meu contributo: eis a história (inédita) do director teimoso que recusava sair de cena.
Eduardo Schwalbach era um homem do século XIX. Vivera o tempo das gazetilhas e dos jornais programáticos, muitas vezes filiados nas ideias de um só líder político. Fizera carreira no teatro como dramaturgo e no Conservatório como professor. Não se lhe conhecia uma ideia firme sobre o regime ou a Igreja, sobre o partidarismo ou questões cambiais. Deu por isso um estupendo director de jornal quando Augusto de Castro, concluído o primeiro ciclo na direcção do Diário de Notícias, abraçou a carreira diplomática e partiu para o estrangeiro. Castro deixou o DN nas mãos do amigo e com uma cláusula que lhe permitia regressar.
Schwalbach, em compensação, adorou as mordomias do cargo: o salário, o carro com motorista, a ausência de responsabilidades, as vénias e os salamaleques. Acúrcio Pereira, Rocha Júnior e depois Aprígio Mafra garantiam os fundos editoriais e os combates na primeira página. Schwalbach assistia às premières do Teatro Dona Maria.
Caiu o regime em 1926 e o cargo complicou-se. Numa das intentonas, em 7 de Fevereiro de 1927, o sempre prudente Diário de Notícias apostou mal por uma vez. Um golpe mal esclarecido na estrutura do jornal levou à publicação de uma edição clandestina de 2 páginas, não censurada, de apoio aos revoltosos no Porto e em Lisboa. Quando a revolta foi extinta (do lado do governo bateram-se Humberto Delgado e Henrique Galvão nos combates do Largo do Rato), Schwalbach ficou em maus lençóis. Devo a Mário Matos e Lemos a cedência de um curioso inquérito promovido pelo major Viegas Ventura e pelo capitão Galvão para apurar responsabilidades pelo motim.
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| O suplemento clandestino. Arquivo de Carlos Ferrão |
O Diário de Notícias esteve proibido de sair durante quatro dias e, ao regressar, não trazia o nome de Schwalbach como director (o tenente-coronel Pestana de Vasconcelos assegurou a direcção interina). À boa maneira portuguesa, o inquérito culpou figuras menores – Mário Pires e Carlos Neves seriam despedidos e Rocha Júnior colocado na prateleira. Schwalbach foi forçado a fazer prova de fé. Não hesitou. O Diário de Notícias tornou-se um ardente defensor da ditadura militar.
Em 1939, na alvorada da Segunda Guerra Mundial, Castro regressou a Portugal escaldado por um escândalo diplomático na legação portuguesa na Bélgica. O genro e a filha tinham-se mostrado favoráveis aos republicanos na Guerra Civil espanhola e chegaram ao Ministério boatos piores sobre correspondência do diplomata. A sua boa estrela parecia finar-se.
Arregaçando as mangas, Augusto de Castro fundou A Noite, dando-lhe o brilho que mais nenhum jornal tinha. Desafiou Artur Maciel para a equipa e propôs, em fundo editorial, o ano de 1940 como lançamento das comemorações henriquinas. Voltou a alinhar-se com Salazar. Foi-lhe confiado o comissariado-geral da Exposição do Mundo Português. Em breve recuperou também a sinecura do Diário de Notícias, empurrando Schwalbach para a reforma aos 80 anos.
Perdia-se o salário, o carro com mordomo, as vénias devidas ao cargo. Em 1944, o ano em que esta história tem lugar, Schwalbach deve ter sentido que lhe deviam uma vénia final.
Alunos, actores, jornalistas e até o presidente Carmona cozinharam uma gala de homenagem ao dramaturgo no Teatro Nacional Dona Maria, prevista para o dia 26 de Fevereiro de 1944, com a representação de A Bisbilhoteira, uma peça de Schwalbach com algum odor a bafio. Os bilhetes, porém, não se vendiam apesar de o Diário de Notícias publicar uma notícia diária na primeira página em louvor do seu antigo director.
Velha raposa, Schwalbach percebeu que precisava de um golpe de asa – um pretexto para que o seu nome fosse recordado.
No dia 18 de Fevereiro, um ancião de 83 anos sobe a bordo de um carro eléctrico da Carris. A empresa estipulara há muito que entre Novembro e Fevereiro não se podia fumar a bordo para não contaminar mais o ar carregado do interior.
«Mestre Schwalbach, fumador impenitente (…), muniu-se de um cigarrinho, meteu-o na boquilha, meteu esta na boca e preparou-se para seguir o seu destino», narra a notícia do Diário Popular. Foi interpelado pelo fiscal. Recusou cumprir, argumentando com a semântica: «Fumar significa tirar fumaça de um cigarro. Mas, para isso, é necessário que o cigarro esteja aceso. Ora, o meu, como vê, está apagado.»
O fiscal chamou o guarda-freios. Conferenciaram. Intimaram. Ameaçaram. Deverá ter saído fumo de tais cabeças pensantes. Por fim, chamaram a guarda que não teve outro remédio que não fosse conduzir o antigo director do Diário de Notícias à esquadra do Teatro Nacional, onde os grandes reclames já chamavam a atenção dos transeuntes para a gala. Esclareceu-se a controvérsia, Schwalbach não chegou a ser preso, mas fez questão de chamar os jornalistas para dizer que o fora. O seu nome voltou a ser falado em toda a cidade.
A gala do dia 26, segundo o Diário de Notícias, estava à pinha.
É assim que se vende um produto: com histórias novas e atrevimento. Que aliás parecem faltar ao novo Diário de Notícias que ontem cumpriu só meio desígnio – foi diário, mas não deu notícias.
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| Schwalbach e Castro numa notícia do ABC, 26 de Junho de 1924 |
quarta-feira, novembro 11, 2020
Portela, um gigante contrariado
Cioso como era da imagem que a posteridade guardaria dele, Artur Portela provavelmente não gostaria de ler este obituário. Foi um dos gigantes do jornalismo do século XX, mas sempre ligeiramente desfasado do contexto histórico, como um bailarino sem sintonia com o resto da companhia de dança.
quinta-feira, novembro 05, 2020
O espião de Castelo Branco
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Há quem diga que os livros são mais perigosos do que as armas.
A história de Rogério Teixeira de Menezes foi conhecida em Portugal através do livro do espião dissidente Kim Philby. Foi depois contada com pormenor em livros de José António Barreiros e de Rui Araújo. Nos anos 1990, Barreiros conseguiu até entrevistar o diplomata português que, em 1943, enviara 10 a 12 mensagens disfarçadas com tinta simpática da embaixada portuguesa em Londres para contactos alemães em Lisboa. Foi condenado à morte, pena depois convertida em prisão perpétua e por fim reconvertida em expulsão do país. Foi de novo preso à chegada a Lisboa.
Essa é a parte da história conhecida. Em 1981, porém, o Tal & Qual descobriu-o em Castelo Branco. Hernâni Santos lera o livro de Philby em Inglaterra. Colocou a hipótese de o velho espião ainda estar vivo. Ele, Rui Cabral e um fotógrafo que opto por não identificar na história descobriram-no no Liceu de Castelo Branco. Como Hanna Arendt no julgamento de Eichmann, esperavam encontrar a personificação do mal. Encontraram um homem normal, adorado pelos seus alunos.
Esta é a história de uma reportagem que mudou para sempre a vida de Rogério Menezes. Na "Jornalismo e Jornalistas", n.º 73. Disponível aqui.
E a ilustração é do Luís Taklim!
terça-feira, novembro 03, 2020
Semiótica na primeira página
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| Público, 3 de Novembro de 2020 |
Ia escrever sobre outro tópico, mas chamou-me a atenção a leitura que o Luís Paixão Martins fez desta manchete do Público. "O dia da América" pode ser lido com malícia como "Odiada América". É uma gracinha que permite sempre ao jornal recuar e alegar que não foi isso que se escreveu. É o equivalente à pergunta maliciosa do advogado de acusação nas séries televisivas, que retira de imediato a questão, deixando-a porém planar sobre a mente dos membros do júri.
Estes jogos semióticos na primeira página dos jornais são populares entre os redactores há muitos anos.
No Correio da Manhã, Vítor Direito fez pelo menos quatro em dia de eleições (1980, 1982 e 1983), apelando discretamente ao voto sem nunca o assumir.
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| Correio da Manhã, 7 de Dezembro de 1980 |
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| Correio da Manhã, 5 de Outubro de 1980 |
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| Correio da Manhã, 12 de Dezembro de 1982 |
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| Correio da Manhã, 25 de Abril de 1983 |
Em 2011, o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias cederam à graçola fácil associada à polissemia do "buraco" orçamental.
E, nesta lista de aventuras semióticas, não poderia faltar a primeira página que José Manuel Fernandes preparou maldosamente no dia em que o Tribunal da Relação absolveu Paulo Pedroso do crime de pedofilia.
segunda-feira, outubro 05, 2020
As voltas de um documento
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| Proclamação da República. Documento do Espólio de Carlos Ferrão (CML) |
Este suplemento do Diário do Governo foi afixado nas ruas de Lisboa na noite do 5 de Outubro de 1910. Ainda contém o nome de Basílio Teles que, no dia 8, recusará a pasta da Fazenda, depois oferecida a José Relvas.
Mas é o documento, em si, que me interessa. Foi amorosamente coleccionado pelo jornalista Carlos Ferrão, do ABC, de O Século e do Diário de Lisboa. Foi mantido em segurança até à década de 1970. Vendido à Câmara Municipal de Lisboa, lá foi acomodado na Biblioteca-Museu República e Resistência, onde pude consultá-lo muito mais tarde, juntamente com outros fragmentos da história contemporânea. Hoje, desmembrada a Biblioteca, esta peça de museu está em parte incerta. Triste sina, a nossa!
sexta-feira, setembro 04, 2020
Tal&Qual #1 «Isto não é um jornal – é um golpe!»
terça-feira, setembro 01, 2020
Uma rua para Baptista-Bastos
segunda-feira, agosto 31, 2020
Memórias de um Jornalismo Tal & Qual
domingo, maio 31, 2020
Onde se fala da Procissão dos Abalos e de cocó de índio
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| Fotografia de Paulo Henrique Silva |
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| Fotografia de Alberto Plácido |




















