segunda-feira, junho 17, 2019

Antas discretas – as reais e as imaginárias

Nos anos 1940, o arqueólogo alemão Georg Leisner cirandou por aqui, guiado por uma personalidade local recomendada pelo padre Henrique Louro. Documentou, com optimismo excessivo (sabemo-lo hoje) 95 antas neste território. Nos últimos anos, a Associação de Estudos do Alto Tejo visitou 84 desses locais, mas “só” se comprovaram 16 antas. Tudo indica que as restantes foram falsos positivos. Este é um dos locais confirmados e escavados em 2012 – a Anta do Cão do Ribeiro.


quinta-feira, junho 13, 2019

O caricaturista caricaturado...

Depois de Bordalo e Leal da Câmara, escolheria Francisco Valença entre os maiores caricaturistas do país. Ao contrário dos outros, teve sempre de fazer pela vida, respeitando hierarquias e garantindo o salário do Museu Nacional de Arqueologia. Que eu saiba, nunca caricaturou o patrão (Leite de Vasconcelos) para o Sempre Fixe. E, por vezes, mesmo não querendo, lá tinha de ir em campanha de campo.

Em 1931, por uma vez, o caricaturista foi caricaturado. E gozado pela sua revista: «Anda por terras do Alentejo, desenhando antas. Segundo nos conta em carta que ontem recebemos, já tem no activo duas caneladas e alguns trambolhões. Sai de manhã com uma merenda debaixo do braço e volta à noite sem ela, o que tudo são prejuízos.
Julga o Valença que o homem pré-histórico premeditou, há cinco mil anos, aquela pouca vergonha e anda esperançado em apanhar por lá alguns deles para um ajuste de costas que o arrase por outros cinco mil anos.
Mais lhe valia ao Valença andar por cá a fazer a caricatura do Júlio Dantas, como dantes, do que andar nas antas com que nada adianta. Por tudo isto se acham os nossos leitores privados das suas belas páginas, mas, para a semana, já cá o temos como dantes e sem antas. Pois 'Antão'?»


quarta-feira, junho 05, 2019

A Biblioteca Museu República e Resistência



O senhor presidente da Câmara disse que ia fechar, a senhora vereadora assegura que não é para sempre. 
O senhor presidente da Câmara anunciou que as colecções da Biblioteca Museu República e Resistência vão para o Aljube, a senhora vereadora acha que faz algum sentido. 
O Aljube garante que não tem espaço (e se calhar interesse) no acervo de documentos e publicações sobre a geração que construiu a República. 
Mais acutilante (excessos da idade), a senhora presidente da Junta assegura que a Biblioteca já estava morta antes de fechar no próximo dia 15. «É um espaço morto», disse, com a repulsa que os cadáveres costumam provocar.
Tenho para oferecer o mero testemunho de leitor e frequentador assíduo do espaço. A Biblioteca não estava morta. Era mesmo o único espaço da rede de bibliotecas municipais onde os funcionários conheciam o espólio como a palma das mãos. Conheciam os leitores e sabiam o que estes estudam.
Há algumas semanas, um deles viu-me chegar e cochichou: «Tenho aqui uma coisa que lhe vai interessar. Sei que gosta de coisas esquisitas...» Contou-me que, na véspera, um respeitável ancião fora depositar na biblioteca o espólio do pai, militante ferrenho de um dos partidos fundadores da democracia. No espólio, reconheci uma edição do Jornal do Caso República em estado impecável – trata-se da publicação que Vítor Direito e Pedro Foyos, com sacrifícios e risco pessoal, puseram de pé clandestinamente quando as tipografias se recusavam a imprimir o seu República. É uma peça de museu se soubermos o que significa.
Era assim o «espaço morto» da Biblioteca do bairro do Rego. Habitado por pessoas vivas. Costumo brincar: o Google dá-me 10 mil respostas às perguntas que faço. Um bibliotecário que conheça o seu ramo dá-me a resposta certa.
A senhora vereadora assegurou ao Diário de Notícias que, durante o ano em que o espaço estiver encerrado, as equipas camarárias aproveitarão para catalogar o espólio documental, uma vez que muitos documentos permanecem em caixas. Contenho o riso, talvez por saber que as dezenas de cassetes gravadas nos colóquios e entrevistas de César de Oliveira e Pacheco Pereira com velhos anarquistas, carbonários e republicanos nos anos 1970 e 1980 desapareceram misteriosamente (dentro das suas caixas) quando a autarquia decidiu fechar a Biblioteca do Bairro Grandella.
A Biblioteca Museu República e Resistência extinguiu-se. Apagou-se um farol de cultura e esclarecimento. Tenham, ao menos, a decência de lhe fazer um funeral digno.

terça-feira, maio 21, 2019

No bunker de Hitler


Desde 2017 que há uma oportunidade para os visitantes de Berlim se embrenharem na escalada perversa que conduziu ao colapso do Reich. Chama-se Berlin Centre e fica simbolicamente a cem metros da estação de Anhalter banhof, cenário central de vários actos da consolidação e queda do nazismo. É o bunker onde Hitler se matou, mas nada ali desperta fanatismos mórbidos. Creio que essa é a lição. Foi tudo normal. O terror, o seguidismo, o ódio, a fé inabalável na superioridade, o colapso...
Como numa tragédia em cinco actos, somos sacudidos de piso para piso, de sala para sala. De vez em quando, o narrador pergunta: “How could it happen?” Ao fim de duas horas, torna-se mais plausível. Poucos foram obrigados a cumprir ordens – escolheram fazê-lo por motivos mesquinhos ou ideológicos, mas poucos foram forçados. 
Não tirei fotos, nem elas são encorajadas.


À saída, o visitante é confrontado com a obra monumental de Harald Sandner, o historiador que dedicou a vida a mapear o terror à escala individual. Assumiu a obsessão de documentar onde Hitler esteve em todos os dias da sua vida desde o momento em que assumiu a liderança do partido. 
Folheio os quatro volumes. Procuro uma data – 31 de Janeiro de 1935. Lá estão os nomes que procuro. Armando Boaventura (no livro, Bonaventure) e Félix Correia (no livro, Goreira) conversam com o Führer. Os jornalistas do Diário de Notíciase do Diário de Lisboasaíram encantados do encontro e escreveram prosas que envelheceram mal, para ser benevolente.
Tinha de ser assim? Não. Como muitos outros, escolheram o lado que parecia mais promissor. Também é sobre homens como eles que esta história se escreve.

segunda-feira, abril 22, 2019

Como Tales de Mileto foi superado por José António Saraiva



Acabei. Devo ter sido o primeiro português a acabar o terceiro livro de memórias de José António Saraiva (Eu e os Outros, Gradiva, 2019), mas já está.
Deixo algumas notas soltas de leitura, pois o livro não justifica uma recensão formal:

1) O catálogo da Gradiva tem mais oscilações do que um veleiro no mar do Norte – ora vai acima, ora vai abaixo [caso tivessem dúvidas, com o volume em apreço, foi abaixo].

2) Não conheço mais nenhuma personagem histórica, incluindo Tales de Mileto e Cristiano Ronaldo, que tivesse produzido três volumes de memórias. Temos portanto um volume para cada 23 anos de vida do arquitecto. Parece-me pouco…

3) O autor está – lamento dizê-lo – seco como um limão. Não tem mais histórias para contar que tivessem ficado de fora do primeiro volume (não convencional, mas inquestionavelmente importante para historiadores e curiosos) e do segundo (mais cheio de fel, mas ainda com alguma polpa). O momento mais dramático do livro oscila entre o acidente onde nada aconteceu a nenhum dos envolvidos (pp 189-191, caso estejam interessados) e o estratagema ardiloso para evitar pagar bilhete no eléctrico da Cruz Quebrada (pp 132-133). Decidam os senhores que eu vou beber um copo de água para acalmar.

4) André Jordan, em entrevista à Visão desta semana, diz que quem escreve as memórias não tem de escrever a verdade, nem toda a verdade. Escreve a sua versão – aquela que quer contar e, idealmente, gostaria de ver perpetuada. Estou de acordo. Nas mais recentes memórias de JA Saraiva, porém, não há nada para reescrever, nem razão visível para publicar. Estas parecem ser as mais recentes memórias, no sentido em que foram os últimos pensamentos que passaram pela mente do autor, mas isso não costuma ser motivo para publicar livros. Pelo menos, lá fora.

5) Na capa do livro, há 15 rostos visíveis e dois tapados pelo sinal de trânsito para perigo. Posso assegurar que, à excepção de Marinho Pinto, nenhum foi mimoseado com mais de dois parágrafos. O único perigo, pois, é o de adormecimento ao volante.

6) Tratando-se de quem é, há, naturalmente, erros. O Maio de 1968 não foi «quase simultâneo» da Primavera de Praga (pp. 24). Passaram três meses entre o início de um e o início do outro. E tenho pena também, mas o Mariano Amaro, que o avô Virgílio salvou da tuberculose (pp. 16), não foi certamente uma das torres de Belém. Cresci a ouvir falar de Feliciano, Vasco e Capela, eles sim, as torres do Belenenses. Amaro foi um dos dois senhores que não levantou o braço para saudar os falangistas num Portugal-Espanha e cerrou o punho. Foi preso por causa disso. Tenho o processo e posso emprestá-lo.


7) Termino com uma inesperada nota afectiva. Em quase todas as intervenções anteriores, o autor foi sempre muito mais pródigo em elogios para o seu tio, José Hermano, do que para o pai, António José. Politicamente, estava mais próximo daquele do que deste e é natural que entre pai exilado em França e na Holanda e os filhos em Lisboa não se tenham estreitado laços. Mas gostei de ler. Nas memórias de José Hermano Saraiva (escritas a quatro mãos com o sobrinho), transparecia um carinho muito grande entre os dois velhos irmãos, mesmo quando a política os separou. Pela primeira vez, José António Saraiva escreve abertamente sobre o pai, com um carinho que me desarmou.

Aguarda-se agora o quarto volume, subordinado ao título Coisas de que Quase me Esquecia.

terça-feira, abril 16, 2019

«Em questões fiscais, ele ainda é mais burro do que eu»


Por infeliz coincidência, li o volume Football Leaks (Planeta, 2019) na mesma semana em que preparei a documentação para apresentar a declaração fiscal anual. A sensação não foi muito diferente da do infeliz no restaurante que pega no saleiro em vez do açucareiro e polvilha os morangos da sobremesa com o condimento errado. Ainda pensei em pedir ajuda à Gestifute para tentar vender também os meus direitos de imagem à Tollin nas Ilhas Virgens Britânicas, na esperança de que a Tollin os cedesse depois à MIM na Irlanda, mas lembrei-me da frase de Cristiano Ronaldo na sessão de tribunal que o condenou: «Jorge Mendes ainda é mais burro do que eu» em assuntos fiscais. Talvez não valha a pena, portanto.
Pode não parecer, mas Football Leaks  é um livro sobre jornalismo e presta contas sobre um dos trabalhos mais exaustivos e sagazes desenvolvidos pela imprensa europeia desde 2016. Infelizmente, chegou cá distorcido e distante da mensagem original, embrulhado em camadas de hipocrisia (que melhor exemplo do que Lobo Xavier, advogado fiscal de CR7, caracterizar Rui Pinto, o assumido denunciante, como ladrão de bancos e arrumando simploriamente a discussão enquanto “comentador imparcial”?)
O livro é, acima de tudo, uma reparação das falhas da cobertura noticiosa dos nossos media sobre este caso que juntou uma coligação invulgar de empresas jornalísticas internacionais e implicou meses de trabalho árduo. Por cá, infelizmente, o Football Leaks foi construído como «o caso do hacker dos emails do Benfica» e pouco mais. Temo que muitos não consigam sequer explicar o motivo alegado pelas autoridades portuguesas para a prisão preventiva de Rui Pinto.
Há um século, o político republicano João Chagas queixava-se, com razão, que os portugueses que se limitavam à leitura do jornalzinho nacional viam o mundo por uma frincha, convencidos de que a frincha era o mundo todo. Não era então e não é agora. No Der Spiegel, no The Guardian, no El Mundo e, ocasionalmente, no Expresso, a história tornou-se muito mais complexa, muito mais cinzenta e, em última instância, forçou o difícil debate sobre o que vale mais num caso desta natureza – se o modo, porventura ilícito, como os documentos foram encontrados ou se as implicações que estes produzem superam esse desconforto.
Entendamo-nos. À excepção do negócio da cocaína e dos empréstimos da Dona Branca, o futebol parece ser a única actividade que permite decuplicar o investimento em menos de um ano. Não foi por isso que qualquer um de nós se apaixonou pelo jogo, mas é certamente por isso que gente pouco recomendável trouxe o seu dinheiro para a mesa verde do casino da UEFA.
Entre 18,6 milhões de documentos publicados online ou cedidos ao consórcio de investigação, o Football Leaks expôs dois ângulos do negócio do futebol – a imoralidade e a ilegalidade. Com a primeira, convenhamos, cada um lidará como entender, ora afastando-se do jogo, ora aceitando que o novo normal do mundo do futebol é um avançado receber bónus por marcar golos (Vide Lukaku, pp 269-270), ser premiado por fidelidade num novo contrato depois de romper unilateralmente o contrato anterior (Dembelé, pp. 263) ou – o meu favorito – receber um milhão de euros de bónus, como Ballotelli (pp.84), se não for expulso mais de três vezes na mesma temporada.
Com a ilegalidade, porém, a história é diferente. O Football Leaks expôs infracções flagrantes às regras de fair-play financeiro, aos regulamentos que proíbem a posse tripartida de passes de jogadores ou o controlo de mais de um clube pela mesma associação de malfeitores. E, sobretudo, para irritação de muitos, os delatores expuseram os esquemas mirabolantes de jogadores, treinadores e agentes para fugirem à tributação e colocarem dinheiro a salvo em paraísos fiscais. Essa é, para mim, a justificação que legitima o denunciante, mas também pode ser só a minha justificação para a frustração de não conseguir declarar as facturas do veterinário do gato e das permanentes da avó como deduções à colecta. Decidam os senhores.
Na página 159, um dos autores faz a pergunta decisiva do livro. Sentado na tribuna de um estádio cheio durante o Euro’16, o jornalista perguntava-se se as revelações sobre os negócios vorazes do futebol, frequentemente corruptos e quase sempre hipócritas, afectariam os adeptos. Se gerariam alguma repulsa.
Passaram meses sobre as grandes revelações e sobre as confissões de várias estrelas (que “voluntariamente” devolveram às autoridades tributárias milhões de euros em troca do não-cumprimento de penas prisionais). O mundo da bola continua a girar. O principal denunciante está preso em Portugal, acusado de ter ludibriado um fundo predador, representado por um empresário ao qual – sejamos honestos – nenhum de nós compraria sequer um carro em segunda mão. O Verão aproxima-se com a promessa de novos recordes no mundo desgovernado das transferências e certamente novas cláusulas mirabolantes (talvez um subsídio por cada ocasião em que o craque saudar as claques ou um prémio ao guarda-redes que defender mais de um remate por jogo).
Aos deuses do estádio, sabemo-lo agora, perdoa-se tudo.

quarta-feira, março 27, 2019

A Guerra da Mina


«Toma, rapaz. É capaz de ter sido a melhor prosa que me saiu» – disse o Daniel sem cerimónias enquanto me passava o volume do mesmo modo que os corredores de estafetas costumam passar o testemunho.
Saído de outra boca, seria um comentário corrente. Da boca do Daniel, é como se o livro agora oferecido ganhasse encadernação de pele com ferros a ouro. Martelando incansavelmente o AZERTY das máquinas de escrever e depois o QWERTY dos computadores, o Daniel escreveu milhares de páginas de excelente prosa no Diário de Lisboa, na Gazeta dos Desportos, no Expresso e em tantos outros jornais efémeros. Foi mestre de muito boa gente – uns reconhecem-no e outros deixaram cair essa pena do chapéu. É a vida, suponho.
Foi o autor do relato publicado na primeira página do Diário de Lisboa no fim de tarde de 25 de Abril de 1974. Estão lá, no texto não assinado, as duas marcas de água do trabalho do Daniel – a informação directa e precisa e a «prosa com gente lá dentro» (se o querem ver indignado, mostrem-lhe uma destas primeiras páginas modernas de jornal repletas de comentários de fontes anónimas e «bem colocadas»).
Durante mais de uma década, assinou no Expresso a reportagem parlamentar, como Brito Aranha tinha feito no início do século XX – agregando o colorido das sessões à informação plural, doesse a quem doesse. Zurziu à esquerda e à direita. Transformou a reportagem do Parlamento em prosa diferente – Adelino Cardoso e os velhos repórteres da Assembleia Nacional tinham sido obrigados a agir como estenógrafos. Daniel foi intérprete. «Acho que não fazia aquilo mal», diz, hoje, em declarações não autorizadas a este repórter. É falso. Fazia-o como mais ninguém.
Quando me dão livros para a mão, costumo lembrar-me de uma analogia que Manuel Poppe, escritor, diplomata e crítico literário do Jornal de Notícias e do Diário Popular, já usou – a crítica literária, quando feita por académicos, é como o bicho da madeira. Corrói, esfuranca e retira harmonia ao livro. «Feliz e habitualmente, são intragáveis», escreveu Poppe. «Escrevem uns para os outros e hão-de morrer abraçadinhos.» Terei isso em conta. Conheço o porte (e a higiene) da maior parte dos críticos desta terra e passo bem sem os abraços.
Vamos ao livro. Escrito em co-autoria por Daniel Reis e Fernando Paulouro Neves (sobre quem também escreverei um dia destes), A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira (Regra do Jogo, Lisboa, 1979) é, sem favores, a reportagem que sustenta factualmente o que Aquilino Ribeiro quis contar com Volfrâmio: Romance (Lisboa, Bertrand, 1943). Aquilino pintou o tecto da Capela Sistina; Daniel Reis e Fernando Paulouro confirmaram que o romance se sustentou em gente real, numa mina que existia e matava, com capatazes cruéis, guardas surdos e até um cura que não deixava os feridos entrarem no automóvel para não lhe sujarem a viatura. Mais: como nas películas da Technicolor, deram cor, mais de três décadas depois, aos heróis aquilianos do preto-e-branco.
As memórias registadas no primeiro capítulo são a verdadeira linha cronológica da obra. Cada história conta um período da vida da mina. Desde o tempo do Volfrâmio em que os infelizes entravam no algar infernal sem luvas ou capacete, sem qualquer protecção contra a poeira infernal, aos marcos dos pequenos melhoramentos – de salário, de equipamento, de condição laboral. Sem meias palavras. Cada conquista resultou de uma tragédia, como se a bandeira de Iwo Jima fosse desfraldada sobre o corpo do infeliz que permitiu a tomada do monte. Em A Guerra da Mina, não há fugas redentoras, nem bravatas rebeldes de heróis isolados. Há homens que entram todos os dias pela mina – uns saem e outros não. Mas todos ficam lá.
Os sindicatos não são poupados. Os médicos não são poupados. Os tribunais não são poupados (magnífica recolha documental no Tribunal do Trabalho da Covilhã). E a empresa benemérita menos ainda.
Com quarenta anos de atraso, li o livro de um fôlego e fiquei sem fôlego. Não sei se é a melhor prosa que o Daniel já escreveu. Sei que nunca mais olharei para a Panasqueira com os mesmos olhos. 
É só isso que se pede de uma reportagem.