Outro Abril, o de 1960, há exactamente 60 anos. Na ordem de serviço n.° 113
da PIDE, surge pela primeira vez o pedido de captura de Amilcar Cabral. Já não
é o ex-estudante, que liderou a Casa dos Estudantes do Império, nem o
engenheiro agrónomo que fez tese sobre a erosão dos solos e muito menos o jovem
atlético que sonhou jogar no Benfica É o protótipo de guerrilheiro em formação,
que entra no radar do regime. O resto é história.
quinta-feira, abril 23, 2020
sábado, abril 18, 2020
Manuel Magro, o homem que olhava os jornais como quem olha as jóias numa montra
Por um comentário do geólogo e amigo
Galopim de Carvalho, descobri que morreu recentemente Manuel Magro, jornalista
do Diário Popular e administrador da
RDP. Tanto quanto sei, o Sindicato dos Jornalistas ainda não assinalou o
acontecimento com o destaque que o mesmo justifica. Quem foi afinal Manuel
Magro?
Entrou para o Diário Popular em 1958 na sequência de um concurso organizado por
Brás Medeiros para encontrar novos repórteres. Mário Ventura Henriques ganhou o
concurso, Magro ficou em segundo, escrevendo sobre «o drama vivo de um homem
que cumpriu muitos anos de cadeia por um erro judicial». Estava prevista a
publicação de uma crónica de cada concorrente e um estágio na redacção, mas o
estilo de ambos agradou tanto que o jornal acabou por abrir os cordões à bolsa
e contratou-os. «Brincara aos jornais desde menino», contou numa crónica
publicada em Setembro de 1972. «Cheguei à adolescência a olhar os jornais como
quem olha as jóias numa montra.»
Mário Ventura e Manuel Magro encontram uma redacção peculiar, avessa à entrada de novos recrutas. «Havia uma resistência, não propriamente declarada» à mudança, contou Mário Ventura a Fernando Correia e Carla Baptista em Memórias Vivas do Jornalismo. «O Manuel Magro, que entrou pouco depois de mim, conquistou a paixão do Fernando Teixeira e eu fiquei protegido do Zé de Freitas. Parece incrível, mas funcionava assim.»
Mário Ventura e Manuel Magro encontram uma redacção peculiar, avessa à entrada de novos recrutas. «Havia uma resistência, não propriamente declarada» à mudança, contou Mário Ventura a Fernando Correia e Carla Baptista em Memórias Vivas do Jornalismo. «O Manuel Magro, que entrou pouco depois de mim, conquistou a paixão do Fernando Teixeira e eu fiquei protegido do Zé de Freitas. Parece incrível, mas funcionava assim.»
Formado em Direito, Magro era um homem
peculiar, muito interessado no noticiário internacional. Ao serviço do Popular, viajou pelo mundo. Assinou
crónicas sobre a Espanha em 1964 e 1965, a Grécia em 1968, no rescaldo do golpe
de Estado do ano anterior, e sobre o Brasil em 1969. Calhou aliás estar nos
Estados Unidos em 1968 quando Martin Luther King foi assassinado. Contou-me
Baptista-Bastos, em entrevista, que Magro enviara então um cabograma para a
redacção. O texto singelo dizia apenas: «Mataram
o Luther King. Puxem.» Na linguagem cifrada dos jornais, o «Puxem» constituía a
instrução para encontrar tudo sobre o tema nas agências, na concorrência,
«inventando se fosse preciso», dizia o BB.
Orgulhando-se da sua tradição de ter
enviados-especiais e correspondentes em todos os pontos do global, o jornal
organizou uma edição de luxo, com vastos pormenores sobre o acontecimento
redigidos na redacção, sobretudo por Baptista-Bastos. A crónica foi assinada
por Manuel Magro, para valorizar o estatuto do enviado-especial. Porém, o
trabalho de reportagem foi… premiado pelo SNI. Contava o Bastos: «[O Magro] não só não me dá uma palavra de
reconhecimento, como não me dá uma parte do prémio monetário, o sacana. Nem um
tostão. ‘Puxem…’» Mesmo assim, ambos mantiveram uma forte amizade.
No final da década de 1960, a redacção do Diário Popular dividia-se entre os
grupos leais a Brás Medeiros e a Francisco Pinto Balsemão na guerra surda que
os dois administradores mantinham pelo controlo do jornal. Magro, como Bastos,
Fernando Correia ou Jacinto Baptista, colocou-se do lado de Balsemão. Numa
crónica publicada no Jornal de Negócios,
Baptista-Bastos lembrará mesmo a definição elogiosa que Magro aplicava à
capacidade de Balsemão para escutar opiniões contrárias: «O homem
tem a democracia até à medula.» Balsemão paga-lhe na mesma moeda. Numa entrevista que me concedeu, não cessou de se lhe referir respeitosamente como «o doutor Manuel Magro».
Com ou sem apoios morais, triunfará o
dinheiro. Brás Medeiros consegue que Miguel Quina compre acções dispersas do
jornal a partir do final de 1970, assegurando o controlo maioritário do Diário Popular. Em Fevereiro de 1971,
Balsemão sai do Diário Popular e
começa o esforço de preparação de um novo semanário, que verá a luz dois anos
depois, em 1973 – o Expresso. Manuel
Magro, esse, permanece na redacção do Popular
e ascende na secção de Política e Economia. Gosta dos temas que a maioria dos
jornalista evita a sete pés. Especializa-se.
A revolução de 1974 provoca repercussões
imediatas no Diário Popular. Martinho
Nobre de Melo é afastado da direcção, tal como Fernando Teixeira, o chefe da
redacção. Logo a 4 de Maio, os trabalhadores elegem Manuel Magro como director
interino, institucionalizando a nomeação a partir de 20 de Dezembro de 1974. É
escolhido um homem moderado, reflectindo o equilíbrio na Primavera de 1974
entre as facções políticas no seio do jornal.
A tentativa de golpe spinolista no dia 11
de Março de 1975, porém, é fatal. O Diário
Popular hesita excessivamente no apoio ao governo. A banca é nacionalizada
e, com ela, também os jornais que esta detém. Magro será afastado em plenário
de funcionários. O repórter fotográfico Fernando Corrêa dos Santos narrou-me
(para um livro sobre o Diário Popular
que está há meses encalhado) esses dias: «O movimento contra ele foi uma coisa
feroz. Lembro-me de Magro gritar para quem o queria ouvir: ‘Eu sempre fui
democrático.’ Depois do 25 de Abril, a vida no jornal foi agitada. Havia
plenários em que até as mulheres da limpeza participavam – cada pessoa tinha um
voto. O Coimbra, que era advogado, saltava para cima de uma secretaria e
gritava: ‘Quem vota a favor? Quem vota contra?’ Alguns punham sempre o dedo no
ar. E havia muitos que olhavam para o lado para ver como estava a tendência:
‘Agora, levanto ou não?’»
Afastado do jornal que servira durante 17
anos, Manuel Magro virá a ingressar em O
Século, outro turbilhão de lutas revolucionárias. No final de Março de
1976, assume o cargo de director-adjunto do velho jornal. O jornal é
nacionalizado nesse Verão e Manuel Magro vive então mais uma polémica. O jornal
publica uma notícia a propósito do livro controverso de Henrique Cerqueira sobre o
exílio de Humberto Delgado e os falsos conspiradores que o teriam conduzido às
mãos da brigada da PIDE em 1965. A publicação desperta a ira de vários
republicanos. No refluxo mediático, Magro é demitido, mas a redacção e o
director seguram-no. É readmitido em funções e, em Dezembro de 1976, torna-se
mesmo director interino de O Século, recusando
a nomeação para director efectivo pois sabia, melhor do que ninguém, que o
destino do jornal estava traçado. Manuel Alegre assinaria o despacho com a certidão
de óbito de O Século.
Manuel Magro trabalhou ainda na rádio como
administrador, mas a sua paixão foi sempre este castelo de letras e tintas que
se reconstrói e destrói todos os dias.
Morreu esta semana.
quinta-feira, abril 16, 2020
Festim de história natural
Em registos muito distintos, com linguagens próprias e sensibilidades artísticas muito diferentes, os dois documentários de história natural exibidos no último mês são um festim para os olhos. "Mar da Minha Terra" é o projecto do Luis Quinta sobre a Frente Atlântica de Almada. "Das Pedras Fez-se Terra" é o documentário da Madalena Boto sobre a história, cultura e natureza da Beira Baixa.
Usa-se tantas vezes o argumento de que o público, os decisores e o país não merecem uma criação artística tão sofisticada que, quando finalmente isso é verdade, parece bazófia. Não é. Neste caso, os documentários do Luís e da Madalena estão uns bons furos acima do que o mercado documentalista português merece. Cabe aos operadores televisivos estugar o passo e diminuir o risco dos produtores independentes. E não o contrário.
Usa-se tantas vezes o argumento de que o público, os decisores e o país não merecem uma criação artística tão sofisticada que, quando finalmente isso é verdade, parece bazófia. Não é. Neste caso, os documentários do Luís e da Madalena estão uns bons furos acima do que o mercado documentalista português merece. Cabe aos operadores televisivos estugar o passo e diminuir o risco dos produtores independentes. E não o contrário.
terça-feira, abril 14, 2020
Um hiato biográfico
Tenho
muito carinho pelo professor João Luís Cardoso, a quem devo várias gentilezas e
cooperação em reportagens sobre arqueologia da pré-história. Dito isto, não
consigo compreender muito bem as lacunas biográficas deste “In memoriam” (aqui) sobre
o arqueólogo e docente da Faculdade de Letras, Manuel Farinha dos Santos.
Diria
que falta uma fatia importante na biografia desta figura.
Ocorre-me
que o hiato na biografia entre 1943 e 1960 pode ser provocado pela
indisponibilidade de documentos. Permita-me assim o professor João Luís Cardoso
que junte mais cinco documentos à nota biográfica do homem que descobriu a
gruta do Escoural.
No documento
1, de 1949, Manuel Luís Macedo Farinha dos Santos é chefe de brigada, como
contratado, na listagem de funcionários da Polícia Internacional de Defesa do
Estado (PIDE) publicada em Diário do Governo.
Foi pena este dado não estar no “In Memoriam”.
No
documento 2, de 1952, formaliza-se a sua posição de chefe de brigada na
carreira policial, pois até aqui Farinha dos Santos estava na PIDE por
requisição.
No
documento 3, de 1953, Farinha dos Santos é promovido a subinspector.
No
documento 4, de 1954, certifica-se que Farinha dos Santos não esteve no Oriente
«ao serviço do Ministério do Ultramar», como refere – decerto por lapso – o
perfil. Foi voluntário de uma missão da PIDE que, a convite do referido
ministério, montou uma brigada na Índia Portuguesa. Esta é a nota de embarque
no navio Índia.
No
documento 5, de 1960, Farinha dos Santos é exonerado da PIDE a seu pedido por
ter sido aceite no cargo de segundo assistente da Faculdade de Letras.
Também
tenho os louvores, as licenças e as páginas da biografia do Dr. Soares que
recordam tão amável personagem.
Julgo que assim fica mais completa a biografia...
quarta-feira, abril 08, 2020
19 anos da moldura amarela
A National Geographic completa hoje 19
anos, pois a primeira edição da revista foi apresentada aos leitores em Abril
de 2001. Todos os anos, evoco aqui uma história sobre esta caminhada, lembrando
amigos e camaradas que trabalharam neste projecto e foram seguindo outros
trilhos. Permitam que este ano evoque o momento mais embaraçoso – o dia em que
uma iniciativa nossa percorreu o mundo pelos piores motivos.
Corria o mês de Novembro de 2002 e o tema
forte da edição desse mês era um dossier muito bem feito sobre armas de
destruição maciça. A vida mudara muito no ano e meio que levávamos de
actividade. A TVI emitia agora um estranho reality
show chamado “Big Brother” que a SIC desdenhara. Guterres demitira-se na
sequência do «pântano». Dois aviões tinham embatido nas Torres Gémeas de Nova
Iorque. O Sporting acabara de se sagrar campeão. O Paulo Farinha ainda tinha
cabelo. No Parlamento inglês, entrava pela primeira vez um jovem deputado
despenteado chamado Boris Johnson. E, no início desse Outono de 2002, o mundo
começava a assustar-se com as notícias de cartas cobertas com o terrível
anthrax enviadas por remetentes desconhecidos para figuras políticas.
A criação de campanhas de promoção de cada
edição da revista ficava então a cargo da Bates Portugal, agência talentosa que
acumulava prémios nacionais e internacionais. Por força de integrarmos o
indestrutível universo da Lusomundo/PT (pois...), dispúnhamos de espaço
privilegiado nos jornais mais importantes do grupo – o Jornal de Notícias e o Diário
de Notícias – para anunciarmos, com as trompetas do apocalipse, o tema de
capa de cada edição.
Decidiu-se (não interessa quem, pois
concordámos todos que era uma belíssima ideia) que iríamos desenvolver uma
acção ousada com a edição desse mês. Se o tema era armas de destruição maciça,
utilizaríamos uma alegoria com o risco mais assustador do momento.
Foi criada uma página negra com um envelope
escondido por um suporte de plástico. A página referia apenas: “Este envelope é
para si. Por favor, abra-o.”
Curiosos, os leitores do DN e do JN
respeitaram as instruções.
Puxavam o envelope, não reparando de
imediato que este estava coberto por alguns grãos de pó branco. Abriam o
envelope e liam: “Se isto não fosse uma simulação, você podia ter sido
contaminado por Anthrax 836.” E havia mais pó. Muito mais pó. Era,
naturalmente, pó de talco – na altura, não conseguimos obter Anthrax 836 a um
preço razoável!!!
Adivinho o que vão dizer – a ideia era
estúpida, mas, por norma, vibrávamos muito com as propostas criativas da agência
do Paulo Santos, do Pedro Ferreira e da Judite Mota. Na altura, não me recordo
de vozes dissidentes. A todos pareceu uma óptima ideia para promover a revista.
Chegou o dia 17 de Novembro.
Os dois jornais do grupo são publicados com
a criatividade. E começa o pandemónio. A telefonista do edifício do Diário de
Notícias não cessa de receber telefonemas de leitores aterrorizados, querendo
saber se estão contaminados. A princípio, nem sequer percebe o que se está a
passar, mas, à força de repetição, começa a amaldiçoar-nos. Lançar-nos-á
olhares cheios de ódio nos dias seguintes.
No JN, regista-se igual fenómeno. As
redacções dos dois jornais, naturalmente irritadas com uma campanha que lhes é
alheia mas que provoca o pandemónio junto dos seus próprios leitores, lavam as
mãos da responsabilidade. João Pedro Fonseca, do DN, chuta para nós a culpa,
como não poderia deixar de ser. Couto Soares, no Porto, dá conta de dezenas de
telefonemas de leitores e até da polícia. O que diabo está a National
Geographic a fazer com Anthrax?
A notícia corre o globo. Os jornalistas da
Lusa, esses grandes histéricos, escrevem um despacho sobre o tema. Alguém no Brasil
aproveita a deixa. Nos Estados Unidos, também. Em França, aussi. Desdobramo-nos em mil explicações. É um alerta para aumentar
a percepção do risco, explica o Sérgio Coimbra, então director. Ninguém o ouve.
Estávamos no triste papel do comediante que sobe ao palco para contar uma
anedota que julga espantosa mas ninguém se ri.
Há três punchlines
possíveis para esta história. Um é o facto de, ainda hoje, este episódio
constar do portal AnthraxInvestigation, como exemplo de um falso alarme –
fizemos história e pusemos Portugal no mapa, malta!
O outro é que, meses depois, a Bates
apresentou a campanha num festival de publicidade e foi premiada.
Eu prefiro o terceiro. Tanto quanto sei,
nenhum leitor comeu ou inalou o pó de talco que distribuímos desmioladamente
com a nossa edição de Novembro de 2002. Em princípio, o ataque não provocou
baixas – só na nossa auto-estima.
Feliz aniversário, National Geographic
Portugal!
Com Sérgio Coimbra, José Séneca, Vasco Nuno
Martins, Paulo Farinha, Henrique Caetano, Sónia Gomes da Costa, Luís Taklim
(Anyforms), Paulo Rolão, Nuno Sousa, Helena Abreu, Patrícia Albuquerque, Teresa
Vera Magalhães, Serginy Costa, Nuno Correia, Luís Quinta, Alexandre Vaz,
Fernando Correia, Paulo Ferreira, Pedro Araújo e Sá, Luís Ferreira, Inês
Picciochi e tantos mais…
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