quinta-feira, março 21, 2019

«É do 4-2937? Posso falar com Vasco Santana?»


Tenho nas mãos uma máquina do tempo. Não é uma cápsula nem ostenta equipamento extravagante, próprio dos filmes de Hollywoood, mas permite interpelar algumas das personalidades portuguesas do século XX. É directa e objectiva. Isola um momento no contínuo da história e permite-me mergulhar de cabeça, com a vantagem evidente de saber à partida o destino das almas que me proponho interrogar. É a Lista Telefónica n.º 57 da Anglo-Portuguese Telephone Company para a região da Grande Lisboa, publicada em 1 de Outubro de 1934.
A capa do volume fala sem requerer palavras. Gasta pelo tempo e pelo uso. Com anotações a caneta e anúncios de Vinho Velho do Porto à mistura com uma cooperativa de chauffeurs («Tem à disposição de V. Ex.ª desde o aristocrático Rolls Royce e o luxuoso Packard ao popularíssimo Palhinha.»)
      Comecemos pela política. Salazar, obviamente, não consta. Já vive na residência oficial e largou o velho apartamento onde se refugiara quando entrou para o governo, em 1928. Mas quer trocar impressões com Marcello Caetano? Ligue para o 4-5043 ou, melhor ainda, visite-o no 39, 1.º Dto da Av. Barbosa Bocage? Talvez o jovem especialista em Direito esteja a ultimar o seu volume sobre Direito Administrativo que publicará em 1937. Porventura ainda não pôs definitivamente de lado os amigos integralistas e o sonho de restaurar a monarquia.


Se Marcello ainda é apenas um jovem turco em 1934, um dos seus vizinhos já é um valor consagrado do Estado Novo. Duarte Pacheco reside na Rua Latino Coelho, n.º 19, 1.º Esq. (telf. 4-7844). Recebeu no ano anterior a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo e esperam-no grandes realizações arquitectónicas. Usufrui da vida a cem à hora, mas essa velocidade terá custos terríveis…
       Algumas ruas ao lado, no n.º 6, 5.º dto da Rua Filipe Folque (telefone 4-5622), vive um jovem militar que já pegou em armas para defender o regime em 1927 e em 1931. Chama-se Humberto Delgado e ainda demorará duas décadas a virar o prego. Decerto não imagina o que o espera.
Quer saber o que pensam os ideólogos do salazarismo? É fácil. Na Calçada dos Caetanos, 6, 1.º (telf. 2-0867), vive António Ferro. Publicou no ano passado um livro de entrevistas com Salazar e acabou de inaugurar a sede do Secretariado Nacional da Propaganda. Vai cair em desgraça daqui a alguns anos, mas é melhor não lho dizer já.
O Reviralho também está na lista, bem entendido. No n.º 163, 2.º andar Esq. da Rua Gomes Freire (telf. 4-2097), vive João Lopes Soares. Tenho o palpite de que um catraio de quase dez anos que lá anda por casa, o Mário, dará que falar.
Acabadinho de chegar a Lisboa, aproveitando a amnistia do ano anterior, está Armando Cortesão, irmão do Jaime, ambos historiadores. Está prestes a partir para novo exílio em Madrid, onde acompanhará a experiência da república espanhola. Conhecerá certamente as últimas sobre os oposicionistas? Telf. 4-4943 ou Avenida da República, 97, 4.º.
Peço-lhe agora o favor de baixar o tom de voz. No n.º 27 do Largo Rafael Bordalo Pinheiro, vive o capitão Agostinho Lourenço, director da PVDE (Tlf. 2-2333). Também tem casa na Av. Duque de Ávila, 82, 1.º (Tlf. 4-6982). Parece que sabe tudo sobre todos em Lisboa.
Se fosse possível mudar o futuro, valeria a pena bater à porta da Rua Marquês da Fronteira, A.C. (Tlf. 4-7658) e convencer o senhor António Barbieri Cardoso de que o filho, Agostinho, será um estupor da pior espécie daqui a uns anos? Talvez já seja tarde.
Outro pai angustiado – mas por razões distintas – vive na Av. 5 de Outubro, n.º 27, 3.º (Tlf. 4-6229). É advogado e chama-se Avelino Cunhal. Diz-se que o filho Álvaro milita nas organizações comunistas. Será possível?


Deixemos a política. Infelizmente, Fernando Pessoa não viverá mais um ano para lá desta lista. O seu nome não consta aqui. O poeta viverá em casa do cunhado Caetano Dias, mas nem esse número foi listado. Da geração do Orpheu, temos ainda representantes vivos, apesar da rapidez com que a Ceifeira levou muitos do mundo dos vivos. O poeta Alfredo Guisado é um dos sobreviventes: reside no Largo da Graça, 15, 1.º (Tlf. 2-5964). É só esperar que ele regresse do jornal República onde assegura a página literária. E, claro, há sempre Almada: de casamento fresco com Sarah Afonso, José de Almada Negreiros vive na Rua das Fábricas das Sedas, n.º 9, 2.ºdto (Tlf. 4-4106).
O teatro está representado por Eduardo Schwalbach, na Calçada da Estrela, 183, 2.º (Tlf. 2-3100). Enquanto Augusto de Castro brilha nas embaixadas do estrangeiro, Schwalbach vai governando o seu Diário de Notícias e tratando da vidinha.
Também há jornalistas na lista, claro está. Na Rua Vítor Bastos, 17, 3.º (Tlf. 4-4787), vive um dos maiores – Norberto Araújo, olisipógrafo e alma do Diário de Lisboa. Anos antes, andou pendurado num porta-aviões inglês só para entrevistar o irmão aviador de Franco.
A lista não menciona Reinaldo Ferreira, que já estará a sucumbir lentamente no Porto ao peso da morfina e outras drogas, mas contém a outra metade do Repórter X. Mário Domingues, detective e jornalista, vive na enigmática Rua Particular J.R., 1.º Esq. à Morais Soares. Talvez seja melhor telefonar: 4-2339.
       Para apanhar Norberto Lopes ao telefone, é necessária alguma criatividade. O director-adjunto do Diário de Lisboa está casado com Dona Maria Emília Vieira, actriz e astróloga. Se lhe telefonar (4-3624) ou se passar pelo n.º 33 s/l da Rua do Passadiço, não se esqueça de pedir à esposa do grande jornalista o mapa astral da semana. Diz-se que até Salazar recorre à Sibila. 
Quem anda eufórico é Félix Correia, também do Diário de Lisboa. Já tem autorização do Terceiro Reich para visitar Berlim em Janeiro de 1935. Ali vai conhecer o seu amado Führer e entrevistá-lo. Diga-lhe para moderar os entusiasmos na Travessa da Oliveira à Estrela, 19, 2.º dto. (Tlf. 2-5436). Ainda se arrepende.
E por falar em entusiasmos – diz-se que vai haver festa em breve na Rua de Sant’Ana à Lapa, n.º 5 (Tlf. 2-1664). O jovem empresário da Covilhã Henrique Pinto Balsemão, proprietário da perfumaria Balsemão na Baixa (segundo confidência de um bom amigo), vai ter um filho. Será que se chamará Francisco, como o tio?
Precisa de um médico? É fácil. Francisco Gentil disponibiliza o contacto da casa de campo, na Quinta da Margarida, na Arrábida. O cirurgião tem uma grande honra. Foi o 26.º assinante telefónico de Azeitão.
       Reynaldo dos Santos também consta. O grande cirurgião vascular reside no n.º 27, 2.º andar da Praça dos Restauradores. Está à distância de um telefonema (Tlf.: 2-4904) que, segundo a tabela de custos publicada na mesma lista, custa apenas 50 centavos por cada impulso de três minutos dentro da cidade de Lisboa. Não é caro para falar com a autoridade nacional em aortografias.
Um arquitecto? Cotinelli Telmo mora na Rua Saraiva de Carvalho, n.º 88, 1.º dto (Tlf. 4-5500). Acabou de ser nomeado por Duarte Pacheco para a Comissão de Construções Prisionais, mas a loucura dele é o cinema. Realizou A Canção de Lisboa no ano passado.
       Um advogado? Fácil. José de Azeredo Perdigão reside na Travessa do Abarracamento de Peniche, n.º 14 (2-2720). Não estranhe a vizinhança. Daqui a oito anos, o jovem causídico vai travar amizade com um empresário arménio e mudará a história do país.
Um arqueólogo? Manuel Heleno, com certeza. Já é director do Museu Nacional de Arqueologia. Caminha todos os dias para lá a partir da Avenida Miguel Bombarda, 116, 3.º (Tlf. 4-7013). Vai repetir o trajecto por mais trinta anos.
       Um cientista? Há várias opções, mas aproveite bem o tempo passado com o matemático Bento de Jesus Caraça (Rua de Buenos Aires, n.º 57, 3.º – Tlf.: 2-1617). Daqui a uns anos, ele terá de deixar a matemática para segundo plano e será infectado pelo vírus da política.
Actores há vários – pelo menos aqueles que já podem pagar uma casa. Para além de Vasco Santana, na Rua Rodrigues Sampaio, 31, 4.º Esq. (Tlf. 4-2937), valeria a pena telefonar a Chaby Pinheiro (Tlf. 2-7009, Rua da Vinha, 44, 2.º), não fosse dar-se o caso de o velho actor ter entretanto falecido e, certamente por descuido, a família ainda deixou que o seu número constasse na lista.
Não esqueçamos o desporto, por favor. Salazar Carreira, atleta polivalente do Sporting, vive na Avenida da República, 3, 2.º (Tlf. 4-4254), mas, se a inclinação clubística pender para o outro lado, não faça a coisa por menos. Cosme Damião, o fundador do Benfica, ainda vive na Quinta do Mirante, Costa do Pó, em… Cintra (Tlf. 56 da linha de Sintra).


À despedida, justifica-se deixar dois recados para dar alento aos próprios. A vida não lhes corre bem de momento, mas em breve o seu destino será diferente. Na Rua Nova da Alfarrobeira, em Cascaes (Tlf. 121 da Linha de Cascais), vive um economista que lidera a comunidade israelita de Lisboa. Está apavorado com as notícias que chegam da Alemanha sobre perseguição aos judeus. Moisés Amzalak tenta convencer os amigos na cúpula do Estado Novo a permitirem que Portugal venha a ser um porto de abrigo caso o pior aconteça. Terá sucesso nos próximos anos.
Na Avenida Luís Bivar, E.M. (Tlf. 4-7089), vive entretanto um médico que já andou aos tiros durante a Implantação da República. Acalmou entretanto e faz experiências extravagantes no hospital. Daqui a quinze anos, vão atribuir o Prémio Nobel da Medicina ao Dr. Egas Moniz, verão.
A lista encerra muitas mais curiosidades históricas. De gente já consagrada em 1934 ou que talvez não sonhasse com o que destino reservava. Ali, em duas linhas de texto, estavam à distância de um telefonema ou de uma visita pessoal, como qualquer outro mortal. Eram palpáveis.

Manda a honestidade dizer que este texto bebeu inspiração de um exercício similar feito pelo escritor brasileiro Ruy Castro, na Folha de São Paulo. Numa lista telefónica do Rio de Janeiro do ano de 1956, Castro encontrou os ases da Bossa Nova e do Samba, da política e da literatura brasileira. Os que já o eram e os que vieram a ser. 

terça-feira, março 19, 2019

A Triste Feia e Ruy Castro

Hoje, por acidente de percurso, passei na Triste Feia, perto das Necessidades, em Lisboa. É um daqueles acidentes toponímicos cinzentos que não mereceu distinção de rua, beco ou praceta. Tinha lido uma referência à Triste Feia em A Arte de Querer Bem, um livrinho de crónicas que a generosidade do António Massano me trouxe (por empréstimo, sublinhou) do Rio. Só mesmo Ruy Castro, com o carinho de uma escrita que repõe ramos que dávamos por perdidos na árvore luso-brasileira, para encontrar beleza nos nomes da cidade velha.
Tem razão, o Ruy. «A delicadeza de Lisboa deu à Triste Feia algo que as suas belas e alegres contemporâneas não tiveram: uma rua pela eternidade.»


segunda-feira, março 11, 2019

Outros sismos, outra gente


Aproveitando a boleia das comemorações dos 50 anos do sismo de 1969, permitam que conte a minha história favorita sobre o sismo mais violento do século XX em Portugal – o de 1909, com particular incidência no Ribatejo.
Discursava-se na Câmara dos Pares. Tinha a palavra o conselheiro Júlio de Vilhena. O sismo começou a fazer-se sentir. «A sala estremecia como sacudida por mãos ciclópicas e a iminência de uma derrocada surgia», contou uma das testemunhas. Deputados, funcionários e jornalistas saíram a correr, caindo uns sobre os outros. 
Eduardo Schwalbach, futuro director do Diário de Notícias, foi «atirado por um contínuo pelos degraus da presidência e arrastado pelo sobrado para o corredor, sob pés que me calcavam impiedosamente até que, numa rodilha, já quase com os sentidos perdidos, num esforço milagroso, consegui pôr-me de pé, agarrado a uma estante de ferro».
Perante todo o pânico e «o ronco medonho saído das entranhas da terra», Vilhena, o orador do momento, hesitou. Permaneceu sereno enquanto o edifício parecia sacudido por um génio maldisposto. Era uma «pétrea estátua de si próprio».
O abalo terminou. Ouviram-se gritos e súplicas. Alguns deputados regressaram aos seus lugares, porventura para recuperar objectos perdidos. Muitos registavam a histeria própria do momento. 
Ouviu-se então a voz calma e firme de Júlio de Vilhena, proveniente da tribuna: «Como eu ia dizendo…» Estava pronto para retomar o discurso que não chegaria a fazer.

segunda-feira, março 04, 2019

Um repórter em 1956

A partir de arquivo da Biblioteca Nacional

«Um repórter é um espião. Onde quer que esteja, por onde quer que passe, para onde quer que olhe, o repórter procura novidade, coisa que o público desconheça. A reportagem é o seu relatório de espião. (…)A Oportunidade 202 é para os muitos que julgam ser portentos da reportagem (…) A seleccionada em cada semana será paga por 202$00.»
Mais à frente: «Em toda a parte, há um assunto de reportagem: um distribuidor de correio que é cego; um menino com uma cabeça de nove quilos de peso; um mendigo que está a fazer fortuna; uma bruxa que cura a lepra da família; um pepino com sementes de prata; um falso jornalista que se tornou célebre sem saber ler nem escrever. (…) Primeiro, fazer fome – ao leitor – depois ir-lhe lentamente matando a fome de novidade até o assunto não dar mais.»
Todo um programa de reportagem explícito neste anúncio da Oportunidade 202 da revista Rádio e Televisão, em 1956. Se tivesse de adivinhar, diria que o texto foi escrito por Jorge Pelayo.

sábado, março 02, 2019

Um eco familiar


A frase soava com uma certa familiaridade, mas não conseguia atribuí-la ao contexto certo. «A Europa é aquí» – proclama o cartaz do CDS espalhado pelo país. Tinha a certeza de que já lera uma versão disto algures.
Ao ler as memórias de Breno de Vasconcellos, velho jornalista do Correio dos Açores, fez-se luz. Em 1941, o marechal Carmona visitou os Açores. O arquipélago atlântico era então alvo de todas as cobiças. Parecia incerto o futuro das ilhas durante e após a guerra de 39-45. Nas Portas da Cidade, o Presidente da República proclamou: “Aqui é Portugal”, uma frase com duas leituras – um aviso para as forças beligerantes e uma promessa de conforto para os ilhéus.

Veremos se a frase de Nuno Melo também passa à história.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

A propósito de um pioneiro


Há oito anos, por generoso convite da Angela Mendonça e do Mário Jorge Freitas, participei num congresso em Florianópolis, na Universidade de Santa Catarina, sobre desastres naturais. Entre o grupo de oradores, estava um senhor de idade, já algo fragilizado, que sorria muito mas participava pouco nas charlas à refeição. Disseram-me que era Donald Hughes, um historiador. Não lhe liguei muito nas primeiras horas.
No primeiro dia do congresso, coube-lhe abrir a sessão. Caminhou com alguma dificuldade até ao pódio. Tinha uma apresentação com quatro ou cinco diapositivos – não mais do que isso. Tortura-me a ideia que me passou então pela mente: estaria ele ainda em condições de proferir uma palestra relevante para os alunos e investigadores da universidade e para os representantes de uma comunidade vizinha que fora assolada por um horrível deslizamento de terras (bem sei… a história repete-se)?
O Donald tomou a palavra e proferiu uma das mais extraordinárias palestras que ouvi sobre história ambiental. Falou sobre a ilha da Páscoa como paradigma de uma comunidade que esgotou os seus recursos e de alguma forma enfrentou a sua própria extinção. Abordou a história do mundo pelo ângulo da pressão ambiental e climática.
Apontou para nós, o grupo de dois ou três portugueses (estava lá o VascoGalante também), e lembrou que a história dos Descobrimentos e Expansão portuguesa poderia ser também explicada pela ausência e carência de recursos em cada ciclo. 
Falou de gregos e romanos. De Palmira e Petra. Falou para os colegas brasileiros e abordou a história da colonização da América do Sul por vagas sucessivas de culturas que tentaram tirar partido dos recursos e da tecnologia disponíveis, embora sempre à mercê de fenómenos climáticos. Não por acaso – disse –, nas culturas ameríndias são frequentes as divindades associadas aos humores do clima.
Quando regressei a Lisboa, encomendei os livros dele. Environmental Problems of the Greeks and Romansé delicioso. The face of the Earthé um tratado.
Soube hoje, através de um texto comovente da Ângela (um abraço, maruja!), que J. Donald Hughes faleceu esta semana.
Tenho muita pena.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Concedendo um ponto – um esclarecimento.


Há cerca de dois anos, publiquei na Planeta o livro O Inspector da PIDE que Morreu Duas Vezes. Uma das crónicas abordava a publicação de notícias sobre Portugal e o Futuro,o livro de Spínola. Explicava em pormenor as circunstâncias em que o livro foi editado pela Arcádia, com intermediação de Paradela de Abreu e revisão de António Valdemar. 
Na sexta-feira, 22 de Fevereiro de 1974, o livro chegou às livrarias e foi criada uma artimanha para ludibriar Raul Rego e Vítor Direito na redacção do República, de forma a que o jornal vespertino publicasse um comentário abrangente sobre as implicações do livro, com direito a manchete. Álvaro Guerra e Ribeiro dos Santos foram providenciais nesse golpe de prestidigitação, que resultou.
Até aqui, tudo certo.
No dia seguinte, um sábado, o Expressopublicou duas páginas sobre o livro, igualmente articuladas com Valdemar, Ribeiro dos Santos e Francisco Balsemão. E eu refiro no livro que, a partir daí, caiu um manto de censura sobre o caso, pois não foram autorizadas mais referências ao livro, com excepção de uma peça muito curiosa da Seara Nova, com uma entrevista fictícia a Spínola publicada quase um mês depois e escrita pelo Fernando Correia, entretanto já preso em Caxias.

*****

Um dos mestres do jornalismo, o Daniel Reis (que faz o favor de ser meu amigo), enviou-me uma amabilíssima nota de leitura. Entre muitos elogios, o Daniel referiu que tinha memória de descer as escadas do Diário de Lisboaa ler uma recensão de Portugal e o Futuro, o que implicava que o jornal da Luz Soriano teria também feito referência ao caso. «Lembro-me de ter sido o Avelino Rodrigues a tratar da coisa. E eu, lendo a manchete do DL, ao descer da redacção que era lá acima do Ritz, junto ao Parque Eduardo VII, comentar com os meus botões e sobre o meu recente professor de Direito Administrativo: 'Já marchaste'.»
É aqui que começa a moscambilha. Na Fundação Mário Soares, não existe o mês de Fevereiro de 1974 na colecção do Diário de Lisboa. Na Biblioteca Nacional, a colecção dá um salto inexplicável de 22 para 24 de Fevereiro. Assumi levianamente que não havia portanto referências do jornal ao caso.
Só na Hemeroteca de Lisboa existe a colecção completa. Consultada agora, lá figura, na edição de sábado, dia 23, uma curta recensão não assinada com todas as implicações do livro. 
Fica feita a reparação. O Diário de Lisboa também compreendeu rapidamente as implicações do livro e publicou-as.
Um forte abraço para o Daniel!

domingo, janeiro 20, 2019

Comprar jornais é saber mais

O meu velho amigo António Massano nunca perdeu o hábito de ler o Jornal do Fundão. Ontem, ao almoço, chamou-me a atenção para uma reportagem notável do jornal. “Três crianças encontraram em 1953 um púcaro cheio de ouro e foram recompensadas. Mas há quem garanta, na aldeia da Borralheira (Covilhã), que parte do achado nunca chegou às mãos do Estado.” O jornal foi à procura das crianças, hoje septuagenárias, que encontraram em 1953 o tesouro da Borralheira.

Vale a pena a leitura da versão impressa. O site tem apenas um excerto aqui. #compremjornais

terça-feira, janeiro 08, 2019

Do crime e da censura


Ah, era tudo tão lindo antigamente. Não havia crime. Havia ordem e respeito. Podia ler-se um jornal sem receio de ficar com medo de andar na rua.


Fundo Censura/SNI/ Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Fundo Carvalhão Duarte / Fundação Mário Soares
Dos arquivos da Censura:

«Desde há longa data se encontra muito recomendado que os jornais não devam publicar tais fotos [de criminosos]»

«O jornal de que V. Exa. é mui ilustre director [publicou uma notícia] revelando ter o assaltante apontado uma pistola, o que, por motivos óbvios, não era de divulgar.»

«Os relatos de crimes, em geral, e a publicidade de suicídios, actos de corrupção sexual, infanticídios e outras notícias que, pelo seu melindre moral, possam chocar a opinião pública e que ultimamente estavam entregues ao prudente arbítrio da imprensa, deverão passar a ser vistos com cuidado, eliminando-se os pormenores escabrosos, equívocos ou imorais que, pela natureza ou intenção, possam efectivamente ferir a sensibilidade e moralidade pública.»

segunda-feira, agosto 27, 2018

Big Mal e Companhia # 3


«O Jordão era uma gazela em campo, nunca vi um atleta igual’, resume Marinho. ‘Nos treinos, desafiava-me: ‘Marinho, começas o sprint da linha de meio-campo e eu começo da grande área do topo norte. Vais ver que chego primeiro à linha de fundo do topo Sul.’ Começava a sprintar e era impressionante.»
Allison dirá: «Julgo que compreendi bem o Jordão e fiquei contente quando ele se reformou e disse que fui o melhor treinador que encontrou.»

sábado, agosto 25, 2018

O Bairro dos Jornais, de Paulo Martins


Diz-se dos faróis que têm a tremenda capacidade de iluminar a escuridão, lançando um foco de luz em todas as direcções, menos numa –  a dos seus próprios alicerces. De alguma maneira, esse é também o crime acumulado dos trabalhos já produzidos sobre a história do jornalismo português: concentram-se nos constrangimentos e na memória, nos méritos e fraquezas da prática jornalística, mas, até à publicação de O Bairro dos Jornais, poucos tinham ainda colocado o território de implantação dos jornais lisboetas como objecto de análise. Paulo Martins demonstra em 429 páginas que esse caminho estava não só por trilhar, como abria horizontes promissores.
O Bairro Alto, lembra Appio Sottomayor num prefácio caloroso, será porventura o único aglomerado lisboeta que se pode gabar de possuir uma certidão de idade. Sabe-se com precisão que tem 505 anos – nem um a mais, nem um a menos. Por ali passaram escritores e políticos, marialvas e actores, personagens respeitáveis e gente indecorosa. É, de certa forma, uma pequena cidade dentro da cidade, com regras e códigos próprios. Durante cento e oitenta anos, entre a década de 1830 e a actualidade, ergueram-se ali catedrais de papel e tinta, jornais bem sucedidos ou fracassados, sonhos concretizados e pesadelos inesquecíveis.
Fruto de uma recolha rigorosa, Paulo Martins mapeou as ruas do Bairro Alto e do Chiado (concessão geográfica que se percebe dadas as fronteiras difusas entre ambos e também o facto de algumas redacções saltitarem de um para o outro) em busca dos jornais que ali se instalaram. A lista é exaustiva e o trabalho de reconstituição da arqueologia dos jornais de Lisboa é digno dos maiores elogios. Nunca tal levantamento se fizera. A obra de Mário Matos e Lemos (Jornais Diários Portugueses do Século XX, Ariadne, 2006) raspou a superfície e produziu um primeiro censo. Paulo Martins completou agora essa recolha, com uma impressionante base de dados de nascimentos e óbitos periodísticos.
O Bairro dos Jornais é uma história do jornalismo de Lisboa, sem pretensões a assumir a configuração de a história. Caminha rua a rua, tropeçando em fantasmas do passado. Percorre edifícios palacianos convertidos em redacções e tipografias e dialoga com nomes há muito esquecidos. À boleia do livro, quase escutamos os ardinas da Guarda Avançada, o primeiro jornal apregoado e vendido pelas ruas de Lisboa. Capítulo a capítulo, mergulhamos nas tipografias, forjas de reivindicações sociais e verdadeiro coração da era das rotativas. Tão depressa nos emocionamos com o drama dos suicídios dos antigos trabalhadores de O Século e da República, subitamente privados de salários e atirados para a pobreza extrema pelo fecho dos seus títulos, como sorrimos, imaginando Rodrigues Sampaio, batendo-se em duelo de pistola com Santana de Vasconcelos, comendo biscoitos com displicência e disparando a mastigar.
Em O Bairro dos Jornais, há um equilíbrio difícil de manter entre a historiografia clássica e a anedota que aligeira o tom, mas ajuda a transmitir a mensagem. Mais do que num gráfico de barras ou num relatório financeiro, Paulo Martins conta que o verdadeiro sintoma da doença de um jornal emergente era o momento em que os ardinas começavam a chamar-lhe manteiga. Era certo que já ninguém lhe tocava. Que jornais modernos mereceriam hoje tal tratamento?
Numa história com quase dois séculos, consumiram-se sonhos e ousadias de várias gerações de jornalistas. Sucederam-se regimes. Travaram-se pactos de amizade imorredoura e geraram-se inimizades viscerais. Censura e polícia política conviveram nas mesmas ruas das redacções. Paredes escondiam ouvidos indiscretos e forçavam cochichos. E as revoluções, claro, avançaram amiúde pelas portas de entrada dos periódicos, destruindo-os com a força criativa de uma erupção vulcânica. Quantos jornais republicanos e monárquicos destruídos pelas hordas cegas! Quantas balas disparadas à porta de O Século e de O Mundo!
Meticuloso e consultando uma variedade de arquivos que fortalecem os alicerces do trabalho agora publicado, Paulo Martins traz também à liça informações e documentos inéditos ou poucas vezes contados. Revela por exemplo o papel de A Imprensa da Manhã no incitamento da matança de Outubro de 1921, conspirando, corroendo, instigando. No centro da crise que tomará a vida de Machado dos Santos e António Granja, está Esculápio, o jornalista que a posteridade teima em reconhecer apenas pela boémia e gazetilhas. Nas páginas do livro, desvenda-se também que a proclamação do general Gomes da Costa no golpe militar de 1926 teve a impressão digital de um homem dos jornais, Manuel Múrias, que fará depois carreira nos jornais da Situação. É igualmente pela pena de Paulo Martins que se conhece pela primeira vez uma denúncia dirigida ao próprio Oliveira Salazar, informando-o que os novos proprietários do Diário Popular (em 1954/55) resolveram uma disputa entre accionistas de revólver em punho!
Permita o leitor uma última nota impertinente: nesta Lisboa em convulsão turística, repleta de visitantes cativados pelos cheiros e cores da velha capital, não haverá ninguém na Câmara Municipal de Lisboa que utilize a matéria-prima documental agora publicada e crie um roteiro, um verdadeiro roteiro, do que foram os jornais no bairro dos sonhos?


Recensão publicada na revista Jornalismo e Jornalistas, 67, Julho/Setembro 2018, pp 64-65