sábado, março 02, 2019

Um eco familiar


A frase soava com uma certa familiaridade, mas não conseguia atribuí-la ao contexto certo. «A Europa é aquí» – proclama o cartaz do CDS espalhado pelo país. Tinha a certeza de que já lera uma versão disto algures.
Ao ler as memórias de Breno de Vasconcellos, velho jornalista do Correio dos Açores, fez-se luz. Em 1941, o marechal Carmona visitou os Açores. O arquipélago atlântico era então alvo de todas as cobiças. Parecia incerto o futuro das ilhas durante e após a guerra de 39-45. Nas Portas da Cidade, o Presidente da República proclamou: “Aqui é Portugal”, uma frase com duas leituras – um aviso para as forças beligerantes e uma promessa de conforto para os ilhéus.

Veremos se a frase de Nuno Melo também passa à história.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

A propósito de um pioneiro


Há oito anos, por generoso convite da Angela Mendonça e do Mário Jorge Freitas, participei num congresso em Florianópolis, na Universidade de Santa Catarina, sobre desastres naturais. Entre o grupo de oradores, estava um senhor de idade, já algo fragilizado, que sorria muito mas participava pouco nas charlas à refeição. Disseram-me que era Donald Hughes, um historiador. Não lhe liguei muito nas primeiras horas.
No primeiro dia do congresso, coube-lhe abrir a sessão. Caminhou com alguma dificuldade até ao pódio. Tinha uma apresentação com quatro ou cinco diapositivos – não mais do que isso. Tortura-me a ideia que me passou então pela mente: estaria ele ainda em condições de proferir uma palestra relevante para os alunos e investigadores da universidade e para os representantes de uma comunidade vizinha que fora assolada por um horrível deslizamento de terras (bem sei… a história repete-se)?
O Donald tomou a palavra e proferiu uma das mais extraordinárias palestras que ouvi sobre história ambiental. Falou sobre a ilha da Páscoa como paradigma de uma comunidade que esgotou os seus recursos e de alguma forma enfrentou a sua própria extinção. Abordou a história do mundo pelo ângulo da pressão ambiental e climática.
Apontou para nós, o grupo de dois ou três portugueses (estava lá o VascoGalante também), e lembrou que a história dos Descobrimentos e Expansão portuguesa poderia ser também explicada pela ausência e carência de recursos em cada ciclo. 
Falou de gregos e romanos. De Palmira e Petra. Falou para os colegas brasileiros e abordou a história da colonização da América do Sul por vagas sucessivas de culturas que tentaram tirar partido dos recursos e da tecnologia disponíveis, embora sempre à mercê de fenómenos climáticos. Não por acaso – disse –, nas culturas ameríndias são frequentes as divindades associadas aos humores do clima.
Quando regressei a Lisboa, encomendei os livros dele. Environmental Problems of the Greeks and Romansé delicioso. The face of the Earthé um tratado.
Soube hoje, através de um texto comovente da Ângela (um abraço, maruja!), que J. Donald Hughes faleceu esta semana.
Tenho muita pena.

terça-feira, janeiro 29, 2019

Concedendo um ponto – um esclarecimento.


Há cerca de dois anos, publiquei na Planeta o livro O Inspector da PIDE que Morreu Duas Vezes. Uma das crónicas abordava a publicação de notícias sobre Portugal e o Futuro,o livro de Spínola. Explicava em pormenor as circunstâncias em que o livro foi editado pela Arcádia, com intermediação de Paradela de Abreu e revisão de António Valdemar. 
Na sexta-feira, 22 de Fevereiro de 1974, o livro chegou às livrarias e foi criada uma artimanha para ludibriar Raul Rego e Vítor Direito na redacção do República, de forma a que o jornal vespertino publicasse um comentário abrangente sobre as implicações do livro, com direito a manchete. Álvaro Guerra e Ribeiro dos Santos foram providenciais nesse golpe de prestidigitação, que resultou.
Até aqui, tudo certo.
No dia seguinte, um sábado, o Expressopublicou duas páginas sobre o livro, igualmente articuladas com Valdemar, Ribeiro dos Santos e Francisco Balsemão. E eu refiro no livro que, a partir daí, caiu um manto de censura sobre o caso, pois não foram autorizadas mais referências ao livro, com excepção de uma peça muito curiosa da Seara Nova, com uma entrevista fictícia a Spínola publicada quase um mês depois e escrita pelo Fernando Correia, entretanto já preso em Caxias.

*****

Um dos mestres do jornalismo, o Daniel Reis (que faz o favor de ser meu amigo), enviou-me uma amabilíssima nota de leitura. Entre muitos elogios, o Daniel referiu que tinha memória de descer as escadas do Diário de Lisboaa ler uma recensão de Portugal e o Futuro, o que implicava que o jornal da Luz Soriano teria também feito referência ao caso. «Lembro-me de ter sido o Avelino Rodrigues a tratar da coisa. E eu, lendo a manchete do DL, ao descer da redacção que era lá acima do Ritz, junto ao Parque Eduardo VII, comentar com os meus botões e sobre o meu recente professor de Direito Administrativo: 'Já marchaste'.»
É aqui que começa a moscambilha. Na Fundação Mário Soares, não existe o mês de Fevereiro de 1974 na colecção do Diário de Lisboa. Na Biblioteca Nacional, a colecção dá um salto inexplicável de 22 para 24 de Fevereiro. Assumi levianamente que não havia portanto referências do jornal ao caso.
Só na Hemeroteca de Lisboa existe a colecção completa. Consultada agora, lá figura, na edição de sábado, dia 23, uma curta recensão não assinada com todas as implicações do livro. 
Fica feita a reparação. O Diário de Lisboa também compreendeu rapidamente as implicações do livro e publicou-as.
Um forte abraço para o Daniel!

domingo, janeiro 20, 2019

Comprar jornais é saber mais

O meu velho amigo António Massano nunca perdeu o hábito de ler o Jornal do Fundão. Ontem, ao almoço, chamou-me a atenção para uma reportagem notável do jornal. “Três crianças encontraram em 1953 um púcaro cheio de ouro e foram recompensadas. Mas há quem garanta, na aldeia da Borralheira (Covilhã), que parte do achado nunca chegou às mãos do Estado.” O jornal foi à procura das crianças, hoje septuagenárias, que encontraram em 1953 o tesouro da Borralheira.

Vale a pena a leitura da versão impressa. O site tem apenas um excerto aqui. #compremjornais

terça-feira, janeiro 08, 2019

Do crime e da censura


Ah, era tudo tão lindo antigamente. Não havia crime. Havia ordem e respeito. Podia ler-se um jornal sem receio de ficar com medo de andar na rua.


Fundo Censura/SNI/ Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Fundo Carvalhão Duarte / Fundação Mário Soares
Dos arquivos da Censura:

«Desde há longa data se encontra muito recomendado que os jornais não devam publicar tais fotos [de criminosos]»

«O jornal de que V. Exa. é mui ilustre director [publicou uma notícia] revelando ter o assaltante apontado uma pistola, o que, por motivos óbvios, não era de divulgar.»

«Os relatos de crimes, em geral, e a publicidade de suicídios, actos de corrupção sexual, infanticídios e outras notícias que, pelo seu melindre moral, possam chocar a opinião pública e que ultimamente estavam entregues ao prudente arbítrio da imprensa, deverão passar a ser vistos com cuidado, eliminando-se os pormenores escabrosos, equívocos ou imorais que, pela natureza ou intenção, possam efectivamente ferir a sensibilidade e moralidade pública.»

segunda-feira, agosto 27, 2018

Big Mal e Companhia # 3


«O Jordão era uma gazela em campo, nunca vi um atleta igual’, resume Marinho. ‘Nos treinos, desafiava-me: ‘Marinho, começas o sprint da linha de meio-campo e eu começo da grande área do topo norte. Vais ver que chego primeiro à linha de fundo do topo Sul.’ Começava a sprintar e era impressionante.»
Allison dirá: «Julgo que compreendi bem o Jordão e fiquei contente quando ele se reformou e disse que fui o melhor treinador que encontrou.»

sábado, agosto 25, 2018

O Bairro dos Jornais, de Paulo Martins


Diz-se dos faróis que têm a tremenda capacidade de iluminar a escuridão, lançando um foco de luz em todas as direcções, menos numa –  a dos seus próprios alicerces. De alguma maneira, esse é também o crime acumulado dos trabalhos já produzidos sobre a história do jornalismo português: concentram-se nos constrangimentos e na memória, nos méritos e fraquezas da prática jornalística, mas, até à publicação de O Bairro dos Jornais, poucos tinham ainda colocado o território de implantação dos jornais lisboetas como objecto de análise. Paulo Martins demonstra em 429 páginas que esse caminho estava não só por trilhar, como abria horizontes promissores.
O Bairro Alto, lembra Appio Sottomayor num prefácio caloroso, será porventura o único aglomerado lisboeta que se pode gabar de possuir uma certidão de idade. Sabe-se com precisão que tem 505 anos – nem um a mais, nem um a menos. Por ali passaram escritores e políticos, marialvas e actores, personagens respeitáveis e gente indecorosa. É, de certa forma, uma pequena cidade dentro da cidade, com regras e códigos próprios. Durante cento e oitenta anos, entre a década de 1830 e a actualidade, ergueram-se ali catedrais de papel e tinta, jornais bem sucedidos ou fracassados, sonhos concretizados e pesadelos inesquecíveis.
Fruto de uma recolha rigorosa, Paulo Martins mapeou as ruas do Bairro Alto e do Chiado (concessão geográfica que se percebe dadas as fronteiras difusas entre ambos e também o facto de algumas redacções saltitarem de um para o outro) em busca dos jornais que ali se instalaram. A lista é exaustiva e o trabalho de reconstituição da arqueologia dos jornais de Lisboa é digno dos maiores elogios. Nunca tal levantamento se fizera. A obra de Mário Matos e Lemos (Jornais Diários Portugueses do Século XX, Ariadne, 2006) raspou a superfície e produziu um primeiro censo. Paulo Martins completou agora essa recolha, com uma impressionante base de dados de nascimentos e óbitos periodísticos.
O Bairro dos Jornais é uma história do jornalismo de Lisboa, sem pretensões a assumir a configuração de a história. Caminha rua a rua, tropeçando em fantasmas do passado. Percorre edifícios palacianos convertidos em redacções e tipografias e dialoga com nomes há muito esquecidos. À boleia do livro, quase escutamos os ardinas da Guarda Avançada, o primeiro jornal apregoado e vendido pelas ruas de Lisboa. Capítulo a capítulo, mergulhamos nas tipografias, forjas de reivindicações sociais e verdadeiro coração da era das rotativas. Tão depressa nos emocionamos com o drama dos suicídios dos antigos trabalhadores de O Século e da República, subitamente privados de salários e atirados para a pobreza extrema pelo fecho dos seus títulos, como sorrimos, imaginando Rodrigues Sampaio, batendo-se em duelo de pistola com Santana de Vasconcelos, comendo biscoitos com displicência e disparando a mastigar.
Em O Bairro dos Jornais, há um equilíbrio difícil de manter entre a historiografia clássica e a anedota que aligeira o tom, mas ajuda a transmitir a mensagem. Mais do que num gráfico de barras ou num relatório financeiro, Paulo Martins conta que o verdadeiro sintoma da doença de um jornal emergente era o momento em que os ardinas começavam a chamar-lhe manteiga. Era certo que já ninguém lhe tocava. Que jornais modernos mereceriam hoje tal tratamento?
Numa história com quase dois séculos, consumiram-se sonhos e ousadias de várias gerações de jornalistas. Sucederam-se regimes. Travaram-se pactos de amizade imorredoura e geraram-se inimizades viscerais. Censura e polícia política conviveram nas mesmas ruas das redacções. Paredes escondiam ouvidos indiscretos e forçavam cochichos. E as revoluções, claro, avançaram amiúde pelas portas de entrada dos periódicos, destruindo-os com a força criativa de uma erupção vulcânica. Quantos jornais republicanos e monárquicos destruídos pelas hordas cegas! Quantas balas disparadas à porta de O Século e de O Mundo!
Meticuloso e consultando uma variedade de arquivos que fortalecem os alicerces do trabalho agora publicado, Paulo Martins traz também à liça informações e documentos inéditos ou poucas vezes contados. Revela por exemplo o papel de A Imprensa da Manhã no incitamento da matança de Outubro de 1921, conspirando, corroendo, instigando. No centro da crise que tomará a vida de Machado dos Santos e António Granja, está Esculápio, o jornalista que a posteridade teima em reconhecer apenas pela boémia e gazetilhas. Nas páginas do livro, desvenda-se também que a proclamação do general Gomes da Costa no golpe militar de 1926 teve a impressão digital de um homem dos jornais, Manuel Múrias, que fará depois carreira nos jornais da Situação. É igualmente pela pena de Paulo Martins que se conhece pela primeira vez uma denúncia dirigida ao próprio Oliveira Salazar, informando-o que os novos proprietários do Diário Popular (em 1954/55) resolveram uma disputa entre accionistas de revólver em punho!
Permita o leitor uma última nota impertinente: nesta Lisboa em convulsão turística, repleta de visitantes cativados pelos cheiros e cores da velha capital, não haverá ninguém na Câmara Municipal de Lisboa que utilize a matéria-prima documental agora publicada e crie um roteiro, um verdadeiro roteiro, do que foram os jornais no bairro dos sonhos?


Recensão publicada na revista Jornalismo e Jornalistas, 67, Julho/Setembro 2018, pp 64-65

sexta-feira, agosto 24, 2018

Big Mal e Companhia # 2


«Pedroto quebra o protocolo e não entrega a constituição da equipa. No Diário de Lisboa, Neves de Sousa, num assomo de coragem e honradez, paga-lhe na mesma moeda: na crónica de jogo, limita-se a escrever os números das camisolas dos jogadores vitorianos. ‘Actuaram 13 profissionais, numerados de 1 a 11, mais o 15 e o 16. O 15 foi para o hospital e o 6 viu o cartão amarelo’.»

segunda-feira, agosto 13, 2018

Big Mal e Companhia


Florença, 13 — Diz que o 13 dá azar, mas também foi o número do Gerd Müller no Mundial de 1974. Calhou ser hoje, 13, que o meu livro “Big Mal e Companhia” passa a estar disponível em pré-venda na Wook (http://bit.ly/big-mal-companhia) – na próxima semana, chegará às livrarias.
Alguns autores guardaram livros na gaveta até à morte. Este livro esteve escrito na minha cabeça desde uma certa tarde de 1981, em Alvalade, em que quase garanto que o António Oliveira esticou a linha de fundo um bocadinho mais para lá para arrancar um centro impossível que o Manel amorteceu, permitindo ao Jordão fuzilar um desgraçado de boné a quem coube o azar de defender uma baliza contra estes e outros monstros sagrados. O estádio de pedra estremeceu de puro gozo e um rapazinho acompanhado pelo pai percebeu que as coisas nunca mais seriam iguais.
Do livro, das peripécias e das histórias que só agora se podem contar com uma gargalhada ou com um sobrolho franzido dirão os senhores de vossa justiça quando – e se – o lerem.
Nesta fase, perdoar-me-ão, um mais que justo tributo aos antigos jogadores Ferenc Meszaros, Joaquim Melo, Antonio Fidalgo, José Eduardo, Francisco Barão, Augusto Inácio, Eurico Gomes, Francisco José Andrade (Zezinho), Virgílio Lopes, Mário Silva (Marinho), Ademar Marques José Elden Lobo, Mário Jorge, Vítor Esmoriz, Carlos Xavier, Carlos Freire, Alberto Nicolau, António Nogueira, Manuel Fernandes e António Oliveira, entrevistados durante horas a fio. Qualquer lapso de memória será da minha responsabilidade e não dos próprios.
Agradeço igualmente ao treinador Mário Mateus (Marinho), ao médico e amigo Manuel Pinto Coelho e aos dirigentes Armando Biscoito, Eugenio Ribeiro e João Xara Brasil que cederam tempo e interessaram-se pelo projecto. O agradecimento é extensivo aos jornalistas Daniel Reis, António Murillo Oeiras Lopes, Jorge Schnitzer, João Marcelino, Vítor Cândido, Jose Carmo Francisco e Luis Filipe Barros, que partilharam recordações e fizeram o que melhor sabem: contaram histórias. Sem eles, o livro não teria sido possível.
Noutra frente de batalha, disponibilizando contactos, sugerindo pistas, fornecendo documentos adicionais ou ajudando no esforço de revisão, o autor não pode deixar de agradecer a Isabel Lacerda, Miguel Valle de Figueiredo, André Pipa, Paulo Rolão, Helena Abreu, Luís Alberto Ferreira, Eugenio Queiros, Roger Spry, Christian N’Wokocha, Ricardo Porém, Miguel Sampaio, Paulo Garcia, Pedro Martins, Mário Moura, Rita Taborda, José Lorvão, Henrique Antunes Ferreira, João Mouro, Leonor Roque e à Embaixada da Hungria em Lisboa, que facilitou o contacto com Ferenc Meszaros. Por fim, os últimos a entrar em campo – mas de forma alguma suplentes na minha equipa: o meu agradecimento à Ana e ao Xavier.

sábado, julho 14, 2018

Millán Astray em Lisboa

O Século, 13 de Junho de 1939
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

Millan Astray agradece ao Século e a Portugal com «amor e gratidão» em 1939, o «ano da vitória»...
Menos de três anos antes, no início da guerra civil espanhola, o general Astray tinha tido uma pega violentíssima com Miguel de Unamuno na Universidade de Salamanca. Fizera aos gritos a apologia da Espanha unificada. Na resposta, Unamuno considerou-o inválido. «Mutilado como Cervantes, mas carecendo da grandeza intelectual de Cervantes.»
Astray não se conteve e lançou para a posteridade o grito: «Morra a inteligência! Viva a morte!»

É essa personagem que agradece ao Século e a Portugal a ajuda na guerra civil!