Convidados! Quarta-feira, dia 28, no Museu da Farmácia.
sexta-feira, setembro 23, 2016
quarta-feira, setembro 21, 2016
Recensão no Acrítico
«Este livro
é uma excelente contribuição para conhecermos o sucesso com que o país
enfrentou a ameaça da gripe A, permitindo traçar linhas de orientação para o
futuro, bem como perceber os modelos de cobertura jornalística adotados pelos
media em situações de risco social, ambiental ou de saúde pública.»
A gentileza
de António Ganhão na
primeira (e incisiva) crítica ao meu novo livro. Pré-publicação no
indispensável Acrítico -
António Ganhão: ver aqui.
Muito obrigado.
quinta-feira, setembro 15, 2016
A Gripe e o Naufrágio
Um petroleiro à deriva na Galiza, em
risco de afundamento e consequente derrame de crude. Uma pandemia perigosa,
anunciada como a gripe do século, com uma taxa inédita de mortalidade
associada.
- Como lidam as notícias com o risco.
- Como se constroem narrativas sobre
temas em aberto, sem um desfecho previsível.
- Como lidam os gestores de crise com os
meios de comunicação.
Gonçalo Pereira Rosa, investigador
da Universidade Católica Portuguesa e director da edição portuguesa da National
Geographic, entrevistou gestores de crise, ministros e jornalistas. Reabriu
planos de contingência da crise do Prestige e da pandemia de gripe A.
Analisou
a cobertura noticiosa de jornais e televisões e concluiu que a curva de
noticiabilidade de um acontecimento típico da sociedade de risco quase nunca
tem correspondência com a curva de gravidade definida pelos gestores de risco.
“A Gripe e o Naufrágio” – em breve nas bancas, com a chancela da Arranha Céus
e apoio do Gabinete para os Meios de Comunicação Social.
segunda-feira, setembro 05, 2016
Remoção de alguns textos
Os mais atentos notarão que, nos últimos dias, o blogue perdeu cerca de uma dezena de crónicas, removidas para polimento, como se faz nas oficinas.
Espero recolocá-las aqui noutro formato nos próximos meses.
Como sempre fico grato pela preferência e palavras de
encorajamento.
sexta-feira, agosto 12, 2016
A ave e o jornalismo de proximidade
![]() |
| Fotografia de Luís Ferreira. Selvagens, Madeira. |
Há uma dimensão poética nas missões
solitárias como aquela a que o fotógrafo Luís Ferreira se dedica nos últimos
cinco anos, tanto mais que ela foi abraçada sem qualquer garantia de publicação
futura. Como nos filmes de aventuras, o Luís atirou-se primeiro para o vazio,
na esperança de que, do lado de lá, existisse algum ponto de apoio. E existia.
Durante cinco anos, sempre que pôde, o
fotógrafo trabalhou na maioria dos ilhéus e ilhas mais remotos do território
português. Não haverá aliás muitos indivíduos que possam, como ele, gabar-se de
já terem pisado as Desertas e as Selvagens, as Berlengas, o Corvo e o ilhéu de Vila Franca do Campo, bem como as maiores ilhas dos arquipélagos dos Açores e Madeira. Nada,
no projecto, tinha dimensão turística ou idílica – como um pisteiro, o Luís
perseguia uma ideia e não uma paisagem.
Publicamos, na edição de Agosto da
revista, uma amostra reduzida do seu extraordinário trabalho fotográfico com as
cagarras, uma das poucas aves que nidifica nos Açores, na Madeira e em Portugal
Continental (se fizermos o jeitinho
de considerarmos as Berlengas neste lote).
A cagarra não é um objecto de trabalho
fácil, apesar de razoavelmente abundante nos contextos insulares. Os seus
hábitos nocturnos dificultam a vida de quem precisa da luz como de pão para a
boca. A exuberância dos seus comportamentos expressa-se sobretudo lá longe, no
oceano, onde nenhum humano consegue acompanhar a extraordinária obstinação
migratória da ave. E os comportamentos mais raros – aqueles que foram vistos
por escassos peritos – têm lugar em curtos intervalos de tempo durante o ano.
Para enfrentar esta montanha de
adversidades, o Luís contou com o apoio precioso da Sociedade Portuguesa para o
Estudo das Aves (SPEA), à qual a revista fica a dever mais um gentileza entre
muitas outras. Os biólogos da SPEA concederam acesso total às suas operações,
assim o Luís conseguisse acertar o seu relógio biológico pelo dos
especialistas, que visitam ninhos à noite e fazem três rondas durante ciclos de 24 horas
para pesagens e medições.
O resultado do projecto – ou melhor, uma
amostra do projecto – pode ser consultado na edição de Agosto da National
Geographic. Algumas das fotografias registam momentos que até à data ainda não
tinham sido captados nesta espécie. A ciência, produzida pela SPEA em mais de uma década de trabalho com as áreas importantes para as aves no Atlântico Norte, é entusiasmante. E fica entretanto prometido um livro,
co-assinado pelo Luís Ferreira e pelo Pedro Geraldes, onde toda a diversidade
fotográfica captada em cinco anos no campo pode ser apreciada.
Com frequência, chegam à redacção da
revista propostas ousadas de aventureiros dispostos a explorar os confins mais
distantes do globo para relatar a história das suas vidas. O projecto
fotográfico do Luís Ferreira acaba por sublinhar uma dimensão omnipresente
naquilo que fazemos, enunciada em 1888 pelos fundadores da National Geographic
Society: interessa-nos o mundo e tudo o que ele contém.
Com frequência, a história de uma vida
pode estar mesmo ao virar da esquina. Basta encontrar uma narrativa que os outros queiram ouvir.
terça-feira, julho 26, 2016
A propósito do cabo Mondego
Há cerca de 15
anos, fui com a professora Maria Helena Paiva Henriques ao cabo Mondego. Estávamos
então no início deste longo processo de aceitação do geomonumento português
como estratótipo limite do Bajociano. Contou-me uma história deliciosa sobre a
Presidência Aberta de Mário Soares na região.
Passeavam pela
Figueira da Foz e a eminente geóloga confidenciou ao PR que não conseguia
cativar os media para a importância científica daquele cabo. À tarde, Soares
foi... Soares. À passagem por uma das elevações, trepou pela rocha como um gato
e foi fotografado por toda a imprensa. Quando desceu, segredou à professora: “Amanhã,
verá o cabo Mondego em todas as primeiras páginas de jornal.”
Hoje, tantos anos depois, a formação rochosa inserida no complexo mais amplo do cabo recebeu o Prego de Ouro, confirmando a classificação internacional de referência. Parabéns,
professora Maria Helena Paiva Henriques!
sexta-feira, julho 01, 2016
Ruy de Castro como… Ruy de Castro
Nuno Pacheco dá hoje (no Público) a boa
notícia: Chega de Saudade, a obra monumental de Ruy de Castro sobre
a Bossa Nova, não será adaptada ao português europeu. Sai tal qual Castro
escreveu — só quem sofreu com o aportuguesamento forçadíssimo de Carmen,
outro volume incrível sobre Carmen Miranda, aprecia o gesto. Ruy de Castro é
como os morangos: deve ser consumido tal qual sai da terra, sem açúcar ou
chantilly.
segunda-feira, junho 13, 2016
A dinastia dos verrumas e o rei Dom Carlos no corpo de um general francês
Verruma.
Na cidade de Lisboa, neste feriado, dia 8 de Dezembro de 1886, a
palavra parece circular na boca de todos. Nunca se falou tanto deste
instrumento de ferro com a ponta em espiral, usado para abrir furos na madeira. Ferramenta de carpinteiro e de assaltante, a verruma tem hoje a sua consagração na
cultura popular.
Cai uma chuva miúda, quase cacimba, quando os sinos das igrejas do Chiado
assinalam as duas horas da tarde. Eduardo Schwalbach, 26 anos, redactor do Jornal
do Comércio, passeia por Lisboa quase
esquecido da partida que pregou dois dias antes no seu jornal. «Alegre e despreocupado, ao virar da
Rua Nova da Trindade para o Largo da Abegoaria [hoje Largo Rafael Bordalo
Pinheiro], uma crespa ondulação de vozes mete-se-me nos ouvidos», contou nas
suas memórias (À Lareira do Passado,
1944). «E ao pôr os pés no Largo surpreende-me um mar de cabeças ao alto,
braços erguidos e goelas escancaradas que, do Chiado, extravasava para a Rua
Serpa Pinto. A algazarra era ensurdecedora. ‘Verruma para aqui! Verruma para
ali!’, em gritos que pareciam uivos, com palmas a estalarem, assobios a
silvarem, garotos a imitarem foguetes, gaitinhas, um inferno», acrescentou.
Schwalbach começa a temer que a algazarra seja resultado da sua partida.
Na madrugada do dia 6, a verruma parecera-lhe uma graça inofensiva, uma blague.
Agora, assusta-se com as consequências. «Tenho medo de mim próprio. Como um
assassino irresistivelmente atraído para junto do cadáver da sua vítima, meto
ombros por entre a onda do povo e, açodado, ofegante, vou ter à Igreja dos
Mártires. Um coupé de gala estava parado
à porta. Pregada na traseira, uma enorme folha de papel branco com uma também
enorme verruma pintada a preto.» Está desfeito o mistério.
| Eduardo Schwalbach em 1944 (arquivo do autor) |
O sisudo Jornal do Comércio,
jornal de um banqueiro – o Conde de Burnay –, composto, respeitoso e
respeitável, «com um aspecto de gravidade inerente ao Deve e ao Haver»,
participara numa farsa. É provável que tenha sido o mais divertido
empastelamento da história da imprensa portuguesa. Melhor ainda: ao contrário
dos outros, foi propositado!
EMPASTELAMENTO
DO GRANEL
O empastelamento era o pesadelo do redactor-paginador, o jornalista que,
nos velhos tempos da composição a chumbo, tinha a missão de desenhar a
configuração das notícias em cada página do jornal, calculando espaços e
condensando tipos para arrumar os materiais. Por vezes, as linhas do granel
misturavam-se, produzindo como resultado indesejado trechos de texto sem sentido,
pois as notícias aglomeravam inadvertidamente fragmentos de outras peças.
Durante muito tempo, na tipografia do Diário de Notícias, esteve afixado um dos exemplos mais divertidos de
empastelamento da imprensa lusófona, produzido em 1908 num jornal regional do
Brasil, a Gazeta de São João Baptista. Noticiava-se a partida para o Rio de Janeiro de um médico muito
estimado em Goiás. A notícia seguinte no alinhamento do jornal dava conta de
uma feira de suinicultura e de um porco de dimensões generosas. Por lapso,
houve empastelamento e o texto impresso ficou:
«Parte hoje para o Rio de Janeiro, onde
demorar-se-á alguns meses, o nosso querido amigo, dr. José da Silva Mattos.
É um dos melhores exemplos de suínos que temos
visto, attingindo o seu peso, caso entre nós nunca visto, a 168 kilogrammos.
Os seus numerosos amigos, querendo demonstrar
quão sensível lhes será a ausência do estimado clínico que vae remetido para a
Exposição Nacional onde certamente ganhará um dos prémios destinados a animais
do ceva, demonstrando os cuidados que dispensava com sua carinhosa presença aos
seus enfermos, attendendo a qualquer hora do dia ou da noite os chamados por
maior que enche de orgulho os criadores goyanos certos de que esse
representante da zootechina do município na Capital attestará o adiantamento de
operoso clínico que deixa fundas saudades entre nós com sua retirada,
felizmente não longa.
Teremos a maior satisfação e prazer em vê-lo esquartejado, vendido a peso o seu toucinho, dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»
Teremos a maior satisfação e prazer em vê-lo esquartejado, vendido a peso o seu toucinho, dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»
![]() |
| Arquivo da Biblioteca Nacional do Brasil |
Deixemos
Fernando Pires, um dos jornalistas mais experientes nesta tarefa, explicar a
arte da composição a chumbo (em O Nosso DN. Memória do Tempo, 2014) e o risco do granel. No espaço actual da
redacção do jornal na Avenida da Liberdade [pelo menos, até à próxima mudança
de sede], funcionava a velha e gigantesca tipografia, com a Linotype, «uma
estrutura de ferro, alta, que tinha no topo uma caixa com as matrizes de todos
os caracteres e em baixo um teclado. A máquina substituíra o penoso processo manual de composição de que Alexandre Vieira, pioneiro do movimento operário português, fala admiravelmente em Em Volta da Minha Profissão (1950). A Linotype impôs-se nas tipografias dos jornais de Lisboa e do Porto a partir da segunda década do século XX. Vieira, velho tipógrafo, nota que, «como todas as maquinarias que anulam o trabalho de muitos braços – em proveito do industrial, claro – foram, por isso mesmo, recebidas ferozmente pela nossa gente, apesar de as maganas serem bem sedutoras».
Avançamos novamente à boleia de Fernando Pires. O linotipista colocava o texto diante de si, numa gancheta que prendia o original, dactilografava-o, as matrizes correspondentes caíam e eram recolhidas por um braço metálico, onde ficavam suspensas. O linotipista confirmava, na face exterior da matriz, pelos caracteres gravados, se tudo estava correcto, ajustava a linha, se necessário, preenchendo eventual espaço com matrizes brancas, isto é, sem qualquer caractere e accionava uma alavanca que conduzia o braço com as matrizes para uma caldeira de chumbo ao lado, incorporada na máquina».
Avançamos novamente à boleia de Fernando Pires. O linotipista colocava o texto diante de si, numa gancheta que prendia o original, dactilografava-o, as matrizes correspondentes caíam e eram recolhidas por um braço metálico, onde ficavam suspensas. O linotipista confirmava, na face exterior da matriz, pelos caracteres gravados, se tudo estava correcto, ajustava a linha, se necessário, preenchendo eventual espaço com matrizes brancas, isto é, sem qualquer caractere e accionava uma alavanca que conduzia o braço com as matrizes para uma caldeira de chumbo ao lado, incorporada na máquina».
A
caldeira fundia o chumbo e ejectava uma linha de chumbo com os caracteres em
relevo para um tabuleiro. A operação repetia-se incessantemente. Quando o texto
estava por fim composto, formava-se o granel, «atado com um cordel […] e levado
ao prelo para obter uma prova», depois revista. A cada sessão de emendas, o
linotipista compunha novas linhas que o redactor-paginador colocava no sítio
certo da página.
Esse
granel, por vezes, na confusão do fecho de cada edição e no frenesi da
composição a chumbo, sofria adulterações. O exemplo do jornal brasileiro é um
caso clássico de adulteração involuntária. Mas voltemos à nossa história.
O CASAMENTO E A VERRUMA
Schwalbach
progredira rapidamente na carreira. Começara no Diário Ilustrado, acumulando funções no Correio da Manhã de Pinheiro de Chagas. Em 1886, zangado com Pedro
Correia, director do Ilustrado,
saiu abruptamente do jornal, mas não ficou inactivo por muito tempo. Cristóvão
Aires, nome grande do jornalismo do século XIX, convenceu-o a aceitar um cargo
no Jornal do Comércio. Para um
boémio com pretensões literatas, era um aburguesamento. «O diabo fez-se
ermitão», admitiu nas suas memórias. «Substituí o chapéu e a máscara de
Arlequim pelo barrete de seda e os óculos de escriturário e segurei-me nos rails para não descarrilar.»
Na
noite de 5 de Dezembro de 1886, cerca das onze horas da noite, entrou na
redacção «uma das mais típicas e apregoadas figuras de Lisboa por seus
ridículos e desplantes – o senhor Marcos Maria Fernandes». Glosado por Eça e
Ramalho em As Farpas, Fernandes era o
novo-rico típico da sociedade lisboeta. Proprietário de um atelier de modas na Travessa de Santa Justa, a Maison de France,
vivia obcecado com a promoção social.
Anunciava
todos os seus actos sociais nos jornais da época, com particular destaque para
as personalidades políticas e teatrais que o acompanhavam. A filha, dona
Cecília Fernandes, tornara-se a «bandeira das suas paspalhices». Cada exame
escolar, cada ritual baptismal eram motivos para retratos e propaganda na
imprensa diária. «Com o seu regador de vaidades, ia refrescando o canteiro em
que haviam de florescer os seus descendentes: julgando criar-lhes uma luminosa
auréola, talhava-lhes uma carapuça com guizos. Em todos os seus actos
charlatanescos, provocava o riso que descia ao escárnio», conta Schwalbach.
Nessa
noite, Marcos Maria Fernandes vem participar ao director do Jornal do
Comércio o futuro casamento da sua filha.
Traz a notícia pronta, com a tradicional lista de personalidades convidadas
para a boda e distinguidas como padrinhos. Há ministros na lista de
celebridades. O texto, como não poderia deixar de ser, era um exagero lírico,
mas Cristóvão Aires recebe-o da mão do pai babado. A redacção, entretanto,
vai-se esvaziando, à medida que os tipógrafos compõem a primeira prova da
notícia. «À formiga, já tinham saído os mais: ficámos sós, eu e o Cristóvão.» O
contínuo do jornal traz entretanto as provas dos últimos textos em falta – a
participação do casamento e a informação de um assalto frustrado.
O
texto do comendador Fernandes desperta gargalhadas nos dois jornalistas e o
apelido do ministro Henrique de Macedo, padrinho da moça, desperta o génio do
mal na mente de Eduardo Schwalbach. Afinal, o assaltante que entrara numa
residência utilizando uma verruma também se chamava Macedo.
«Chassez
le naturel, il revient au galop!», pensou o repórter.
- Ó Cristóvão, e se forjássemos uma troca de granéis!
O director hesita. Sorri, mas recusa. Nunca tal sucedera num jornal
português.
- Mas diz-me: não podia dar-se isto na paginação?
- Lá isso, podia. Mas não, não. No Jornal do Comércio, não.
Face à persuasão continuada do repórter, o director acaba por transigir.
Sai a rir da redacção enquanto adverte como Pilatos:
-
Faz o quiseres. O que fica entendido é isto: não sei de
nada!
Com a alegria de uma criança, Eduardo Schwalbach forja o inadvertido
empastelamento. Mistura as duas notícias, a ponto de, na 28.ª linha, «o ministro
da Marinha, Henrique de Macedo, munido de uma verruma, lhe queria arrombar a
porta. Apareceu a polícia que o prendeu e que refere, à parte do ocorrido, que
esse sujeito tinha ideia de agredir com a verruma a pobre». Com toda a
inocência, a notícia retoma depois o teor original.
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| Jornal do Comércio, 6 de Dezembro de 1886 (a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) |
No dia seguinte, véspera da boda, o bairro dos jornais entretém-se com a
graça. A imprensa séria finge-se chocada com o engano, a verruma entra nas
conversas do quotidiano. O comendador Marcos Maria Fernandes protesta veementemente
e exige a cabeça do responsável. Encorajado pelo seu próprio êxito, o Jornal
do Comércio publica uma errata, lamentando
«o nosso paginador [que] fez-nos hoje coisas do arco da velha». Mais à frente,
Schwalbach não resiste a mais uma alfinetada, associando novamente o enlace a
um caso de polícia. A errata regista que «um colega da noite noticia que, para
fazer o serviço da polícia no templo dos Mártires, foram requisitados 1 chefe
de esquadra, 2 cabos e 10 guardas de polícia, além de 10 guardas para o serviço
externo».
No semanário Pontos nos I, Bordalo
Pinheiro pinta a manta e cria várias vinhetas com a nubente fugindo de
verrumas.
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| Pontos nos I(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital) |
Eis-nos chegados então à Igreja dos Mártires no dia 8 de Dezembro e ao
cortejo nupcial que parece travestido de marcha carnavalesca. Crianças em
cabriolas acompanham o coupé dos noivos
apontando para desenhos de verrumas e soltando gritos de sátira. O comendador
Marcos Maria Fernandes não levará certamente o relato deste casamento aos
jornais da cidade. Schwalbach cai em si: «Com o coração em chaga e o cérebro em
fogo pelo mal que causara àquela pobre menina, pálida como um cadáver (…),
entre soluços, arrependido, enxaguei as lágrimas que me escaldavam as faces.»
Schwalbach aprendera que, mesmo um empastelamento propositado, tinha
consequências. No seu caso, «sob a opressão de uma profunda mágoa,
irreflectidamente fundei a dinastia dos Verrumas» – o único caso que conheço de
um granel trocado de propósito num jornal.
O REI NO CORPO
DE UM FRANCÊS
Passaram três anos. Schwalbach já saiu do Jornal do Comércio. José Luciano de Castro levou-o para o Correio
da Noite, de onde saiu com estrondo após
uma controvérsia com o prior da Lapa. Fundou em 22 de Abril de 1889, com Urbano
de Castro, o jornal A Tarde, com
o capital de dois mil e quatrocentos reis na algibeira. Desde o primeiro
número, a dupla inova no jornal: «Prometemos ao público dar gravura do
acontecimento, sempre que este seja de vulto. Para isso, fora as nossas
gravuras em madeira, chamámos em nosso auxílio Manuel Gustavo Bordallo
Pinheiro, cuja reputação artística não carece do nosso reclame (…) Outros
desenhadores notáveis nos ajudarão nesta tarefa», promete-se logo na primeira
edição.
A morte de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias (em Maio), serve de ensaio para a nova aposta em
gravuras, mas o verdadeiro teste virá depois. Em 15 de Novembro, um tenebroso
incêndio no Chiado marca a inovação de A Tarde. Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro corre para a janela
do consultório médico do seu tio, na Rua Ivens. Dali, desenha incessantemente.
O gravurista espanhol Francisco Pastor transforma o croquis num instantâneo da tragédia. É um êxito em Lisboa. A
tiragem chega a 20 mil exemplares e assusta O Século, que propõe a junção dos dois títulos, rapidamente
recusada.
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| Exemplo das gravuras/croquis de A Tarde, 11 de Novembro de 1889 (a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) |
Semanas antes, aquando da morte do rei Dom Luís em Outubro, A Tarde conseguira também organizar um suplemento com
gravuras do rei moribundo. Francisco Pastor não demora mais de três horas a
transformar os croquis em
gravuras. «A gravura do acontecimento, rápida e precisa, inaugura-a A
Tarde e com ela conquista toda a aura
popular», gaba-se Schwalbach.
O jornal vende-se bem e coloca novos desafios aos seus mentores. Em
Dezembro de 1889, Dom Carlos será coroado e o jornal quer fazer novo
brilharete. «Eu barafustava, arrepelava a imaginação a pensar na forma de
arranjar outro suplemento com um grande retrato, de todo desconhecido, do novo
monarca», conta.
A meditação leva o jornalista a passear pelas ruas da cidade. Vê numa
tabacaria um exemplar da Illustration Française, revista de culto no século XIX graças à profusão de imagens e
tratamento gráfico cuidado. Na primeira página, a publicação francesa traz um
aparatoso retrato do general Boulanger a cavalo. «Lampeja-me no cérebro uma
ideia maravilhosa», conta Schwalbach. «Compro a Ilustração, mando chamar o Pastor e digo-lhe ‘O meu amigo
substitui neste retrato do Boulanger a cabeça dele pela cabeça de Dom Carlos,
põe-lhe um capacete e veste-lhe uma farda nossa, de generalíssimo. E aqui temos
um retrato de Dom Carlos a cavalo, que ele nunca tirou!’»
A foto original – sabêmo-lo pelo olisipógrafo Mário Costa, autor de O Chiado Pitoresco e Elegante –, fora captada pelo fotógrafo João Francisco Camacho, natural do Funchal, onde exercera a profissão de encadernador. Na Madeira, cedo aprendeu a arte da fotografia e rumou a Lisboa para se especializar. Em Paris, fora mesmo «discípulo do mestre Disderic» e, regressado a Portugal, foi naturalmente procurado por fidalgos e burgueses. A própria família real posara para ele e Dom Carlos acedeu igualmente ao seu pedido. João Camacho faleceria em 1998, oito anos depois do episódio que aqui se narra.
A foto original – sabêmo-lo pelo olisipógrafo Mário Costa, autor de O Chiado Pitoresco e Elegante –, fora captada pelo fotógrafo João Francisco Camacho, natural do Funchal, onde exercera a profissão de encadernador. Na Madeira, cedo aprendeu a arte da fotografia e rumou a Lisboa para se especializar. Em Paris, fora mesmo «discípulo do mestre Disderic» e, regressado a Portugal, foi naturalmente procurado por fidalgos e burgueses. A própria família real posara para ele e Dom Carlos acedeu igualmente ao seu pedido. João Camacho faleceria em 1998, oito anos depois do episódio que aqui se narra.
Pastor, o gravurista espanhol, demonstra toda a sua competência na empreitada.
Inverte a posição do cavalo para dificultar o reconhecimento da figura. Monta a
face do novo rei no boneco. A 27 de Dezembro, o jornal anuncia para o dia seguinte «a gravura de 0,32
de altura por 0,30 de largura, representando El-Rei Dom Carlos fardado de
generalíssimo, a cavalo, soberbo trabalho saído da casa Pastor». No dia 28,
publica a imagem.
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| Boulanger (original) e Dom Carlos (montagem) Arquivos do autor e da Illustration Française |
«O suplemento vendeu-se como canela», conta Schwalbach. «Depois soube que
o próprio rei Dom Carlos, ao vê-lo, admiradíssimo perguntou: ‘Mas como é que
arranjaram um retrato meu que não tirei?’»
Terá sido a primeira manipulação de imagem da imprensa diária portuguesa envolvendo figuras de Estado.
EPÍLOGOS
A Tarde não sobreviveu muito
tempo. No Ultimato de 1890, Urbano de Castro e Eduardo Schwalbach aceitaram um
pedido do ministro Lopo Vaz e não atacaram os termos do pacto de Inglaterra com
Portugal, termos esses que forçavam o reino português a pedir autorização da coroa
inglesa antes de alienar qualquer colónia. No furacão popular que varreu a
sociedade portuguesa com raiva e recriminações, A Tarde foi quase destruída. «Os seus exemplares foram
arrancados das mãos dos vendedores e, com eles em pedaços, fizeram-se fogueiras
no Rossio e na Praça de Camões», conta Schwalbach. Dois anos depois, em 1892, o
jornal fundiu-se com a Gazeta de Portugal.
Schwalbach abraçaria então uma carreira teatral com muito sucesso.
Várias peças da sua autoria foram encenadas no Teatro Nacional Dona Maria
durante a monarquia e a República encontrou-o já como professor do
Conservatório. Voltou ao jornalismo em 1924, como director do Diário de Notícias, após a
nomeação de Augusto de Castro para um cargo diplomático no estrangeiro. Deveria ter sido uma nomeação temporária, mas Schwalbach manteve-se no cargo até 1939 e cumpriria ainda novo mandato entre Janeiro de 1945 e a data da sua morte. Apresentou-se sempre como um director a prazo, mas a verdade é que esse prazo dilatou-se extraordinariamente.
O fundador da dinastia dos Verrumas faleceu em 1946, aos 86 anos, em
Lisboa. Quis o destino – e uma certa propensão para as grandes cenas teatrais –
que falecesse no dia 8 de Dezembro, o mesmo dia em que, 60 anos antes, o
casamento na Igreja dos Mártires em Lisboa decorrera sob o signo das verrumas
por sua exclusiva responsabilidade.
sábado, junho 04, 2016
Vinganças
Conta Eduardo Schwalbach nas suas Memórias que Dom Luís I
e Mariano de Carvalho, director do Diário Popular,
odiavam-se discretamente. O Popular era o jornal que
mais atacava o monarca.
Um dia de 1886, já perto do final da vida, o rei teve de engolir o sapo
e «confiar ao seu terrível detractor a pasta da Fazenda».
Vingou-se. Ao findar
uma assinatura real a que assistia o novo ministro, o rei puxou-o de parte e perguntou-lhe
se gostava de música.
— Sim, meu Senhor – respondeu Mariano.
— Então venha cá!
Durante noventa minutos implacáveis, Dom Luís torturou Mariano de
Carvalho, «arrepiando os ouvidos da sua vítima com uma violoncelada quase
seguida». O monarca tocava realmente mal o instrumento.
«Encantado por fora e como um urso por dentro», Mariano saiu daquela
tormenta quase a espumar. «Sua Majestade voltou-se para o seu camarista e
disse-lhe, esfregando as mãos de contente: — Estou vingado!»
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