Nuno Pacheco dá hoje (no Público) a boa
notícia: Chega de Saudade, a obra monumental de Ruy de Castro sobre
a Bossa Nova, não será adaptada ao português europeu. Sai tal qual Castro
escreveu — só quem sofreu com o aportuguesamento forçadíssimo de Carmen,
outro volume incrível sobre Carmen Miranda, aprecia o gesto. Ruy de Castro é
como os morangos: deve ser consumido tal qual sai da terra, sem açúcar ou
chantilly.
sexta-feira, julho 01, 2016
segunda-feira, junho 13, 2016
A dinastia dos verrumas e o rei Dom Carlos no corpo de um general francês
Verruma.
Na cidade de Lisboa, neste feriado, dia 8 de Dezembro de 1886, a
palavra parece circular na boca de todos. Nunca se falou tanto deste
instrumento de ferro com a ponta em espiral, usado para abrir furos na madeira. Ferramenta de carpinteiro e de assaltante, a verruma tem hoje a sua consagração na
cultura popular.
Cai uma chuva miúda, quase cacimba, quando os sinos das igrejas do Chiado
assinalam as duas horas da tarde. Eduardo Schwalbach, 26 anos, redactor do Jornal
do Comércio, passeia por Lisboa quase
esquecido da partida que pregou dois dias antes no seu jornal. «Alegre e despreocupado, ao virar da
Rua Nova da Trindade para o Largo da Abegoaria [hoje Largo Rafael Bordalo
Pinheiro], uma crespa ondulação de vozes mete-se-me nos ouvidos», contou nas
suas memórias (À Lareira do Passado,
1944). «E ao pôr os pés no Largo surpreende-me um mar de cabeças ao alto,
braços erguidos e goelas escancaradas que, do Chiado, extravasava para a Rua
Serpa Pinto. A algazarra era ensurdecedora. ‘Verruma para aqui! Verruma para
ali!’, em gritos que pareciam uivos, com palmas a estalarem, assobios a
silvarem, garotos a imitarem foguetes, gaitinhas, um inferno», acrescentou.
Schwalbach começa a temer que a algazarra seja resultado da sua partida.
Na madrugada do dia 6, a verruma parecera-lhe uma graça inofensiva, uma blague.
Agora, assusta-se com as consequências. «Tenho medo de mim próprio. Como um
assassino irresistivelmente atraído para junto do cadáver da sua vítima, meto
ombros por entre a onda do povo e, açodado, ofegante, vou ter à Igreja dos
Mártires. Um coupé de gala estava parado
à porta. Pregada na traseira, uma enorme folha de papel branco com uma também
enorme verruma pintada a preto.» Está desfeito o mistério.
| Eduardo Schwalbach em 1944 (arquivo do autor) |
O sisudo Jornal do Comércio,
jornal de um banqueiro – o Conde de Burnay –, composto, respeitoso e
respeitável, «com um aspecto de gravidade inerente ao Deve e ao Haver»,
participara numa farsa. É provável que tenha sido o mais divertido
empastelamento da história da imprensa portuguesa. Melhor ainda: ao contrário
dos outros, foi propositado!
EMPASTELAMENTO
DO GRANEL
O empastelamento era o pesadelo do redactor-paginador, o jornalista que,
nos velhos tempos da composição a chumbo, tinha a missão de desenhar a
configuração das notícias em cada página do jornal, calculando espaços e
condensando tipos para arrumar os materiais. Por vezes, as linhas do granel
misturavam-se, produzindo como resultado indesejado trechos de texto sem sentido,
pois as notícias aglomeravam inadvertidamente fragmentos de outras peças.
Durante muito tempo, na tipografia do Diário de Notícias, esteve afixado um dos exemplos mais divertidos de
empastelamento da imprensa lusófona, produzido em 1908 num jornal regional do
Brasil, a Gazeta de São João Baptista. Noticiava-se a partida para o Rio de Janeiro de um médico muito
estimado em Goiás. A notícia seguinte no alinhamento do jornal dava conta de
uma feira de suinicultura e de um porco de dimensões generosas. Por lapso,
houve empastelamento e o texto impresso ficou:
«Parte hoje para o Rio de Janeiro, onde
demorar-se-á alguns meses, o nosso querido amigo, dr. José da Silva Mattos.
É um dos melhores exemplos de suínos que temos
visto, attingindo o seu peso, caso entre nós nunca visto, a 168 kilogrammos.
Os seus numerosos amigos, querendo demonstrar
quão sensível lhes será a ausência do estimado clínico que vae remetido para a
Exposição Nacional onde certamente ganhará um dos prémios destinados a animais
do ceva, demonstrando os cuidados que dispensava com sua carinhosa presença aos
seus enfermos, attendendo a qualquer hora do dia ou da noite os chamados por
maior que enche de orgulho os criadores goyanos certos de que esse
representante da zootechina do município na Capital attestará o adiantamento de
operoso clínico que deixa fundas saudades entre nós com sua retirada,
felizmente não longa.
Teremos a maior satisfação e prazer em vê-lo esquartejado, vendido a peso o seu toucinho, dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»
Teremos a maior satisfação e prazer em vê-lo esquartejado, vendido a peso o seu toucinho, dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»
![]() |
| Arquivo da Biblioteca Nacional do Brasil |
Deixemos
Fernando Pires, um dos jornalistas mais experientes nesta tarefa, explicar a
arte da composição a chumbo (em O Nosso DN. Memória do Tempo, 2014) e o risco do granel. No espaço actual da
redacção do jornal na Avenida da Liberdade [pelo menos, até à próxima mudança
de sede], funcionava a velha e gigantesca tipografia, com a Linotype, «uma
estrutura de ferro, alta, que tinha no topo uma caixa com as matrizes de todos
os caracteres e em baixo um teclado. A máquina substituíra o penoso processo manual de composição de que Alexandre Vieira, pioneiro do movimento operário português, fala admiravelmente em Em Volta da Minha Profissão (1950). A Linotype impôs-se nas tipografias dos jornais de Lisboa e do Porto a partir da segunda década do século XX. Vieira, velho tipógrafo, nota que, «como todas as maquinarias que anulam o trabalho de muitos braços – em proveito do industrial, claro – foram, por isso mesmo, recebidas ferozmente pela nossa gente, apesar de as maganas serem bem sedutoras».
Avançamos novamente à boleia de Fernando Pires. O linotipista colocava o texto diante de si, numa gancheta que prendia o original, dactilografava-o, as matrizes correspondentes caíam e eram recolhidas por um braço metálico, onde ficavam suspensas. O linotipista confirmava, na face exterior da matriz, pelos caracteres gravados, se tudo estava correcto, ajustava a linha, se necessário, preenchendo eventual espaço com matrizes brancas, isto é, sem qualquer caractere e accionava uma alavanca que conduzia o braço com as matrizes para uma caldeira de chumbo ao lado, incorporada na máquina».
Avançamos novamente à boleia de Fernando Pires. O linotipista colocava o texto diante de si, numa gancheta que prendia o original, dactilografava-o, as matrizes correspondentes caíam e eram recolhidas por um braço metálico, onde ficavam suspensas. O linotipista confirmava, na face exterior da matriz, pelos caracteres gravados, se tudo estava correcto, ajustava a linha, se necessário, preenchendo eventual espaço com matrizes brancas, isto é, sem qualquer caractere e accionava uma alavanca que conduzia o braço com as matrizes para uma caldeira de chumbo ao lado, incorporada na máquina».
A
caldeira fundia o chumbo e ejectava uma linha de chumbo com os caracteres em
relevo para um tabuleiro. A operação repetia-se incessantemente. Quando o texto
estava por fim composto, formava-se o granel, «atado com um cordel […] e levado
ao prelo para obter uma prova», depois revista. A cada sessão de emendas, o
linotipista compunha novas linhas que o redactor-paginador colocava no sítio
certo da página.
Esse
granel, por vezes, na confusão do fecho de cada edição e no frenesi da
composição a chumbo, sofria adulterações. O exemplo do jornal brasileiro é um
caso clássico de adulteração involuntária. Mas voltemos à nossa história.
O CASAMENTO E A VERRUMA
Schwalbach
progredira rapidamente na carreira. Começara no Diário Ilustrado, acumulando funções no Correio da Manhã de Pinheiro de Chagas. Em 1886, zangado com Pedro
Correia, director do Ilustrado,
saiu abruptamente do jornal, mas não ficou inactivo por muito tempo. Cristóvão
Aires, nome grande do jornalismo do século XIX, convenceu-o a aceitar um cargo
no Jornal do Comércio. Para um
boémio com pretensões literatas, era um aburguesamento. «O diabo fez-se
ermitão», admitiu nas suas memórias. «Substituí o chapéu e a máscara de
Arlequim pelo barrete de seda e os óculos de escriturário e segurei-me nos rails para não descarrilar.»
Na
noite de 5 de Dezembro de 1886, cerca das onze horas da noite, entrou na
redacção «uma das mais típicas e apregoadas figuras de Lisboa por seus
ridículos e desplantes – o senhor Marcos Maria Fernandes». Glosado por Eça e
Ramalho em As Farpas, Fernandes era o
novo-rico típico da sociedade lisboeta. Proprietário de um atelier de modas na Travessa de Santa Justa, a Maison de France,
vivia obcecado com a promoção social.
Anunciava
todos os seus actos sociais nos jornais da época, com particular destaque para
as personalidades políticas e teatrais que o acompanhavam. A filha, dona
Cecília Fernandes, tornara-se a «bandeira das suas paspalhices». Cada exame
escolar, cada ritual baptismal eram motivos para retratos e propaganda na
imprensa diária. «Com o seu regador de vaidades, ia refrescando o canteiro em
que haviam de florescer os seus descendentes: julgando criar-lhes uma luminosa
auréola, talhava-lhes uma carapuça com guizos. Em todos os seus actos
charlatanescos, provocava o riso que descia ao escárnio», conta Schwalbach.
Nessa
noite, Marcos Maria Fernandes vem participar ao director do Jornal do
Comércio o futuro casamento da sua filha.
Traz a notícia pronta, com a tradicional lista de personalidades convidadas
para a boda e distinguidas como padrinhos. Há ministros na lista de
celebridades. O texto, como não poderia deixar de ser, era um exagero lírico,
mas Cristóvão Aires recebe-o da mão do pai babado. A redacção, entretanto,
vai-se esvaziando, à medida que os tipógrafos compõem a primeira prova da
notícia. «À formiga, já tinham saído os mais: ficámos sós, eu e o Cristóvão.» O
contínuo do jornal traz entretanto as provas dos últimos textos em falta – a
participação do casamento e a informação de um assalto frustrado.
O
texto do comendador Fernandes desperta gargalhadas nos dois jornalistas e o
apelido do ministro Henrique de Macedo, padrinho da moça, desperta o génio do
mal na mente de Eduardo Schwalbach. Afinal, o assaltante que entrara numa
residência utilizando uma verruma também se chamava Macedo.
«Chassez
le naturel, il revient au galop!», pensou o repórter.
- Ó Cristóvão, e se forjássemos uma troca de granéis!
O director hesita. Sorri, mas recusa. Nunca tal sucedera num jornal
português.
- Mas diz-me: não podia dar-se isto na paginação?
- Lá isso, podia. Mas não, não. No Jornal do Comércio, não.
Face à persuasão continuada do repórter, o director acaba por transigir.
Sai a rir da redacção enquanto adverte como Pilatos:
-
Faz o quiseres. O que fica entendido é isto: não sei de
nada!
Com a alegria de uma criança, Eduardo Schwalbach forja o inadvertido
empastelamento. Mistura as duas notícias, a ponto de, na 28.ª linha, «o ministro
da Marinha, Henrique de Macedo, munido de uma verruma, lhe queria arrombar a
porta. Apareceu a polícia que o prendeu e que refere, à parte do ocorrido, que
esse sujeito tinha ideia de agredir com a verruma a pobre». Com toda a
inocência, a notícia retoma depois o teor original.
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| Jornal do Comércio, 6 de Dezembro de 1886 (a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) |
No dia seguinte, véspera da boda, o bairro dos jornais entretém-se com a
graça. A imprensa séria finge-se chocada com o engano, a verruma entra nas
conversas do quotidiano. O comendador Marcos Maria Fernandes protesta veementemente
e exige a cabeça do responsável. Encorajado pelo seu próprio êxito, o Jornal
do Comércio publica uma errata, lamentando
«o nosso paginador [que] fez-nos hoje coisas do arco da velha». Mais à frente,
Schwalbach não resiste a mais uma alfinetada, associando novamente o enlace a
um caso de polícia. A errata regista que «um colega da noite noticia que, para
fazer o serviço da polícia no templo dos Mártires, foram requisitados 1 chefe
de esquadra, 2 cabos e 10 guardas de polícia, além de 10 guardas para o serviço
externo».
No semanário Pontos nos I, Bordalo
Pinheiro pinta a manta e cria várias vinhetas com a nubente fugindo de
verrumas.
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| Pontos nos I(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital) |
Eis-nos chegados então à Igreja dos Mártires no dia 8 de Dezembro e ao
cortejo nupcial que parece travestido de marcha carnavalesca. Crianças em
cabriolas acompanham o coupé dos noivos
apontando para desenhos de verrumas e soltando gritos de sátira. O comendador
Marcos Maria Fernandes não levará certamente o relato deste casamento aos
jornais da cidade. Schwalbach cai em si: «Com o coração em chaga e o cérebro em
fogo pelo mal que causara àquela pobre menina, pálida como um cadáver (…),
entre soluços, arrependido, enxaguei as lágrimas que me escaldavam as faces.»
Schwalbach aprendera que, mesmo um empastelamento propositado, tinha
consequências. No seu caso, «sob a opressão de uma profunda mágoa,
irreflectidamente fundei a dinastia dos Verrumas» – o único caso que conheço de
um granel trocado de propósito num jornal.
O REI NO CORPO
DE UM FRANCÊS
Passaram três anos. Schwalbach já saiu do Jornal do Comércio. José Luciano de Castro levou-o para o Correio
da Noite, de onde saiu com estrondo após
uma controvérsia com o prior da Lapa. Fundou em 22 de Abril de 1889, com Urbano
de Castro, o jornal A Tarde, com
o capital de dois mil e quatrocentos reis na algibeira. Desde o primeiro
número, a dupla inova no jornal: «Prometemos ao público dar gravura do
acontecimento, sempre que este seja de vulto. Para isso, fora as nossas
gravuras em madeira, chamámos em nosso auxílio Manuel Gustavo Bordallo
Pinheiro, cuja reputação artística não carece do nosso reclame (…) Outros
desenhadores notáveis nos ajudarão nesta tarefa», promete-se logo na primeira
edição.
A morte de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias (em Maio), serve de ensaio para a nova aposta em
gravuras, mas o verdadeiro teste virá depois. Em 15 de Novembro, um tenebroso
incêndio no Chiado marca a inovação de A Tarde. Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro corre para a janela
do consultório médico do seu tio, na Rua Ivens. Dali, desenha incessantemente.
O gravurista espanhol Francisco Pastor transforma o croquis num instantâneo da tragédia. É um êxito em Lisboa. A
tiragem chega a 20 mil exemplares e assusta O Século, que propõe a junção dos dois títulos, rapidamente
recusada.
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| Exemplo das gravuras/croquis de A Tarde, 11 de Novembro de 1889 (a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) |
Semanas antes, aquando da morte do rei Dom Luís em Outubro, A Tarde conseguira também organizar um suplemento com
gravuras do rei moribundo. Francisco Pastor não demora mais de três horas a
transformar os croquis em
gravuras. «A gravura do acontecimento, rápida e precisa, inaugura-a A
Tarde e com ela conquista toda a aura
popular», gaba-se Schwalbach.
O jornal vende-se bem e coloca novos desafios aos seus mentores. Em
Dezembro de 1889, Dom Carlos será coroado e o jornal quer fazer novo
brilharete. «Eu barafustava, arrepelava a imaginação a pensar na forma de
arranjar outro suplemento com um grande retrato, de todo desconhecido, do novo
monarca», conta.
A meditação leva o jornalista a passear pelas ruas da cidade. Vê numa
tabacaria um exemplar da Illustration Française, revista de culto no século XIX graças à profusão de imagens e
tratamento gráfico cuidado. Na primeira página, a publicação francesa traz um
aparatoso retrato do general Boulanger a cavalo. «Lampeja-me no cérebro uma
ideia maravilhosa», conta Schwalbach. «Compro a Ilustração, mando chamar o Pastor e digo-lhe ‘O meu amigo
substitui neste retrato do Boulanger a cabeça dele pela cabeça de Dom Carlos,
põe-lhe um capacete e veste-lhe uma farda nossa, de generalíssimo. E aqui temos
um retrato de Dom Carlos a cavalo, que ele nunca tirou!’»
A foto original – sabêmo-lo pelo olisipógrafo Mário Costa, autor de O Chiado Pitoresco e Elegante –, fora captada pelo fotógrafo João Francisco Camacho, natural do Funchal, onde exercera a profissão de encadernador. Na Madeira, cedo aprendeu a arte da fotografia e rumou a Lisboa para se especializar. Em Paris, fora mesmo «discípulo do mestre Disderic» e, regressado a Portugal, foi naturalmente procurado por fidalgos e burgueses. A própria família real posara para ele e Dom Carlos acedeu igualmente ao seu pedido. João Camacho faleceria em 1998, oito anos depois do episódio que aqui se narra.
A foto original – sabêmo-lo pelo olisipógrafo Mário Costa, autor de O Chiado Pitoresco e Elegante –, fora captada pelo fotógrafo João Francisco Camacho, natural do Funchal, onde exercera a profissão de encadernador. Na Madeira, cedo aprendeu a arte da fotografia e rumou a Lisboa para se especializar. Em Paris, fora mesmo «discípulo do mestre Disderic» e, regressado a Portugal, foi naturalmente procurado por fidalgos e burgueses. A própria família real posara para ele e Dom Carlos acedeu igualmente ao seu pedido. João Camacho faleceria em 1998, oito anos depois do episódio que aqui se narra.
Pastor, o gravurista espanhol, demonstra toda a sua competência na empreitada.
Inverte a posição do cavalo para dificultar o reconhecimento da figura. Monta a
face do novo rei no boneco. A 27 de Dezembro, o jornal anuncia para o dia seguinte «a gravura de 0,32
de altura por 0,30 de largura, representando El-Rei Dom Carlos fardado de
generalíssimo, a cavalo, soberbo trabalho saído da casa Pastor». No dia 28,
publica a imagem.
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| Boulanger (original) e Dom Carlos (montagem) Arquivos do autor e da Illustration Française |
«O suplemento vendeu-se como canela», conta Schwalbach. «Depois soube que
o próprio rei Dom Carlos, ao vê-lo, admiradíssimo perguntou: ‘Mas como é que
arranjaram um retrato meu que não tirei?’»
Terá sido a primeira manipulação de imagem da imprensa diária portuguesa envolvendo figuras de Estado.
EPÍLOGOS
A Tarde não sobreviveu muito
tempo. No Ultimato de 1890, Urbano de Castro e Eduardo Schwalbach aceitaram um
pedido do ministro Lopo Vaz e não atacaram os termos do pacto de Inglaterra com
Portugal, termos esses que forçavam o reino português a pedir autorização da coroa
inglesa antes de alienar qualquer colónia. No furacão popular que varreu a
sociedade portuguesa com raiva e recriminações, A Tarde foi quase destruída. «Os seus exemplares foram
arrancados das mãos dos vendedores e, com eles em pedaços, fizeram-se fogueiras
no Rossio e na Praça de Camões», conta Schwalbach. Dois anos depois, em 1892, o
jornal fundiu-se com a Gazeta de Portugal.
Schwalbach abraçaria então uma carreira teatral com muito sucesso.
Várias peças da sua autoria foram encenadas no Teatro Nacional Dona Maria
durante a monarquia e a República encontrou-o já como professor do
Conservatório. Voltou ao jornalismo em 1924, como director do Diário de Notícias, após a
nomeação de Augusto de Castro para um cargo diplomático no estrangeiro. Deveria ter sido uma nomeação temporária, mas Schwalbach manteve-se no cargo até 1939 e cumpriria ainda novo mandato entre Janeiro de 1945 e a data da sua morte. Apresentou-se sempre como um director a prazo, mas a verdade é que esse prazo dilatou-se extraordinariamente.
O fundador da dinastia dos Verrumas faleceu em 1946, aos 86 anos, em
Lisboa. Quis o destino – e uma certa propensão para as grandes cenas teatrais –
que falecesse no dia 8 de Dezembro, o mesmo dia em que, 60 anos antes, o
casamento na Igreja dos Mártires em Lisboa decorrera sob o signo das verrumas
por sua exclusiva responsabilidade.
sábado, junho 04, 2016
Vinganças
Conta Eduardo Schwalbach nas suas Memórias que Dom Luís I
e Mariano de Carvalho, director do Diário Popular,
odiavam-se discretamente. O Popular era o jornal que
mais atacava o monarca.
Um dia de 1886, já perto do final da vida, o rei teve de engolir o sapo
e «confiar ao seu terrível detractor a pasta da Fazenda».
Vingou-se. Ao findar
uma assinatura real a que assistia o novo ministro, o rei puxou-o de parte e perguntou-lhe
se gostava de música.
— Sim, meu Senhor – respondeu Mariano.
— Então venha cá!
Durante noventa minutos implacáveis, Dom Luís torturou Mariano de
Carvalho, «arrepiando os ouvidos da sua vítima com uma violoncelada quase
seguida». O monarca tocava realmente mal o instrumento.
«Encantado por fora e como um urso por dentro», Mariano saiu daquela
tormenta quase a espumar. «Sua Majestade voltou-se para o seu camarista e
disse-lhe, esfregando as mãos de contente: — Estou vingado!»
domingo, maio 29, 2016
Heróis anónimos?
Jorge Lacão avisa no prefácio que a obra lê-se como um thriller. Não sei que thrillers Lacão tem lido, mas é um comentário totalmente
absurdo e desajustado das 518 páginas que se seguem. Apesar dessa entrada em
cena à Charlot, com um tropeção logo de rompante, esta obra de Wilton Fonseca e
Mário de Carvalho, Heróis anónimos, Jornalismo de Agência, História
da ANOP e da NP (1975-1986), possui
reconhecidos motivos de interesse.
Comecemos a recensão pelo mais óbvio: nunca tal fora feito; nunca ninguém
metera literalmente a mão nos arquivos das agências noticiosas do início do
processo democrático, procurando deles extrair lições e tendências. Ao longo de
páginas e páginas de um corpo de texto irritantemente pequeno, acumulam-se
ordens de serviço, actas de reuniões, processos disciplinares, boletins
estatísticos (maioritariamente da ANOP). Essa recolha fica agora feita – ou,
pelo menos, iniciada. O terreno foi, pela primeira vez, aterrado e limpo para
que se possa agora analisar cientificamente a informação, para lá do ruído e da
desinformação. Esse é o mérito principal.
O objecto do livro é a explicação do processo de génese da ANOP, que
deveria ter sido uma cooperativa, transferindo «a propriedade e a direcção
editorial da agência do Estado para os seus utilizadores primeiros, os media»
(pg. 34). Não o foi. A ANOP nasceu estatizada, com tudo o que isso implicou. «A
cada mudança de governo correspondia um período de instabilidade
administrativa, com as esperadas alterações na administração (…) Para ter um
Conselho de Redacção que não lhes fosse hostil, as sucessivas administrações,
por propostas dos directores de informação ou por sugestão do poder político,
admitiam mais jornalistas, o que fez com que, ao fim de alguns anos, a agência
atingisse um quadro de funcionários incompatível com a dimensão dos media do
país», escreve-se na página 79. A assimilação de quadros da Lusitânia e da ANI,
antepassadas da ANOP, foi outro fardo pesado.
As pressões governamentais sobre o rumo da informação são sumariamente
empurradas para os I e II Governos Provisórios, através de um testemunho de
1980 de José Manuel Barroso, um dos directores de informação da ANOP (pg. 139),
que recorda casos em que chegaram a ser enviadas à agência entrevistas
completas, com perguntas e respostas, para difusão. No resto da obra, Fonseca e
Carvalho não se debruçam particularmente sobre as ingerências governamentais
sobre a informação. Preferem, ao invés, concentrar esforços na luta pela
sobrevivência financeira da ANOP, constantemente asfixiada. Apesar de não
existir índice remissivo na obra (e que falta me fez!), atrevo-me a prever que
o nome do secretário de Estado José Alfaia, principal adversário da ANOP
durante o governo Balsemão, será o nome mais focado ao longo de todo o livro…
Vamos ao reverso da medalha. Tal como seria desaconselhável que um
cirurgião realizasse uma operação sobre si próprio ou que um advogado
defendesse o seu próprio caso, é desadequado e pouco sério que uma investigação
que se apresenta como “História da ANOP e da NP” (não “uma história”, mas
“história”) seja levada a cabo por um agente social com responsabilidade
directa nas escolhas (felizes e infelizes) do percurso. Não se pode olhar para
uma casa simultaneamente do interior e do exterior, e a tentativa de o fazer
com um pé na ombreira da porta é arriscada.
Não tenho dúvidas de que Wilton Fonseca é uma das pessoas que mais sabe
em Portugal sobre estes onze anos das duas agências. Em qualquer esforço
histórico e académico, teria sempre de ser uma fonte importante de documentos e
memórias sobre este tema. Porém, noutro papel – o do historiador –, as
roupas parecem demasiado apertadas, sobretudo quando é chamado a comentar
episódios em que participou como director-adjunto de informação. Soam
mal passagens como esta: «Havia uma larga faixa de utilizadores e observadores
que encaravam a obra da dupla Barroso-Fonseca à frente da agência como
positiva.» (pg. 198) Até pode ser verdade, mas fica mal.
Dou outros dois exemplos.
A propósito da queda do avião que transportava Sá Carneiro em 1980, Wilton escreve: «O maior problema da Direcção de Informação não foi
controlar a produção dos jornalistas, mas sim o administrador Santos Cruz que
insistia que a ANOP deveria noticiar que o PM tinha sido vítima de um atentado
bombista. Interrogado pelo próprio director-adjunto de informação, sobre a
fonte que a agência deveria citar na notícia, respondeu: ‘Eu.’» (pg. 151) Vêm à
memória as conferências de imprensa do célebre futebolista que falava de si na
terceira pessoa…
Noutra ocasião, a administração nomeia Cartaxo e Trindade para
director-adjunto de informação, cargo que passa a ser bicéfalo (pg. 216). A
nomeação de um dos homens que mais pugnara pela tradução e publicação do Livro
Verde de Kadhafi foi certamente uma escolha
exótica e injusta. Mas soam mal as críticas pessoais que Wilton Fonseca lhe
move, lembrando que se apresentava como «licenciado em Filologia Românica (que
não era) e como assistente da professora Andrée Crabbé Rocha, o que também não
era verdade».
Ao longo da obra, o autor principal [e chamo-lhe autor principal porque o
seu nome figura em corpo maior na capa] é, em simultâneo, actor participante e
observador imparcial. Como o ministro Jim Hacker (da série Yes, Minister) certo dia descobriu, podem usar-se dois chapéus,
mas continuamos a ter só uma cabeça!
A obra hesita entre dois pêndulos. Por um lado, assume-se como um livro
branco das agências, listando nomeações, cargos, actas, decretos – é a
abordagem mais árida, quase penosa de ler, mas onde se misturam os tais chapéus
do autor principal; noutras passagens, muda a agulha para os episódios
rocambolescos, dramáticos ou acidentais, típicos da vida de qualquer
organização noticiosa. É neste último terreno que a obra merece maior crédito,
recuperando episódios como a nomeação flagrante do irmão de um director-geral
para um cargo na agência (pg.47), a existência (real ou fictícia) de antenas das FP-25 na própria ANOP (pg. 131-133), as pequenas
vitórias de fotojornalismo em Camarate ou em Alcafache (pg. 123), o dia em que
a ANOP bateu a própria Comissão Nacional de Eleições, apurando primeiro os
resultados eleitorais (pg. 73), o nome infeliz da cooperativa que daria origem
à NP e os trocadilhos entre PorPress e PornoPress que rapidamente brotaram (pg.
233), o erro amador do Conselho Geral da ANOP que, ao enviar cartas de
despedimento a alguns trabalhadores, evocou o decreto-lei errado, gastando
tempo e dinheiro (pg. 276), o caso do telex falso (pg. 430) ou a gaffe
da visita de César Torres ao Fórum Picoas
para ver as instalações inexistentes da nova LUSA (pg. 500).
Há um último aspecto que me incomodou, embora reconhecendo que é uma opção que cabe ao próprio autor. Haveria mesmo necessidade de contar os pormenores
sórdidos do processo movido a Adriano de Carvalho em 1980 (pg. 155)? Ou do
despedimento de Paulo David (pg. 165-166)? Ou de atirar Luís Pinheiro de
Almeida para a linha do comboio com tanto requinte no caso do telex falso (pg.
345-348)? Ou de ridicularizar os primeiros dois telexes produzidos pela NP (pg.
299)? Ou de associar a morte de Cristina Ramos Braga à luta pela sobrevivência
das agências? (pg. 357). Não creio…
Os autores chamaram ao livro Heróis anónimos. Percebo o anonimato, próprio da vida nas agências,
mas não subscrevo o heroísmo que lhe está subjacente, nem concordo com a
afirmação da introdução (pg. 15), segundo a qual «elas [a ANOP e a NP]
constituíram a mais interessante experiência de jornalismo vivida em Portugal
no século XX». Não foram.
O Diário Popular (fundado em plena
Segunda Guerra Mundial), O Diário Ilustrado (criado e esmagado pela repressão), o
Expresso (semanário de referência que tinha
tudo para correr mal), a criação de serviços de informação na Emissora Nacional
e na Rádio Renascença (contra todas as vontades), a aventura da TSF (pirata,
primeiro, e rádio do regime depois) ou a eclosão de estações privadas de
televisão poderiam transportar essa mesma coroa. Que, mesmo assim, também não
seria heróica...
Wilton Fonseca e Mário de Carvalho. Heróis anónimos, Jornalismo de Agência, História da ANOP
e da NP (1975-1986). Lisboa, Perfil
Criativo Edições: 2016
sábado, abril 09, 2016
Varela Gomes, biografia de António Louçã
«O então capitão Diniz de Almeida recorda que tinha em mente a infelicidade de Varela Gomes em Beja quando foi prender o seu comandante no 25 de Abril de 1974: teve então o cuidado de enfrentá-lo com uma G3 em posição de rajada, avisando-o logo de que não queria ser obrigado a abatê-lo.»
Esta é uma das novidades apresentadas agora pelo historiador António Louçã em Varela Gomes, Biografia (Parsifal, 2016) e comprova, como outros exemplos, a ligação umbilical entre a revolta de Beja no último dia de 1961 e a revolução consumada doze anos depois. O precedente de Beja esteve sempre na mente dos conspiradores de 1974 – pela espontaneidade ingénua, pela ausência de planificação de longo curso, pela coragem de um punhado de homens, pela força do exemplo de um militar. Falhou como falham quase todos os actos desesperados na história, mas vincou um ponto e isso basta para João Varela Gomes.
Autor, entre outras obras, do estudo sobre os negócios de ouro do Estado Novo com a Alemanha nazi, Louçã lançou-se agora num projecto biográfico ingrato sobre o militar de quem pouco se escreve. Como nota no prefácio, nem a exposição organizada em 2014 por Pacheco Pereira sobre 200 personalidades associadas à III República, nem os volumes de Filipe Ribeiro de Meneses ou de Rui Ramos sobre a história do Estado Novo, mencionam Varela Gomes. Porque será?
É provável que o percurso do coronel, regularmente no lado errado da história, jogue um papel decisivo na definição histórica da sua relevância. A história é escrita por aqueles que enforcaram os heróis — queixa-se Robert the Bruce no início de "Braveheart". Derrotado nas eleições de 1961, vencido e baleado em Beja no final desse ano, preso pela PIDE e julgado pelos tribunais da ditadura, alheio à conspiração de 1974, vencido em 25 de Novembro de 1975 e mal tolerado no exílio africano em Angola e Moçambique, Varela Gomes foi alvo de sucessivas derrotas simbólicas, mas isso não apaga o seu papel na história do século XX português.
Bem documentado, juntando entrevistas contemporâneas com trechos escritos pelos protagonistas nos últimos cinquenta anos, Louçã produziu uma saborosa biografia que se lê num ápice. Estabelece como premissa de partida que João Varela Gomes não foi o promotor de quase nenhum dos actos de ruptura de que o acusam, mas nunca se esquivou a neles participar, fosse nas eleições, no golpe de Beja, na resistência, na revolução de 1974 ou no combate à contra-revolução.
As passagens sobre a campanha eleitoral de 1961, a revolta de Beja e a prisão subsequente são notáveis – as melhores da obra. A não participação do autor nos actos de 1974 é igualmente explorada e resumida nas duras palavras de Vasco Lourenço sobre os militares que não fizeram as suas revoluções quando puderam e vinham agora estragar as dos outros. Curiosamente, Agostinho Neto retomará as mesmas palavras em 1977 sobre os revolucionários que não fizeram a revolução nos seus países e vão agora tentar fazê-la no dos outros!
Voluntariamente, Louçã deixa em aberto duas das acusações mais graves que a história registou sobre Varela Gomes – a de que propusera a pena de morte após os acontecimentos de Março de 1975 e a de que se bateria com armas e sangue em Novembro de 1975 para travar a contra-revolução se a ocasião o permitisse e a liderança da esquerda o quisesse.
Por decisão do autor – e eventualmente cumplicidade de barricada –, o livro termina com uma apreciação dos contributos teóricos de Varela Gomes para o projecto da revista Versus. É uma opção cronologicamente justificada, mas que impede o livro de terminar com um “bang”, como mereceria.
«Que outros triunfem onde nós fomos vencidos», disse Varela Gomes na intervenção que lhe foi permitida, no final do seu julgamento público após o golpe de Beja. É a revolta de Beja que constitui o principal legado de um militar diferente de qualquer outro (o insuspeito Google associa de imediato as palavras “Varela Gomes” a “Beja” e isso diz quase tudo). É todo um programa de intervenção que ali ficou expresso e que António Louçã meritoriamente agora recupera.
quarta-feira, março 23, 2016
Braz Burity
Por acidente,
descobri uma peça adicional para uma história que em tempos contei no meu
blogue e foi depois publicada em Parem as
Máquinas! (Parsifal, 2015). Na farsa que ludibriou o jornal O Mundo em 1914, levando-o a publicar a
notícia de que fora eleito um papa português, o principal mentor da rábula foi,
por admissão própria, Joaquim Madureira, que assinava as suas sátiras como Braz
Burity. Não lhe conhecia as feições. Descobri-as num exemplar da revista
satírica Sempre Fixe. Num texto
emocionado, Gilvaz de Santana escreve ali sobre Madureira: «Foi decerto
exagerado, como caricaturista que era, tanto nas taponas que dava a uns, como
nos ditirambas que dispensava a outros, mais afortunados (…), mas tinha talento
e tinha pilhas de graça.»
Eis então Joaquim Madureira, o homem que enganou O Mundo.
terça-feira, fevereiro 02, 2016
Um repórter inconveniente face ao «império dos sentados»
Tive um chefe de redacção, no início da década de 1990, que se queixava –
já então – da «liofilização das redacções», da produção em série de jornalistas
com as mesmas valências, a mesma formação, o mesmo apetite por tópicos,
estilos, títulos ou géneros jornalísticos. A formação padronizada de repórteres
poderá ter vantagens da mesma maneira que a liofilização protege os alimentos e
degrada-os com mais lentidão, mas o velho Galvão acreditava que, com ela,
perdia-se o sabor da diferença. Goste-se ou não das redacções e do jornalismo
das décadas de 1970 e 1980, mas ali juntavam-se indivíduos para todos os gostos
e feitios, de todas as proveniências e backgrounds,
tipógrafos e revisores convertidos, advogados e sociólogos recauchutados,
escritores frustrados e publicistas desorientados, bêbados em remissão e
meninos de coro – gente com vícios,
claro, mas inegavelmente com mais diversidade. Fui-me lembrando disto enquanto
lia, em dois dias, Um Repórter
Inconveniente (Chiado, 2015), livro de memórias de Aurélio Cunha,
jornalista do Diário do Norte, do Jornal de Notícias (JN) e do Expresso.
Aurélio Cunha fez jornalismo de investigação durante três décadas e meia,
entre 1970 e 2003. Para mim (as opiniões valem o que valem), foi o melhor do
seu tempo e custa a crer que não ainda não seja amplamente reconhecido como o
jornalista que mais produziu neste domínio, abrindo um trilho desconhecido para
os restantes, testando métodos e impondo critérios.
Desde a semana passada que, muito justamente, têm chovido elogios ao
filme de Hollywood sobre a investigação dos repórteres do Boston Globe e os casos de pedofilia na hierarquia eclesiástica da
cidade norte-americana. O livro de Aurélio Cunha serve de contraponto a esse
debate e evoca uma narrativa à nossa escala, muito mais próxima do anti-herói
do que da visão romântica do muckracker
– a do jornalista de investigação isolado na redacção «qual excrescência»,
desvalorizado pelas chefias que o consideram um luxo («a puta mais cara do JN»,
foi um dos mimos que ouviu por gastar tempo a investigar quando poderia dar
resposta às necessidades da agenda diária), forçado a investigar no tempo
livre, a gastar dinheiro do seu bolso ou a forjar baixas psiquiátricas para responder
à disponibilidade das fontes.
Costa Carvalho (outro gigante) refere no prefácio que, face ao «império dos
sentados» em que a agenda e a rotinização do serviço jornalístico dominam,
Aurélio Cunha privilegiou o «império dos sentidos», o
faro, o olfacto de uma história potencial, que valeria a pena escavar. «Foi uma
fera, um predador, não podia viver em cativeiro, era totalmente avesso ao
jornalista-agenda.»
Intriga-me que Aurélio Cunha tivesse aguentado trinta anos nesta
trincheira, pressionado a entregar trabalho cedo de mais ou a subjugar-se à
ditadura do serviço. Só há uma explicação: apresentou mais “furos” do que
qualquer outro, derrubou obstáculos a eito (sem escolher alvos, se me faço
entender) e construiu histórias como caixas-fortes inexpugnáveis (apenas dois
processos judiciais em toda a carreira, um dos quais efectivamente julgado e do
qual resultou a absolvição do réu).
Um Repórter Inconveniente é um espelho de três décadas de
investigação em temas maioritariamente relacionados com serviços públicos do
Porto e não quero acreditar que o carácter nortenho da saga constitua um dos
motivos para a desvalorização do percurso deste jornalista. Uma boa história
não tem origem geográfica. E o livro é, acima de tudo, um manual de boas
práticas do primeiro jornalista que conheço segurado pelo seu próprio jornal,
depois de ameaçado de morte em 1996.
Ao serviço do JN, Aurélio Cunha fez um pouco de todo. Destaco duas
proezas: fingiu ser sacristão para entrar em Custóias no Natal de 1973 e passou
o óbito a si próprio em 1987 no Hospital de São João, dando como nome do
defunto Astromar Salta e José Luís R. Santeiro como nome do médico,
meta-referências a Roque Santeiro,
telenovela de sucesso na época.
Das crianças que chegavam embriagadas à escola aos roubos na facturação
telefónica dos TLP, da violação de menores em Custóias à comprovação
laboratorial da má qualidade das águas do Porto, do escândalo de órgãos
roubados a cadáveres no Hospital de São João à confirmação de erros grosseiros
no serviço de maternidade do Hospital de Aveiro-Norte, este é um roteiro
possível para interpretar o país. Não é bonito, não é um primor literário, mas
é real.
Um Repórter Inconveniente, Aurélio Cunha, Lisboa, Chiado, 2015
(15€)
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