sábado, junho 04, 2016

Vinganças

Conta Eduardo Schwalbach nas suas Memórias que Dom Luís I e Mariano de Carvalho, director do Diário Popular, odiavam-se discretamente. O Popular era o jornal que mais atacava o monarca.
Um dia de 1886, já perto do final da vida, o rei teve de engolir o sapo e «confiar ao seu terrível detractor a pasta da Fazenda».
Vingou-se. Ao findar uma assinatura real a que assistia o novo ministro, o rei puxou-o de parte e perguntou-lhe se gostava de música.

— Sim, meu Senhor – respondeu Mariano.
— Então venha cá!

Durante noventa minutos implacáveis, Dom Luís torturou Mariano de Carvalho, «arrepiando os ouvidos da sua vítima com uma violoncelada quase seguida». O monarca tocava realmente mal o instrumento.


«Encantado por fora e como um urso por dentro», Mariano saiu daquela tormenta quase a espumar. «Sua Majestade voltou-se para o seu camarista e disse-lhe, esfregando as mãos de contente: — Estou vingado!»

domingo, maio 29, 2016

Heróis anónimos?

Jorge Lacão avisa no prefácio que a obra lê-se como um thriller. Não sei que thrillers Lacão tem lido, mas é um comentário totalmente absurdo e desajustado das 518 páginas que se seguem. Apesar dessa entrada em cena à Charlot, com um tropeção logo de rompante, esta obra de Wilton Fonseca e Mário de Carvalho, Heróis anónimos, Jornalismo de Agência, História da ANOP e da NP (1975-1986), possui reconhecidos motivos de interesse.
Comecemos a recensão pelo mais óbvio: nunca tal fora feito; nunca ninguém metera literalmente a mão nos arquivos das agências noticiosas do início do processo democrático, procurando deles extrair lições e tendências. Ao longo de páginas e páginas de um corpo de texto irritantemente pequeno, acumulam-se ordens de serviço, actas de reuniões, processos disciplinares, boletins estatísticos (maioritariamente da ANOP). Essa recolha fica agora feita – ou, pelo menos, iniciada. O terreno foi, pela primeira vez, aterrado e limpo para que se possa agora analisar cientificamente a informação, para lá do ruído e da desinformação. Esse é o mérito principal.
O objecto do livro é a explicação do processo de génese da ANOP, que deveria ter sido uma cooperativa, transferindo «a propriedade e a direcção editorial da agência do Estado para os seus utilizadores primeiros, os media» (pg. 34). Não o foi. A ANOP nasceu estatizada, com tudo o que isso implicou. «A cada mudança de governo correspondia um período de instabilidade administrativa, com as esperadas alterações na administração (…) Para ter um Conselho de Redacção que não lhes fosse hostil, as sucessivas administrações, por propostas dos directores de informação ou por sugestão do poder político, admitiam mais jornalistas, o que fez com que, ao fim de alguns anos, a agência atingisse um quadro de funcionários incompatível com a dimensão dos media do país», escreve-se na página 79. A assimilação de quadros da Lusitânia e da ANI, antepassadas da ANOP, foi outro fardo pesado.
As pressões governamentais sobre o rumo da informação são sumariamente empurradas para os I e II Governos Provisórios, através de um testemunho de 1980 de José Manuel Barroso, um dos directores de informação da ANOP (pg. 139), que recorda casos em que chegaram a ser enviadas à agência entrevistas completas, com perguntas e respostas, para difusão. No resto da obra, Fonseca e Carvalho não se debruçam particularmente sobre as ingerências governamentais sobre a informação. Preferem, ao invés, concentrar esforços na luta pela sobrevivência financeira da ANOP, constantemente asfixiada. Apesar de não existir índice remissivo na obra (e que falta me fez!), atrevo-me a prever que o nome do secretário de Estado José Alfaia, principal adversário da ANOP durante o governo Balsemão, será o nome mais focado ao longo de todo o livro…
Vamos ao reverso da medalha. Tal como seria desaconselhável que um cirurgião realizasse uma operação sobre si próprio ou que um advogado defendesse o seu próprio caso, é desadequado e pouco sério que uma investigação que se apresenta como “História da ANOP e da NP” (não “uma história”, mas “história”) seja levada a cabo por um agente social com responsabilidade directa nas escolhas (felizes e infelizes) do percurso. Não se pode olhar para uma casa simultaneamente do interior e do exterior, e a tentativa de o fazer com um pé na ombreira da porta é arriscada.
Não tenho dúvidas de que Wilton Fonseca é uma das pessoas que mais sabe em Portugal sobre estes onze anos das duas agências. Em qualquer esforço histórico e académico, teria sempre de ser uma fonte importante de documentos e memórias sobre este tema. Porém, noutro papel – o do historiador –, as roupas parecem demasiado apertadas, sobretudo quando é chamado a comentar episódios em que participou como director-adjunto de informação. Soam mal passagens como esta: «Havia uma larga faixa de utilizadores e observadores que encaravam a obra da dupla Barroso-Fonseca à frente da agência como positiva.» (pg. 198) Até pode ser verdade, mas fica mal.
Dou outros dois exemplos.
A propósito da queda do avião que transportava Sá Carneiro em 1980, Wilton escreve: «O maior problema da Direcção de Informação não foi controlar a produção dos jornalistas, mas sim o administrador Santos Cruz que insistia que a ANOP deveria noticiar que o PM tinha sido vítima de um atentado bombista. Interrogado pelo próprio director-adjunto de informação, sobre a fonte que a agência deveria citar na notícia, respondeu: ‘Eu.’» (pg. 151) Vêm à memória as conferências de imprensa do célebre futebolista que falava de si na terceira pessoa…
Noutra ocasião, a administração nomeia Cartaxo e Trindade para director-adjunto de informação, cargo que passa a ser bicéfalo (pg. 216). A nomeação de um dos homens que mais pugnara pela tradução e publicação do Livro Verde de Kadhafi foi certamente uma escolha exótica e injusta. Mas soam mal as críticas pessoais que Wilton Fonseca lhe move, lembrando que se apresentava como «licenciado em Filologia Românica (que não era) e como assistente da professora Andrée Crabbé Rocha, o que também não era verdade».
Ao longo da obra, o autor principal [e chamo-lhe autor principal porque o seu nome figura em corpo maior na capa] é, em simultâneo, actor participante e observador imparcial. Como o ministro Jim Hacker (da série Yes, Minister) certo dia descobriu, podem usar-se dois chapéus, mas continuamos a ter só uma cabeça!
A obra hesita entre dois pêndulos. Por um lado, assume-se como um livro branco das agências, listando nomeações, cargos, actas, decretos – é a abordagem mais árida, quase penosa de ler, mas onde se misturam os tais chapéus do autor principal; noutras passagens, muda a agulha para os episódios rocambolescos, dramáticos ou acidentais, típicos da vida de qualquer organização noticiosa. É neste último terreno que a obra merece maior crédito, recuperando episódios como a nomeação flagrante do irmão de um director-geral para um cargo na agência (pg.47), a existência (real ou fictícia) de antenas das FP-25 na própria ANOP (pg. 131-133), as pequenas vitórias de fotojornalismo em Camarate ou em Alcafache (pg. 123), o dia em que a ANOP bateu a própria Comissão Nacional de Eleições, apurando primeiro os resultados eleitorais (pg. 73), o nome infeliz da cooperativa que daria origem à NP e os trocadilhos entre PorPress e PornoPress que rapidamente brotaram (pg. 233), o erro amador do Conselho Geral da ANOP que, ao enviar cartas de despedimento a alguns trabalhadores, evocou o decreto-lei errado, gastando tempo e dinheiro (pg. 276), o caso do telex falso (pg. 430) ou a gaffe da visita de César Torres ao Fórum Picoas para ver as instalações inexistentes da nova LUSA (pg. 500).
Há um último aspecto que me incomodou, embora reconhecendo que é uma opção que cabe ao próprio autor. Haveria mesmo necessidade de contar os pormenores sórdidos do processo movido a Adriano de Carvalho em 1980 (pg. 155)? Ou do despedimento de Paulo David (pg. 165-166)? Ou de atirar Luís Pinheiro de Almeida para a linha do comboio com tanto requinte no caso do telex falso (pg. 345-348)? Ou de ridicularizar os primeiros dois telexes produzidos pela NP (pg. 299)? Ou de associar a morte de Cristina Ramos Braga à luta pela sobrevivência das agências? (pg. 357). Não creio…
Os autores chamaram ao livro Heróis anónimos. Percebo o anonimato, próprio da vida nas agências, mas não subscrevo o heroísmo que lhe está subjacente, nem concordo com a afirmação da introdução (pg. 15), segundo a qual «elas [a ANOP e a NP] constituíram a mais interessante experiência de jornalismo vivida em Portugal no século XX». Não foram.
O Diário Popular (fundado em plena Segunda Guerra Mundial), O Diário Ilustrado (criado e esmagado pela repressão), o Expresso (semanário de referência que tinha tudo para correr mal), a criação de serviços de informação na Emissora Nacional e na Rádio Renascença (contra todas as vontades), a aventura da TSF (pirata, primeiro, e rádio do regime depois) ou a eclosão de estações privadas de televisão poderiam transportar essa mesma coroa. Que, mesmo assim, também não seria heróica...


Wilton Fonseca e Mário de Carvalho. Heróis anónimos, Jornalismo de Agência, História da ANOP e da NP (1975-1986). Lisboa, Perfil Criativo Edições: 2016

sábado, abril 09, 2016

Varela Gomes, biografia de António Louçã


«O então capitão Diniz de Almeida recorda que tinha em mente a infelicidade de Varela Gomes em Beja quando foi prender o seu comandante no 25 de Abril de 1974: teve então o cuidado de enfrentá-lo com uma G3 em posição de rajada, avisando-o logo de que não queria ser obrigado a abatê-lo.»
 Esta é uma das novidades apresentadas agora pelo historiador António Louçã em Varela Gomes, Biografia (Parsifal, 2016) e comprova, como outros exemplos, a ligação umbilical entre a revolta de Beja no último dia de 1961 e a revolução consumada doze anos depois. O precedente de Beja esteve sempre na mente dos conspiradores de 1974 – pela espontaneidade ingénua, pela ausência de planificação de longo curso, pela coragem de um punhado de homens, pela força do exemplo de um militar. Falhou como falham quase todos os actos desesperados na história, mas vincou um ponto e isso basta para João Varela Gomes.
Autor, entre outras obras, do estudo sobre os negócios de ouro do Estado Novo com a Alemanha nazi, Louçã lançou-se agora num projecto biográfico ingrato sobre o militar de quem pouco se escreve. Como nota no prefácio, nem a exposição organizada em 2014 por Pacheco Pereira sobre 200 personalidades associadas à III República, nem os volumes de Filipe Ribeiro de Meneses ou de Rui Ramos sobre a história do Estado Novo, mencionam Varela Gomes. Porque será?
É provável que o percurso do coronel, regularmente no lado errado da história, jogue um papel decisivo na definição histórica da sua relevância. A história é escrita por aqueles que enforcaram os heróis  — queixa-se Robert the Bruce no início de "Braveheart". Derrotado nas eleições de 1961, vencido e baleado em Beja no final desse ano, preso pela PIDE e julgado pelos tribunais da ditadura, alheio à conspiração de 1974, vencido em 25 de Novembro de 1975 e mal tolerado no exílio africano em Angola e Moçambique, Varela Gomes foi alvo de sucessivas derrotas simbólicas, mas isso não apaga o seu papel na história do século XX português.
Bem documentado, juntando entrevistas contemporâneas com trechos escritos pelos protagonistas nos últimos cinquenta anos, Louçã produziu uma saborosa biografia que se lê num ápice. Estabelece como premissa de partida que João Varela Gomes não foi o promotor de quase nenhum dos actos de ruptura de que o acusam, mas nunca se esquivou a neles participar, fosse nas eleições, no golpe de Beja, na resistência, na revolução de 1974 ou no combate à contra-revolução.
As passagens sobre a campanha eleitoral de 1961, a revolta de Beja e a prisão subsequente são notáveis – as melhores da obra. A não participação do autor nos actos de 1974 é igualmente explorada e resumida nas duras palavras de Vasco Lourenço sobre os militares que não fizeram as suas revoluções quando puderam e vinham agora estragar as dos outros. Curiosamente, Agostinho Neto retomará as mesmas palavras em 1977 sobre os revolucionários que não fizeram a revolução nos seus países e vão agora tentar fazê-la no dos outros! 
Voluntariamente, Louçã deixa em aberto duas das acusações mais graves que a história registou sobre Varela Gomes – a de que propusera a pena de morte após os acontecimentos de Março de 1975 e a de que se bateria com armas e sangue em Novembro de 1975 para travar a contra-revolução se a ocasião o permitisse e a liderança da esquerda o quisesse.
Por decisão do autor – e eventualmente cumplicidade de barricada –, o livro termina com uma apreciação dos contributos teóricos de Varela Gomes para o projecto da revista Versus. É uma opção cronologicamente justificada, mas que impede o livro de terminar com um “bang”, como mereceria.
«Que outros triunfem onde nós fomos vencidos», disse Varela Gomes na intervenção que lhe foi permitida, no final do seu julgamento público após o golpe de Beja. É a revolta de Beja que constitui o principal legado de um militar diferente de qualquer outro (o insuspeito Google associa de imediato as palavras “Varela Gomes” a “Beja” e isso diz quase tudo). É todo um programa de intervenção que ali ficou expresso e que António Louçã meritoriamente agora recupera.

quarta-feira, março 23, 2016

Braz Burity


Por acidente, descobri uma peça adicional para uma história que em tempos contei no meu blogue e foi depois publicada em Parem as Máquinas! (Parsifal, 2015). Na farsa que ludibriou o jornal O Mundo em 1914, levando-o a publicar a notícia de que fora eleito um papa português, o principal mentor da rábula foi, por admissão própria, Joaquim Madureira, que assinava as suas sátiras como Braz Burity. Não lhe conhecia as feições. Descobri-as num exemplar da revista satírica Sempre Fixe. Num texto emocionado, Gilvaz de Santana escreve ali sobre Madureira: «Foi decerto exagerado, como caricaturista que era, tanto nas taponas que dava a uns, como nos ditirambas que dispensava a outros, mais afortunados (…), mas tinha talento e tinha pilhas de graça.»
Eis então Joaquim Madureira, o homem que enganou O Mundo.
 
Sempre Fixe, 29 de Setembro de 1954
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Um repórter inconveniente face ao «império dos sentados»


Tive um chefe de redacção, no início da década de 1990, que se queixava – já então – da «liofilização das redacções», da produção em série de jornalistas com as mesmas valências, a mesma formação, o mesmo apetite por tópicos, estilos, títulos ou géneros jornalísticos. A formação padronizada de repórteres poderá ter vantagens da mesma maneira que a liofilização protege os alimentos e degrada-os com mais lentidão, mas o velho Galvão acreditava que, com ela, perdia-se o sabor da diferença. Goste-se ou não das redacções e do jornalismo das décadas de 1970 e 1980, mas ali juntavam-se indivíduos para todos os gostos e feitios, de todas as proveniências e backgrounds, tipógrafos e revisores convertidos, advogados e sociólogos recauchutados, escritores frustrados e publicistas desorientados, bêbados em remissão e meninos de corogente com vícios, claro, mas inegavelmente com mais diversidade. Fui-me lembrando disto enquanto lia, em dois dias, Um Repórter Inconveniente (Chiado, 2015), livro de memórias de Aurélio Cunha, jornalista do Diário do Norte, do Jornal de Notícias (JN) e do Expresso.
Aurélio Cunha fez jornalismo de investigação durante três décadas e meia, entre 1970 e 2003. Para mim (as opiniões valem o que valem), foi o melhor do seu tempo e custa a crer que não ainda não seja amplamente reconhecido como o jornalista que mais produziu neste domínio, abrindo um trilho desconhecido para os restantes, testando métodos e impondo critérios.
Desde a semana passada que, muito justamente, têm chovido elogios ao filme de Hollywood sobre a investigação dos repórteres do Boston Globe e os casos de pedofilia na hierarquia eclesiástica da cidade norte-americana. O livro de Aurélio Cunha serve de contraponto a esse debate e evoca uma narrativa à nossa escala, muito mais próxima do anti-herói do que da visão romântica do muckracker – a do jornalista de investigação isolado na redacção «qual excrescência», desvalorizado pelas chefias que o consideram um luxo («a puta mais cara do JN», foi um dos mimos que ouviu por gastar tempo a investigar quando poderia dar resposta às necessidades da agenda diária), forçado a investigar no tempo livre, a gastar dinheiro do seu bolso ou a forjar baixas psiquiátricas para responder à disponibilidade das fontes.
Costa Carvalho (outro gigante) refere no prefácio que, face ao «império dos sentados» em que a agenda e a rotinização do serviço jornalístico dominam, Aurélio Cunha privilegiou o «império dos sentidos», o faro, o olfacto de uma história potencial, que valeria a pena escavar. «Foi uma fera, um predador, não podia viver em cativeiro, era totalmente avesso ao jornalista-agenda.»
Intriga-me que Aurélio Cunha tivesse aguentado trinta anos nesta trincheira, pressionado a entregar trabalho cedo de mais ou a subjugar-se à ditadura do serviço. Só há uma explicação: apresentou mais “furos” do que qualquer outro, derrubou obstáculos a eito (sem escolher alvos, se me faço entender) e construiu histórias como caixas-fortes inexpugnáveis (apenas dois processos judiciais em toda a carreira, um dos quais efectivamente julgado e do qual resultou a absolvição do réu).
Um Repórter Inconveniente é um espelho de três décadas de investigação em temas maioritariamente relacionados com serviços públicos do Porto e não quero acreditar que o carácter nortenho da saga constitua um dos motivos para a desvalorização do percurso deste jornalista. Uma boa história não tem origem geográfica. E o livro é, acima de tudo, um manual de boas práticas do primeiro jornalista que conheço segurado pelo seu próprio jornal, depois de ameaçado de morte em 1996.
Ao serviço do JN, Aurélio Cunha fez um pouco de todo. Destaco duas proezas: fingiu ser sacristão para entrar em Custóias no Natal de 1973 e passou o óbito a si próprio em 1987 no Hospital de São João, dando como nome do defunto Astromar Salta e José Luís R. Santeiro como nome do médico, meta-referências a Roque Santeiro, telenovela de sucesso na época.
Das crianças que chegavam embriagadas à escola aos roubos na facturação telefónica dos TLP, da violação de menores em Custóias à comprovação laboratorial da má qualidade das águas do Porto, do escândalo de órgãos roubados a cadáveres no Hospital de São João à confirmação de erros grosseiros no serviço de maternidade do Hospital de Aveiro-Norte, este é um roteiro possível para interpretar o país. Não é bonito, não é um primor literário, mas é real.

Um Repórter Inconveniente, Aurélio Cunha, Lisboa, Chiado, 2015 (15€)

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Escreva a sua própria crónica de Vasco Pulido Valente sem recorrer a Vasco Pulido Valente


Talvez o Público não desconfie, mas está a pagar a mesma crónica de Vasco Pulido Valente (VPV) há mais de uma década. Que, por sua vez, é a mesma crónica que o autor escrevia para o Diário de Notícias. E que, por incrível coincidência, foi em tempos publicada em O Independente pelo mesmo autor.
Para poupar despesas à SONAE, apresento-me como voluntário para que o jornal possa construir a sua crónica de VPV sem necessitar de VPV, o que, convenhamos, dá muito menos maçada.
Passo 1 — escolhe-se um tópico, sempre genérico, para não implicar pesquisa. Como qualquer estudante lhe poderá afiançar, a pesquisa é enfadonha e indigna e a recolha de dados é tarefa para gente menor. Se o diabo está nos detalhes, VPV foge-lhe – ao diabo e aos detalhes – com o virtuosismo de um doutorado em Oxford
Passo 2 – estabelece-se à partida o momento em que o tópico (o Estado social, o socialismo, as obras públicas, o PCP — riscar o que interessa) descambou. Por incrível coincidência, qualquer tópico descamba sempre no século XIX, circunstância feliz pois poupa muita reflexão. Não deixa de ser curioso que, embora todo o mundo para lá de VPV seja obviamente dogmático, VPV retribua com a publicação sistemática do mesmo dogma.
Passo 3 — define-se um protagonista (Olof Palme, Mário Soares, Duarte Pacheco, Álvaro Cunhal — riscar o que não interessa) ao qual se aponta o dedo pela sua “ingénua ignorância” (hipótese a) ou pela “ignorância ingénua” (hipótese b) na gestão do dito tópico. É importante não cair no erro de apresentar factos. Todas estas alegações são feitas com a despreocupação de quem não tem dúvidas. Um doutorado em Oxford nunca tem dúvidas.
Passo 4 — tudo, repito, tudo está relacionado com os investimentos em obras públicas de Fontes Pereira de Melo, feitos com dinheiro emprestado, que nos valeram “três décadas de pastoreio despreocupado” até “obviamente nos apresentarem a conta”. O verbo pastorear deve ser utilizado pelo menos uma vez por crónica. Se possível, associado a criatura  e desmiolados. No pensamento de VPV, ora são as criaturas que pastoreiam os desmiolados, ora são os desmiolados que pastoreiam as criaturas.
Passo 5 — o indigenato. VPV fez mais pela causa indígena do que a FUNAI no Brasil. Todos os problemas portugueses justificam-se pelas características do indígena nacional, ocioso, ingénuo e dado a esquentamentos revolucionários. Escusado será dizer que o indígena não frequentou Oxford.
Passo 6 — o parágrafo final deve sublinhar, como os adventistas do sétimo dia, que o fim está próximo. Se possível, com a arrogância de quem sempre o soube. São muito úteis muletas como “como não poderia deixar de ser”, “qualquer pessoa que não tenha estudado nas escolas indígenas adivinha” ou “a tonta cabeça do Dr. (inserir nome) não lhe permite ver que isto vai acabar mal”.
E é isto! Experimente em casa com amigos e em breve publicará também as suas crónicas de Vasco Pulido Valente num divertido jogo interactivo. 
Se tiver mesmo sorte, o engenheiro Belmiro paga-lhe uma avença.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

O fim do programa de incentivo à edição de obras de comunicação social

Saltitando de porta em porta, tudo indica que o programa de incentivos do Estado à edição de obras sobre comunicação social desapareceu na voragem do decreto-lei 24/2015, que extinguiu o Gabinete para os Meios de Comunicação Social e dividiu as competências deste por outros organismos, como as CCDR ou a Direcção-Geral de Política para os Media da Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. De acordo com o que me transmitiram nesta instituição, o novo diploma (23/2015) é omisso sobre a continuidade do programa, focando-se apenas no apoio directo a órgãos de comunicação de social, pelo que provavelmente terminou essa experiência de mais de uma década de apoios à publicação de dissertações e outros estudos. É pena!


Declaração de interesses: em 2005 e 2015, tive dois projectos ali aprovados.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Almada, os Painéis, A Geometria e Tudo



Com alguma discrição, a Assírio & Alvim editou, no último quadrimestre de 2015, Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo, obra organizada pelo jornalista António Valdemar, baseado nas entrevistas que conduziu com o pintor modernista no início da década de 1960 e em profunda recolha documental sobre aquilo que José de Bragança, némesis de Almada, chamou no Diário Popular o «Problema dos Painéis».
O livro revela um Almada humanizado, procurando, na última década de vida, assegurar o seu lugar na história da arte – com os seus defeitos e vícios, obsessões e irritações, mas sobretudo sempre fiel ao programa artístico que apresentara aos portugueses em 1915 e que lhe valeu uma vida de pobreza, quando não escárnio, ao contrário de vários dos seus contemporâneos, menos ciosos da identidade artística e mais aferrados à cultura de massa. Como no poema de Frost, Almada escolheu, de dois caminhos, o mais duro e árduo e isso fez toda a diferença. Mas teve também um preço.
No prefácio, José Manuel dos Santos diz, com muito acerto, que «este é um livro que desfaz a nossa falta dele», formulação brilhante para explicar uma obra que recupera quarenta anos de dedicação de Almada Negreiros aos painéis do Museu Nacional da Arte Antiga e aos primórdios de uma escola portuguesa de pintura. Através de Valdemar, confidente e discípulo, Almada fala dos «Painéis das Janelas Verdes como se os tivesse visto pintar.»  Talvez até mais: «Como se ele, muito antes dele, os tivesse pintado.»
Aqui figuram, para memória histórica, as premissas do pensamento de Almada Negreiros. Entendendo os painéis como expressão máxima de uma escola primitiva de pintura portuguesa que nada deveria ao Gama navegador e ao Camões lírico, Almada recusa qualquer outro documento de suporte. Os painéis são o único documento que lhe interessa, início e meta da investigação. Das relações geométricas entre tábuas, extrai conclusões controversas, mas nem por isso dispiciendas: é ele que encontra a ordem certa do políptico como hoje o conhecemos, organizando os painéis em função dos ladrilhos do chão; é ele também que sugere que os seis painéis fazem parte de um conjunto mais amplo de 15 tábuas, duas das quais perdidas e as restantes dispersas, que deveriam figurar na Capela do Fundador no Mosteiro da Batalha, destino histórico da obra.
Valdemar não esquece que, por estas ousadias, Almada foi duramente vergastado pela crítica. Por imperativo ético, figuram também no livro as controvérsias com José de Bragança, cujo zénite redundou numa cena de pancadaria à porta da Brasileira. As crónicas zombeteiras de Leitão de Barros, o Barros da moral sinuosa e consciência artística volátil. As críticas mordazes de António Soares, talvez as mais dolorosas e pessoais. A célebre votação na Junta de Educação Nacional, que validou em 1940 a proposta de organização da obra-prima de acordo com a premissa de Almada (mas com voto contra de João Couto), depois de 14 anos de lutas e conflitos insanáveis. As caricaturas de Valença sobre a polémica intelectual. E até o suicídio trágico de Henrique Loureiro, «ludibriado por um documento falso, introduzido num códice da Biblioteca Nacional».
O miolo do livro é constituído pelas oito entrevistas que Almada concedeu a António Valdemar e ao Diário de Notícias na Primavera/Verão de 1960 – esforço singular de divulgação do «trabalho de uma vida», só publicado por inegável cumplicidade entre entrevistador e entrevistado e benevolência da direcção do jornal (Augusto de Castro) e da coordenadora do suplemento de Arte & Letras (Natércia Freire). Um nono trabalho, datado de 1963 e até aqui inédito, empresta valor acrescentado ao esforço compilativo.
Por vezes, em esforços semelhantes, o biógrafo não evita o endeusamento do biografado. Não é o caso aqui. Valdemar não esconde os deslizes de Almada, nem ignora o supremo acto de derrota de 1966, quando Almada, o iconoclasta, Almada, o anti-Cristo, Almada, o indefínivel, se ajoelhou perante a Academia Nacional das Belas-Artes e aceitou o título de sócio honorário por aclamação e unanimidade. Como Pessoa zombou um dia de Marinetti, o escritor italiano que zurzia na elite institucional até aceitar a «ribalta da Cave Velha», também Almada se vergou ao tilintar do metal da comenda. 
       Por cansaço, talvez. Mas vergou.

Valdemar, António. Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo. Lisboa, Assírio & Alvim: 2015. 222pp.
Almada em caricatura de Gomes Ferreira, Sempre Fixe, 17 de Dezembro de 1958
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) 
Um resquício da controvérsia em 1931: caricatura de José de Figueiredo, primeiro director do MNAA, por  Francisco Valença, Sempre Fixe, 1931
(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)