quarta-feira, março 23, 2016

Braz Burity


Por acidente, descobri uma peça adicional para uma história que em tempos contei no meu blogue e foi depois publicada em Parem as Máquinas! (Parsifal, 2015). Na farsa que ludibriou o jornal O Mundo em 1914, levando-o a publicar a notícia de que fora eleito um papa português, o principal mentor da rábula foi, por admissão própria, Joaquim Madureira, que assinava as suas sátiras como Braz Burity. Não lhe conhecia as feições. Descobri-as num exemplar da revista satírica Sempre Fixe. Num texto emocionado, Gilvaz de Santana escreve ali sobre Madureira: «Foi decerto exagerado, como caricaturista que era, tanto nas taponas que dava a uns, como nos ditirambas que dispensava a outros, mais afortunados (…), mas tinha talento e tinha pilhas de graça.»
Eis então Joaquim Madureira, o homem que enganou O Mundo.
 
Sempre Fixe, 29 de Setembro de 1954
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Um repórter inconveniente face ao «império dos sentados»


Tive um chefe de redacção, no início da década de 1990, que se queixava – já então – da «liofilização das redacções», da produção em série de jornalistas com as mesmas valências, a mesma formação, o mesmo apetite por tópicos, estilos, títulos ou géneros jornalísticos. A formação padronizada de repórteres poderá ter vantagens da mesma maneira que a liofilização protege os alimentos e degrada-os com mais lentidão, mas o velho Galvão acreditava que, com ela, perdia-se o sabor da diferença. Goste-se ou não das redacções e do jornalismo das décadas de 1970 e 1980, mas ali juntavam-se indivíduos para todos os gostos e feitios, de todas as proveniências e backgrounds, tipógrafos e revisores convertidos, advogados e sociólogos recauchutados, escritores frustrados e publicistas desorientados, bêbados em remissão e meninos de corogente com vícios, claro, mas inegavelmente com mais diversidade. Fui-me lembrando disto enquanto lia, em dois dias, Um Repórter Inconveniente (Chiado, 2015), livro de memórias de Aurélio Cunha, jornalista do Diário do Norte, do Jornal de Notícias (JN) e do Expresso.
Aurélio Cunha fez jornalismo de investigação durante três décadas e meia, entre 1970 e 2003. Para mim (as opiniões valem o que valem), foi o melhor do seu tempo e custa a crer que não ainda não seja amplamente reconhecido como o jornalista que mais produziu neste domínio, abrindo um trilho desconhecido para os restantes, testando métodos e impondo critérios.
Desde a semana passada que, muito justamente, têm chovido elogios ao filme de Hollywood sobre a investigação dos repórteres do Boston Globe e os casos de pedofilia na hierarquia eclesiástica da cidade norte-americana. O livro de Aurélio Cunha serve de contraponto a esse debate e evoca uma narrativa à nossa escala, muito mais próxima do anti-herói do que da visão romântica do muckracker – a do jornalista de investigação isolado na redacção «qual excrescência», desvalorizado pelas chefias que o consideram um luxo («a puta mais cara do JN», foi um dos mimos que ouviu por gastar tempo a investigar quando poderia dar resposta às necessidades da agenda diária), forçado a investigar no tempo livre, a gastar dinheiro do seu bolso ou a forjar baixas psiquiátricas para responder à disponibilidade das fontes.
Costa Carvalho (outro gigante) refere no prefácio que, face ao «império dos sentados» em que a agenda e a rotinização do serviço jornalístico dominam, Aurélio Cunha privilegiou o «império dos sentidos», o faro, o olfacto de uma história potencial, que valeria a pena escavar. «Foi uma fera, um predador, não podia viver em cativeiro, era totalmente avesso ao jornalista-agenda.»
Intriga-me que Aurélio Cunha tivesse aguentado trinta anos nesta trincheira, pressionado a entregar trabalho cedo de mais ou a subjugar-se à ditadura do serviço. Só há uma explicação: apresentou mais “furos” do que qualquer outro, derrubou obstáculos a eito (sem escolher alvos, se me faço entender) e construiu histórias como caixas-fortes inexpugnáveis (apenas dois processos judiciais em toda a carreira, um dos quais efectivamente julgado e do qual resultou a absolvição do réu).
Um Repórter Inconveniente é um espelho de três décadas de investigação em temas maioritariamente relacionados com serviços públicos do Porto e não quero acreditar que o carácter nortenho da saga constitua um dos motivos para a desvalorização do percurso deste jornalista. Uma boa história não tem origem geográfica. E o livro é, acima de tudo, um manual de boas práticas do primeiro jornalista que conheço segurado pelo seu próprio jornal, depois de ameaçado de morte em 1996.
Ao serviço do JN, Aurélio Cunha fez um pouco de todo. Destaco duas proezas: fingiu ser sacristão para entrar em Custóias no Natal de 1973 e passou o óbito a si próprio em 1987 no Hospital de São João, dando como nome do defunto Astromar Salta e José Luís R. Santeiro como nome do médico, meta-referências a Roque Santeiro, telenovela de sucesso na época.
Das crianças que chegavam embriagadas à escola aos roubos na facturação telefónica dos TLP, da violação de menores em Custóias à comprovação laboratorial da má qualidade das águas do Porto, do escândalo de órgãos roubados a cadáveres no Hospital de São João à confirmação de erros grosseiros no serviço de maternidade do Hospital de Aveiro-Norte, este é um roteiro possível para interpretar o país. Não é bonito, não é um primor literário, mas é real.

Um Repórter Inconveniente, Aurélio Cunha, Lisboa, Chiado, 2015 (15€)

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Escreva a sua própria crónica de Vasco Pulido Valente sem recorrer a Vasco Pulido Valente


Talvez o Público não desconfie, mas está a pagar a mesma crónica de Vasco Pulido Valente (VPV) há mais de uma década. Que, por sua vez, é a mesma crónica que o autor escrevia para o Diário de Notícias. E que, por incrível coincidência, foi em tempos publicada em O Independente pelo mesmo autor.
Para poupar despesas à SONAE, apresento-me como voluntário para que o jornal possa construir a sua crónica de VPV sem necessitar de VPV, o que, convenhamos, dá muito menos maçada.
Passo 1 — escolhe-se um tópico, sempre genérico, para não implicar pesquisa. Como qualquer estudante lhe poderá afiançar, a pesquisa é enfadonha e indigna e a recolha de dados é tarefa para gente menor. Se o diabo está nos detalhes, VPV foge-lhe – ao diabo e aos detalhes – com o virtuosismo de um doutorado em Oxford
Passo 2 – estabelece-se à partida o momento em que o tópico (o Estado social, o socialismo, as obras públicas, o PCP — riscar o que interessa) descambou. Por incrível coincidência, qualquer tópico descamba sempre no século XIX, circunstância feliz pois poupa muita reflexão. Não deixa de ser curioso que, embora todo o mundo para lá de VPV seja obviamente dogmático, VPV retribua com a publicação sistemática do mesmo dogma.
Passo 3 — define-se um protagonista (Olof Palme, Mário Soares, Duarte Pacheco, Álvaro Cunhal — riscar o que não interessa) ao qual se aponta o dedo pela sua “ingénua ignorância” (hipótese a) ou pela “ignorância ingénua” (hipótese b) na gestão do dito tópico. É importante não cair no erro de apresentar factos. Todas estas alegações são feitas com a despreocupação de quem não tem dúvidas. Um doutorado em Oxford nunca tem dúvidas.
Passo 4 — tudo, repito, tudo está relacionado com os investimentos em obras públicas de Fontes Pereira de Melo, feitos com dinheiro emprestado, que nos valeram “três décadas de pastoreio despreocupado” até “obviamente nos apresentarem a conta”. O verbo pastorear deve ser utilizado pelo menos uma vez por crónica. Se possível, associado a criatura  e desmiolados. No pensamento de VPV, ora são as criaturas que pastoreiam os desmiolados, ora são os desmiolados que pastoreiam as criaturas.
Passo 5 — o indigenato. VPV fez mais pela causa indígena do que a FUNAI no Brasil. Todos os problemas portugueses justificam-se pelas características do indígena nacional, ocioso, ingénuo e dado a esquentamentos revolucionários. Escusado será dizer que o indígena não frequentou Oxford.
Passo 6 — o parágrafo final deve sublinhar, como os adventistas do sétimo dia, que o fim está próximo. Se possível, com a arrogância de quem sempre o soube. São muito úteis muletas como “como não poderia deixar de ser”, “qualquer pessoa que não tenha estudado nas escolas indígenas adivinha” ou “a tonta cabeça do Dr. (inserir nome) não lhe permite ver que isto vai acabar mal”.
E é isto! Experimente em casa com amigos e em breve publicará também as suas crónicas de Vasco Pulido Valente num divertido jogo interactivo. 
Se tiver mesmo sorte, o engenheiro Belmiro paga-lhe uma avença.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

O fim do programa de incentivo à edição de obras de comunicação social

Saltitando de porta em porta, tudo indica que o programa de incentivos do Estado à edição de obras sobre comunicação social desapareceu na voragem do decreto-lei 24/2015, que extinguiu o Gabinete para os Meios de Comunicação Social e dividiu as competências deste por outros organismos, como as CCDR ou a Direcção-Geral de Política para os Media da Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. De acordo com o que me transmitiram nesta instituição, o novo diploma (23/2015) é omisso sobre a continuidade do programa, focando-se apenas no apoio directo a órgãos de comunicação de social, pelo que provavelmente terminou essa experiência de mais de uma década de apoios à publicação de dissertações e outros estudos. É pena!


Declaração de interesses: em 2005 e 2015, tive dois projectos ali aprovados.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Almada, os Painéis, A Geometria e Tudo



Com alguma discrição, a Assírio & Alvim editou, no último quadrimestre de 2015, Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo, obra organizada pelo jornalista António Valdemar, baseado nas entrevistas que conduziu com o pintor modernista no início da década de 1960 e em profunda recolha documental sobre aquilo que José de Bragança, némesis de Almada, chamou no Diário Popular o «Problema dos Painéis».
O livro revela um Almada humanizado, procurando, na última década de vida, assegurar o seu lugar na história da arte – com os seus defeitos e vícios, obsessões e irritações, mas sobretudo sempre fiel ao programa artístico que apresentara aos portugueses em 1915 e que lhe valeu uma vida de pobreza, quando não escárnio, ao contrário de vários dos seus contemporâneos, menos ciosos da identidade artística e mais aferrados à cultura de massa. Como no poema de Frost, Almada escolheu, de dois caminhos, o mais duro e árduo e isso fez toda a diferença. Mas teve também um preço.
No prefácio, José Manuel dos Santos diz, com muito acerto, que «este é um livro que desfaz a nossa falta dele», formulação brilhante para explicar uma obra que recupera quarenta anos de dedicação de Almada Negreiros aos painéis do Museu Nacional da Arte Antiga e aos primórdios de uma escola portuguesa de pintura. Através de Valdemar, confidente e discípulo, Almada fala dos «Painéis das Janelas Verdes como se os tivesse visto pintar.»  Talvez até mais: «Como se ele, muito antes dele, os tivesse pintado.»
Aqui figuram, para memória histórica, as premissas do pensamento de Almada Negreiros. Entendendo os painéis como expressão máxima de uma escola primitiva de pintura portuguesa que nada deveria ao Gama navegador e ao Camões lírico, Almada recusa qualquer outro documento de suporte. Os painéis são o único documento que lhe interessa, início e meta da investigação. Das relações geométricas entre tábuas, extrai conclusões controversas, mas nem por isso dispiciendas: é ele que encontra a ordem certa do políptico como hoje o conhecemos, organizando os painéis em função dos ladrilhos do chão; é ele também que sugere que os seis painéis fazem parte de um conjunto mais amplo de 15 tábuas, duas das quais perdidas e as restantes dispersas, que deveriam figurar na Capela do Fundador no Mosteiro da Batalha, destino histórico da obra.
Valdemar não esquece que, por estas ousadias, Almada foi duramente vergastado pela crítica. Por imperativo ético, figuram também no livro as controvérsias com José de Bragança, cujo zénite redundou numa cena de pancadaria à porta da Brasileira. As crónicas zombeteiras de Leitão de Barros, o Barros da moral sinuosa e consciência artística volátil. As críticas mordazes de António Soares, talvez as mais dolorosas e pessoais. A célebre votação na Junta de Educação Nacional, que validou em 1940 a proposta de organização da obra-prima de acordo com a premissa de Almada (mas com voto contra de João Couto), depois de 14 anos de lutas e conflitos insanáveis. As caricaturas de Valença sobre a polémica intelectual. E até o suicídio trágico de Henrique Loureiro, «ludibriado por um documento falso, introduzido num códice da Biblioteca Nacional».
O miolo do livro é constituído pelas oito entrevistas que Almada concedeu a António Valdemar e ao Diário de Notícias na Primavera/Verão de 1960 – esforço singular de divulgação do «trabalho de uma vida», só publicado por inegável cumplicidade entre entrevistador e entrevistado e benevolência da direcção do jornal (Augusto de Castro) e da coordenadora do suplemento de Arte & Letras (Natércia Freire). Um nono trabalho, datado de 1963 e até aqui inédito, empresta valor acrescentado ao esforço compilativo.
Por vezes, em esforços semelhantes, o biógrafo não evita o endeusamento do biografado. Não é o caso aqui. Valdemar não esconde os deslizes de Almada, nem ignora o supremo acto de derrota de 1966, quando Almada, o iconoclasta, Almada, o anti-Cristo, Almada, o indefínivel, se ajoelhou perante a Academia Nacional das Belas-Artes e aceitou o título de sócio honorário por aclamação e unanimidade. Como Pessoa zombou um dia de Marinetti, o escritor italiano que zurzia na elite institucional até aceitar a «ribalta da Cave Velha», também Almada se vergou ao tilintar do metal da comenda. 
       Por cansaço, talvez. Mas vergou.

Valdemar, António. Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo. Lisboa, Assírio & Alvim: 2015. 222pp.
Almada em caricatura de Gomes Ferreira, Sempre Fixe, 17 de Dezembro de 1958
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) 
Um resquício da controvérsia em 1931: caricatura de José de Figueiredo, primeiro director do MNAA, por  Francisco Valença, Sempre Fixe, 1931
(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)

terça-feira, dezembro 08, 2015

A peça de teatro que envergonhou um jornal


«Archivamos estes períodos porque elles hão de servir um dia para quem quizer escrever imparcialmente a história do partido republicano em Portugal, o qual partido conhece tanto a sua história que, em lhe mostrando os seus correligionários históricos taes quaes foram, desata a patear indignado por vêr reduzidas às proporções humanas de monstros sangüinários aquelles que falsamente lhes tinham pintado como seraphins de azas nos hombros e barrete phrigio na cabeça.»
Interpelado assim pelo Diário Ilustrado de 16 de Julho de 1886, recupero um dos mais embaraçosos momentos da carreira de Magalhães Lima, director de O Século.


O Teatro dos Recreios, inaugurado em 1871 no antigo parque do Palácio Castelo Melhor em Lisboa, ruge de fúria. Centenas de convivas engalanados batem furiosamente com os sapatos no solo, numa pateada épica. O ruído flui para fora da sala de espectáculos, alertando os transeuntes. Das primeiras filas da plateia, há quem se vire para o camarote D, engalanado com cortinas semelhantes às que a família real cobre o espaço quando assiste a espectáculos, e exprime a sua fúria.
«Vergonha! Vergonha!»
Alvo da súbita fúria da multidão, o homem de farta cabeleira e cuidado bigode louros desdobra-se em desculpas que ninguém ouve. Neste 14 de Julho de 1886, data de comemoração de mais um aniversário da Tomada da Bastilha e oportunidade propagandística para os republicanos portugueses, a auto-estima e a carreira política de Sebastião Magalhães Lima sofrem duros golpes. Por culpa de um amigo que na verdade não o era.
 
Referência a uma récita no Teatro dos Recreios, em 1887
(Pontos nos I, a partir de arquivo da Hemeroteca Municipal) 
ACTO I, INGENUIDADE E AVAREZA
Sebastião Magalhães Lima fora um dos fundadores de O Século, cinco anos antes deste episódio. Formado em Direito, era o típico recruta republicano da classe média. Não era oriundo de famílias fidalgas como o seu camarada de fileira e de jornal Trigueiro de Martel, nem fizera fortuna no Brasil como o administrador e mais tarde director José Silva Graça, mas a mãe deixara-lhe uma quantia razoável, administrada sabiamente pelo cunhado, Alves Dinis, «um dos mais importantes e conhecidos negociantes da praça de Lisboa», lembrou muito mais tarde Francisco Homem Cristo nas suas Notas da Minha Vida e do Meu Tempo (1937).
       Nas suas memórias (Uma no Cravo, Outra na Ferradura, s/d), Acúrcio Pereira, jornalista de uma geração posterior, conta uma história saborosa entre os dois homens. Quando Magalhães Lima chefiava A Vanguarda, chegavam-lhe constantemente pedidos de emprego e cunhas para o seu cunhado Alves Dinis. A recusa sistemática seria perigosa para um jornalista que tinha evidentes ambições políticas, pelo que Magalhães Lima e Alves Dinis combinaram um engenhoso sistema: Lima aceitaria todas as cartas ou pedidos de intervenção, remetendo-os para o cunhado por escrito. Porém, quando escrevesse sem vírgulas, o cunhado deveria perceber que o pedido merecia recusa polida. O sistema funcionou. Um dia, porém, apareceu em A Vanguarda, um indivíduo que recebeu uma carta de recomendação sem vírgulas. Por graça ou empatia política, «o redactor Gonçalves Neves, vermelhaço (…), mostrando que sabia da manha e desejava servir o postulante, quando ele regressava do gabinete de Magalhães Lima, contente com a carta, pediu-lhe que a mostrasse. A carta não tinha vírgulas. Rapidamente, Gonçalves Neves aplicou-lhas… e o homem obteve o emprego», conta Acúrcio.
       Magalhães Lima não compreendeu o desfecho: «Então, o meu cunhado até já os emprega mesmo sem vírgulas!»  


Homem Cristo em caricatura de 1921, reproduzida no Diário de Lisboa, 7 de Abril de 1986
(a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)
O director de O Século primava igualmente pela frugalidade intencional. Homem Cristo, que com ele partilhou a redacção do jornal entre 1882 e 1884, saindo depois com estrondo do partido e do projecto republicano, pintou dele um retrato pouco lisonjeiro: «Magalhães Lima, unhas de fome, vivia sordidamente», registou nos seus volumes de memórias. «Nem um lavatório tinha. Uma bacia, no poial do pote; o contador, por cima. E era preciso, dizia ele, lavar as mãos discretamente. Não pela água. Ele não chorava a água. Mas pelos ladrões da companhia. A água caríssima, e eles a porem ainda em cima contadores que contavam quatro em vez de dois. Dois e quatro para exemplificar, que eu nunca vi o contador lá em casa passar de meio. Ladrões, clamava, enchendo as bochechas e afogueando-se-lhe o rosto! Sabonete… era luxo. Sabão do mais barato. Pentes… partiam-se. Uma escova para assentar o bigode e o cabelo. Uma porcaria bíblica! Contudo, ele lá esfregava as orelhas com a escova e limpava as unhas com os palitos que vinham da travessa de André Valente, gratuitos. O certo é que conseguia manter aparências de homem limpo.»
Mesmo Esculápio, jornalista que com ele privou mais tarde na Vanguarda, tinha um episódio de avareza para contar. A estrutura quádrupla de proprietários de O Século foi-se alterando nas duas primeiras décadas. Anselmo Xavier vendeu a sua quota depois de um escândalo sobre o negócio de panificação de que era sócio. Leão Oliveira faleceu em 1898. Magalhães Lima vendeu a sua quota em 1897, deixando Silva Graça com o leme exclusivo do jornal. Mesmo nessa ocasião, depois de ganhar uma pequena fortuna (cem contos de réis), Magalhães Lima despediu-se dos redactores, foi beber uma cerveja com Esculápio e outro jornalista na Cervejaria Jansen e… insistiu que fosse um deles a pagar a conta.
Neste ano de 1886, o director de O Século goza de prestígio crescente junto do Directório do Partido Republicano Português (PRP), que encara o jornal como o veículo mais penetrante da sua propaganda. Homem Cristo acusa Magalhães Lima de não ter propriamente convicções fortes. «Era a última pessoa que falava», conta. «Incapaz de assumir uma responsabilidade e de vencer uma dificuldade. Era por isso que concordava com todos e era por isso que todos o achavam boa pessoa.» Não é exactamente verdade. Neste Verão, o director de O Século acaba de publicar a segunda parte do seu Processo da Monarchia, volume furioso contra o regime e que lhe valerá sérios problemas nos meses seguintes.
Seja como for, parece óbvio que Magalhães Lima tinha o hábito pouco prudente e ingénuo de acolher abertamente os vindouros no seu jornal, desde que lhe falassem ao coração. 
       Como sucede agora no início de Julho de 1886. O jovem tipógrafo Luiz da Costa faz saber à direcção do jornal que pretende homenagear o aniversário da Bastilha com a estreia, no Teatro dos Recreios, da sua peça A República. Não fornece pormenores sobre a trama e ninguém lhos pede. Oferece à estimada direcção do jornal o camarote principal, uma borla que naturalmente cativa Lima. O Directório do PRP assume que uma peça com essa epígrafe será uma homenagem aos camaradas franceses e compra todos os bilhetes.
No Século, Magalhães Lima anuncia a peça do «nosso amigo Luiz da Costa», embora nunca o tenha conhecido. Publica-lhe anúncios. Confirma que «o drama está muito bem escrito e deve agradar extraordinariamente. Os coros que devem produzir grande efeito estão sendo ensaiados pelo distinto maestro Rio de Carvalho». Três dias antes da festa, O Século revela ainda que o actor Dupont de Sousa recebera um telegrama de um grupo de patriotas franceses agradecendo em nome da França a grande festa democrática prevista para o 14 de Julho. Os jornais afectos à causa republicana incitam os militantes à comparência na récita. Oferecem-se cem bilhetes para os alunos das escolas democráticas. Está montada a cilada.

ACTO II, EM PALCO
Ao fim da tarde de quarta-feira, 14 de Julho, o Teatro dos Recreios está a rebentar pelas costuras. Todas as cadeiras estão ocupadas e, no salão, retiram-se as vidraças que  separam a plateia geral para aumentar o conforto. Acendem-se os bicos de gás como nas noites de gala, pois a ocasião assim o recomenda. O guarda-roupa da peça, apesar de os actores serem distintos amadores, foi confiado ao sr. Franco, do Guarda-Roupa Lisbonense. O salão está decorado. O ministro de França em Lisboa foi convidado para a grande homenagem à República Francesa.
Começa a peça.
Entre os actores do Grupo Dramático Taborda, contam-se Guilhermina de Macedo, Joana Salaty e Emília Brazão. Apresentam-se personagens do ideário republicano: Marat, Robespierre. Há sussurros no final do primeiro acto, um certo desconforto percorre a sala. «Mas são amadores», comenta-se. Certamente que a peça melhorará nos actos seguintes.
No segundo acto, piora. «Os valentes heróis da brilhante cruzada francesa», como Magalhães Lima os apelidara nas páginas de O Século, são apresentados com crueldade, como bandidos sanguinários. Brandem machados contra os fidalgos, como qualquer malfeitor sem traço de heroísmo. Da plateia, começam a brotar insultos, imprecações – primeiro, espaçadamente; depois, em coro.
O terceiro acto é representado sob o pano de fundo inaudito de três centenas de pessoas vestidas a preceito pateando sem parar. PAM, PAM, PAM! Antes do último acto, Luiz da Costa enfrenta a multidão. «Sereno e sorrindo ironicamente», como contará o Correio da Manhã do dia 16, «adiantou-se para o proscénio. A casa como que oscilava tal era a violência com que a sacudiam com os pés».
Correio da Manhã, 15 de Julho de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
O encenador, indiferente à tempestade, fita o camarote onde está o Directório do Partido Republicano Português, leva a mão à lapela do casaco onde brilha a fita tricolor que fora oferecida a todos os dignitários, arranca-a e lança-a aos pés! Se já existissem sismógrafos em Lisboa naquela altura, certamente teriam registado o rugido do teatro. Luiz da Costa sai sob escolta policial. «Não o queriam guilhotinar, não, queriam apenas pateá-lo nas próprias bochechas», ironizou o Novidades. A fúria da multidão vira-se para os líderes do partido. Partem-se cadeiras. «De pé, os espectadores voltavam-se com o olhar faiscante para o camarote do Directório. Muitos, dirigindo-se a Magalhães Lima, gritavam: ‘Saia daí, tenha vergonha!’», rejubilou Homem Cristo.

ACTO III, A CHACOTA
Face à publicidade que O Século, O Diário Ilustrado e o Correio da Manhã tinham feito da récita, o fiasco da “República” tornou-se o tema de todas as conversas em Lisboa. O Correio da Manhã foi o primeiro a contar aos seus leitores «o charivari medonho» do Teatro dos Recreios. Com fina ironia, descrevia o «camarote do sr. Presidente da República Magalhães Lima, com o seu secretário e ajudante de ordens». O público, esse, «não gostou muito dos heróis do drama, do que se pode depreender que não é positivamente o seu fraco aquelas cenas de selvageria».
Novidades, 15 de Julho de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Apupado por meia Lisboa e glorificado pela metade restante, Luiz da Costa escreve uma carta a todos os directores de jornais da cidade. Dirige-a «não aos republicanos arruaceiros, mas sim aos espectadores sensatos», lembrando que levou a palco «cenas que todo o mundo sabe que se deram».
«Não tive em vista fazer propaganda democrática porque não sou democrata e, se o fosse, bastar-me-ia a noite de ontem para abandonar um partido que só adora a mentira. (…) Se continuasse a fazer propaganda, limitava-me apenas a representar o Santo Marat de braço dado com o cândido Robespierre.»
Luiz da Costa prosseguia, revelando que nunca pedira publicidade. Fora O Século que a oferecera e interpretara o teor de uma peça pelo título, considerando-a adequada para os seus.
A imprensa monárquica ri vigorosamente. O Novidades de 15 de Julho descreve o incidente «como uma das coisas mais extraordinariamente curiosas e mais inacreditavelmente divertidas que têm sucedido em Lisboa». Sucede que a peça «escolhida como prato a seu gosto, ao paladar dos republicanos convidados, era nem mais nem menos do que… uma sova já premeditada e convictamente escrita contra as ideias daquele partido. (…) Espantoso, não é assim? Quando todos se preparavam para comer lebre, verificam com horror que estão a trincar gato!»
No Século, Magalhães Lima tenta fugir do embaraço. Culpa um grupo de jovens bem intencionados que lhe propôs a peça e a comissão do partido que lhe enviara comunicados para publicação sem validar o guião. «Fomos mistificados e mistificados foram também os nossos amigos por circunstâncias realmente muito lamentáveis», escreveu. Quanto ao autor, «nem mesmo lhe pronunciamos o nome (…) Em paz e às moscas…».
O Século, 16 de Julho de 1886
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
Como o Novidades regista, Magalhães Lima bem pode «sacudir à porta o pó das suas sandálias» que o incidente não seria esquecido. «Quererá dizer o Sr. Magalhães que ele, como redactor de O Século e não como membro do directório é que não foi ouvido nem achado em semelhante coisa?(…) Como é, então o Sr. Magalhães Lima, director, falou sempre tão baixo que o Sr. Magalhães Lima, redactor, não o conseguiu ouvir nunca?»
No Diário Ilustrado do dia 16 de Julho, por mão de poeta anónimo, ficou gravada a gazetilha inesquecível:
«Parabéns, Magalhães Lima
Da monarquia serrote,
A quem já ontem puseram
Cortinas no camarote.

Estás pois todo tricles
De barrete no totiço
Faixa tricolor à cinta
E eu que não soube d’isso!

De vez em quando, disseram,
Sorrias com altivez.
Dás um belo presidente,
Melhor que Grevy, talvez. [4.º Presidente francês]

De mais a mais tens cabelo,
Tens a pinha como o oiro
‘Inda há-de o povo dizer-te
- Dá cá beija-pé, meu loiro.

O Teatro dos Recreios não sobreviveu mais de 11 meses. No final de Junho de 1887, foi demolido devido ao início das obras do túnel ferroviário do Rossio, conforme nota o Diário Ilustrado de 29 de Junho desse ano.

segunda-feira, outubro 26, 2015

Recensão com 17 anos de atraso



Por mera coincidência, no mesmo mês em que uma colega de faculdade discutiu comigo entusiasmadamente o desafio que seria reconstituir a história de O Independente e do seu impacte na sociedade portuguesa na década de 1990, li Os Implicados, de Sarah Adamopoulos (Dom Quixote, 1998).
Obra de ficção (a segunda da autora), é um dos livros mais corajosos que já li e constitui o terceiro vértice de uma troika de biografias não autorizadas sobre velhos jornais. Não tenho, aliás, qualquer receio em colocar Os Implicados no mesmo patamar de Código de Hamurabi, de Artur Portela, e de A Homenagem, de Altino do Tojal. São livros-denúncia, obras de ficção sobre realidades escondidas nos jornais portugueses, oportunidades únicas de espreitarmos para lá da cortina de veludo de cada publicação e de conhecermos os bastidores para lá do fel.
Enquanto escrevia a dissertação de doutoramento, o meu orientador avisou-me com frequência que a tese é um pouco como um pano bordado a ponto-cruz. A face que se mostra ao exterior é limpinha, sem rasuras, como se a arte fosse escorreita e a investigação fluísse sem hesitações; a face escondida, aquela que só nós conhecemos, mostra os remates aldrabados, os nós e cortes, as imperfeições – de certa forma, é isso que Sarah Adamopoulos fez com O Independente, apresentado nesta obra como «o jornal» ou «o meu jornal». Mostra-nos o jornal para lá do pano da primeira página, com as manias, os tiques, os génios e os maus génios próprios de qualquer instituição.
Construído com cerca de três dezenas de pequenos capítulos, o livro descreve personagens e taras com alguma crueldade. Ali figuram «o careca da administração que tem a ilusão de mandar mais do que o Director», «as stars da redacção», «o empata-fodas do Chefe da Redacção» e o Director histérico, vaidoso e de face imberbe, que não hesita em mudar as reportagens dos outros para as adaptar à mensagem política que pretende e que mais tarde fugirá para ocupar um cargo partidário. «O Director é um homem dos antigos que está enganado de época. Durante o Estado Novo, o Director teria sido quiçá Ministro, Estadista, quem sabe.»
       Figura também a Repórter-Diva, «mulher fatal que escreve bem e é casada com um intelectual que está sempre em casa de roupão verde e pantufas e que bebe mais do que devia». E, claro, o «Outro Director», «um criativo», um escritor com vasta legião de seguidores, que vem uma vez por semana à redacção «cagar ideias» rodeado de starlettes e um dia abandona o jornal porque se fartou. Gosto particularmente do «Directorzinho», que o substitui, e fala ao telefone de pé com as altas patentes da Defesa, «como se estivesse em continência». Deixo ao critério de cada um a identificação das personagens.
Este é um jornal no qual os «apelidos compostos são muito importantes (…) Há quem inclusivamente contraia matrimónio por causa dos apelidos compostos (…) O jornal está cheio de nobres assim deste tipo (…), mas os nobres do jornal não só não têm dinheiro como estão intelectualmente empobrecidos».
Imperdível é o capítulo sobre «Jacinto», que «vai às compras para a redacção» e cuja mercadoria é ansiosamente aguardada pelos repórteres. Pouco depois, «o Outro-Director faz sessões criativas com ele-próprio», «alguém parte para a casa-de-banho num salto que finta uma pequena multidão de gente subitamente aflita para fazer chichi» e Sarah controla «divertida os movimentos do vai-vem de aflitinhos para ir à casa-de-banho».
       Não se infira, porém, que Os Implicados é uma obra de despeito de uma jornalista despedida. É o livro não oficial de «um jornal que gostava de ser azul mas está a ficar cor de laranja» e de uma jornalista que, apesar de tudo, o olha «com um mínimo de 256 cores» e que consegue ver o jornal que a «mantém apaixonada». Ou manteve.