terça-feira, fevereiro 02, 2016

Um repórter inconveniente face ao «império dos sentados»


Tive um chefe de redacção, no início da década de 1990, que se queixava – já então – da «liofilização das redacções», da produção em série de jornalistas com as mesmas valências, a mesma formação, o mesmo apetite por tópicos, estilos, títulos ou géneros jornalísticos. A formação padronizada de repórteres poderá ter vantagens da mesma maneira que a liofilização protege os alimentos e degrada-os com mais lentidão, mas o velho Galvão acreditava que, com ela, perdia-se o sabor da diferença. Goste-se ou não das redacções e do jornalismo das décadas de 1970 e 1980, mas ali juntavam-se indivíduos para todos os gostos e feitios, de todas as proveniências e backgrounds, tipógrafos e revisores convertidos, advogados e sociólogos recauchutados, escritores frustrados e publicistas desorientados, bêbados em remissão e meninos de corogente com vícios, claro, mas inegavelmente com mais diversidade. Fui-me lembrando disto enquanto lia, em dois dias, Um Repórter Inconveniente (Chiado, 2015), livro de memórias de Aurélio Cunha, jornalista do Diário do Norte, do Jornal de Notícias (JN) e do Expresso.
Aurélio Cunha fez jornalismo de investigação durante três décadas e meia, entre 1970 e 2003. Para mim (as opiniões valem o que valem), foi o melhor do seu tempo e custa a crer que não ainda não seja amplamente reconhecido como o jornalista que mais produziu neste domínio, abrindo um trilho desconhecido para os restantes, testando métodos e impondo critérios.
Desde a semana passada que, muito justamente, têm chovido elogios ao filme de Hollywood sobre a investigação dos repórteres do Boston Globe e os casos de pedofilia na hierarquia eclesiástica da cidade norte-americana. O livro de Aurélio Cunha serve de contraponto a esse debate e evoca uma narrativa à nossa escala, muito mais próxima do anti-herói do que da visão romântica do muckracker – a do jornalista de investigação isolado na redacção «qual excrescência», desvalorizado pelas chefias que o consideram um luxo («a puta mais cara do JN», foi um dos mimos que ouviu por gastar tempo a investigar quando poderia dar resposta às necessidades da agenda diária), forçado a investigar no tempo livre, a gastar dinheiro do seu bolso ou a forjar baixas psiquiátricas para responder à disponibilidade das fontes.
Costa Carvalho (outro gigante) refere no prefácio que, face ao «império dos sentados» em que a agenda e a rotinização do serviço jornalístico dominam, Aurélio Cunha privilegiou o «império dos sentidos», o faro, o olfacto de uma história potencial, que valeria a pena escavar. «Foi uma fera, um predador, não podia viver em cativeiro, era totalmente avesso ao jornalista-agenda.»
Intriga-me que Aurélio Cunha tivesse aguentado trinta anos nesta trincheira, pressionado a entregar trabalho cedo de mais ou a subjugar-se à ditadura do serviço. Só há uma explicação: apresentou mais “furos” do que qualquer outro, derrubou obstáculos a eito (sem escolher alvos, se me faço entender) e construiu histórias como caixas-fortes inexpugnáveis (apenas dois processos judiciais em toda a carreira, um dos quais efectivamente julgado e do qual resultou a absolvição do réu).
Um Repórter Inconveniente é um espelho de três décadas de investigação em temas maioritariamente relacionados com serviços públicos do Porto e não quero acreditar que o carácter nortenho da saga constitua um dos motivos para a desvalorização do percurso deste jornalista. Uma boa história não tem origem geográfica. E o livro é, acima de tudo, um manual de boas práticas do primeiro jornalista que conheço segurado pelo seu próprio jornal, depois de ameaçado de morte em 1996.
Ao serviço do JN, Aurélio Cunha fez um pouco de todo. Destaco duas proezas: fingiu ser sacristão para entrar em Custóias no Natal de 1973 e passou o óbito a si próprio em 1987 no Hospital de São João, dando como nome do defunto Astromar Salta e José Luís R. Santeiro como nome do médico, meta-referências a Roque Santeiro, telenovela de sucesso na época.
Das crianças que chegavam embriagadas à escola aos roubos na facturação telefónica dos TLP, da violação de menores em Custóias à comprovação laboratorial da má qualidade das águas do Porto, do escândalo de órgãos roubados a cadáveres no Hospital de São João à confirmação de erros grosseiros no serviço de maternidade do Hospital de Aveiro-Norte, este é um roteiro possível para interpretar o país. Não é bonito, não é um primor literário, mas é real.

Um Repórter Inconveniente, Aurélio Cunha, Lisboa, Chiado, 2015 (15€)

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Escreva a sua própria crónica de Vasco Pulido Valente sem recorrer a Vasco Pulido Valente


Talvez o Público não desconfie, mas está a pagar a mesma crónica de Vasco Pulido Valente (VPV) há mais de uma década. Que, por sua vez, é a mesma crónica que o autor escrevia para o Diário de Notícias. E que, por incrível coincidência, foi em tempos publicada em O Independente pelo mesmo autor.
Para poupar despesas à SONAE, apresento-me como voluntário para que o jornal possa construir a sua crónica de VPV sem necessitar de VPV, o que, convenhamos, dá muito menos maçada.
Passo 1 — escolhe-se um tópico, sempre genérico, para não implicar pesquisa. Como qualquer estudante lhe poderá afiançar, a pesquisa é enfadonha e indigna e a recolha de dados é tarefa para gente menor. Se o diabo está nos detalhes, VPV foge-lhe – ao diabo e aos detalhes – com o virtuosismo de um doutorado em Oxford
Passo 2 – estabelece-se à partida o momento em que o tópico (o Estado social, o socialismo, as obras públicas, o PCP — riscar o que interessa) descambou. Por incrível coincidência, qualquer tópico descamba sempre no século XIX, circunstância feliz pois poupa muita reflexão. Não deixa de ser curioso que, embora todo o mundo para lá de VPV seja obviamente dogmático, VPV retribua com a publicação sistemática do mesmo dogma.
Passo 3 — define-se um protagonista (Olof Palme, Mário Soares, Duarte Pacheco, Álvaro Cunhal — riscar o que não interessa) ao qual se aponta o dedo pela sua “ingénua ignorância” (hipótese a) ou pela “ignorância ingénua” (hipótese b) na gestão do dito tópico. É importante não cair no erro de apresentar factos. Todas estas alegações são feitas com a despreocupação de quem não tem dúvidas. Um doutorado em Oxford nunca tem dúvidas.
Passo 4 — tudo, repito, tudo está relacionado com os investimentos em obras públicas de Fontes Pereira de Melo, feitos com dinheiro emprestado, que nos valeram “três décadas de pastoreio despreocupado” até “obviamente nos apresentarem a conta”. O verbo pastorear deve ser utilizado pelo menos uma vez por crónica. Se possível, associado a criatura  e desmiolados. No pensamento de VPV, ora são as criaturas que pastoreiam os desmiolados, ora são os desmiolados que pastoreiam as criaturas.
Passo 5 — o indigenato. VPV fez mais pela causa indígena do que a FUNAI no Brasil. Todos os problemas portugueses justificam-se pelas características do indígena nacional, ocioso, ingénuo e dado a esquentamentos revolucionários. Escusado será dizer que o indígena não frequentou Oxford.
Passo 6 — o parágrafo final deve sublinhar, como os adventistas do sétimo dia, que o fim está próximo. Se possível, com a arrogância de quem sempre o soube. São muito úteis muletas como “como não poderia deixar de ser”, “qualquer pessoa que não tenha estudado nas escolas indígenas adivinha” ou “a tonta cabeça do Dr. (inserir nome) não lhe permite ver que isto vai acabar mal”.
E é isto! Experimente em casa com amigos e em breve publicará também as suas crónicas de Vasco Pulido Valente num divertido jogo interactivo. 
Se tiver mesmo sorte, o engenheiro Belmiro paga-lhe uma avença.

quinta-feira, janeiro 28, 2016

O fim do programa de incentivo à edição de obras de comunicação social

Saltitando de porta em porta, tudo indica que o programa de incentivos do Estado à edição de obras sobre comunicação social desapareceu na voragem do decreto-lei 24/2015, que extinguiu o Gabinete para os Meios de Comunicação Social e dividiu as competências deste por outros organismos, como as CCDR ou a Direcção-Geral de Política para os Media da Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. De acordo com o que me transmitiram nesta instituição, o novo diploma (23/2015) é omisso sobre a continuidade do programa, focando-se apenas no apoio directo a órgãos de comunicação de social, pelo que provavelmente terminou essa experiência de mais de uma década de apoios à publicação de dissertações e outros estudos. É pena!


Declaração de interesses: em 2005 e 2015, tive dois projectos ali aprovados.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Almada, os Painéis, A Geometria e Tudo



Com alguma discrição, a Assírio & Alvim editou, no último quadrimestre de 2015, Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo, obra organizada pelo jornalista António Valdemar, baseado nas entrevistas que conduziu com o pintor modernista no início da década de 1960 e em profunda recolha documental sobre aquilo que José de Bragança, némesis de Almada, chamou no Diário Popular o «Problema dos Painéis».
O livro revela um Almada humanizado, procurando, na última década de vida, assegurar o seu lugar na história da arte – com os seus defeitos e vícios, obsessões e irritações, mas sobretudo sempre fiel ao programa artístico que apresentara aos portugueses em 1915 e que lhe valeu uma vida de pobreza, quando não escárnio, ao contrário de vários dos seus contemporâneos, menos ciosos da identidade artística e mais aferrados à cultura de massa. Como no poema de Frost, Almada escolheu, de dois caminhos, o mais duro e árduo e isso fez toda a diferença. Mas teve também um preço.
No prefácio, José Manuel dos Santos diz, com muito acerto, que «este é um livro que desfaz a nossa falta dele», formulação brilhante para explicar uma obra que recupera quarenta anos de dedicação de Almada Negreiros aos painéis do Museu Nacional da Arte Antiga e aos primórdios de uma escola portuguesa de pintura. Através de Valdemar, confidente e discípulo, Almada fala dos «Painéis das Janelas Verdes como se os tivesse visto pintar.»  Talvez até mais: «Como se ele, muito antes dele, os tivesse pintado.»
Aqui figuram, para memória histórica, as premissas do pensamento de Almada Negreiros. Entendendo os painéis como expressão máxima de uma escola primitiva de pintura portuguesa que nada deveria ao Gama navegador e ao Camões lírico, Almada recusa qualquer outro documento de suporte. Os painéis são o único documento que lhe interessa, início e meta da investigação. Das relações geométricas entre tábuas, extrai conclusões controversas, mas nem por isso dispiciendas: é ele que encontra a ordem certa do políptico como hoje o conhecemos, organizando os painéis em função dos ladrilhos do chão; é ele também que sugere que os seis painéis fazem parte de um conjunto mais amplo de 15 tábuas, duas das quais perdidas e as restantes dispersas, que deveriam figurar na Capela do Fundador no Mosteiro da Batalha, destino histórico da obra.
Valdemar não esquece que, por estas ousadias, Almada foi duramente vergastado pela crítica. Por imperativo ético, figuram também no livro as controvérsias com José de Bragança, cujo zénite redundou numa cena de pancadaria à porta da Brasileira. As crónicas zombeteiras de Leitão de Barros, o Barros da moral sinuosa e consciência artística volátil. As críticas mordazes de António Soares, talvez as mais dolorosas e pessoais. A célebre votação na Junta de Educação Nacional, que validou em 1940 a proposta de organização da obra-prima de acordo com a premissa de Almada (mas com voto contra de João Couto), depois de 14 anos de lutas e conflitos insanáveis. As caricaturas de Valença sobre a polémica intelectual. E até o suicídio trágico de Henrique Loureiro, «ludibriado por um documento falso, introduzido num códice da Biblioteca Nacional».
O miolo do livro é constituído pelas oito entrevistas que Almada concedeu a António Valdemar e ao Diário de Notícias na Primavera/Verão de 1960 – esforço singular de divulgação do «trabalho de uma vida», só publicado por inegável cumplicidade entre entrevistador e entrevistado e benevolência da direcção do jornal (Augusto de Castro) e da coordenadora do suplemento de Arte & Letras (Natércia Freire). Um nono trabalho, datado de 1963 e até aqui inédito, empresta valor acrescentado ao esforço compilativo.
Por vezes, em esforços semelhantes, o biógrafo não evita o endeusamento do biografado. Não é o caso aqui. Valdemar não esconde os deslizes de Almada, nem ignora o supremo acto de derrota de 1966, quando Almada, o iconoclasta, Almada, o anti-Cristo, Almada, o indefínivel, se ajoelhou perante a Academia Nacional das Belas-Artes e aceitou o título de sócio honorário por aclamação e unanimidade. Como Pessoa zombou um dia de Marinetti, o escritor italiano que zurzia na elite institucional até aceitar a «ribalta da Cave Velha», também Almada se vergou ao tilintar do metal da comenda. 
       Por cansaço, talvez. Mas vergou.

Valdemar, António. Almada, os Painéis, a Geometria e Tudo. Lisboa, Assírio & Alvim: 2015. 222pp.
Almada em caricatura de Gomes Ferreira, Sempre Fixe, 17 de Dezembro de 1958
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) 
Um resquício da controvérsia em 1931: caricatura de José de Figueiredo, primeiro director do MNAA, por  Francisco Valença, Sempre Fixe, 1931
(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)

segunda-feira, outubro 26, 2015

Recensão com 17 anos de atraso



Por mera coincidência, no mesmo mês em que uma colega de faculdade discutiu comigo entusiasmadamente o desafio que seria reconstituir a história de O Independente e do seu impacte na sociedade portuguesa na década de 1990, li Os Implicados, de Sarah Adamopoulos (Dom Quixote, 1998).
Obra de ficção (a segunda da autora), é um dos livros mais corajosos que já li e constitui o terceiro vértice de uma troika de biografias não autorizadas sobre velhos jornais. Não tenho, aliás, qualquer receio em colocar Os Implicados no mesmo patamar de Código de Hamurabi, de Artur Portela, e de A Homenagem, de Altino do Tojal. São livros-denúncia, obras de ficção sobre realidades escondidas nos jornais portugueses, oportunidades únicas de espreitarmos para lá da cortina de veludo de cada publicação e de conhecermos os bastidores para lá do fel.
Enquanto escrevia a dissertação de doutoramento, o meu orientador avisou-me com frequência que a tese é um pouco como um pano bordado a ponto-cruz. A face que se mostra ao exterior é limpinha, sem rasuras, como se a arte fosse escorreita e a investigação fluísse sem hesitações; a face escondida, aquela que só nós conhecemos, mostra os remates aldrabados, os nós e cortes, as imperfeições – de certa forma, é isso que Sarah Adamopoulos fez com O Independente, apresentado nesta obra como «o jornal» ou «o meu jornal». Mostra-nos o jornal para lá do pano da primeira página, com as manias, os tiques, os génios e os maus génios próprios de qualquer instituição.
Construído com cerca de três dezenas de pequenos capítulos, o livro descreve personagens e taras com alguma crueldade. Ali figuram «o careca da administração que tem a ilusão de mandar mais do que o Director», «as stars da redacção», «o empata-fodas do Chefe da Redacção» e o Director histérico, vaidoso e de face imberbe, que não hesita em mudar as reportagens dos outros para as adaptar à mensagem política que pretende e que mais tarde fugirá para ocupar um cargo partidário. «O Director é um homem dos antigos que está enganado de época. Durante o Estado Novo, o Director teria sido quiçá Ministro, Estadista, quem sabe.»
       Figura também a Repórter-Diva, «mulher fatal que escreve bem e é casada com um intelectual que está sempre em casa de roupão verde e pantufas e que bebe mais do que devia». E, claro, o «Outro Director», «um criativo», um escritor com vasta legião de seguidores, que vem uma vez por semana à redacção «cagar ideias» rodeado de starlettes e um dia abandona o jornal porque se fartou. Gosto particularmente do «Directorzinho», que o substitui, e fala ao telefone de pé com as altas patentes da Defesa, «como se estivesse em continência». Deixo ao critério de cada um a identificação das personagens.
Este é um jornal no qual os «apelidos compostos são muito importantes (…) Há quem inclusivamente contraia matrimónio por causa dos apelidos compostos (…) O jornal está cheio de nobres assim deste tipo (…), mas os nobres do jornal não só não têm dinheiro como estão intelectualmente empobrecidos».
Imperdível é o capítulo sobre «Jacinto», que «vai às compras para a redacção» e cuja mercadoria é ansiosamente aguardada pelos repórteres. Pouco depois, «o Outro-Director faz sessões criativas com ele-próprio», «alguém parte para a casa-de-banho num salto que finta uma pequena multidão de gente subitamente aflita para fazer chichi» e Sarah controla «divertida os movimentos do vai-vem de aflitinhos para ir à casa-de-banho».
       Não se infira, porém, que Os Implicados é uma obra de despeito de uma jornalista despedida. É o livro não oficial de «um jornal que gostava de ser azul mas está a ficar cor de laranja» e de uma jornalista que, apesar de tudo, o olha «com um mínimo de 256 cores» e que consegue ver o jornal que a «mantém apaixonada». Ou manteve.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Parem as Máquinas!


Uma gentileza impagável do Fernando Correia e do João Paulo Cotrim, publicada na última edição da Jornalismo e Jornalistas.

quinta-feira, outubro 01, 2015

O contrato de Jesus validado na poltrona

Record, 1 de Outubro de 2015

Começo com uma história, como fazem os velhos, quando querem certificar-se de que os outros estão à escuta. No velho Estádio de Alvalade, os jornalistas em dia de jogo trabalhavam nas últimas filas da Bancada Central, alguns lugares acima da Tribuna de Honra. Era um lugar simpático, sem acesso a croquetes infelizmente, mas suficientemente perto para ouvirmos os palavrões de Sousa Cintra [«é penalte, porra!»], os roncos de Simões de Almeida [«venho ao futebol porque sou obrigado»] ou os delírios de Dias de Cunha.
Certo dia de 1995 ou 1996, após um jogo nocturno, já só lá estavam os repórteres matraqueando em computadores primitivos as parcas crónicas de jogo. Quando terminava, era meu costume esticar as pernas em passeios ao longo das filas da tribuna enquanto os meus camaradas terminavam as respectivas crónicas. Nessa noite, por atraso, não o pude fazer porque a minha crónica demorou mais.
A certo momento, chegou esbaforido um conhecido vice-presidente do clube. Ficou aterrorizado quando viu o pessoal da imprensa ainda no local e dirigiu-se à cadeira, onde, horas antes, assistira ao jogo. Ali chegado, retirou uma pasta do espaço entre a sua e a cadeira do vizinho e, visivelmente aliviado, disse-nos: «Nem acreditam! Deixei cá a pasta com os contratos dos jogadores!»
O som do nosso desapontamento colectivo deve ter servido para abalar aquela pala de cimento que Santana Lopes garantira em 1992 que estava prestes a ruir e na qual o engenheiro Edgar Cardoso pulara, para divertimento de Sousa Cintra. Estivéramos a metros de informação privilegiada e não lhe deitámos a mão. Nessa noite, por partida do destino, não tive de responder à questão que se colocou ao jornal Record durante esta semana: tendo acesso a um contrato de um dos principais funcionários de um clube, deve uma organização noticiosa publicá-lo?
O Record não parece ter tido dúvidas, a avaliar pela descrição de António Varela na edição de hoje. Na madrugada de terça-feira, foi enviado um e-mail (anónimo? Não fica esclarecido esse ponto. Só se refere que o autor do site é anónimo) para o jornal às 5h25. Anunciava a criação de um novo site de Internet, o Football Leaks, para desvendar documentos embaraçosos sobre o futebol português. Alojado na Rússia, onde os sites têm garantias de anonimato, começou por afixar o contrato que liga Jorge Jesus ao Sporting desde Junho deste ano, entre outros documentos.

JUSTIFICAÇÃO
Fortemente abusada, a cláusula de confidencialidade que uma organização noticiosa oferece à fonte que lhe fornece informação privilegiada começou por ser um privilégio especial, destinado às ocasiões – e só a essas – em que nenhum outro mecanismo era suficiente para persuadir a fonte a falar.
Aceitemos a premissa de que esse caso se aplica nesta situação. O Record saberá quem foi o autor do e-mail para a redacção e entendeu que justificar-se-ia a oferta de confidencialidade nestas circunstâncias.
Qual a justificação jornalística para a publicação de um contrato? Ou, por outras palavras, se eu amanhã tiver acesso ao contrato que liga António Varela à Cofina, tenho, ou não, o direito de o divulgar?
Neste caso de Jorge Jesus, não se trata de uma organização pública onde se aplica mensalmente dinheiro do contribuinte e onde existiria a justificação moral e cívica de que o cidadão tem direito a conhecer o destino do dinheiro dos seus impostos. É uma organização privada (a SAD).
Não está em causa a revelação de um crime exposto pela documentação, como sucedera no caso da cassete de António Oliveira em 1996.
Por tudo o que foi apresentado, nem sequer há contradição entre declarações públicas dos dirigentes da instituição e cláusulas agora expostas no contrato.
Onde diabo cabe a justificação jornalística?
Há duas possíveis respostas. Por um lado, na data do contrato, uma vez que este foi assinado a 5 de Junho e existe uma disputa judicial com o clube anterior do treinador, que lhe recusa pagamento do mês de Junho. Mas se fosse esse o motivo (e não um pretexto), bastaria revelar em fac-simile a data do contrato e o ponto estaria feito, sem expor todas as cláusulas e até a morada do treinador.
O argumentário do jornal cozinhou outro motivo: sendo o Sporting um clube com milhares de adeptos, é natural que tudo o que diga respeito à vida interna do clube seja passível de interesse. É um argumento mais poderoso, mas, que, para mim, encontra nítidos problemas de demarcação. Se eu amanhã souber em que 5 à Sec Bruno de Carvalho deixa os fatos a limpar, justifica-se a publicação dessa informação sobre o presidente de um clube com tantos milhares de adeptos? Onde termina a fronteira da noticiabilidade quando se trata de uma organização que interessa a tantas pessoas?
Entendo esta publicação como um acto de voyeurismo, em princípio bem sucedido como estratégia comercial (embora só na versão digital porque, na versão em papel, o tema foi empurrado para a coluna lateral da primeira página), deficientemente justificado, mas que não deixa de interessar a leitores e paineleiros do desporto. O facto de ser tema de conversa incessante nas redes sociais comprova que se trata de uma revelação que interessou a milhares de pessoas.

SALVAGUARDA
Não estou convencido, porém, de que o jornal tenha feito tudo para avaliar a veracidade do documento. No texto de hoje, são omissos quaisquer outros passos que certifiquem que aquele contrato foi validado. Não são mencionados grandes esforços de contacto com fontes oficiais ou não oficiais. Varela refere que, confrontados os clubes (há outros documentos citados, mas, para focagem de discussão, fixo-me neste contrato de Jesus com o Sporting), nenhum desmentiu. Tenho muita pena, mas não chega: um desmentido não é uma confirmação.
Na última página, Pedro Guerreiro, colunista externo do jornal, comenta o documento, lembrando-o, por duas vezes, que, se for verdadeiro e completo, o contrato significa isto e aquilo. Caramba! Esse passo tem de ser dado antes da publicação ou um jornal tornou-se só um veículo de amplificação de sites manhosos alojados na Rússia?
Se amanhã se provar que o contrato foi truncado, que não é real, que os valores foram modificados com que cara fica o Record?
Nos últimos anos, tivemos dois casos semelhantes na agenda internacional: por um lado, as revelações do site Wikileaks, reproduzidas amorfamente, sem contestação nem validação por esse planeta fora; por outro, as revelações de Edward Snowden, que mereceram uma parceria internacional entre jornais para confirmação da informação privilegiada antes da sua divulgação, o que levou a um atraso significativo entre a revelação e a difusão das histórias.
Num caso, foi jornalismo Ovomaltine, deitado no copo e bebido com leite. No outro, houve verdadeiro trabalho de investigação. Parece-me evidente em que categoria recai este Football Leaks… 

sábado, setembro 19, 2015

O dia em que fui primeira página de jornal



Não me recordo do motivo, mas não deve ter sido sério. Culpa nossa ou culpa deles? Palavra que não me lembro. Fosse por que motivo fosse, naquele mês de Setembro de 1995, as portas do Sporting Clube de Portugal fecharam-se para o meu jornal e para os camaradas do Record. Black-out selectivo. O clube distribuiu um comunicado, escrito por um amigo meu, «com o coração a chorar» como depois me contou, vedando a nossa entrada em todas as sessões abertas à imprensa.
Hoje, já sei que é sempre «com o coração a chorar» que estas decisões são tomadas. Sobretudo quando são os outros que se lixam.
Foi há muito tempo, compreendam. Na Internet, ainda só existia o Jornal de Notícias. Os poucos telemóveis disponíveis ficavam no carro e pesavam menos do que tijolos. Deslocava-se o ombro só por dobrar uma página da nova Gazeta nos transportes públicos. O meu camarada Paulo Rolão ainda tinha cabelo. As cadeiras verdes no campo do Leça desenhavam a enigmática expressão FORCA LECA, precursora de acordos ortográficos exóticos. Carlos Queiroz parecia destinado a altos voos (palavra!). Miguel Relvas ingressava na Universidade Lusíada para cursar Relações Internacionais (juro!), mas desistiria um ano depois sem concluir qualquer cadeira (pois…). Foi portanto há muito tempo!
Santana Lopes tinha acabado de assumir a presidência e mostrava um estilo interventivo e dirigido ao coração dos adeptos – o Sporting não toleraria mais abusos nem poucas-vergonhas (onde é que já ouvi isto nos últimos meses?). Fecharam-nos as portas, excepto nos dias de jogos. Sempre que marchávamos para Alvalade, barravam-nos a porta. Entrevistei porteiros e seccionistas. Apanhava as pontas soltas e enchia páginas com pequenos nadas. Creio que cheguei a escrever uma notícia sobre um intruso que pernoitara no Museu – peça sólida, claro. Sumarenta como poucas. Podia ter dado para o Pulitzer, mas os tipos em Nova Iorque preferiram dá-lo ao Mark Fritz pelas reportagens no Ruanda. Critérios…
No final da tarde do dia 20 de Setembro, no então Hotel Penta, o clube agendou uma conferência de imprensa que pretendia publicitar os pareceres jurídicos entretanto recolhidos sobre a razão que assistia ao Sporting no diferendo com o Benfica relativo às rescisões dos jogadores Pacheco e Paulo Sousa. Talvez mal habituado pela política, Pedro Santana Lopes (PSL) gostava de se fazer esperar. Invariavelmente, deixava passar 90 minutos, por vezes 120, antes de emergir das catacumbas para falar aos media. Claro que a rapaziada, obediente, esperava. Sempre fomos bem treinados. Alguns até sabiam estender a patinha quando recebiam ordens para isso.
Desta vez, foi diferente. Cheguei ao hotel com mais dois camaradas. Fomos barrados comme d’habitude. Ficámos à porta com aquele ar de caniches que a fotografia ilustra. O simpático José Caria, então assessor do presidente, desdobrava-se em explicações. Com o coração a chorar, bem sei, mas fazia a vez de porteiro de discoteca. Por ali, não passávamos.
O António Freitas fotografou o momento. Mais tarde, na redacção, alguém propôs uma legenda que daria cacofonia: «Por Caria, a Gazeta foi proibida de entrar.» Não vingou.
Correram alguns minutos. Do presidente, nada se sabia. Chegou o Carlos Severino, da TSF. Viu-nos à porta. Entrou, percebeu o que se passava e, com a espontaneidade de sempre, perguntou ao assessor: «Então, eles não entram?» Quando percebeu que havia black-out, foi curto e grosso. «Se eles não entram, não entra ninguém!» Metade da rapaziada levantou-se logo, como se tivesse molas. Outros, os de sempre, ficaram por lá, acabrunhados, à espera de instruções, de calculadora na mão, contabilizando os black-outs já sofridos e a ausência de gestos similares.
Será que podíamos mesmo deixar PSL a falar sozinho?
Severino olhou para nós – a turma dos excluídos da Gazeta e do Record. Perguntei-lhe se era para levar a sério. Nem pestanejou. Como um ciclista em fuga na Volta a Portugal, tomou a liderança. Num ápice, irrompemos escadas abaixo com a sensação de que estávamos em vias de cometer uma imprudência bestial. Éramos garotos apanhados com a mão no pote dos doces. Lembro-me que, quando cheguei ao átrio, já tinha imaginado a crónica daquele dia. Minutos depois, chegou a segunda leva, a dos renitentes, acompanhada do simpático José Caria, que tentava travar a avalancha. «Eh pá, não façam isso ao homem!» Não explicou se estaria com o coração a chorar.
Fomos mesmo embora. «Os jornalistas gritaram ‘Basta’!», escrevi eu nessa noite, num texto confuso e romântico (Jesus, que confusão ia naquela cabeça!). «Deixaram Pedro Santana Lopes a falar sozinho para aprender a regra mais elementar da democracia (…). Da próxima vez que precisar da comunicação social, o Dr. Santana Lopes pensará duas vezes. Evitará cair novamente no ridículo!»
O grande chefe Galvão riu-se bastante do texto e da atitude. Deu-me uma daquelas pancadas brutas no ombro, à Freddy Kruger, chocalhando-me como um sismo de grau 5 na escala de Richter. Provocou-me: «Amanhã, lá na faculdade, já tens uma história para contar às gajas!» (não resultou!).
Escrevemos.
Publicámos na primeira página.
Claro que não mudou nada. O mundo não se modifica com bravatas. Nas conferências de imprensa seguintes, ficámos sempre à porta, como padroeiros das causas perdidas. De olhos no chão, alguns dos solidários do dia 20 voltaram à rotina das esperas de 90 a 120 minutos pelas entradas dramáticas em cena. «Então, rapazes, mais um dia?»
Caria deixou de sorrir quando me via.
A Gazeta fechou cerca de três meses depois. Houve gente de bem que chorou. Também se faz luto quando um jornal morre, sabiam?
Provando que não tinha maus fígados, Pedro Santana Lopes deu-nos o prazer de comparecer na festa de lançamento da revista Mundial seis meses mais tarde, como se nada tivesse acontecido. Na ocasião, foi um cavalheiro.
Creio, mas não juro, que este foi o último black-out decretado contra a Gazeta dos Desportos. Faz amanhã 20 anos e eu nunca agradeci ao Carlos Severino pela solidariedade daquele dia no Penta.