domingo, agosto 09, 2015

O jornalismo na ficção portuguesa (a minha lista)


Há meses, compilei (aqui) empiricamente as melhores memórias de jornalistas publicadas em Portugal. Era, e é, uma lista sempre em actualização, quer em função de obras que vou conhecendo tardiamente, quer em função dos novos volumes que se vão publicando. Na semana passada, em conversa por e-mail com um jornalista e escritor que muito respeito, surgiu a ideia de repetir o exercício para a ficção portuguesa dedicada aos jornais e aos repórteres, sem prejuízo de uma antologia mais consolidada e rigorosa.
Não foi tarefa fácil, nem será unânime. Comecei por excluir os livros que, embora coloquem jornalistas no papel de personagens, pouco têm que ver com jornalismo, misturando criptologia com prática detectivesca de segundo escalão ou secundarizando o papel do repórter no enredo. Na verdade, listo aqui apenas as obras que se deram ao trabalho de pintar as redacções com as cores de cada época, retratando mundo reais e tensões verosímeis. Fiquei, claro, com uma lista curta, mesmo não tendo feito a destrinça entre contos, romances e peças de teatro… Pior: o ranking corresponde praticamente a obras publicadas antes de 1974, como que validando o jornalista embriagado de Lavagante (2008), que José Cardoso Pires coloca a beber ao balcão do bar A Lanterna, enquanto lamenta: «Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã quando a censura acabar?»
       Esta será portanto a minha lista. Completem-na se vos parecer que cometi injustiças.

1) Os Insubmissos, Urbano Tavares Rodrigues (1961)
Livro notável e íntimo de Urbano que ficciona o fracasso do jornal Diário Ilustrado, projecto editorial nascido em pleno Estado Novo e liderado pelo seu irmão, Miguel Urbano. Na obra, o jornal chama-se Acção Cultural, e Miguel Urbano é Ernesto, o chefe de redacção. Consumido por constantes tensões entre a redacção e a administração, o jornal fracassa quando um dos redactores é acusado de um crime menor. Ernesto demite-se, a redacção sai em bloco (os insubmissos), com algumas traições pelo meio. Nunca mais me esqueci do diálogo entre Ernesto e o administrador, o Dr. Fernandes, cujo rosto se «jesuitizava» nas discussões. Ernesto explica ao proprietário do Acção Cultural que foram eles, os jornalistas, os tipógrafos, que fizeram o jornal. Friamente, o administrador contrapõe: «Com o nosso dinheiro, senhor doutor. Não se esqueça por favor desse pormenor, que tem a sua importância.»

2) O Código de Hamurabi, Artur Portela (1962)
Descobri-o há pouco tempo e fiquei encantado. É um livro íntimo e incrivelmente provocatório escrito por Artur Portela aos 25 anos. Descreve a experiência do jornalista no Diário de Lisboa, desde a sua entrada, poucos meses antes da morte do pai (Artur Portela, ícone do vespertino de Joaquim Manso), até à sua demissão na década de 1960. Os nomes são ficcionais e tornou-se um exercício obsessivo atribuir identidades aos Sales, Tancredos, Maias, Cunhas, Rochas que vão emergindo. Julgo que descobri mais de metade, mas o Artur Portela não teve a bondade de me confirmar se acertei. Numa carta aberta ao autor, José-Augusto França confirmava em 1962 que o livro era uma pedrada no charco e, se gerara azedume no jornal da Rua Luz Soriano, isso devia-se ao acerto das caricaturas. A vida jornalística de Artur Portela quase terminou com a publicação deste livro e o próprio autor teve noção disso, quando registou: «Estou liquidado, nos jornais estou liquidado, sou um maldito, lepra, pelo menos por enquanto, meses, à portuguesa, humildemente, enquanto se lembrarem, antes que isto acabe em abraços porque há uma maçonaria sem regulamentos, é claro, e eu estou cuspido, ando a monte.»

3) O Secreto Adeus, Baptista-Bastos (1963)
Fiquei espantado quando constatei que os três primeiros volumes desta lista foram publicados entre 1961 e 1963, período de aventuras jornalísticas, redimensionamento da infalibilidade do império português e de inevitáveis repressões sobre as redacções. Os três constituem actos de coragem, mas este será o volume que arriscou mais, até porque, à época, BB encontrava-se em situação laboral precária em O Século. O protagonista é um jornalista rebelde, por quem a filha do administrador se deixa tentar, surpreendida pelo desprendimento com que este lida com a Censura e os constrangimentos ao seu trabalho. Ao longo do romance, o repórter vai perdendo a ilusão, vendendo-se aos poucos à lógica institucional, deixando-se formatar pela máquina. Não é uma história feliz, mas é uma história real, «sem sentimentalismo, sectarismo ou doutrinarismo», como escreveu Rodrigues Miguéis numa recensão. Um ano depois da publicação, Baptista-Bastos entrou para o Diário Popular.

4) A Homenagem, Altino do Tojal (1974)
Já descrevi este comovente volume de contos numa ocasião anterior (aqui), salientando que a coragem do autor lhe valeu o despedimento do Jornal de Notícias. O conto A Homenagem é um exercício de vaudeville, uma descrição sarcástica e impiedosa dos vícios de uma publicação autoconvencida da sua reputação, apreciada por um narrador que, a espaços, teme pelo destino do redactor de Estrangeiro, o próprio Altino. «É corrente dizer-se que o jornalista mata o escritor; mas receio bem que, neste caso, o escritor dê cabo do jornalista», refere premonitoriamente. Ao contrário do chefe de redacção, que chora copiosamente em honra de Sua Excelência, o Director, «o repórter de Estrangeiro não chora». Ou melhor: «Esse morcão só as derrama para dentro. A Natureza não o equipou devidamente para triunfar neste planeta.»

5) Fotomontagem, Artur Portela (1978)
Fotomontagem é a saga de Artur Portela e José Sasportes (o João e o Souzela, responsáveis pelo novo diário Hoje) ao leme do Jornal Novo, projecto jornalístico que emergiu um ano depois da Revolução de Abril e foi congelado logo após o 25 de Novembro. É uma obra de ficção sobre uma derrota real – durante menos de um ano, o projecto nocturno Jornal Novo tornou-se o diário mais vendido em Lisboa, acumulando cachas sobre o processo revolucionário (foi aqui que se publicou em primeira mão o «Documento dos Nove»; foi aqui que Luís Vasconcelos publicou algumas das fotografias mais icónicas de 1975), mas o triunfo profissional rapidamente foi superado pelas manobras da empresa proprietária, que alinhara temporariamente os seus interesses com os de João e Souzela. Ou, se preferirem de outra maneira, o tempo de Artur Portela e José Sasportes esgotou-se em busca de uma terceira via socialista para a revolução que nunca chegou a emergir.
Há dezenas de episódios memoráveis e bem-humorados no livro. A reunião dos dois jornalistas com o séquito de Mário Soares é deliciosa («homem, já lhe disse, é um café e um chá!»); a recepção do senador americano a um grupo de jornalistas portugueses mais confusos do que o visitante é reveladora, sobretudo graças ao impagável “Nuno Reis”, que transforma a sessão num quadro patético de subserviência, para alegria de “Manuel de Sousa Rebelo”, que ri a bandeiras despregadas. O título Fotomontagem homenageia o recurso mais usado na primeira página do Jornal Novo – a sobreposição de fotografias de políticos em imagens de cartoons. Afinal, foi por causa de uma fotomontagem de Mário Soares na primeira página que "Mário Mesquitela" pediu a demissão do Hoje.

6) Os Implicados, Sarah Adamopoulos (1998)
Este volume da jornalista Sarah Adamopoulos completa aquilo a que chamaria a trilogia das biografias não autorizadas de jornais do século XX, a par do livro de Artur Portela sobre o Diário de Lisboa em 1962 e dos contos de Altino do Tojal sobre o Jornal de Notícias em 1974. Esta ficção sobre uma década de trabalho em O Independente é dura, mas realista; divertida, mas incrivelmente comovente; agressiva, mas engajada. É a história de um jornal com «jornalistas-betos, católicos, vagamente nobres, conservadores-liberais, todos jovens promissores que nunca foram para Paris exilar as ideias e que percebem afinal muito pouco de um Antigo Regime que os fascina sobremaneira». É a história de um encantamento profissional que se desvanece. É um livro de uma grande escritora (recensão aqui).


7) O Cavalo a Tinta-da-China, Baptista-Bastos (1995)

Publicada já em democracia, a obra descreve o artifício de Francisco José, revisor de A Voz, diário monárquico e católico, para superar os constrangimentos de censura e entregar-se à produção de um manuscrito críptico sobre Salazar e a solidão do poder, «um político que historicamente se transforma em manuscrito». A tarefa é transferida para os ombros do filho, Manuel, que se debate com receios sobre a sua real capacidade literária e sobre a repressão que inevitavelmente cairá sobre si. A acção oscila entre a Lisboa do pai e a do filho, temperada por figuras literárias e jornalísticas que marcaram a cidade. É muito provável que as palavras que Baptista-Bastos coloca na boca de Reinaldo Ferreira, o repórter X, constituam a sua verdadeira declaração de interesses literários: «Não escrevo para leitores-rãs, os que atravessam um livro sem engolir uma gota de água.»


8) Os Memoráveis, Lídia Jorge (2014)

Se algum estudante de literatura em 2050 quiser recuperar o estado de espírito em 2014 da geração que protagonizou, para o melhor e para o pior, a Revolução de 1974, provavelmente não encontrará um romance tão adequado como Os Memoráveis. É um volume correspondente aos Vencidos da Vida do século XIX – na política, nas aspirações e no jornalismo. Lídia Jorge dispôs a acção entre 2004 e 2010,  recriando os passos de uma equipa portuguesa de jornalistas televisivos, em serviço para a CBS, com a missão de produzir um documentário sobre a revolução de 1974 e «encontrar entre as pedras da calçada miudinha os restos dos cravos, a única metralha de que se socorreu o seu povo para derrubar os velhos tipos e também para se entenderem entre si». Estas palavras foram colocadas na boca do antigo embaixador americano em Lisboa, que "sugere" o documentário a Ana Maria Machado. As aspirações de documentar jornalisticamente o golpe nobre e romântico, sem emoção nem subjectividade como a CBS ensina, são rapidamente desmembradas no contacto com os protagonistas, vencidos pela realidade, pela traição e pelo facto de se terem apaixonado por 1974 e recusarem o regresso à banalidade da rotina.  Pelo meio, a escritora dá voz a um personagem secundário comovente, António Machado, jornalista com dezenas de anos de carreira, uma voz venerada nos anos quentes e entretanto devorada pelo seu jornal de sempre. É impossível não sentir empatia com António Machado, que já não conhece o seu jornal, que se irrita com o jovem director que o trata por você, com os estagiários que não sabem quem foram Hitler e Roosevelt, com a sua mesa e computadores ocupados sem respeito. Por isso, um dia arruma a pasta e nunca mais volta. Devorado. Vencido – como os românticos da sua geração.

9) A Noite, José Saramago (1976)

Única peça de teatro nesta lista, é uma obra injustamente negligenciada na bibliografia de José Saramago. Toda a acção decorre na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 num jornal não discriminado de Lisboa. O chefe de redacção, Abílio Valadares, há muito que se rendeu aos constrangimentos do cargo, à censura, à repressão, ao escrutínio da administração e à adulação do director, Máximo Redondo. Os seus contrapontos são Manuel Torres, repórter de província, Cláudia, uma estagiária, e Jerónimo, o linotipista. Dois modelos de jornalismo são discutidos na mesma redacção na noite em que tudo se modifica no país, enquanto o jornal se mantém imperturbável. Ao tomar conhecimento da revolução, Valadares paralisa. Recusa publicar uma linha sobre ela. Talvez imagine que, se não lhe ligar, a revolução esmorecerá. Afinal, como diz no primeiro acto, tudo se resume a uma máxima: «O senhor director nunca atrasa o jornal, o senhor director é o jornal!» Saramago tem o mérito de incluir, no diálogo secular entre jornalistas e administradores, um terceiro grupo de personagens, os tipógrafos, aos quais concede um carácter decisivo na relação social do interior da redacção.

10) O Despojo dos Insensatos, Mário Ventura Henriques (1968)

Como boa parte da obra de ficção de Mário Ventura Henriques, este volume de 1968 é um tratado de cepticismo e de descrença, sublinhando a convicção do autor, após a sua prisão na década de 1960, de que pouco ou nada mudaria na política portuguesa se dependesse da consciencialização da população. Ventura imagina uma vila algarvia, a Açoreira, radicalmente transformada com a chegada em massa de turistas  estrangeiros. Tudo na vila gira agora em torno dos três meses de Verão, da necessidade de não hostilizar o forasteiro e de filtrar a "triste" imagem dos pobres da vila. José Álvaro, repórter de um grande diário lisboeta (com currículo semelhante ao do próprio autor), encontra-se na Açoreira em gozo de férias, martirizado pelos textos que não escreve, pelas notícias que não regista, pela ideologia que  não combate. Quando um grupo de pescadores inicia uma greve, o repórter acentua a sua divisão íntima entre o «alheamento voluntário (…) que empurra para a desumanização» e a adesão ao protesto. Acaba por encontrar uma terceira via, agredindo as forças policiais e sofrendo pena de prisão – não pactua assim com a omissão nacional do protesto, mas também não se vincula à sua lógica.


Haverá seguramente mais obras. Tenho na calha a leitura da novela Dois Jornalistas, de Teixeira de Pascoaes, mas estas são, para já, as minhas escolhas [em actualização].

terça-feira, julho 21, 2015

«Lá vem este Mínimo Gorki»



Tem um «feitio tão desligado, tão discreto, tão distante», como avisa no pórtico da 30.ª edição de Os Putos, que é natural que a fama literária o tenha banhado de forma tão efémera  como a rebentação de uma onda que logo recua para a posição original. «Sou avesso a tertúlias e, das raras vezes que aconteceu sofrer a vizinhança dos círculos onde se cultivam as chamadas ‘relações úteis’, logo tratei de fugir», continua Altino do Tojal, em jeito de explicação adicional. Mas o paradoxo persiste: Altino do Tojal (o nome próprio é real, o apelido é pseudónimo como avisa em A Minha Rua) produziu alguns dos volumes de contos mais poderosos da nossa literatura da segunda metade do século XX.

A culpa, reconhece-o ele em O Chato, é essencialmente do próprio. Fez-se «evitador de cerimónias, o que não vai a conferências, o que jamais deu uma entrevista, aquele que nunca aparece na televisão – eu, o esquivo, o solitário, o bicho do mato.» Poucos lhe conhecem o nome completo. Talvez nem todos saibam que foi durante sete anos jornalista no Jornal de Notícias (JN), de onde saiu com estrondo depois de publicar, em Maio de 1973, nas Edições Prelo, o volume Os Putos, que recolhia alguns dos seus contos mais controversos sobre a vida de um jornalista na redacção do JN. «Despediram-me sem ao menos me ouvirem», contou numa rara entrevista a Luís Souta em 2001, em A Página da Educação.
Entre os textos mais célebres da sua obra, conta-se A Homenagem, colectânea brilhante de contos sobre personagens do Porto que o acolheu. No conto que deu nome à obra, descreveu uma sessão de homenagem ao director do jornal (adivinha-se que seria Pacheco de Miranda), fazendo desfilar, com deboche e humor, os defeitos de uma redacção vista à lupa.
     Lá figura o chefe de redacção, «homem preparado para a vida, [que] sabe chorar quando é preciso»; o director que não consegue articular um discurso coerente e que, em privado, discorre entusiasmado sobre futebol e prostitutas; o repórter fotográfico que se gaba de ter puxado pelo choro de uma mãe enlutada para captar uma foto que «nem os tipos do Paris-Match teriam feito melhor»; o antigo chefe do Estrangeiro que convidou o director para padrinho de casamento e o subdirector para padrinho do primeiro filho; o subdirector que torturava os famélicos na escola; e o contínuo, voz da razão no meio da orgia de costumes, que aconselha o repórter Altino: «Vá por mim, chegue-se aos grandes, ria c’o eles. Olhe qu’eles fodem-no! Sigure o emprego.»


Aliás, o jornalismo é tema comum na obra de Altino do Tojal. Emerge em Os Emigrantes com Teobaldo que procura na redacção de Altino financiamento para «ir prás estrelas, numa viaige de valão», com pena de não poder levar consigo o porco. Figura em O Quarto, conto delicioso sobre o seu despedimento e o conselho que o jornal lhe deu: «No livrito que escreveu, V. Exª não nomeou ninguém; mas desgraçadamente para si, todos nos reconhecemos. Que desastrado V. Exª é! Porque não tomou por modelos os contínuos, ou mesmo, vá lá, os repórteres-estagiários? Soltávamos umas boas gargalhadas cá nas nossas poltronas e a coisa morria aí.»
Figura igualmente em Judite, conto delicioso sobre uma menina que todos os dias limpa o campo de pedras porque lhe disseram que o avião do pai aterrará ali se o campo estiver limpo – Altino regressa à sua redacção desejoso de escrever um apontamento humano sobre a petiza. É recebido com sarcasmo e total indiferença pelo chefe de redacção: «Lá vem este Mínimo Gorki foder-me outra vez o juízo! Deixe-se de minhoquices, homem. Fale-me de coisas sérias. Assuntos sólidos, dinâmicos, de promoção económica, de impacte geral. Fale da barragem», aconselha. «Olhe, sente-se, escreva umas linhas folclóricas; sublinhe a necessidade de se desenvolver o turismo em região tão dotada pela natureza e meta pelo meio umas referências ao hotel (…) Pertence ao cunhado do nosso director. (…) Ponha uns adjectivos vistosos. Uma coisa compostinha, ham? Você, se quiser, até sabe.»
      No final da Primavera de 1973, Altino foi despedido do Jornal de Notícias. Embora o rasto documental desta vingança administrativa não abunde, há notas circunstanciais muito curiosas. Numa  carta de 14 de Junho de 1973 da jornalista Maria Helena Lima Policarpo para João Gomes, redactor da República (fotocopiada pela PIDE e anexada ao processo do jornal), conta-se que o JN estava então em apuros: «Não mete agora ninguém porque despediu o Altino [do] Tojal por causa do livro que escreveu, onde, segundo parece, relata gente lá de dentro de uma forma 'ridícula' e o director [Pacheco de Miranda] disse-me que, por agora, queria refazer-se dos cem contos que lhe tiveram de dar.»
Quando saiu do Jornal de Notícias, Altino foi integrado na redacção de O Século em Lisboa, onde acompanhou o processo revolucionário e permaneceu até ao fecho do jornal. Viria ainda a escrever durante 17 anos para O Comércio do Porto, definindo-se sempre como um contador de histórias, um incansável coleccionador das peripécias do quotidiano. Em A Homenagem, aliás, regista: «Felizmente, trago sempre esferográfica em tudo quanto é bolso.»
Na Torre do Tombo, subsistem fragmentos da sua carreira literária e jornalística. É por essa a fonte (e pela vigilância que a PIDE lhe atribui) que sabemos que foi escriturário na biblioteca e arquivo de Braga, onde permaneceu até Julho de 1962. Voltou a ser notado pelo regime num processo-crime contra a tipografia de um amigo que imprimira o manifesto de Henrique Galvão aos portugueses, mas desconhece-se se teve, de facto, um papel concreto na operação. E, em Janeiro 1969, não se fez rogado e assinou igualmente uma carta aberta a Marcello Caetano, exigindo a concessão de maiores liberdades – já trabalhava então no JN desde 1966.
      É no entanto um singelo documento de uma página que capta mais a imaginação. Trata-se do relatório dos Serviços de Censura sobre a primeira edição de Os Putos, datada de 18 de Maio de 1973. A obra foi autorizada a circular… por motivos inesperados. Em primeira leitura, o funcionário Ernesto de Moura Coutinho anotou que, em quase todas as histórias, «há uma intenção política negativa», por vezes com uma «certa violência», indício da prática de crimes previstos e puníveis por lei, recomendando por isso a sua apreensão. A apreciação porém foi revogada pelo parecer de Manuel de Almeida Rino Júnior [uma raridade segundo o estudo exaustivo de Joaquim Cardoso Gomes sobre a Censura e os seus mecanismos], que rabiscou: «Parece-me não dever dar-se a uma obra de baixíssimo nível literário a míngua de atenção de qualquer leitor medianamente cultivado; a valorização e propaganda clandestina não deixariam de se verificar».
     A obra de «baixíssimo nível literário» foi autorizada. Hoje, vai na 30.ª edição e é lida por estudantes de todos os níveis de ensino. Na sua carreira, Altino do Tojal, nome literário de Altino Martins da Costa (1939), não fez fortuna: dividiu-se entre o jornalismo, por necessidade, e a literatura, por paixão, acalentando o sonho de sobreviver apenas com a segunda. «Ilusão, pura ilusão», lamentou a Luís Souta em 2001.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
(Serviços de Censura/SNI)
Tanto quanto é possível saber, Altino do Tojal está vivo. Resiste como sempre aos pedidos de entrevista (que também solicitei). Tem uma rua com o seu nome na aldeia da Beirã, em Portalegre, mas vive entre o Minho e Lisboa. Percorreu o mundo e descreveu-o na sua brutalidade, com tons inegavelmente carinhosos e esperançosos desde o dia do final do Verão de 1961 em que, enfiando as mãos nos bolsos, atravessou a fronteira por Lindoso «descontraído, a assobiar, sem passaportes, sem dinheiro, mas com a cabeça fervilhante de projectos literários», contou a Luís Souta.
      «A minha aventura correu mal. Fui detido e devolveram-me à procedência, por etapas, com algemas nos pulsos. Entre as prisões espanholas que conheci avulta a de Valladolid. E avulta porquê? Porque o meu carcereiro achou que devia levantar-me a moral revelando que na cela pegada à minha tinha estado enclausurado Cristóvão Colombo.» 
      Perdeu o jornalismo, ganhou a literatura, embora o nome de Altino do Tojal merecesse um lugar mais destacado no pedestal dos escritores portugueses do século XX. Nada que o preocupe excessivamente. Como ele refere em Nós, Os Brácaros, «felizes são os povos que não precisam de heróis!» 

quinta-feira, julho 16, 2015

O que viu José de Freitas da janela de um comboio chinês? – Parte 2


Não é comum, mas aconteceu desta vez. No ano passado, publiquei uma crónica sobre a viagem do jornalista do Diário Popular José de Freitas à China de Mao em 1964 [texto original aqui]. Para os camaradas de Freitas no jornal, as reportagens, mais tarde reunidas no livro A China Vence o Passado, ficaram muito marcadas pela observação de um fenómeno nos céus que Freitas pensou resultar de uma experiência atómica. Meses mais tarde, descobri que, no Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros (antigo Ministério do Ultramar), existia uma pasta do mesmo ano, codificada apenas como “José de Freitas, do Diário Popular, visita à China Continental” e marcada como “Secreta”. Pedi acesso e esperei pela desclassificação dos documentos.
Aqui fica a adenda à história original recomeçando no ponto exacto onde deixei a narrativa anterior.

Terminada a visita chinesa, José de Freitas regressa a Macau, tradicional porta de entrada portuguesa no Império do Meio. Está apreensivo. Guarda um segredo e, em terras de Mao, nunca sentiu confiança em nenhum dos seus interlocutores para o partilhar. Estava igualmente fora de questão telefonar para Lisboa. No dia 23 de Abril, pede de imediato uma reunião com o governador da província de Macau, António Lopes dos Santos. É provável que sentisse uma ponta de orgulho pelo seu papel de correio diplomático.
Num relato simples e objectivo, Freitas confessa ao governador as gentilezas de que foi alvo em toda a viagem e o percurso gizado pelos chineses para dar a conhecer o seu país. As ambicionadas entrevistas exclusivas com Mao Tsé-Tung e Chu-En-Lai foram frustradas, «muito delicadamente», mas com firmeza. O seu propósito de enviar uma mensagem de boa vontade através da Rádio Pequim foi igualmente negado.
A China, explicou José de Freitas ao seu interlocutor, sentia-se pressionada, entre o seu apreço histórico pelo país que governava Macau e o seu apoio aos movimentos africanos de libertação. Um passo em falso poderia criar «embaraços ao governo de Pequim», embora o problema do Ultramar português nunca tivesse sido aflorado directamente com nenhum dos seus entrevistados. Excepto num jantar de gala. Era isso que Freitas tinha a comunicar.
Em certo jantar em honra do convidado português em data não esclarecida, uma senhora «brindou pela extinção do colonialismo». Freitas sentira-se na obrigação de ripostar, pedindo para rectificar o brinde em honra da «paz entre os povos». A proposta foi aceite, mas Freitas interpretou-a com «a impressão de que a China Continental estaria à espera de qualquer atitude por parte de Portugal». 
Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros
Lopes dos Santos apressou-se a transmitir a informação a Lisboa, ao director-geral dos Negócios Políticos e da Administração Interna. Seguiu-se depois a inevitável filigrana diplomática, com a missiva transmitida de gabinete para gabinete no ministério então tutelado por António Peixoto Correia. Chegou ao Gabinete de Negócios Políticos (GNP), que Pedro Feytor Pinto considerou, em Na Sombra do Poder, uma espécie de Ministério de Negócios Estrangeiros específico, dada a sua dependência directa do ministro. E aí o processo não evoluiu como José de Freitas sonhara.

O PUXÃO DE ORELHAS
Em carta longa, de sete páginas, Pereira Monteiro, funcionário do GNP, retirou qualquer utilidade a um esforço diplomático que pudesse aproximar o governo português da posição que a França já tomara, reconhecendo o governo chinês. «Mais ou menos veladamente», escreve a certo ponto, «a China já nos tem feito saber que apreciaria uma modificação da nossa atitude oficial para com ela. Houve uma diligência junto do Governo de Macau no sentido de uma aproximação por altura da viagem de Chu-En-Lai à África, e neste continente o líder chinês não enveredou pelo caminho dos ataques, pelo menos públicos, a Portugal, muito embora não tenha perdido a oportunidade de condenar o colonialismo.»
O governo português aceitava então a retórica da colonização, mas não do colonialismo, insistindo que, em África e na Ásia, praticava processos de integração nacional, «de carácter aculturador, conseguindo criar uma superestrutura comum de valores de patriotismo que assegura a unidade da nação». Passava-se assim à crítica impiedosa de José de Freitas que, «embora não represente o ponto de vista oficial português (…) também não foi recebido na China na qualidade de uma pessoa qualquer».
Se à frente do jornalista brindaram ao fim do colonialismo, pois que Freitas brindasse também, explicando «de seguida os motivos por que o fazia, já que a posição portuguesa não pode ser nunca imperialista, como é de fácil demonstração (…) Deveria igualmente ter explicado a fase em que se encontra a nossa política de integração e realçar (…) [que] o mesmo estatuto de direito político [se aplica] a todos os portugueses, em toda a parte do território nacional em que se encontrem».
Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros
 Terminando como um mestre-escola no final de um puxão de orelhas a um aluno demasiadamente impetuoso, Pereira Monteiro rematava: «Depois, que brindasse pela paz entre os povos porque é a paz que nós queremos como todos os demais, já que não se vê onde a extinção do colonialismo merecesse ser substituída pela frase que empregou.»
Por outras palavras, nada se faria sobre o recado informal que José de Freitas trouxera da China – apenas um puxão de orelhas ao repórter. Que certamente aprendeu que, em diplomacia como nas salas de aulas, às vezes, é melhor ficar calado do que intervir.

O Programa Literatura Aqui, da RTP2, de 20 de Outubro de 2015, dedicou atenção a esta viagem de José de Freitas, incluindo um depoimento meu. Ligação disponível aqui.

quarta-feira, julho 15, 2015

Uma pequena relíquia

Diário Popular, 30 de Junho de 1951
(A partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Uma pequena relíquia da história dos jornais. 
Uma crónica de Baptista-Bastos (então ainda sem o hífen), publicada no Diário Popular, com ilustrações do igualmente enorme José de Lemos. Data de 1951, mas o futuro repórter assinou ali contos desde pelo menos o ano anterior.
BB teria 17 anos e assinava então textos nas rubricas "Um Conto por Dia" e "Página Infantil". Depois disso, trabalharia em O Século, antes de regressar ao Popular em 1964.

sábado, julho 04, 2015

Falando de castelos

Publicamos este mês uma edição especial sobre os Castelos e Muralhas do Mondego, rede que une municípios na zona centro que tutelam património directamente associado à formação da nacionalidade. Entre os vários monumentos da Rede, fiquei perdido por este castelinho em Penela. Lindíssimo. Bem conservado. Com uma história rica e atribulada. A Anyforms Design de Comunicação ilustrou. O Antonio Luis Campos fotografou. O Paulo Rolão escreveu. A professora Luísa Trindade, da Universidade de Coimbra, esclareceu todas as dúvidas e forneceu informação preciosa. Esta e outras surpresas estão nas bancas este mês.

quarta-feira, junho 10, 2015

A cabeça do galego maldito



Há cerca de três anos, momentos antes de começar uma entrevista, foi-me mostrada uma cabeça. Melhor: a cabeça. A cabeça de Diogo Alves, o infame assassino em série que atormentou a cidade de Lisboa no segundo quartel do século XIX. Divertido com a minha incredulidade, o interlocutor de ocasião contou-me mais pormenores. Falou-me da frenologia, ciência ou pseudo-ciência com pretensões behavioristas, que partia do princípio de que a análise morfológica da cabeça de um ser humano talvez fornecesse pistas para o seu comportamento desviante. Em nome desta prática, serraram-se cabeças de criminosos executados. Fizeram-se medições. Publicaram-se estudos académicos. Houve correspondência acesa entre cirurgiões portugueses e austríacos sobre as “descobertas”. Os phrenologistas permaneceram activos em Portugal até à viragem do século.
Meses mais tarde, ainda com a imagem de Diogo Alves conservado em formol bem presente na minha mente, fiz uma viagem de carro com dois ilustradores de quem muito gosto. Um, ao volante, cumpria escrupulosamente o código da estrada, motivo pelo qual demoramos sempre quatro horas para chegar ao Porto [não avanço o seu nome para evitar represálias…]; o outro era o Miguel Alves.
Calhou em conversa contar-lhe a observação que fizera e de como começara a pesquisar o universo esquecido da frenologia. O Miguel foi fazendo perguntas. Estava precisamente à procura de um tema para explorar numa banda desenhada ainda em embrião. Queria trabalhar um tema histórico, mas, herdeiro da tradição de Frank Miller, queria algo mais escuro. Mais negro. Mais perturbador.
Dessa conversa, nasceu um guião que fiz com todo o gosto e com a ingenuidade própria de quem trabalha em banda desenhada pela primeira vez (segunda, se contarmos com a saga Trondheim, cujo humilhante epílogo levarei para a cova). Desse barro, o Miguel construiu uma dissertação de mestrado muitíssimo bem argumentada. Tomou opções. Construiu todo um edifício narrativo, com opções maduras, próprias de quem sabe o que quer. Contou a história de Diogo Alves como ela nunca foi contada – ajudado pela orientação sábia do João Paulo Cotrim, um homem que parece conhecer o segredo para esticar as 24 horas do dia para lá dos limites da física heisenberguiana.
© Miguel Alves, 2015
Não tenham ilusões. No nosso projecto conjunto, o Miguel foi o carregador de piano e arcou com 95% da transpiração. Cabe-lhe todo o mérito.
Na passada sexta-feira, no pólo de Guimarães da Escola Superior Artística do Porto, com arguição de João Miguel Lameiras, o Miguel defendeu com sucesso o seu projecto académico e a sua interpretação em banda desenhada da história de Diogo Alves, o assassino do aqueduto.
Terminou com 19 valores.
Quase que aposto que, em Lisboa, conservada em formol há mais de século e meio, a cabeça do galego maldito piscou o olho quando soube da novidade!

quinta-feira, junho 04, 2015

segunda-feira, junho 01, 2015

Chegará um ponto em que considerarão isto spam...



Chegará um ponto em que considerarão isto spam, mas não posso deixar de agradecer ao João Céu e Silva pela amável recensão do Parem as Máquinas! no Diário de Notícias de sábado, 30. Sobretudo porque ele escolheu um trecho onde homenageio o saudoso Vitor Galvão Correia.