terça-feira, julho 21, 2015

«Lá vem este Mínimo Gorki»



Tem um «feitio tão desligado, tão discreto, tão distante», como avisa no pórtico da 30.ª edição de Os Putos, que é natural que a fama literária o tenha banhado de forma tão efémera  como a rebentação de uma onda que logo recua para a posição original. «Sou avesso a tertúlias e, das raras vezes que aconteceu sofrer a vizinhança dos círculos onde se cultivam as chamadas ‘relações úteis’, logo tratei de fugir», continua Altino do Tojal, em jeito de explicação adicional. Mas o paradoxo persiste: Altino do Tojal (o nome próprio é real, o apelido é pseudónimo como avisa em A Minha Rua) produziu alguns dos volumes de contos mais poderosos da nossa literatura da segunda metade do século XX.

A culpa, reconhece-o ele em O Chato, é essencialmente do próprio. Fez-se «evitador de cerimónias, o que não vai a conferências, o que jamais deu uma entrevista, aquele que nunca aparece na televisão – eu, o esquivo, o solitário, o bicho do mato.» Poucos lhe conhecem o nome completo. Talvez nem todos saibam que foi durante sete anos jornalista no Jornal de Notícias (JN), de onde saiu com estrondo depois de publicar, em Maio de 1973, nas Edições Prelo, o volume Os Putos, que recolhia alguns dos seus contos mais controversos sobre a vida de um jornalista na redacção do JN. «Despediram-me sem ao menos me ouvirem», contou numa rara entrevista a Luís Souta em 2001, em A Página da Educação.
Entre os textos mais célebres da sua obra, conta-se A Homenagem, colectânea brilhante de contos sobre personagens do Porto que o acolheu. No conto que deu nome à obra, descreveu uma sessão de homenagem ao director do jornal (adivinha-se que seria Pacheco de Miranda), fazendo desfilar, com deboche e humor, os defeitos de uma redacção vista à lupa.
     Lá figura o chefe de redacção, «homem preparado para a vida, [que] sabe chorar quando é preciso»; o director que não consegue articular um discurso coerente e que, em privado, discorre entusiasmado sobre futebol e prostitutas; o repórter fotográfico que se gaba de ter puxado pelo choro de uma mãe enlutada para captar uma foto que «nem os tipos do Paris-Match teriam feito melhor»; o antigo chefe do Estrangeiro que convidou o director para padrinho de casamento e o subdirector para padrinho do primeiro filho; o subdirector que torturava os famélicos na escola; e o contínuo, voz da razão no meio da orgia de costumes, que aconselha o repórter Altino: «Vá por mim, chegue-se aos grandes, ria c’o eles. Olhe qu’eles fodem-no! Sigure o emprego.»


Aliás, o jornalismo é tema comum na obra de Altino do Tojal. Emerge em Os Emigrantes com Teobaldo que procura na redacção de Altino financiamento para «ir prás estrelas, numa viaige de valão», com pena de não poder levar consigo o porco. Figura em O Quarto, conto delicioso sobre o seu despedimento e o conselho que o jornal lhe deu: «No livrito que escreveu, V. Exª não nomeou ninguém; mas desgraçadamente para si, todos nos reconhecemos. Que desastrado V. Exª é! Porque não tomou por modelos os contínuos, ou mesmo, vá lá, os repórteres-estagiários? Soltávamos umas boas gargalhadas cá nas nossas poltronas e a coisa morria aí.»
Figura igualmente em Judite, conto delicioso sobre uma menina que todos os dias limpa o campo de pedras porque lhe disseram que o avião do pai aterrará ali se o campo estiver limpo – Altino regressa à sua redacção desejoso de escrever um apontamento humano sobre a petiza. É recebido com sarcasmo e total indiferença pelo chefe de redacção: «Lá vem este Mínimo Gorki foder-me outra vez o juízo! Deixe-se de minhoquices, homem. Fale-me de coisas sérias. Assuntos sólidos, dinâmicos, de promoção económica, de impacte geral. Fale da barragem», aconselha. «Olhe, sente-se, escreva umas linhas folclóricas; sublinhe a necessidade de se desenvolver o turismo em região tão dotada pela natureza e meta pelo meio umas referências ao hotel (…) Pertence ao cunhado do nosso director. (…) Ponha uns adjectivos vistosos. Uma coisa compostinha, ham? Você, se quiser, até sabe.»
      No final da Primavera de 1973, Altino foi despedido do Jornal de Notícias. Embora o rasto documental desta vingança administrativa não abunde, há notas circunstanciais muito curiosas. Numa  carta de 14 de Junho de 1973 da jornalista Maria Helena Lima Policarpo para João Gomes, redactor da República (fotocopiada pela PIDE e anexada ao processo do jornal), conta-se que o JN estava então em apuros: «Não mete agora ninguém porque despediu o Altino [do] Tojal por causa do livro que escreveu, onde, segundo parece, relata gente lá de dentro de uma forma 'ridícula' e o director [Pacheco de Miranda] disse-me que, por agora, queria refazer-se dos cem contos que lhe tiveram de dar.»
Quando saiu do Jornal de Notícias, Altino foi integrado na redacção de O Século em Lisboa, onde acompanhou o processo revolucionário e permaneceu até ao fecho do jornal. Viria ainda a escrever durante 17 anos para O Comércio do Porto, definindo-se sempre como um contador de histórias, um incansável coleccionador das peripécias do quotidiano. Em A Homenagem, aliás, regista: «Felizmente, trago sempre esferográfica em tudo quanto é bolso.»
Na Torre do Tombo, subsistem fragmentos da sua carreira literária e jornalística. É por essa a fonte (e pela vigilância que a PIDE lhe atribui) que sabemos que foi escriturário na biblioteca e arquivo de Braga, onde permaneceu até Julho de 1962. Voltou a ser notado pelo regime num processo-crime contra a tipografia de um amigo que imprimira o manifesto de Henrique Galvão aos portugueses, mas desconhece-se se teve, de facto, um papel concreto na operação. E, em Janeiro 1969, não se fez rogado e assinou igualmente uma carta aberta a Marcello Caetano, exigindo a concessão de maiores liberdades – já trabalhava então no JN desde 1966.
      É no entanto um singelo documento de uma página que capta mais a imaginação. Trata-se do relatório dos Serviços de Censura sobre a primeira edição de Os Putos, datada de 18 de Maio de 1973. A obra foi autorizada a circular… por motivos inesperados. Em primeira leitura, o funcionário Ernesto de Moura Coutinho anotou que, em quase todas as histórias, «há uma intenção política negativa», por vezes com uma «certa violência», indício da prática de crimes previstos e puníveis por lei, recomendando por isso a sua apreensão. A apreciação porém foi revogada pelo parecer de Manuel de Almeida Rino Júnior [uma raridade segundo o estudo exaustivo de Joaquim Cardoso Gomes sobre a Censura e os seus mecanismos], que rabiscou: «Parece-me não dever dar-se a uma obra de baixíssimo nível literário a míngua de atenção de qualquer leitor medianamente cultivado; a valorização e propaganda clandestina não deixariam de se verificar».
     A obra de «baixíssimo nível literário» foi autorizada. Hoje, vai na 30.ª edição e é lida por estudantes de todos os níveis de ensino. Na sua carreira, Altino do Tojal, nome literário de Altino Martins da Costa (1939), não fez fortuna: dividiu-se entre o jornalismo, por necessidade, e a literatura, por paixão, acalentando o sonho de sobreviver apenas com a segunda. «Ilusão, pura ilusão», lamentou a Luís Souta em 2001.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
(Serviços de Censura/SNI)
Tanto quanto é possível saber, Altino do Tojal está vivo. Resiste como sempre aos pedidos de entrevista (que também solicitei). Tem uma rua com o seu nome na aldeia da Beirã, em Portalegre, mas vive entre o Minho e Lisboa. Percorreu o mundo e descreveu-o na sua brutalidade, com tons inegavelmente carinhosos e esperançosos desde o dia do final do Verão de 1961 em que, enfiando as mãos nos bolsos, atravessou a fronteira por Lindoso «descontraído, a assobiar, sem passaportes, sem dinheiro, mas com a cabeça fervilhante de projectos literários», contou a Luís Souta.
      «A minha aventura correu mal. Fui detido e devolveram-me à procedência, por etapas, com algemas nos pulsos. Entre as prisões espanholas que conheci avulta a de Valladolid. E avulta porquê? Porque o meu carcereiro achou que devia levantar-me a moral revelando que na cela pegada à minha tinha estado enclausurado Cristóvão Colombo.» 
      Perdeu o jornalismo, ganhou a literatura, embora o nome de Altino do Tojal merecesse um lugar mais destacado no pedestal dos escritores portugueses do século XX. Nada que o preocupe excessivamente. Como ele refere em Nós, Os Brácaros, «felizes são os povos que não precisam de heróis!» 

quinta-feira, julho 16, 2015

O que viu José de Freitas da janela de um comboio chinês? – Parte 2


Não é comum, mas aconteceu desta vez. No ano passado, publiquei uma crónica sobre a viagem do jornalista do Diário Popular José de Freitas à China de Mao em 1964 [texto original aqui]. Para os camaradas de Freitas no jornal, as reportagens, mais tarde reunidas no livro A China Vence o Passado, ficaram muito marcadas pela observação de um fenómeno nos céus que Freitas pensou resultar de uma experiência atómica. Meses mais tarde, descobri que, no Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros (antigo Ministério do Ultramar), existia uma pasta do mesmo ano, codificada apenas como “José de Freitas, do Diário Popular, visita à China Continental” e marcada como “Secreta”. Pedi acesso e esperei pela desclassificação dos documentos.
Aqui fica a adenda à história original recomeçando no ponto exacto onde deixei a narrativa anterior.

Terminada a visita chinesa, José de Freitas regressa a Macau, tradicional porta de entrada portuguesa no Império do Meio. Está apreensivo. Guarda um segredo e, em terras de Mao, nunca sentiu confiança em nenhum dos seus interlocutores para o partilhar. Estava igualmente fora de questão telefonar para Lisboa. No dia 23 de Abril, pede de imediato uma reunião com o governador da província de Macau, António Lopes dos Santos. É provável que sentisse uma ponta de orgulho pelo seu papel de correio diplomático.
Num relato simples e objectivo, Freitas confessa ao governador as gentilezas de que foi alvo em toda a viagem e o percurso gizado pelos chineses para dar a conhecer o seu país. As ambicionadas entrevistas exclusivas com Mao Tsé-Tung e Chu-En-Lai foram frustradas, «muito delicadamente», mas com firmeza. O seu propósito de enviar uma mensagem de boa vontade através da Rádio Pequim foi igualmente negado.
A China, explicou José de Freitas ao seu interlocutor, sentia-se pressionada, entre o seu apreço histórico pelo país que governava Macau e o seu apoio aos movimentos africanos de libertação. Um passo em falso poderia criar «embaraços ao governo de Pequim», embora o problema do Ultramar português nunca tivesse sido aflorado directamente com nenhum dos seus entrevistados. Excepto num jantar de gala. Era isso que Freitas tinha a comunicar.
Em certo jantar em honra do convidado português em data não esclarecida, uma senhora «brindou pela extinção do colonialismo». Freitas sentira-se na obrigação de ripostar, pedindo para rectificar o brinde em honra da «paz entre os povos». A proposta foi aceite, mas Freitas interpretou-a com «a impressão de que a China Continental estaria à espera de qualquer atitude por parte de Portugal». 
Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros
Lopes dos Santos apressou-se a transmitir a informação a Lisboa, ao director-geral dos Negócios Políticos e da Administração Interna. Seguiu-se depois a inevitável filigrana diplomática, com a missiva transmitida de gabinete para gabinete no ministério então tutelado por António Peixoto Correia. Chegou ao Gabinete de Negócios Políticos (GNP), que Pedro Feytor Pinto considerou, em Na Sombra do Poder, uma espécie de Ministério de Negócios Estrangeiros específico, dada a sua dependência directa do ministro. E aí o processo não evoluiu como José de Freitas sonhara.

O PUXÃO DE ORELHAS
Em carta longa, de sete páginas, Pereira Monteiro, funcionário do GNP, retirou qualquer utilidade a um esforço diplomático que pudesse aproximar o governo português da posição que a França já tomara, reconhecendo o governo chinês. «Mais ou menos veladamente», escreve a certo ponto, «a China já nos tem feito saber que apreciaria uma modificação da nossa atitude oficial para com ela. Houve uma diligência junto do Governo de Macau no sentido de uma aproximação por altura da viagem de Chu-En-Lai à África, e neste continente o líder chinês não enveredou pelo caminho dos ataques, pelo menos públicos, a Portugal, muito embora não tenha perdido a oportunidade de condenar o colonialismo.»
O governo português aceitava então a retórica da colonização, mas não do colonialismo, insistindo que, em África e na Ásia, praticava processos de integração nacional, «de carácter aculturador, conseguindo criar uma superestrutura comum de valores de patriotismo que assegura a unidade da nação». Passava-se assim à crítica impiedosa de José de Freitas que, «embora não represente o ponto de vista oficial português (…) também não foi recebido na China na qualidade de uma pessoa qualquer».
Se à frente do jornalista brindaram ao fim do colonialismo, pois que Freitas brindasse também, explicando «de seguida os motivos por que o fazia, já que a posição portuguesa não pode ser nunca imperialista, como é de fácil demonstração (…) Deveria igualmente ter explicado a fase em que se encontra a nossa política de integração e realçar (…) [que] o mesmo estatuto de direito político [se aplica] a todos os portugueses, em toda a parte do território nacional em que se encontrem».
Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros
 Terminando como um mestre-escola no final de um puxão de orelhas a um aluno demasiadamente impetuoso, Pereira Monteiro rematava: «Depois, que brindasse pela paz entre os povos porque é a paz que nós queremos como todos os demais, já que não se vê onde a extinção do colonialismo merecesse ser substituída pela frase que empregou.»
Por outras palavras, nada se faria sobre o recado informal que José de Freitas trouxera da China – apenas um puxão de orelhas ao repórter. Que certamente aprendeu que, em diplomacia como nas salas de aulas, às vezes, é melhor ficar calado do que intervir.

O Programa Literatura Aqui, da RTP2, de 20 de Outubro de 2015, dedicou atenção a esta viagem de José de Freitas, incluindo um depoimento meu. Ligação disponível aqui.

quarta-feira, julho 15, 2015

Uma pequena relíquia

Diário Popular, 30 de Junho de 1951
(A partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Uma pequena relíquia da história dos jornais. 
Uma crónica de Baptista-Bastos (então ainda sem o hífen), publicada no Diário Popular, com ilustrações do igualmente enorme José de Lemos. Data de 1951, mas o futuro repórter assinou ali contos desde pelo menos o ano anterior.
BB teria 17 anos e assinava então textos nas rubricas "Um Conto por Dia" e "Página Infantil". Depois disso, trabalharia em O Século, antes de regressar ao Popular em 1964.

sábado, julho 04, 2015

Falando de castelos

Publicamos este mês uma edição especial sobre os Castelos e Muralhas do Mondego, rede que une municípios na zona centro que tutelam património directamente associado à formação da nacionalidade. Entre os vários monumentos da Rede, fiquei perdido por este castelinho em Penela. Lindíssimo. Bem conservado. Com uma história rica e atribulada. A Anyforms Design de Comunicação ilustrou. O Antonio Luis Campos fotografou. O Paulo Rolão escreveu. A professora Luísa Trindade, da Universidade de Coimbra, esclareceu todas as dúvidas e forneceu informação preciosa. Esta e outras surpresas estão nas bancas este mês.

quarta-feira, junho 10, 2015

A cabeça do galego maldito



Há cerca de três anos, momentos antes de começar uma entrevista, foi-me mostrada uma cabeça. Melhor: a cabeça. A cabeça de Diogo Alves, o infame assassino em série que atormentou a cidade de Lisboa no segundo quartel do século XIX. Divertido com a minha incredulidade, o interlocutor de ocasião contou-me mais pormenores. Falou-me da frenologia, ciência ou pseudo-ciência com pretensões behavioristas, que partia do princípio de que a análise morfológica da cabeça de um ser humano talvez fornecesse pistas para o seu comportamento desviante. Em nome desta prática, serraram-se cabeças de criminosos executados. Fizeram-se medições. Publicaram-se estudos académicos. Houve correspondência acesa entre cirurgiões portugueses e austríacos sobre as “descobertas”. Os phrenologistas permaneceram activos em Portugal até à viragem do século.
Meses mais tarde, ainda com a imagem de Diogo Alves conservado em formol bem presente na minha mente, fiz uma viagem de carro com dois ilustradores de quem muito gosto. Um, ao volante, cumpria escrupulosamente o código da estrada, motivo pelo qual demoramos sempre quatro horas para chegar ao Porto [não avanço o seu nome para evitar represálias…]; o outro era o Miguel Alves.
Calhou em conversa contar-lhe a observação que fizera e de como começara a pesquisar o universo esquecido da frenologia. O Miguel foi fazendo perguntas. Estava precisamente à procura de um tema para explorar numa banda desenhada ainda em embrião. Queria trabalhar um tema histórico, mas, herdeiro da tradição de Frank Miller, queria algo mais escuro. Mais negro. Mais perturbador.
Dessa conversa, nasceu um guião que fiz com todo o gosto e com a ingenuidade própria de quem trabalha em banda desenhada pela primeira vez (segunda, se contarmos com a saga Trondheim, cujo humilhante epílogo levarei para a cova). Desse barro, o Miguel construiu uma dissertação de mestrado muitíssimo bem argumentada. Tomou opções. Construiu todo um edifício narrativo, com opções maduras, próprias de quem sabe o que quer. Contou a história de Diogo Alves como ela nunca foi contada – ajudado pela orientação sábia do João Paulo Cotrim, um homem que parece conhecer o segredo para esticar as 24 horas do dia para lá dos limites da física heisenberguiana.
© Miguel Alves, 2015
Não tenham ilusões. No nosso projecto conjunto, o Miguel foi o carregador de piano e arcou com 95% da transpiração. Cabe-lhe todo o mérito.
Na passada sexta-feira, no pólo de Guimarães da Escola Superior Artística do Porto, com arguição de João Miguel Lameiras, o Miguel defendeu com sucesso o seu projecto académico e a sua interpretação em banda desenhada da história de Diogo Alves, o assassino do aqueduto.
Terminou com 19 valores.
Quase que aposto que, em Lisboa, conservada em formol há mais de século e meio, a cabeça do galego maldito piscou o olho quando soube da novidade!

quinta-feira, junho 04, 2015

segunda-feira, junho 01, 2015

Chegará um ponto em que considerarão isto spam...



Chegará um ponto em que considerarão isto spam, mas não posso deixar de agradecer ao João Céu e Silva pela amável recensão do Parem as Máquinas! no Diário de Notícias de sábado, 30. Sobretudo porque ele escolheu um trecho onde homenageio o saudoso Vitor Galvão Correia.

sexta-feira, maio 29, 2015

Desafio aceite



Declaração de interesses: sou amigo, colega, leitor e admirador de Rogério Santos de quem fui aluno e orientando.
Deixo aqui a recensão de que o meu livro foi alvo, não só porque ela reflecte o cuidado habitual do autor do Indústrias Culturais em criticar com substância e método, mas também pelas pistas e sugestões que o texto encerra.
Ao primeiro desafio, adiro com entusiasmo — nas próximas semanas, colmatarei a falha e narrarei um episódio formidável de uma mulher-jornalista desconhecida. Estava guardado para o momento em que conseguisse confirmar a data de óbito da pessoa em causa, mas, desafiado, acelerarei. Ao segundo, já não está nas minhas mãos. Mas espero novidades nessa frente. Com uma vénia agradecida ao autor.

quinta-feira, maio 28, 2015

Dos linces, dos homens e de um fotógrafo



Fartamo-nos de sentenciar que acabou o tempo do jornalismo de investigação. Que o tempo de pesquisa, processamento, reflexão e publicação ou difusão já lá vai. «Jornalismo imediato», prega o spot de uma televisão. Não é um diagnóstico vão. Ele é válido para quase todos os jornalistas e para quase todos os órgãos de comunicação que conheço – por motivos válidos e dificilmente removíveis, entenda-se. Mas eu conheço pelo menos um tipo com um brio invulgar.
A reportagem que publicamos amanhã sobre o lince-ibérico poderia ter sido concluída em Dezembro, com a libertação simbólica dos primeiros linces num recinto controlado. Ou em Outubro de 2014 quando as notícias sobre o sucesso de reprodução e sobrevivência em cativeiro eram muitíssimo animadoras. Ou mesmo em Março deste ano quando as primeiras libertações de animais em ambiente totalmente selvagem tiveram lugar. Para o Luís Quinta, faltava mais uma imagem. Mais um dado.
Perturbou metade da população da serra de Monchique em busca de informação, de rumores de avistamento. Foi para Vila Nova de Milfontes há mais de dois anos e descobriu um lince solitário, conhecido e tolerado por caçadores e população local, mas bem fora da área onde era suposto viver. Uma espécie de Tom Sawyer entre os linces, portanto. O Luís chateou coleccionadores privados que guardavam exemplares de linces caçados há décadas [num caso, um lince quase contemporâneo do 5 de Outubro de 1910]. Pediu dados à equipa de monitorização. Esperou por autorizações. Obteve dados inéditos sobre movimentos dos linces. Esta era uma das histórias que o Luís não queria falhar. Queria contá-la sem hipérboles. Só os factos – dados de conservação, ameaças reais, desafios de investigação, incógnitas.
Há fotografias na reportagem que publicamos amanhã que demoraram semanas a preparar. Há uma, particularmente deliciosa, na qual o Luís juntou uma imagem de câmara accionada por controlo remoto com o vigilante que tem a missão de verificar todos os dias os vultos que possam ter sido captados fortuitamente por esses dispositivos. Foi ele que, numa bela manhã de 2013, encontrou uma imagem inesperadamente bela na memória do equipamento. Teria sido tão fácil fotografar só o vigilante. Ou um vigilante. Ou publicar só a imagem a preto e branco do animal surpreendido naquele instantâneo fantasmagórico. Nenhuma contaria tão bem a nossa história como aquela que o Luís preparou e obteve (Não a mostro de propósito para vos forçar a procurá-la na revista!).
O jornalista Baptista-Bastos escreveu certa vez, no final de uma reportagem: «Ouvi dizer, aqui há muitos anos, que uma história começa quando os outros se surpreendem.» Vejam amanhã as fotografias do Luís Quinta e surpreendam-se. Então, sim, espero que estejam prontos para a história.

terça-feira, maio 26, 2015

Recauchutagem e empastelamento

Arquivo da Biblioteca Nacional do Brasil. Projecto Jornais Extintos


[Crónicas hospitalares] Encostado à boxe para recauchutagem da máquina, encontrei, em leituras improváveis, um dos mais fenomenais empastelamentos da imprensa lusófona. O pastel, ou empastelamento, era o pesadelo dos tipógrafos — a junção inadvertida de dois textos diferentes. Aconteceu em 1908 na Gazeta de São João da Boavista, Brasil. Noticiava-se a partida para o Rio de um médico estimado em Goiás e a notícia foi poluída pelo anúncio de um certame zootécnico marcado por um porco de dimensões generosas. Transcrevo:
«Parte hoje para o Rio de Janeiro, onde demorar-se-á alguns meses, o nosso querido amigo, dr. José da Silva Mattos.
É um dos melhores exemplos de suínos que temos visto, attingindo o seu peso, caso entre nós nunca visto, a 168 kilogrammos.
Os seus numerosos amigos, querendo demonstrar quão sensível lhes será a ausência do estimado clínico que vae remetido para a Exposição Nacional onde certamente ganhará um dos prémios destinados a animais do ceva, demonstrando os cuidados que dispensava com sua carinhosa presença aos seus enfermos, attendendo a qualquer hora do dia ou da noite os chamados por maior que enche de orgulho os criadores goyanos certos de que esse representante da zootechina do município na Capital attestará o adiantamento de operoso clínico que deixa fundas saudades entre nós com sua retirada, felizmente não longa.
Teremos a maior satisfação e prazer em vel-o esquartejado, vendido a peso seu toucinho dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»

Ponto de partida: Memórias de um Repórter, Tomé Vieira, Lisboa, s/ data.

quinta-feira, maio 21, 2015

Com a devida vénia



Associado, no mesmo texto de A BOLA, a dois monstros do jornalismo português e do Diário Popular, Baptista-Bastos e Aurélio Márcio, não posso deixar de executar uma vénia respeitosa ao generoso António Simões por esta recensão formidável do Parem as Máquinas publicada no jornal de hoje.

sábado, maio 16, 2015

Sessão de lançamento [fotos]

Faltam palavras para exprimir o meu agradecimento. Ficam as imagens, captadas no Salão Nobre da Casa da Imprensa em reportagem fotográfica do Xavier. Muito obrigado a todos!
























sexta-feira, maio 08, 2015

Oscar Mascarenhas num texto comovente de Antunes Ferreira


Toalha de banho por mor dos picantes muito picantes
Por Antunes Ferreira
Era o goês que conheci – e conheci e conheço muitos – que mais suava quando comia picantes muito picantes A expressão era dele. Além de camadas de profissão éramos Amigos. A minha mulher Raquel conhecia-o desde que ele tinha quatro anos. Em Goa, obviamente. A família, no entanto, era oriunda de Damão.
Quando vinha almoçar ou jantar a nossa casa o ritual repetia-se: a Raquel ia buscar uma toalha de banho para ele enrolar a cabeça e o tronco molhados de tanto suor. Um tipo pachola, repentista, irónico, por vezes mesmo acintoso, mas era um Grande Jornalista.
Falar dos seus muitos méritos profissionais é despiciendo. Já muitos o fizeram e certamente muito melhor do que eu faria. Aqui apenas tento  falar dos seus contactos humanos. Vejam só. Um dia em nossa casa no momento à Lapa almoçavam três casais. O Mário Ventura Henriques e a sua mulher Eglantina, o Oscar (sem acento) e a Natal, a Raquel e eu.
Foi um almoço para sempre recordar, como reza o anúncio. A malta comia (muito), bebia (muito) e o maestro ela ele. O Mário esbugalhou os olhos quando viu a toalha de banho. E ele imperturbável: nunca viste um gajo a comer picantes muito picantes? A partir de agora já podes dizer que viste… O Ventura Henriques engoliu em seco, perdão, molhado e continuou a conversa entremeada das comidas e bebidas.
Entrementes os meus filhos vieram à mesa para abastecer os seus pratos e ficaram como se não fosse nada com eles; já estavam habituados à encenação, já estavam habituados à toalha de banho, já estavam habituados com ele. Então meus meninos (o Miguel já tinha 20 anos,  já andava no Instituto Superior de Ecomimia e Finanças, o Paul, com 18, acabara de entrar em Sociologia e o Luís Carlos, o mais novo estava a preparar-se para Direito mas para ele eram meninos) como vão de namoradas? Vá, não se encolham que os papás não ouvem; desembuchem…
A Eglantina disse sotto vocce, então não perguntas pelos estudos? E ele: não preciso; sendo filhos da minha prima Raquel têm de ser bons alunos. Já o pai (que era eu, suponho) para ser burro só lhe faltam as penas!...  Brincava. Caímos na galhofa. Ele era assim. No entanto era muito sensível e escondia a sensibilidade pela ironia, sem dar conta sobretudo aos outros que tinha dificuldades nesse jogo de sombras. A Natal conhecia-o bem e boca calada prudentemente.
Quando terminou o repasto  o tipo avisou: não comam mais! A Raquel e o Antunes Ferreira têm para jantar outro casal amigo e vão aproveitar estes restos para dar a esse casal. Aí ninguém pôde retrair o riso. As gargalhadas saíram em catadupas. E fomo-nos ao café (que não eu porque não o tomo) e aos uísques que eu tinha em quantidades muito apreciáveis.
E pronto, era para mim assim o Oscar (sem acento) e no meio do desgosto – chegaram-me as lágrimas aos olhos quando um e-mail me deu a notícia – bom Amigo, camarada, terno e sensível embora estas qualidades fossem por ele bem encapotadas. Só uma vez o vi eufórico: quando a sua Carol terminou o mestrado, o que enunciou a todas as Amigas e todos os Amigos, sem esconder o orgulho que tinha pela filha Carolina, a menina dos seus olhos.
Mas, podem ter a certeza de que o Oscar (sem acento) era um Grande Jornalista.

quinta-feira, maio 07, 2015

Pré-publicação, Sábado



A edição de 7 de Maio da revista Sábado tem a amabilidade de fazer a pré-publicação de parte do primeiro capna semana em cursosta.u agradecimento sincero ítulo do meu Parem as Máquinas!, publicado na semana em curso.
Aqui fica a nota do meu agradecimento sincero à rapaziada da revista.

terça-feira, maio 05, 2015

Sessão de lançamento marcada



Está marcada e conto convosco. No dia 14 de Maio, pelas 18h30, no auditório da Casa da Imprensa (Rua da Horta Seca, ao Largo de Camões), o jornalista João Paulo Cotrim apresentará o Parem as Máquinas!
Espero ver-vos por lá!

segunda-feira, maio 04, 2015

Parem as Máquinas! (2)


É já na quarta-feira que o livro Parem as Máquinas! chega às livrarias. Convenientemente, o Presidente da República não estará em Portugal à data do lançamento, pois partiu para a Noruega em visita de Estado. Habituado como estou a ler nas entrelinhas – capacidade muito comum entre os míopes – é natural que os dois actos estejam relacionados. Enfim: Cavaco Silva não estará, mas os leitores do blogue compensarão a ausência protocolar com idêntica dignidade e menos episódios vagais.
Antecipo hoje o sumário da obra e ameaço desde já com uma sessão de lançamento na próxima semana em Lisboa (darei mais pormenores nos próximos dias). Posso desde já confirmar que a apresentação pública do livro será conduzida numa língua indo-europeia, mas hesitamos entre uma língua morta e uma língua viperina.
Está anunciado, rapaziada! Unicuĭque suum, como diria Lutero. A cada um, o seu [exemplar].