Faltam palavras para exprimir o meu agradecimento. Ficam as imagens, captadas no Salão Nobre da Casa da Imprensa em reportagem fotográfica do Xavier. Muito obrigado a todos!
sábado, maio 16, 2015
sexta-feira, maio 08, 2015
Oscar Mascarenhas num texto comovente de Antunes Ferreira
Toalha de banho por mor dos picantes muito picantes
Por
Antunes Ferreira
Era
o goês que conheci – e conheci e conheço muitos – que mais suava quando comia
picantes muito picantes A expressão era dele. Além de camadas de profissão
éramos Amigos. A minha mulher Raquel conhecia-o desde que ele tinha quatro anos.
Em Goa, obviamente. A família, no entanto, era oriunda de Damão.
Quando
vinha almoçar ou jantar a nossa casa o ritual repetia-se: a Raquel ia buscar
uma toalha de banho para ele enrolar a cabeça e o tronco molhados de tanto
suor. Um tipo pachola, repentista, irónico, por vezes mesmo acintoso, mas era
um Grande Jornalista.
Falar
dos seus muitos méritos profissionais é despiciendo. Já muitos o fizeram e
certamente muito melhor do que eu faria. Aqui apenas tento falar dos seus contactos humanos. Vejam só. Um
dia em nossa casa no momento à Lapa almoçavam três casais. O Mário Ventura
Henriques e a sua mulher Eglantina, o Oscar (sem acento) e a Natal, a Raquel e
eu.
Foi
um almoço para sempre recordar, como reza o anúncio. A malta comia (muito),
bebia (muito) e o maestro ela ele. O Mário esbugalhou os olhos quando viu a
toalha de banho. E ele imperturbável: nunca viste um gajo a comer picantes
muito picantes? A partir de agora já podes dizer que viste… O Ventura Henriques
engoliu em seco, perdão, molhado e continuou a conversa entremeada das comidas
e bebidas.
Entrementes
os meus filhos vieram à mesa para abastecer os seus pratos e ficaram como se
não fosse nada com eles; já estavam habituados à encenação, já estavam
habituados à toalha de banho, já estavam habituados com ele. Então meus meninos
(o Miguel já tinha 20 anos, já andava no
Instituto Superior de Ecomimia e Finanças, o Paul, com 18, acabara de entrar em Sociologia e o Luís
Carlos, o mais novo estava a preparar-se para Direito mas para ele eram meninos)
como vão de namoradas? Vá, não se encolham que os papás não ouvem; desembuchem…
A
Eglantina disse sotto vocce, então não perguntas pelos estudos? E ele: não
preciso; sendo filhos da minha prima Raquel têm de ser bons alunos. Já o pai
(que era eu, suponho) para ser burro só lhe faltam as penas!... Brincava. Caímos na galhofa. Ele era assim. No
entanto era muito sensível e escondia a sensibilidade pela ironia, sem dar
conta sobretudo aos outros que tinha dificuldades nesse jogo de sombras. A
Natal conhecia-o bem e boca calada prudentemente.
Quando
terminou o repasto o tipo avisou: não
comam mais! A Raquel e o Antunes Ferreira têm para jantar outro casal amigo e
vão aproveitar estes restos para dar a esse casal. Aí ninguém pôde retrair o
riso. As gargalhadas saíram em catadupas. E fomo-nos ao café (que não eu porque
não o tomo) e aos uísques que eu tinha em quantidades muito apreciáveis.
E
pronto, era para mim assim o Oscar (sem acento) e no meio do desgosto –
chegaram-me as lágrimas aos olhos quando um e-mail me deu a notícia – bom
Amigo, camarada, terno e sensível embora estas qualidades fossem por ele bem
encapotadas. Só uma vez o vi eufórico: quando a sua Carol terminou o mestrado,
o que enunciou a todas as Amigas e todos os Amigos, sem esconder o orgulho que
tinha pela filha Carolina, a menina dos seus olhos.
Mas,
podem ter a certeza de que o Oscar (sem acento) era um Grande Jornalista.
quinta-feira, maio 07, 2015
Pré-publicação, Sábado
A edição
de 7 de Maio da revista Sábado tem a
amabilidade de fazer a pré-publicação de parte do primeiro capna semana em cursosta.u agradecimento sincero
ítulo do meu Parem as Máquinas!, publicado
na semana em curso.
Aqui
fica a nota do meu agradecimento sincero à rapaziada da revista.
terça-feira, maio 05, 2015
Sessão de lançamento marcada
Está marcada e conto convosco. No dia 14 de Maio, pelas
18h30, no auditório da Casa da Imprensa (Rua da Horta Seca, ao Largo de Camões), o jornalista João
Paulo Cotrim apresentará o Parem as Máquinas!
Espero ver-vos por lá!
segunda-feira, maio 04, 2015
Parem as Máquinas! (2)
É já na quarta-feira que o livro Parem as Máquinas! chega às livrarias. Convenientemente, o
Presidente da República não estará em Portugal à data do lançamento, pois
partiu para a Noruega em visita de Estado. Habituado como estou a ler nas
entrelinhas – capacidade muito comum entre os míopes – é natural que os dois
actos estejam relacionados. Enfim: Cavaco Silva não estará, mas os leitores do
blogue compensarão a ausência protocolar com idêntica dignidade e menos episódios
vagais.
Antecipo hoje o sumário da obra e ameaço desde já com uma
sessão de lançamento na próxima semana em Lisboa (darei mais pormenores nos
próximos dias). Posso desde já confirmar que a apresentação pública do livro
será conduzida numa língua indo-europeia, mas hesitamos entre uma língua morta
e uma língua viperina.
Está anunciado, rapaziada! Unicuĭque suum, como diria Lutero. A cada um, o
seu [exemplar].
segunda-feira, abril 27, 2015
Parem as Máquinas!
À medida que se aproxima o
dia 6 Maio, data marcada para o início da distribuição de Parem as Máquinas! nas livrarias, desaparece o pudor. E o que se
perde em pudor ganha-se em descaramento, atitude esta que, não tendo o mesmo
charme, não deixa de ser saudável – pelo menos, para o autor e seus herdeiros.
Bom... Ao terceiro
parágrafo, o leitor do Ecosfera
descobre que não está perante um crítico literário do calibre de João Gaspar
Simões, mas em contrapartida o autor destas linhas permanece temporariamente
vivo, o que constitui uma substantiva vantagem sobre o crítico figueirense.
Sobretudo para o próprio.
Ao mesmo tempo, fica
finalmente explícito o motivo pelo qual 23 textos que figuraram em tempos neste
espaço deixaram de estar acessíveis. Ainda por cima, eram os melhores [último elogio, prometo!] Dignos de Pulitzer [ahem!]. Não é por acaso que o nome do autor constitui um anagrama de Joseph Pulitzer, se lhe mudarmos praticamente todas as letras.
Por amável convite da
Editora Parsifal, reformulei crónicas que tinham sido pensadas para a Internet
e com o propósito singelo de não deixar morrer episódios memoráveis do nosso
jornalismo impresso e de figuras ímpares como Urbano Carrasco ou Fernando Assis
Pacheco. Após reprocessamento (nalguns casos, extenso), reformulação e edição,
esses textos ganharão agora a dignidade da letra impressa.
Não vos vou maçar (ainda)
com a descrição da obra, do seu sumário e dos seus objectivos. Permitam-me
nesta fase – e sem brincadeira – o meu agradecimento sincero às muitas
personalidades que contribuíram para a investigação, esclarecendo dúvidas e
erros, e àquelas que me incitaram a prosseguir com um incentivo ocasional
que, muitas vezes, neste universo da Internet repleto de insultos e
meias-verdades, constituiu o apoio necessário para que as baterias voltassem a
carregar.
Ao Armando Baptista-Bastos,
que aceitou prefaciar esta obra e que nela deixou elogios que me fizeram corar;
ao Marcelo Teixeira, que viu no Ecosfera um
potencial maior do que eu imaginara; ao Fernando António Correia, que lançou as
bases para a nossa parceria na JJ; aos ilustradores Luís Taklim e Miguel Alves;
ao Joaquim Vieira; aos professores João Luís Cardoso e Victor Hugo Forjaz; ao
historiador José Constantino Costa; ao João Paulo Cotrim; ao Dr. Ricardo
António Alves; ao António Candeias; ao saudoso José Casanova; ao Alexandre
Pereira; ao Dr. João Esteves da Silva; ao Alexandre Vaz; ao Dr. Paulo
Tremoceiro; ao Eduardo Gageiro e ao José Goulão. E, claro, à Ana e ao Xavier.
Como daqui se infere, fico
em dívida com muita gente e por muito tempo. E ainda faltam os leitores do Ecosfera, para os quais deixo a última
palavra: obrigado!
sábado, abril 18, 2015
O repórter que desvendou acidentalmente o homicídio de Monsanto
Há um velho adágio no jornalismo americano: «If it bleeds, it leads!»
[«Se há sangue, vai para a abertura!», em tradução livre]. É antiga a tentação
jornalística de desvendar crimes antes (ou apesar) da polícia. Há algumas
semanas, li uma descrição sumária do caso saboroso que vou contar. Não incluía
datas, nem pistas concretas, o que constituiu um martírio para descobrir a
respectiva data, mas creio que valeu a pena. Antigo e esquecido, este caso de
1893 do célebre Esculápio contraria a moralidade dominante sobre a alegada
obsessão moderna com o noticiário criminal. Desde que há jornais, há crimes
escabrosos nas notícias. Como este.
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| Esculápio em caricatura de Arnaldo Ressano Garcia, Álbum (1933) (Estampa da colecção da Biblioteca Nacional) |
![]() |
| A Quinta da Pimenteira antes da florestação de Monsanto, na década de 1930 (Arquivo de O Século, Arquivo Nacional da Torre do Tombo) |
A notícia circula e chega ao coração de Lisboa, exagerada e distorcida
pela voz popular, mas suficiente para o repórter Esculápio, noctívago
inveterado, decidir partir para Monsanto. Aproveita a companhia dos guardas da
esquadra dos Terramotos, no Casal Ventoso, e viaja à luz de lanternas. Na escuridão, pouco
consegue ver, mas bebe o testemunho dos caçadores e reproduz a notícia no
número do dia seguinte de A Vanguarda, o
jornal republicano para o qual trabalha há dois anos. Desconhece-se a
identidade da mulher «de cabelos pretos empastados de sangue e desgrenhados,
estatura mais do que mediana», assassinada há dois ou três dias, segundo
«opiniou o Sr. Dr. Schindler», que observou o corpo, mas não lhe pôde mexer por
exigências protocolares. A frescura do local atrasara a decomposição.
Esculápio é um estrela em ascensão. Começara na Pátria em 1891 e
ali ganhara o respeito dos republicanos pela sua insolência poética, expressa
nas gazetilhas que o jornal publica e que os ardinas repetem. Com o fecho do
jornal, em Janeiro de 1891, ficou escassas semanas desempregado. Alves Correia,
farmacêutico tornado jornalista, dirige um novo diário, A Vanguarda, desde que o governo mandou encerrar Os Debates, na sequência de críticas violentas à gestão
portuguesa do Ultimato inglês.
Acolhe o jovem repórter como revisor, cargo no qual este só se mantém durante
três semanas, integrando a partir de então a redacção.
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| Esculápio, Arquivo do autor |
Divertido, encanta os colegas e faz vender jornais. Tomam-no como médico
apesar do seu escasso treino em Medicina. Ficou lendária, aliás, a sua partida
ao contínuo, «um pobre rapaz, vindo das berças, [que] bebia os ares por mim»,
conta em Memórias. «Ouvindo dizer que eu
andava nos preparatórios de medicina, veio consultar-me porque padecia de uma
doença secreta, fazendo com que eu, que tomei o caso por troça, lhe receitasse
uma untura de água-rás e que se besuntasse muito bem.» No dia seguinte, a
redacção parecia um cenário de guerra, com cadeiras tombadas, mesas reviradas e
um remoinho de papéis. «O estúpido tomara a receita à letra e fartara-se de
andar aos pinotes. Mas o caso é que o medicamento lhe fez tão bem que ainda há
pouco, quando me encontrava, se desbarretava, tratando-me por senhor
doutor.»
Há um certo ar de boémia na redacção da Vanguarda. Anos mais tarde, numa edição do Mundo Gráfico de 1945, recordou-se uma velha partida pregada pela redacção ao administrador Eduardo José Gaspar, «uma bela alma, simples, ingénua (…)», que vivia o desgosto de ser de baixa estatura. Um dia, o jornalista Gonçalves Neves entra na redacção, olha-o atentamente e diz-lhe muito admirado:
– Já reparaste numa coisa? Desconfio que estás a crescer…
– Estou agora – respondeu tristemente Gaspar.
Todos os dias, os membros da redacção iam-lhe à bengala e limavam meio centímetro na ponteira, «de modo que o pobre homem chegou a convencer-se que tinha crescido, visto já andar de lado para se apoiar».
– Rapazes, vocês têm razão. Afinal, estou mais alto!
Apesar destes divertimentos pueris, a década é difícil para o frágil jornal republicano. Esculápio cai no goto dos camaradas de redacção. O veterano Heliodoro Salgado («anticlerical, irredutível e esturrado», como o descreveu Esculápio) fora detido por quatro meses em 1891 por delito de opinião. Segue-se Alves Correia, o director, encarcerado por seis meses no Limoeiro. Travam-se duelos ferozes de palavras e sabres. No Verão de 1892, o próprio Esculápio fora querelado (o termo da época para o processo por difamação) pelo conde de Burnay, que não apreciara as estrofes da gazetilha de 19 de Julho:
Há um certo ar de boémia na redacção da Vanguarda. Anos mais tarde, numa edição do Mundo Gráfico de 1945, recordou-se uma velha partida pregada pela redacção ao administrador Eduardo José Gaspar, «uma bela alma, simples, ingénua (…)», que vivia o desgosto de ser de baixa estatura. Um dia, o jornalista Gonçalves Neves entra na redacção, olha-o atentamente e diz-lhe muito admirado:
– Já reparaste numa coisa? Desconfio que estás a crescer…
– Estou agora – respondeu tristemente Gaspar.
Todos os dias, os membros da redacção iam-lhe à bengala e limavam meio centímetro na ponteira, «de modo que o pobre homem chegou a convencer-se que tinha crescido, visto já andar de lado para se apoiar».
– Rapazes, vocês têm razão. Afinal, estou mais alto!
Apesar destes divertimentos pueris, a década é difícil para o frágil jornal republicano. Esculápio cai no goto dos camaradas de redacção. O veterano Heliodoro Salgado («anticlerical, irredutível e esturrado», como o descreveu Esculápio) fora detido por quatro meses em 1891 por delito de opinião. Segue-se Alves Correia, o director, encarcerado por seis meses no Limoeiro. Travam-se duelos ferozes de palavras e sabres. No Verão de 1892, o próprio Esculápio fora querelado (o termo da época para o processo por difamação) pelo conde de Burnay, que não apreciara as estrofes da gazetilha de 19 de Julho:
«Ele que sempre foi um intrujão /
Qual outro lavrador do Poceirão /
E é capaz de ser feito deputado /
que ele é capaz de tudo, o condenado! /
Nesses tempos de bárbaras nações /
pregavam-se nas cruzes os ladrões; /
Hoje em dia, no século das Luzes, /
ao peito dos ladrões, pregam as cruzes!»
Falta a Esculápio, porém, a respeitabilidade dos repórteres. E essa
resultará deste caso.
UM OVO ESTRAGADO
Regressado de Monsanto, Esculápio alicia Albino Sarmento, camarada do Diário
de Notícias e funcionário da Polícia
Judiciária, para nova visita no dia seguinte ao local do crime mal os primeiros
raios de Sol caiam sobre a cidade. Olha de relance para o relógio e decide não
dormir. Parte para o Largo de São Cristóvão, onde tem «uns amores conquistados»
e passa a noite a cear e a… foliar. À saída, já na alvorada, passa por um
«quintalório» com roupa estendida e um «avental de chita, que ondeando ao
vento, veio derrubar-me o chapéu, motivo porque o fixei».
Corre para a redacção de A Vanguarda,
no número 5 da Rua da Trindade, para recolher papel e, marchando em direcção ao
Largo de Camões, ponto de encontro com Sarmento, «como quer, porém, que a ceia
tivesse sido pouca e a fome me alanceasse, entrei na mercearia do Viana, à
esquina da Rua do Norte, e pedi dois ovos. Era meu costume, quando a fome me
atezanava (sic) e não havia tempo
para demoras, engolir dois ovos crus, para o que lhes fazia com um alfinete
dois buracos, chupando por um deles».
À medida que o trem que transporta os dois repórteres para as furnas
vence o caminho, Esculápio dá conta de que um dos ovos há muito que não tinha
contacto com a galinha poedeira. Debalde: o conteúdo do ovo podre já fermentava
no estômago do repórter. Chegou a Monsanto em tal estado que a dupla de
reportagem se transformou no esforço de um só homem. Enquanto Esculápio
vomitava e se contorcia numa maca improvisada à entrada do Covão do Gesso, o
local do crime, o camarada do Diário de Notícias recolhia depoimentos de todas as testemunhas, prometendo-lhe o
tradicional caldinho, o resumo
para que o colega não falhasse a notícia.
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| A edição de A Vanguarda de 4 de Fevereiro de 1893 que desvenda a identidade da vítima (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
Nas ânsias da agonia, «terrivelmente indisposto, larguei a vomitar e,
perdendo o equilíbrio nas penhas onde me tinham colocado, rebolei por ali
abaixo e vim bater com as ventas no cadáver, sendo então que me acudiram e me
levaram em braços de novo para o meu poiso». Abriu momentaneamente os olhos e,
«coincidência extraordinária e misteriosa que então se deu, e que parece uma
coisa inacreditável e romântica preparada ad hoc para dar um desfecho a esta pequena narrativa», vê um avental de chita
exactamente igual ao que lhe atirara o chapéu ao chão na véspera, bem longe
dali.
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| A vítima em gravura da época. Diário Ilustrado, 4 de Fevereiro de 1893 (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
DE PISTA EM
PISTA
Transporte-se o leitor, se conseguir, para o final do século XIX. Os
jornais ainda não publicam fotografias – só gravuras. Em França, o químico
Coulier já descobriu que os vapores de iodo podem revelar impressões digitais
numa folha de papel e o argentino-croata Vucetich tornou-se, em 1892, o
primeiro a testar o seu uso na investigação forense. Em Portugal, claro está,
ninguém tem isso em conta.
A polícia e o Governo Civil de Lisboa lançam pois o único recurso
possível para identificar a vítima: trazem à furna de Monsanto centenas de
pessoas. O Dr. Schindler coloca a vítima, «mais feia do que bonita», numa
«imunda e arqueológica maca» e lava-lhe a cara ensanguentada. Ninguém reconhece
a mulher, apesar de um sinal distintivo: a vítima era quase cega do olho
esquerdo.
Levado o corpo para o cemitério dos Prazeres, repete-se a sessão macabra
nos dias seguintes. Milhares de pessoas desfilam perante o corpo mutilado. Um
bêbado comporta-se indevidamente e é preso pela polícia, que o salva da
multidão, disposta a linchá-lo logo ali. Os jornais não poupam nos detalhes
horrendos: «Ao Sr. Veiga, foi entregue um frasco contendo a vagina que os médicos extraíram para amanhã ser verificado
pelo Sr. Dr. Pestana, do Hospital Real de São José, se a pobre rapariga foi
violentada pelo malvado», escreve-se. As diligências básicas não parecem surtir
efeito. Mesmo o monograma S.G. bordado no cós a linha vermelha revela-se
inútil. Quem será a vítima?
Esculápio possui uma pista. Já restabelecido da indigestão, «depois de
ter novamente vomitado os farrapos (…) e graças a uma garrafinha de água
mineral», dirige-se a São Cristóvão. Volta ao pátio onde viu o avental a
flutuar, faz perguntas. Descobre que há quatro dias que ninguém sabe de Maria
dos Anjos, a mulher que ali vive com um soldado da guarda municipal. É uma
pista sólida, mas Esculápio tem um problema: desde 21 de Dezembro do ano
anterior que A Vanguarda anda de
candeias às avessas com a polícia. O jornal acusou as esquadras de Lisboa de
«comércio de notícias entre a polícia judiciária e certas empresas jornalísticas,
que distribuem ordenados a chefes, cabos e guardas, como pagamento de notícias
de casos que lhes passam pelas mãos, com manifesto prejuízo de quase todos os
jornais da capital». Disse mais, aliás, o jornal de Alves Correia: «Se os
ordenados da polícia judiciária são mesquinhos e exíguos, a culpa não é da
imprensa (…) mas tornamos a dizer que publicaremos os nomes dos empregados da
polícia nestas circunstâncias que, diga-se, são quase todos, pois que possuímos
dados curiosos e interessantes sobre este escândalo inaudito.» Os repórteres de A
Vanguarda não são propriamente
populares desde então nos meios policiais.
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| «O comércio de notícias na polícia de Lisboa», A Vanguarda, 21 de Dezembro de 1892 (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
Esculápio vai, pois, por outro caminho. Aborda duas vizinhas, Bárbara e
Ermelinda da Conceição, mãe e filha, com as suas suspeitas e pede-lhes que se
dirijam aos Prazeres para reconhecimento de Maria dos Anjos. Serão elas assim a
confirmar a suspeita.
No dia 4, Lisboa respira de alívio: foi identificada a vítima e preso o
marido, Thomaz Ribeiro, de 21 anos, «de fisionomia pouco antipática», natural
de São Miguel das Caldas, Guimarães. É o soldado n.º 78 da 1.ª companhia da
Guarda Municipal. Cega do olho esquerdo, Maria dos Anjos Novais, 28 anos, é a
sua esposa.
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| O assassino em gravura de época. Diário Ilustrado, 5 de Fevereiro de 1893 (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
Nos dias seguintes, precipita-se uma torrente de pormenores. As provas
circunstanciais reforçam a culpa: o sabre do guarda ajusta-se às feridas. No
Quartel do Carmo, no armário do guarda, há roupa ensanguentada e a história que
ele fabricou e contou aos vizinhos (Maria teria morrido no fim-de-semana
anterior no hospital) não se confirma. A Vanguarda procede, nos dias seguintes, a um metódico assassínio
de carácter, imputando a Thomaz Ribeiro a morte da sua primeira mulher, bem
como agressões várias em Guimarães. Thomaz queixa-se, dias depois, de que
nenhum advogado se prontificou a defendê-lo, mas acaba por quebrar. Confessa a
culpa. Assassinara a mulher por ter descoberto que «ela fora desflorada pelo
cunhado antes das núpcias».
A cidade bebe todos os pormenores sórdidos do caso. Descobrem-se
namoricos do guarda com outras raparigas, às quais prometeu consórcio mal se
tornasse novamente solteiro. À porta do Quartel do Carmo, vendem-se folhas
volantes com versos sobre o caso. Um homem é detido por encenar um teatro de
marionetas que toscamente reconstitui os acontecimentos de Monsanto. No
interior, vigiado por três sentinelas (mal, como se verá de seguida), Thomaz
«come e dorme como um justo», mas enfurece-se quando, na presença de um juiz,
lhe é dito que o crime foi premeditado: «Se pudesse, também lhes [às
testemunhas que o alegam] pregava dois murros nas ventas, que lhes haviam de
saltar as cabeças pelo ar!», explode.
No dia 20 de Fevereiro, o guarda suicida-se na própria cela, envenenado
por ingestão de fósforo, que diluíra num púcaro «que, com uma bilha, lhe tinham
consentido na prisão». Acometido de vómitos e espasmos, «de tal forma sofria
que soltava verdadeiros urros (…), encolhendo o polegar entre os outros dedos e
parecendo agredir um fantasma que se lhe apresentava diante dos olhos (…), com
o corpo recurvado como num enroscar de serpente». Por singular coincidência,
notou o repórter de serviço, ficou com o olho esquerdo «semi-aberto, como a
pobre esposa que, crivada de feridas, foi encontrada no covão de Monsanto».
PRÉMIO, SANÇÃO E
PROFANAÇÃO
A morte de Thomaz Ribeiro poupou ao sistema criminal múltiplas
diligências mas não impediu um
último acto macabro. Enquanto Alexandre Bastos, sobrinho do cirurgião-chefe do
Hospital da Marinha, fotografava diligentemente o cadáver do homicida (onde
andarão essas fotografias?), o Dr. Silva Telles, eminente especialista
português, solicitou ao delegado de saúde autorização para… serrar a cabeça de
Thomaz Ribeiro. Leu bem: Telles era especialista em frenologia, a “ciência” que
sugeria a associação entre comportamentos morais e a morfologia cerebral.
Assim, com alguma pompa, «no terraço do hospital de marinha, foi colocada uma
mesa, sobre a qual foi exposta uma bacia de arame com o fundo para o ar. Em
cima dela, foi posta a massa encefálica». Para as fotografias, foi readaptado o
«tampo do cérebro» já serrado, depois coberto «com um barrete dos que
ordinariamente servem aos doentes». Completou-se assim o exame, embora se
desconheçam as “conclusões”.
O tema, porém, manteve-se na agenda científica portuguesa. Um dossier de primeira página de O Século em 21 de Dezembro de 1902 sobre a «História da Antropologia» consagrava vasto destaque aos instrumentos de medição da capacidade craniana, como o compasso de espessura ou o craniâmetro parietal. É verdade que o texto já apontava o dedo ao desvio eugénico e à politização da antropologia como braço legítimo dos defensores da escravatura, mas, em simultâneo, sublinhava que «a antropologia aplicada ao caso particular dos criminosos, a antropologia criminal, tem contribuído poderosamente para introduzir profundas modificações no direito penal».
![]() | |||||||
| O Século, 21 de Dezembro de 1902 A partir de microfilme da Biblioteca Nacional |
Regressemos ao mundo dos jornais. Na Rua da Trindade, Esculápio recebeu os justos cumprimentos de Alves
Correia e de todos os camaradas de redacção. «Foi a minha primeira vitória
jornalística», escreveu mais tarde nas suas memórias. Por especial deferência,
no dia 14 de Fevereiro, a sua gazetilha ocupou até o lugar do editorial de
fundo do director, na primeira página. Mas foi sol de pouca dura.
Seguindo o exemplo do governo que tanto criticava, Alves Correia, «a
pretexto de que tinha de pagar o tipo novo que comprara na Alemanha para
melhorar a folha, reduziu-nos a todos o
ordenado, com a promessa de no-lo aumentar e restituir o que nos pedia a título
de empréstimo mal o jornal subisse de tiragem». Os meses passaram. A Vanguarda
prosperou, mas a reposição salarial nunca
se fez. Fez-se greve. Os irmãos de
armas zangaram-se.
Esculápio acabou por aceitar uma oferta de O Século, onde viveu outras aventuras que talvez aqui ainda
venha a contar. Mas nunca esqueceu o dia em que descobriu, por acidente, a
identidade da vítima das furnas de Monsanto.
sexta-feira, abril 17, 2015
Viagens pagãs
Saiu mais um livro de Fernando Dacosta e basta isso como motivo de
júbilo. Dacosta sempre foi um autor transfronteiriço, saltitando continuamente
na linha que separa a reportagem da literatura. Como o malabarista, mantém no
ar várias bolas em simultâneo, manobrando os sentimentos de quem o lê. Viagens
Pagãs é mais um belíssimo exemplo.
Note-se a ironia contínua de «Um carocha no Brasil», crónica tremenda, traçada a cores vivas e em dois planos
diferentes – em pano de fundo, Dacosta é repórter, descrevendo, como poucos
fizeram, o exílio de Marcello Caetano no Brasil; em primeiro plano, o autor acompanha Agustina Bessa-Luís a uma feira literária em Vera Cruz. Tão depressa
Dacosta faz-nos mergulhar na solidão dos últimos dias de Marcello, sozinho,
doente, angustiado e esquecido, como é capaz de cortar o tema seguinte a golpes
de sabre, citando Franco Nogueira e a sua leitura fria do marcelismo. «“Era o
homem das primaveras frustradas”, sibilar-me-á Franco Nogueira. “Deram todas em
borrasca, em calamidade, como era aliás de prever.”»
Agustina é a personagem útil, que nos traz de volta à terra e ao mundo
terreno. Com ela (ou através dela), Dacosta reflecte. Faz-nos rir. A ideia do
túmulo do genial e provocador Nelson Rodrigues a escassos metros do túmulo de
Marcello Caetano constitui a última e duradoura provação do derradeiro
Presidente do Conselho do Estado Novo. Ou uma longa dissertação de Agustina
sobre a mulher e a sua força de vagabundagem cortada depois pela insistência da
escritora para que Dacosta a acompanhe às boutiques de luxo, onde fica encantada por ser reconhecida «por
uma caixeirinha estudante de literatura».
Viagens Pagãs (Parsifal, 2015)
reúne sete crónicas – um documento
comovente sobre a adolescência vivida no Douro vinhateiro, uma reportagem
fenomenal sobre a ilha do Corvo, microcosmo especial de portugalidade insular e
loucura sã, uma crónica mais curta sobre a vivência mineira, uma reflexão
notável sobre Marrocos e a história portuguesa no Norte de África e uma viagem
de mota por Angola e Moçambique.
Guardo para o fim Um Veleiro no Atlântico, quarta crónica no livro, mas texto-rei na obra. É um exercício de
reportagem notável. Uma viagem de barco abortada, supostamente transatlântica,
mas que o mar trava em Sagres. Metáfora tremenda deste país sedento de
aventura mas carente de razão. Agostinho da Silva é o cicerone a bordo. Embala
o leitor entre Teixeira de Pascoais e Teófilo Braga, Mia Couto e Camões. «O
último continente onde nos faltava desembarcar era a Europa», ironiza Agostinho.
A viagem e o relato oscilam entre os sonhos de grandeza de dois
sonhadores a bordo e um veleiro que não sai da marina por força da borrasca. É
Dacosta em estado puro. É motivo para comprar o livro!
quarta-feira, abril 15, 2015
Está para breve!
Seguidores do blogue, leitores
ocasionais e visitantes acidentais,
Está para breve a publicação de um
livro com 23 crónicas da minha autoria sobre episódios do jornalismo português
desde o estertor da monarquia até aos primeiros anos do período democrático
pós-revolução de 1974.
Da rábula do papa português ao
«homicídio» do sábio Peyradon, da saga de Ferreira de Castro em Dublin às
aventuras de Urbano Carrasco nos Açores e em Goa, algumas das histórias mais
populares que publiquei neste espaço [e que foram aqui desactivadas] ganharão a
dignidade da letra impressa, com a chancela da Parsifal.
Darei novidades em breve. Agradeço o
carinho e o entusiasmo de sempre pelo que tenho vindo a publicar no Ecosfera.
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| Urbano Carrasco nos Capelinhos (1957), em ilustração da Draftmen |
quinta-feira, março 26, 2015
As memórias de Letria
Olha-se para a capa com um
arrepio. Os tons negros do fundo e a expressão pesarosa do biografado sugerem
uma homenagem póstuma, daquelas de que somos pródigos. Credo!
Hesita-se um segundo.
Folheia-se.
Causam estranheza os dois
prefácios — um do general Eanes e outro de Fernando Dacosta. (Vem à memória a
tara de T.S. Elliot com os prefácios). Eanes escreve com uma dívida de gratidão
a Letria em sete páginas bonitas, mas de execução militar – de tema em tema, como uma barragem de artilharia. Dacosta é igual a si próprio: seria
criativo mesmo se só tivesse um post-it.
Até a introdução da autora
produz uma sensação invulgar. Dá ideia de que as memórias de Joaquim Letria, em
formato de entrevista, são publicadas... apesar de Letria. Que o jornalista
acedeu a contragosto. E, no entanto, aqueles, como eu, que decidem comprar Joaquim
Letria, Sem Papas na Língua (Dora Santos Rosa, Âncora, 2014) têm pela frente uma
das melhores reflexões sobre o jornalismo das décadas de 1960 a 1980 que tive o
prazer de ler.
Com frequência, senti que o
livro-entrevista continua, com notável coesão, o trilho aberto por essa obra
extraordinária que é Jornalismo: do Ofício à Profissão (Fernando Correia e Carla
Baptista, Caminho, 2007), investigação sobre a ruptura profunda produzida nas
redacções do final da década de 1950 com a admissão de jornalistas com background
universitário
e formação política.
Letria parece ganhar alento depois das primeiras perguntas. Percebe que Dora Santos Rosa estudou a sua
carreira, sabe do que fala. Com algumas provocações, torna-se bonacheirão e
partilha sem reservas. Nalguns casos, como no relato sobre Moisés Tshombé, vai
obrigar-me a reescrever, mesmo que ao de leve, um episódio que aqui deixei há
alguns meses (aqui). Noutros, notoriamente exagera (posso desmentir, por conhecimento directo, a alegação de que os livros, no Estado Novo, não eram revistos pela Censura; ou que Jorge de Brito tenha sido detido em 1975 sem «ser acusado de coisa nenhuma»). E é altamente controversa a sugestão de que osjornalistas detidos pela PIDE foram-no sempre por actividade política clandestina e não por actividades jornalísticas.
Como Letria muito bem diz, percebeu que estava na fase de fazer e
dizer o que lhe viesse ao goto, como os malucos. O resultado é uma leitura que
flui sem buracos na estrada, como uma única grande conversa.
O jornalista partilha notas
preciosas sobre o ambiente do Diário de Lisboa, com destaque para Mário
Neves (curiosamente, quase não refere Norberto Lopes). Recupera uma dimensão
esquecida de Vítor Direito (pelo menos, para mim, que cresci numa casa onde o seu «De Vez em Quando» no Diário de Lisboa e a
sua «Visão Direita» no República eram a primeira rubrica lida todos os dias e onde a sua
transformação, ou monstrificação, no «Direito do Correio da Manhã» foi sentida como uma
traição). Aborda, sem rancores, a saga da RTP. A fundação de O Jornal, com uma traição à mistura. O
Tal & Qual,
de boa ou má memória, consoante as semanas (nunca esqueço que o mesmo semanário que revelou a Dona Branca ajustou contas com a direcção de programas da RTP,
lançando indecentemente Maria Elisa para a fogueira... Ou para a praia. Enfim,
quem se lembra dessa primeira página de 1983 sabe do que falo).
Letria foi Letria:
recordou sem papas na língua, contou histórias sem a tradicional discrição
portuguesa (com uma excepção, pois não nomeia directamente o judas que motivou
a sua saída de O Jornal). Apontou o dedo à instrumentalização política da RTP. Explicou o sucesso original de Tal & Qual com uma fórmula diabolicamente simples: num universo de imprensa estatizada, o jornal comprava histórias a repórteres que não as podiam publicar nos seus órgãos de comunicação. Divertiu-me. No
seu relato minucioso, há agora pistas para perceber melhor a evolução do
jornalismo português.
Faço votos para
que Baptista-Bastos, Fernando Dacosta, Joaquim Furtado, Mário Zambujal e
Adelino Gomes vão preparando as suas notas. Meus senhores, chegou a vossa vez!
sábado, março 14, 2015
Dupla gralha
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| Colecção do autor |
Por razões que não vêm ao caso, passei
largas e inúteis horas num hospital com tempo para ler do princípio ao fim as Memórias
do Esculápio, pseudónimo
jornalístico de Eduardo Fernandes, repórter aclamado do final do século XIX-início
do século XX. No divertido relato, Esculápio conta a famosa dupla gralha do Diário
de Govêrno, ao falar de
Dona Maria II, tratando-a por “bainha” em vez de “rainha”. No dia seguinte,
publicou-se uma correcção que ficou famosa: “Onde se lê Sua Majestade a bainha, leia-se Sua Majestade a tainha.”
Entenderam os revisores que
era um caso perdido e já não se corrigiu a correcção!
quarta-feira, fevereiro 25, 2015
Nos calores do Fogo
Uma definição operacional de
loucura costuma ser a repetição da mesma acção e esperar um resultado
completamente diferente. No caso de
alguns fotógrafos que trabalham connosco, a definição precisa de um retoque.
Para muitos destes profissionais, a loucura passa por mover montanhas para
conseguir chegar a locais que a maioria dos mortais preferia evitar. Foi o caso
recente do Pedro Narra.
A 23 de Novembro, o vulcão
do Fogo, em Cabo Verde, despertou novamente, 19 anos depois da última grande
manifestação. Havia sinais desde a Primavera de que isso poderia acontecer
e, na última semana de Novembro, o gigante rochoso mostrou mesmo as entranhas.
Para muitas pessoas, incluindo as comunidades locais, isso implicava bater em
retirada; para o Pedro, então em serviço para a revista na Guiné-Bissau, a
erupção funcionou como as bombas-relógios nos filmes de Hollywood: era
fundamental bater o cronómetro e chegar à ilha do Fogo antes do fim da
contagem, que é como quem diz antes do final da fase mais espectacular da
actividade eruptiva.
De avião, de ferry e de jipe, Pedro Narra chegou ao
Fogo quatro dias depois. Levava apenas uma mochila, alguns mapas e o
equipamento fotográfico básico.
Esforço-me por repetir que a
maior parte das reportagens da revista implica planeamento, leituras
preparatórias, contactos exploratórios – numa frase, a rotinização do
inesperado. Infelizmente, os vulcões não avisam (ou, se avisam, fazem-no com
alertas suficientemente ambíguos), invalidando respostas mais rápidas da
protecção civil, dos fotógrafos ou do fenómeno recente dos volcano watchers, que pagam o que for preciso para assistir in loco à fúria da natureza.
Por isso, na noite de 27 de
Novembro, o fotógrafo viu-se nas imediações da fonte eruptiva, sozinho, quase às
escuras, usando a audição para se orientar. Parece o guião de um reality show, mas foi, na essência, uma
aventura genuína.
O resultado do trabalho de
campo pode ser apreciado na revista de Março e, daqui a algumas semanas, no
nosso site de Internet. Seis décadas e meia depois de um esforço semelhante do
geógrafo Orlando Ribeiro para chegar ao Fogo a tempo de presenciar a erupção do
vulcão, a revista orgulha-se de apresentar nas suas páginas… o Fogo do Fogo – um trabalho que se deve exclusivamente à loucura saudável de um excelente repórter fotográfico.
sábado, fevereiro 21, 2015
Crónicas das Minhas Teclas
Não quero transformar este blogue numa versão low-cost das recomendações do professor Marcelo, mas,
pontualmente, tenho a sorte de me passarem pelas mãos livros memoráveis. O mais
recente foi Crónicas das Minhas Teclas, as memórias de Henrique Antunes Ferreira, jornalista, editor e chefe
de redacção do Diário de Notícias, para
além de comentador da TSF e de A Bola, entre outras publicações. Não resisto a uma curta recensão crítica,
exercício perigoso num blogue que não recebe luvas (nunca ofereceram), não aceita convites (nunca os
remeteram) nem convive informalmente com escritores e autores (porque não os
conhece). Sairá portanto com a rispidez que faz parte do meu charme (é o que
diz a minha mãe, pelo menos!)
Começo como nas fábulas infantis. Houve um tempo, há muitos, muitos anos,
em que os jornais diários mandavam enviados-especiais aos principais
acontecimentos jornalísticos do globo. Parece inverosímil, bem sei, mas era
mesmo assim: cimeiras, guerras, conferências de imprensa eram quase tão
importantes como jogos de futebol da Liga Europa. E jornalistas como Henrique
Antunes Ferreira faziam o tirocínio por estes eventos, somando pontas soltas no
estrangeiro, sozinhos, contando apenas com a camaradagem dos companheiros na
redacção e dos jornalistas da concorrência, procurando um nexo de sentido
quando o novelo estava ainda enrolado. Ditando prosa por telefone. Negociando o
acesso a faxes por troca com garrafas de
vinho do Porto (episódio delicioso, esse). Desenrascando-se.
Usavam uma ferramenta que costuma aparecer nas capas dos livros de
memórias (conheço pelo menos três que fizeram uso desse recurso). Chamava-se
máquina de escrever e as teclas matraqueadas faziam um barulho infernal.
Conta-se aliás que foi o ruído da máquina de escrever que Álvaro Cunhal usava
noite adentro na zona rural do Luso em 1949 que o denunciou e que levou à sua
última detenção, em Março desse ano. Como se vê, a máquina de escrever é um
instrumento perigoso.
Henrique Antunes Ferreira escolheu 16 histórias que viveu nos quatro cantos do planeta.
Resisto à tentação de contar a que mais me impressionou e que bem merece um
tratamento mais amplo, se algum dia eu encontrar os respectivos recortes na
colecção do jornal da Biblioteca Nacional. Por estas páginas, desfilam o general
Eanes (numa inacreditável narrativa que envolve o carro roubado de Antunes
Ferreira e o staff do PR), a amada Goa
do Henrique e da esposa, Angola e a guerra colonial, a Polónia de Lech Walesa (descobri, através do Henrique, que se lê "Va-ue-sa") ou
encontros pitorescos com Dominique Strauss-Kahn (as meninas, sempre as
meninas).
O tom é divertido e ligeiro, em jeito de conversa entre amigos. E o
Henrique, fiel a si próprio, inclui aventuras e desventuras, episódios que
terminaram com a justa recompensa, e digressões que não surtiram o efeito
desejado, como a viagem à China de Xiaoping. É um livro honesto que não
pretende – como em tantas outras memórias (incluindo de repórteres que passaram
pelo mesmo jornal) – reescrever a história, nem ajustar contas. É um livro de
um contador de histórias.
E é por isso que vale a pena.
terça-feira, fevereiro 17, 2015
O bagaço que quase estragou a refundação de A Capital
CRÓNICA REMOVIDA. TEXTO INTEGRAL INCLUÍDO EM PAREM AS MÁQUINAS, 2015, EDIÇÕES PARSIFAL.
segunda-feira, fevereiro 16, 2015
O cavalo do general
Nas suas Memórias, Raul Brandão conta a história de um general muito sovina
da década de 1920, que se foi abastecer de um lindo cavalo branco a um circo de
Lisboa. O animal era lindíssimo, dócil como poucos, e o general ficou radiante
pela pechincha obtida. Chegou o dia da primeira parada e, ao som dos acordes da
charanga, o cavalo do general começou a fazer aquilo para que estava treinado:
dançava imparavelmente, com o oficial no lombo. Lisboa inteira rebolou-se no
chão a rir!
sexta-feira, fevereiro 13, 2015
Alguns textos na secção de Reservados
Meus caros,
A partir desta semana, alguns dos textos mais lidos e comentados do Ecosfera deixaram de estar acessíveis. Como nas bibliotecas, passaram para a secção de Reservados onde serão alvo de restauro e recomposição.
Os textos sobre episódios jornalísticos do século XX foram construídos para a Internet e com a intenção de aqui permanecerem para todos os leitores que pudessem sentir curiosidade pelas notícias originais e pelo que foi efectivamente publicado em cada circunstância. Quebro agora essa lógica com 22 textos por motivos que ainda não posso explicar.
Peço a vossa compreensão. Fica o compromisso de que em breve acrescentarei novos episódios do jornalismo português neste espaço.
quinta-feira, fevereiro 05, 2015
À espera de um ferrão
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Os anos vão passando, mas há
coisas que mudam pouco ou nada. Ontem, participei numa mesa-redonda sobre a
divulgação da arqueologia subaquática para lá do circuito tradicional entre
pares. Éramos dez pessoas numa sala gelada, e a discussão foi curiosa, embora expressa
nos termos habituais: a necessidade de educar o público; a necessidade de
formatar os media; a importância de
explorar canais alternativos na transmissão de informação à sociedade civil; os
perigos da intermediação por leigos da informação científica. Não descobrimos a
pólvora ontem – parece-me claro. O tema tem sido debatido há vinte anos com poucas nuances.
Não vos maçar com o que
disse. Essencialmente, defendi que, do ponto de vista dos meios de comunicação
tradicionais, estamos na fase de descida vertiginosa na montanha-russa do
interesse jornalístico pelo tema. Publica-se pouco sobre arqueologia, apesar de o interesse da audiência por estas questões permanecer vivo. Os temas de Arqueologia seleccionados para a capa da National Geographic continuam cotados entre as escolhas mais populares dos leitores. Tanto quanto consigo
extrair conclusões, acredito que a explosão mediática do tema nas notícias durante a
década de 1990 acompanhou a institucionalização da arqueologia no seio da
Cultura, com a criação de um Instituto Português da Arqueologia (IPA) dinâmico,
com músculo, com gente boa e agressiva.
Os media reagem aos estímulos. O Ambiente institucionalizou-se enquanto tema jornalístico em relação directa com a sua institucionalização na agenda política, sobretudo a partir do momento em que foi consolidado um Ministério do Ambiente. Na Cultura, embora a competição seja maior e ainda persista o estigma da Alta Cultura e da Baixa Cultura, a questão não me parece muito diferente. Durante seis ou sete anos, o IPA produziu esse estímulo, agitando
águas, organizando campanhas científicas, publicando com regularidade. E os meios de
comunicação expressaram esse entusiasmo, multiplicando secções temáticas nos jornais,
produzindo notícias e reportagens; sem IPA, desapareceu o ferrão da abelha que
nos punha (arqueólogos e jornalistas) a mexer.
O ponto alto da sessão,
porém, foi a intervenção do professor Carlos Fabião, arqueólogo da Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa e velho amigo (já lá vão 14 anos) da casa amarela. Depois de identificar
várias oportunidades perdidas de valorização in situ de contextos arqueológicos no coração da cidade de Lisboa –
com o cais da Praça Dom Luís à cabeça – propôs uma leitura de «Portugal, Hoje.
O Medo de Existir» de José Gil aplicada à arqueologia. «Na arqueologia, constato
de facto a não inscrição de que fala o José Gil», disse. «Uma ocorrência tem
lugar, suscita declarações e tomadas de posição vigorosas, mas, passado um tempo,
parece que não aconteceu. Parece que não se inscreveu na história. E se não se
inscreveu, não há responsáveis e continuamos como se nada tivesse acontecido.» De
certa forma, é como a proverbial pedra lançada para o lago: provoca ondulação
temporária, mas, minutos depois, o espelho de água permanece exactamente igual
e a pedra descansa no fundo.
Haverá ferrão que nos pique
colectivamente e que modifique este medo de existir? Disse-se na sala, com
algum humor, que se calhar está na hora de concentrar todos os esforços nas
acções educativas da população infanto-juvenil e desistir dos adultos.
Esses já estão perdidos!
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