Discutiu-se na semana passada o SMS
trocado entre António Costa e o director-adjunto do Expresso. O teor desagradável da
mensagem nocturna do secretário-geral do Partido Socialista surpreendeu, e a decisão de João
Vieira Pereira de a tornar pública não recolheu unanimidade. Na verdade, não é caso virgem. O episódio que relato em baixo, e que me foi contado por um dos fundadores do Público, constituiu um precedente
pitoresco.
Agosto de 1991. Desenhemos um
triângulo no mapa da cidade de Lisboa.
O primeiro vértice fica na
Quinta do Lambert, em Telheiras, sede da redacção de Lisboa do Público. O jornal leva pouco mais de ano e meio de
funcionamento e o Accionista, o termo (carinhoso ou pejorativo, consoante os
casos) que quase todos usam na redacção para aplicar à SONAE, começa finalmente
a ver a luz ao fundo do túnel. No recente livro-entrevista Vicente Jorge
Silva (VJS), Conversas com Isabel Lucas (2013), o
primeiro director do jornal descreve as fortes expectativas que a SONAE
depositara no comportamento económico do jornal e a sua decepção face aos
primeiros números. Providencialmente, segundo VJS, a primeira guerra do golfo
constituiu um chamariz de leitores, fazendo ascender as vendas a 70 mil
exemplares por dia em Fevereiro de 1991. No Verão de 1991, a avaliar pela informação de tiragens [pouco mais de 60 mil exemplares/dia], o Público é uma locomotiva pesada que ainda procura
engatar uma velocidade satisfatória.
Coloquemos o segundo vértice
alguns quilómetros para sul, quase junto ao rio, em Moscavide. Ali funciona o
Entreposto, grupo económico pujante que representa a Nissan, entre outras
marcas, em Portugal, Espanha e Moçambique. O panorama é muito mais desafogado
no grupo gerido por António Dias da Cunha, empresário de quem muito se falará
quatro anos mais tarde quando entrar de rompante no Sporting ao abrigo do
Projecto Roquette. Por ora, Dias da Cunha gere um grupo que o pai criou e
expandiu incrivelmente, mantendo presença forte em Moçambique apesar das
convulsões da Independência.
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| A fotografia da polémica |
Falta o terceiro vértice que,
por imposição geométrica, nenhum triângulo dispensa. Coloquemo-lo igualmente
junto ao rio mas bastantes quilómetros para oeste. No Palácio de Belém, Mário
Soares toma o pulso ao seu segundo mandato como Presidente da República. Foi
eleito em Janeiro de 1991 com uma maioria inquestionável. O jornalista Jerónimo
Pimentel, protagonista involuntário do episódio que aqui se conta, lembra que
«a fina-flor da finança portuguesa apoiou Mário Soares. Houve uma sessão de
apoio no restaurante Faz Figura onde quase todas as personalidades da finança
se mostraram».
Dias da Cunha esteve lá,
claro. Desde a primeira campanha presidencial de Mário Soares, em 1986, que o
patrão do Entreposto apoiara a causa do MASP, o Movimento de Apoio Soares à
Presidência. Foi membro do Conselho Executivo das duas campanhas. Em entrevista
concedida ao Record no
dia 26 de Agosto de 2000, Dias da Cunha contou que «a aproximação ao
dr. Mário Soares veio a acontecer ainda ele era primeiro-ministro. Eu escrevia
na revista Negócios, de que era director Gomes Mota. Nessa
altura, fiz a defesa da candidatura do dr. Mário Soares à Presidência da
República ainda no tempo do Governo do Bloco Central. Achava que ele era o
candidato natural do Bloco Central. O meu texto acabou por ir parar acima [sic] da
secretária dele e fui convidado para integrar a campanha, no grupo inicial. Foi
o meu primeiro banho político», relatou.
No terceiro volume dos
livros-entrevista que organizou com Maria João Avillez, Mário Soares contou
também que, para a campanha de reeleição, decidiu não sobrecarregar o orçamento
do PS. «Apelei às pessoas dispostas a ajudar-me e dirigi-me aos meios
empresariais, avançando, desde logo, com uma condição: quem quisesse
contribuir, deveria fazê-lo às claras e receberia um recibo, assinado por uma
de três pessoas: António Dias da Cunha, Carlos Monjardino ou Gomes Mota»,
disse. O processo foi tão bem sucedido que sobraram cerca de trezentos mil
contos. «Foi assim que se constituiu o fundo inicial para a Fundação Mário
Soares.»
Ao longo da campanha, a
comitiva de Mário Soares deslocou-se em carros cedidos pela Nissan. Não era
estranho nas campanhas de então. Aliás, Jerónimo Pimentel crê que os repórteres
do Público também
viajavam à data com veículos da marca japonesa por força de um acordo com um
dos grupos comerciais mais activos no mercado.
Em Agosto de 1991, porém, o então
jornalista do Público deparou
com uma circunstância peculiar. A revista internacional da Nissan, a Nissan
Autographic, no seu número de Julho, publicou um artigo associando directamente
o novo Presidente da República à marca. A Nissan lançava então o modelo Máxima
e a revista não poupava adjectivos: «Maxima recebe votação máxima do candidato
vencedor», assegurava um dos textos, sob uma fotografia de um sorridente Soares
ao volante de um carro. «O principal político do país achou-o irresistível (…)
e deu uma folga ao motorista», acrescentava outro texto, legendando uma
fotografia do PR de pé, ao lado do carro.
Cumprindo todas as regras,
Jerónimo Pimentel ouviu as Relações Públicas da Entreposto Comercial, que
asseguravam a correcta cedência das fotografias pela Presidência da República,
«com a indicação de que poderiam ser utilizadas como quiséssemos». Em Belém,
Estrela Serrano, assessora do PR, garantia que Soares nunca autorizara «a
utilização da sua imagem para efeitos promocionais».
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| Público, 13 de Agosto de 1991 (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
Vicente Jorge Silva não
hesitou em puxar a história para a primeira página e escreveu um editorial
sobre «a insustentável ligeireza de Soares». Comentava que ninguém pretenderia
«a não ser por ostensiva má-fé, que Mário Soares recebeu qualquer pagamento ou
outra espécie de contrapartidas pelo facto de imagens suas, ao volante de um
automóvel, terem sido publicadas como publicidade pela Nissan». Porém, «parece
inconcebível, pelo menos num país europeu, que um Presidente da República se
preste, com tanta ligeireza e inocência, a promover um produto de consumo. É,
além de ridículo, pouco consentâneo com a dignidade das funções de chefe de
Estado (…) A condescendência e a permissividade com que Mário Soares se deixa
arrastar para situações equívocas, a pretexto da simpatia, da gratidão ou do
espírito de clã relativamente aos seus amigos ou apoiantes, tornaram-se um
traço marcante do seu comportamento. (…) Soares é – será necessário lembrá-lo?
– Presidente da República».
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| Público, 13 de Agosto de 1991 (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
A história foi publicada no
dia 13 de Agosto de 1991. «Deveria ter morrido ali», lembra Jerónimo Pimentel.
«Era mais uma daquelas histórias incómodas, mas efémeras, que escrevemos sobre
políticos. Não estávamos lá para lhes agradar.»
Até que chegou a Carta.
A CARTA
Passaram oito dias. Na tarde
do dia 21, acabado de regressar de férias, Dias da Cunha tomou conhecimento da
notícia do Público. É
provável que tenha cedido àquilo que disse mais tarde ser o seu pior defeito:
«Dizer aquilo que penso nos locais próprios. Nunca falo nas costas das
pessoas».
O presidente da holding Entreposto escreveu uma carta a descompor
Vicente Jorge Silva e o Público. Segundo Jerónimo Pimentel, «a carta era muito malcriada.
Ameaçava – como veio a acontecer – cortar toda a publicidade do Entreposto no
jornal, insultava-me como autor do texto e insultava o director». Vicente Jorge
Silva leu o documento, partilhou-o com a direcção e com o repórter envolvido e
«teve um ataque de fúria». Mandou publicar parte do texto na secção de Cartas
ao Director no dia 22.
Juntou-lhe uma nota de
redacção quase tão grande como o trecho seleccionado para publicação,
informando os leitores de que o autor da missiva era «presidente da holding Entreposto e ex-director financeiro do
MASP» – para não haver dúvidas. E o texto, que alguns dos fundadores do Público
ainda citam de memória,
era:
«Acabo de chegar de férias. Li
o seu editorial do passado dia 13. Como muito bem sabe, tudo nele é falso.
Trata-se de especulação pura a que procedeu exclusivamente para cobrir o que
entendeu ser interesse seu.
É indigno instrumentalizar
assim a honra alheia. É, na verdade, de refinado filho da puta.
António Dias da Cunha»
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| Carta ao Director, Público, 22 de Agosto de 1991 (Arquivo da Biblioteca Nacional) |
EPÍLOGO
O Entreposto cumpriu a ameaça
e cessou os contratos de publicidade com o jornal. A ferida demorou anos a
cicatrizar. Durante semanas, o Público foi trazendo à estampa cartas de leitores vexados com a
«atitude desnorteada e insolente desse senhor» (25 de Agosto) e perplexos com
«os amigos do Presidente» (13/09).
Os arautos da deontologia
debateram incansavelmente as razões do Público para difundir uma carta que contrariava o
próprio Livro de Estilo do jornal, que exigia(e) missivas escritas «em
linguagem correcta, de acordo com as normas de urbanidade».
Dois dias depois da mais
famosa Carta ao Director da história do Público, o Caderno de Economia do Expresso publicou uma entrevista de uma página com
Dias da Cunha sobre o Entreposto e os seus projectos. «Apostamos na
distribuição alimentar em Moçambique», rezava o título.
Nenhuma pergunta foi feita a António Dias da Cunha sobre a Carta.
EM TEMPO
Francisco Teixeira da Mota,
advogado do Público e
dos seus jornalistas desde a fundação do jornal, teve a amabilidade de
partilhar comigo uma curiosa reflexão recente sobre a publicidade e o uso não
autorizado da imagem de personalidades públicas. Cita (aqui) o divertido caso
da Lucky Strike, mas o desfecho poderia aplicar-se à Nissan.










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