segunda-feira, abril 27, 2015

Parem as Máquinas!

Fica mal ao autor elogiar a sua própria obra, embora não seja caso virgem na nossa imprensa. De todo o modo, a obra é tal maneira estupenda que os elogios escritos não lhe fariam justiça [será o único elogio, prometo!].
À medida que se aproxima o dia 6 Maio, data marcada para o início da distribuição de Parem as Máquinas! nas livrarias, desaparece o pudor. E o que se perde em pudor ganha-se em descaramento, atitude esta que, não tendo o mesmo charme, não deixa de ser saudável – pelo menos, para o autor e seus herdeiros.
Bom... Ao terceiro parágrafo, o leitor do Ecosfera descobre que não está perante um crítico literário do calibre de João Gaspar Simões, mas em contrapartida o autor destas linhas permanece temporariamente vivo, o que constitui uma substantiva vantagem sobre o crítico figueirense. Sobretudo para o próprio.
Ao mesmo tempo, fica finalmente explícito o motivo pelo qual 23 textos que figuraram em tempos neste espaço deixaram de estar acessíveis. Ainda por cima, eram os melhores [último elogio, prometo!] Dignos de Pulitzer [ahem!]. Não é por acaso que o nome do autor constitui um anagrama de Joseph Pulitzer, se lhe mudarmos praticamente todas as letras.
Por amável convite da Editora Parsifal, reformulei crónicas que tinham sido pensadas para a Internet e com o propósito singelo de não deixar morrer episódios memoráveis do nosso jornalismo impresso e de figuras ímpares como Urbano Carrasco ou Fernando Assis Pacheco. Após reprocessamento (nalguns casos, extenso), reformulação e edição, esses textos ganharão agora a dignidade da letra impressa.
Não vos vou maçar (ainda) com a descrição da obra, do seu sumário e dos seus objectivos. Permitam-me nesta fase – e sem brincadeira – o meu agradecimento sincero às muitas personalidades que contribuíram para a investigação, esclarecendo dúvidas e erros, e àquelas que me incitaram a prosseguir com um incentivo ocasional que, muitas vezes, neste universo da Internet repleto de insultos e meias-verdades, constituiu o apoio necessário para que as baterias voltassem a carregar.
Ao Armando Baptista-Bastos, que aceitou prefaciar esta obra e que nela deixou elogios que me fizeram corar; ao Marcelo Teixeira, que viu no Ecosfera um potencial maior do que eu imaginara; ao Fernando António Correia, que lançou as bases para a nossa parceria na JJ; aos ilustradores Luís Taklim e Miguel Alves; ao Joaquim Vieira; aos professores João Luís Cardoso e Victor Hugo Forjaz; ao historiador José Constantino Costa; ao João Paulo Cotrim; ao Dr. Ricardo António Alves; ao António Candeias; ao saudoso José Casanova; ao Alexandre Pereira; ao Dr. João Esteves da Silva; ao Alexandre Vaz; ao Dr. Paulo Tremoceiro; ao Eduardo Gageiro e ao José Goulão. E, claro, à Ana e ao Xavier.
Como daqui se infere, fico em dívida com muita gente e por muito tempo. E ainda faltam os leitores do Ecosfera, para os quais deixo a última palavra: obrigado!

sábado, abril 18, 2015

O repórter que desvendou acidentalmente o homicídio de Monsanto


Há um velho adágio no jornalismo americano: «If it bleeds, it leads!» [«Se há sangue, vai para a abertura!», em tradução livre]. É antiga a tentação jornalística de desvendar crimes antes (ou apesar) da polícia. Há algumas semanas, li uma descrição sumária do caso saboroso que vou contar. Não incluía datas, nem pistas concretas, o que constituiu um martírio para descobrir a respectiva data, mas creio que valeu a pena. Antigo e esquecido, este caso de 1893 do célebre Esculápio contraria a moralidade dominante sobre a alegada obsessão moderna com o noticiário criminal. Desde que há jornais, há crimes escabrosos nas notícias. Como este.

Esculápio em caricatura de Arnaldo Ressano Garcia, Álbum (1933)
(Estampa da colecção da Biblioteca Nacional)
A notícia chega a Lisboa pela noite dentro e circula como um vírus. Três caçadores (João Ventura e os irmãos Alfredo e Manuel da Silva) descobriram um crime terrível na serra de Monsanto na tarde de quarta-feira, 1 de Fevereiro de 1893. «Naquela tenebrosa região dos covões da Pimenteira, verdadeiro covil de malandrins da pior espécie, onde a polícia poucas vezes vai mas donde sempre faz farta colheita quando se resolve a visitá-lo», escreverá mais tarde Esculápio, os três homens à cata de coelhos foram alertados pelos latidos invulgares dos cães. Vão armados apenas com paus, pelo que se aproximam a medo da abertura de uma gruta natural (uma furna) na serra. Os cães enlouquecem no interior, e um dos irmãos decide rastejar pela abertura e entrar na galeria, iluminada por uma clarabóia natural. A visão horrenda deixa-o sem palavras. É o corpo de uma mulher, «regularmente formosa, clara», ensanguentada e inerte. As paredes estão salpicadas de sangue.
A Quinta da Pimenteira antes da florestação de Monsanto, na década de 1930
(Arquivo de O Século, Arquivo Nacional da Torre do Tombo) 
A notícia circula e chega ao coração de Lisboa, exagerada e distorcida pela voz popular, mas suficiente para o repórter Esculápio, noctívago inveterado, decidir partir para Monsanto. Aproveita a companhia dos guardas da esquadra dos Terramotos, no Casal Ventoso, e viaja à luz de lanternas. Na escuridão, pouco consegue ver, mas bebe o testemunho dos caçadores e reproduz a notícia no número do dia seguinte de A Vanguarda, o jornal republicano para o qual trabalha há dois anos. Desconhece-se a identidade da mulher «de cabelos pretos empastados de sangue e desgrenhados, estatura mais do que mediana», assassinada há dois ou três dias, segundo «opiniou o Sr. Dr. Schindler», que observou o corpo, mas não lhe pôde mexer por exigências protocolares. A frescura do local atrasara a decomposição.
Esculápio é um estrela em ascensão. Começara na Pátria em 1891 e ali ganhara o respeito dos republicanos pela sua insolência poética, expressa nas gazetilhas que o jornal publica e que os ardinas repetem. Com o fecho do jornal, em Janeiro de 1891, ficou escassas semanas desempregado. Alves Correia, farmacêutico tornado jornalista, dirige um novo diário, A Vanguarda, desde que o governo mandou encerrar Os Debates, na sequência de críticas violentas à gestão portuguesa do Ultimato inglês. Acolhe o jovem repórter como revisor, cargo no qual este só se mantém durante três semanas, integrando a partir de então a redacção.
Esculápio, Arquivo do autor
Divertido, encanta os colegas e faz vender jornais. Tomam-no como médico apesar do seu escasso treino em Medicina. Ficou lendária, aliás, a sua partida ao contínuo, «um pobre rapaz, vindo das berças, [que] bebia os ares por mim», conta em Memórias. «Ouvindo dizer que eu andava nos preparatórios de medicina, veio consultar-me porque padecia de uma doença secreta, fazendo com que eu, que tomei o caso por troça, lhe receitasse uma untura de água-rás e que se besuntasse muito bem.» No dia seguinte, a redacção parecia um cenário de guerra, com cadeiras tombadas, mesas reviradas e um remoinho de papéis. «O estúpido tomara a receita à letra e fartara-se de andar aos pinotes. Mas o caso é que o medicamento lhe fez tão bem que ainda há pouco, quando me encontrava, se desbarretava, tratando-me por senhor doutor
       Há um certo ar de boémia na redacção da Vanguarda. Anos mais tarde, numa edição do Mundo Gráfico de 1945, recordou-se uma velha partida pregada pela redacção ao administrador Eduardo José Gaspar, «uma bela alma, simples, ingénua (…)», que vivia o desgosto de ser de baixa estatura. Um dia, o jornalista Gonçalves Neves entra na redacção, olha-o atentamente e diz-lhe muito admirado:
       – Já reparaste numa coisa? Desconfio que estás a crescer…
       – Estou agora – respondeu tristemente Gaspar.
        Todos os dias, os membros da redacção iam-lhe à bengala e limavam meio centímetro na ponteira, «de modo que o pobre homem chegou a convencer-se que tinha crescido, visto já andar de lado para se apoiar».
       – Rapazes, vocês têm razão. Afinal, estou mais alto!
       Apesar destes divertimentos pueris, a década é difícil para o frágil jornal republicano. Esculápio cai no goto dos camaradas de redacção. O veterano Heliodoro Salgado («anticlerical, irredutível e esturrado», como o descreveu Esculápio) fora detido por quatro meses em 1891 por delito de opinião. Segue-se Alves Correia, o director, encarcerado por seis meses no Limoeiro. Travam-se duelos ferozes de palavras e sabres. No Verão de 1892, o próprio Esculápio fora querelado (o termo da época para o processo por difamação) pelo conde de Burnay, que não apreciara as estrofes da gazetilha de 19 de Julho:
«Ele que sempre foi um intrujão /
Qual outro lavrador do Poceirão /
E é capaz de ser feito deputado /
que ele é capaz de tudo, o condenado! /
Nesses tempos de bárbaras nações /
pregavam-se nas cruzes os ladrões; /
Hoje em dia, no século das Luzes, /
ao peito dos ladrões, pregam as cruzes!»

Falta a Esculápio, porém, a respeitabilidade dos repórteres. E essa resultará deste caso.

UM OVO ESTRAGADO
Regressado de Monsanto, Esculápio alicia Albino Sarmento, camarada do Diário de Notícias e funcionário da Polícia Judiciária, para nova visita no dia seguinte ao local do crime mal os primeiros raios de Sol caiam sobre a cidade. Olha de relance para o relógio e decide não dormir. Parte para o Largo de São Cristóvão, onde tem «uns amores conquistados» e passa a noite a cear e a… foliar. À saída, já na alvorada, passa por um «quintalório» com roupa estendida e um «avental de chita, que ondeando ao vento, veio derrubar-me o chapéu, motivo porque o fixei».
Corre para a redacção de A Vanguarda, no número 5 da Rua da Trindade, para recolher papel e, marchando em direcção ao Largo de Camões, ponto de encontro com Sarmento, «como quer, porém, que a ceia tivesse sido pouca e a fome me alanceasse, entrei na mercearia do Viana, à esquina da Rua do Norte, e pedi dois ovos. Era meu costume, quando a fome me atezanava (sic) e não havia tempo para demoras, engolir dois ovos crus, para o que lhes fazia com um alfinete dois buracos, chupando por um deles».
À medida que o trem que transporta os dois repórteres para as furnas vence o caminho, Esculápio dá conta de que um dos ovos há muito que não tinha contacto com a galinha poedeira. Debalde: o conteúdo do ovo podre já fermentava no estômago do repórter. Chegou a Monsanto em tal estado que a dupla de reportagem se transformou no esforço de um só homem. Enquanto Esculápio vomitava e se contorcia numa maca improvisada à entrada do Covão do Gesso, o local do crime, o camarada do Diário de Notícias recolhia depoimentos de todas as testemunhas, prometendo-lhe o tradicional caldinho, o resumo para que o colega não falhasse a notícia.
A edição de A Vanguarda de 4 de Fevereiro de 1893 que desvenda a identidade da vítima
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
Nas ânsias da agonia, «terrivelmente indisposto, larguei a vomitar e, perdendo o equilíbrio nas penhas onde me tinham colocado, rebolei por ali abaixo e vim bater com as ventas no cadáver, sendo então que me acudiram e me levaram em braços de novo para o meu poiso». Abriu momentaneamente os olhos e, «coincidência extraordinária e misteriosa que então se deu, e que parece uma coisa inacreditável e romântica preparada ad hoc para dar um desfecho a esta pequena narrativa», vê um avental de chita exactamente igual ao que lhe atirara o chapéu ao chão na véspera, bem longe dali.
A vítima em gravura da época. Diário Ilustrado, 4 de Fevereiro de 1893
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
DE PISTA EM PISTA
Transporte-se o leitor, se conseguir, para o final do século XIX. Os jornais ainda não publicam fotografias – só gravuras. Em França, o químico Coulier já descobriu que os vapores de iodo podem revelar impressões digitais numa folha de papel e o argentino-croata Vucetich tornou-se, em 1892, o primeiro a testar o seu uso na investigação forense. Em Portugal, claro está, ninguém tem isso em conta.
A polícia e o Governo Civil de Lisboa lançam pois o único recurso possível para identificar a vítima: trazem à furna de Monsanto centenas de pessoas. O Dr. Schindler coloca a vítima, «mais feia do que bonita», numa «imunda e arqueológica maca» e lava-lhe a cara ensanguentada. Ninguém reconhece a mulher, apesar de um sinal distintivo: a vítima era quase cega do olho esquerdo.
Levado o corpo para o cemitério dos Prazeres, repete-se a sessão macabra nos dias seguintes. Milhares de pessoas desfilam perante o corpo mutilado. Um bêbado comporta-se indevidamente e é preso pela polícia, que o salva da multidão, disposta a linchá-lo logo ali. Os jornais não poupam nos detalhes horrendos: «Ao Sr. Veiga, foi entregue um frasco contendo a vagina que os médicos extraíram para amanhã ser verificado pelo Sr. Dr. Pestana, do Hospital Real de São José, se a pobre rapariga foi violentada pelo malvado», escreve-se. As diligências básicas não parecem surtir efeito. Mesmo o monograma S.G. bordado no cós a linha vermelha revela-se inútil. Quem será a vítima?
Esculápio possui uma pista. Já restabelecido da indigestão, «depois de ter novamente vomitado os farrapos (…) e graças a uma garrafinha de água mineral», dirige-se a São Cristóvão. Volta ao pátio onde viu o avental a flutuar, faz perguntas. Descobre que há quatro dias que ninguém sabe de Maria dos Anjos, a mulher que ali vive com um soldado da guarda municipal. É uma pista sólida, mas Esculápio tem um problema: desde 21 de Dezembro do ano anterior que A Vanguarda anda de candeias às avessas com a polícia. O jornal acusou as esquadras de Lisboa de «comércio de notícias entre a polícia judiciária e certas empresas jornalísticas, que distribuem ordenados a chefes, cabos e guardas, como pagamento de notícias de casos que lhes passam pelas mãos, com manifesto prejuízo de quase todos os jornais da capital». Disse mais, aliás, o jornal de Alves Correia: «Se os ordenados da polícia judiciária são mesquinhos e exíguos, a culpa não é da imprensa (…) mas tornamos a dizer que publicaremos os nomes dos empregados da polícia nestas circunstâncias que, diga-se, são quase todos, pois que possuímos dados curiosos e interessantes sobre este escândalo inaudito.» Os repórteres de A Vanguarda não são propriamente populares desde então nos meios policiais.
«O comércio de notícias na polícia de Lisboa», A Vanguarda, 21 de Dezembro de 1892
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
Esculápio vai, pois, por outro caminho. Aborda duas vizinhas, Bárbara e Ermelinda da Conceição, mãe e filha, com as suas suspeitas e pede-lhes que se dirijam aos Prazeres para reconhecimento de Maria dos Anjos. Serão elas assim a confirmar a suspeita.
No dia 4, Lisboa respira de alívio: foi identificada a vítima e preso o marido, Thomaz Ribeiro, de 21 anos, «de fisionomia pouco antipática», natural de São Miguel das Caldas, Guimarães. É o soldado n.º 78 da 1.ª companhia da Guarda Municipal. Cega do olho esquerdo, Maria dos Anjos Novais, 28 anos, é a sua esposa.
O assassino em gravura de época. Diário Ilustrado, 5 de Fevereiro de 1893
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
Nos dias seguintes, precipita-se uma torrente de pormenores. As provas circunstanciais reforçam a culpa: o sabre do guarda ajusta-se às feridas. No Quartel do Carmo, no armário do guarda, há roupa ensanguentada e a história que ele fabricou e contou aos vizinhos (Maria teria morrido no fim-de-semana anterior no hospital) não se confirma. A Vanguarda procede, nos dias seguintes, a um metódico assassínio de carácter, imputando a Thomaz Ribeiro a morte da sua primeira mulher, bem como agressões várias em Guimarães. Thomaz queixa-se, dias depois, de que nenhum advogado se prontificou a defendê-lo, mas acaba por quebrar. Confessa a culpa. Assassinara a mulher por ter descoberto que «ela fora desflorada pelo cunhado antes das núpcias».
A cidade bebe todos os pormenores sórdidos do caso. Descobrem-se namoricos do guarda com outras raparigas, às quais prometeu consórcio mal se tornasse novamente solteiro. À porta do Quartel do Carmo, vendem-se folhas volantes com versos sobre o caso. Um homem é detido por encenar um teatro de marionetas que toscamente reconstitui os acontecimentos de Monsanto. No interior, vigiado por três sentinelas (mal, como se verá de seguida), Thomaz «come e dorme como um justo», mas enfurece-se quando, na presença de um juiz, lhe é dito que o crime foi premeditado: «Se pudesse, também lhes [às testemunhas que o alegam] pregava dois murros nas ventas, que lhes haviam de saltar as cabeças pelo ar!», explode.
No dia 20 de Fevereiro, o guarda suicida-se na própria cela, envenenado por ingestão de fósforo, que diluíra num púcaro «que, com uma bilha, lhe tinham consentido na prisão». Acometido de vómitos e espasmos, «de tal forma sofria que soltava verdadeiros urros (…), encolhendo o polegar entre os outros dedos e parecendo agredir um fantasma que se lhe apresentava diante dos olhos (…), com o corpo recurvado como num enroscar de serpente». Por singular coincidência, notou o repórter de serviço, ficou com o olho esquerdo «semi-aberto, como a pobre esposa que, crivada de feridas, foi encontrada no covão de Monsanto».

PRÉMIO, SANÇÃO E PROFANAÇÃO
A morte de Thomaz Ribeiro poupou ao sistema criminal múltiplas diligências  mas não impediu um último acto macabro. Enquanto Alexandre Bastos, sobrinho do cirurgião-chefe do Hospital da Marinha, fotografava diligentemente o cadáver do homicida (onde andarão essas fotografias?), o Dr. Silva Telles, eminente especialista português, solicitou ao delegado de saúde autorização para… serrar a cabeça de Thomaz Ribeiro. Leu bem: Telles era especialista em frenologia, a “ciência” que sugeria a associação entre comportamentos morais e a morfologia cerebral. Assim, com alguma pompa, «no terraço do hospital de marinha, foi colocada uma mesa, sobre a qual foi exposta uma bacia de arame com o fundo para o ar. Em cima dela, foi posta a massa encefálica». Para as fotografias, foi readaptado o «tampo do cérebro» já serrado, depois coberto «com um barrete dos que ordinariamente servem aos doentes». Completou-se assim o exame, embora se desconheçam as “conclusões”.
O tema, porém, manteve-se na agenda científica portuguesa. Um dossier de primeira página de O Século em 21 de Dezembro de 1902 sobre a «História da Antropologia» consagrava vasto destaque aos instrumentos de medição da capacidade craniana, como o compasso de espessura ou o craniâmetro parietal. É verdade que o texto já apontava o dedo ao desvio eugénico e à politização da antropologia como braço legítimo dos defensores da escravatura, mas, em simultâneo, sublinhava que «a antropologia aplicada ao caso particular dos criminosos, a antropologia criminal, tem contribuído poderosamente para introduzir profundas modificações no direito penal».
O Século, 21 de Dezembro de 1902
A partir de microfilme da Biblioteca Nacional 


Regressemos ao mundo dos jornais. Na Rua da Trindade, Esculápio recebeu os justos cumprimentos de Alves Correia e de todos os camaradas de redacção. «Foi a minha primeira vitória jornalística», escreveu mais tarde nas suas memórias. Por especial deferência, no dia 14 de Fevereiro, a sua gazetilha ocupou até o lugar do editorial de fundo do director, na primeira página. Mas foi sol de pouca dura.
Seguindo o exemplo do governo que tanto criticava, Alves Correia, «a pretexto de que tinha de pagar o tipo novo que comprara na Alemanha para melhorar a folha, reduziu-nos a todos o ordenado, com a promessa de no-lo aumentar e restituir o que nos pedia a título de empréstimo mal o jornal subisse de tiragem». Os meses passaram. A Vanguarda prosperou, mas a reposição salarial nunca se fez. Fez-se greve.  Os irmãos de armas zangaram-se.
Esculápio acabou por aceitar uma oferta de O Século, onde viveu outras aventuras que talvez aqui ainda venha a contar. Mas nunca esqueceu o dia em que descobriu, por acidente, a identidade da vítima das furnas de Monsanto.

sexta-feira, abril 17, 2015

Viagens pagãs


Saiu mais um livro de Fernando Dacosta e basta isso como motivo de júbilo. Dacosta sempre foi um autor transfronteiriço, saltitando continuamente na linha que separa a reportagem da literatura. Como o malabarista, mantém no ar várias bolas em simultâneo, manobrando os sentimentos de quem o lê. Viagens Pagãs é mais um belíssimo exemplo.
Note-se a ironia contínua de «Um carocha no Brasil», crónica tremenda, traçada a cores vivas e em dois planos diferentes – em pano de fundo, Dacosta é repórter, descrevendo, como poucos fizeram, o exílio de Marcello Caetano no Brasil; em primeiro plano, o autor acompanha Agustina Bessa-Luís a uma feira literária em Vera Cruz. Tão depressa Dacosta faz-nos mergulhar na solidão dos últimos dias de Marcello, sozinho, doente, angustiado e esquecido, como é capaz de cortar o tema seguinte a golpes de sabre, citando Franco Nogueira e a sua leitura fria do marcelismo. «“Era o homem das primaveras frustradas”, sibilar-me-á Franco Nogueira. “Deram todas em borrasca, em calamidade, como era aliás de prever.”»
Agustina é a personagem útil, que nos traz de volta à terra e ao mundo terreno. Com ela (ou através dela), Dacosta reflecte. Faz-nos rir. A ideia do túmulo do genial e provocador Nelson Rodrigues a escassos metros do túmulo de Marcello Caetano constitui a última e duradoura provação do derradeiro Presidente do Conselho do Estado Novo. Ou uma longa dissertação de Agustina sobre a mulher e a sua força de vagabundagem cortada depois pela insistência da escritora para que Dacosta a acompanhe às boutiques de luxo, onde fica encantada por ser reconhecida «por uma caixeirinha estudante de literatura».
Viagens Pagãs (Parsifal, 2015) reúne sete crónicas – um documento comovente sobre a adolescência vivida no Douro vinhateiro, uma reportagem fenomenal sobre a ilha do Corvo, microcosmo especial de portugalidade insular e loucura sã, uma crónica mais curta sobre a vivência mineira, uma reflexão notável sobre Marrocos e a história portuguesa no Norte de África e uma viagem de mota por Angola e Moçambique.
Guardo para o fim Um Veleiro no Atlântico, quarta crónica no livro, mas texto-rei na obra. É um exercício de reportagem notável. Uma viagem de barco abortada, supostamente transatlântica, mas que o mar trava em Sagres. Metáfora tremenda deste país sedento de aventura mas carente de razão. Agostinho da Silva é o cicerone a bordo. Embala o leitor entre Teixeira de Pascoais e Teófilo Braga, Mia Couto e Camões. «O último continente onde nos faltava desembarcar era a Europa», ironiza Agostinho.
A viagem e o relato oscilam entre os sonhos de grandeza de dois sonhadores a bordo e um veleiro que não sai da marina por força da borrasca. É Dacosta em estado puro. É motivo para comprar o livro!

quarta-feira, abril 15, 2015

Está para breve!



Seguidores do blogue, leitores ocasionais e visitantes acidentais,
Está para breve a publicação de um livro com 23 crónicas da minha autoria sobre episódios do jornalismo português desde o estertor da monarquia até aos primeiros anos do período democrático pós-revolução de 1974.
Da rábula do papa português ao «homicídio» do sábio Peyradon, da saga de Ferreira de Castro em Dublin às aventuras de Urbano Carrasco nos Açores e em Goa, algumas das histórias mais populares que publiquei neste espaço [e que foram aqui desactivadas] ganharão a dignidade da letra impressa, com a chancela da Parsifal.
Darei novidades em breve. Agradeço o carinho e o entusiasmo de sempre pelo que tenho vindo a publicar no Ecosfera.
Urbano Carrasco nos Capelinhos (1957), em ilustração da Draftmen



quinta-feira, março 26, 2015

As memórias de Letria


Olha-se para a capa com um arrepio. Os tons negros do fundo e a expressão pesarosa do biografado sugerem uma homenagem póstuma, daquelas de que somos pródigos. Credo!
Hesita-se um segundo. Folheia-se.
Causam estranheza os dois prefácios — um do general Eanes e outro de Fernando Dacosta. (Vem à memória a tara de T.S. Elliot com os prefácios). Eanes escreve com uma dívida de gratidão a Letria em sete páginas bonitas, mas de execução militar – de tema em tema, como uma barragem de artilharia. Dacosta é igual a si próprio: seria criativo mesmo se só tivesse um post-it.
Até a introdução da autora produz uma sensação invulgar. Dá ideia de que as memórias de Joaquim Letria, em formato de entrevista, são publicadas... apesar de Letria. Que o jornalista acedeu a contragosto. E, no entanto, aqueles, como eu, que decidem comprar Joaquim Letria, Sem Papas na Língua (Dora Santos Rosa, Âncora, 2014) têm pela frente uma das melhores reflexões sobre o jornalismo das décadas de 1960 a 1980 que tive o prazer de ler.
Com frequência, senti que o livro-entrevista continua, com notável coesão, o trilho aberto por essa obra extraordinária que é Jornalismo: do Ofício à Profissão (Fernando Correia e Carla Baptista, Caminho, 2007), investigação sobre a ruptura profunda produzida nas redacções do final da década de 1950 com a admissão de jornalistas com background universitário e formação política.
Letria parece ganhar alento depois das primeiras perguntas. Percebe que Dora Santos Rosa estudou a sua carreira, sabe do que fala. Com algumas provocações, torna-se bonacheirão e partilha sem reservas. Nalguns casos, como no relato sobre Moisés Tshombé, vai obrigar-me a reescrever, mesmo que ao de leve, um episódio que aqui deixei há alguns meses (aqui). Noutros, notoriamente exagera (posso desmentir, por conhecimento directo, a alegação de que os livros, no Estado Novo, não eram revistos pela Censura; ou que Jorge de Brito tenha sido detido em 1975 sem «ser acusado de coisa nenhuma»). E é altamente controversa a sugestão de que osjornalistas detidos pela PIDE foram-no sempre por actividade política clandestina e não por actividades jornalísticas. Como Letria muito bem diz, percebeu que estava na fase de fazer e dizer o que lhe viesse ao goto, como os malucos. O resultado é uma leitura que flui sem buracos na estrada, como uma única grande conversa.
O jornalista partilha notas preciosas sobre o ambiente do Diário de Lisboa, com destaque para Mário Neves (curiosamente, quase não refere Norberto Lopes). Recupera uma dimensão esquecida de Vítor Direito (pelo menos, para mim, que cresci numa casa onde o seu «De Vez em Quando» no Diário de Lisboa e a sua «Visão Direita» no República eram a primeira rubrica lida todos os dias e onde a sua transformação, ou monstrificação, no «Direito do Correio da Manhã» foi sentida como uma traição). Aborda, sem rancores, a saga da RTP. A fundação de O Jornal, com uma traição à mistura. O Tal & Qual, de boa ou má memória, consoante as semanas (nunca esqueço que o mesmo semanário que revelou a Dona Branca ajustou contas com a direcção de programas da RTP, lançando indecentemente Maria Elisa para a fogueira... Ou para a praia. Enfim, quem se lembra dessa primeira página de 1983 sabe do que falo).
Letria foi Letria: recordou sem papas na língua, contou histórias sem a tradicional discrição portuguesa (com uma excepção, pois não nomeia directamente o judas que motivou a sua saída de O Jornal). Apontou o dedo à instrumentalização política da RTP. Explicou o sucesso original de Tal & Qual com uma fórmula diabolicamente simples: num universo de imprensa estatizada, o jornal comprava histórias a repórteres que não as podiam publicar nos seus órgãos de comunicação. Divertiu-me. No seu relato minucioso, há agora pistas para perceber melhor a evolução do jornalismo português.
Faço votos para que Baptista-Bastos, Fernando Dacosta, Joaquim Furtado, Mário Zambujal e Adelino Gomes vão preparando as suas notas. Meus senhores, chegou a vossa vez!

sábado, março 14, 2015

Dupla gralha

Colecção do autor


Por razões que não vêm ao caso, passei largas e inúteis horas num hospital com tempo para ler do princípio ao fim as Memórias do Esculápio, pseudónimo jornalístico de Eduardo Fernandes, repórter aclamado do final do século XIX-início do século XX. No divertido relato, Esculápio conta a famosa dupla gralha do Diário de Govêrno, ao falar de Dona Maria II, tratando-a por “bainha” em vez de “rainha”. No dia seguinte, publicou-se uma correcção que ficou famosa: “Onde se lê Sua Majestade a bainha, leia-se Sua Majestade a tainha.”
Entenderam os revisores que era um caso perdido e já não se corrigiu a correcção!

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Nos calores do Fogo


 Uma definição operacional de loucura costuma ser a repetição da mesma acção e esperar um resultado completamente diferente. No caso de alguns fotógrafos que trabalham connosco, a definição precisa de um retoque. Para muitos destes profissionais, a loucura passa por mover montanhas para conseguir chegar a locais que a maioria dos mortais preferia evitar. Foi o caso recente do Pedro Narra.
A 23 de Novembro, o vulcão do Fogo, em Cabo Verde, despertou novamente, 19 anos depois da última grande manifestação. Havia sinais desde a Primavera de que isso poderia acontecer e, na última semana de Novembro, o gigante rochoso mostrou mesmo as entranhas. Para muitas pessoas, incluindo as comunidades locais, isso implicava bater em retirada; para o Pedro, então em serviço para a revista na Guiné-Bissau, a erupção funcionou como as bombas-relógios nos filmes de Hollywood: era fundamental bater o cronómetro e chegar à ilha do Fogo antes do fim da contagem, que é como quem diz antes do final da fase mais espectacular da actividade eruptiva.
De avião, de ferry e de jipe, Pedro Narra chegou ao Fogo quatro dias depois. Levava apenas uma mochila, alguns mapas e o equipamento fotográfico básico.
Esforço-me por repetir que a maior parte das reportagens da revista implica planeamento, leituras preparatórias, contactos exploratórios – numa frase, a rotinização do inesperado. Infelizmente, os vulcões não avisam (ou, se avisam, fazem-no com alertas suficientemente ambíguos), invalidando respostas mais rápidas da protecção civil, dos fotógrafos ou do fenómeno recente dos volcano watchers, que pagam o que for preciso para assistir in loco à fúria da natureza.
Por isso, na noite de 27 de Novembro, o fotógrafo viu-se nas imediações da fonte eruptiva, sozinho, quase às escuras, usando a audição para se orientar. Parece o guião de um reality show, mas foi, na essência, uma aventura genuína.
O resultado do trabalho de campo pode ser apreciado na revista de Março e, daqui a algumas semanas, no nosso site de Internet. Seis décadas e meia depois de um esforço semelhante do geógrafo Orlando Ribeiro para chegar ao Fogo a tempo de presenciar a erupção do vulcão, a revista orgulha-se de apresentar nas suas páginas… o Fogo do Fogo – um trabalho que se deve exclusivamente à loucura saudável de um excelente repórter fotográfico.

sábado, fevereiro 21, 2015

Crónicas das Minhas Teclas



Não quero transformar este blogue numa versão low-cost das recomendações do professor Marcelo, mas, pontualmente, tenho a sorte de me passarem pelas mãos livros memoráveis. O mais recente foi Crónicas das Minhas Teclas, as memórias de Henrique Antunes Ferreira, jornalista, editor e chefe de redacção do Diário de Notícias, para além de comentador da TSF e de A Bola, entre outras publicações. Não resisto a uma curta recensão crítica, exercício perigoso num blogue que não recebe luvas (nunca ofereceram), não aceita convites (nunca os remeteram) nem convive informalmente com escritores e autores (porque não os conhece). Sairá portanto com a rispidez que faz parte do meu charme (é o que diz a minha mãe, pelo menos!)
Começo como nas fábulas infantis. Houve um tempo, há muitos, muitos anos, em que os jornais diários mandavam enviados-especiais aos principais acontecimentos jornalísticos do globo. Parece inverosímil, bem sei, mas era mesmo assim: cimeiras, guerras, conferências de imprensa eram quase tão importantes como jogos de futebol da Liga Europa. E jornalistas como Henrique Antunes Ferreira faziam o tirocínio por estes eventos, somando pontas soltas no estrangeiro, sozinhos, contando apenas com a camaradagem dos companheiros na redacção e dos jornalistas da concorrência, procurando um nexo de sentido quando o novelo estava ainda enrolado. Ditando prosa por telefone. Negociando o acesso a faxes por troca com garrafas de vinho do Porto (episódio delicioso, esse). Desenrascando-se.
Usavam uma ferramenta que costuma aparecer nas capas dos livros de memórias (conheço pelo menos três que fizeram uso desse recurso). Chamava-se máquina de escrever e as teclas matraqueadas faziam um barulho infernal. Conta-se aliás que foi o ruído da máquina de escrever que Álvaro Cunhal usava noite adentro na zona rural do Luso em 1949 que o denunciou e que levou à sua última detenção, em Março desse ano. Como se vê, a máquina de escrever é um instrumento perigoso.
Henrique Antunes Ferreira escolheu 16 histórias que viveu nos quatro cantos do planeta. Resisto à tentação de contar a que mais me impressionou e que bem merece um tratamento mais amplo, se algum dia eu encontrar os respectivos recortes na colecção do jornal da Biblioteca Nacional. Por estas páginas, desfilam o general Eanes (numa inacreditável narrativa que envolve o carro roubado de Antunes Ferreira e o staff do PR), a amada Goa do Henrique e da esposa, Angola e a guerra colonial, a Polónia de Lech Walesa (descobri, através do Henrique, que se lê "Va-ue-sa") ou encontros pitorescos com Dominique Strauss-Kahn (as meninas, sempre as meninas).
O tom é divertido e ligeiro, em jeito de conversa entre amigos. E o Henrique, fiel a si próprio, inclui aventuras e desventuras, episódios que terminaram com a justa recompensa, e digressões que não surtiram o efeito desejado, como a viagem à China de Xiaoping. É um livro honesto que não pretende – como em tantas outras memórias (incluindo de repórteres que passaram pelo mesmo jornal) – reescrever a história, nem ajustar contas. É um livro de um contador de histórias.
E é por isso que vale a pena.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

O cavalo do general


Nas suas Memórias, Raul Brandão conta a história de um general muito sovina da década de 1920, que se foi abastecer de um lindo cavalo branco a um circo de Lisboa. O animal era lindíssimo, dócil como poucos, e o general ficou radiante pela pechincha obtida. Chegou o dia da primeira parada e, ao som dos acordes da charanga, o cavalo do general começou a fazer aquilo para que estava treinado: dançava imparavelmente, com o oficial no lombo. Lisboa inteira rebolou-se no chão a rir!

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Alguns textos na secção de Reservados



Meus caros,

A partir desta semana, alguns dos textos mais lidos e comentados do Ecosfera deixaram de estar acessíveis. Como nas bibliotecas, passaram para a secção de Reservados onde serão alvo de restauro e recomposição.

Os textos sobre episódios jornalísticos do século XX foram construídos para a Internet e com a intenção de aqui permanecerem para todos os leitores que pudessem sentir curiosidade pelas notícias originais e pelo que foi efectivamente publicado em cada circunstância. Quebro agora essa lógica com 22 textos por motivos que ainda não posso explicar.

Peço a vossa compreensão. Fica o compromisso de que em breve acrescentarei novos episódios do jornalismo português neste espaço.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

À espera de um ferrão

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 Os anos vão passando, mas há coisas que mudam pouco ou nada. Ontem, participei numa mesa-redonda sobre a divulgação da arqueologia subaquática para lá do circuito tradicional entre pares. Éramos dez pessoas numa sala gelada, e a discussão foi curiosa, embora expressa nos termos habituais: a necessidade de educar o público; a necessidade de formatar os media; a importância de explorar canais alternativos na transmissão de informação à sociedade civil; os perigos da intermediação por leigos da informação científica. Não descobrimos a pólvora ontem – parece-me claro. O tema tem sido debatido há vinte anos com poucas nuances.
Não vos maçar com o que disse. Essencialmente, defendi que, do ponto de vista dos meios de comunicação tradicionais, estamos na fase de descida vertiginosa na montanha-russa do interesse jornalístico pelo tema. Publica-se pouco sobre arqueologia, apesar de o interesse da audiência por estas questões permanecer vivo. Os temas de Arqueologia seleccionados para a capa da National Geographic continuam cotados entre as escolhas mais populares dos leitores. Tanto quanto consigo extrair conclusões, acredito que a explosão mediática do tema nas notícias durante a década de 1990 acompanhou a institucionalização da arqueologia no seio da Cultura, com a criação de um Instituto Português da Arqueologia (IPA) dinâmico, com músculo, com gente boa e agressiva.
Os media reagem aos estímulos. O Ambiente institucionalizou-se enquanto tema jornalístico em relação directa com a sua institucionalização na agenda política, sobretudo a partir do momento em que foi consolidado um Ministério do Ambiente. Na Cultura, embora a competição seja maior e ainda persista o estigma da Alta Cultura e da Baixa Cultura, a questão não me parece muito diferente. Durante seis ou sete anos, o IPA produziu esse estímulo, agitando águas, organizando campanhas científicas, publicando com regularidade. E os meios de comunicação expressaram esse entusiasmo, multiplicando secções temáticas nos jornais, produzindo notícias e reportagens; sem IPA, desapareceu o ferrão da abelha que nos punha (arqueólogos e jornalistas) a mexer.
O ponto alto da sessão, porém, foi a intervenção do professor Carlos Fabião, arqueólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e velho amigo (já lá vão 14 anos) da casa amarela. Depois de identificar várias oportunidades perdidas de valorização in situ de contextos arqueológicos no coração da cidade de Lisboa – com o cais da Praça Dom Luís à cabeça – propôs uma leitura de «Portugal, Hoje. O Medo de Existir» de José Gil aplicada à arqueologia. «Na arqueologia, constato de facto a não inscrição de que fala o José Gil», disse. «Uma ocorrência tem lugar, suscita declarações e tomadas de posição vigorosas, mas, passado um tempo, parece que não aconteceu. Parece que não se inscreveu na história. E se não se inscreveu, não há responsáveis e continuamos como se nada tivesse acontecido.» De certa forma, é como a proverbial pedra lançada para o lago: provoca ondulação temporária, mas, minutos depois, o espelho de água permanece exactamente igual e a pedra descansa no fundo.
Haverá ferrão que nos pique colectivamente e que modifique este medo de existir? Disse-se na sala, com algum humor, que se calhar está na hora de concentrar todos os esforços nas acções educativas da população infanto-juvenil e desistir dos adultos.
Esses já estão perdidos!

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Cem dias no Atlântico Norte




Ainda não conheço o Pepe Brix pessoalmente e já gosto dele.
Só falámos por telefone e por correio electrónico. Há alguns meses, mandou-me – a medo – um PDF com uma recolha fotográfica que tinha concluído. Não tomem isto à conta de bazófia, mas tenho pouco tempo para espreitar portfolios. Deixei o material em lume brando. Um dia, ao fim da tarde, numa daquelas raras tardes em que por momentos parece que a fornalha está suficientemente saciada de carvão, comecei a ver a reportagem fotográfica.
Madre de dios! Que imagens! Que sensibilidade! Teletransportei-me naquele instante das Avenidas Novas de Lisboa para o Atlântico Norte. Para um barco velho, de pouco mais de oitenta metros, refúgio metálico de homens bravos que não têm outra casa durante a campanha. Para as águas frias que o bacalhau prefere, como se zombasse dos homens que o perseguem.
Privilegiamos em jornalismo as histórias novas, os contextos ainda não sugeridos, as narrativas por contar. O Pepe Brix, fotógrafo açoriano de Santa Maria, mandou essa lógica às malvas. Durante três meses e meio, trabalhou numa das histórias mais antigas da relação dos portugueses com o mar: os bacalhoeiros na Terra Nova. E explorou a partir daí uma nova linguagem sobre o quotidiano a bordo, a resistência de quem se força a este extremo para ganhar a vida. Em última instância, esta é uma reportagem sobre superação de limites.
Na revista de Fevereiro, a partir de amanhã nas bancas e assinantes, publicamos a reportagem. E ainda há um vídeo. E uma exposição na rampa de lançamento. Durante algumas semanas, será como se colocássemos um holofote sobre uma pequena mancha escura que sulca ondas no Atlântico.
É esse o sortilégio do jornalismo. Encontrar narrativas que valem a pena contar e amplificá-las. Mesmo que para isso seja necessário viver cem dias no Atlântico Norte.

sábado, janeiro 17, 2015

Memórias de jornalistas


[texto actualizado no dia 28 de Abril de 2021]


Fortemente desapontado depois de concluir Os Meus 50 Anos no Diário de Notícias (Fernando Pires, JM Edições, 2012), resolvo vingar-me e ordenar os livros da estante em função das minhas preferências. Em Portugal, há pouca tradição de memórias jornalísticas, e é pena. As memórias são a passagem secreta para as gerações posteriores regressarem ao passado e colherem, em testemunho directo (mesmo se ideológico; mesmo se falso), o que pensaram e porque agiram os homens e mulheres que os precederam.
Devem ser tomadas com as devidas cautelas. Os capítulos de Fernando Pires dedicados a Tomé Vieira ou Fernando Fragoso no Diário de Notícias são tão eloquentes como os capítulos que ele não redigiu sobre o mesmo período. Sublinha que Augusto de Castro nunca alterava um texto de outrem e reconhece que o «o meu trabalho não foi o que está publicado no jornal; esse é o resumo consentido, de algumas audiências uma caricatura». Mas não retira daí grandes lições, nem aproveita para contar como era o quotidiano dos jornalistas no mundo "visado pela censura". Passa rapidamente para 1974. Como diz com requinte o primeiro-ministro Hacker, na série cómica Yes, Prime Minister, as «memórias são a última tentativa de reescrever a história, não como ela foi, mas como gostaríamos que ela fosse!».
Mas vamos ao que interessa. Quais as melhores memórias sobre jornais, jornalismo e jornalistas publicadas em Portugal? Aqui fica a minha lista, sem prejuízo de novas entradas e saídas. Notai, gente, que como o blogue é meu e não tenho de dar contas à administração, vou dobrar ligeiramente os critérios quando me aprouver.

1) Uma Hora de Jornalismo (s/a, 1928, Caixa de Previdência do Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa)). Livro notável. Já o reli várias vezes. Inclui 45 histórias contadas pela nata do jornalismo do primeiro quartel do século XX. O texto de Ferreira de Castro é precioso; o de Reinaldo Ferreira é assombroso. Gente confiante e segura de si aproveitou para contar peripécias e azares, acertos e falhanços. Um dia, gostava de compilar um livro semelhante sobre os repórteres do início do século XXI.

2) Memórias Vivas do Jornalismo (Fernando Correia e Carla Baptista, Caminho, 2010). Em formato de entrevista. Os dois autores conversaram com 17 jornalistas, todos reformados. É um espelho privilegiado para olhar para o jornalismo da década de 1960 e 1970. Homero Serpa, Joaquim Letria, Mário Ventura Henriques e Acácio Barradas concederam entrevistas memoráveis. O Fernando e a Carla têm mais um lote de entrevistas inéditas, do qual constam por exemplo Aurélio Márcio, Baptista-Bastos ou José Antunes. Espero que o publiquem.


3) Memórias do Esculápio (Eduardo Fernandes, A.M.Pereira, 1930). Esculápio foi um dos mais aclamados repórteres do final do século XIX e início do século XX. Trabalhou em A Pátria, em A Vanguarda e n' O Século, jornal que abandonou certa vez, envolvido num conflito com o director Silva Graça [história completa aqui]. Fundou O Diário, mas voltaria a O Século pouco depois. Repórter de crime, com fama de entrar em qualquer instituição, Esculápio escreveu também gazetilhas famosas na época e foi autor de numerosas peças de teatro. As memórias (que terminam simbolicamente em 1910, embora com a promessa – não cumprida – de um segundo volume) são  divertidíssimas e repletas de anedotas. Conto uma a título de exemplo: a entrada na morgue do Hospital de São José era vedada aos repórteres, mas Esculápio entrava pelo serviço de urgência, com o pretexto de necessitar de algália. Ao ficar a sós com o enfermeiro que tratava dos dolorosos procedimentos, Esculápio recebia ao invés um papel com a identidade dos óbitos de cada noite e pagava ao funcionário a gratificação do jornal. O director do Hospital nunca percebeu como O Século tinha acesso exclusivo à informação sobre os mortos diários, pois Esculápio nunca fora visto na morgue.


4) Uma no Cravo… Outra na Ferradura (Acúrcio Pereira, edição de autor, 1978). Foi uma lenda do jornalismo do século XX. Trabalhou cinco décadas no Diário de Notícias e em O Século. O Galvão Correia contava que um berro do pequeno Acúrcio colocava em sentido uma sala com cem pessoas. Já reformado, Acúrcio publicou estas deliciosas memórias, difíceis de encontrar [devo o meu exemplar à diligência da Livraria Pó dos Livros], mas extraordinárias. Em 1973, quando Mário Zambujal o foi entrevistar para o número de aniversário de O Século, Acúrcio recebeu-o em sua casa. Antes que o repórter começasse a entrevista, Acúrcio disparou: «Olhe que o jornal de hoje diz que eu faço 82 anos, mas são só 81. Ponha lá: oi-ten-ta-e-um!» E só depois começou a entrevista...

5) Os Fragmentos (Ferreira de Castro, Guimarães, 1974). Primeira batota: só metade do livro reporta ao jornalismo, mas são páginas que valem a pena. Em dois textos, o escritor conta como se trabalhava em O Século de Pereira da Rosa (pela última vez, não era meu parente!). Delicioso. É a luta de um jornalista que não quer escrever propaganda, mas que precisa do salário do jornal. De um proprietário que sabe que Ferreira de Castro vende jornais, mas não quer chatices com o poder. O seu relato sobre a reportagem proibida com os mineiros alentejanos deve ser atirado vigorosamente à cara de quem diz, com desfaçatez, que a censura de 1932-1974 era moderada.

6) E agora, José? (José Cardoso Pires, Moraes, 1977). Nova batota. Não é bem sobre jornalismo. É sobre homens que fizeram jornais. Sobre um grande escritor que sonhou com uma revolução e que a viu desvirtuada. Sobre um homem que pedia acesso aos documentos da PIDE e que era olimpicamente ignorado na António Maria Cardoso, onde funcionava a Comissão de Extinção. Se possível, deve ser complementado com o livro-entrevista de Artur Portela (Filho) Cardoso Pires por Cardoso Pires (1991, Dom Quixote).


7) A noite sangrenta (Consiglieri Sá Pereira, Aillaud e Bertrand, 1924). Momento fundador da grande reportagem realista em Portugal, com o jornalista remetido ao papel de narrador não participante, este livro de Consiglieri Sá Pereira sobre a matança  de 19 de Outubro de 1921 em Lisboa é uma obra inesquecível. Inicialmente publicado no Diário de Lisboa, o trabalho chocou os lisboeta pela crueldade dos actos praticados pelos marinheiros inssurrectos, mas nunca foi desmentido. «Venham ver de que cor é o sangue do porco!» – é uma frase que me perseguiu muitas horas depois da leitura.


8) O Tempo e o Espaço em que Vivi. Miguel Urbano Rodrigues, Campo das Letras, 2002-2004). Dois volumes de memórias interrompidas cronologicamente em 1974, embora o autor tenha prometido um terceiro volume sobre a revolução portuguesa. De uma franqueza desarmante, Miguel Urbano recorda o início de carreira no Diário de Notícias, a aventura do Diário Ilustrado (com uma bonita homenagem a Victor Cunha Rego, compagnon de route em São Paulo) e o exílio no Brasil a partir de 1957. Editorialista do Estado de São Paulo, cúmplice de Júlio Mesquita Filho (o Dr. Julinho), director e proprietário do jornal, Miguel Urbano foi forçado à duplicidade: profissionalmente, representou um jornal burguês e situacionista; em paralelo, iniciou os esforços para articular a Oposição democrática no Brasil, provavelmente a força mais coordenada de oposição a Salazar entre todos os exilados. Imperdíveis as recordações de Humberto Delgado, a memória da participação do autor no assalto louco ao Santa Maria e o conhecimento travado com alguns dos revolucionários africanos e sul-americanos que moldaram a história do século XX. A evocação do Diário Ilustrado completa o quadro sobre o episódio dos 15 demissionários do jornal da empresa «do vinho martelado», não faltando ali uma reconstituição dura da zanga que valeu o corte de relações com Jorge Rodrigues, o irmão mais novo da família. 


9) As palavras dos Outros. Baptista-Bastos, O Jornal, 1989). Faço nova aldrabice para incluir de calçadeira um livro que não é propriamente um exercício de memórias do repórter, mas sim uma recolha dos seus trabalhos mais vivos publicados essencialmente no Diário Popular. Durante muitos anos, esta obra foi usada nas aulas de Jornalismo como protótipo do que devem ser reportagens humanizadas, calorosas, por vezes brutais. Baptista-Bastos recupera a sua célebre entrevista com Paul McCartney em 1965, a entrevista de vida com o nadador Baptista Pereira, que inspirara Soeiro Pereira Gomes nos Esteiros e conquistara a glória no Canal da Mancha. Por motivos que talvez um dia aqui publique, perdi-me de amores pela reportagem com o comandante Manuel Zorra. 


10) Diário de um Jornalista, 1926-1930. Maurício de Oliveira, s/editora, 1973). Primeiro volume de uma série de três nunca concluída com as memórias do jornalista que cumpriu grande parte da carreira no Diário de Lisboa, antes de rumar, em 1968, para A Capital, onde chegaria a director. Dirigiu ainda o Jornal do Comércio até falecer subitamente, interrompendo as suas memórias. Livro precioso para compreender o ambiente político, militar e jornalístico imediatamente anterior e posterior ao 28 de Maio de 1926. Iniciando-se no Rebate em Junho de 1926, Maurício de Oliveira cumpriu 46 anos de carreira sempre sob regime de Censura. Fez parte, nas suas palavras, da «geração do silêncio», por oposição à «geração do ruído», que o precedeu. Deixou mais de uma dezena de livros sobre a história naval portuguesa e especializou-se em temas relacionados com a Marinha.


11) Surgindo Vem ao Longe a Nova Aurora, Para a História do Diário Sindicalista A Batalha, 1919-1927 (Jacinto Baptista, Bertrand, 1977). Há outros volumes – até do mesmo autor, no caso de O Mundo – sobre o percurso de um jornal, mas este é, para mim, o melhor nesse capítulo. Jacinto Baptista, veterano jornalista do Diário Popular, do Diário de Notícias, de O Primeiro de Janeiro e de A Voz, descreveu pormenorizadamente o nascimento e morte de um jornal sindicalista que, entre 1921 e 1923, ameaçou o domínio dos dois gigantes de Lisboa – O Século e o DN – com a sua tiragem de quarenta mil exemplares. Baptista teve acesso directo a dois protagonistas relevantes de A Batalha, Pinto Quartim, chefe de redacção (embora os anarco-sindicalistas odiassem as expressões com carga directiva) do periódico, e Manuel Fróis de Figueiredo, administrador (e, por acidente, sogro do próprio autor). Conduziu também entrevistas com outros participantes. O relato é minucioso, as querelas são abundantes. O fim, esse, não poderia ser diferente: o jornal foi fortemente atacado pela Censura e fechou as portas em 1927. Com ele, morreu também uma corrente importante da Primeira República. 

12) O Bairro dos Jornais (Paulo Martins, Quetzal, 2018). É o mais recente esforço  memorialístico nacional e parte de uma premissa diferente das obras precedentes. Paulo Martins traça a história dos jornais lisboetas através da geografia que estes ocuparam, entre o Bairro Alto e o Chiado. Trata-se de uma forma engenhosa de encontrar um fio narrativo desde meados do século XIX à revolução. O Bairro dos Jornais é o Bairro Alto, cenário de sonhos vividos e desfeitos para centenas de publicações. E vale bem a evocação. Obra já recenseada aqui.


13) Joaquim Letria, Sem Papas na Língua (Dora Santos Rosa, Âncora, 2014). O ano de 2014 constituiu boa colheita para esta lista, com a publicação das memórias de Joaquim Letria e de Antunes Ferreira (ver mais abaixo). Em formato entrevista (já recenseado aqui), Letria recupera o ambiente fervilhante das redacções do Diário de Lisboa, da RTP, de O Jornal e de Tal e Qual. Aborda a sua militância precoce no PCP, alguns conflitos com a PIDE e o mundo da RTP em 1975, repleto de gente «pintada de fresco», na expressão feliz do autor para os recém-convertidos à revolução. Para mim, é sobretudo a sua evocação de figuras como Mário Neves e Vítor Direito que merece destaque. As páginas sobre o jornalista "faz-tudo" na redacção, ora ocupado com os telefonemas dos correspondentes, ora trabalhando no serviço de agenda, ora saindo para o campo, deveriam ser compiladas para divulgação mais abrangente.
14) Vicente Jorge Silva, Conversas com Isabel Lucas (Temas e Debates, 2013). Construídas igualmente como livro-entrevista, estas memórias têm a enorme vantagem de clarificarem alguns períodos conturbados do jornalismo recente, como o processo de fundação do Público ou a relação de Francisco Pinto Balsemão com a equipa redactorial do Expresso. Sem preocupações cronológicas excessivas, Vicente aborda a sua carreira com três etapas fundamentais: na refundação do Comércio do Funchal na década de 1960, nos primeiros anos do Expresso (entre 1974 e 1988) e na primeira década do Público. Livro franco, comenta com acutilância as fraquezas do modelo de ensino universitário do jornalismo (impagável a referência à Universidade Nova de Lisboa das páginas 178 e 179), as fraquezas de carácter de alguns camaradas de imprensa (quem seria o jornalista famoso que, no sismo de Angra de 1980, escrevia sem sequer sair do hotel?) e os defeitos e virtudes dos dois administradores fundamentais que encontrou na carreira – Balsemão e Belmiro de Azevedo. Balsemão disse-lhe certo dia que era impossível aturá-lo. Talvez seja. Mas a leitura destas memórias é indispensável para perceber um dos jornalistas mais relevantes da década de 1980 em Portugal. 


15) À Lareira do Passado (Eduardo Schwalbach, 1944, Edição de Autor). Schwalbach foi jornalista entre as duas últimas décadas do século XIX e a primeira do século XX, intervalando o trabalho nas redacções com a produção teatral. Viria ainda, por um breve período, a dirigir o Diário de Notícias, em substituição de Augusto de Castro, chamado a tarefas diplomáticas. Obra divertida, permite recuperar factos e figuras do jornalismo da monarquia na fase decisiva em que os periódicos adoptaram rumos mais jornalísticos e menos panfletários. Schwalbach conta várias histórias deliciosas (duas delas já reconstituídas aqui). Recupero uma: no Clube do Porto, instituição selecta só franqueada pelos membros, Dom Luís teve oportunidade de exercer o seu aclamado liberalismo. A visita real ao Porto incluía um jantar no Clube, mas a direcção mostrou-se intransigente, informando o soberano que não deixaria entrar profanos na sua actividade. Dom Luís argumentou que, não podendo ir a sua imprensa, também ele não iria – decisão que, naturalmente, desbloqueou a situação. «O Clube sentiu-se esmagado e cedeu: os jornalistas foram convidados, mas – honra lhes seja feita – à ceia, nenhum levou aos lábios um copo nem engoliu uma migalha, por mais instados que fossem pelos directores», escreveu Schwalbach. «A sua presença ali não ia além dos limites de uma reportagem.»


16) Caminhos para uma Revolução (Jacinto Baptista, 1975, Livraria Bertrand). Segunda obra de Jacinto Baptista nesta lista, inclui um precioso diário que o autor – jornalista, chefe de redacção e, mais tarde, director do Diário Popular – foi preenchendo em segredo durante as décadas em que trabalhou sob regime de censura. Reconstitui personalidades e eventos na luta diária para colocar o jornal na rua. Tem a vantagem e a desvantagem de ter sido produzido em 1975, a quente, com os acontecimentos pós-revolução ainda muito frescos. Constitui, nas palavras do autor, o «meu primeiro acto livre de cidadania».
  
17) Visado pela Censura (Norberto Lopes, Aster, 1975). Colecção de ensaios do grande repórter Norberto Lopes, que fundou o Diário de Lisboa e que, no final da década de 1960, refundou A Capital por teimosia. Tem textos preciosos sobre a campanha de Gago Coutinho e Sacadura Cabral em 1922 ou a primeira viagem de Salazar a Lisboa, mas falta-lhe estrutura mais densa. Perdeu-se a oportunidade de recuperar a vida no Diário de Lisboa pelo homem que lá passou mais tempo depois de Joaquim Manso. Em compensação, foi lá que li pela primeira vez um resumo de três linhas sobre a história do falso papa português, publicada no jornal O Mundo em 1914 e que conto em Parem as Máquinas!



18) O Diário Acusa – Mais de Mil Horas nos Tribunais (Miguel Urbano Rodrigues, Caminho, 1985). Pode encontrar-se o rasto – mesmo que ténue – da produção de um jornal nas colecções poeirentas das bibliotecas, mas as vicissitudes administrativas e judiciais de um jornal costumam desaparecer no dia em que o último participante expira. No caso de O Diário, jornal fundado pouco depois da Revolução de Abril e inequivocamente próximo do Partido Comunista, Miguel Urbano Rodrigues deixou um testemunho precioso do que foi a vida judicial do periódico e do seu director, frequentemente querelados por personalidades políticas e económicas. Na barra do tribunal, O Diário ganhou e perdeu batalhas com Sá Carneiro e herdeiros, com Ângelo Correia, com Proença de Carvalho, José Júdice, entre tantos outros. Vale a pena ler para recolher impressões sobre o jornalismo do início da década de 1980 e as tentativas de balização da sua intervenção. 

19) O 25 de Novembro e os Media Estatizados (Ribeiro Cardoso, Caminho, 2017). Um velho adágio garante que são os vencedores que escrevem a história, mas Ribeiro Cardoso lançou-se numa tentativa de escrever uma história complementar e, por vezes, contraditória com as versões que todos os anos nos são apresentadas sobre vencedores e vencidos do 25 de Novembro. Recorrendo a ampla documentação sobre os dias frenéticos do contra-golpe 1975, o autor (também ele jornalista) entrevistou igualmente os sobreviventes entre a legião de jornalistas, técnicos e administradores saneados após a data em causa. Do Diário de Notícias a O Século, da ANOP à RTP, passando pela Emissora Nacional e pelo Rádio Clube, Ribeiro Cardoso desmonta mitos e expõe casos reais – vidas destroçadas pela acusação (não substanciada em tribunal na esmagadora maioria dos casos) de comportamentos partidários. Como Alexandre Pais comenta, num testemunho cândido, é e sempre foi a política que dita as regras. Não a justiça ou a lei laboral. E os saneados do 25 de Novembro descobriram-no à sua própria custa.

20) O Nosso DN – Memória do Tempo (Fernando Pires, (coord.), JM Edições, 2014). O 150.º aniversário do Diário de Notícias motivou a publicação de várias obras sobre o velho jornal lisboeta – umas boas, outras nem por isso. Este esforço colectivo, coordenado por Fernando Pires, é uma das mais interessantes. Os ensaios não são muito coerentes (José Manuel Ribeirinho, por exemplo, opta por listar secamente a evolução de tipografia e projectos de arte do jornal, enquanto António Castro limita-se a inventariar as provas desportivas que relatou ao serviço do jornal e Fernando Cascais compila iniciativas de formação e sua articulação com os jornais). Há, porém, informação preciosa neste volume. A crónica de Leonel Gonçalves sobre o serviço de arquivo e documentação é minuciosa e servirá de base para futuros trabalhos. Divertido e apaixonado, o texto conta peripécias que mais ninguém conhece, como a circunstância peculiar e irónica de Óscar Paxeco ter preparado a necrologia antecipada do marechal Carmona, falecendo primeiro do que o seu biografado.
O ensaio de Pedro Foyos é divertidíssimo e constitui um repositório – nem sempre ordenado, é verdade, mas bem documentado e contado com humor – de memórias de reportagem. Guardo para o fim o melhor. O ensaio de Maria Augusta Silva é comovente e a melhor homenagem que li ao jornal da Avenida da Liberdade. Entre a queda à saída para uma entrevista com José de Almada Negreiros e o dente partido na véspera de uma entrevista com Lobo Antunes, o «santo espírito DN» fica ali preservado como uma cápsula do tempo.

21) Jornalistas, Pais e Filhos (AAVV, Fronteira do Caos, 2011). 21 jornalistas escreveram neste volume sobre os seus pais, igualmente repórteres noutras épocas e com outros filtros. O volume junta memórias comoventes e é leitura obrigatória para quem procura recuperar fragmentos do jornalismo do século XX. De tantas histórias ali evocadas, recordo uma sobre Nuno Brás, jornalista de rádio e televisão hoje esquecido, mas figura importante da locução desportiva nas décadas de 1970 e 1980 e de quem se diz à boca cheia (embora nunca confirmado por Herman José) que o célebre Esteves foi beber a inspiração. Conta o filho Nuno Moura Brás que, no Mundial de hóquei em patins de 1970 em San Juan (Argentina), pediram ao pai, então na Emissora Nacional, mil dólares para poder transmitir o jogo. Recusou, claro. Chamou os bombeiros, pediu para o içarem pelo exterior até ao topo do pavilhão. «E por um postigo viu o jogo, que relatou em directo agarrado à escada Magirus dos sapadores de Buenos Aires.» Teve azar: foi tema de capa de jornais argentinos e a conta foi parar à embaixada portuguesa. Que a pagou. Porque o hóquei em Portugal era uma religião... Punch line: Portugal perdeu esse Mundial para a Espanha!


22) Memórias de Notícias do Jornal (Frederico Martins, CM Matosinhos, 2008). É um livro difícil de encontrar, pois foi publicado em Matosinhos e não chegou às bibliotecas de Lisboa. E é pena. Já doente, o director do Jornal de Notícia mais bem sucedido depois de Pacheco de Miranda conta nas primeiras 92 páginas as suas impressões sobre quatro décadas no jornal. Seguem-se mais de duas centenas de crónicas recuperadas da última página do JN, onde Frederico Martins Mendes publicava o seu "Bons Dias". Notáveis as evocações das viagens a Londres com Marcelo Rebelo de Sousa. Em breve escreverei sobre «a cacha mais dolorosa» (pg. 30) – o dia em que o JN teve de publicar em manchete a notícia da detenção de um amigo pessoal de Frederico Martins Mendes.  

23) Quem é Quem no Jornalismo Português (s/a, Clube de Jornalistas, 1992). O miolo do livro é uma colecção de retratos e biografias dos repórteres no activo no ano da graça de 1992. Mas esta obra vale pelo prefácio de Jacinto Baptista, uma das poucas memórias publicadas deste repórter notável do Diário Popular. Contém dados relevantes sobre a crise da imprensa com o choque petrolífero de 1973 e memórias divertidas do percurso do repórter em início de carreira em A Voz e O Primeiro de Janeiro. Nunca mais esqueci uma história sobre Acúrcio Pereira, o chefe de redacção de O Século, a quem Jacinto pediu emprego. Segundo Acúrcio, era impossível conciliar o estatuto de estudante com o de jornalista – só em casos excepcionais. E lá foi escada abaixo o repórter recusado.


24) Boémia Jornalística (Jorge de Abreu, Livraria Guimarães, 1927). Contemporâneo de Esculápio, Reinaldo Ferreira ou Silva Graça, Jorge de Abreu trabalhou durante mais de três décadas na imprensa lisboeta antes de aceitar a responsabilidade de chefiar a redacção de O Primeiro de Janeiro. Divertida e bem fundamentada, esta evocação de 162 páginas lembra A Tarde de Urbano de Castro, as Novidades de Emídio Navarro, O Século de Silva Graça e O Pimpão de Morais Pinto. Já aqui lembrei o episódio em que um grupo de dissidentes do jornal de Silva Graça deu uma lição ao seu antigo director, mas estas memórias não se esgotam nessa recordação. É graças a Jorge de Abreu que sabemos um pouco melhor como se viveu o regicídio e a implantação da república nas redacções lisboetas. É neste livro também que se conta o sarilho de 1918, quando O Século de Pereira da Rosa não publicou tarjas negras aquando do assassínio de Sidónio Pais e foi invadido por uma turba violenta.

25) A China Vence o Passado (José de Freitas, Cosmos, 1964). Já escrevi sobre esta enorme reportagem de José de Freitas sobre a China de Mao, então na curva para a Revolução Cultural de 1968. Repórter notável, com grande talento para o detalhe, filho de um grande nome do jornalismo e figura ímpar do Diário Popular, Freitas juntou aqui as suas crónicas publicadas no jornal. Como o dia em que ele pensou ter visto uma explosão nuclear na China.

26) Crónicas das Minhas Teclas (Antunes Ferreira, Prelo, 2014). É uma entrada recente nesta lista e merece aliás um texto à parte (recensão aqui). Redactor, editor e chefe de redacção do Diário de Notícias numa fase decisiva da vida do jornal na década de 1980, Henrique Antunes Ferreira narra, com bom humor, fair-play e profusão de detalhes, episódios notáveis sobre as suas missões como enviado-especial do jornal. A crónica sobre Lech Walesa merecia entrada numa colectânea de memórias jornalísticas (reconstituída aqui). A cimeira da NATO, com o Henrique em cima da mesa para se fazer ouvir, é outra memória preciosa. Foi dos melhores livros publicados em Portugal em 2014.

27) Um Repórter Inconveniente (Aurélio Cunha, Chiado, 2015). Livro recente (já recenseado aqui), é, por ora, o único registo de memórias de um jornalista de investigação em Portugal. Género romantizado pela ficção e pela ideologia profissional, não teve melhor intérprete do que Aurélio Cunha, repórter sobretudo do Jornal de Notícias (JN). O livro recupera denúncias célebres, alguns (poucos) fracassos e várias lições sobre a morosa arte de recolha de informação privilegiada junto de fontes indecisas. Aurélio Cunha terá sido o primeiro, antes mesmo de Carlos Cal Brandão assumir as funções de consultor jurídico do JN, a submeter as suas propostas de artigos a advogados, limando pontas soltas e palavras mal sustentadas. Lê-se de um fôlego, mas com um amargo de boca: Aurélio Cunha teve de pagar para investigar, trabalhou nos tempos livres, foi forçado a inventar baixas clínicas. Como resultado, nasceram mais de vinte histórias bem sucedidas na capa do seu jornal.

28) Memórias da Memória (Ribeiro dos Santos, Rolim, 1986). Jornalista durante 33 anos, entre 1925 e 1958, José Ribeiro dos Santos foi autor destas memórias dois anos antes do seu falecimento. É um livro honesto, algo desencantado, mas muito revelador sobre o jornalismo no Rebate, na República, no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, onde cumpriu uma última missão jornalística logo após a revolução de 1974, dirigindo o jornal imediatamente antes de Victor Cunha Rego. É neste volume que Ribeiro dos Santos revela peripécias da sua entrevista com Winston Churchill em 1939 [história completa aqui]. É nesta obra que a Censura e os militares nela destacados ganham vida e cores realistas, sobretudo face a tanta desinformação e exagero retórico. Destaque ainda para pormenores sumarentos sobre os primeiros anos do grupo-embrião que viria a fundar o Partido Socialista em 1973.

29) Televisão e Censura (Mário Castrim, Campo das Letras, 1997). Oportunidade rara para medir a extensão e a arbitrariedade da acção da Censura na década de 1970, este volume de Mário Castrim, o mais proeminente crítico de televisão do século XX, recorda quatro anos de "Canal da Crítica" no Diário de Lisboa. Entre 1970 e 1974 (termina nove dias antes da revolução de Abril), Castrim republica a sua coluna, juntando-lhe os cortes diligentemente feitos pelos coronéis da Censura. No prefácio, resume a sua intenção: «O que trabalhei de melhor não está no que foi publicado. Ninguém se dará conta, lendo as críticas, do que foi a luta corpo a corpo, do que foi a alma gasta em cada frase, a busca da palavra capaz, a invenção do gesto, da finta, da negaça (…) Ah, dizia eu, se fosse possível recuperar o que me roubaram, então sim, então talvez valesse a pena a publicação.»

30) Diário Político (Raul Rego, Edição de Autor, 1969). Um diário de alguns meses de 1969 onde Raul Rego, então no Diário de Lisboa e colaborador do Jornal do Comércio, anotou as escaramuças diárias produzidas pela Censura. Menos completo do que o projecto idêntico de Jacinto Baptista, tem o mérito de apresentar documentos importantes sobre o regresso do bispo do Porto a Portugal, as eleições de 1969 ou as célebres entrevistas de Marcelo Caetano e Salazar ao jornal francês L'Aurore

31) As Minhas Memórias de Jornalista (António Cabral, Edições Gama, 1949). Curioso volume de um jornalista e político que trabalhou na imprensa desde a última década e meia do século XIX até ao final da I República. Monárquico convicto, Cabral comenta vícios e virtudes dos grandes nomes da imprensa oitocentista. É impagável a sua definição peculiar do que deve ser um jornalista (pg. 24). É ele também quem conta a história da reacção dos jornalistas de Lisboa ao famigerado projecto da Lei de Imprensa de 1907, que cerceava as liberdades de expressão. Revoltaram-se os jornais da oposição e prometeram a pena do silêncio para todos os políticos envolvidos na discussão ou defesa do projecto: «Poderiam eles casar, falar, morrer – os jornais da oposição não lhes escreveriam os nomes, não lhes fariam a mais leve referência. Era o silêncio a adensar-se em volta dos réprobos!»


32) 1968-69, A Voz de uma Geração (Edite Esteves [coord.], Âncora, 2018). Volume recente (já recenseado aqui), é uma colectânea de textos produzidos em 2003 no âmbito das comemorações do 35.º aniversário da segunda série de A Capital. Appio Sottomayor, Daniel Ricardo, Luís Almeida Martins, António Valdemar ou a própria Edite Esteves assinam evocações sobre os primeiros meses do jornal e a luta de Norberto Lopes e Mário Neves contra a Censura. Memoráveis as recordações de Valdemar sobre os três obituários de Salazar que foi forçado a escrever para os três jornais com os quais colaborava então. Igualmente notável a recolha de Appio sobre algumas das gaffes mais sonoras do jornal da bolinha vermelha.  


33) Nos Bastidores do Jornalismo (Rafael Ferreira, Romano Torres, 1946). Foi um dos repórteres de “mundanidades”, o nome que então se dava à crónica de vida social. Traça frescos suaves (demasiado suaves) da sociedade da primeira metade do século, mas contém informação que, com frequência, me é útil. Repórter sem grande rasgo, Rafael Ferreira foi um dos jornalistas que mais tempo dedicou a O Século.


34) Memórias de um Ano de Revolução (Nuno Rocha, Somuna, 1975). Rocha escreveu quatro livros sobre jornalismo e um (Jornalismo como Romance, 1983) até tem pretensões de registo oficial de memórias. Prefiro este, escrito em 1975, com a revolução ainda fresca e com o objectivo claro de abrir caminho para o seu O Tempo. É um retrato que não pode ser dissociado do ano de produção, pois duvido que Rocha subscrevesse, cinco anos depois, tudo o que aqui escreveu. Regista por exemplo que «conspirara abertamente contra a guerra colonial» e fala dos «palhaços dos capitalistas portugueses». Mas, pelas palavras de um homem desalinhado, descobrem-se também os percursos sinuosos de alguns homens dos jornais nestes anos quentes. Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Quina, Manuel Agrela ou Adelino Cardoso não ficam bem na fotografia.

35) Reportagem (Luiz Teixeira, Paulo Guedes, 1931). Junta no mesmo livro reportagens do autor na Madeira e nos Açores. Excelente repórter, com facilidade para a descrição de ambientes e pessoas, Teixeira trabalharia ainda mais três décadas em jornais. No livro, advoga que as mulheres da ilha Terceira deveriam candidatar-se a Miss Mundo. E, se bem me lembro, exalta a capacidade dos madeirenses para a poupança: uma década depois da passagem dos aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho pelo arquipélago, continuavam a usar as bandeirinhas então distribuídas para saudar o grande feito da gesta lusitana...


36) Os Mortos Falam (Artur Portela, Inquérito, 1943). Reconheço nova batota: é um livro de memórias, mas em segunda mão. Artur Portela recupera aqui figuras do jornalismo e da política portuguesa do último quartel do século XIX e do primeiro do século XX, contando com a memória emprestada de sobreviventes desse tempo (o autor nasceu em 1901) e com acesso importante a acervos como o da Fundação Casa de Bragança. Apesar disso, é um livro notável. Foi aqui que descobri as sete vidas de Hermano Neves, jornalista que fez viagens de balão, calcorreou a frente de combate de 1916, imitou Phileas Fogg numa viagem falhada à volta do mundo, caiu doente em África e foi salvo por mezinhas locais. Ou que Emídio Navarro nunca perdoou a Eça uma representação sua (ou pelo menos que tomou como sua) n'Os Maias – o jornalista trôpego e de princípios pouco firmes.


37Hermano Neves, a Grande Reportagem (Norberto Lopes, Bertrand, 1985). Volume simples, de poucas páginas, mas muito eloquente sobre o grande repórter da Primeira República – Hermano Neves, pai de Mário Neves, futuro director-adjunto do Diário de Lisboa e de A Capital. Norberto Lopes faz as despesas do comentário, evocando a carreira do único repórter português que subiu em balão aos céus e desceu de submersível aos fundos marinhos. Afinal, como Norberto Lopes refere, «Hermano Neves foi um dos maiores jornalistas portugueses de todos os tempos». Já aqui contei uma das suas proezas menos conhecidas.


38) Memória de uma Mulher de Letras (Manuela de Azevedo, Afrontamento, 2009). Aos 99 anos, Manuela de Azevedo, a primeira jornalista portuguesa com carteira profissional, assinou estas memórias sobre a sua vida no jornalismo, no teatro, na poesia e no ensaio. Logo de chofre, a autora avisa que redige este documento «sem fichas ou arquivos», ao sabor da memória e sem acuidade visual, o que transforma a leitura num exercício complexo, à medida que a acção saltita de década para década. Há compreensíveis lapsos de memórias (Fernanda Reis, por exemplo, distinguiu-se na guerra da Correia e não do Vietname, pp. 123; Urbano Carrasco nunca chefiou a redacção do Diário Ilustrado (111)o cargo em causa foi desempenhado por Miguel Urbano). E são lançadas acusações muito duras sobre Carvalhão Duarte (56), Artur Portela (94), Félix Correia (83) ou Mário Neves (121). O teor das recordações sobre Augusto de Castro ou Almeida Santos terminariam provavelmente em processos judiciais, não fosse a autora uma provecta centenária. Em contrapartida, as evocações sobre o "furo" jornalístico com Ernest Hemingway [que não consigo situar no tempo] ou com o rei Humberto, de Itália [história completa aqui], são deliciosas e justificam a leitura.


39A Cambada (Vera Lagoa, Intervenção, 1978). Dos cinco livros redigidos por Vera Lagoa (pseudónimo jornalístico de Maria Armanda Falcão), este será o mais popular e o mais autobiográfico. Nas primeiras cinquenta páginas, a autora evoca a sua carreira jornalística, inaugurando a crítica mundana na inovadora coluna de "Bisbilhotices" do Diário Popular a partir de 1966, depois continuada no Diário de Lisboa com menos sucesso, e abraçando uma nova fase, após a revolução de Abril, à frente dos destinos de O Diabo, O Sol, O País e novamente O Diabo. São memórias cáusticas que valeram dezenas de processos à autora, mas isso não torna as acusações necessariamente falsas. Manuela de Azevedo (pg. 43), Francisco Sousa Tavares, «o Tareco» (pg. 45), Nuno Rocha, ou «Nunocha» (pg. 18 e 48) e Mário Castrim (pg. 47) são ali visados com virulência.

40Outro tempo, outra cidade (Mário Ventura, Editorial Notícias, 1977). Livro peculiar, amargo e muito focado na experiência política do jornalista Mário Ventura Henriques durante a breve interrupção democrática do Estado Novo no Outono de 1969. Ventura foi então candidato derrotado contra as listas do governo. De permeio, o autor recupera fragmentos da sua vivência nos jornais. Recupero duas passagens significativas da sua amargura face ao jornalismo praticado no seu tempo: «O pior momento do dia é aquele em que o jornal nos chega às mãos. Aguarda-se com impaciência e já se detesta aquilo que sabemos ir encontrar, um jornal igual ao de todos os dias, insípido e mentiroso, que se folheia em dois ou três minutos e cai para o lado com um gesto de enjoo e repugnância.» Noutra ocasião, Ventura recorda uma reportagem de quinze dias no seu amado Alentejo, liminarmente recusada pelo chefe de redacção, com a pergunta: «Olha lá, rapaz, julgas que eu tenho tempo para brincadeiras? Onde pensas tu que estás para me trazeres uma coisa destas?» O repórter abana os ombros, «de forma que ele perceba» e abala para a secretária, com um resmungo que bem poderia simbolizar toda a frustração de uma carreira passada entre balizas artificiais de repressão: «Afinal, para que perdi eu tempo e disposição a escrever esta merda? Nem sequer me interessava provar fosse o que fosse, a quem quer que fosse, e muito àquele pequeno bonzo…»
41Notas da Minha Vida e do Meu Tempo (Homem Cristo, Guimarães, 1937). Em sete volumes repletos de acusações e críticas, Homem Cristo, republicano dos primeiros anos do Directório, jornalista em O Século, Debates e O Povo de Aveiro, acerta contas com os companheiros de trincheira do final do século XIX. Elias Garcia, João Chagas, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga (mais protegido, apesar de tudo) são aqui visados com fartos pormenores. Magalhães Lima e Silva Graça, personalidades marcantes do primeiro quartel de O Século, também. Foi pela designação com que Homem Cristo brindou o seu capitão no exército que ouvi pela primeira vez a divertida expressão «grande irmão da irmandade do Copofone» para designar uma bebedeira crónica. Foi nestes volumes que tomei conhecimento desta história. Infelizmente, o jornalista termina as memórias com o regicídio de 1908, privando-nos de comentários sobre a Primeira República.


42) Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco (Nuno Costa Santos, Tinta da China, 2012). Não há muitos volumes assim em Portugal: é uma obra de homenagem a um grande jornalista, redigida postumamente (Assis faleceu em 1995) com um cuidado extremo de biógrafo prudente. Nuno Costa Santos ouviu dezenas de personalidades e joga com esses contributos, intercalando-os num texto sem excessiva orientação cronológica, estruturado em função dos diversos papéis que Fernando Assis Pacheco foi desempenhando na sua carreira. A recolha textual (de entrevistas, alguns recortes e depoimentos publicados) não foi tão exaustiva como o processamento de entrevistas – se pudesse arriscar, diria que o autor encontrou uma caixa de recortes compilada pelo repórter ou familiares e usou-a à medida das necessidades. Lê-se de um fôlego e cumpre a função mais importante: presta homenagem a um dos mais versáteis profissionais do jornalismo português das décadas de 1960, 1970 e 1980. 


43A Chacina de Bajadoz (Mário Neves, Cadernos O Jornal, 1985). É mais uma batota que aqui faço: esta obra, publicada em meados da década de 1980 (teria sido impossível antes de 1974), é a memória de uma reportagem e não de um repórter. É porventura o trabalho jornalístico mais famoso do século XX da autoria de um português. Em Agosto de 1936, Mário Neves, recém-formado em Direito, acompanhou entre Badajoz e Elvas um dos massacres da guerra civil espanhola, após a conquista por parte das tropas falangistas da cidade. Registou a sua observação numa série de reportagens publicadas no Diário de Lisboa e que não despertaram, inicialmente, desconfiança da Censura. Nas décadas seguintes, dentro e fora de portas, Neves foi vilipendiado e acusado de se ter baseado nas observações de terceiros. Só depois da abertura política dos dois regimes ibéricos foi confirmado, para lá de qualquer dúvida legítima, que o repórter fora objectivo e correcto. Só por isso merece figurar nesta lista. 


44Em volta da minha profissão (Alexandre Vieira, Edição de Autor, 1950). Nesta compilação, é o único livro oriundo de um sector fundamental na história do próprio jornal – a tipografia. Obra de culto para o estudo da génese do movimento operário e sindicalista em Portugal, estas memórias de Alexandre Vieira têm de ser lidas à luz do contexto em que puderam ser publicadas, num regime de censura. Vieira recorda velhas campanhas de luta por direitos sociais, como a célebre greve de 1904 que terminou com um dos primeiros lock-outs da história do trabalho em Portugal. Revisito um episódio: o actor Afonso Taveira, antigo tipógrafo e então responsável por uma companhia teatral que arrendava o Teatro da Trindade, solidarizou-se com o movimento e cedeu a sala aos compositores para as reuniões de protesto. Foi discriminado a partir de então pelas empresas jornalísticas, no outro lado da barricada, que se recusavam a publicar «anúncios e reclamos» das suas peças no Trindade. 

45Heróis Anónimos, Jornalismo de Agência, Volume I (Wilton Fonseca e Mário de Carvalho,  Perfil Criativo Edições, 2016). É a primeira entrada de uma obra de memória sobre as agências noticiosas em Portugal. Existem mais dois livros sobre o tema – os volumes de memórias de Luís Carlos Lupi, fundador da Lusitânia, e o volume de Wilton Fonseca sobre a história dessa agência –, mas este volume é, de longe, o mais completo sobre o tema. Passa em revista exaustivamente o processo de fundação da ANOP, criada a partir dos cacos da ANI e da Lusitânia, mas com uma orientação moderna e autónoma. As suas dificuldades de percurso e a posterior fundação da NP merecem particular atenção dos autores, como aliás já referenciei em recensão neste blogue.


46Reflexões e Paradoxos (Victor Falcão,  Gomes de Carvalho Editor, 1932). Nova batotice que aqui faz, pois, em reflexão, não constitui um volume formal de memórias. Colectânea de contos publicada pelo jornalista Victor Falcão, quando vivia e trabalhava na Bélgica, vale sobretudo pelas páginas finais nas quais o autor evoca duas décadas de prática como repórter, chefe de redacção e até director de um jornal. É um quadro desassombrado sobre a propensão do jornalismo para falhar a sua vocação. «Não venho publicar a minha causa, requerer a revisão do meu processo», diz. «Venho, como algumas personagens estudadas pelo genial Dostoievski, confessar-me, humilhar-me publicamente.»

Fica a lista, já com mais de quatro dezenas de obras. Completem-na se vos parecer que cometi injustiças.