Em 1995, tive um episódio como o que ontem aconteceu
ao Bruno Pires, do Diário de Notícias. Fonte bem colocada garantiu "pela
minha saúde" que um jogador não mudava de clube, eu escrevi e, no próprio
dia, vi-o entrar na sede do novo clube, agarrado à minha fonte. Por comodismo,
preguiça ou excessiva dependência das fontes, cometem-se erros destes. O Bruno
garantiu que o Nani "rejeitou o regresso" e viu-o chegar na própria
noite ao aeroporto de Lisboa. Acontece. Como sei que o dia de hoje vai ser
longo e que parecerá que a notícia foi lida por toda a população, aqui fica o
meu abraço (ainda não li o DN de hoje, mas imagino que o jornal tenha pedido
desculpa...)
terça-feira, agosto 19, 2014
quinta-feira, agosto 14, 2014
Rostos de uma equipa
Foi um trabalho de ourives, mas, modéstias à parte, julgo que este mapa
da Arrábida (lados A e B) vai ficar como documento relevante de descrição e
promoção da região.
É bem possível e legítimo que os leitores não tenham noção da quantidade
e qualidade de contributos envolvidos num projecto desta envergadura, mas é
obrigatório reconhecer que há aqui "dedo" de muita gente boa que
merece uma palavra de apreço pelas horas dedicadas a esta pequena loucura.
Da Anyforms
Design de Comunicação, que tem a extraordinária
faculdade de construir o mundo em 3D e de o tornar palpável para todos; do Luis
Quinta, que, 13 anos depois do primeiro
boneco, continua a trazer-nos fotografias incríveis; do Francisco Rasteiro, que
conhece os recantos mais improváveis da serra e, pior, enfia-se por eles
adentro; do Paulo
Rolão, que descreve o mundo como os
naturalistas do século XIX (até porque nasceu nesse século!).
Tivemos também um dream team de consultores científicos. O professor José
Carlos Kullberg partilhou horas da sua vida tentando ensinar-nos a geologia da
serra e sublinhando o carácter único de muitos geomonumentos; o professor
Carlos Tavares da Silva mantém o entusiasmo de sempre pelas descobertas arqueológicas
da região; os botânicos Dalila Espírito-Santo e Pedro Arsénio, que nos
obrigaram a olhar para o chão em vez de mirarmos sempre o céu; o biólogo Paulo
Catry; o João Afonso; a Bárbara Horta e Costa e o Emanuel Gonçalves; o Alexandre
Monteiro, especialista em arqueologia subaquática
e, mais importante e raro, um especialista que nunca se nega a partilhar o
saber.
Junte-se à equipa o Leitão Baptista e a Patrícia
Albuquerque Boléo Tomé. E a Helena
Abreu que manteve em harmonia toda esta
rapaziada.
A todos, o meu agradecimento!
domingo, agosto 10, 2014
O que viu José de Freitas da janela de um comboio chinês?
Num comboio que liga a cidade de Han-Keu a
Pequim, viajam dois passageiros invulgares. Nesta Primavera chinesa de 1964,
Mao ganha balanço para começar a Revolução Cultural, que terá lugar dois anos mais
tarde e deixará uma pegada sangrenta no legado do mentor da Longa Marcha.
O culto do líder já está presente em todas
as cerimónias públicas, mas não atingiu ainda a obsessão que marcará a China da
viragem de década. O regime foi finalmente reconhecido no Ocidente pela
desalinhada França de De Gaulle, mas os estrangeiros são raros por estas
paragens. Os vistos são cuidadosamente atribuídos e as visitas ao interior da
China rural são limitadas. Muitos chineses nunca viram um rosto europeu. Hoje,
porém, por circunstâncias acidentais, viajam dois passageiros especiais neste
lento comboio, que resmunga a 50 km/h, revelando uma paisagem monótona, arada,
amarelecida. «Tudo quanto a vista abarcava estava tratado, não havendo um
pedaço de terra que não fosse cultivado», escreveu mais tarde um dos
personagens da narrativa.
Os comboios chineses são um espelho
involuntário de uma nação em mutação. Pelos altifalantes, ecoam mensagens
polidas em mandarim, reflectindo os novos tempos: «A todos, boa-tarde e desejos
de boa viagem», recomenda a dado ponto uma voz feminina. «Seremos, durante algum
tempo, como uma família – e essa família terá de viver unida. Em cada
carruagem, se o considerarem necessário, poderá ser eleito um representante dos
interesses dos passageiros, que tratará directamente com o chefe do comboio (…)
Aconselhamos, para melhor vencer o tempo, passeios de ida e volta pelos
corredores de todas as carruagens do comboio. Isso só faz bem. Nas estações
onde o comboio demore mais de vinte minutos, todos podem sair e passear, não se
devendo esquecer a ginástica.»
Os dois passageiros não evitam o riso
perante a obstinação da mensagem. Mas efectivamente, à primeira paragem,
verificam, atónitos, como os seus companheiros de viagem abandonam as
carruagens e iniciam movimentos gímnicos descoordenados no cais. Com notório
exagero, o homem mais velho anota no seu caderno: «Lançou-se a propaganda da
ginástica nos mesmos moldes da propaganda do combate à mosca. E simplesmente o
povo obedeceu. (…) Creio que foi Mao que a aconselhou, (…) e Mao, com o seu
imenso prestígio, tudo consegue do povo chinês. Ele, como Confúcio…»
O português tem pouco mais de 50 anos.
Magro, decidido, quase calvo, está acompanhado por um oriental a quem vai
pedindo para traduzir as palavras em mandarim ou cantonês. Rabisca tudo
diligentemente no seu bloco de
notas. Chama-se José de Freitas, é enviado-especial do “Diário Popular” e está
na China há mais de uma semana. Ali permanecerá entre 6 e 22 de Abril.
| Fotografias de José de Freitas retiradas de "A China Vence o Passado" Arquivo do autor |
A inglesa é mais nova – terá menos de 30
anos, na estimativa de Freitas. Bonita, chama rapidamente a atenção de todos os
passageiros na estação de Han-Keu, onde entra a bordo. Está pintada e isso,
nesta China normalizada de Mao, onde homens e mulheres trajam roupa azul e de
formatos indistintos, é uma novidade. Geram-se cochichos: mulheres com o rosto
pintado estão agora reservadas ao teatro. A jovem (que Freitas não identifica)
trabalha para a embaixada britânica em Pequim e acompanhara industriais do seu
país numa visita a uma siderurgia. Tal como Freitas, não aprecia viagens de
avião, pelo que preferiu o regresso por via férrea, mesmo que este lento
comboio chinês demore cerca de 36 horas a ligar as duas cidades.
Em breve, porém, os dois europeus terão
uma história incrível para contar.
NOTA DE RODAPÉ
Há duas maneiras de contar esta história,
como aliás normalmente acontece com todas as outras histórias.
Moisés Fernandes, especialista reputado em
história das relações diplomáticas entre Portugal e a China na segunda metade
do século XX, descreveu-a singelamente em notas de rodapé de dois artigos
recentes (aqui e aqui). Entre 6 e 22 de Abril de 1964, o jornalista José de Freitas, do
“Diário Popular” (DP), viajou pela China e publicou «artigos laudatórios sobre
o regime chinês». É verdade: Freitas era um apaixonado pela China e tinha
notórias simpatias pelo socialismo chinês. Na divisão empírica de temas pelos
redactores do jornal, cabiam-lhe normalmente as notícias e colunas de opinião
sobre o Oriente. Conhecia Macau e já publicara em 1941 “A China Antiga e Moderna”
na Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça. Era o mais sinólogo
dos jornalistas portugueses da década de 1960.
Diz igualmente Moisés Fernandes que a
viagem de José de Freitas, tal como a de Mário Rosa (também do DP) anos antes,
integrou-se no esforço de «certas correntes do regime português [para tentar]
persuadir Salazar a estabelecer relações diplomáticas com a China». A premissa
parece igualmente válida, embora a viagem de Mário Rosa fosse muito mais politizada do que a de José de Freitas. De todo o modo, em Janeiro desse ano de 1964, o
ministro Franco Nogueira informara o “New York Times”, em confidência, que o
regime ponderava esse passo e havia certamente interesse em mostrar boa vontade ao regime de Mao. A rápida decisão de reutilização das crónicas
jornalísticas de Freitas (publicadas em Maio) em livro, publicado em Julho com
o título “A China Vence o Passado” [Edições Cosmos], suporta a tese da
aproximação de simpatias entre Lisboa e Pequim.
Todavia, estas informações básicas –
verdadeiras, sem dúvida, e irrelevantes no quadro das relações entre os dois
países – não esgotam as excepcionais reportagens que José de Freitas assinou no
país de Mao Tsé-Tung. E é essa narrativa que vale a pena recuperar na história
de episódios do jornalismo português que ensaio neste espaço. Para isso, é
fundamental voltar ao comboio que se arrasta pela planície de Hopei.
FILIAÇÕES, FOTOGRAFIAS E INTÉRPRETES
Iniciado em 1963, o pedido de visto para a visita
profissional de José de Freitas à China foi deferido um ano depois – para lá da
inércia e desinteresse chineses por estas visitas, pesou seguramente o facto de
os dois países não terem à data relações diplomáticas. De Pequim, chegaram
pedidos de dezenas de fotografias do repórter e foi enviado um questionário com
perguntas indiscretas como a filiação política (vigiado em Lisboa e em Pequim,
Freitas respondeu simplesmente “republicano”). Recomendaram-lhe que nada
fotografasse sem autorização, mas a proibição não foi levada a sério: «Nas
fábricas, nas comunas, nas ruas e nas praças, nunca ninguém me impediu de
fotografar quanto quis.»
Foi-lhe imposto um “acompanhante
jornalista”, Choi Hong Seong, que serviu de intérprete e guia. José de Freitas
não era ingénuo. Filho de uma das lendas do jornalismo republicano da primeira
metade do século, Amadeu de Freitas, tinha noção do controlo a que estaria
sujeito ao longo da reportagem. Em Cantão, por exemplo, o guia que colocaram à
sua disposição anotava diligentemente… todas as perguntas que José de Freitas
colocava aos interlocutores chineses. Mas, tanto quanto se apercebeu,
«mostraram-me quanto quis e me foi possível ver», descartando «uma gigantesca
combinação» que pudesse ter sido feita entre as várias dezenas de
interlocutores que lidaram com ele. «Não tenho quaisquer razões que me permitam
julgar que não eram sinceros.»
| Primeira página do "Diário Popular" de 7 de Maio de 1964 (a partir de arquivo da Biblioteca Nacional) |
Aos leitores, garantiu: «Visitei a China
como jornalista independente, alheio a quaisquer combinações, sem a
subordinação dos convites, exclusivamente com dinheiro do meu jornal.» Bem
documentadas, redigidas no tom pessoal e directo que fazia escola no “Diário
Popular”, as suas crónicas expressam as interrogações de José de Freitas sobre
o regime que o acolhia. Há passagens profundamente laudatórias do regime de
Mao, tal como ficaram registadas várias recriminações. «Durante a minha estada
na China», escreve a dado ponto, «deram-me sempre muito mais jantares do que
notícias».
A recriminação tinha razão de ser. Sem
dominar o mandarim, Freitas esteve sempre dependente das traduções de Choi.
«Dependia de Choi para comunicar com o mundo que me rodeava», reconheceu. E
José de Freitas preferia falar com o povo anónimo, espontâneo. Para isso, «não
há como o comboio para se ver alguma coisa de um país, principalmente para quem
viaja com a tarefa de o ver, de o compreender.» É por isso que o encontramos no
comboio de Hopei, procurando descodificar o país emergente.
UMA EXPLOSÃO
São cerca de quatro horas da tarde do dia
12 de Abril. O comboio marcha para Pao-Ting-Fu [mantêm-se neste texto a
toponímia tal como ela foi registada por José de Freitas]. Tentando recordar
todos os pormenores deste dia, o jornalista contou que não conseguia precisar
se o comboio já passara por Chekia-Tchuang, importante entroncamento
ferroviário entre as províncias de Xantung, no litoral, e Xan-Si, no Oeste.
Pela vidraça da janela do compartimento onde os dois europeus conversam, a
planície «estendia-se até perder de vista, sem a mínima elevação. O céu era
todo cinzento, uniformemente cinzento.» Num banco, o guia e intérprete de
Freitas dormita, num processo digestivo moroso, depois de ter comido laranjas e
um bolo de farinha branca, quase crua, com recheio de carne de porco. «Só em olhar
para o tal bolo se me revolviam as tripas.»
De súbito, a jovem inglesa chama a atenção
de Freitas para a paisagem. «Quase na linha do horizonte, não posso precisar a
quantos quilómetros de distância, formara-se uma nuvem mais cinzenta do que o
próprio céu cinzento, a destacar-se, com contornos nitidamente limitados,
claramente definidos. Tinha a vaga forma de um cogumelo.»
![]() |
| Nuvem em forma de cogumelo na Sardenha, em Julho de 2014 Arquivo do Daily Mail |
Desde 1963 que se comentava nos jornais
internacionais que seria uma questão de tempo até a China desenvolver
capacidade militar nuclear. O regime soviético apoiara largamente os esforços
de Mao para dotar o país de armamento nuclear, lançando uma nova preocupação
para o debate sobre a proliferação de armas nucleares. É, naturalmente, possível que a
visibilidade pública do tema tivesse poder sugestivo sobre os dois passageiros
do comboio de Hopei.
«Dentro da própria nuvem havia laivos
negros», continuou Freitas. «Depois do cogumelo grosseiro, era uma cunha, como
se fora um triângulo suspenso no céu, para mudar de tamanho e tomar o aspecto
de uma bola achatada. Parecia que dentro da nuvem – no seio da própria nuvem –
havia uma força inteligente que a domava e afastava ou aproximava de nós, a
movia no espaço para um lado, para outro, dando-lhe sempre formas variadas e
singulares.»
A rapariga inglesa verbalizou o que ambos
pensavam:
– Que será aquilo? Que coisa estranha!
«Nem ela nem eu quisemos pronunciar as
terríveis palavras que igualmente, estou certo, nos acudiram aos lábios. O
estranho fenómeno, o cogumelo, o trágico cogumelo, estava agora cada vez mais
negro, raiado de preto. Depois agitou-se num vaivém e desfez-se. O espectáculo
singular demorara pouco mais de cinco minutos.»
Freitas ainda alvitrou que fosse uma
tempestade, mas faltava-lhe convicção e ambos decidiram não partilhar a
história com os companheiros chineses de viagem. «Longe de mim afirmar que
assisti a uma explosão atómica nas longas planícies da província de Hopei. Mas
se não era uma experiência nuclear – que seria aquilo?» Freitas guardou segredo
do que viu até voltar a pisar a Macau, onde confidenciou o avistamento «a quem
considerei que o devia fazer e a um amigo íntimo. O meu instinto, e nada mais,
aconselhou-me a não fazer qualquer referência ao caso enquanto estivesse na
China.»
EPÍLOGO
José de Freitas nunca soube ao certo o que
vira da janela do seu comboio em Hopei. Hoje, sabemos que as nuvens em forma de
cogumelo não se formam apenas na sequência de explosões atómicas. Elas podem
ser também resultado de erupções vulcânicas (não foi listada nenhuma para
aquela região chinesa em 1964), de colisões de meteoros com a Terra (não se
encontra nenhuma com estas características nas bases de dados internacionais),
de explosões industriais, na sequência de grandes incêndios florestais ou… em
tempestades muito particulares. Há poucos dias, o “Daily Mail” publicou a
história de como um relâmpago e uma tempestade violenta geraram um fenómeno
deste tipo na Sardenha (aqui),
alarmando a população local com uma nuvem em forma de cogumelo.
As quinze crónicas sobre a viagem à China
foram redigidas já em Lisboa e o “Diário Popular” começou a publicá-las, sempre
com destaque de primeira página, a partir do dia 7 de Maio e até ao dia 26. Ao
anunciar a série, o jornal dirigido por Martinho Nobre de Melo garantia que teria
sido muito fácil comprar na imprensa estrangeira uma série de artigos sobre a
nova China, mas que devia aos leitores uma perspectiva portuguesa sobre o país
de Mao e assumia o compromisso de oferecer nas suas páginas reportagens de
qualidade.
Num típico sinal dos tempos, Freitas não
hierarquizou o avistamento de Hopei na sua série de impressões sobre a China.
Apesar de não manter no relato uma ordem cronológica face aos locais visitados,
optou por guardar Hopei para o 12.º artigo, publicado no dia 21 de Maio. O
título, pouco claro e atípico num jornal que se vangloriava do seu jeito para
“manchetes” simples e claras, informava: “UMA EXPLOSÃO ATÓMICA PARECIA O
ESPECTÁCULO A QUE ASSISTI NA IMENSA PLANÍCIE CHINESA DE HOPEI.” É provável que
o próprio José de Freitas hesitasse em qualificar o que avistara. A peça foi
aprovada sem cortes pela Censura, tanto na versão jornalística, como no
capítulo do livro.
![]() |
| Martinho Nobre de Melo, em caricatura do Sempre Fixe, 1932 (a partir de arquivo da Hemeroteca Digital) |
| Primeira página do "Diário Popular" de 21 de Maio de 1964 (a partir do arquivo da Biblioteca Nacional) |
Curiosamente, apesar de tudo apontar para
um fenómeno meteorológico, os olhares dos serviços de espionagem ocidentais
estavam de facto focados na China. Um memorando secreto da Special National
Intelligence Estimate, datado de 26 de Agosto de 1964, informa mesmo que a China
estava prestes a ganhar a corrida nuclear, tornando-se a quinta potência com
acesso à bomba. A suportá-lo, estavam as fotografias aéreas de dois sítios de
testes (relatório desclassificado aqui)
Meses depois, em Outubro, o mundo ficou de
facto a saber que a China realizara finalmente os primeiros ensaios nucleares.
Foi em Lop Nur, na distante Mongólia, que o regime de Mao testou, pela primeira
vez, a poderosa invenção de Oppenheimer. O “Diário Popular” optou por não
contextualizar nessa altura o avistamento de José de Freitas e só viria a
referir-se ao caso três anos depois, na edição do seu 35.º aniversário, em
Setembro de 1967. Num texto elogioso de Mário Ventura Henriques, José de
Freitas foi apresentado como o jornalista sagaz que tão habilmente escapou das
bombas em Gaza em 1956 (em episódio que espero contar aqui mais tarde) como
teve a sorte de estar no lugar certo em 1964, assistindo a experiências atómicas
chinesas!
Com o tempo, o potencial “furo”
jornalístico foi esquecido e nunca galgou as fronteiras portuguesas. Até hoje,
desconhece-se que fenómeno terão José de Freitas e a funcionária da embaixada
britânica em Pequim presenciado na planície de Hopei, a partir da janela de um
comboio. E esse mistério não explicado dá um sabor especial à saga de José de
Freitas no Império do Meio.
Ler também a Parte 2.
Ler também a Parte 2.
quarta-feira, julho 16, 2014
Adelino Cardoso (1934-2014), uma homenagem
![]() |
| "Diário Popular", 22/09/1967 (a partir de arquivo da Biblioteca Nacional) |
O jornalista Adelino Cardoso morreu
esta semana. Não há melhor homenagem a um jornalista recto, creio, do que
recordar uma das suas peças. Descrito frequentemente como literatura apressada,
o jornalismo consome textos como a locomotiva ingere carvão – processa-os;
publica-os; esquece-os porque a máquina infernal precisa constantemente de mais
alimentação e não guarda lembrança do carvão já queimado.
Durante a semana, Adelino Cardoso foi
recordado pela sua conduta irrepreensível no acompanhamento da actividade
parlamentar nas décadas de 1970 e 1980. Não duvido do que se escreveu. Mas há
um texto dele que me marcou mais. Foi escrito em Setembro de 1967 para o número
do 25.º aniversário do "Diário Popular".
Após oito anos de carreira noutros jornais, frustrado
pela prática que «o amodorrava à banca de jornais, onde pouco mais era possível
que amortalhar-me nas águas paradas do 'não vale a pena'», Adelino Cardoso
decidiu recomeçar do zero. Soube de um concurso para admissão de jornalistas do
Diário Popular e participou. «Há coisas que não se agradecem, mas se há alguma
coisa a que devo estar reconhecido é ao facto de o jornal ter aceite esse
pecúlio [uma experiência tarimbeira de oito anos sem encostos e sem referências
que não fossem as dos camaradas de ofício] como o único que de facto
interessava colocar na balança das minhas probabilidades», escreveu mais tarde.
Este texto intitula-se "Um
desafio a mim próprio" e é uma das mais pungentes homenagens ao jornalismo
da década de 1960 e às suas rotinas.
A fornalha do “Diário Popular” apagou-se
há muito. Adelino Cardoso foi um dos operários que melhor a alimentou. É essa a homenagem que lhe faço.
sexta-feira, julho 11, 2014
EMEPC, 2014
Escrevo este mês na “Espiral do Tempo” sobre a missão
de extensão da Plataforma Continental portuguesa.
«Nas salas de aula do Estado Novo, afixava-se um
cartaz peculiar. Sobre a superfície continental da Europa, sobrepunha-se a área
ocupada pelas províncias ultramarinas portuguesas, procurando sublinhar que,
juntas, a metrópole e as colónias representavam mais de dois milhões de
quilómetros quadrados e uma área equivalente a boa parte da Europa Ocidental. O
título garantia que, contra as evidências, «Portugal não é um país pequeno».»
Artigo completo (mediante registo gratuito) aqui.
terça-feira, julho 01, 2014
O ‘furo’ de Ferreira de Castro nas terras dos Sinn-Fein
CRÓNICA REMOVIDA. TEXTO INTEGRAL INCLUÍDO EM PAREM AS MÁQUINAS!, 2015, EDIÇÕES PARSIFAL.
sexta-feira, junho 20, 2014
Surf e mini-saias na paisagem urbana
Portugal, em 1967, apreciado pelo Diário
Popular. Nas boutiques, aparecem, como cogumelos, as novas mini-saias; na água,
uma nova modalidade emerge, o surf, protagonizada por pioneiros como Vasco
Pinto Basto.
quinta-feira, junho 19, 2014
Vândalos à vista. Redes sociais, o Coliseu de Roma e os parques naturais
Caminho no interior de um parque natural
através de um trilho velho, mas transitável. Ali perto, a poucas centenas de
metros, as primeiras habitações do concelho de Palmela certificam que o Parque
Natural da Arrábida é uma das áreas protegidas portuguesas com maior densidade
populacional humana. Este mesmo trilho é amplamente percorrido por ciclistas e
caminhantes durante os fins-de-semana, mesmo que poucos saibam que a poucos
passos dali se esconde um sítio arqueológico de importância nacional. Já me
habituei ao lixo espalhado pela paisagem, semeado a eito... Embalagens, vidros,
papel, dejectos... Tudo serve para deitar no balde do lixo da natureza.
Aproximo-me do sítio arqueológico que vim
conhecer. Olho em redor, à procura de referências. Alguns muretes sugerem uma
ruína, mas não existe informação visível. Procuro com mais afinco. Tenho bem
presente na memória o amplo debate sobre as verbas que o Instituto da
Conservação da Natureza e das Florestas dedicou à comunicação, através da
revitalização e afixação de painéis informativos e sinalética. O Ministério do
Ambiente agrega estas despesas em rubricas mais complexas, o que impossibilita
o conhecimento do valor concreto gasto, mas uma fonte do ICNF não tem dúvidas
em confirmar que, na última vaga, foi investido mais de um milhão de euros.
Não há nada de pé, mas isso não significa
que o dinheiro se tenha esfumado. Na verdade, os painéis existiram. Neste caso,
o painel foi metodicamente pontapeado para fora da sua estrutura de madeira.
Uma vez removido dos suportes, foi partido em pedaços e depois exposto no solo,
em jeito de puzzle. Ficou ali como despojo de uma guerra surda entre as áreas
protegidas e os seus visitantes.
Deparo com o mesmo cenário em Ourém.
Semanas antes, tinha-o visto também no Paul do Boquílobo, num ponto do parque
natural que considerara ingenuamente demasiado remoto para ser notado.
Intriga-me a redundância. A violência contra a sinalética. O vandalismo
gratuito, que tanto se expressa na destruição de painéis como na profanação de
vegetação ou lajes com graffiti e outro lixo.
No Verão passado, a mesma discussão
atravessou os Estados Unidos de lés a lés. O “New York Times”
(aqui) detectou rabiscos pintados nos frágeis
saguaros que deram nome ao famoso Parque Nacional do oeste americano; trilhos
pintados; inscrições em desfiladeiros; pinturas rupestres grosseiramente
manipuladas. No total, o Serviço Nacional de Parques estimava que 9.000 sítios
de interesse histórico ou natural tinham sido deliberadamente danificados desde
2009, incluindo o icónico Memorial a Lincoln em Washington.
Os vigilantes da natureza escutados pelo
jornal deram um contributo para a discussão, lembrando que, na era anterior à
Internet, sempre existiram actos deste género, mas eles circunscreviam-se à
geografia do local. Só eram visíveis quando o visitante seguinte chegasse ao
local. E são tão antigos como a espécie humana. Numa investigação divulgada
pela National Geographic em Dezembro do ano passado,
detectou-se que alguns rabiscos nas paredes do Coliseu de Roma tinham dois mil
anos. Tal como John e Vanda professam hoje o seu amor gravando ali um coração,
também Iulius Maximus lá quis deixar uma inscrição no século I d.C.
Hoje, porém, com a proliferação das redes
sociais, o vandalismo ganha asas... geográficas. Um rabisco num saguaro remoto
torna-se a pena no chapéu dos vândalos de trazer por casa, que afixam a proeza
e recebem gratificação imediata. Poderá ser esse o factor que despoleta a
explosão destas manifestações?
| Lapa de Santa Margarida. Fotografia de Paulo Rolão. |
Não existem dados suficientes para ligar
os dois fenómenos e manifestações tão amplas não costumam ter causas tão
redutoras. Num livro recente (“The Destruction of Art: Iconoclasm and Vandalism
Since the French Revolution”, 2013) Dario Gamboni lista dezenas de incidentes
gratuitos de destruição de expressões artísticas, desde o homem que destruiu a
martelo o famoso vaso Portland (já lembrado aqui), ao doente que atirou ácido contra o quadro de
Rembrandt ou ao turista que destruiu um dedo da estátua do David de Miguel
Ângelo em 1991. O historiador argumenta que a maior parte dos incidentes foi, à
época, construído como um acto lunático e demente, mas serviu diferentes
causas, desde o protesto contra determinada corrente artística à expressão de
raiva em público para chamar atenção para outras causas. E afinal a inscrição
de Iulius Maximus foi seguramente entendida no século I como um acto de
profanação e hoje constitui uma curiosidade histórica.
Gostava de ter respostas mais categóricas
para os “meus” painéis tombados. Tenho sérias dúvidas de que eles não sejam
muito diferentes dos rabiscos nos saguaros frágeis. Ou nas carruagens de metro
das cidades. Ou nas paredes do velho Coliseu. São manifestações de vaidade e
egoísmo, tiques de agentes sociais que precisam desesperadamente de sublinhar o
seu carácter especial face ao resto da multidão. De alguma forma, marcam uma
época – a nossa. Mas não com o cunho pretendido pelos seus autores.
terça-feira, junho 10, 2014
A edição ingrata e o talento do António
Por vezes, baralhamos mil vezes a galeria de fotografias disponíveis na
esperança de que, à décima passagem, algo tenha escapado – a imagem improvável
que vai salvar a reportagem, vai manter a reputação da revista, vai atrair o
leitor para as nossas páginas e motivá-lo a recordar-se da reportagem para sempre. No
processo, amaldiçoamos silenciosamente os homens do campo, os fulanos que saem
para a rua de máquina na mão para congelar o tema da reportagem num instantâneo
revelador. “Porque não deu um passo mais para a frente?”; “Porque não recuou?”;
“Porque não tentou outra posição, outra lente, outra iluminação?”. No conforto
da redacção, longe dos imponderáveis do campo, todas as fotografias mágicas
parecem possíveis.
Pontualmente, porém, sucede o contrário. À primeira passagem da galeria
de imagens, emergem possibilidades fantásticas de ilustração. Uma, duas, três
fotografias captam tudo o que queríamos contar. Dispensam legendas e
explicações. São metonímias perfeitas da história que decidimos relatar no
momento já distante em que a ideia original brotou. Lembro-me sempre nestes
momentos do que escreveu a controversa escritora Anaïs Nin que, para mal dos
seus pecados, herdou um nome próprio infeliz e uma tendência incontrolável para
redigir diários íntimos. «Tudo nasce do excesso. A grande arte nasceu do grande
terror, das grandes inibições, das grandes instabilidades – forma com eles o
equilíbrio indispensável.» [cito de memória]· É, pois, de excesso, de
abundância que falamos agora.
Há alguns meses, o António Luís Campos propôs-nos uma história
formidável. Graças à extraordinária cooperação de António Candeias, do
Laboratório de Conservação e Restauro José de Figueiredo, e dos conservadores-restauradores Miguel Mateus e
Teresa Reis,
tínhamos acesso ao trabalho de investigação desta equipa em torno das
representações pintadas de Afonso de Albuquerque, segundo vice-rei português na
Índia. Não quero estragar a leitura a ninguém [disponível aqui, já agora], mas
a obra foi socialmente construída e reconstruída sucessivamente desde o século
XVI, ao sabor da ideologia de cada época e dos preconceitos dos seus agentes.
No léxico de um editor, a história tinha todos os ingredientes: uma figura
histórica, um mistério, ciência de ponta, espiões, uma invasão e um quadro que
ora tinha barbas brancas, ora as perdia por soberba de um político.
Como sempre acontece nesta casa, debatemos intensamente as possibilidades
visuais. As reportagens de laboratório são terríveis. No ambiente descontaminado
das pipetas e bicos de bunsen, das paredes brancas e microscópios, todas as
fotografias parecem iguais. Com a malícia que lhe é característica, o António
assegurou que traria fotografias diferentes. E, na verdade, mostrou-se fiel à
palavra dada.
Voltamos aos excessos da Anaïs Nin. Logo à primeira passagem da galeria
de imagens disponíveis, saltaram à vista estas duas extraordinárias
representações de tudo o que queríamos dizer. Em duas composições, o António
mostrava o quadro que chegara a Lisboa em 1953 já repintado por Gomes da Costa
na Índia com amplas liberdades criativas, o quadro que a equipa de João Couto
descobrira com exames radiológicos no MNAA e indícios da pintura original que
lhes estava subjacente.
Tivemos de optar – espero que bem. Ficou na maqueta a imagem enigmática
com todas as representações conhecidas penduradas numa parede de luz, enquanto
Miguel Mateus anotava diligentemente os contratempos sofridos pela obra; ficou
pelo caminho a imagem tecnológica, captada com um iPad, expressando igualmente
as diferentes fases do desenho de Afonso de Albuquerque (que até pode não ser o
próprio, pois essa averiguação deverá agora ter lugar na Galeria dos Vice-Reis em
Goa).
Por sobreposição de compromissos, não vou poder participar na palestra do
António Luís Campos no Porto, no próximo dia 12, na Reitoria da Universidade.
Celebram-se ali dez anos (quase 11) de colaboração do António com a edição
portuguesa da National Geographic, o que vale por dizer que são dez anos de
dilemas como este. De escolhas entre o bom e o óptimo. De materiais estupendos
por vezes excluídos somente para evitar redundâncias no nosso processo de story-telling.
Tem-se falado muito em selecções nacionais durante estes dias de
antecipação do Mundial. O António estará seguramente na minha selecção nacional
dos melhores.
Era isto que eu diria na 5.ª feira, na Reitoria da Universidade do Porto, se tivesse oportunidade.
Era isto que eu diria na 5.ª feira, na Reitoria da Universidade do Porto, se tivesse oportunidade.
quarta-feira, maio 28, 2014
A canibalização da língua
Quis o destino que eu tivesse participado em
reuniões recentes com gestores e universitários. Para lá dos temas em cima da
mesa, fico aterrorizado com a progressão galopante do... Portuglês, mistura
improvisada e desnecessária de vocabulário anglófono para expressar conceitos
que, sem esforço, poderiam ter sido enunciados na língua de Camões. Pior: dou
por mim a repetir os mesmos tiques, mimetizando o comportamento dos anfitriões
numa submissão à pressão do grupo que Jane Goodall já notara nas comunidades de
chimpanzés.
Exemplo típico de uma reunião moderna:
- Fez o benchmarking da concorrência?
- Sabe, muitos fizeram um upgrade recente de competências. Outros
ainda estão em assessment.
- Que research methods utiliza normalmente?
- Gosto muito do world caffe. Permite grande
interactividade.
- Nunca faz role play?
- Tento, mas as samples que assistem aos workshops
nem sempre são fiáveis.
- Que materiais de support existem nas salas?
- Há datashows, claro. Temos wireless
para todo o átrio. E pointers para os
oradores. Há muita coisa em cache.
- Hum... E está previsto coffee-break?
- Nestes work groups, prefiro pausa mais informais, uma espécie de brunch.
- A publicidade do evento será online ou também utilizará outdoors?
- Vamos carregar nos MREC, claro. Banners também. Tudo depende do target.
Até porque o Average Time Spent na net está em quebra.
- O site deles tem quantos OTS?
- O reach depende muito porque os tipos aldrabam os ATV.
- Usamos CPC, CPM ou CPO como standard?
- Se quer que lhe diga, nenhum é
fiável. Até prefiro os CPL.
- Embedded ou skycraper?
- Um mix funciona sempre bem.
- Devíamos criar avatars falsos para furar as firewalls deles.
- Talvez, mas temos
responsabilidades éticas no campo do B2B
e mesmo do B2C.
- Acha? A minha preocupação é com o backbone desta empresa.
E pronto! Cá vou, cantando e rindo,
integrado na corrente Portuglesa. E soltando gargalhadas sempre que me
lembro disto.
Bom... Tenho content para produzir. Cheers!
segunda-feira, maio 26, 2014
A Fonte das 40 Bicas
1768.
Lisboa ainda vive
atormentada com as repercussões do sismo de treze anos antes e a corte de Dom
José mantém-se na Ajuda, onde pouco ruiu, cimentando a confiança régia na
geologia do seu novo bairro.
O rei recrutou o naturalista
italiano Domingos Vandelli para o seu empreendimento mais recente: a construção
de um espaço de lazer para os príncipes e netos. Vandelli trouxe de
Pádua o modelo de um jardim botânico moderno e preocupou-se em criar uma
colecção vasta de espécies vegetais – nos tempos áureos, o Real Jardim Botânico
da Ajuda chegou a ter cinco mil espécies, oriundas de todos os cantos do globo.
As décadas subsequentes ao
sismo de 1755 foram, porém, aventurosas e os braços de Vandelli, naturalista
formado em medicina que se correspondia com Lineu, não chegavam para todos os
fogos. Quatro anos depois da incumbência de criar um jardim botânico na Ajuda,
em 1772, Vandelli foi chamado a Coimbra como lente de História Natural e
Química na Universidade. Ali também criou as bases do jardim botânico da Universidade
de Coimbra e idealizou as viagens filosóficas à Amazónia, conduzidas por alguns
dos seus alunos.
Na Ajuda, portanto, o
projecto ficou na mão de um auxiliar, o chefe dos jardineiros Júlio Mattiazi. Igualmente originário de
Pádua, Mattiazi tratou do jardim e… da pedra. Idealizou as fontes que orientam
a visita e estruturam a paisagem da Ajuda, tanto ou mais do que as sebes. A
mais famosa, a Fonte das 40 Bicas, reúne animais míticos e fauna aquática, num
espantoso conjunto de serpentes, peixes alados, cavalos-marinhos e outras
feras. Segundo garante a tradição do bairro, a fonte terá sido construída
exclusivamente com mão-de-obra da Ajuda.
De acordo com a directora do Jardim
Botânico, a professora Dalila Espírito Santo, a documentação sobrevivente na
Ajuda [grande parte foi para Coimbra; alguma seguiu para a Faculdade de
Ciências na Rua da Escola Politécnica; e algum espólio viajou com a comitiva
real para o Brasil em 1808 e ficou pelo Rio de Janeiro] comprova que Vandelli
não ficou maravilhado quando viu as fontes de Mattiazi. Afinal, um jardim
botânico é um espaço no qual a vegetação deve reger a paisagem, recusando a
submissão à construção de pedra.
Hoje, porém, a caminho dos
250 anos do Jardim Botânico da Ajuda (em 2018), após testemunhar revoluções e
mudanças de regime, cuidados desvelados e descuidos sem perdão, são as fontes
que permanecem imutáveis desde 1768. O ciclo de vida das plantas, naturalmente,
foi fazendo a sua selecção, as pilhagens napoleónicas destruíram muito, o clima
distinguiu as espécies mais adaptáveis e a crónica falta de financiamento
também deixou mossas.
Do Jardim Botânico original,
ficaram os peixes alados de Mattiazi, que Vandelli desaprovou, mas o tempo
validou.
Ler também: Almaça, Carlos. A Natural History Museum of the 18th Century, 1996, Museu Bocage, Lisboa.
Ler também: Almaça, Carlos. A Natural History Museum of the 18th Century, 1996, Museu Bocage, Lisboa.
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