domingo, agosto 10, 2014

O que viu José de Freitas da janela de um comboio chinês?


Num comboio que liga a cidade de Han-Keu a Pequim, viajam dois passageiros invulgares. Nesta Primavera chinesa de 1964, Mao ganha balanço para começar a Revolução Cultural, que terá lugar dois anos mais tarde e deixará uma pegada sangrenta no legado do mentor da Longa Marcha.
O culto do líder já está presente em todas as cerimónias públicas, mas não atingiu ainda a obsessão que marcará a China da viragem de década. O regime foi finalmente reconhecido no Ocidente pela desalinhada França de De Gaulle, mas os estrangeiros são raros por estas paragens. Os vistos são cuidadosamente atribuídos e as visitas ao interior da China rural são limitadas. Muitos chineses nunca viram um rosto europeu. Hoje, porém, por circunstâncias acidentais, viajam dois passageiros especiais neste lento comboio, que resmunga a 50 km/h, revelando uma paisagem monótona, arada, amarelecida. «Tudo quanto a vista abarcava estava tratado, não havendo um pedaço de terra que não fosse cultivado», escreveu mais tarde um dos personagens da narrativa.
Os comboios chineses são um espelho involuntário de uma nação em mutação. Pelos altifalantes, ecoam mensagens polidas em mandarim, reflectindo os novos tempos: «A todos, boa-tarde e desejos de boa viagem», recomenda a dado ponto uma voz feminina. «Seremos, durante algum tempo, como uma família – e essa família terá de viver unida. Em cada carruagem, se o considerarem necessário, poderá ser eleito um representante dos interesses dos passageiros, que tratará directamente com o chefe do comboio (…) Aconselhamos, para melhor vencer o tempo, passeios de ida e volta pelos corredores de todas as carruagens do comboio. Isso só faz bem. Nas estações onde o comboio demore mais de vinte minutos, todos podem sair e passear, não se devendo esquecer a ginástica.»
Os dois passageiros não evitam o riso perante a obstinação da mensagem. Mas efectivamente, à primeira paragem, verificam, atónitos, como os seus companheiros de viagem abandonam as carruagens e iniciam movimentos gímnicos descoordenados no cais. Com notório exagero, o homem mais velho anota no seu caderno: «Lançou-se a propaganda da ginástica nos mesmos moldes da propaganda do combate à mosca. E simplesmente o povo obedeceu. (…) Creio que foi Mao que a aconselhou, (…) e Mao, com o seu imenso prestígio, tudo consegue do povo chinês. Ele, como Confúcio…»
O português tem pouco mais de 50 anos. Magro, decidido, quase calvo, está acompanhado por um oriental a quem vai pedindo para traduzir as palavras em mandarim ou cantonês. Rabisca tudo diligentemente  no seu bloco de notas. Chama-se José de Freitas, é enviado-especial do “Diário Popular” e está na China há mais de uma semana. Ali permanecerá entre 6 e 22 de Abril.
Fotografias de José de Freitas retiradas de "A China Vence o Passado"
Arquivo do autor
A inglesa é mais nova – terá menos de 30 anos, na estimativa de Freitas. Bonita, chama rapidamente a atenção de todos os passageiros na estação de Han-Keu, onde entra a bordo. Está pintada e isso, nesta China normalizada de Mao, onde homens e mulheres trajam roupa azul e de formatos indistintos, é uma novidade. Geram-se cochichos: mulheres com o rosto pintado estão agora reservadas ao teatro. A jovem (que Freitas não identifica) trabalha para a embaixada britânica em Pequim e acompanhara industriais do seu país numa visita a uma siderurgia. Tal como Freitas, não aprecia viagens de avião, pelo que preferiu o regresso por via férrea, mesmo que este lento comboio chinês demore cerca de 36 horas a ligar as duas cidades.
Em breve, porém, os dois europeus terão uma história incrível para contar.

NOTA DE RODAPÉ
Há duas maneiras de contar esta história, como aliás normalmente acontece com todas as outras histórias.
Moisés Fernandes, especialista reputado em história das relações diplomáticas entre Portugal e a China na segunda metade do século XX, descreveu-a singelamente em notas de rodapé de dois artigos recentes (aqui e aqui). Entre 6 e 22 de Abril de 1964, o jornalista José de Freitas, do “Diário Popular” (DP), viajou pela China e publicou «artigos laudatórios sobre o regime chinês». É verdade: Freitas era um apaixonado pela China e tinha notórias simpatias pelo socialismo chinês. Na divisão empírica de temas pelos redactores do jornal, cabiam-lhe normalmente as notícias e colunas de opinião sobre o Oriente. Conhecia Macau e já publicara em 1941 “A China Antiga e Moderna” na Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça. Era o mais sinólogo dos jornalistas portugueses da década de 1960.
Diz igualmente Moisés Fernandes que a viagem de José de Freitas, tal como a de Mário Rosa (também do DP) anos antes, integrou-se no esforço de «certas correntes do regime português [para tentar] persuadir Salazar a estabelecer relações diplomáticas com a China». A premissa parece igualmente válida, embora a viagem de Mário Rosa fosse muito mais politizada do que a de José de Freitas. De todo o modo, em Janeiro desse ano de 1964, o ministro Franco Nogueira informara o “New York Times”, em confidência, que o regime ponderava esse passo e havia certamente interesse em mostrar boa vontade ao regime de Mao. A rápida decisão de reutilização das crónicas jornalísticas de Freitas (publicadas em Maio) em livro, publicado em Julho com o título “A China Vence o Passado” [Edições Cosmos], suporta a tese da aproximação de simpatias entre Lisboa e Pequim.
Todavia, estas informações básicas – verdadeiras, sem dúvida, e irrelevantes no quadro das relações entre os dois países – não esgotam as excepcionais reportagens que José de Freitas assinou no país de Mao Tsé-Tung. E é essa narrativa que vale a pena recuperar na história de episódios do jornalismo português que ensaio neste espaço. Para isso, é fundamental voltar ao comboio que se arrasta pela planície de Hopei.

FILIAÇÕES, FOTOGRAFIAS E INTÉRPRETES
Iniciado em 1963, o  pedido de visto para a visita profissional de José de Freitas à China foi deferido um ano depois – para lá da inércia e desinteresse chineses por estas visitas, pesou seguramente o facto de os dois países não terem à data relações diplomáticas. De Pequim, chegaram pedidos de dezenas de fotografias do repórter e foi enviado um questionário com perguntas indiscretas como a filiação política (vigiado em Lisboa e em Pequim, Freitas respondeu simplesmente “republicano”). Recomendaram-lhe que nada fotografasse sem autorização, mas a proibição não foi levada a sério: «Nas fábricas, nas comunas, nas ruas e nas praças, nunca ninguém me impediu de fotografar quanto quis.»
Foi-lhe imposto um “acompanhante jornalista”, Choi Hong Seong, que serviu de intérprete e guia. José de Freitas não era ingénuo. Filho de uma das lendas do jornalismo republicano da primeira metade do século, Amadeu de Freitas, tinha noção do controlo a que estaria sujeito ao longo da reportagem. Em Cantão, por exemplo, o guia que colocaram à sua disposição anotava diligentemente… todas as perguntas que José de Freitas colocava aos interlocutores chineses. Mas, tanto quanto se apercebeu, «mostraram-me quanto quis e me foi possível ver», descartando «uma gigantesca combinação» que pudesse ter sido feita entre as várias dezenas de interlocutores que lidaram com ele. «Não tenho quaisquer razões que me permitam julgar que não eram sinceros.»
Primeira página do "Diário Popular" de 7 de Maio de 1964
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
Aos leitores, garantiu: «Visitei a China como jornalista independente, alheio a quaisquer combinações, sem a subordinação dos convites, exclusivamente com dinheiro do meu jornal.» Bem documentadas, redigidas no tom pessoal e directo que fazia escola no “Diário Popular”, as suas crónicas expressam as interrogações de José de Freitas sobre o regime que o acolhia. Há passagens profundamente laudatórias do regime de Mao, tal como ficaram registadas várias recriminações. «Durante a minha estada na China», escreve a dado ponto, «deram-me sempre muito mais jantares do que notícias».
A recriminação tinha razão de ser. Sem dominar o mandarim, Freitas esteve sempre dependente das traduções de Choi. «Dependia de Choi para comunicar com o mundo que me rodeava», reconheceu. E José de Freitas preferia falar com o povo anónimo, espontâneo. Para isso, «não há como o comboio para se ver alguma coisa de um país, principalmente para quem viaja com a tarefa de o ver, de o compreender.» É por isso que o encontramos no comboio de Hopei, procurando descodificar o país emergente.

UMA EXPLOSÃO
São cerca de quatro horas da tarde do dia 12 de Abril. O comboio marcha para Pao-Ting-Fu [mantêm-se neste texto a toponímia tal como ela foi registada por José de Freitas]. Tentando recordar todos os pormenores deste dia, o jornalista contou que não conseguia precisar se o comboio já passara por Chekia-Tchuang, importante entroncamento ferroviário entre as províncias de Xantung, no litoral, e Xan-Si, no Oeste. Pela vidraça da janela do compartimento onde os dois europeus conversam, a planície «estendia-se até perder de vista, sem a mínima elevação. O céu era todo cinzento, uniformemente cinzento.» Num banco, o guia e intérprete de Freitas dormita, num processo digestivo moroso, depois de ter comido laranjas e um bolo de farinha branca, quase crua, com recheio de carne de porco. «Só em olhar para o tal bolo se me revolviam as tripas.»
De súbito, a jovem inglesa chama a atenção de Freitas para a paisagem. «Quase na linha do horizonte, não posso precisar a quantos quilómetros de distância, formara-se uma nuvem mais cinzenta do que o próprio céu cinzento, a destacar-se, com contornos nitidamente limitados, claramente definidos. Tinha a vaga forma de um cogumelo.»
Nuvem em forma de cogumelo na Sardenha, em Julho de 2014
Arquivo do Daily Mail
Desde 1963 que se comentava nos jornais internacionais que seria uma questão de tempo até a China desenvolver capacidade militar nuclear. O regime soviético apoiara largamente os esforços de Mao para dotar o país de armamento nuclear, lançando uma nova preocupação para o debate sobre a proliferação de armas nucleares. É, naturalmente, possível que a visibilidade pública do tema tivesse poder sugestivo sobre os dois passageiros do comboio de Hopei.
«Dentro da própria nuvem havia laivos negros», continuou Freitas. «Depois do cogumelo grosseiro, era uma cunha, como se fora um triângulo suspenso no céu, para mudar de tamanho e tomar o aspecto de uma bola achatada. Parecia que dentro da nuvem – no seio da própria nuvem – havia uma força inteligente que a domava e afastava ou aproximava de nós, a movia no espaço para um lado, para outro, dando-lhe sempre formas variadas e singulares.»
A rapariga inglesa verbalizou o que ambos pensavam:
– Que será aquilo? Que coisa estranha!
«Nem ela nem eu quisemos pronunciar as terríveis palavras que igualmente, estou certo, nos acudiram aos lábios. O estranho fenómeno, o cogumelo, o trágico cogumelo, estava agora cada vez mais negro, raiado de preto. Depois agitou-se num vaivém e desfez-se. O espectáculo singular demorara pouco mais de cinco minutos.»
Freitas ainda alvitrou que fosse uma tempestade, mas faltava-lhe convicção e ambos decidiram não partilhar a história com os companheiros chineses de viagem. «Longe de mim afirmar que assisti a uma explosão atómica nas longas planícies da província de Hopei. Mas se não era uma experiência nuclear – que seria aquilo?» Freitas guardou segredo do que viu até voltar a pisar a Macau, onde confidenciou o avistamento «a quem considerei que o devia fazer e a um amigo íntimo. O meu instinto, e nada mais, aconselhou-me a não fazer qualquer referência ao caso enquanto estivesse na China.»

EPÍLOGO
José de Freitas nunca soube ao certo o que vira da janela do seu comboio em Hopei. Hoje, sabemos que as nuvens em forma de cogumelo não se formam apenas na sequência de explosões atómicas. Elas podem ser também resultado de erupções vulcânicas (não foi listada nenhuma para aquela região chinesa em 1964), de colisões de meteoros com a Terra (não se encontra nenhuma com estas características nas bases de dados internacionais), de explosões industriais, na sequência de grandes incêndios florestais ou… em tempestades muito particulares. Há poucos dias, o “Daily Mail” publicou a história de como um relâmpago e uma tempestade violenta geraram um fenómeno deste tipo na Sardenha (aqui), alarmando a população local com uma nuvem em forma de cogumelo.
As quinze crónicas sobre a viagem à China foram redigidas já em Lisboa e o “Diário Popular” começou a publicá-las, sempre com destaque de primeira página, a partir do dia 7 de Maio e até ao dia 26. Ao anunciar a série, o jornal dirigido por Martinho Nobre de Melo garantia que teria sido muito fácil comprar na imprensa estrangeira uma série de artigos sobre a nova China, mas que devia aos leitores uma perspectiva portuguesa sobre o país de Mao e assumia o compromisso de oferecer nas suas páginas reportagens de qualidade.
Martinho Nobre de Melo, em caricatura do Sempre Fixe, 1932
(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)
Num típico sinal dos tempos, Freitas não hierarquizou o avistamento de Hopei na sua série de impressões sobre a China. Apesar de não manter no relato uma ordem cronológica face aos locais visitados, optou por guardar Hopei para o 12.º artigo, publicado no dia 21 de Maio. O título, pouco claro e atípico num jornal que se vangloriava do seu jeito para “manchetes” simples e claras, informava: “UMA EXPLOSÃO ATÓMICA PARECIA O ESPECTÁCULO A QUE ASSISTI NA IMENSA PLANÍCIE CHINESA DE HOPEI.” É provável que o próprio José de Freitas hesitasse em qualificar o que avistara. A peça foi aprovada sem cortes pela Censura, tanto na versão jornalística, como no capítulo do livro.
Primeira página do "Diário Popular" de 21 de Maio de 1964
(a partir do arquivo da Biblioteca Nacional)
Curiosamente, apesar de tudo apontar para um fenómeno meteorológico, os olhares dos serviços de espionagem ocidentais estavam de facto focados na China. Um memorando secreto da Special National Intelligence Estimate, datado de 26 de Agosto de 1964, informa mesmo que a China estava prestes a ganhar a corrida nuclear, tornando-se a quinta potência com acesso à bomba. A suportá-lo, estavam as fotografias aéreas de dois sítios de testes (relatório desclassificado aqui)
Meses depois, em Outubro, o mundo ficou de facto a saber que a China realizara finalmente os primeiros ensaios nucleares. Foi em Lop Nur, na distante Mongólia, que o regime de Mao testou, pela primeira vez, a poderosa invenção de Oppenheimer. O “Diário Popular” optou por não contextualizar nessa altura o avistamento de José de Freitas e só viria a referir-se ao caso três anos depois, na edição do seu 35.º aniversário, em Setembro de 1967. Num texto elogioso de Mário Ventura Henriques, José de Freitas foi apresentado como o jornalista sagaz que tão habilmente escapou das bombas em Gaza em 1956 (em episódio que espero contar aqui mais tarde) como teve a sorte de estar no lugar certo em 1964, assistindo a experiências atómicas chinesas!
Com o tempo, o potencial “furo” jornalístico foi esquecido e nunca galgou as fronteiras portuguesas. Até hoje, desconhece-se que fenómeno terão José de Freitas e a funcionária da embaixada britânica em Pequim presenciado na planície de Hopei, a partir da janela de um comboio. E esse mistério não explicado dá um sabor especial à saga de José de Freitas no Império do Meio.
Ler também a Parte 2.

quarta-feira, julho 16, 2014

Adelino Cardoso (1934-2014), uma homenagem

"Diário Popular", 22/09/1967
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
O jornalista Adelino Cardoso morreu esta semana. Não há melhor homenagem a um jornalista recto, creio, do que recordar uma das suas peças. Descrito frequentemente como literatura apressada, o jornalismo consome textos como a locomotiva ingere carvão – processa-os; publica-os; esquece-os porque a máquina infernal precisa constantemente de mais alimentação e não guarda lembrança do carvão já queimado.
Durante a semana, Adelino Cardoso foi recordado pela sua conduta irrepreensível no acompanhamento da actividade parlamentar nas décadas de 1970 e 1980. Não duvido do que se escreveu. Mas há um texto dele que me marcou mais. Foi escrito em Setembro de 1967 para o número do 25.º aniversário do "Diário Popular".
Após oito anos de carreira noutros jornais, frustrado pela prática que «o amodorrava à banca de jornais, onde pouco mais era possível que amortalhar-me nas águas paradas do 'não vale a pena'», Adelino Cardoso decidiu recomeçar do zero. Soube de um concurso para admissão de jornalistas do Diário Popular e participou. «Há coisas que não se agradecem, mas se há alguma coisa a que devo estar reconhecido é ao facto de o jornal ter aceite esse pecúlio [uma experiência tarimbeira de oito anos sem encostos e sem referências que não fossem as dos camaradas de ofício] como o único que de facto interessava colocar na balança das minhas probabilidades», escreveu mais tarde.
Este texto intitula-se "Um desafio a mim próprio" e é uma das mais pungentes homenagens ao jornalismo da década de 1960 e às suas rotinas. 
A fornalha do “Diário Popular” apagou-se há muito. Adelino Cardoso foi um dos operários que melhor a alimentou. É essa a homenagem que lhe faço.

sexta-feira, julho 11, 2014

EMEPC, 2014




Escrevo este mês na “Espiral do Tempo” sobre a missão de extensão da Plataforma Continental portuguesa.
 «Nas salas de aula do Estado Novo, afixava-se um cartaz peculiar. Sobre a superfície continental da Europa, sobrepunha-se a área ocupada pelas províncias ultramarinas portuguesas, procurando sublinhar que, juntas, a metrópole e as colónias representavam mais de dois milhões de quilómetros quadrados e uma área equivalente a boa parte da Europa Ocidental. O título garantia que, contra as evidências, «Portugal não é um país pequeno».»
Artigo completo (mediante registo gratuito) aqui.

sexta-feira, junho 20, 2014

Surf e mini-saias na paisagem urbana



Portugal, em 1967, apreciado pelo Diário Popular. Nas boutiques, aparecem, como cogumelos, as novas mini-saias; na água, uma nova modalidade emerge, o surf, protagonizada por pioneiros como Vasco Pinto Basto.

quinta-feira, junho 19, 2014

Vândalos à vista. Redes sociais, o Coliseu de Roma e os parques naturais


 Caminho no interior de um parque natural através de um trilho velho, mas transitável. Ali perto, a poucas centenas de metros, as primeiras habitações do concelho de Palmela certificam que o Parque Natural da Arrábida é uma das áreas protegidas portuguesas com maior densidade populacional humana. Este mesmo trilho é amplamente percorrido por ciclistas e caminhantes durante os fins-de-semana, mesmo que poucos saibam que a poucos passos dali se esconde um sítio arqueológico de importância nacional. Já me habituei ao lixo espalhado pela paisagem, semeado a eito... Embalagens, vidros, papel, dejectos... Tudo serve para deitar no balde do lixo da natureza.
Aproximo-me do sítio arqueológico que vim conhecer. Olho em redor, à procura de referências. Alguns muretes sugerem uma ruína, mas não existe informação visível. Procuro com mais afinco. Tenho bem presente na memória o amplo debate sobre as verbas que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas dedicou à comunicação, através da revitalização e afixação de painéis informativos e sinalética. O Ministério do Ambiente agrega estas despesas em rubricas mais complexas, o que impossibilita o conhecimento do valor concreto gasto, mas uma fonte do ICNF não tem dúvidas em confirmar que, na última vaga, foi investido mais de um milhão de euros.
Não há nada de pé, mas isso não significa que o dinheiro se tenha esfumado. Na verdade, os painéis existiram. Neste caso, o painel foi metodicamente pontapeado para fora da sua estrutura de madeira. Uma vez removido dos suportes, foi partido em pedaços e depois exposto no solo, em jeito de puzzle. Ficou ali como despojo de uma guerra surda entre as áreas protegidas e os seus visitantes.
 Deparo com o mesmo cenário em Ourém. Semanas antes, tinha-o visto também no Paul do Boquílobo, num ponto do parque natural que considerara ingenuamente demasiado remoto para ser notado. Intriga-me a redundância. A violência contra a sinalética. O vandalismo gratuito, que tanto se expressa na destruição de painéis como na profanação de vegetação ou lajes com graffiti e outro lixo.
No Verão passado, a mesma discussão atravessou os Estados Unidos de lés a lés. O “New York Times” (aquidetectou rabiscos pintados nos frágeis saguaros que deram nome ao famoso Parque Nacional do oeste americano; trilhos pintados; inscrições em desfiladeiros; pinturas rupestres grosseiramente manipuladas. No total, o Serviço Nacional de Parques estimava que 9.000 sítios de interesse histórico ou natural tinham sido deliberadamente danificados desde 2009, incluindo o icónico Memorial a Lincoln em Washington.
Os vigilantes da natureza escutados pelo jornal deram um contributo para a discussão, lembrando que, na era anterior à Internet, sempre existiram actos deste género, mas eles circunscreviam-se à geografia do local. Só eram visíveis quando o visitante seguinte chegasse ao local. E são tão antigos como a espécie humana. Numa investigação divulgada pela National Geographic em Dezembro do ano passado, detectou-se que alguns rabiscos nas paredes do Coliseu de Roma tinham dois mil anos. Tal como John e Vanda professam hoje o seu amor gravando ali um coração, também Iulius Maximus lá quis deixar uma inscrição no século I d.C.
Hoje, porém, com a proliferação das redes sociais, o vandalismo ganha asas... geográficas. Um rabisco num saguaro remoto torna-se a pena no chapéu dos vândalos de trazer por casa, que afixam a proeza e recebem gratificação imediata. Poderá ser esse o factor que despoleta a explosão destas manifestações?

Lapa de Santa Margarida. Fotografia de Paulo Rolão.
Não existem dados suficientes para ligar os dois fenómenos e manifestações tão amplas não costumam ter causas tão redutoras. Num livro recente (“The Destruction of Art: Iconoclasm and Vandalism Since the French Revolution”, 2013) Dario Gamboni lista dezenas de incidentes gratuitos de destruição de expressões artísticas, desde o homem que destruiu a martelo o famoso vaso Portland (já lembrado aqui), ao doente que atirou ácido contra o quadro de Rembrandt ou ao turista que destruiu um dedo da estátua do David de Miguel Ângelo em 1991. O historiador argumenta que a maior parte dos incidentes foi, à época, construído como um acto lunático e demente, mas serviu diferentes causas, desde o protesto contra determinada corrente artística à expressão de raiva em público para chamar atenção para outras causas. E afinal a inscrição de Iulius Maximus foi seguramente entendida no século I como um acto de profanação e hoje constitui uma curiosidade histórica.
Gostava de ter respostas mais categóricas para os “meus” painéis tombados. Tenho sérias dúvidas de que eles não sejam muito diferentes dos rabiscos nos saguaros frágeis. Ou nas carruagens de metro das cidades. Ou nas paredes do velho Coliseu. São manifestações de vaidade e egoísmo, tiques de agentes sociais que precisam desesperadamente de sublinhar o seu carácter especial face ao resto da multidão. De alguma forma, marcam uma época – a nossa. Mas não com o cunho pretendido pelos seus autores. 

terça-feira, junho 10, 2014

A edição ingrata e o talento do António



Há reportagens assim.
Por vezes, baralhamos mil vezes a galeria de fotografias disponíveis na esperança de que, à décima passagem, algo tenha escapado – a imagem improvável que vai salvar a reportagem, vai manter a reputação da revista, vai atrair o leitor para as nossas páginas e motivá-lo a recordar-se da reportagem para sempre. No processo, amaldiçoamos silenciosamente os homens do campo, os fulanos que saem para a rua de máquina na mão para congelar o tema da reportagem num instantâneo revelador. “Porque não deu um passo mais para a frente?”; “Porque não recuou?”; “Porque não tentou outra posição, outra lente, outra iluminação?”. No conforto da redacção, longe dos imponderáveis do campo, todas as fotografias mágicas parecem possíveis.
Pontualmente, porém, sucede o contrário. À primeira passagem da galeria de imagens, emergem possibilidades fantásticas de ilustração. Uma, duas, três fotografias captam tudo o que queríamos contar. Dispensam legendas e explicações. São metonímias perfeitas da história que decidimos relatar no momento já distante em que a ideia original brotou. Lembro-me sempre nestes momentos do que escreveu a controversa escritora Anaïs Nin que, para mal dos seus pecados, herdou um nome próprio infeliz e uma tendência incontrolável para redigir diários íntimos. «Tudo nasce do excesso. A grande arte nasceu do grande terror, das grandes inibições, das grandes instabilidades – forma com eles o equilíbrio indispensável.» [cito de memória]· É, pois, de excesso, de abundância que falamos agora.
Há alguns meses, o António Luís Campos propôs-nos uma história formidável. Graças à extraordinária cooperação de António Candeias, do Laboratório de Conservação e Restauro José de Figueiredo, e dos conservadores-restauradores Miguel Mateus e Teresa Reis, tínhamos acesso ao trabalho de investigação desta equipa em torno das representações pintadas de Afonso de Albuquerque, segundo vice-rei português na Índia. Não quero estragar a leitura a ninguém [disponível aqui, já agora], mas a obra foi socialmente construída e reconstruída sucessivamente desde o século XVI, ao sabor da ideologia de cada época e dos preconceitos dos seus agentes. No léxico de um editor, a história tinha todos os ingredientes: uma figura histórica, um mistério, ciência de ponta, espiões, uma invasão e um quadro que ora tinha barbas brancas, ora as perdia por soberba de um político.
Como sempre acontece nesta casa, debatemos intensamente as possibilidades visuais. As reportagens de laboratório são terríveis. No ambiente descontaminado das pipetas e bicos de bunsen, das paredes brancas e microscópios, todas as fotografias parecem iguais. Com a malícia que lhe é característica, o António assegurou que traria fotografias diferentes. E, na verdade, mostrou-se fiel à palavra dada.
Voltamos aos excessos da Anaïs Nin. Logo à primeira passagem da galeria de imagens disponíveis, saltaram à vista estas duas extraordinárias representações de tudo o que queríamos dizer. Em duas composições, o António mostrava o quadro que chegara a Lisboa em 1953 já repintado por Gomes da Costa na Índia com amplas liberdades criativas, o quadro que a equipa de João Couto descobrira com exames radiológicos no MNAA e indícios da pintura original que lhes estava subjacente.
Tivemos de optar – espero que bem. Ficou na maqueta a imagem enigmática com todas as representações conhecidas penduradas numa parede de luz, enquanto Miguel Mateus anotava diligentemente os contratempos sofridos pela obra; ficou pelo caminho a imagem tecnológica, captada com um iPad, expressando igualmente as diferentes fases do desenho de Afonso de Albuquerque (que até pode não ser o próprio, pois essa averiguação deverá agora ter lugar na Galeria dos Vice-Reis em Goa).
Por sobreposição de compromissos, não vou poder participar na palestra do António Luís Campos no Porto, no próximo dia 12, na Reitoria da Universidade. Celebram-se ali dez anos (quase 11) de colaboração do António com a edição portuguesa da National Geographic, o que vale por dizer que são dez anos de dilemas como este. De escolhas entre o bom e o óptimo. De materiais estupendos por vezes excluídos somente para evitar redundâncias no nosso processo de story-telling.
Tem-se falado muito em selecções nacionais durante estes dias de antecipação do Mundial. O António estará seguramente na minha selecção nacional dos melhores.
Era isto que eu diria na 5.ª feira, na Reitoria da Universidade do Porto, se tivesse oportunidade.

quarta-feira, maio 28, 2014

A canibalização da língua

Quis o destino que eu tivesse participado em reuniões recentes com gestores e universitários. Para lá dos temas em cima da mesa, fico aterrorizado com a progressão galopante do... Portuglês, mistura improvisada e desnecessária de vocabulário anglófono para expressar conceitos que, sem esforço, poderiam ter sido enunciados na língua de Camões. Pior: dou por mim a repetir os mesmos tiques, mimetizando o comportamento dos anfitriões numa submissão à pressão do grupo que Jane Goodall já notara nas comunidades de chimpanzés.
Exemplo típico de uma reunião moderna:
-      Fez o benchmarking da concorrência?
-       Sabe, muitos fizeram um upgrade recente de competências. Outros ainda estão em assessment.
-       Que research methods utiliza normalmente?
-       Gosto muito do world caffe. Permite grande interactividade.
-       Nunca faz role play?
-       Tento, mas as samples que assistem aos workshops nem sempre são fiáveis.
-       Que materiais de support existem nas salas?
-      datashows, claro. Temos wireless para todo o átrio. E pointers para os oradores. Há muita coisa em cache.
-       Hum... E está previsto coffee-break?
-       Nestes work groups, prefiro pausa mais informais, uma espécie de brunch.
-       A publicidade do evento será online ou também utilizará outdoors?
-       Vamos carregar nos MREC, claro. Banners também. Tudo depende do target. Até porque o Average Time Spent na net está em quebra.
-       O site deles tem quantos OTS?
-       O reach depende muito porque os tipos aldrabam os ATV.
-       Usamos CPC, CPM ou CPO como standard?
-       Se quer que lhe diga, nenhum é fiável. Até prefiro os CPL.
-       Embedded ou skycraper?
-       Um mix funciona sempre bem.
-       Devíamos criar avatars falsos para furar as firewalls deles.
-       Talvez, mas temos responsabilidades éticas no campo do B2B e mesmo do B2C.
-       Acha? A minha preocupação é com o backbone desta empresa.

E pronto! Cá vou, cantando e rindo, integrado na corrente Portuglesa. E soltando gargalhadas sempre que me lembro disto.
Bom... Tenho content para produzir. Cheers!

segunda-feira, maio 26, 2014

A Fonte das 40 Bicas


 1768.
Lisboa ainda vive atormentada com as repercussões do sismo de treze anos antes e a corte de Dom José mantém-se na Ajuda, onde pouco ruiu, cimentando a confiança régia na geologia do seu novo bairro.
O rei recrutou o naturalista italiano Domingos Vandelli para o seu empreendimento mais recente: a construção de um espaço de lazer para os príncipes e netos. Vandelli trouxe de Pádua o modelo de um jardim botânico moderno e preocupou-se em criar uma colecção vasta de espécies vegetais – nos tempos áureos, o Real Jardim Botânico da Ajuda chegou a ter cinco mil espécies, oriundas de todos os cantos do globo.
As décadas subsequentes ao sismo de 1755 foram, porém, aventurosas e os braços de Vandelli, naturalista formado em medicina que se correspondia com Lineu, não chegavam para todos os fogos. Quatro anos depois da incumbência de criar um jardim botânico na Ajuda, em 1772, Vandelli foi chamado a Coimbra como lente de História Natural e Química na Universidade. Ali também criou as bases do jardim botânico da Universidade de Coimbra e idealizou as viagens filosóficas à Amazónia, conduzidas por alguns dos seus alunos.
Na Ajuda, portanto, o projecto ficou na mão de um auxiliar, o chefe dos jardineiros Júlio Mattiazi. Igualmente originário de Pádua, Mattiazi tratou do jardim e… da pedra. Idealizou as fontes que orientam a visita e estruturam a paisagem da Ajuda, tanto ou mais do que as sebes. A mais famosa, a Fonte das 40 Bicas, reúne animais míticos e fauna aquática, num espantoso conjunto de serpentes, peixes alados, cavalos-marinhos e outras feras. Segundo garante a tradição do bairro, a fonte terá sido construída exclusivamente com mão-de-obra da Ajuda.
De acordo com a directora do Jardim Botânico, a professora Dalila Espírito Santo, a documentação sobrevivente na Ajuda [grande parte foi para Coimbra; alguma seguiu para a Faculdade de Ciências na Rua da Escola Politécnica; e algum espólio viajou com a comitiva real para o Brasil em 1808 e ficou pelo Rio de Janeiro] comprova que Vandelli não ficou maravilhado quando viu as fontes de Mattiazi. Afinal, um jardim botânico é um espaço no qual a vegetação deve reger a paisagem, recusando a submissão à construção de pedra.
Hoje, porém, a caminho dos 250 anos do Jardim Botânico da Ajuda (em 2018), após testemunhar revoluções e mudanças de regime, cuidados desvelados e descuidos sem perdão, são as fontes que permanecem imutáveis desde 1768. O ciclo de vida das plantas, naturalmente, foi fazendo a sua selecção, as pilhagens napoleónicas destruíram muito, o clima distinguiu as espécies mais adaptáveis e a crónica falta de financiamento também deixou mossas.
Do Jardim Botânico original, ficaram os peixes alados de Mattiazi, que Vandelli desaprovou, mas o tempo validou.

Ler também:
Almaça, Carlos. A Natural History Museum of the 18th Century, 1996, Museu Bocage, Lisboa.

sexta-feira, maio 23, 2014

Distorted Alarms, 2014


Finalmente publicado. O 2.º spin-off da tese. Avisem-me se precisarem do PDF. / 
Published at last. My dissertation's second spin-off. Let me know if you need the article PDF. Cheers!