terça-feira, maio 20, 2014

Urbano Carrasco foi “correio” acidental de Salazar



«Com os meus respeitosos cumprimentos, dirijo-me a Vossa Excelência para fazer um breve relato que suponho oferecer interesse. Se assim for considero-me satisfeito por servir Vossa Excelência. Caso contrário, lamento fazer perder um tempo que é valioso», começava a carta dactilografada pelo jornalista Urbano Carrasco no dia 19 de Fevereiro de 1964, com destino a António Oliveira Salazar, presidente do Conselho.
Em duas ocasiões anteriores, já aqui relatei casos protagonizados pelo extraordinário repórter do Diário Popular que foi Urbano Carrasco [inseridas no livro Parem as Máquinas!]. Hoje, narro um episódio diferente, porventura o mais delicado da carreira deste homem que dedicou quarenta anos ao vespertino lisboeta. Evitarei juízos críticos e sentenças morais desadequadas, pois o contexto histórico e militar da época é irrepetível. Em 1964, o Estado português encontrava-se em guerra e certamente que Urbano Carrasco pesou as implicações deontológicas da profissão face ao dever de lealdade para com o governo.
A carta, recebida pelo ditador dois dias depois, em 21 de Fevereiro, conforme nota manuscrita no canto superior esquerdo da missiva, continuava: «Na minha recente entrevista, em Madrid, que o Diário Popular está a publicar, fiz algumas perguntas que ficaram sem resposta e no que se refere a outras foi-me dito que as não poderia divulgar.» A que se referia Carrasco?
"Diário Popular", 18 de Fevereiro de 1964
(a partir do arquivo da Biblioteca Nacional)

No dia 18 de Fevereiro de 1964, o jornal dirigido por Martinho Nobre de Melo utilizou mais de metade da sua primeira página para um tema internacional, uma raridade num jornal definido em 1956 por Guilherme Brás Medeiros, um dos seus administradores, como um jornal de noticiário de proximidade. Apesar disso, nesta terça-feira, titulava-se em letras garrafais: “TSHOMBÉ FALA AO DIÁRIO POPULAR SOBRE A MORTE DE LUMUMBA E A ACTUAL SITUAÇÃO NO CONGO. O MEDO É O RESPONSÁVEL PELO QUE SE PASSA EM ÁFRICA!” A entrevista exclusiva fora obtida em Madrid por Urbano Carrasco e a sua publicação fora partida por três edições, sempre com destaque de primeira página, apesar de o tema competir na agenda com outros focos de atenção, como o golpe de estado no Gabão, a intervenção das forças internacionais em Chipre e o terrível sismo da ilha de São Jorge, nos Açores.
Moisés Tshombé (1919-1969), porém, era um dirigente político em quem o governo português apostara fortemente desde 1960. Filho de uma família nobre, fora educado numa escola de missionários no então Congo Belga e formara-se em Contabilidade. Fundara na década de 1950 o CONAKAT, um partido que se distinguira primeiro na luta contra o colonialismo belga e, logo depois, por declarar a secessão da província do Catanga face ao Congo. Nas eleições legislativas de 1960, conquistara o poder e oferecia ao mundo um discurso alternativo ao de Lumumba no Congo e de Holden Roberto em Angola. Anticomunista, propunha-se colaborar com os governos belga, francês e português na reconstrução económica do Catanga, então responsável por 60% da produção mundial de urânio e 80% dos diamantes industriais (dados do major Rui Velez, no seu excelente Salazar e Tshombé, 2013, DG Edições, fonte principal deste texto e autor da descoberta da carta de Urbano Carrasco para Salazar, amavelmente disponibilizada).




O percurso político de Tshombé replica a história atribulada do próprio Congo. A declaração de independência do Catanga conduziu a uma intervenção da Organização das Nações Unidas no território, a pedido de Patrice Lumumba e Cyrille Adoulla, líderes independentistas do Congo. Em Janeiro de 1961, Lumumba deslocara-se ao Catanga, mas fora detido, torturado e executado, alimentando ainda mais o caos no território (uma comissão posterior do Parlamento Belga isentou Moisés Tshombé de responsabilidades na execução de Lumumba). Face à intervenção da ONU, Tshombé exilou-se na Rodésia do Norte e depois em Espanha, onde Urbano Carrasco o encontrou, semanas antes de o dirigente regressar ao Congo para integrar novo governo de coligação.
A investigação de mestrado do major Rui Velez (disponível aqui) revela exaustivamente que Salazar e Franco Nogueira apostaram fortemente na liderança de Tshombé, que visitara Lisboa em 1963. No Forte do Estoril, Salazar propôs ao dirigente do Catanga a supressão das bases das forças independentistas angolanas no território, bem como a detenção dos cabecilhas do movimento. A guerrilha independentista provocava então evidentes danos no Nordeste de Angola e a possibilidade de os homens de Holden Roberto cruzarem livremente a fronteira do Congo impedia o exército português de retaliar. Em troca da intervenção no Catanga, o ditador português oferecia aconselhamento e equipamento militar. Nos seus volumes de memórias, Franco Nogueira revelou que Salazar achou Tshombé lúcido e realista, tendo mesmo comentado: «No meu espírito, promovi-o a estadista branco.» O Catanga adquiriu vasto equipamento militar nos meses seguintes.
Era neste homem e no seu projecto para o Catanga que o governo português apostava para recuperar o controlo sobre a frente militar no Norte de Angola. Todavia, a entrevista de Urbano Carrasco (que terá sido obviamente lida e aprovada pelos Serviços de Censura, embora eu não tenha encontrado as provas da Censura destes textos) versou exclusivamente sobre a situação política no Congo, nunca mencionando Angola ou a frente guerrilheira de Holden Roberto. No primeiro trecho da entrevista (18 de Fevereiro), Carrasco apresentou Tshombé, distinguindo-o de Lumumba e das ameaças veladas que este fizera aos antigos dirigentes coloniais; no dia seguinte, o Diário Popular dava-lhe voz para recusar responsabilidades na morte de Lumumba e dois companheiros. Na peça, Tshombé acusava o governo central congolês pelo sucedido e Cyrille Adoula pela polémica decisão de regar os três corpos com ácido, impedindo qualquer exame legal posterior. Em título, referia: «NÃO FORAM PRISIONEIROS MAS AGONIZANTES O QUE RECEBEMOS EM ELISABETHVILLE – ESPANCAMENTO MORTAL DE LUMUMBA PELOS SOLDADOS DO GOVERNO CENTRAL CONGOLÊS.»
Por fim, no terceiro e último trecho da entrevista, Tshombé repetia a Carrasco a nota dominante do seu discurso: «ADOULA, QUE ORIENTOU PESSOALMENTE A DESTRUIÇÃO DO CADÁVER DE LUMUMBA, É UM FANTOCHE QUE NÃO SABE O QUE FAZ E A ONU, SUFICIENTEMENTE DESPRESTIGIADA NO CONGO, VAI SAIR DALI SEM TROMBETAS NEM BANDEIRAS.» No corpo da entrevista, Tshombé sossegava os europeus: «A colaboração com os europeus é indispensável. Só com ela se poderão salvar os países africanos e fazê-los trilhar uma senda de progresso.» Em jeito premonitório, Tshombé avisava Carrasco: «Será necessário muito tempo, receio-o, para que o Congo volte a ter paz. Vai mesmo conhecer, nos meses que se avizinham, horas extremamente difíceis.»

O RECADO PARA SALAZAR
Na Villa Kaunis em Madrid, elegante propriedade no bairro de La Moraleja onde a delegação do Catanga se exilara, Urbano Carrasco fez várias perguntas sobre Angola, Portugal e o apoio que Moisés Tshombé se propunha dar à causa nacional. O líder do Catanga, porém, pediu explicitamente que o jornalista não publicasse as suas respostas sobre o tema pois, se atendesse o pedido, «não deixaria de ser violentamente atacado pelos americanos.»
Carrasco quis saber o que faria Tshombé face à «incompreensível liberdade e apoio que são dados aos bandos de guerrilheiros que ali [no Congo] têm a sua base e dali organizam ataques contra Angola». A resposta foi pronta:
«Não tome nota do que vou dizer-lhe. Pelo menos não o escreva no seu jornal, pois ver-me-ia obrigado a desmenti-lo… Já tenho suficientes complicações com os americanos e não deixariam de me atacar violentamente dizendo que eu sou amigo dos colonialistas. Também isso me criaria dificuldades no Congo, mas a minha recusa em responder-lhe para publicação é devida, sobretudo, aos americanos. Para si, contudo, sempre lhe direi que a minha posição e a minha amizade pelos portugueses são bem conhecidas. E se um dia eu dirigir o Congo, nem sequer é problema o que me pergunta: claro está que nessas circunstâncias nunca poderiam viver no Congo esses Holden Robertos e outros! Isso é problema que nem se põe. Mas se o fosse dizer agora, os americanos caíam-me em cima, ainda com maior violência!»
A outra questão sobre a hegemonia americana sobre os interesses económicos do Congo, Tshombé voltou a pedir sigilo: «Também não posso responder-lhe a essa pergunta e peço-lhe que não diga no seu jornal que a formulou. Porque espero poder responder-lhe sem quaisquer restrições, mas só depois de instalado em Leopoldville…»
Urbano Carrasco terminava a missiva: «Foi isto, Senhor Professor, que não publiquei, mas ouvi ao Presidente Tshombé e suponho possa oferecer interesse ser [sic] do conhecimento de Vossa Excelência.» Os dados, porém, estavam lançados e Tshombé perdera apoios decisivos. Regressou ao Congo em triunfo no Verão de 1964, mas foi destituído um ano mais tarde. Exilou-se novamente, fugindo a tempo de uma condenação à revelia em 1967. Com apoio ocidental, Joseph Mobutu tomara o poder com mãos de ferro em 1965 e só o largaria 32 anos depois.
Moisés  Tshombé viria a morrer na Argélia em 1969, na sequência de um ataque cardíaco. Dois anos antes, o avião em que viajava fora desviado misteriosamente para Argel. O Diário Popular noticiou a sua morte na primeira página no dia 30 de Junho de 1969 e Carrasco evocou, na página 11, a entrevista de 1964. Confessava «a admiração que fiquei a ter pelo discutido político e estadista congolês face à serena prova de que ele dava provas» e lembrava que, à data da entrevista, Tshombé ainda considerava Mobotu «um amigo pessoal», circunstância que a realidade desmentiria. Carrasco aproveitou então a ocasião para referir que, à despedida em Madrid, Tshombé fizera votos para que o povo de Angola vivesse em paz e não mergulhasse na miséria em que caíra o povo do Congo. «Nós, portugueses, conseguimos evitar em Angola o que Moisés Tshombé, mesmo com sacrifício da sua vida, não conseguiu para o Congo». 
Com o entusiasmo patriótico, Urbano Carrasco esqueceu em 1969 que omitira qualquer referência a Angola no texto publicado cinco anos antes.

segunda-feira, maio 12, 2014

O ilustrador faz jornalismo?


"Ilustração Portuguesa", n.º 93, Agosto de 1905
(a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

Em 1905, o Jardim Zoológico de Lisboa mudou-se para as suas instalações actuais, em Sete Rios. Para trás, ficavam os tempos de Palhavã e das jaulas improvisadas, onde se encafuavam os animais, tristes e melancólicos. Nos terrenos da Quinta das Laranjeiras, o projecto iniciado por Dom Fernando II ganhava por fim dignidade. Era certamente nisso que os convidados pensavam no dia 28 de Maio à medida que se cortavam fitas e se discursavam palavras de circunstâncias, dois hábitos portugueses tão antigos como a ginja e o chinquilho.
Entre os animais expostos, um felino estranhava o ambiente. Era um leopardo moçambicano, oferecido por João de Azevedo Coutinho ao rei Dom Carlos – e por este cedido ao Zoológico. “O Século” refere que os uivos dos felinos assustavam as senhoras e motivavam graças dos cavalheiros.
Meses depois, em Agosto, o Zoo e o leopardo voltaram às páginas dos jornais. Desta vez, sem discursos nem gracejos, mas com um episódio dramático que comoveu a cidade. Não se sabe bem como (alguns jornais falam num descuido durante a transferência do animal; outros referem que o felino encontrou uma fenda no topo da sua nova jaula), mas o leopardo evadiu-se. Andou à solta – primeiro a passo, depois a trote. Soltou alguns rugidos, assustou e assustou-se.
O animal tentou sair do Jardim Zoológico e desaparecer por Sete Rios, mas alguém alertara a guarda e um regimento de infantaria impediu o êxodo urbano que teria sido ainda mais espectacular. O leopardo fugiu assim para o interior do Zoo, dissimulando-se entre a folhagem e os silvados. Foi visto junto dos macacos e, mais tarde, perto da jaula das águias. Ali, por fim, foi encurralado. Em seu redor, acercaram-se 14 soldados e alguns tratadores, com forquilhas, facas atadas a paus em jeito de baionetas e armas de fogo. Parecia um exercício militar. Nervosos, os homens dispararam à primeira ocasião e feriram a fera com balas reais.
O leopardo deu alguns passos e tombou pesadamente à entrada do Túnel das Águas Boas. Destemido, o soldado 19 da 3.ª Companhia quis vê-lo de perto e acabou por vê-lo efectivamente mais perto do que gostaria. Num último sopro de vida, o leopardo atirou-se ao rosto do infeliz e ali fincou os dentes. Aterrorizados, os camaradas de armas não se fizeram rogados e dispararam sem norte, sobre a fera e sobre o homem. O animal morreu de imediato. O soldado, crivado de balas, seguiu de carro eléctrico para o Hospital de São José, onde foi operado e sobreviveu, embora o seu nome não tenha sido preservado para memória futura.
Dos relatos jornalísticos que li, destaco o trabalho de “O Século” pela aposta clara na inversão das prioridades tradicionais de representação. Sempre mais activo do que a concorrência, o jornal de Silva Graça encomendou uma ilustração a um artista que não consegui identificar, apesar da assinatura rabiscada no canto inferior esquerdo. Recolhendo testemunhos presenciais, o ilustrador criou esta reconstituição, usada no jornal e na revista semanal “Ilustração Portuguesa”. As fotografias de suporte foram publicadas nas páginas seguintes, num reconhecimento implícito de que era a ilustração o suporte ideal para contar esta história.
Lembrei-me hoje deste episódio quando li a mensagem de um leitor que se queixava da excessiva prioridade que damos às ilustrações na revista. O fotógrafo tem uma abordagem jornalística, ao passo que o ilustrador aborda a representação com uma perspectiva artística – argumentava. Ontem como hoje, será mesmo a fotografia o dispositivo universal para contar visualmente qualquer história? Ou a reconstituição de um ilustrador pode ser um gesto tão jornalístico como o clique na máquina?

terça-feira, maio 06, 2014

A história para lá do óbvio



A maior parte dos trabalhos publicados na revista resulta de planeamento e de produção. Sempre que me convidam para falar sobre fotografia na National Geographic, tenho o cuidado de sublinhar que a espontaneidade é muito mais rara do que os leitores imaginam. Por regra, antes de captar uma fotografia, o repórter fotográfico já a imaginou. Já testou outras soluções de composição, iluminação e exposição. Já fez experiências que correram mal. É raro o momento em que um fotógrafo sai despreocupadamente para o campo e capta, sem preparação nem reflexão, o momento certo. Por outras palavras: a espontaneidade custa muito trabalho e não tem nada que ver com a sorte.
Em Janeiro deste ano, fiz uma intervenção deste teor no festival de fotografia de Vouzela, procurando sublinhar a importância das narrativas visuais para a nossa publicação e a necessidade premente de não repetir conceitos, nem objectos. Tinha então em mente um trabalho em curso que o fotógrafo Steve Winter levava a cabo com os pumas da América do Norte. Motivado para fotografá-los em contexto semi-urbano, Steve dedicou mais de um ano a esta reportagem e a fotografia mais emblemática (um puma caminhando em frente do lendário cartaz de Hollywood, em Los Angeles) demorou quatro meses a executar. Não houve nada de acidental na proeza!
Ora, em Vouzela, assisti a várias apresentações. Uma delas, do jovem fotógrafo Ricardo Lourenço, representava o Alentejo selvagem, tal como a região se apresenta a este repórter de Portalegre. Entre várias fotografias memoráveis, fiquei com esta debaixo de olho: um lacrau fluorescente. Não sabia nada sobre o tema, nem imaginava se o Ricardo teria procurado documentação sobre o fenómeno ou se a imagem resultava da tal espontaneidade que eu não me canso de dizer que é inexistente.
Foi uma das poucas ocasiões em que uma página da National Geographic nasceu a partir de uma fotografia e não de uma ideia original, susceptível de desenvolvimento posterior e de materialização em imagem. Ao talento do Ricardo, juntou-se o conhecimento do biólogo Pedro Sousa, investigador do CIBIO, que contextualizou o fenómeno, forneceu informação científica recente, desconstruiu algumas ideias feitas que eu tinha sobre a função deste dispositivo e permitiu que o texto fosse o mais rigoroso possível, dentro dos constrangimentos de espaço que as secções iniciais impõem.
Eis portanto como um inofensivo lacrau terminou nas páginas da edição portuguesa da National Geographic. Com o talento do Ricardo e a sabedoria do Pedro.

sexta-feira, maio 02, 2014

Liberdade de Imprensa


Havendo dias para tudo e mais alguma coisa, algum dia teria de ser o nosso. Parece que é hoje. Bom Dia da Liberdade da Imprensa!






Fotografias da redacção, composição, impressão e distribuição do Diário Popular. C. 1962.

quarta-feira, abril 30, 2014

Pala Pinta, 2014


A revista deste mês [Maio] publica uma das reportagens que mais gozo me deu escrever, sobretudo porque parti para ela com preconceitos sobre a arte rupestre da pré-história ibérica e terminei-a com as minhas convicções fortemente abaladas. É bom sinal quando isso acontece. Significa que o conhecimento não estagna e que tenho muito a aprender. Significa também que, onde alguns encontraram becos sem saída, outros propõem hipóteses alternativas, beneficiando de vantagens tecnológicas e de olhares mais descomprometidos.
Enquanto me documentava, o arqueólogo Paulo Lima descreveu-me um artigo que eu não poderia deixar de ler. Fora publicado na “Terra Portuguesa, Revista Portuguesa de Arqueologia Artística e Etnografia”, uma publicação especializada que Vergílio Correia dirigiu entre 1916 e 1927. Foi nessa publicação que, pela primeira vez, se escreveu sobre as pinturas do abrigo rochoso da Pala Pinta, mas, para além da descrição, cativou-me a generosidade do arqueólogo, historiador e professor de Peso da Régua.
Vergílio Correia (1888-1944) assumiu muitas facetas na sua carreira na Universidade de Coimbra. Escreveu várias vezes que era a cadeira de História de Arte que o encantava, apesar de ter leccionado Estética e Arqueologia, entre outras. Deleitava-se com as pequenas descobertas e a respectiva publicação na revista que, a custo, lançava para meia-dúzia de curiosos e interessados.
O caso da Pala Pinta é emblemático da sua generosidade, repito. No final de uma aula em que descrevera pintura rupestres conhecidas em Espanha, o professor foi abordado por um aluno, Horácio de Mesquita. Mesquita vira as representações de pinturas produzidas em Espanha e reconhecera de imediato a matriz. Ele também as conhecia no seu concelho de Alijó. Num velho abrigo usado por caçadores, existiam pinturas vermelhas nas paredes. Em Trás-os-Montes, antes da Pala Pinta, só se conhecia um exemplo de arte rupestre à data desta descoberta – as pinturas do Cachão da Rapa.
Vergílio Correia poderia ter absorvido a informação com egoísmo, como tantos outros mestres fizeram antes e depois de si. Poderia ter publicado isoladamente, num tempo em que essa era a norma. Poderia ter excluído o aprendiz de feiticeiro. (Num artigo recente, no “Público” de 24/04, o arqueólogo Luís Raposo contou como, no III Congresso Nacional de Arqueologia, em 1973, ele e mais dez colegas espantaram o auditório com uma comunicação subscrita por 11 autores, coisa inaudita para a época! Imagine-se como seria cinco décadas antes...)
Vergílio Correia escolheu partilhar os louros com o seu jovem aluno, co-assinando o artigo e permitindo que o jovem redigisse alguns parágrafos sonhadores sobre o contexto daquela representação e enquadrando-os depois no que a ciência da época permitia assegurar.
De alguma maneira, é a sua memória que homenageio com a reprodução integral em baixo das três páginas do artigo sobre a Pala Pinta. Até porque o trabalho que trazemos à estampa este mês só chegou a bom porto com as intervenções determinadas do Luís Bravo Pereira (Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa), do Paulo Lima (Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património), do Hugo Pires (Centro de Investigação em Ciências Geoespaciais da Universidade do Porto e Superfície, Lda), do João Fernandes (Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra) e do Tiago Pessoa (da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra).


"Terra Portuguesa", 1922, Pg. 145-147
(Arquivo da Biblioteca Nacional)

terça-feira, abril 29, 2014

Mascarenhas, um craque


Mascarenhas foi craque de bola na década de 1960.
Jogou no Sporting, venceu a Taça de Portugal e a Taça das Taças e ainda detém o recorde de mais golos marcados num jogo das competições europeias (seis, contra o Apoel, em 1963). Jogou depois no Barreirense, na CUF, no Peniche, no Riopele e no Paços de Ferreira. Ficou pelo norte.
Terminada a carreira, o avançado angolano que encantara multidões teve dificuldades em manter-se à tona de água. Em Janeiro de 1982, quando a "Gazeta dos Desportos" o encontrou, vivia com evidentes dificuldades, "numa casa que abriga pouco e onde o frio se infiltra por mil e uma brechas", num terreno baldio por trás do Hospital de São João. Pintara a porta de verde, a cor do seu Sporting. "Continuamos a ser, indubitavelmente, um país do Terceiro Mundo", escrevia então Eugénio Queirós na reportagem. "Não acredita? Então dê-se ao trabalho de visitar as nossas cidades de lata. Vá falar com o Mascarenhas."
A notícia fora dada numa coluna de opinião do mesmo jornal por Cagica, antigo jogador e colega de equipa de Mascarenhas, que se mobilizou para dar a conhecer a situação do amigo. Aos 44 anos e com cinco pessoas a seu cargo, o antigo craque do Sporting "não tem grandes haveres, não tem uma casa digna, não tem emprego e não sabe que há-de fazer. Tantos NÃO's depois de uma vida de polegares estendidos", escrevia o Eugénio.
A Gazeta publicou a história na primeira página, pedindo sem reservas: "Vamos arranjar um emprego a Mascarenhas! e "Exige-se um emprego!", deixando até o número de telefone do craque. Moveram-se montanhas. Fernando e Domingos Barriga, figuras da CUF, fizeram os primeiros contactos e arranjaram dinheiro. Depois, alguém no Sporting mostrou o jornal a João Rocha e encontrou-se por fim uma vaga para Mascarenhas no Departamento de Futebol, onde o conheci uma década depois, sempre garboso, sempre bem vestido, sempre educado. Ao ler agora a reportagem, não sei o que seria hoje mais improvável: um jornal desportivo esquecer por um dia as contratações sonantes e dedicar o seu espaço nobre a um caso social ou um clube encontrar humanidade para acolher um antigo craque, independentemente dos balancetes.


Mascarenhas trabalhou mais de duas décadas no Sporting. Sofreu um AVC em 2008 e desde então está remetido a uma cadeira de rodas. Da última vez que soube dele, vivia em Lisboa, na freguesia de  Arroios. Dele, dizia a mulher que «era fácil elevar-se para cabecear, mas demorava eternidades até pousar os pés na relva» (depoimento recolhido aqui).

Fez ontem 77 anos.

quinta-feira, abril 24, 2014

Pode um mosquito travar uma locomotiva?


Declaração de interesses: o leitor tem o direito de saber que não sou isento na apreciação dos factos que apresentarei de seguida, pois fui arrolado, com meu acordo, como testemunha de defesa do arguido no processo em curso no 5.º Juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa. Tentarei, apesar disso, apresentar o objecto de discussão com a maior imparcialidade possível. Do (in)sucesso desse esforço, avaliarão os leitores.

Pode um mosquito travar uma locomotiva?
Não é do domínio público, nem foi ainda noticiado em Portugal, mas há um processo criminal em curso em Lisboa que definirá brevemente a hierarquia de prioridades entre o direito à honra, ao bom nome e à reputação de uma instituição e a liberdade de expressão de um investigador que, considerando o interesse público do que tinha a dizer sobre a actividade de uma empresa e estando convencido da verosimilhança do que afirmava, utilizou a emissão de um programa de rádio para denunciar más práticas. Direitos essenciais numa sociedade moderna podem, com frequência, sobrepor-se, exigindo clarificação sobre a respectiva prioridade. Seremos ainda a sociedade do “respeitinho é muito bonito” e o bom nome prevalecente sobre a crítica ou, em alternativa, admitiremos o direito de um homem da ciência exercer um papel de denúncia, mesmo quando utiliza frases mais cáusticas?
Os factos são simples e apresento-os sumariamente. Naturalmente, apresentarei as duas partes em disputa apenas com iniciais, respeitando a privacidade dos intervenientes.
No dia 20 de Outubro de 2012, pelas 9h40, o programa Cientificamente, da RDP-África, apresentado pela jornalista Ana Paula Gomes, entrevistou dois arqueólogos – A.M. e R. T. D. O pano de fundo era um congresso internacional organizado pelo Instituto de Investigação Científica e Tropical, no qual, entre outros assuntos, se discutiu o património cultural dos países africanos de expressão portuguesa.
Durante a emissão, o arqueólogo A.M. expressou a sua preocupação por ver autorizada em Moçambique a actividade da empresa AW, de arqueologia marítima/salvados (o seu objecto difere radicalmente de acordo com quem a descreve). Empresa alemã sediada em Portugal desde 1994, aproveitando então um curto intervalo permitido pelo triste decreto-lei 289/93, assinado por Pedro Santana Lopes, secretário de Estado da Cultura, a AW opera maioritariamente em países que não assinaram a Convenção da UNESCO de 2001 para a Protecção do Património Cultural Submerso. Já esteve em Cabo Verde, no Vietname, na Indonésia e obteve licença para operar em Moçambique em 1999, tendo a sua licença sido prorrogada em 2004, 2007 e 2011 (de acordo com esclarecimentos prestados por dois porta-vozes da empresa, entrevistados no mesmo programa uma semana depois, ao abrigo de um direito de resposta que a RDP aceitou conceder-lhes).
Durante a emissão, A.M. considerou que chegara a altura certa para, de uma forma mais oficial e académica, “expressar as preocupações da comunidade arqueológica – neste caso, da que lida com o património cultural subaquático, relativamente às orientações político-culturais que têm sido imprimidas a um património, que é moçambicano, e à revelia de todo um pensamento científico, que é corrente nesta altura, e também contra as recomendações de organismos como a UNESCO, expressar a nossa preocupação e tentar apontar alternativas para que esse património seja estudado e usufruído e que não passem necessariamente pela sua pilhagem e pela sua venda em leilão”.
De que falava A.M.? A publicação do D.L. de 1993 abriu temporariamente a porta à legalização de empresas com o propósito mais ou menos declarado de extrair artefactos de valor de sítios arqueológicos submersos, sempre que a sua preservação estivesse ameaçada. Não entrarei pelos caminhos já explorados por uma edição do “Semanário” de 27 de Agosto de 1994, que associou um então funcionário da Secretaria de Estado da Cultura à redacção da lei, ao mesmo tempo que exercia o papel de advogado de um dos principais interessados na aprovação de legislação.
Socorro-me, porém, da intervenção pública do então presidente da AW, numa edição de 28 de Abril de 1995 do jornal “Independente”. Com inesperada franqueza, o responsável da empresa referia: “Quando encontramos artefactos em mau estado, não se deve perder tempo. Nessa altura, temos de recolher só o que tem valor comercial. O que nos interessa são os galeões, que dos séculos XVI a XVIII transportavam pedras do Oriente e prata e ouro das Américas. Os navios que tenham valores a bordo é que nos interessam.”
No outro lado do espectro, os principais arqueólogos do país (e a UNESCO; e o ICOMOS...) entendem que, numa escavação, o paradigma do artefacto valioso correspondia à perspectiva do século XIX, valorizando o achado e não o contexto ou a informação. Os Gabinetes de Curiosidades, como o que o Duque de Palmela apresentava aos leitores da Ilustração Portuguesa em 1907, juntando na mesma sala sarcófagos egípcios, vasos etruscos e esqueletos maias, estão ultrapassados. 
"Ilustração Portuguesa", 93, 1907
(a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
Numa escavação, recolhe-se, acima de tudo, informação. Que pode não ser opulenta e pode não ter valor de mercado, mas permite aprender, sobretudo num contexto em que a informação sobre a construção naval de embarcações quatrocentistas a seiscentistas ainda apresenta lacunas consideráveis. Para um artigo recente, entrevistei o arqueólogo Francisco Alves, que acompanhou a descoberta de duas pirogas pré-históricas no rio Lima em 2002 e que demorou cinco/seis anos a extrair delas informação sobre a navegação fluvial em Portugal naquele contexto – o mais antigo de que há registo. Ninguém argumenta que é um trabalho fascinante e posso testemunhar que raramente há Lara Crofts nos sítios arqueológicos, mas é a única maneira possível de operar cientificamente em arqueologia. 
Mais do que isso: à partida, nenhum arqueólogo sabe o que se esconde no sítio arqueológico, pelo que avança com cuidado e processos normalizados. Numa entrevista que me concedeu para as páginas da National Geographic (a propósito da expansão do detectorismo em Portugal), A.M. descreveu as duas perspectivas com uma metáfora simples: “Imagine um livro raro. Há duas maneiras de o ler. Se eu o ler com cuidado, manuseando lentamente cada página, recolho o máximo de informação possível e não prejudico as segundas e terceiras leituras de quem vier a seguir. Se eu avançar directamente para as páginas que me interessam e têm valor comercial e as arrancar, mais ninguém poderá ler o livro. É tão simples como isto!” Na emissão do Cientificamente, A.M. lembrou que não existe ainda uma nau ou um galeão português em contexto arqueológico, que possa ser estudado convenientemente.
Há uma segunda vaga de argumentos. A AW sublinha regularmente que as suas intervenções justificam-se pelo carácter de emergência, pois os sítios de naufrágio podem ser pilhados a qualquer altura ou podem degradar-se subitamente. E lembra que lhe interessam os navios de carga repetitiva, ou seja, aqueles que faziam parte de comboios marítimos, transportando carga entre continentes e sobre os quais a ciência já terá informação suficiente. Arqueólogos como A.M. sustentam que a decisão sobre o que é repetitivo não pode ficar a cargo de uma empresa privada, que pretende lucrar com a venda em leilão de artefactos. E acrescentou na referida emissão: “O problema aqui nem é tanto aquilo que já foi retirado e que se sabe (...). É aquilo que foi destruído e não se sabe.”
E, por fim, há o argumento da cientificidade. A reputação que a AW granjeou na Europa e nos Estados Unidos não é lisonjeira e assistiu-se, nos últimos cinco anos, a um redobrado esforço de publicação de volumes descritivos de campanhas (com a chancela da própria AW) e a inscrição de funcionários em congressos científicos para participação pública de achados. Que eu saiba, a AW ainda não avançou para a fase verdadeiramente científica do trabalho arqueológico, que se prende com a submissão de artigos a revistas ou jornais científicos, reconhecidos internacionalmente, com revisão de pares e escrutínio generalizado. Na minha definição de ciência, a AW não cumpre os requisitos mínimos.
No programa Cientificamente, A.M. foi mais longe. Lembrando a experiência da AW em Cabo Verde, chamou-lhe “empresa de caça ao tesouro” e narrou uma campanha (não desmentida pela AW) que permitiu a descoberta de um raro astrolábio banhado a prata, posteriormente vendido em leilão para os Estados Unidos. Defendeu-se a AW, referindo que mandou fazer uma cópia do artefacto para oferecer ao governo cabo-verdiano e ajudou a implementar o Núcleo Museológico da Praia.
Está assim em fase de instrução um processo-crime suscitado por queixa da AW e que avaliará, em última instância, se toleramos, enquanto regime democrático cumpridor de convenções internacionais, a actividade de uma empresa que aborda a arqueologia com fins utilitários. Os danos não patrimoniais reportados, e que constam do pedido de indemnização, ascendem a 50 mil euros!
Permitam-me, na nota mais pessoal deste texto, expressar a minha incredulidade quando vi a lista de testemunhas arroladas pela AW, que previsivelmente aplaudirão a actividade e métodos da empresa. Uma ex-ministra da Cultura e a actual directora de um Museu Nacional vão testemunhar em seu abono. Como dizem os espanhóis, senti verguenza ajena.
Esta é, afinal, uma batalha travada com vinte anos de atraso. É até discutível se o porta-estandarte deveria ser A.M. ou um representante consagrado do campo arqueológico ou patrimonial. Não tenho resposta para isso. Limito-me a referir que o que falta em patentes académicas a A.M. sobra-lhe em coragem cívica.
No fim de contas, a resposta à pergunta de partida está nas mãos da senhora juíza. Pode um mosquito travar a marcha de uma locomotiva? Espero que possa. Nem que seja zumbindo aos ouvidos do maquinista até ao ponto em que ele interrompa, irritado, a marcha.

sexta-feira, abril 18, 2014

E esta, hein?


«Carlos Queiroz, another of my n.o 2s, was brilliant. Just brilliant. Outstanding. An intelligent, meticulous man. The recommendation to hire him came from Andy Roxburgh, at a time when we were beginning to look at more southern-hemisphere players and perhaps needed a coach from beyond the northern european nations, and one who could speak another language or two. Andy was quite clear. Carlos was outstanding. He had coached South Africa, so I called Quinton Fortune one day for his opinion. “Fantastic”, said Quinton. “To what level, do you think?” “Any”, said Quinton. (…)
When Carlos came over to England in 2002 to speak to us, I was waiting for him in my tracksuit. Carlos was immacutalely dressed. He has that suaveness about him. He was so impressive that I offered him the job right away. He was the closest you can be to being the Manchester United manager without actually holding the title. He took responsability for a lot of issues that he didn’t have to get involved in (…)
Of all the ones who worked alongside me, he was the best, no doubt about that. He was totally straight. He would walk in and tell you directly: I'm not happy with this or that. He was good for me. He was a Rottweiler. He'd stride into my office and tell me we needed to get something done.» (Pages 41-42)


quarta-feira, abril 16, 2014

Hemingway proibido


Não é uma página especialmente significativa da relação da Direcção dos Serviços de Censura com a literatura, mas é um episódio curioso e pouco conhecido. Em 1968, o ensaísta João Palma-Ferreira, responsável pela tradução para português de autores como John dos Passos, Archibald MacLeish, Saul Bellow ou J.D. Salinger, traduziu um longo e raro poema de Ernest Hemingway dedicado à sua quarta (e última) esposa e publicado uma única vez, em 1944, na revista "The Atlantic Monthly". Foi surpreendido, semanas depois, com a proibição integral de publicação. A Censura não autorizava, considerando o poema lascivo e promíscuo.
Tradicionalmente calmo e ponderado, Palma-Ferreira exasperou-se com a medida "perfeitamente enigmática e ridícula". Escreveu a vermelho ao temido Coronel Páscoa, da Direcção dos Serviços de Censura. "É um poema de amor escrito em 1944. É um poema de Ernest Hemingway. É um poema apolítico. É uma obra de arte de um dos grandes artistas do mundo. Não se compreende esta proibição seja qual for o ângulo por que se pretenda justificá-la."
O autor incentivava o Coronel a corrigir "um erro perfeitamente descabido", uma "proibição, que ainda para cúmulo, pode passar por absolutamente leviana".
Não teve sorte. Numa anotação manuscrita, no topo da folha, o director dos serviços manteve o corte de Gabinete de Leitura e referia ainda: "Os termos em que esta carta do Dr. João Palma-Ferreira vêm redigidos inibem-me de deles tomar conhecimento (!?!) e de responder. Arquive-se."
E arquivou-se.

Roma locuta est.