sexta-feira, abril 18, 2014

E esta, hein?


«Carlos Queiroz, another of my n.o 2s, was brilliant. Just brilliant. Outstanding. An intelligent, meticulous man. The recommendation to hire him came from Andy Roxburgh, at a time when we were beginning to look at more southern-hemisphere players and perhaps needed a coach from beyond the northern european nations, and one who could speak another language or two. Andy was quite clear. Carlos was outstanding. He had coached South Africa, so I called Quinton Fortune one day for his opinion. “Fantastic”, said Quinton. “To what level, do you think?” “Any”, said Quinton. (…)
When Carlos came over to England in 2002 to speak to us, I was waiting for him in my tracksuit. Carlos was immacutalely dressed. He has that suaveness about him. He was so impressive that I offered him the job right away. He was the closest you can be to being the Manchester United manager without actually holding the title. He took responsability for a lot of issues that he didn’t have to get involved in (…)
Of all the ones who worked alongside me, he was the best, no doubt about that. He was totally straight. He would walk in and tell you directly: I'm not happy with this or that. He was good for me. He was a Rottweiler. He'd stride into my office and tell me we needed to get something done.» (Pages 41-42)


quarta-feira, abril 16, 2014

Hemingway proibido


Não é uma página especialmente significativa da relação da Direcção dos Serviços de Censura com a literatura, mas é um episódio curioso e pouco conhecido. Em 1968, o ensaísta João Palma-Ferreira, responsável pela tradução para português de autores como John dos Passos, Archibald MacLeish, Saul Bellow ou J.D. Salinger, traduziu um longo e raro poema de Ernest Hemingway dedicado à sua quarta (e última) esposa e publicado uma única vez, em 1944, na revista "The Atlantic Monthly". Foi surpreendido, semanas depois, com a proibição integral de publicação. A Censura não autorizava, considerando o poema lascivo e promíscuo.
Tradicionalmente calmo e ponderado, Palma-Ferreira exasperou-se com a medida "perfeitamente enigmática e ridícula". Escreveu a vermelho ao temido Coronel Páscoa, da Direcção dos Serviços de Censura. "É um poema de amor escrito em 1944. É um poema de Ernest Hemingway. É um poema apolítico. É uma obra de arte de um dos grandes artistas do mundo. Não se compreende esta proibição seja qual for o ângulo por que se pretenda justificá-la."
O autor incentivava o Coronel a corrigir "um erro perfeitamente descabido", uma "proibição, que ainda para cúmulo, pode passar por absolutamente leviana".
Não teve sorte. Numa anotação manuscrita, no topo da folha, o director dos serviços manteve o corte de Gabinete de Leitura e referia ainda: "Os termos em que esta carta do Dr. João Palma-Ferreira vêm redigidos inibem-me de deles tomar conhecimento (!?!) e de responder. Arquive-se."
E arquivou-se.

Roma locuta est.

terça-feira, março 25, 2014

Assalto, por Mohlitz

Conheço mal Philippe Mohlitz, notável ilustrador e gravurista francês, mas este trabalho fascina-me. Mohlitz chamou-lhe “Assalto”. Representa um homem cercado por todos os lados por perigos reais ou imaginários. Devorado pela ansiedade, produz incessantemente, sem reflexão. Despacha serviço mecanicamente na esperança de que a ameaça que o sobrevoa diminua. Está num ponto mais elevado daquela realidade, mas não tira partido disso. Demasiado absorvido pelas tarefas que o assaltam, não é difícil prever que aquele homem angustiado vai perder brevemente o combate e será submerso pelos invasores.
Mohlitz, repito, chamou “assalto” a esta visão. Creio que a sua intenção foi satirizar o individualismo criativo, condenado nesta época de globalização mecânica.

Poderia ter-lhe chamado “jornalismo”.

sexta-feira, março 14, 2014

Sempre Urbano




O Clube de Jornalistas lançou mais um número (o 56) da revista "Jornalismo e Jornalistas". Adivinho em cada número uma luta – luta contra a frieza dos números, mas também dos homens e do mundo dos media, pouco dado à reflexão e com escassa disposição para o debate.
Esta edição traz à estampa um texto que escrevi pouco depois da morte de Urbano Tavares Rodrigues no Verão do ano passado. No Cairo, Urbano foi repórter, pintando com as cores da literatura o acontecimento de implicações mundiais desencadeado por Nasser. Na mesma edição, Rogério Santos escreve sobre o Rádio Clube Português, Francisco Belard discute os estrangeirismos assimilados pelo nosso jornalismo, José António Cerejo e Anabela Fino debatem as encruzilhadas da profissão, Paulo Martins diagnostica o futuro dos Conselhos de Redacção e o sempre mordaz Álvaro Costa de Matos lembra como Bordalo Pinheiro desenhou Rodrigues Sampaio.
A revista pode ser consultada aqui.
No artigo que assino, as ilustrações saíram do estirador de dois talentosos desenhadores que, por enquanto, assinam com a chancela Draftmen. Boas leituras!

quarta-feira, março 12, 2014

Do cobre e dos estrondos


No dia 26 de Janeiro de 2006, saí cedo de Lisboa para esta reportagem. Eram sete da manhã e já estava à porta da mina da Somincor em Castro Verde. Passei o dia lá em baixo, com o Antonio Cunha e o geólogo Gonçalo Barriga. Aproveitando o pico mundial de consumo de cobre e estanho, a mina fervilhava de actividade. Sucediam-se explosões para abrir novos segmentos na rocha e encontrar filões de cobre – generosos veios verdes-azeitona no meio da rocha castanha. "São os chineses, pá. São os chineses", dizia um dos mineiros para outro, explicando-lhe a explosão do preço do cobre que ressuscitava a Somincor da dormência.
A pé e em camiões, estivemos lá em baixo, sob calor tórrido e humidade, até às sete da noite. Dei por mim a pensar como consegue aquela gente aguentar a vida na mina todos os dias. Sem ver luz. Sem ver o Sol. Abafada por um manto pegajoso de calor que tolhe os movimentos e abafa a resolução.
Meti-me ao caminho para Lisboa, mas quase não cheguei. Adormeci ao volante, dei umas cambalhotas na auto-estrada e, enquanto bailava entre faixas, falhei por um triz um carro lançado na direcção contrária. Fui desencarcerado meia hora depois com umas amolgadelas sem repercussões.
Ontem, voltei ao Alentejo depois de mais uma reportagem com o António. Ainda não estava a passar a ponte e recebi o telefonema da praxe: "Compadre Gonçalo, é só para saber se chegaste bem. Quando sais daqui, só descanso quando te sei em Lisboa..."
São assim os amigos!

Fotografia, claro está, do Antonio Cunha.

sexta-feira, janeiro 24, 2014

A pesquisa epistolar tem os dias contados

Ocorreu-me ontem como já tinha ocorrido no final do ano passado quando me debrucei sobre o espólio do Conde de Arnoso depositado na Biblioteca Nacional: a pesquisa epistolar não tem futuro.
Olhamos para a vida destes homens do século XIX e do século XX – escritores, políticos, empresários, industriais ou jornalistas – e pressentimos a importância dedicada à actualização diária da correspondência e à organização dos arquivos. Colocar em ordem os papéis passava, em grande parte, por organizar o espólio de correspondência recebida, na certeza de que, entre postais, notas, memorandos e cartas, infiltrava-se muita da ideologia de cada agente social e da sua relação com outros protagonistas.
Monteiro Lobato disse em tempos que o género epistolar, mesmo que produzido por escritores, não é literatura. Admito que sim. Mas, para quem rastreia a biografia de um agente social, ele tem tanto ou mais valor do que a obra "oficial" produzida com o intuito directo de legar informação ao futuro. A própria caligrafia (ora rabiscada à pressa, ora delicadamente desenhada) fornece pistas sobre estados de espírito e normas de etiqueta. A decifração de caligrafias é uma especialidade construída com a prática até ao ponto em que os rabiscos do Conde de Arnoso ou a letra indistinta de Oliveira Salazar são processados como se tivessem sido escritos em letra de imprensa.
Quem escreve hoje em suporte de papel? Quem perde tempo a redigir postais, cartas ou outras notas? A comunicação à distância foi tomada pelos meios electrónicos e isso terá impactes na investigação futura. É possível que as mentes mais organizadas arquivem diligentemente o seu correio electrónico ou as suas mensagens escritas em SMS, mas estou certo de que a maioria não o faz. 
Usa-se, envia-se, apaga-se.
No futuro, quando quisermos (se quisermos…) investigar o que movia os políticos da década de 2010 (se alguém quiser pegar em tão maçador tema), não contaremos com este suporte. A caligrafia esfumou-se em bits, sequências de uns e zeros, apagadas num qualquer servidor.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Jornalismo no estirador

Sempre gostei de caricaturistas de jornal. Para lá de Bordalo e Francisco Valença, aprendi a gostar de Baltazar, o menino que trabalhava num café do Chiado e que Leitão de Barros levou para o "Notícias Ilustrado". 
Na década de 1980, guardei tudo o que encontrava de Francisco Zambujal. Ri-me (muito) com António e (menos) com Cid. Hoje, sou fã de Ricardo Galvão e Carlos Laranjeira, que fazem jornalismo no estirador ou no computador.

Na sua pesquisa incansável sobre a história da rádio e do entretenimento em Portugal, Rogério Santos encontrou mais uma peça curiosa para a história da caricatura de imprensa numa "Flama" de 1966. Eram estes os artistas dos "bonecos" nessa altura. 

Revista "Flama", 12/08/1966
(Reproduzido a partir do blogue Indústrias Culturais)

terça-feira, janeiro 07, 2014

«Oui, oui, monsieur! Fuzilei a Mata-Hari»

CRÓNICA REMOVIDA. TEXTO INTEGRAL INCLUÍDO EM PAREM AS MÁQUINAS!, 2015, EDIÇÕES PARSIFAL.

Aguarelas guerreiras


“Futebol em tempo de guerra”. 
Aguarela de Alfredo Roque Gameiro, previsivelmente pintada em 1916 para animar o espírito dos recrutas do Corpo Expedicionário Português, treinados em Tancos e em breve destinados às trincheiras da Flandres na Primeira Grande Guerra. Deverá ser a mais antiga representação conhecida do desporto como factor de incitamento à guerra em Portugal.
Adquirido em 1975 pela Biblioteca Nacional a um alfarrabista, o cartaz tem sido usado regularmente em exposições sobre a história do futebol em Portugal. Foi capa em 2011 do livro "Desporto com Política" do jornalista António Simões, galardoado com o Prémio de Reportagem Norberto Lopes atribuído pela Casa de Imprensa.
Da descrição de João David Zink, respigo a importância do vermelho-sangue do fundo circular, da posição dos soldados em segundo plano, prontos a combater, e do próprio navio à direita. Envergando o verde da bandeira republicana na camisola (ainda não havia selecção nacional, nem Federação), o futebolista já foi lesionado (ligadura no joelho, protecção na mão direita), mas mantém a determinação.

O remate, porém, deve ter ido para fora. A maioria dos sete mil recrutas de Tancos ficou na Batalha de La Lys

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Puxando a brasa à minha sardinha...

... este mês colocámos nas bancas este projecto: http://www.youtube.com/watch?v=AKN1vCyrLqQ



Diferente do normal. Ousado. Sou suspeito, mas gosto bastante do resultado.

Desejo-vos (com ou sem calendário!) um excelente 2014!