domingo, novembro 03, 2013

Jornalismo em azulejo



Este painel de Stuart Carvalhais é intrigante. Foi dedicado ao jornalismo, mas omite deliberadamente a produção de notícias. Representa carinhosamente as fases de composição da publicação e a sua distribuição pelos ardinas, mas não a redacção de textos. A única concessão de Stuart parece ser a crítica à censura, tesoura e navalha que amputam o espaço de manobra redactorial. Os restantes expressam a perspectiva do artista, a sua homenagem aos anónimos que constroem o jornal minutos depois de o jornalista pousar o lápis.

Azulejos "O Jornalismo", Stuart Carvalhais.
Data e paradeiro desconhecidos. Fotografia de Alexandra Silva, na capa de "Jornalistas – Do Ofício à Profissão" (2007).

sexta-feira, novembro 01, 2013

Aldeias Históricas



Deu trabalho, mas valeu a pena. Está nas bancas desde ontem a Edição Especial sobre as Aldeias Históricas de Portugal. Cabe-me agradecer a dedicação, empenho e enorme talento da Helena Abreu, da Patrícia Albuquerque Boléo Tomé, do Jose Seneca, da Anyforms Design de Comunicação, do Antonio Luis Campos, do Nuno Galvao Correia e do Pedro Martins – talentos em estado puro.
O projecto só foi possível também graças ao apoio desinteressado dos revisores científicos Bernardo de Sá-Nogueira, Mário Barroca, Joaquim Eurico Nogueira, Paulo Celso Monteiro, Pedro Sobral de Carvalho, Carlos Alves e Antero Carvalho. Last but not least: foi um prazer trabalhar com a equipa técnica das Aldeias, coordenada pela Dalila Dias. Espero que gostem do resultado!

quarta-feira, outubro 30, 2013

Mamonas falsas, mamonas reais


Às vezes, a realidade supera a ficção.
Anteontem, Fernando Tempera, biólogo do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, publicou um texto bem humorado, na página interna do departamento, gozando com a avidez com que andamos – "nós", os media, o público e até as personalidades da ciência – a tentar encontrar sentido nas formações geológicas do fundo do mar. Desde a omnipresente Atlântida a desenhos alienígenas, a batimetria tem servido para alimentar todo o tipo de loucuras, infelizmente difundidas pelos meios de comunicação.
O texto do Fernando Tempera era este e parecem-me evidentes o sarcasmo, a ironia, o tom ligeiro. O texto circulou rapidamente pelas redes sociais ligadas à arqueologia.


Pelos vistos, não era evidente para todos. Na edição de 29 de Outubro do "Correio dos Açores", a informação foi tratada jornalisticamente. E as "mamonas" do fundo do mar, produto da imaginação do Fernando, transformaram-se em mamonas reais, com direito a duas colunas num periódico respeitável.

Lá vamos, cantando e rindo.

terça-feira, outubro 29, 2013

Manual humorístico para nos apresentar propostas editoriais


(em actualização contínua)

- Não comece a abordagem alegando que os seus textos, as suas fotografias ou as suas ilustrações são muito melhores do que as que têm vindo a ser publicadas. Como reza o ditado polaco, não convém insultar os deuses do rio antes de o ter atravessado.

- Não comece a abordagem revelando que não leu a publicação à qual está a oferecer os seus préstimos. Este é um caso em que a honestidade não joga a seu favor, independentemente do que a sua mãe lhe tiver dito sobre o tema.

- Não proponha temas demasiado abertos (i.e., “Gostava de propor uma reportagem sobre astronomia”), nem demasiado fechados (i.e., “Gostava de propor um texto sobre a relação da chuva de Perseidas com a orientação dos monumentos megalíticos de Ferreira do Alentejo”).

- Não vale a pena propor uma expedição para descobrir as ruínas de Atlântida, que identificou através do Google Earth. Será o décimo proponente desta semana e a história já está tomada!

- Se a sua proposta inclui uma expedição de dois meses, de barco, burro e caminhada, com vinte carregadores e mantimentos abundantes, baseada num mapa amarelecido que descobriu no baú de uma tia velha, dê-nos um pouco de crédito. Somos crédulos, mas NÃO tão crédulos!

- Não se incomode se a sua proposta procura relacionar ruínas maias com profecias do fim do mundo. Caso não tenha reparado, somos uma revista de ciência.

- Se descobriu recentemente um código críptico num texto religioso do século II e pretende dá-lo a conhecer ao mundo através da nossa publicação, leia por favor o passo anterior.

- Não vale a pena propor uma reportagem de quinze dias na Polinésia Francesa disfarçada de investigação sócio-cultural sobre os povos do Pacífico. Tentámos a mesma abordagem quando entrámos para a revista...

- E, sobretudo, tenha paciência connosco. Somos poucos, gostamos do que fazemos, mas nem sempre podemos responder atempadamente a todas as solicitações.

sexta-feira, outubro 11, 2013

As duas vidas do achado arqueológico




Entre as ciências às quais a revista está umbilicalmente ligada, a arqueologia é provavelmente a mais difícil de representar. Ciência de campo, feita de repetição sistemática em contextos frequentemente similares, exige dos leigos forte capacidade de imaginação. Onde o olho destreinado vê ruínas, rochas ou artefactos inofensivos, o olho clínico apercebe-se de estruturas, imagina construções e adivinha funcionalidades.
Não tenho receio de reconhecer que é cada vez mais difícil produzir notícias ou reportagens sobre temas arqueológicos – pelo menos nesta revista. O jornalismo vive de emoção, de novidade, de conclusões absolutas. E, sobretudo, o leitor moderno cansa-se com mais rapidez. Enfada-se com aquilo que lhe parece uma repetição da receita anterior. Grande parte do esforço passa por isso por transformar os achados visualmente insípidos (mas obviamente com valor científico, que nunca está em causa) em representações vívidas. Está fora de questão duplicar fotografias estafadas de campo, repetindo a actividade metódica de escavação, peneiragem, desenho, mais escavação. Publicámos seguramente mais de uma centena de imagens nesse registo ao longo dos doze anos da história da revista. Já não chega!
Por outro lado, a arqueologia precisa de tempo, de reflexão. É rara a descoberta cujas consequências se materializam imediatamente, enquanto os arqueólogos estão no campo. Na maioria dos casos, é já no conforto do laboratório que as descobertas se confirmam, os achados são comparados e as conclusões podem ser afinadas com mais precisão. O que também significa que o trabalho de fotojornalismo neste campo foi passando da escavação para o laboratório, da terra e da poeira para as estantes desarrumadas (sem ofensa!) dos centros de arqueologia. Do ponto de vista da narrativa visual, torna-se ainda pior. Como os paramédicos, somos chamados em cima da hora ou quando já é tarde de mais.
No campo concreto da arqueologia, temos chegado à conclusão que a melhor solução de representação passa pela reconstituição – sempre que o tema o permite, bem-entendido. Partimos do artefacto, do osso, da ruína para a extrapolação da actividade, da morfologia ou da arquitectura. Fazemo-lo com um grau considerável de especulação e essa condição deve ser tornada clara no registo final. E dependemos – hoje como dantes – da colaboração com o arqueólogo, que tira teimas com frequência, emenda, corrige, sugere. O controlo artístico é obviamente nosso, mas viajamos sobre os carris construídos pelo perito. Não entendo outra forma de trabalhar neste contexto.
Nos últimos cinco meses, o arqueólogo António Carlos Valera, da ERA Arqueologia, teve paciência de Job para contribuir para a ilustração do auroque que publicamos na edição de Outubro. Sob os seus conselhos (expressos sempre com bonomia e espírito construtivo), avançámos dos esboços preliminares e descuidados para a arte final. Discutimos dezenas de pormenores, desde a orografia ao clima, desde a posição dos seres humanos face ao animal à proporção entre figuras. O resultado final fica expresso neste vídeo simples.
Serei o primeiro a reconhecer que entre a fotografia do achado e a sua reconstituição medeia agora uma dose maior de interpretação. Concedo o ponto. Mas também creio que muito mais pessoas leram a história porque esbarraram com a ilustração, na revista ou nas redes sociais, e quiseram saber mais.
A minha caixa de correio cheia é um testemunho concreto.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Livros velhos ("Os Fragmentos", Ferreira de Castro)


Os livros velhos têm vida própria. Melhor: têm vidas, várias, correspondentes aos seus múltiplos proprietários. Gente que os leu (ou não leu), que os possuiu, que os arrumou em estantes. Uns mantêm roupagens impolutas – a capa sem fracturas, as páginas imaculadas. Gosto mais dos outros. Dos que manifestamente foram lidos. Marcados. Sublinhados, às vezes. Manchados pela avidez de seguir de página em página, com pouco respeito por quem os lerá de seguida.
Às vezes, no solitário mundo dos alfarrabistas, descobrem-se pequenos tesouros, quase saídos de um conto de Borges. São pequenos testemunhos de apreço. Uma dedicatória a gente que já partiu; um comentário anotado à margem; um vestígio do proprietário transitório que já se esfumou.
Aconteceu-me hoje. Na Livraria Pó dos Livros, última esperança dos lisboetas que pretendem encontrar obras caídas em desuso, comprei o apetecido “Os Fragmentos” de Ferreira de Castro, edição da Guimarães & C., com capa magnífica de João Abel Manta. No interior, sem motivo aparente, alguém guardou um recorte de jornal, do “Diário Popular”, também ele já uma recordação distante. Foi geometricamente dobrado em oito. Conan Doyle veria nisso um indício de uma personalidade meticulosa. Na página amarelecida, lê-se uma reportagem de Daniel Rodrigues, de 11 de Julho de 1987, sobre a Casa-Museu Ferreira de Castro. No verso, há anúncios a marcas que já não existem e a produtos risíveis que já não usamos.
Não tenho qualquer pista sobre o dono, ou antigos donos, deste volume. Não sei quem foram, nem de onde eram. Percebo que devoraram avidamente o livro, mas pouco mais sei. Porque teriam guardado este recorte, esta página, esta edição em particular do “Diário Popular”? O desconhecimento tortura-me.




Dia 29 de Outubro, Universidade Nova de Lisboa


Apareçam!

quinta-feira, outubro 03, 2013

Ilustração científica em Aveiro



Este ano, voltarei a andar por aqui, participando com muito gosto no mestrado de ilustração científica da Universidade de Aveiro, em colaboração com o ilustrador Fernando Correia e restante departamento.

Bons desenhos!

sábado, setembro 21, 2013

Inimigo Público

Do "Inimigo Público", de 20 de Setembro de 2013, uma súmula da nossa identidade confusa nestes anos conturbados de intervenção estrangeira e perda de soberania. Por Mário Botequilha, o maior entre os maiores humoristas do IP, um belo resumo do que nos passa pela cabeça durante um dia.


quarta-feira, setembro 18, 2013

O insulto principal


«Os economistas são talvez imprescindíveis. Cabe-lhes manusear as matérias mais porcas que as sociedades imemorialmente geram: o dinheiro e a usura. Aflige-me é que possam, com as mãos sujas dos dejectos do corpo social, aproximar-se da alma e do espírito das sociedades e contaminá-las com a sua ciência e a sua linguagem de escravos. (…) Têm certamente lugar; intolerável é que lhes permitamos que usurpem o lugar dos poetas e dos guerreiros e que os ostentem por aí, sem escândalo, nos discursos e na lapela.», Manuel António Pina, jornalista, escritor e poeta, “Jornal de Notícias", 29/01/1992

O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou ontem um relatório de reavaliação dos programas de resposta à crise financeira de 2008-09 (aqui), com inevitáveis consequências para a análise das medidas impostas desde o resgate de Abril de 2011 à República Portuguesa. Trata-se de um relatório invulgarmente franco, que reconhece limites à abordagem implantada em países como Portugal e a Grécia, suportada numa rápida reconfiguração orçamental nos primeiros meses do resgate (i), na aposta evidente na consolidação orçamental pelo lado da despesa (ii), na compra de dívida pública pelos bancos centrais (iii) e na famosa busca quimérica da recuperação da confiança como motor da recuperação (iv). Não entrarei nos detalhes do relatório, nem no debate sobre a oportunidade da sua publicação na véspera de nova "visita" dos controleiros internacionais – para esse debate, há seguramente fóruns mais apropriados na Internet.
Interessa-me, ao invés, sublinhar esta cultura, muito americana, de reconhecimento público do erro e de admissão inequívoca das responsabilidades. Dir-me-ão que é a hipocrisia suprema, face aos estragos já provocados – será. Mas, olhando para o nosso quintal pantanoso, feito de casos de polícia, de irresponsabilidade moral e de incompetência cavalar, admitamos alguma inveja.
Por cá, se a impunidade que resulta da gestão danosa ou incompetente é insultuosa, a incapacidade generalizada para esboçar um pedido público de desculpa ou assumir um grão de responsabilidade pelo gigantesco descarrilamento da economia é porventura o insulto mais vexatório. José Diogo Quintela brincou há alguns anos com esta atitude tão portuguesa de assobiar para o lado enquanto se procuram responsáveis, dizendo que este é o país onde a culpa é sempre “um bocadinho de todos, todos temos um pedacinho de culpa”.
Ora, quando todos têm culpa, a culpa não é de ninguém. Ninguém falseou contas. Ninguém burlou o Estado. Ninguém falhou auditorias. Ninguém assinou de cruz contratos irresponsáveis de financiamento. 
Ninguém.

terça-feira, setembro 03, 2013

Os jornais de chuteiras nos anos trinta


Arquivo fotográfico do Jornal "O Século", ANTT
http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=1019553

Aproxima-se um jogo decisivo da selecção nacional. Noutros estabelecimentos, vai ler todo o tipo de prognósticos sobre as probabilidades de vitória, a influência do clima, o espírito guerreiro dos matarruanos de Belfast, a influência da sorte ou as previsões do bruxo de Fafe. Aqui, proponho-lhe outro exercício – um esforço de imaginação.
(Não lhe peço para fechar os olhos porque, convenhamos, seria estúpido e perderia o resto do texto!) Mas venha comigo à década de 1930.
Os jornais, colossos de receitas e de circulação, começam aos poucos a ser minados pela rádio, mais democrática, que chega a qualquer lar e não requer literacia nem a compra de qualquer edição. É gratuita e o seu charme espalha-se por milhares de casas portuguesas como um vírus contagioso.
Em Lisboa e no Porto, os grandes jornais procuram respostas. O futebol é a solução óbvia, pois cativa milhões de pessoas. A selecção dá os primeiros passos. Começou a disputar jogos em 1921. Aliás, perde-os regularmente e com estrondo, para grande espanto da nação. A alma portuguesa, a raça dos Cabrais, as ínclitas gerações não resistem à passagem da fronteira. Mas pouco importa. Para os jornais, a selecção é a pátria de chuteiras, na feliz expressão de Nelson Rodrigues.
De acordo com "Jornais Diários Portugueses do Século XX", de Mário Matos e Lemos (2006), em 1928, no espaço de poucas semanas, o “Diário de Notícias” e “O Século” inventam um novo serviço prestado aos leitores (os marketing wizzs chamar-lhe-iam uma diversificação de plataformas). Olhe novamente para a imagem no início deste texto. Data de 1936 e parece mais um ajuntamento no Rossio, em Lisboa, palco de mil manifestações e protestos no início do século. A multidão comprime-se. Os carros circulam com dificuldade. Os eléctricos sufocam face à massa compacta. O mar de chapéus de coco não avança nem recua. Na verdade, todos aqueles homens (desafio-o a encontrar uma senhora na imagem) estão parados, imóveis, em sobressalto. A selecção joga com a Áustria e a sucursal de “O Século” transmite o jogo por altifalante, com base nos despachos emitidos pelo seu repórter no Estádio do Lima, no Porto, que os passa a um rapaz-estafeta que, por sua vez, corre até ao posto telefónico mais próximo e informa os colegas de Lisboa.
Mais acima, na Avenida da Liberdade, há outra multidão, presa às mesmas notícias, mas emitidas de outra forma pelo DN. Mais moderno, este instalou um placard eléctrico na fachada do jornal, com mais de mil lâmpadas, que acendem e apagam consoante as incidências do jogo. Para anunciar as peripécias da bola, o jornal acciona as lâmpadas e a multidão entra em transe, à espera da mensagem escrita que virá de seguida. Um golo? Uma lesão? Informação do intervalo ou do fim do jogo? As notícias de época descrevem comoções. Desmaios. Desfalecimentos. Não é para menos.
Portugal volta a perder um jogo, desta vez por 2-3.

PAULO BENTO
Prometi-lhe um exercício de imaginação, que não ficou esquecido. Avançamos dois anos, até 1938.
Portugal já perdeu com a selecção suíça em Maio por 2-1, mas a esperança futebolística é como a minha fé na roleta: renova-se todas as semanas. Há novo desafio marcado para Lausannne. Vão Azevedo, Pinga, Peyroteo e Gaspar Pinto. Os melhores dos melhores. A flor de uma geração. Desta vez, é que será.
Pujante, “O Século”, que “dá ao desporto o mais desinteressado apoio”, preparou nova novidade, antecipando o advento da televisão. O jornal de João Pereira da Rosa encomendou ao conhecido “operador Leandri, técnico de grande visão”, a filmagem do jogo. Leandri tem apenas uma câmara, num ponto fixo distante do relvado, mas o episódio marca a emergência da imagem animada no nosso quotidiano desportivo. E o jornal contratou o melhor, o homem que filmou os astros brasileiros no Campeonato do Mundo de 1934.
"O Século", 08/11/1938
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

No entanto, as imagens demoram mais de dois dias a chegar da Suíça. Vêm no mesmo hidro-avião das fotografias que o jornal usou no dia 8 de Novembro para ilustrar a crónica. Durante a partida, repete-se a rotina. O Rossio lotado. O mar de chapéus e gabardinas, alheios à chuva, presos ao único altifalante da praça, que transmite secamente informação de quinze em quinze minutos. A dada altura, a multidão imobiliza-se. Ecoa um som de estática no altifalante, prenúncio de novidade. Uma voz seca, impessoal, neutra, rompe o silêncio.
“.... Informação de Lausanne.... 48 minutos.... Golo da Suíça.....”
Minutos depois do acontecimento propriamente dito, lá, bem longe, nas montanhas helvéticas, as palavras gelam milhares de portugueses no Rossio e na Constituição. Até final, por mais preces que sejam lançadas contra o aparelho metálico, não chega a informação salvadora. Toda aquele gente seguirá para casa, amorfa, murcha. Para a próxima é que será.
Agora, imagine o nosso seleccionador. Pense em Paulo Bento, cansado da refrega, do combate táctico, do esforço de orientar 11 jogadores na batalha atlética com a Irlanda do Norte. Neste ano de 1938, o antecessor de Paulo Bento chama-se Cândido de Oliveira e tem duas missões que começam exactamente no momento em que o árbitro sinaliza o fim do jogo.
Primeiro, por artes mágicas, Cândido de Oliveira terá de se esquecer que foi ele quem treinou a selecção, pois cabe-lhe ditar a crónica para “O Século” na qualidade de enviado-especial. Fá-lo certamente com o coração a sangrar. A ladainha, essa, é intemporal:
“Portugal perdeu apenas por 1 a 0.”
“Este resultado pode ser considerado honroso para a equipa portuguesa, que deu uma réplica enérgica e briosa.”
“O ponto helvético foi obtido quando o nosso grupo tinha apenas dez homens em campo.”
“Os suíços actuaram no seu próprio campo e perante 30.000 compatriotas. Há sua diferença!”
"O Século", 07/11/1938
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
O jornal reserva-lhe, porém, ainda outro serviço. Já em Lisboa, com as imagens de Leandri, Cândido de Oliveira desempenha nova função. “O Século” manda-o para o São Luís e para o Central, em Lisboa, e depois para o São João Cine, no Porto, onde o seleccionador exibe o documentário em salas de cinema e comenta as incidências do jogo, graças à distribuição da Sonoro Filmes, “casa de justo e sólido prestígio”. Suporta então estoicamente os comentários do público anónimo, que ali foi ver as imagens animadas. Ouve as perguntas. As dúvidas. As recriminações. Num rigoroso exclusivo para Portugal e Colónias.
Agora, imagine Paulo Bento no mesmo papel.