quarta-feira, novembro 27, 2013
Relíquia
Acabadinho de chegar do alfarrabista (Companhia dos Livros).
Não digo que está quentinho, porque foi impresso em 1928 e já teve tempo de esfriar, mas é uma preciosidade. Sobretudo pelo ensaio inédito de Reinaldo Ferreira, repórter X.
sábado, novembro 16, 2013
Os ladrões de crianças do Diário de Notícias
CRÓNICA REMOVIDA. TEXTO INTEGRAL INCLUÍDO EM PAREM AS MÁQUINAS!, 2015, EDIÇÕES PARSIFAL.
domingo, novembro 03, 2013
Jornalismo em azulejo
Este
painel de Stuart Carvalhais é intrigante. Foi dedicado ao jornalismo, mas omite
deliberadamente a produção de notícias. Representa carinhosamente as fases de
composição da publicação e a sua distribuição pelos ardinas, mas não a redacção
de textos. A única concessão de Stuart parece ser a crítica à censura, tesoura
e navalha que amputam o espaço de manobra redactorial. Os restantes expressam a
perspectiva do artista, a sua homenagem aos anónimos que constroem o jornal
minutos depois de o jornalista pousar o lápis.
Azulejos "O
Jornalismo", Stuart Carvalhais.
Data e
paradeiro desconhecidos. Fotografia de Alexandra Silva, na capa de
"Jornalistas – Do Ofício à Profissão" (2007).
sexta-feira, novembro 01, 2013
Aldeias Históricas
Deu trabalho, mas valeu a
pena. Está nas bancas desde ontem a Edição Especial sobre as Aldeias Históricas
de Portugal. Cabe-me agradecer a dedicação, empenho e enorme talento da Helena Abreu, da Patrícia Albuquerque Boléo Tomé, do Jose Seneca, da Anyforms Design de Comunicação, do Antonio Luis Campos, do Nuno Galvao Correia e do Pedro Martins – talentos em estado puro.
O projecto só foi
possível também graças ao apoio desinteressado dos revisores científicos Bernardo de Sá-Nogueira, Mário Barroca, Joaquim Eurico
Nogueira, Paulo Celso Monteiro, Pedro Sobral de Carvalho, Carlos Alves e
Antero Carvalho. Last but not least: foi um prazer trabalhar com a equipa
técnica das Aldeias, coordenada pela Dalila Dias. Espero que gostem do
resultado!
quarta-feira, outubro 30, 2013
Mamonas falsas, mamonas reais
Às vezes, a realidade supera a ficção.
Anteontem, Fernando Tempera, biólogo do Departamento de Oceanografia e
Pescas da Universidade dos Açores, publicou um texto bem humorado, na página
interna do departamento, gozando com a avidez com que andamos – "nós",
os media, o público e até as personalidades da ciência – a tentar encontrar
sentido nas formações geológicas do fundo do mar. Desde a omnipresente
Atlântida a desenhos alienígenas, a batimetria tem servido para alimentar todo
o tipo de loucuras, infelizmente difundidas pelos meios de comunicação.
O texto do Fernando Tempera era este e parecem-me evidentes o sarcasmo, a
ironia, o tom ligeiro. O texto circulou rapidamente pelas redes sociais ligadas
à arqueologia.
Pelos vistos, não era evidente para todos. Na edição
de 29 de Outubro do "Correio dos Açores", a informação foi tratada
jornalisticamente. E as "mamonas" do fundo do mar, produto da
imaginação do Fernando, transformaram-se em mamonas reais, com direito a duas
colunas num periódico respeitável.
Lá vamos, cantando e rindo.
terça-feira, outubro 29, 2013
Manual humorístico para nos apresentar propostas editoriais
(em
actualização contínua)
- Não comece a abordagem alegando que os seus textos, as suas
fotografias ou as suas ilustrações são muito melhores do que as que têm vindo a
ser publicadas. Como reza o ditado polaco, não convém insultar os deuses do rio
antes de o ter atravessado.
- Não comece a abordagem revelando que não leu a
publicação à qual está a oferecer os seus préstimos. Este é um caso em que a
honestidade não joga a seu favor, independentemente do que a sua mãe lhe tiver dito sobre o tema.
- Não proponha temas demasiado abertos (i.e., “Gostava
de propor uma reportagem sobre astronomia”), nem demasiado fechados (i.e., “Gostava
de propor um texto sobre a relação da chuva de Perseidas com a orientação dos
monumentos megalíticos de Ferreira do Alentejo”).
- Não vale a pena propor uma expedição para descobrir
as ruínas de Atlântida, que identificou através do Google Earth. Será o décimo proponente
desta semana e a história já está tomada!
- Se a sua proposta inclui uma expedição de dois meses, de barco, burro e caminhada, com vinte carregadores e mantimentos abundantes, baseada num mapa amarelecido que descobriu no baú de uma tia velha, dê-nos um pouco de crédito. Somos crédulos, mas NÃO tão crédulos!
- Se a sua proposta inclui uma expedição de dois meses, de barco, burro e caminhada, com vinte carregadores e mantimentos abundantes, baseada num mapa amarelecido que descobriu no baú de uma tia velha, dê-nos um pouco de crédito. Somos crédulos, mas NÃO tão crédulos!
- Não se incomode se a sua proposta procura relacionar
ruínas maias com profecias do fim do mundo. Caso não tenha reparado, somos uma
revista de ciência.
- Se descobriu recentemente um código críptico num
texto religioso do século II e pretende dá-lo a conhecer ao mundo através da
nossa publicação, leia por favor o passo anterior.
- Não vale a pena propor uma reportagem de quinze dias
na Polinésia Francesa disfarçada de investigação sócio-cultural sobre os povos
do Pacífico. Tentámos a mesma abordagem quando entrámos para a revista...
- E, sobretudo, tenha paciência connosco. Somos
poucos, gostamos do que fazemos, mas nem sempre podemos responder atempadamente
a todas as solicitações.
sexta-feira, outubro 11, 2013
As duas vidas do achado arqueológico
Entre
as ciências às quais a revista está umbilicalmente ligada, a arqueologia é
provavelmente a mais difícil de representar. Ciência de campo, feita de
repetição sistemática em contextos frequentemente similares, exige dos leigos
forte capacidade de imaginação. Onde o olho destreinado vê ruínas, rochas ou
artefactos inofensivos, o olho clínico apercebe-se de estruturas, imagina
construções e adivinha funcionalidades.
Não
tenho receio de reconhecer que é cada vez mais difícil produzir notícias ou
reportagens sobre temas arqueológicos – pelo menos nesta revista. O jornalismo vive de emoção, de
novidade, de conclusões absolutas. E, sobretudo, o leitor moderno cansa-se com
mais rapidez. Enfada-se com aquilo que lhe parece uma repetição da receita anterior.
Grande parte do esforço passa por isso por transformar os achados visualmente
insípidos (mas obviamente com valor científico, que nunca está em causa) em
representações vívidas. Está fora de questão duplicar fotografias estafadas de
campo, repetindo a actividade metódica de escavação, peneiragem, desenho, mais
escavação. Publicámos seguramente mais de uma centena de imagens nesse registo
ao longo dos doze anos da história da revista. Já não chega!
Por
outro lado, a arqueologia precisa de tempo, de reflexão. É rara a descoberta
cujas consequências se materializam imediatamente, enquanto os arqueólogos
estão no campo. Na maioria dos casos, é já no conforto do laboratório que as
descobertas se confirmam, os achados são comparados e as conclusões podem ser
afinadas com mais precisão. O que também significa que o trabalho de
fotojornalismo neste campo foi passando da escavação para o laboratório, da
terra e da poeira para as estantes desarrumadas (sem ofensa!) dos centros de
arqueologia. Do ponto de vista da narrativa visual, torna-se ainda pior. Como
os paramédicos, somos chamados em cima da hora ou quando já é tarde de mais.
No
campo concreto da arqueologia, temos chegado à conclusão que a melhor solução
de representação passa pela reconstituição – sempre que o tema o permite,
bem-entendido. Partimos do artefacto, do osso, da ruína para a extrapolação da
actividade, da morfologia ou da arquitectura. Fazemo-lo com um grau
considerável de especulação e essa condição deve ser tornada clara no registo
final. E dependemos – hoje como dantes – da colaboração com o arqueólogo,
que tira teimas com frequência, emenda, corrige, sugere. O controlo artístico é
obviamente nosso, mas viajamos sobre os carris construídos pelo perito. Não
entendo outra forma de trabalhar neste contexto.
Nos
últimos cinco meses, o arqueólogo António Carlos Valera, da ERA Arqueologia,
teve paciência de Job para contribuir para a ilustração do auroque que
publicamos na edição de Outubro. Sob os seus conselhos (expressos sempre com
bonomia e espírito construtivo), avançámos dos esboços preliminares e
descuidados para a arte final. Discutimos dezenas de pormenores, desde a
orografia ao clima, desde a posição dos seres humanos face ao animal à
proporção entre figuras. O resultado final fica expresso neste vídeo simples.
Serei
o primeiro a reconhecer que entre a fotografia do achado e a sua reconstituição
medeia agora uma dose maior de interpretação. Concedo o ponto. Mas também creio
que muito mais pessoas leram a história porque esbarraram com a ilustração, na
revista ou nas redes sociais, e quiseram saber mais.
A
minha caixa de correio cheia é um testemunho concreto.
quinta-feira, outubro 10, 2013
Livros velhos ("Os Fragmentos", Ferreira de Castro)
Os
livros velhos têm vida própria. Melhor: têm vidas, várias, correspondentes aos seus
múltiplos proprietários. Gente que os leu (ou não leu), que os possuiu, que os arrumou
em estantes. Uns mantêm roupagens impolutas – a capa sem fracturas, as páginas
imaculadas. Gosto mais dos outros. Dos que manifestamente foram lidos. Marcados.
Sublinhados, às vezes. Manchados pela avidez de seguir de página em página, com
pouco respeito por quem os lerá de seguida.
Às
vezes, no solitário mundo dos alfarrabistas, descobrem-se pequenos tesouros, quase
saídos de um conto de Borges. São pequenos testemunhos de apreço. Uma dedicatória
a gente que já partiu; um comentário anotado à margem; um vestígio do proprietário
transitório que já se esfumou.
Aconteceu-me
hoje. Na Livraria Pó dos Livros, última esperança dos lisboetas que
pretendem encontrar obras caídas em desuso, comprei o apetecido “Os Fragmentos” de
Ferreira de Castro, edição da Guimarães & C., com capa magnífica de João Abel
Manta. No interior, sem motivo aparente, alguém guardou um recorte de jornal,
do “Diário Popular”, também ele já uma recordação distante. Foi geometricamente dobrado
em oito. Conan Doyle veria nisso um indício de uma personalidade meticulosa. Na página amarelecida, lê-se uma reportagem de Daniel Rodrigues, de 11 de Julho
de 1987, sobre a Casa-Museu Ferreira de Castro. No verso, há anúncios a marcas
que já não existem e a produtos risíveis que já não usamos.
Não
tenho qualquer pista sobre o dono, ou antigos donos, deste volume. Não sei quem foram,
nem de onde eram. Percebo que devoraram avidamente o livro, mas pouco mais sei.
Porque teriam guardado este recorte, esta página, esta edição em particular do “Diário
Popular”? O desconhecimento tortura-me.
quinta-feira, outubro 03, 2013
Ilustração científica em Aveiro
Este ano, voltarei a andar por aqui, participando com muito gosto no mestrado de ilustração científica da Universidade de Aveiro, em colaboração com o ilustrador Fernando Correia e restante departamento.
Bons desenhos!
sexta-feira, setembro 27, 2013
Urbano, Nasser e o Cairo em 1956
CRÓNICA REMOVIDA. TEXTO INTEGRAL INCLUÍDO EM PAREM AS MÁQUINAS!, 2015, EDIÇÕES PARSIFAL.
sábado, setembro 21, 2013
Inimigo Público
Do "Inimigo Público", de 20 de Setembro de 2013, uma súmula da nossa identidade confusa nestes anos conturbados de intervenção estrangeira e perda de soberania. Por Mário Botequilha, o maior entre os maiores humoristas do IP, um belo resumo do que nos passa pela cabeça durante um dia.
quinta-feira, setembro 19, 2013
Lendo o jornal
"Lendo o jornal",
José Malhoa, óleo sobre tela, 1905.
Museu José Malhoa, Caldas da
Rainha.
Gosto muito desta pintura e do
jogo de luzes entre o interior (talvez uma barbearia) e o exterior. Gosto também
deste acto cada vez mais raro de desfrutar da leitura de um jornal.
Como muito bem disse o Nuno Ramos de Almeida no jornal I:
quarta-feira, setembro 18, 2013
O insulto principal
«Os economistas são talvez imprescindíveis. Cabe-lhes manusear as
matérias mais porcas que as sociedades imemorialmente geram: o dinheiro e a
usura. Aflige-me é que possam, com as mãos sujas dos dejectos do corpo social,
aproximar-se da alma e do espírito das sociedades e contaminá-las com a sua
ciência e a sua linguagem de escravos. (…) Têm certamente lugar; intolerável é
que lhes permitamos que usurpem o lugar dos poetas e dos guerreiros e que os
ostentem por aí, sem escândalo, nos discursos e na lapela.», Manuel António
Pina, jornalista, escritor e poeta, “Jornal de Notícias", 29/01/1992
O
Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou ontem um relatório de reavaliação
dos programas de resposta à crise financeira de 2008-09 (aqui),
com inevitáveis consequências para a análise das medidas impostas desde o
resgate de Abril de 2011 à República Portuguesa. Trata-se de um relatório
invulgarmente franco, que reconhece limites à abordagem implantada em países
como Portugal e a Grécia, suportada numa rápida reconfiguração orçamental nos
primeiros meses do resgate (i), na aposta evidente na consolidação orçamental
pelo lado da despesa (ii), na compra de dívida pública pelos bancos centrais
(iii) e na famosa busca quimérica da recuperação da confiança como motor da
recuperação (iv). Não entrarei nos detalhes do relatório, nem no debate
sobre a oportunidade da sua publicação na véspera de nova "visita"
dos controleiros internacionais – para esse debate, há seguramente fóruns mais
apropriados na Internet.
Interessa-me,
ao invés, sublinhar esta cultura, muito americana, de reconhecimento público do
erro e de admissão inequívoca das responsabilidades. Dir-me-ão que é a
hipocrisia suprema, face aos estragos já provocados – será. Mas, olhando para o
nosso quintal pantanoso, feito de casos de polícia, de irresponsabilidade moral
e de incompetência cavalar, admitamos alguma inveja.
Por
cá, se a impunidade que resulta da gestão danosa ou incompetente é insultuosa,
a incapacidade generalizada para esboçar um pedido público de desculpa ou
assumir um grão de responsabilidade pelo gigantesco descarrilamento da economia
é porventura o insulto mais vexatório. José Diogo Quintela brincou há alguns
anos com esta atitude tão portuguesa de assobiar para o lado enquanto se
procuram responsáveis, dizendo que este é o país onde a culpa é sempre “um
bocadinho de todos, todos temos um pedacinho de culpa”.
Ora, quando todos têm culpa, a culpa não é de ninguém. Ninguém falseou
contas. Ninguém burlou o Estado. Ninguém falhou auditorias. Ninguém assinou de
cruz contratos irresponsáveis de financiamento.
Ninguém.
Ninguém.
sábado, setembro 14, 2013
O papa português ou a brincadeira que envergonhou França Borges
CRÓNICA REMOVIDA. TEXTO INTEGRAL INCLUÍDO EM PAREM AS MÁQUINAS!, 2015, EDIÇÕES PARSIFAL.
terça-feira, setembro 03, 2013
Os jornais de chuteiras nos anos trinta
![]() |
| Arquivo fotográfico do Jornal "O Século", ANTT http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=1019553 |
Aproxima-se um
jogo decisivo da selecção nacional. Noutros estabelecimentos, vai ler todo o
tipo de prognósticos sobre as probabilidades de vitória, a influência do clima,
o espírito guerreiro dos matarruanos de
Belfast, a influência da sorte ou as previsões do bruxo de Fafe. Aqui,
proponho-lhe outro exercício – um esforço de imaginação.
(Não lhe peço
para fechar os olhos porque, convenhamos, seria estúpido e perderia o resto do
texto!) Mas venha comigo à década de 1930.
Os jornais,
colossos de receitas e de circulação, começam aos poucos a ser minados pela
rádio, mais democrática, que chega a qualquer lar e não requer literacia
nem a compra de qualquer edição. É gratuita e o seu charme espalha-se por
milhares de casas portuguesas como um vírus contagioso.
Em Lisboa e no
Porto, os grandes jornais procuram respostas. O futebol é a solução óbvia, pois cativa milhões de pessoas. A selecção dá os primeiros passos. Começou a
disputar jogos em 1921. Aliás, perde-os regularmente e com estrondo, para
grande espanto da nação. A alma portuguesa, a raça dos Cabrais, as ínclitas
gerações não resistem à passagem da fronteira. Mas pouco importa. Para os
jornais, a selecção é a pátria de chuteiras, na feliz expressão de Nelson
Rodrigues.
De acordo com "Jornais Diários Portugueses do Século XX", de Mário Matos e Lemos (2006), em 1928, no
espaço de poucas semanas, o “Diário de Notícias” e “O Século” inventam um novo
serviço prestado aos leitores (os marketing wizzs chamar-lhe-iam uma diversificação de plataformas).
Olhe novamente para a imagem no início deste texto. Data de 1936 e parece mais
um ajuntamento no Rossio, em Lisboa, palco de mil manifestações e protestos no
início do século. A multidão comprime-se. Os carros circulam com dificuldade.
Os eléctricos sufocam face à massa compacta. O mar de chapéus de coco não
avança nem recua. Na verdade, todos aqueles homens (desafio-o a encontrar uma
senhora na imagem) estão parados, imóveis, em sobressalto. A selecção joga com a Áustria e a sucursal de “O Século” transmite o jogo por altifalante, com base
nos despachos emitidos pelo seu repórter no Estádio do Lima, no Porto, que os
passa a um rapaz-estafeta que, por sua vez, corre até ao posto telefónico mais
próximo e informa os colegas de Lisboa.
Mais acima, na
Avenida da Liberdade, há outra multidão, presa às mesmas notícias, mas emitidas de outra forma pelo DN. Mais moderno, este instalou um placard eléctrico na fachada do jornal, com mais de mil lâmpadas, que acendem e apagam consoante as incidências do jogo. Para anunciar as peripécias da bola, o
jornal acciona as lâmpadas e a multidão entra em transe, à espera da mensagem escrita que virá
de seguida. Um golo? Uma lesão? Informação do intervalo ou do fim do jogo? As
notícias de época descrevem comoções. Desmaios. Desfalecimentos. Não é para
menos.
Portugal volta a perder um jogo, desta vez por 2-3.
Portugal volta a perder um jogo, desta vez por 2-3.
PAULO BENTO
Prometi-lhe um
exercício de imaginação, que não ficou esquecido. Avançamos dois anos, até
1938.
Portugal já
perdeu com a selecção suíça em Maio por 2-1, mas a esperança futebolística é
como a minha fé na roleta: renova-se todas as semanas. Há novo desafio marcado para
Lausannne. Vão Azevedo, Pinga, Peyroteo e Gaspar Pinto. Os melhores dos
melhores. A flor de uma geração. Desta vez, é que será.
Pujante, “O
Século”, que “dá ao desporto o mais desinteressado apoio”, preparou nova
novidade, antecipando o advento da televisão. O jornal de João Pereira da Rosa
encomendou ao conhecido “operador Leandri, técnico de grande visão”, a filmagem
do jogo. Leandri tem apenas uma câmara, num ponto fixo distante do relvado,
mas o episódio marca a emergência da imagem animada no nosso quotidiano
desportivo. E o jornal contratou o melhor, o homem que filmou os astros
brasileiros no Campeonato do Mundo de 1934.
![]() |
| "O Século", 08/11/1938 (a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) |
No entanto, as
imagens demoram mais de dois dias a chegar da Suíça. Vêm no mesmo hidro-avião
das fotografias que o jornal usou no dia 8 de Novembro para ilustrar a crónica.
Durante a partida, repete-se a rotina. O Rossio lotado. O mar de chapéus e
gabardinas, alheios à chuva, presos ao único altifalante da praça, que
transmite secamente informação de quinze em quinze minutos. A dada altura, a
multidão imobiliza-se. Ecoa um som de estática no altifalante, prenúncio de
novidade. Uma voz seca, impessoal, neutra, rompe o silêncio.
“.... Informação
de Lausanne.... 48 minutos.... Golo da Suíça.....”
Minutos depois
do acontecimento propriamente dito, lá, bem longe, nas montanhas helvéticas, as
palavras gelam milhares de portugueses no Rossio e na Constituição. Até final,
por mais preces que sejam lançadas contra o aparelho metálico, não chega a
informação salvadora. Toda aquele gente seguirá para casa, amorfa, murcha. Para
a próxima é que será.
Agora, imagine o
nosso seleccionador. Pense em Paulo Bento, cansado da refrega, do combate
táctico, do esforço de orientar 11 jogadores na batalha atlética com a Irlanda
do Norte. Neste ano de 1938, o antecessor de Paulo Bento chama-se Cândido de
Oliveira e tem duas missões que começam exactamente no momento em que o árbitro
sinaliza o fim do jogo.
Primeiro, por
artes mágicas, Cândido de Oliveira terá de se esquecer que foi ele quem treinou
a selecção, pois cabe-lhe ditar a crónica para “O Século” na qualidade de
enviado-especial. Fá-lo certamente com o coração a sangrar. A ladainha, essa, é
intemporal:
“Portugal perdeu
apenas por 1 a 0.”
“Este resultado
pode ser considerado honroso para a equipa portuguesa, que deu uma réplica
enérgica e briosa.”
“O ponto helvético
foi obtido quando o nosso grupo tinha apenas dez homens em campo.”
“Os suíços
actuaram no seu próprio campo e perante 30.000 compatriotas. Há sua diferença!”
![]() |
| "O Século", 07/11/1938 (a partir de microfilme da Biblioteca Nacional) |
O jornal
reserva-lhe, porém, ainda outro serviço. Já em Lisboa, com as imagens de
Leandri, Cândido de Oliveira desempenha nova função. “O Século” manda-o para o
São Luís e para o Central, em Lisboa, e depois para o São João Cine, no Porto,
onde o seleccionador exibe o documentário em salas de cinema e comenta as
incidências do jogo, graças à distribuição da Sonoro Filmes, “casa de justo e
sólido prestígio”. Suporta então estoicamente os comentários do público
anónimo, que ali foi ver as imagens animadas. Ouve as perguntas. As dúvidas. As
recriminações. Num rigoroso exclusivo para Portugal e Colónias.
Agora, imagine
Paulo Bento no mesmo papel.
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