quarta-feira, agosto 28, 2013

Como um Jogo do Benfica Chegou à Mesa de Salazar


Albino André e Mário Matos Lemos, "Diário de Notícias", 04/09/1965
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)


No número do centenário do Diário de Notícias, publicado em 29 de Dezembro de 1964, o jornalista Mário Matos e Lemos lamentava não ter, ao fim de sete anos de carreira, um «episódio daqueles cheios de graça, que tantos dos meus colegas de trabalho têm para contar, para deleite de leitores ou ouvintes». Falava cedo de mais. Como o sermão de John Donne prenunciava em Por quem os Sinos dobram, é sempre perigoso mandar perguntar por quem dobram os sinos, não vá dar-se o caso de estes repicarem pelo próprio. Sete meses depois destas palavras, Matos e Lemos tinha de facto uma história para contar. Inesperada e divertida – excepto, talvez, para o seu protagonista principal.   

Não consta que António Oliveira Salazar tivesse preferências futebolísticas vincadas ou soubesse sequer o nome dos principais futebolistas da nação, mas, nos primeiros dias de Setembro de 1965, o ditador foi forçado a embrenhar-se num tema futebolístico. Em pano de fundo, estavam as relações de Portugal com a União Soviética (URSS), um dossier que o presidente do Conselho nunca quisera abrir e que se via agora forçado a decidir, perante o interesse do mundo. Salazar lembrava-se bem do sarilho que as notícias internacionais de 1962 a 1964 provocaram, quando jornais norte-americanos, equatorianos, franceses, brasileiros e argentinos ("Franco Nogueira e o Reconhecimento da República Popular da China", Marco António Martins, 2010, pg.250-251) sugeriram que Lisboa se preparava para reconhecer o governo de Pequim. E agora caía nova “bomba” na sua mesa, proveniente da fonte mais improvável.
Tudo começou com um conjunto de notícias de jornal promovidas por um operador turístico que não imaginava onde se estava a meter e cujas palavras indiciavam uma espantosa e inédita abertura diplomática entre dois regimes antagónicos. Como de costume, tudo terminaria com uma tarde passada na PIDE e um inquérito conduzido pelo próprio director da Polícia Internacional de Defesa do Estado, Fernando Silva Pais, por causa de “um certo estado emocional do público”...
"A Bola", postal de Albino André para Vítor Santos, 06/09/1965

O TURISMO, O FUTEBOL E OS PAULITEIROS DE MIRANDA
Toda a história concentra-se na figura de Albino da Conceição André, um homem prático, de negócios. Com Celestino Domingues, fundara em 1958 a agência de viagens TurExpresso, com sede na Avenida Duque de Loulé em Lisboa, e conseguira a importante representação em Portugal da InTourist, agencia soviética de viagens. Aos 38 anos, sem convicções políticas marcadas, este homem nascido na freguesia de Pessegueiro, concelho de Pampilhosa da Serra, movimentava-se com à-vontade para lá da “cortina de ferro”, apesar das restrições às viagens entre os dois países.
Com bons contactos na direcção benfiquista presidida por Adolfo Vieira de Brito, Albino André fora, em meados de Agosto de 1965, como de costume, à secretaria do Sport Lisboa e Benfica, que frequentava com frequência, pois organizava muitas viagens do clube “encarnado” para as competições no exterior. Em conversa amena com Gastão Silva e Coelho Virgílio, dirigentes do futebol do clube, revelou que se deslocaria à União Soviética nos dias seguintes. Sempre cioso de novas fontes de receita, um dos dirigentes desafiou-o a preparar uma digressão do clube à URSS. Albino André registou, mas não promoveu qualquer acto concreto nesse sentido quando chegou a Moscovo. Ironicamente (sempre de acordo com a sua reconstituição dos acontecimentos), foi abordado na capital russa por Victor Prozorskov, director da InTourist, que lhe fez uma proposta ousada. Prozorzkov sugeria uma ampla digressão desportiva e cultural de portugueses à URSS, garantindo que a popularidade do futebol do Benfica, dos fadistas Amália Rodrigues, Fernanda Maria e Carlos Ramos e até do grupo folclórico Pauliteiros de Miranda galgara fronteiras e chegara às neves russas. Como prova, o dirigente soviético exibia, sorridente, discos de Amália e Fernanda Maria.
Albino André não cabia em si de contente. Nem tivera de se esforçar para agregar boas vontades. No dia seguinte, foi convocado para uma reunião com Prozorzkov, o vice-presidente da Federação Soviética dos Desportos, um funcionário do Ministério das Comunicações, o presidente da transportadora Aeroflot, o treinador do Dínamo de Moscovo e um responsável político para as relações com a Europa Ocidental. Era óbvio que os soviéticos tinham concluído (erradamente) que, para chefiar uma agência de viagens internacional, Albino André era também um agente político bem posicionado em Lisboa. Como se veria depois, não era esse o caso.
Os soviéticos convidaram o futebol do Benfica a visitar o país, propondo a realização de dois jogos com o campeão russo dessa época, o Spartak de Moscovo, em Outubro de 1965 e em Maio de 1966. Anunciaram também que não colocariam qualquer entrave se a delegação portuguesa quisesse viajar em voo da TAP.
Albino André regressou a Lisboa e, no dia 3 de Setembro, deu conta aos dirigentes do Benfica da vontade russa que, face ao anunciado acordo em vista (que atribuía a receita da bilheteira do jogo de Lisboa para o clube da Luz), anuíram, propondo o dia 6 ou 10 de Novembro como data para o primeiro encontro. Semanas antes, o Benfica recebera o Real Madrid e encaixara quatro mil contos em receitas de bilheteira. Previa-se encaixe idêntico para receber os colossos da Rússia, pelo que o clube emitiu uma credencial que garantia que o director da TurExpresso representava o Benfica e aguardou por novo contacto.

AS NOTÍCIAS
As notícias circulam rapidamente em meios pequenos e, em Lisboa, comentava-se o êxito diplomático do fundador da TurExpresso. O rumor da digressão chegou aos ouvidos de José Pereira da Costa, chefe de redacção do “Diário de Notícias”, que delegou no jornalista Mário de Matos e Lemos a entrevista a Albino André.

"Diário de Notícias", 04/09/1965
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

Satisfeito com o seu êxito diplomático, Albino André assumiu que o acordo era proveitoso para todas as partes e anunciou-o abertamente. No sábado, 4 de Setembro, o “Diário de Notícias” anunciava, em manchete: “O BENFICA VAI À RÚSSIA E O SPARTAK (DE MOSCOVO) VEM A LISBOA”.
Na peça, Matos Lemos lembrava que as oportunidades de visita aos países para lá da “cortina de ferro” limitavam-se às provas desportivas e aos congressos científicos, mas, se mesmo a Espanha ferozmente anticomunista começava a abrir as portas ao turismo soviético e planeava inclusivamente uma exibição de tourada em Moscovo, Portugal provavelmente seguiria o mesmo rumo. A agência TurExpresso tinha então o monopólio do tráfego turístico com os países do Leste europeu e o seu proprietário anunciava o vasto interesse soviético pelas divisas ocidentais, gabando o esforço de construção de infra-estruturas da URSS para acolher os novos visitantes. Albino André garantia ainda que, para além do futebol do Benfica, os russos queriam conhecer o fado e folclore português. Em confidência off the record (só mais tarde recordada por Matos Lemos no livro de 1986 “O 25 de Abril”, pg. 154), Albino André garantia que os soviéticos convidavam inclusivamente Oliveira Salazar a visitar o país e garantiam que a sua segurança não seria colocada em causa.
Algo se passou nos serviços de censura nestes primeiros dias de Setembro. No inquérito da PIDE, Albino André garantiu que o “Diário de Notícias” o informou no dia 3 que a peça não fora autorizada a sair, mas, no dia seguinte, ela foi publicada sem cortes. Aproveitando a embalagem, Fernando Soromenho, responsável pela página desportiva do “Diário de Lisboa”, telefonou imediatamente a Albino André, mal leu a primeira página da publicação rival. Vespertino, o DL tinha ainda algumas horas antes do fecho. Por isso, nova peça foi produzida, juntando informação de contexto: a receita deveria rondar os 4 mil contos e pertenceria ao Benfica; o convite partira dos soviéticos; estava autorizada a chegada a Moscovo de um avião da TAP.

"Diário de Lisboa", 04/09/1965
(arquivo da Fundação Mário Soares)

Com os meios diplomáticos em polvorosa face a tão estranha mudança de protocolo na relação com a URSS, os jornais continuaram a saga no domingo. Quer o “Diário de Notícias”, quer o “Diário de Lisboa” anunciavam que o primeiro jogo seria já em Novembro, no dia 6 ou 10, e que tudo deveria estar tratado na semana seguinte, mal Albino André voltasse à União Soviética. Os porta-vozes do Benfica confirmavam a aproximação e garantiam que a TurExpresso representava o clube.
Na segunda-feira, a paciência oficial esgotou-se. Enquanto o “Diário de Lisboa” garantia que cada jogador da comitiva receberia 100 contos de prémio, o trissemanário “A Bola”, com algum desplante, publicava na primeira página um postal de Albino André para Vítor Santos, chefe de redacção, remetido de Moscovo. Na mensagem, o agente turístico garantia que, “se o Benfica estiver de acordo, do que não duvido, pois as condições financeiras são excelentes, poderá dar como certa a vinda da equipa a esta bonita cidade”. No corpo da notícia, o jornal garantia ter recebido a missiva no dia 18 de Agosto, mas só agora (depois de publicada na imprensa de referência) sentia coragem para a trazer à estampa.
Nessa mesma tarde, Albino André foi mandado comparecer na sede da PIDE, onde foi interrogado por Silva Pais (cf. “Ida do Sport Lisboa e Benfica à URSS”, inquérito da PIDE/DGS ao industrial Albino André, Arquivo Salazar, PC-77 cx. 593, subd. 110, f. 380-390, na Torre do Tombo).

O CONTEXTO MAIS AMPLO
Em 1965, Portugal não tinha relações diplomáticas com a União Soviética, nem com os restantes países do Bloco de Leste, à excepção do governo jugoslavo, reconhecido em 1961 — e entretanto a representação diplomática em Belgrado fora suspensa. Dos países comunistas, Salazar aceitara apenas encetar relações diplomáticas com Cuba. Os contactos com os restantes países limitavam-se aos compromissos internacionais, como as reuniões científicas ou as provas desportivas, mas algo estava a mudar na percepção soviética de Portugal e do seu império. A motivação, segundo o volume de memórias de Franco Nogueira ("Salazar", 1977) e a mais estruturada biografia ("Salazar", 2010) de Filipe Ribeiro de Meneses, passava pela luta surda entre os Estados Unidos, a URSS e a China pela capacidade de influência em Angola, país vital no xadrez do Atlântico Sul e cujo destino estava então em aberto, face aos vários movimentos de libertação em conflito aberto com a potência colonial.
O incidente da TurExpresso não foi a primeira tentativa atabalhoada de diálogo soviético. Marcello Mathias, ministro português dos Negócios Estrangeiros entre 1958 e 1961 e embaixador português em Paris durante 24 anos, conta na sua eloquente recolha de correspondência com Salazar (“Correspondência Marcello Mathias/Salazar, 1947-1968”, de 1984, pg. 646) que, em 1963, numa reunião em Paris, Serguey Vinogradof, embaixador soviético na capital francesa, lhe perguntou de chofre: “Porque não existem relações diplomáticas entre os nossos dois países?”. Em Janeiro de 1964, a pergunta repetiu-se, na presença do ministro francês Louis Joxe. Em ambas as situações, Marcello Mathias avisou Lisboa, que recusou responder.
Seguiu-se o incidente da TurExpresso, que Salazar prontamente sanaria com a proibição da digressão, mas o caso teve uma repercussão extraordinária, dada a publicidade que lhe foi dada. Até aqui, as aproximações soviéticas tinham sido silenciosas para a opinião pública. Neste caso, a abordagem fora ruidosa. 
Mesmo com mais uma recusa, os russos não pararam. Na recolha de Matos Lemos, realizada no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros (opus cit. pg. 154-157), há informação de outras tentativas de aproximação do Bloco Leste em Jacarta, em 1965, em Beirute em 1967, em Brasília, igualmente em 1967, onde o jornalista Manuel Figueira, de “O Século”, foi abordado pelo embaixador checoslovaco, e através de contactos consulares com embaixadores romenos em várias capitais como Viena, Estocolmo, Bona, Atenas e Helsínquia, que aproveitavam um inédito acordo comercial luso-romeno para sugerir o alargamento das relações de Portugal com o Leste da Europa. Já com Marcelo Caetano no poder, em 1969, os russos voltaram a tentar uma aproximação, propondo a abertura de um escritório da agência noticiosa Novosti em Lisboa. E entre 1971 e 1972 emergiram novas perguntas de responsáveis diplomáticos do Leste a embaixadores portugueses. Salazar e Caetano recusaram sempre.

EPÍLOGO
Interrogado na sede da PIDE, Albino André contou todos os episódios da história, tendo o cuidado de “não se lembrar” de qual o dirigente do Benfica que mais insistira com a ideia da digressão. Assumiu o que disse em todas as entrevistas, discordando apenas da manchete do “Diário de Notícias” e afirmando ingenuamente que não via como poderia ser negativo um acordo que gerava receitas para todos os intervenientes. Silva Pais irritou-se particularmente com os elogios de Albino André aos esforços soviéticos em matéria de turismo, mas o responsável da TurExpresso lá foi dizendo que eram óbvios para quem, como ele, visitava a URSS com frequência.
Na verdade, Albino André nunca imaginara que os russos o tinham tomado por um interlocutor de peso da política portuguesa, nem tinha reflectido sobre a ausência de relações diplomáticas com a URSS. Para ele, havia negócios a fazer, face ao novo interesse soviético pelas visitas a Portugal. Pelo sim, pelo não, foi garantindo que cumpria a lei, informava as autoridades sempre que recebia pedidos de portugueses para visitar a URSS ou informação de soviéticos em visita por Portugal. Considerava aliás a PIDE “digna dos maiores elogios, como publicamente o tem demonstrado” e reconhecia que, se tivesse imaginado de antemão “o estado emocional” criado pelas notícias no público, não teria falado à imprensa. Foi libertado ainda nesse dia.
No dia 7, o Ministério dos Negócios Estrangeiros proibiu a digressão e informou a direcção do Benfica que, no dia 8, emitiu um comunicado à imprensa, garantindo nada ter acordado com os soviéticos. Os russos não ouviriam o fado, nem assistiriam aos Pauliteiros de Miranda.
"Diário de Lisboa", 08/09/1965
(arquivo da Fundação Mário Soares)

Matos Lemos recordou o caso com algum detalhe no seu volume "25 de Abril", editado em 1986. Cometeu algumas imprecisões (trocou os anos de 1965 por 1964, confundiu o nome do responsável da InTourist e antecipou em quatro anos as funções de Albino André como presidente da associação de agências viagens), mas proporcionou um curioso retrato do que sucedera em Setembro de 1965. Culto, com vasta obra publicada, exerceu uma longa carreira no jornalismo, celebrizando-se como enviado-especial a alguns dos principais conflitos portugueses, em Goa e Angola. José Pedro Castanheira apelidou-o de "jornalista de regime" e "adepto confesso de Marcello Caetano" (aqui), sublinhando a proximidade de Matos Lemos com várias figuras do regime, como Rui Patrício ou Moreira Baptista, com os quais privara no curso de História da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou.
Começou a carreira jornalística em 1957, aos 24 anos, na agência noticiosa ANI, ao serviço da qual foi correspondente no Porto e subchefe de redacção. Em 1964, foi convidado para o "Diário de Notícias", onde permaneceu dois curtos anos, antes de voltar novamente à ANI. Em 1971, aceitou o cargo de subdirector do "Diário do Norte", mas a experiência durou pouco e terminou com estrondo. Um ano depois, concorreu ao cargo de conselheiro de imprensa, tendo sido aceite na embaixada de Roma, onde acumulou funções como correspondente da RTP na capital italiana até à revolução de Abril.
Foi autor de várias obras sobre política e jornalismo e traduziu muitas outras para português. Na Biblioteca Nacional, constam 44 volumes da sua autoria, incluindo um interessante ensaio, em edição de autor, publicado um ano antes do caso TurExpresso, no qual o autor advogava o fim imediato da censura à imprensa. Até 1974, era, sem sombra de dúvidas, um homem próximo do Estado Novo.
Albino André continuou à frente dos destinos da TurExpresso sem grandes transtornos. Quatro anos depois, em 1969, foi escolhido para liderar o Grémio Nacional das Agências de Viagem e Turismo, cargo que ocupou até 1974.
Não consta que tenha voltado a tentar levar o Benfica, ou qualquer outro clube português, para lá da “cortina de ferro”. Não fosse o público reagir... emocionalmente à notícia.


OUTRAS HISTÓRIAS DO JORNALISMO PORTUGUÊS


[não incluídas em Parem as Máquinas, Parsifal, 2015]


segunda-feira, agosto 19, 2013

Outros tempos


Houve um tempo em que era possível juntar quatro craques da bola numa fotografia sem ter de pedinchar autorizações aos clubes e aos empresários — os únicos agentes conhecidos vendiam seguros. Sem ter de mendigar autorização à Federação para usar o relvado do Jamor. Sem ter de negociar acordos imbecis com o X, que só vai se o Y não for porque ele é patrocinado pelo sponsor rival, com o W, que só vai se a fotografia for tirada exactamente a meia distância entre o Porto e Lisboa, ou com o Z, que até gostava de aceder, mas está impedido pelo presidente de confraternizar.
Era o tempo dos bigodes farfalhudos e dos cabelos cortados no barbeiro uma vez por mês. Das camisolas pirosas, justas e iguais para todos. Dos equipamentos sem nomes de patrocinadores e iguais de ano para ano. Das bancadas de cimento, sem nomes de cervejas. Das botas pretas e indistintas, sem tons dourados ou amarelos. Das bolas que ensopavam com a chuva. Dos jogadores tratados pelo apelido. E sobretudo dos craques como Nené, Costa, Oliveira e Matos, que não amuavam, nem remetiam os jornalistas para as suas páginas de Facebook e Twitter.

Gazeta dos Desportos, Setembro de 1981. 
(A fotografia deve ser do Lobo Pimentel, mas não juro.)

terça-feira, julho 09, 2013

sábado, junho 08, 2013

A entrevista diplomática, e pouco jornalística, de Leitão de Barros com Dona Amélia


Leitão de Barros em fotografia do "Diário Popular", 24/01/1956
(Arquivo da Hemeroteca Digital)
Enquanto subia a ladeira do Castelo de Bellevue, nos arredores de Paris, Leitão de Barros, jornalista, cineasta, agora director-artístico do semanário “O Século Ilustrado”, repetia para si as mesmas palavras. Sua Majestade, a Rainha Dona Amélia, não recebe jornalistas. Não os recebe desde que aqui se exilou, logo após o casamento do filho em 1913, e não os recebia antes, quando viveu nos arredores de Londres, para onde a família real rumou após os traumáticos acontecimentos de 1910. E, no entanto, ali estava ele.
Não era exactamente verdadeiro o pensamento do cineasta, mas, valha a verdade, a realidade factual nunca detivera Leitão de Barros. Em Outubro de 1937, Joaquim Manso, director do "Diário de Lisboa", viajara acidentalmente na mesma carruagem de comboio de Dona Amélia de Orleães, numa viagem entre Munique e Lindau. A curiosidade levou depois o jornalista a pedir acesso à residência privada da rainha, onde conversou durante uma hora com a monarca, tendo o cuidado de se apresentar como "republicano e jornalista", mas sem interesse em "interrogar, alarmar, sondar o seu dilecto silêncio", apenas trocar impressões sobre o bastião português nos arredores de Paris. Essa, sim, fora a primeira entrevista da rainha a um jornal português, poucos meses depois da morte de Afonso Costa, radicado igualmente em Paris e poucos dias depois de mais um aniversário da República – o 27.º.

"Diário de Lisboa", 26 de Outubro de 1937
(Arquivo da Fundação Mário Soares)
Sem se prender com esses detalhes, Leitão de Barros continuava a reflectir. “Mais importante do que ser jornalista é, portanto, preciso ter amizades ou simpatias seguras para chegar até lá”, notou o repórter. No caso dele, que estava em Paris em estágio pago pelo Instituto de Alta Cultura para aprender com os nomes mais famosos do cinema francês, valera-lhe a intervenção de uma “grande e nobre amiga de todos os portugueses, que reside em Paris” e que pediu a Dona Amélia para o receber, vencendo assim “barreiras [onde], às vezes, esbarram as chancelarias”. Quem seria? Leitão de Barros nunca o disse e teve até a ousadia de escrever que encarara “esta visita como um fait divers para as horas vagas da missão profissional” que o levara a França. Curiosamente, também Joaquim Manso beneficiara da "intervenção de alguém a quem a minha amizade vota culto da maior sinceridade e admiração", pois a interlocutora "amaciou a meu favor rígidas prevenções e cautelas".
Estávamos em Novembro de 1938 e a segunda guerra mundial estava à porta. Quase três décadas depois da implantação da república, o Estado Novo dava por fim alguns sinais de aproximação à rainha-mãe, então com 73 anos e com uma vida tão preenchida de acidentes e traumas que seriam suficientes para duas ou três biografias. Em 1937, na Exposição Mundial de Paris, o governo português convidara-a explicitamente a visitar o Pavilhão de Portugal, convite a que a rainha acedeu. Mas não emitiu comentários sobre a situação portuguesa até conceder uma primeira entrevista à imprensa portuguesa, a Joaquim Manso, em Outubro de 1937. Seguia-se agora “O Seculo” através de Leitão de Barros. E um ano mais tarde, em 1939, seria Armando Boaventura a conduzir mais uma conversa com a monarca em Versalhes para o "Diário de Notícias".
Homem extravagante, com um acentuado gosto cénico, Leitão de Barros deixou-se esmagar pelo cenário do castelo, pelo hall esplendoroso, pelos quadros salvos pela condessa de Sabugosa, pelas fotografias da realeza europeia, uns conhecidos, outros “vagos soberanos de países distantes que não conheço”, pelo criado que lhe abriu a porta e pelo mordomo que o guiou. Desde o início da conversa, que começou pelas cinco horas da tarde e prolongou-se até às oito da noite, Dona Amélia controlou o rumo do diálogo. O próprio jornalista, numa admissão honesta, confessou não saber “como começou a conversa. Eu não disse nada”. A viúva de Dom Carlos tinha um papel e desempenhou-o perfeitamente, deslumbrando o repórter com algumas confissões e, à boa maneira saloia que quase sempre nos caracterizou ao longo do século XX, com o desvelo produzido no interlocutor pela facilidade com que se exprimia em português e pronunciava “Salazar” como se estivesse no Chiado e pelo apreço com que falava do nosso solarengo país.

"O Século Ilustrado", 10/12/1938
(arquivo da Biblioteca Nacional)

O LEGADO
Como em qualquer entrevista moderna, as intenções da soberana excediam a publicação de um relato frívolo, mero testemunho da vida que ainda lhe corria nas veias. Dona Amélia tinha uma agenda em mente e assumiu contas a ajustar, inclusivamente com o próprio jornal no qual Leitão de Barros colaborava. Leitão de Barros distinguiu “O Seculo” antigo (presumivelmente republicano e fortemente crítico da família real ou, por outras palavras, o jornal de Magalhães Lima e Silva Graça) de “O Seculo” actual. Dona Amélia concordou e sublinhou o seu apreço por João Pereira da Rosa, então director e proprietário.
Avançou depois para o seu legado. A propósito da remoção da Fábrica do Gás (o popular gasómetro) que fora instalada em 1886 junto da Torre de Belém, criticou veementemente os ministros da monarquia que, apesar dos seus esforços e das “horas e horas [que passara] apaixonada por essa maravilha da arte tão nossa”, tinham aprovado a instalação do monstro, que perturbava o conjunto cénico dos Descobrimentos. “Zanguei-me, esgotei influências, macei toda a gente, e nada!”, disse a Rainha. “Vejo agora que esse extraordinário ministro Duarte Pacheco a vai desafrontar!”
O gasómetro de Lisboa em 1889, revista Occidente, n.º 375
(a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

O gasómetro agitava a política da cidade em 1931. Caricatura de Francisco Valença. Sempre Fixe, 1931
(a partir de arquivo da Hemeroteca de Lisboa)
Reportagem sobre os inconvenientes do gasómetro com fotografias de Joshua Benoliel
"Ilustração Portuguesa", 1912, n.º 316
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)


A mesma estratégia foi usada pela rainha para comentar um dos seus sucessos – a criação em 1892 do Real Instituto Bacteriológico de Lisboa, que se tornaria depois o Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, com responsabilidades no combate e investigação de doenças infecto-contagiosas. Dona Amélia reivindicou para si a condução política do processo, uma vez mais contra a inércia dos políticos da monarquia. “Era uma vergonha, todo o mundo tinha já institutos com as ideias novas e nós estávamos parados”. A rainha conta o lobby que conduziu junto de um influente ministro (presume-se pela informação que seria José Dias Ferreira), encurralando-o numa carruagem de comboio, até este prometer que agiria. E, mesmo ao aceitar, este teria confessado aos seus pares, de acordo com a versão régia: “A Senhora Dona Amélia não pede dinheiro para toilettes, nem para viagens, nem para festas. Tem lá aquela mania do tal instituto. (…) Ao menos, enquanto faz isso, está entretida!”
A conversa seguiu o mesmo rumo, com a rainha a reivindicar para si a inspiração para as viagens reais à província (as expedições, como então se chamavam) e a intenção de imitar a viagem real inglesa à Índia com uma visita protocolar à África portuguesa. “O Paço murmurou: eram hábitos novos. E, nos jornais, tudo servia para nos ridicularizar”, contou.
O ajuste de contas não foi propriamente direccionado para jornalistas ou para políticos republicanos. Alguns teriam talento, admitiu Dona Amélia. “Olhe o Rafael Bordalo Pinheiro. A esse reconhecia-lhe talento – muito talento mesmo. E esse, quando nos atacava, fazia-o com arte. E nós não nos ofendíamos. El-Rei, artista como era, sorria. Outros... Enfim! Esquecer!” A rainha apontava o dedo à fraqueza da monarquia constitucional e dos seus líderes para amparar a Casa de Bragança.
Um último legado foi corrigido nesta entrevista, e Dona Amélia parece ter feito questão de o sublinhar com veemência – a partida para o exílio. Aos 73 anos, a rainha mantinha a combatividade de sempre e lembrou que, durante o seu reinado, só por uma vez obrigara alguém a desmentir um boato cruel. Qual? Os Braganças não tinham fugido para Gibraltar. Segundo a rainha, ao entrar nas embarcações da Ericeira a 5 de Outubro de 1910, a família real cuidara que se deslocava para o Porto. “E muito menos o iate tomou o rumo do sul por haver a bordo duas rainhas a chorar. Não! Honra à memória da rainha Maria Pia e justiça – só justiça – a mim. Não chorámos, não pedimos, não tivemos medo!”



"O Seculo", 08/12/1938
(a partir de microfilme do arquivo da Biblioteca Nacional)

O PRESENTE
Para lá dos remoques à história antiga, Dona Amélia usou a entrevista de Leitão de Barros para enviar nova mensagem a Lisboa, aproximando-se do regime português e das suas figuras na expectativa de um epílogo como o que veio a ocorrer em 1945, com o convite para a sua visita ao solo nacional. Para tal, Dona Amélia sabia exactamente o que dizer. Na verdade, já o ensaiara um ano antes, na conversa com Joaquim Manso, durante a qual fez questão de cumprimentar o presidente Carmona, "a quem devo atenções que muito me penhoram", e o "sr. dr. Salazar, que tanto admiro. Como os acontecimentos teriam seguido um rumo diferente se a monarquia, arrastada nas desesperadas lutas dos partidos, houvesse tido um estadista da sua têmpera a guardá-la, a fortalecê-la, a livrá-la de perigos". 
Neste novo ensaio com Leitão de Barros, Dona Amélia elogiou o ministro Duarte Pacheco e a “figura nobre do cardeal patriarca”, mas foi sobretudo para Oliveira Salazar que deixou os seus elogios mais prolongados. Lembrando a Leitão de Barros o seu tio Marques Leitão, que fora professor dos príncipes, Dona Amélia disse: “Tenho prazer em ver a continuação destas famílias, cujos chefes conheci de perto... no outro Portugal. Quis Deus guardar-me para assistir agora a este ressurgimento. É um sonho! Vocês são bem mais felizes do que nós fomos! Ah! Com este Salazar, com este Salazar, onde teria chegado El-Rei Dom Carlos I! Que Deus o proteja”
O espalhafato de Leitão de Barros em caricatura de Francisco Valença, Sempre Fixe, 1931
(A partir de arquivo da Hemeroteca Digital)
Era a frase que ainda ressoava nos ouvidos de Leitão de Barros, noite dentro, ao abandonar o castelo de Bellevue. Nos dias seguintes, terminou o estágio em Paris e regressou a Lisboa. No dia 8 de Dezembro, uma quinta-feira, “O Século” publicou a sua extensa prosa em três páginas, um privilégio que costumava ser guardado apenas para discursos do chefe de Estado. Ainda não satisfeito, repetiu exactamente o mesmo texto dois dias depois, na edição de “O Século Ilustrado”, com 16 páginas de fotografias. Em destaque, claro, a portugalidade da monarca e o tributo a Salazar, com um evidente cuidado para não abordar a pretensão monárquica ao controlo do regime.
Menos de um ano depois, deflagrou nova guerra na Europa, interrompendo temporariamente a aproximação de Dona Amélia ao Estado Novo. Mesmo assim, sabe-se que o regime português intercedeu pela rainha quando o seu castelo foi ocupado por um dignitário alemão. A embaixada portuguesa em Paris reclamou soberania sobre aquele espaço, permitindo à rainha reocupá-lo sem intromissões. Logo após a guerra, Dona Amélia veio a Portugal, mas não concedeu entrevistas em solo português. O repórter Marques Gastão chegou a disfarçar-se de moço de hotel para conseguir acesso ao mesmo estabelecimento hoteleiro onde Dona Amélia pernoitou (em história que espero contar aqui), mas debalde.
Leitão de Barros voltaria a dispor de um “exclusivo” com a rainha. No dia 1 de Setembro de 1951, já livre dos jornais e profundamente vinculado ao mundo da imagem e do cinema, o cineasta registou em filme algumas imagens do quotidiano da rainha em Bellevue. Cerca de um mês depois, Dona Amélia morreu. Tinha 86 anos.

sábado, junho 01, 2013

O fim do jornalista-aviador que nunca voara


Fotografia publicada em O Século, de 2 de Abril de 1925
(Arquivo de microfilme da Biblioteca Nacional

       Se o jornalista Mário Graça fosse dado a pressentimentos macabros, talvez tivesse desconfiado que as cartas lhe reservavam um destino aziago naquela que se previa ser a terceira grande aventura da aviação portuguesa. Depois da conquista do Atlântico Sul em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, seguira-se a extraordinária viagem Lisboa-Macau em 1924 de Sarmento de Beires e Brito Pais, a bordo do Pátria, com a colaboração do alferes-mecânico Manuel Gouveia. Agora, neste fim de Inverno de 1925, o capitão Pinheiro Correia, o tenente Sérgio da Silva e o mesmo Gouveia juntavam esforços para vencer África. Estava na calha o raide Lisboa-Guiné e O Século, dirigido então por Trindade Coelho e com redacção chefiada por Rocha Júnior, dedicava à história a sua manchete e o seu melhor repórter da área, Mário Graça.
       Filho de um inspector das escolas móveis falecido dois anos antes na ilha da Madeira, Mário Graça tinha apenas 26 anos, mas já era um veterano. Colaborara com A Ordem, O Dia, A Imprensa de Lisboa, entre outros periódicos efémeros, e entrara para os quadros de O Século em 1918, com 19 anos. Acompanhava com particular paixão a aventura da aviação portuguesa, embora nunca tivesse voado. Fugira a sete pés da navegação depois de saber que o irmão falecera no naufrágio do veleiro Pêro de Alenquer. Virando as costas à aventura trágico-marítima, a opção natural que se lhe deparou foi a aventura aérea.
       Solteiro, Mário Graça tinha aspirações literárias. Publicara poemas no Notícias de Gouveia e na edição nocturna de O Século. Tinha uma novela pronta a publicar e juntara-se, com outros colegas, num Grupo de Amigos de Fialho, uma associação destinada a recolher fundos para mandar construir um monumento de homenagem ao escritor Fialho de Almeida.

MAUS AUGÚRIOS, 25 DE FEVEREIRO E 7 DE MARÇO DE 1925
       No terreno, o Breguet 15 e a sua brava tripulação passavam por sucessivas dificuldades. Inicialmente prevista para 25 de Fevereiro, a viagem fora interrompida pelo mau tempo que se fazia sentir na região de Lisboa. Entre 6 e 7 de Março, a tripulação voltou a preparar o motor Renault do Noiva, que ganhara a alcunha por ter sido «pintado com uma tinta prateada, que recorda a toilette argente de uma virgem», garantia O Século, embora o avião se chamasse oficialmente Santa Filomena. Ao contrário dos raides anteriores, o hidro-avião juntava a cruz de Ourique à cruz de Cristo e a insígnia latina In Hoc Signo Vincis (Por este sinal conquistarás) à fuselagem.
       No dia 6, Pinheiro Correia telefonara para Mário Graça e avisara-o da partida iminente pelas 6h30 do dia 7. Agendou-se inclusivamente uma recepção na Presidência da República, durante a qual Teixeira Gomes entregou uma carta simbólica aos aviadores, destinada ao governador da Guiné, Velez Caroço.
       A tiritar de excitação e de frio, Mário Graça esteve enregelado a partir das duas horas da manhã à porta do Campo Aeronáutico da Amadora para não perder pitada dos preparativos da viagem. A essa hora, os aviadores dormiam ainda o sono dos justos, mas era grande a vontade de se antecipar à concorrência e contar a aventura antes dos colegas.
       Depois de a madrugada romper, à medida que a tripulação preparava o hidro-avião, sucederam-se os actos comemorativos. À boa maneira portuguesa, representantes da Marinha, do Ministério da Guerra, do Governo Civil de Lisboa e do Presidente da República acotovelavam-se para saudar os aviadores. A tripulação tomou o lugar, preparou-se para a largada ao som de A Portuguesa, mas... o motor não arrancou. Mau prenúncio outra vez. O alferes Gouveia deu sugestões ao piloto e o engenho, por fim, deu sinal de vida. Levantou voo, seguido de outras aeronaves que acompanharam o início da viagem. Em gesto de camaradagem, Sarmento de Beires seguiu-os até Alcácer do Sal, mas o tempo piorava a olhos vistos.
Três dos intérpretes desta história, reunidos por coincidência na mesma fotografia,
três anos antes do acidente de Barcarena: Sarmento de Beires, Piçarra e Gouveia.
Ilustração Portuguesa, 1922, n.º 862
(recuperado a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
    A aeronave avançava às apalpadelas face ao nevoeiro, o pior inimigo da aviação nesta era, o mesmo obstáculo que fizera tombar Sacadura Cabral no mar do Norte cinco meses antes. A chuva, fria e miúda, entrava pela carlinga, e gelava os aviadores. A viagem prosseguiu por mais cem quilómetros em terrível sacrifício e, por pouco, o Noiva/Santa Filomena não esbarrou na serra do Caldeirão, um gigante escondido pelo véu nublado. Sem perspectiva de melhoria meteorológica, e com todo o Mediterrâneo pela frente, Pinheiro Correia tomou a decisão correcta de aterrar perto da praia da Quarteira. O vento, porém, não dava quartel e o avião quase caiu a pique. Acabou por deter-se num campo lavrado, partindo uma asa, mas por sorte quase não provocou lesões nos tripulantes.


Fotografia extraída de http://coronelpinheirocorrea.tosterego.com/Aviador.html

       Faminta e gelada, a tripulação viu ao longe um cavaleiro que se aproximava. Era Domingos Abraços, o correspondente de O Século na Quarteira, que lhes garantiu comida e abrigo. Depois, levou-os à estação, onde os esperava uma viagem de comboio de doze longas horas até à Lisboa. À chegada, não havia vestígios da pompa que os vira partir. «Nem representantes do governo, nem camaradas, nem amigos», escreveu Mário Graça, ele sim, presente, como sempre. Logo ali, Pinheiro, Silva e Gouveia decidiram que voltariam a tentar, mal o temporal amainasse e a aeronave estivesse reparada. Mário Graça testemunhou o acordo e escreveu mais um exclusivo para O Século.

BARCARENA, 27 DE MARÇO DE 1925
       Na manhã do dia 26, os aviadores, agora na companhia do mecânico Manuel António, fizeram nova tentativa de partida, desta vez sem pré-aviso, nem pompa. Uma vez mais, porém, o tempo não ajudou. Sopravam sobre a Amadora rajadas violentas de vento. Pinheiro Correia lembrou-se do adágio que, então como agora, marcava a aviação: cada descolagem é opcional, mas a aterragem é obrigatória. Decidiu adiar a partida por mais algumas horas, para a madrugada do dia 27. O relato de O Século, o último que Mário Graça escreveria, mantinha a confiança nas capacidades dos aviadores para empreenderem a difícil jornada.
       Por fim, a meteorologia ajudou o projecto. O dia 27 amanheceu sem uma nuvem no horizonte, com o Sol brilhante e vento contido. O tenente José Carlos Pissarra ofereceu-se para subir aos céus no seu Breguet 13 e verificar as condições de voo para os colegas, mas, por duas vezes, o motor da sua aeronave não deu sinais de vida, em jeito de mau prenúncio. Enquanto os mecânicos se debruçavam sobre esta aeronave, o capitão Pais Ramos descolou noutro Breguet e fez as verificações necessárias, aterrando de seguida. Inconsolável, Pissarra garantia que conseguia colocar o seu hidro-avião a funcionar. Convidou o capitão Castilho a acompanhá-lo, mas este, premonitoriamente, declinou. A aeronave não lhe inspirava confiança e o facto de estar cunhada com o número 13 e de se tratar de uma sexta-feira atraía o seu lado supersticioso. Pissarra segurou o crucifixo de ouro que a esposa lhe oferecera e garantiu que era protecção suficiente para a viagem. Convidou o tenente Luís Caldas a subir. O outro lugar vago na aeronave destinava-se a um repórter.
      Em princípio, a vaga seria para Sebastião Cardoso, do Diário de Notícias. Ele e Félix Correia, do Diário de Lisboa, tinham feito a apologia do investimento na Força Aérea e gozavam de contactos importantes entre os aviadores. Mal o piloto designou Sebastião, porém, os restantes repórteres no aeródromo barafustaram veementemente. A cacha jornalística caberia a um rival. «Entre eles, um se distinguiu pelo empenho com que procurava levar-me a ceder-lhe o lugar: Mário Graça», contou Sebastião Cardoso numa crónica publicada no dia 29 de Dezembro de 1964, no centenário do Diário de Notícias. Graça era persistente e pressionara igualmente o pessoal da Força Aérea. Carlos da Cunha Almeida, segundo comandante do campo da Amadora, confidenciou a Sebastião Cardoso que havia uma segunda vaga a bordo de um Vickers, onde, ao contrário do Breguet, não tinha de voar deitado no chão do engenho. O repórter do DN anuiu e trocou de lugar.

A evocação de Sebastião Cardoso no Diário de Notícias de 29/12/1964
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
     Feliz, Mário Graça correu para ocupar a vaga no seu baptismo de voo. Vestindo à pressa o passa-montanhas, Sebastião Cardoso entrou para o Vickers. O Breguet 13 voltou a demorar a pegar, mas, por fim, descolou. O Vickers, esse, não saía do solo, levando Sebastião Cardoso a lamentar precocemente o seu azar na dança dos lugares.
     O Breguet seguiu o Santa Filomena até à serra da Arrábida na companhia de outra aeronave. Depois, durante longos minutos, ficou apenas o silêncio. No Campo Aeronáutico da Amadora, começava a pressentir-se uma desgraça, sobretudo depois de a primeira aeronave regressar, sem notícias de Pissarra. Sebastião Cardoso viu ao longe as luzes de uma ambulância e pressentiu uma tragédia. Por fim, chegou um telefonema de Barcarena que ninguém queria atender.
       O motor do Breguet 13 voltara a falhar no ar. Pissarra tentou equilibrá-lo, mas não evitou uma dança aérea macabra, à medida que o hidro-avião se despenhava e o piloto tentava estabilizá-la. Amadeu Pereira da Conceição, em testemunho publicado na revista ABC de 22 de Dezembro de 1928, acrescentaria mais uma nota de reportagem: «Parece também que Pissarra se voltou para trás e gritou qualquer coisa para o tenente Caldas, talvez um aviso, embora isto seja simplesmente uma impressão deste último e não uma certeza.»
      Exactamente às 10h15 (pelo cronómetro do piloto, imobilizado nessa posição), o hidro-avião caiu nos arredores de Barcarena, nos terrenos do agricultor José Sinel de Cordes, sob o olhar angustiado de Etelvina Rosa, que ali fora buscar água, e do trabalhador rural José Paulino. O embate foi de tal modo violento que os dois tenentes partiram as correias que os ligavam à máquina e foram cuspidos para fora da carlinga. Sob os destroços, com dezenas de ferros cravados no corpo e fracturas no crânio, pernas e nariz, ficou o corpo do infeliz jornalista. O motor fez um buraco de mais de metro no solo, segundo contava a edição do dia 28 de Março de O Século, sob a manchete: «A GRANDE DESGRAÇA DE ONTEM.»

O Século, 28 de Março de 1925
(Arquivo de microfilme da Biblioteca Nacional)

       Pissarra morreu de imediato. Com múltiplas fracturas, Caldas e Graça foram socorridos e levados para o Hospital de São José. Aos 27 anos, depois de dez anos de serviço nas Forças Armadas, Pissarra era um dos mais hábeis aviadores portugueses. Ao despenhar-se em Barcarena, deixava viúva e dois filhos.
O tenente Pissarra

       Igualmente maltratado, Luís Caldas estava a um dia de completar o seu trigésimo aniversário. Cumpria o sétimo ano de serviço. Fora um futebolista distinto no Sport Lisboa e Benfica, tendo chegado a jogar uma temporada na primeira categoria, sob comando do lendário Cosme Damião.
       Os dois feridos pioraram nos dias seguintes. António Gil, o chefe dos electricistas de O Século, ainda foi escolhido para uma transfusão sanguínea, noticiada como um rejuvenescimento do malogrado jornalista, mas, na madrugada do dia 1 de Abril, quatro dias depois do acidente, Mário Graça morreu nas urgências do hospital lisboeta. O tenente Luís Caldas viria igualmente a sucumbir às feridas provocadas pelo desastre.
     «A morte aprazara encontro comigo mas Mário Graça substituíra-me», notou Sebastião Cardoso. «Pirraça trágica a desse infortunado rapaz, todo ele tão cheio de ilusões que mal cabiam no seu vulto esguio. Ainda hoje [em 1964] me emociona a visão do seu mutilado corpo mirrado por dolorosa agonia.»
       Nas cerimónias fúnebres de Mário Graça, Julião Quintinha, em representação do Sindicato dos Profissionais de Imprensa, lembrou o paradoxo, essa «trágica beleza» da morte do jornalista. «Se por acaso esse desditoso moço tivesse aterrado sem novidade, nunca o seu nome seria conhecido, nem a maioria daqueles que hoje pranteiam a sua morte saberia que existia um jornalista tão brioso. Mário Graça foi feliz, morrendo cedo, com o coração pleno de ilusões. Foi feliz por partilhar da glória da nossa aviação. Foi feliz porque, se morresse mais tarde, viria a conhecer a ingratidão, a falta de conforto e a própria fome que esperam todos os jornalistas que se mantêm firmes nas suas convicções.»
       Na verdade, é dúbio o alcance das palavras de Quintinha. Se é verdade que, 31 anos depois, a 4 de Abril de 1956, o Aero Clube de Portugal (então presidido por Pinheiro Correia, segundo notícia do Diário Popular) ainda homenageou os aviadores tombados em Barcarena, chamando a Mário Graça «o jornalista-amigo número 1 da aviação», o seu nome caiu gradualmente no esquecimento. O  volume Pelos Séculos d’O Século não faz qualquer menção a Mário Graça e aos aviadores falecidos em 1925 e o arquivo fotográfico do jornal, agregado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, tem apenas quatro fotografias sobre o malogrado jornalista, representando a missa em sua honra e uma romagem ao seu túmulo. Mesmo As Viagens Aeronáuticas dos Portuguesas, edição comemorativa da epopeia dos ares publicada em 1997, dedica ao episódio três escassas linhas, a propósito da proeza, essa sim longamente descrita, do raide bem sucedido à Guiné. É curta a memória dos homens.

LISBOA-GUINÉ
       Pinheiro Correia, Sérgio da Silva e Manuel António não foram informados do triste destino do Breguet 13. Aproveitando a janela temporal, prosseguiram, destemidos, a viagem em direcção à Guiné e tiveram oportunidade de abreviar as oito escalas previstas para a aventura, concluindo o trajecto de 4.060 quilómetros em apenas seis voos (33 horas e 53 minutos). De Lisboa, seguiram para Casablanca. Daí para Agadir, depois Cabo Juvy. De Vila Cisneros, estava previsto chegarem a Port-Etienne, mas avançaram até São Luís. Daí, poderiam ter feito escala em Dakar, mas rumaram directamente a Bolama, na Guiné. Chegaram às 15h25 do dia 2 de Abril, pela hora da Guiné. 

Sérgio da Silva, Pinheiro Correia e Manuel António.
Fotografia extraída de http://coronelpinheirocorrea.tosterego.com/Aviador.html
       Completaram a jornada contra tudo e contra todos, diria mais tarde Pinheiro Correia, lamentando a falta de apoios. Até a própria gasolina fora oferecida por uma empresa estrangeira, a Vacuum. 

Anúncio publicado em O Século, Abril de 1925
(Arquivo de microfilme da Biblioteca Nacional)
        Da metrópole, em momento de grande austeridade, não chegou apoio. Fosse como fosse, os três homens cumpriram a terceira grande aventura aérea portuguesa na década de 1920. Esta, porém, ficou também tragicamente ligada à história do jornalismo português.
       Sarmento de Beires, pioneiro da aviação, entraria em rota de colisão com o regime nascido do golpe de 28 de Maio de 1926. Foi detido no final de 1933 e julgado em 3 de Junho do ano seguinte em Tribunal Militar Especial, acusado de participação activa na intentona de 26 de Agosto de 1931. O herói da aviação foi condenado a sete anos de desterro e exilou-se no Brasil. Viria a regressar a Portugal décadas mais tarde e foi reintegrado na Força Aérea com o posto de coronel. Morreu menos de dois meses depois da revolução de Abril de 1974.

quinta-feira, maio 30, 2013

Fagulhas electrónicas

Um amigo morre. Morte estúpida, como todas; antes do tempo, asseguram os indicadores de saúde e esperança de vida. Mas morre.
A morte é tão ritualizada como a vida. O campo médico dispõe de um conjunto de procedimentos de rotinização. Instrumentos e exames asseguram que tudo foi feito (quando foi) para evitar o óbito. Procedimentos burocráticos estimam a hora da ocorrência. Exames complementares sugerem a causa primordial. O campo médico pode então baixar a guarda e passar a batata quente, agora resfriada, para outros.
Da Medicina, o corpo pode transitar para o campo jurídico, se disso houver necessidade, no qual múltiplos procedimentos tornam igualmente burocrática a gestão da morte. Mas normalmente o Direito fica à porta. A Medicina, que tomara temporariamente posse do corpo, devolve-o ao Estado, que assegura, com outros rituais, o sepultamento ou a pulverização em condições rotinizadas. Estamos longe, já, do tempo das valas comuns e do enterramento a monte.
Após dois ou três dias de agonia controlada, de velórios burocráticos, de horários regulados pelas funerárias, a família finalmente sepulta o morto. Prepara-se para avançar.
Mas estamos na era da Internet, na qual a nossa presença está fragmentada em mil bocados. E o defunto persiste. Em endereços electrónicos. Na página de Facebook. Na conta de Twitter. No blogue do Sapo. No perfil de Linkedin. Mil instâncias lembram continuamente que, em tempos, aqueles uns e zeros correspondiam a uma pessoa de carne e osso.
Para a ciência, a morte de um ser humano começou por ser definida pelo momento em que cessava o batimento cardíaco e a actividade respiratória, até ao dia em que o coração de um doente sueco parou de bater, a equipa médica colocou-lhe um transplante cardíaco e o coração recomeçou a bater. Pelos critérios científicos, mas sobretudo legais na Suécia, ele esteve morto e voltou.* Mudaram-se os critérios, claro.
Agora, a morte define-se pelo fim da actividade eléctrica no cérebro, embora um EEG possa detectar impulsos eléctricos onde já não era suposto persistirem. Bem depois disso, porém, persistem impulsos electrónicos. É possível receber, como eu hoje recebi, um convite electrónico para continuar a seguir a conta de Twitter de alguém que já não vai twittar. São fagulhas electrónicas, resquícios efémeros de vida. Talvez um dia tenhamos de renovar os critérios e considerar que um indivíduo está extinto quando todos os seus impulsos electrónicos cessarem.


* A formidável história do doente sueco que recebeu o transplante não acaba aqui. O homem estava condenado por evasão fiscal, mas, de acordo com a lei do seu país, considerava-se oficialmente morto um indivíduo cujo coração parasse de bater. Como isso sucedeu, o Fisco sueco retirou todas as acusações contra ele. Na enfermaria, recuperando da aventura, conta-se que o doente transplantado brincou: "Não é totalmente verdadeiro o adágio que assegura que só a morte e os impostos são certos."

segunda-feira, maio 06, 2013

Ligeira interrupção

Caríssimos,

Interrompo temporiamente a atenção dedicada ao blogue na próxima quinzena para preparar a defesa da tese de doutoramento. Prevejo novos textos a partir do dia 20 deste mês.

Até breve.

GP

quarta-feira, abril 17, 2013

Oito dias na vida do jornalista vagabundo


"Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

Seriam pouco mais de nove horas desta noite fria e chuvosa de Inverno, quando Joaquim Vadio interiorizou a sua nova situação. Nesta semana de Março de 1930, Joaquim não tinha trabalho, abrigo, dinheiro ou comida. O mulato, mais um numa Lisboa com gente de todos os cantos do império, vagueava por São Paulo, na zona baixa de Lisboa, sem um propósito firme – mais um vagabundo miserável numa Lisboa de vasta miséria, entre ilhas de luxo e glamour que se divertiam com as vitórias no rugby e as festas elegantes, celebradas nas colunas de mundanidades dos jornais.
Largando a protecção do portal da Igreja de São Paulo, Joaquim enfrentou o frio, encolhido, de mãos nos bolsos, com o estômago colado pela fome. Protegido por uma boina coçada e uma camisa de ganga que resistira a muitos invernos, procurava um rosto conhecido, sem se atrever a pedir esmola. “Cosido com a parede”, foi avançando como um autómato até o som de notas musicais e gargalhadas alegres o despertarem. Espreitou pela janela de um cabaret e observou os clientes, felizes, saciados, reconfortados. “Num súbito rancor de homem que se sentia desapossado dos direitos à ventura”, odiou instantaneamente toda aquela gente que se divertia, alheia à miséria, indiferente a quem ainda não tinha jantado, nem sabia se, naquela noite fria, teria abrigo que “não fosse um portal ou um vão de escada”.
No entanto, Joaquim Vadio não era um vagabundo qualquer, nem estava propriamente à mercê do destino e “dos primeiros latidos da fome”, como reclamava. Joaquim Vadio era um repórter são-tomense e estava em missão. Chamava-se Mário Domingues (1899-1977) e trabalhava para o “Notícias Ilustrado”, a revista de domingo do “Diário de Notícias”. Aos 30 anos, Domingues tinha a tarimba de um veterano. Culto como poucos, poliglota (aprendera francês com Marcel Meunier, famoso correspondente do “Matin” em Lisboa e debicava inglês e alemão por influência dos marinheiros que aportavam ao Café Royal), com espírito de aventura aprimorado na parceria inesquecível formada com Reinaldo Ferreira (o famoso repórter X de que falarei noutro dia), personificava um novo género jornalístico emergente nas publicações portuguesas – a reportagem participante. E este trabalho seria a sua coroa de glória.
"Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

PROJECTO SOCIAL DOS JORNAIS
A miséria urbana era há muito objecto de notícias nos jornais e revistas portugueses. Desde o início do século XX que a imprensa republicana denunciava ardentemente as condições desumanas em que se vivia em Lisboa e no Porto, incitando ao combate ao desemprego e à doença. A implantação da República tardou em modificar estes quadros de miséria humana, que chocavam os visitantes e envergonhavam os locais. Nas duas primeiras décadas do século, as páginas dos periódicos reflectiam o problema social, olhando-o do exterior, analisando-o, dissecando-o, propondo causas e invectivando responsáveis, mas sem ousar passar a fronteira da experiência directa. Espreitamos páginas da “Ilustração Portuguesa”, revista semanal de “O Século”, sobre as comunidades urbanas e pressentimos o desconforto de quem olha à distância, sentimento seguramente partilhado pelos leitores que folheariam apressadamente a publicação ainda elitista, suspirando por um mundo melhor.

Miséria na Póvoa do Varzim, "Ilustração Portuguesa", 194, 1909
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
O projecto de Mário Domingues deverá ter começado em 1918, com uma farsa (entre tantas outras) de Reinaldo Ferreira para o efémero jornal “A Manhã”. O jornalista vestiu-se então de mendigo, foi fotografado a rigor, enganando durante a sessão alguns transeuntes, que lhe deixaram esmolas. Reinaldo era entusiasta, mas não se detinha no rigor factual (dizia-se, a certo ponto, que o R de Reinaldo valia por “Realidade” e o F de Ferreira por “Fictícia”). Isolou-se durante três dias e escreveu uma crónica pungente sobre a sua aventura como mendigo nas ruas da cidade pobre, num texto tão expressivo e cativante como falso. Na verdade, o futuro repórter X inventara praticamente toda a aventura, mas a sua reportagem foi discutida nos principais fóruns da cidade. É provável que a semente da ideia tenha perdurado no cérebro do amigo Mário Domingues, incitando-o a tentar um projecto semelhante, mas jornalístico.
Domingues viria a encontrar no cineasta e jornalista José Leitão de Barros o interlocutor perfeito. Leitão de Barros dirigia então a revista do “Diário de Notícias”, à qual imprimira um sentido estético e dramático muito diferente das publicações concorrentes (é incomparável o seu investimento em fotografia, textos curtos e dramáticos com, por exemplo, o “Domingo Ilustrado”, ainda dependente de gravuras e fotos em pose). Neste ano de 1930, Leitão de Barros estreara o filme “Lisboa”, num registo terno e romântico sobre as figuras de Lisboa (que “não pretendia ser um documentário, mas sim uma crónica de aspectos particulares”, garantia o autor numa carta ao “Diário de Lisboa” de 10 de Abril). Mas o cineasta sabia que, para lá dos quadros típicos e estereotipados das varinas e das aguadeiras, havia outra Lisboa. E que essa Lisboa, se bem representada, poderia vender revistas, mesmo que fosse igualmente uma reconstituição artificial e ideológica.

EM MISSÃO
Mário Domingues passou oito dias sem retirar a máscara de vagabundo. Foi reconhecido uma vez no porto de Lisboa por um amigo que, enternecido, se ofereceu para o ajudar a endireitar a vida. Do ódio inicial face aos que se divertiam, a sua percepção foi evoluindo para uma aceitação gradual do statu quo. Frequentou bares e tabernas. Relatou, com traços realistas, a generosidade desinteressada dos lisboetas, mas também o alheamento de quem passava por ele nas ruas e parecia não o ver. Conheceu ingleses e galegos, coristas e taberneiros. Recebeu propostas de emprego e ofertas desonestas. Foi aliciado com ofertas de emigração para o Brasil e para a América, que ponderou, mas recusou em nome da sua paixão pela cidade.
Domingues resistiu também à tentação de enquadrar o seu registo num quadro sobre o racismo na cidade. As suas referências a africanos em dificuldades foram cautelosas e não generalizaram o estereótipo. Aliás, todo o registo de aventuras e desventuras obedeceu a um guião, expresso no último parágrafo da terceira crónica, publicada no número 96, no final de Abril: “(…) esta Lisboa pobre, pacata, mas que sabe, apesar de tudo, dispensar melhor do que as grandes capitais do mundo alguns carinhos aos párias, aos que não possuem pão, nem trabalho, nem abrigo”.
A miséria da cidade, abrigada em barracas ou nas furnas de Monsanto, doente, faminta e sobretudo dependente da caridade alheia, foi, de alguma forma, um objecto distante na reportagem de Mário Domingues. Ela existe, mas não é reversível, nem dissecada ao pormenor. No enquadramento que domina todo o texto, adivinha-se a mensagem fundamental: a solução reside na entreajuda e nos golpes de acaso, que podem mudar o destino, porque nada mais o fará, antecipando em mais de uma década Tennessee Williams e a sua Blanche, vivendo sob a máxima de que se pode sempre depender da bondade de um estranho.
Recebido o texto e dividido por três edições, publicadas entre Março e Abril, Leitão de Barros... retocou um pouco mais a realidade, aplicando-lhe preceitos comerciais. 

"Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
Na manchete do primeiro tomo, escreveu despudoradamente: “Nas Furnas de Monsanto! À Gandaia! I Sensacional Reportagem do Jornalista Vagabundo Mário Domingues, que passou oito dias e oito noites nos locais miseráveis de Lisboa, vivendo de esmolas e de roubos!” Em nenhum momento do texto, Domingues reconhecera ter roubado ou sequer infringido a lei, e as furnas de Lisboa praticamente não eram mencionadas. Na abertura do texto, introduziu-lhe a moral que faltava: “Para que saibam os da vida folgada e liberta, com abrigo certo, quanto é dura a existência dos que, nas grandes cidades, arrastam frios e fomes na luta pelo pão de cada dia.”

UMA CARREIRA PROMISSORA
Sabe-se pouco sobre a aceitação destes três textos entre os pares do jornalismo português. A cumplicidade de Mário Domingues com Reinaldo Ferreira ou o registo de envolvimento participante poderão ter prejudicado a credibilidade do seu relato aos olhos dos companheiros de profissão mais tradicionalistas. A revista só voltou ao tema mais uma vez, semanas mais tarde, ao reproduzir uma estranha auto-entrevista de Mário Domingues a Joaquim Vadio, com ilustrações de Stuart Carvalhais, ao longo da qual o jornalista anunciava a sua desistência do mundo burguês e a sua adesão ao estilo de vida nómada dos “marginais de Lisboa”. Nos jornais contemporâneos, em contrapartida, não encontrei referências à proeza, nem sequelas do mesmo teor.
No “Diário de Lisboa” de 12 de Abril, em texto não assinado, a miséria urbana voltou a ser focada num registo “objectivo”, seguro, apontando causas da mendicidade e sugerindo caminhos, mas sem ousar sentir na pele o que viviam os miseráveis de Lisboa. O próprio Leitão de Barros dirigiria as edições seguintes da revista para um registo mais informal, concentrando-se nas novidades do cinema e da rádio portuguesas, suas paixões declaradas, e menos nas questões políticas e sociais.

"Diário de Lisboa", 12 de Abril de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Fundação Mário Soares)
Mário Domingues foi quase de seguida convidado por Reinaldo Ferreira para chefiar a redacção da revista Repórter X, projecto imaginativo mas pouco sustentado, que o são-tomense abraçou apaixonadamente. Quase um ano depois da aventura na gandaia, em 11 de Abril de 1931, Mário Domingues patrocinou um esforço parecido do repórter Américo Faria que, ao serviço do Repórter X, procurou viver entre os rufias de Lisboa. Recordando a sua própria experiência, Domingues escreveu em editorial: «Roçámos por muita lama; dormimos em pocilgas inconcebíveis; conhecemos na intimidade vadios que já eram veteranos; aprendemos a fazer dinheiro com os despojos que a cidade despreza; soubemos como poderíamos, para fugir ao inferno da miséria, emigrar clandestinamente  para a Argentina; escutámos de bocas impuras de megeras prostituídas propostas ignóbeis de mancebia torpe; observámos como se consegue viver largamente da caridade pública bem explorada (…) e concluímos que a maioria dos maltrapilhos que tu, leitor, vês passar enojado não é má, é infeliz, infinitamente desgraçada.»
Em 1932, encontramo-lo numa publicação que mudaria a sua vida. Dirigiu a revista “O Detective”, encontrando no registo da novela policial e no contacto com as forças de segurança da cidade a matéria-prima para a carreira que abraçaria de seguida.
Na verdade, apesar de manter colaborações dispersas em jornais e de criar peças de teatro (duas, por exemplo – “Má Raça” e “A Sombra do Passado” –, foram proibidas em 1938 pela Comissão de Censura por voltarem aos registos de crítica social e denúncia da miséria, pouco interessantes para o regime), Mário Domingues abraçou a carreira de escritor. Foi autor, nas décadas seguintes, de dezenas de novelas policiais, vertendo para o papel a riqueza do contacto que absorvera na relação com polícias e reclusos em “O Detective”. Cioso da importância do estrangeiro nas indústrias culturais portuguesas, adoptou, como bem nota o blogue Policiário de Bolso, pseudónimos estrangeirados, uma prática que Dinis Machado também seguiria muito mais tarde.
Espreite com atenção a sua estante de livros mais antigos. É bem possível que ali encontre obras de Fred Criswell, Henry Jackson, James Black, Joe Waterman, Marcel Durand, Max Felton, Nelson MacKay, Peter O‘Brion, Thomas Birch ou W. Joelson. Em comum entre estes prolíferos novelistas (e talvez outros de que ninguém sabe), uma circunstância: todos foram obra da imaginação de Mário Domingues, o jornalista nascido na Roça Infante Dom Henrique (na ilha de São Tomé), que vivera na aldeia da Porcalhota na juventude, até se mudar com a avó e a irmã mais velha para Lisboa, e que, um dia, abandonou a elite para viver durante oito dias como vagabundo nos bairros pobres da cidade.

EPÍLOGO
Luís Dantas escreveu, num e-book, a obra mais completa sobre Mário Domingues, reproduzindo ali todo o texto publicado nos “Notícias Ilustrado” de 1930. É através desta fonte que conhecemos mais duas facetas de Mário Domingues. Boa parte do seu sustento nas décadas de 1930 e 1940 proveio das traduções de obras estrangeiras. Mais tarde, o autor enveredou também pela biografia histórica, assinando quase uma dezena de obras sobre personalidades da história portuguesa, cuja relevância é discutível na medida em que expressam documentação deficiente e liberdades criativas românticas, resultando em exaltações e denúncias pouco credíveis de vários reinados portugueses.
Em 1959, Domingues escreveu também um pequeno texto sobre o fecho do Café Royal, o seu destino predilecto, em cujas mesas idealizara mil projectos com Reinaldo Ferreira – a evocação (digitalizada aqui, página a página, pelo projecto Mosca da Universidade de Évora) vale como máquina do tempo para a Lisboa dos cafés e dos bares do início do século. Em 1960, assinou a sua obra mais polémica, redigindo o “Menino Entre Gigantes”, registo quase autobiográfico, no qual o tema do racismo aflora, mesmo sob a vigilância da censura.
Aos poucos, porém, o seu nome foi sendo esquecido, tal como a memória da sua saga entre os miseráveis de Lisboa se foi esfumando. No livro-entrevista que realizou em parceria com Artur Portela ("Cardoso Pires por Cardoso Pires", 1991, pp. 59), o escritor José Cardoso Pires lembrou-o como um exemplo, a par de Julião Quintinha, António Ferro, Leitão de Barros e Chianca de Garcia de uma geração de jornalistas urbanos, "escritores menores", é verdade, mas "homens que escreviam dia a dia para Lisboa [e] se aventuravam a uma prosa citadina". O legado de Mário Domingues, porém, desapareceu.
Socorro-me por isso de um parágrafo das memórias de Luís Dantas para evocar este capítulo da história do jornalismo que, se não tem outra validade, procura preservar o que é efémero no mundo dos jornais: “Quando o conheci, por mero acaso, na redacção do jornal O Século, não me percebi se o velho jornalista tinha desatinado. Pareceu-me que andava por ali com olhar errante e coração fraquejado, cumprimentando um ou outro colega com vénias para voltar a sair num choro silencioso. Depois, agarrado ao bordão, retirava-se para as bandas da Ribeira Nova, a São Paulo. Talvez fosse beber um bagaço e acender recordações de tempos resplandecentes… E morreu assim, com essa mania, quase esquecido, em 1977.”
Mário Domingues em reportagem para a Repórter X, de que foi chefe de redacção
(Repórter X, 1930, 19. A partir de arquivo da Hemeroteca Digital)