sábado, junho 01, 2013

O fim do jornalista-aviador que nunca voara


Fotografia publicada em O Século, de 2 de Abril de 1925
(Arquivo de microfilme da Biblioteca Nacional

       Se o jornalista Mário Graça fosse dado a pressentimentos macabros, talvez tivesse desconfiado que as cartas lhe reservavam um destino aziago naquela que se previa ser a terceira grande aventura da aviação portuguesa. Depois da conquista do Atlântico Sul em 1922 por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, seguira-se a extraordinária viagem Lisboa-Macau em 1924 de Sarmento de Beires e Brito Pais, a bordo do Pátria, com a colaboração do alferes-mecânico Manuel Gouveia. Agora, neste fim de Inverno de 1925, o capitão Pinheiro Correia, o tenente Sérgio da Silva e o mesmo Gouveia juntavam esforços para vencer África. Estava na calha o raide Lisboa-Guiné e O Século, dirigido então por Trindade Coelho e com redacção chefiada por Rocha Júnior, dedicava à história a sua manchete e o seu melhor repórter da área, Mário Graça.
       Filho de um inspector das escolas móveis falecido dois anos antes na ilha da Madeira, Mário Graça tinha apenas 26 anos, mas já era um veterano. Colaborara com A Ordem, O Dia, A Imprensa de Lisboa, entre outros periódicos efémeros, e entrara para os quadros de O Século em 1918, com 19 anos. Acompanhava com particular paixão a aventura da aviação portuguesa, embora nunca tivesse voado. Fugira a sete pés da navegação depois de saber que o irmão falecera no naufrágio do veleiro Pêro de Alenquer. Virando as costas à aventura trágico-marítima, a opção natural que se lhe deparou foi a aventura aérea.
       Solteiro, Mário Graça tinha aspirações literárias. Publicara poemas no Notícias de Gouveia e na edição nocturna de O Século. Tinha uma novela pronta a publicar e juntara-se, com outros colegas, num Grupo de Amigos de Fialho, uma associação destinada a recolher fundos para mandar construir um monumento de homenagem ao escritor Fialho de Almeida.

MAUS AUGÚRIOS, 25 DE FEVEREIRO E 7 DE MARÇO DE 1925
       No terreno, o Breguet 15 e a sua brava tripulação passavam por sucessivas dificuldades. Inicialmente prevista para 25 de Fevereiro, a viagem fora interrompida pelo mau tempo que se fazia sentir na região de Lisboa. Entre 6 e 7 de Março, a tripulação voltou a preparar o motor Renault do Noiva, que ganhara a alcunha por ter sido «pintado com uma tinta prateada, que recorda a toilette argente de uma virgem», garantia O Século, embora o avião se chamasse oficialmente Santa Filomena. Ao contrário dos raides anteriores, o hidro-avião juntava a cruz de Ourique à cruz de Cristo e a insígnia latina In Hoc Signo Vincis (Por este sinal conquistarás) à fuselagem.
       No dia 6, Pinheiro Correia telefonara para Mário Graça e avisara-o da partida iminente pelas 6h30 do dia 7. Agendou-se inclusivamente uma recepção na Presidência da República, durante a qual Teixeira Gomes entregou uma carta simbólica aos aviadores, destinada ao governador da Guiné, Velez Caroço.
       A tiritar de excitação e de frio, Mário Graça esteve enregelado a partir das duas horas da manhã à porta do Campo Aeronáutico da Amadora para não perder pitada dos preparativos da viagem. A essa hora, os aviadores dormiam ainda o sono dos justos, mas era grande a vontade de se antecipar à concorrência e contar a aventura antes dos colegas.
       Depois de a madrugada romper, à medida que a tripulação preparava o hidro-avião, sucederam-se os actos comemorativos. À boa maneira portuguesa, representantes da Marinha, do Ministério da Guerra, do Governo Civil de Lisboa e do Presidente da República acotovelavam-se para saudar os aviadores. A tripulação tomou o lugar, preparou-se para a largada ao som de A Portuguesa, mas... o motor não arrancou. Mau prenúncio outra vez. O alferes Gouveia deu sugestões ao piloto e o engenho, por fim, deu sinal de vida. Levantou voo, seguido de outras aeronaves que acompanharam o início da viagem. Em gesto de camaradagem, Sarmento de Beires seguiu-os até Alcácer do Sal, mas o tempo piorava a olhos vistos.
Três dos intérpretes desta história, reunidos por coincidência na mesma fotografia,
três anos antes do acidente de Barcarena: Sarmento de Beires, Piçarra e Gouveia.
Ilustração Portuguesa, 1922, n.º 862
(recuperado a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
    A aeronave avançava às apalpadelas face ao nevoeiro, o pior inimigo da aviação nesta era, o mesmo obstáculo que fizera tombar Sacadura Cabral no mar do Norte cinco meses antes. A chuva, fria e miúda, entrava pela carlinga, e gelava os aviadores. A viagem prosseguiu por mais cem quilómetros em terrível sacrifício e, por pouco, o Noiva/Santa Filomena não esbarrou na serra do Caldeirão, um gigante escondido pelo véu nublado. Sem perspectiva de melhoria meteorológica, e com todo o Mediterrâneo pela frente, Pinheiro Correia tomou a decisão correcta de aterrar perto da praia da Quarteira. O vento, porém, não dava quartel e o avião quase caiu a pique. Acabou por deter-se num campo lavrado, partindo uma asa, mas por sorte quase não provocou lesões nos tripulantes.


Fotografia extraída de http://coronelpinheirocorrea.tosterego.com/Aviador.html

       Faminta e gelada, a tripulação viu ao longe um cavaleiro que se aproximava. Era Domingos Abraços, o correspondente de O Século na Quarteira, que lhes garantiu comida e abrigo. Depois, levou-os à estação, onde os esperava uma viagem de comboio de doze longas horas até à Lisboa. À chegada, não havia vestígios da pompa que os vira partir. «Nem representantes do governo, nem camaradas, nem amigos», escreveu Mário Graça, ele sim, presente, como sempre. Logo ali, Pinheiro, Silva e Gouveia decidiram que voltariam a tentar, mal o temporal amainasse e a aeronave estivesse reparada. Mário Graça testemunhou o acordo e escreveu mais um exclusivo para O Século.

BARCARENA, 27 DE MARÇO DE 1925
       Na manhã do dia 26, os aviadores, agora na companhia do mecânico Manuel António, fizeram nova tentativa de partida, desta vez sem pré-aviso, nem pompa. Uma vez mais, porém, o tempo não ajudou. Sopravam sobre a Amadora rajadas violentas de vento. Pinheiro Correia lembrou-se do adágio que, então como agora, marcava a aviação: cada descolagem é opcional, mas a aterragem é obrigatória. Decidiu adiar a partida por mais algumas horas, para a madrugada do dia 27. O relato de O Século, o último que Mário Graça escreveria, mantinha a confiança nas capacidades dos aviadores para empreenderem a difícil jornada.
       Por fim, a meteorologia ajudou o projecto. O dia 27 amanheceu sem uma nuvem no horizonte, com o Sol brilhante e vento contido. O tenente José Carlos Pissarra ofereceu-se para subir aos céus no seu Breguet 13 e verificar as condições de voo para os colegas, mas, por duas vezes, o motor da sua aeronave não deu sinais de vida, em jeito de mau prenúncio. Enquanto os mecânicos se debruçavam sobre esta aeronave, o capitão Pais Ramos descolou noutro Breguet e fez as verificações necessárias, aterrando de seguida. Inconsolável, Pissarra garantia que conseguia colocar o seu hidro-avião a funcionar. Convidou o capitão Castilho a acompanhá-lo, mas este, premonitoriamente, declinou. A aeronave não lhe inspirava confiança e o facto de estar cunhada com o número 13 e de se tratar de uma sexta-feira atraía o seu lado supersticioso. Pissarra segurou o crucifixo de ouro que a esposa lhe oferecera e garantiu que era protecção suficiente para a viagem. Convidou o tenente Luís Caldas a subir. O outro lugar vago na aeronave destinava-se a um repórter.
      Em princípio, a vaga seria para Sebastião Cardoso, do Diário de Notícias. Ele e Félix Correia, do Diário de Lisboa, tinham feito a apologia do investimento na Força Aérea e gozavam de contactos importantes entre os aviadores. Mal o piloto designou Sebastião, porém, os restantes repórteres no aeródromo barafustaram veementemente. A cacha jornalística caberia a um rival. «Entre eles, um se distinguiu pelo empenho com que procurava levar-me a ceder-lhe o lugar: Mário Graça», contou Sebastião Cardoso numa crónica publicada no dia 29 de Dezembro de 1964, no centenário do Diário de Notícias. Graça era persistente e pressionara igualmente o pessoal da Força Aérea. Carlos da Cunha Almeida, segundo comandante do campo da Amadora, confidenciou a Sebastião Cardoso que havia uma segunda vaga a bordo de um Vickers, onde, ao contrário do Breguet, não tinha de voar deitado no chão do engenho. O repórter do DN anuiu e trocou de lugar.

A evocação de Sebastião Cardoso no Diário de Notícias de 29/12/1964
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
     Feliz, Mário Graça correu para ocupar a vaga no seu baptismo de voo. Vestindo à pressa o passa-montanhas, Sebastião Cardoso entrou para o Vickers. O Breguet 13 voltou a demorar a pegar, mas, por fim, descolou. O Vickers, esse, não saía do solo, levando Sebastião Cardoso a lamentar precocemente o seu azar na dança dos lugares.
     O Breguet seguiu o Santa Filomena até à serra da Arrábida na companhia de outra aeronave. Depois, durante longos minutos, ficou apenas o silêncio. No Campo Aeronáutico da Amadora, começava a pressentir-se uma desgraça, sobretudo depois de a primeira aeronave regressar, sem notícias de Pissarra. Sebastião Cardoso viu ao longe as luzes de uma ambulância e pressentiu uma tragédia. Por fim, chegou um telefonema de Barcarena que ninguém queria atender.
       O motor do Breguet 13 voltara a falhar no ar. Pissarra tentou equilibrá-lo, mas não evitou uma dança aérea macabra, à medida que o hidro-avião se despenhava e o piloto tentava estabilizá-la. Amadeu Pereira da Conceição, em testemunho publicado na revista ABC de 22 de Dezembro de 1928, acrescentaria mais uma nota de reportagem: «Parece também que Pissarra se voltou para trás e gritou qualquer coisa para o tenente Caldas, talvez um aviso, embora isto seja simplesmente uma impressão deste último e não uma certeza.»
      Exactamente às 10h15 (pelo cronómetro do piloto, imobilizado nessa posição), o hidro-avião caiu nos arredores de Barcarena, nos terrenos do agricultor José Sinel de Cordes, sob o olhar angustiado de Etelvina Rosa, que ali fora buscar água, e do trabalhador rural José Paulino. O embate foi de tal modo violento que os dois tenentes partiram as correias que os ligavam à máquina e foram cuspidos para fora da carlinga. Sob os destroços, com dezenas de ferros cravados no corpo e fracturas no crânio, pernas e nariz, ficou o corpo do infeliz jornalista. O motor fez um buraco de mais de metro no solo, segundo contava a edição do dia 28 de Março de O Século, sob a manchete: «A GRANDE DESGRAÇA DE ONTEM.»

O Século, 28 de Março de 1925
(Arquivo de microfilme da Biblioteca Nacional)

       Pissarra morreu de imediato. Com múltiplas fracturas, Caldas e Graça foram socorridos e levados para o Hospital de São José. Aos 27 anos, depois de dez anos de serviço nas Forças Armadas, Pissarra era um dos mais hábeis aviadores portugueses. Ao despenhar-se em Barcarena, deixava viúva e dois filhos.
O tenente Pissarra

       Igualmente maltratado, Luís Caldas estava a um dia de completar o seu trigésimo aniversário. Cumpria o sétimo ano de serviço. Fora um futebolista distinto no Sport Lisboa e Benfica, tendo chegado a jogar uma temporada na primeira categoria, sob comando do lendário Cosme Damião.
       Os dois feridos pioraram nos dias seguintes. António Gil, o chefe dos electricistas de O Século, ainda foi escolhido para uma transfusão sanguínea, noticiada como um rejuvenescimento do malogrado jornalista, mas, na madrugada do dia 1 de Abril, quatro dias depois do acidente, Mário Graça morreu nas urgências do hospital lisboeta. O tenente Luís Caldas viria igualmente a sucumbir às feridas provocadas pelo desastre.
     «A morte aprazara encontro comigo mas Mário Graça substituíra-me», notou Sebastião Cardoso. «Pirraça trágica a desse infortunado rapaz, todo ele tão cheio de ilusões que mal cabiam no seu vulto esguio. Ainda hoje [em 1964] me emociona a visão do seu mutilado corpo mirrado por dolorosa agonia.»
       Nas cerimónias fúnebres de Mário Graça, Julião Quintinha, em representação do Sindicato dos Profissionais de Imprensa, lembrou o paradoxo, essa «trágica beleza» da morte do jornalista. «Se por acaso esse desditoso moço tivesse aterrado sem novidade, nunca o seu nome seria conhecido, nem a maioria daqueles que hoje pranteiam a sua morte saberia que existia um jornalista tão brioso. Mário Graça foi feliz, morrendo cedo, com o coração pleno de ilusões. Foi feliz por partilhar da glória da nossa aviação. Foi feliz porque, se morresse mais tarde, viria a conhecer a ingratidão, a falta de conforto e a própria fome que esperam todos os jornalistas que se mantêm firmes nas suas convicções.»
       Na verdade, é dúbio o alcance das palavras de Quintinha. Se é verdade que, 31 anos depois, a 4 de Abril de 1956, o Aero Clube de Portugal (então presidido por Pinheiro Correia, segundo notícia do Diário Popular) ainda homenageou os aviadores tombados em Barcarena, chamando a Mário Graça «o jornalista-amigo número 1 da aviação», o seu nome caiu gradualmente no esquecimento. O  volume Pelos Séculos d’O Século não faz qualquer menção a Mário Graça e aos aviadores falecidos em 1925 e o arquivo fotográfico do jornal, agregado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, tem apenas quatro fotografias sobre o malogrado jornalista, representando a missa em sua honra e uma romagem ao seu túmulo. Mesmo As Viagens Aeronáuticas dos Portuguesas, edição comemorativa da epopeia dos ares publicada em 1997, dedica ao episódio três escassas linhas, a propósito da proeza, essa sim longamente descrita, do raide bem sucedido à Guiné. É curta a memória dos homens.

LISBOA-GUINÉ
       Pinheiro Correia, Sérgio da Silva e Manuel António não foram informados do triste destino do Breguet 13. Aproveitando a janela temporal, prosseguiram, destemidos, a viagem em direcção à Guiné e tiveram oportunidade de abreviar as oito escalas previstas para a aventura, concluindo o trajecto de 4.060 quilómetros em apenas seis voos (33 horas e 53 minutos). De Lisboa, seguiram para Casablanca. Daí para Agadir, depois Cabo Juvy. De Vila Cisneros, estava previsto chegarem a Port-Etienne, mas avançaram até São Luís. Daí, poderiam ter feito escala em Dakar, mas rumaram directamente a Bolama, na Guiné. Chegaram às 15h25 do dia 2 de Abril, pela hora da Guiné. 

Sérgio da Silva, Pinheiro Correia e Manuel António.
Fotografia extraída de http://coronelpinheirocorrea.tosterego.com/Aviador.html
       Completaram a jornada contra tudo e contra todos, diria mais tarde Pinheiro Correia, lamentando a falta de apoios. Até a própria gasolina fora oferecida por uma empresa estrangeira, a Vacuum. 

Anúncio publicado em O Século, Abril de 1925
(Arquivo de microfilme da Biblioteca Nacional)
        Da metrópole, em momento de grande austeridade, não chegou apoio. Fosse como fosse, os três homens cumpriram a terceira grande aventura aérea portuguesa na década de 1920. Esta, porém, ficou também tragicamente ligada à história do jornalismo português.
       Sarmento de Beires, pioneiro da aviação, entraria em rota de colisão com o regime nascido do golpe de 28 de Maio de 1926. Foi detido no final de 1933 e julgado em 3 de Junho do ano seguinte em Tribunal Militar Especial, acusado de participação activa na intentona de 26 de Agosto de 1931. O herói da aviação foi condenado a sete anos de desterro e exilou-se no Brasil. Viria a regressar a Portugal décadas mais tarde e foi reintegrado na Força Aérea com o posto de coronel. Morreu menos de dois meses depois da revolução de Abril de 1974.

quinta-feira, maio 30, 2013

Fagulhas electrónicas

Um amigo morre. Morte estúpida, como todas; antes do tempo, asseguram os indicadores de saúde e esperança de vida. Mas morre.
A morte é tão ritualizada como a vida. O campo médico dispõe de um conjunto de procedimentos de rotinização. Instrumentos e exames asseguram que tudo foi feito (quando foi) para evitar o óbito. Procedimentos burocráticos estimam a hora da ocorrência. Exames complementares sugerem a causa primordial. O campo médico pode então baixar a guarda e passar a batata quente, agora resfriada, para outros.
Da Medicina, o corpo pode transitar para o campo jurídico, se disso houver necessidade, no qual múltiplos procedimentos tornam igualmente burocrática a gestão da morte. Mas normalmente o Direito fica à porta. A Medicina, que tomara temporariamente posse do corpo, devolve-o ao Estado, que assegura, com outros rituais, o sepultamento ou a pulverização em condições rotinizadas. Estamos longe, já, do tempo das valas comuns e do enterramento a monte.
Após dois ou três dias de agonia controlada, de velórios burocráticos, de horários regulados pelas funerárias, a família finalmente sepulta o morto. Prepara-se para avançar.
Mas estamos na era da Internet, na qual a nossa presença está fragmentada em mil bocados. E o defunto persiste. Em endereços electrónicos. Na página de Facebook. Na conta de Twitter. No blogue do Sapo. No perfil de Linkedin. Mil instâncias lembram continuamente que, em tempos, aqueles uns e zeros correspondiam a uma pessoa de carne e osso.
Para a ciência, a morte de um ser humano começou por ser definida pelo momento em que cessava o batimento cardíaco e a actividade respiratória, até ao dia em que o coração de um doente sueco parou de bater, a equipa médica colocou-lhe um transplante cardíaco e o coração recomeçou a bater. Pelos critérios científicos, mas sobretudo legais na Suécia, ele esteve morto e voltou.* Mudaram-se os critérios, claro.
Agora, a morte define-se pelo fim da actividade eléctrica no cérebro, embora um EEG possa detectar impulsos eléctricos onde já não era suposto persistirem. Bem depois disso, porém, persistem impulsos electrónicos. É possível receber, como eu hoje recebi, um convite electrónico para continuar a seguir a conta de Twitter de alguém que já não vai twittar. São fagulhas electrónicas, resquícios efémeros de vida. Talvez um dia tenhamos de renovar os critérios e considerar que um indivíduo está extinto quando todos os seus impulsos electrónicos cessarem.


* A formidável história do doente sueco que recebeu o transplante não acaba aqui. O homem estava condenado por evasão fiscal, mas, de acordo com a lei do seu país, considerava-se oficialmente morto um indivíduo cujo coração parasse de bater. Como isso sucedeu, o Fisco sueco retirou todas as acusações contra ele. Na enfermaria, recuperando da aventura, conta-se que o doente transplantado brincou: "Não é totalmente verdadeiro o adágio que assegura que só a morte e os impostos são certos."

segunda-feira, maio 06, 2013

Ligeira interrupção

Caríssimos,

Interrompo temporiamente a atenção dedicada ao blogue na próxima quinzena para preparar a defesa da tese de doutoramento. Prevejo novos textos a partir do dia 20 deste mês.

Até breve.

GP

quarta-feira, abril 17, 2013

Oito dias na vida do jornalista vagabundo


"Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

Seriam pouco mais de nove horas desta noite fria e chuvosa de Inverno, quando Joaquim Vadio interiorizou a sua nova situação. Nesta semana de Março de 1930, Joaquim não tinha trabalho, abrigo, dinheiro ou comida. O mulato, mais um numa Lisboa com gente de todos os cantos do império, vagueava por São Paulo, na zona baixa de Lisboa, sem um propósito firme – mais um vagabundo miserável numa Lisboa de vasta miséria, entre ilhas de luxo e glamour que se divertiam com as vitórias no rugby e as festas elegantes, celebradas nas colunas de mundanidades dos jornais.
Largando a protecção do portal da Igreja de São Paulo, Joaquim enfrentou o frio, encolhido, de mãos nos bolsos, com o estômago colado pela fome. Protegido por uma boina coçada e uma camisa de ganga que resistira a muitos invernos, procurava um rosto conhecido, sem se atrever a pedir esmola. “Cosido com a parede”, foi avançando como um autómato até o som de notas musicais e gargalhadas alegres o despertarem. Espreitou pela janela de um cabaret e observou os clientes, felizes, saciados, reconfortados. “Num súbito rancor de homem que se sentia desapossado dos direitos à ventura”, odiou instantaneamente toda aquela gente que se divertia, alheia à miséria, indiferente a quem ainda não tinha jantado, nem sabia se, naquela noite fria, teria abrigo que “não fosse um portal ou um vão de escada”.
No entanto, Joaquim Vadio não era um vagabundo qualquer, nem estava propriamente à mercê do destino e “dos primeiros latidos da fome”, como reclamava. Joaquim Vadio era um repórter são-tomense e estava em missão. Chamava-se Mário Domingues (1899-1977) e trabalhava para o “Notícias Ilustrado”, a revista de domingo do “Diário de Notícias”. Aos 30 anos, Domingues tinha a tarimba de um veterano. Culto como poucos, poliglota (aprendera francês com Marcel Meunier, famoso correspondente do “Matin” em Lisboa e debicava inglês e alemão por influência dos marinheiros que aportavam ao Café Royal), com espírito de aventura aprimorado na parceria inesquecível formada com Reinaldo Ferreira (o famoso repórter X de que falarei noutro dia), personificava um novo género jornalístico emergente nas publicações portuguesas – a reportagem participante. E este trabalho seria a sua coroa de glória.
"Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

PROJECTO SOCIAL DOS JORNAIS
A miséria urbana era há muito objecto de notícias nos jornais e revistas portugueses. Desde o início do século XX que a imprensa republicana denunciava ardentemente as condições desumanas em que se vivia em Lisboa e no Porto, incitando ao combate ao desemprego e à doença. A implantação da República tardou em modificar estes quadros de miséria humana, que chocavam os visitantes e envergonhavam os locais. Nas duas primeiras décadas do século, as páginas dos periódicos reflectiam o problema social, olhando-o do exterior, analisando-o, dissecando-o, propondo causas e invectivando responsáveis, mas sem ousar passar a fronteira da experiência directa. Espreitamos páginas da “Ilustração Portuguesa”, revista semanal de “O Século”, sobre as comunidades urbanas e pressentimos o desconforto de quem olha à distância, sentimento seguramente partilhado pelos leitores que folheariam apressadamente a publicação ainda elitista, suspirando por um mundo melhor.

Miséria na Póvoa do Varzim, "Ilustração Portuguesa", 194, 1909
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
O projecto de Mário Domingues deverá ter começado em 1918, com uma farsa (entre tantas outras) de Reinaldo Ferreira para o efémero jornal “A Manhã”. O jornalista vestiu-se então de mendigo, foi fotografado a rigor, enganando durante a sessão alguns transeuntes, que lhe deixaram esmolas. Reinaldo era entusiasta, mas não se detinha no rigor factual (dizia-se, a certo ponto, que o R de Reinaldo valia por “Realidade” e o F de Ferreira por “Fictícia”). Isolou-se durante três dias e escreveu uma crónica pungente sobre a sua aventura como mendigo nas ruas da cidade pobre, num texto tão expressivo e cativante como falso. Na verdade, o futuro repórter X inventara praticamente toda a aventura, mas a sua reportagem foi discutida nos principais fóruns da cidade. É provável que a semente da ideia tenha perdurado no cérebro do amigo Mário Domingues, incitando-o a tentar um projecto semelhante, mas jornalístico.
Domingues viria a encontrar no cineasta e jornalista José Leitão de Barros o interlocutor perfeito. Leitão de Barros dirigia então a revista do “Diário de Notícias”, à qual imprimira um sentido estético e dramático muito diferente das publicações concorrentes (é incomparável o seu investimento em fotografia, textos curtos e dramáticos com, por exemplo, o “Domingo Ilustrado”, ainda dependente de gravuras e fotos em pose). Neste ano de 1930, Leitão de Barros estreara o filme “Lisboa”, num registo terno e romântico sobre as figuras de Lisboa (que “não pretendia ser um documentário, mas sim uma crónica de aspectos particulares”, garantia o autor numa carta ao “Diário de Lisboa” de 10 de Abril). Mas o cineasta sabia que, para lá dos quadros típicos e estereotipados das varinas e das aguadeiras, havia outra Lisboa. E que essa Lisboa, se bem representada, poderia vender revistas, mesmo que fosse igualmente uma reconstituição artificial e ideológica.

EM MISSÃO
Mário Domingues passou oito dias sem retirar a máscara de vagabundo. Foi reconhecido uma vez no porto de Lisboa por um amigo que, enternecido, se ofereceu para o ajudar a endireitar a vida. Do ódio inicial face aos que se divertiam, a sua percepção foi evoluindo para uma aceitação gradual do statu quo. Frequentou bares e tabernas. Relatou, com traços realistas, a generosidade desinteressada dos lisboetas, mas também o alheamento de quem passava por ele nas ruas e parecia não o ver. Conheceu ingleses e galegos, coristas e taberneiros. Recebeu propostas de emprego e ofertas desonestas. Foi aliciado com ofertas de emigração para o Brasil e para a América, que ponderou, mas recusou em nome da sua paixão pela cidade.
Domingues resistiu também à tentação de enquadrar o seu registo num quadro sobre o racismo na cidade. As suas referências a africanos em dificuldades foram cautelosas e não generalizaram o estereótipo. Aliás, todo o registo de aventuras e desventuras obedeceu a um guião, expresso no último parágrafo da terceira crónica, publicada no número 96, no final de Abril: “(…) esta Lisboa pobre, pacata, mas que sabe, apesar de tudo, dispensar melhor do que as grandes capitais do mundo alguns carinhos aos párias, aos que não possuem pão, nem trabalho, nem abrigo”.
A miséria da cidade, abrigada em barracas ou nas furnas de Monsanto, doente, faminta e sobretudo dependente da caridade alheia, foi, de alguma forma, um objecto distante na reportagem de Mário Domingues. Ela existe, mas não é reversível, nem dissecada ao pormenor. No enquadramento que domina todo o texto, adivinha-se a mensagem fundamental: a solução reside na entreajuda e nos golpes de acaso, que podem mudar o destino, porque nada mais o fará, antecipando em mais de uma década Tennessee Williams e a sua Blanche, vivendo sob a máxima de que se pode sempre depender da bondade de um estranho.
Recebido o texto e dividido por três edições, publicadas entre Março e Abril, Leitão de Barros... retocou um pouco mais a realidade, aplicando-lhe preceitos comerciais. 

"Notícias Ilustrado", 23 de Março de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
Na manchete do primeiro tomo, escreveu despudoradamente: “Nas Furnas de Monsanto! À Gandaia! I Sensacional Reportagem do Jornalista Vagabundo Mário Domingues, que passou oito dias e oito noites nos locais miseráveis de Lisboa, vivendo de esmolas e de roubos!” Em nenhum momento do texto, Domingues reconhecera ter roubado ou sequer infringido a lei, e as furnas de Lisboa praticamente não eram mencionadas. Na abertura do texto, introduziu-lhe a moral que faltava: “Para que saibam os da vida folgada e liberta, com abrigo certo, quanto é dura a existência dos que, nas grandes cidades, arrastam frios e fomes na luta pelo pão de cada dia.”

UMA CARREIRA PROMISSORA
Sabe-se pouco sobre a aceitação destes três textos entre os pares do jornalismo português. A cumplicidade de Mário Domingues com Reinaldo Ferreira ou o registo de envolvimento participante poderão ter prejudicado a credibilidade do seu relato aos olhos dos companheiros de profissão mais tradicionalistas. A revista só voltou ao tema mais uma vez, semanas mais tarde, ao reproduzir uma estranha auto-entrevista de Mário Domingues a Joaquim Vadio, com ilustrações de Stuart Carvalhais, ao longo da qual o jornalista anunciava a sua desistência do mundo burguês e a sua adesão ao estilo de vida nómada dos “marginais de Lisboa”. Nos jornais contemporâneos, em contrapartida, não encontrei referências à proeza, nem sequelas do mesmo teor.
No “Diário de Lisboa” de 12 de Abril, em texto não assinado, a miséria urbana voltou a ser focada num registo “objectivo”, seguro, apontando causas da mendicidade e sugerindo caminhos, mas sem ousar sentir na pele o que viviam os miseráveis de Lisboa. O próprio Leitão de Barros dirigiria as edições seguintes da revista para um registo mais informal, concentrando-se nas novidades do cinema e da rádio portuguesas, suas paixões declaradas, e menos nas questões políticas e sociais.

"Diário de Lisboa", 12 de Abril de 1930
(reproduzido a partir do arquivo da Fundação Mário Soares)
Mário Domingues foi quase de seguida convidado por Reinaldo Ferreira para chefiar a redacção da revista Repórter X, projecto imaginativo mas pouco sustentado, que o são-tomense abraçou apaixonadamente. Quase um ano depois da aventura na gandaia, em 11 de Abril de 1931, Mário Domingues patrocinou um esforço parecido do repórter Américo Faria que, ao serviço do Repórter X, procurou viver entre os rufias de Lisboa. Recordando a sua própria experiência, Domingues escreveu em editorial: «Roçámos por muita lama; dormimos em pocilgas inconcebíveis; conhecemos na intimidade vadios que já eram veteranos; aprendemos a fazer dinheiro com os despojos que a cidade despreza; soubemos como poderíamos, para fugir ao inferno da miséria, emigrar clandestinamente  para a Argentina; escutámos de bocas impuras de megeras prostituídas propostas ignóbeis de mancebia torpe; observámos como se consegue viver largamente da caridade pública bem explorada (…) e concluímos que a maioria dos maltrapilhos que tu, leitor, vês passar enojado não é má, é infeliz, infinitamente desgraçada.»
Em 1932, encontramo-lo numa publicação que mudaria a sua vida. Dirigiu a revista “O Detective”, encontrando no registo da novela policial e no contacto com as forças de segurança da cidade a matéria-prima para a carreira que abraçaria de seguida.
Na verdade, apesar de manter colaborações dispersas em jornais e de criar peças de teatro (duas, por exemplo – “Má Raça” e “A Sombra do Passado” –, foram proibidas em 1938 pela Comissão de Censura por voltarem aos registos de crítica social e denúncia da miséria, pouco interessantes para o regime), Mário Domingues abraçou a carreira de escritor. Foi autor, nas décadas seguintes, de dezenas de novelas policiais, vertendo para o papel a riqueza do contacto que absorvera na relação com polícias e reclusos em “O Detective”. Cioso da importância do estrangeiro nas indústrias culturais portuguesas, adoptou, como bem nota o blogue Policiário de Bolso, pseudónimos estrangeirados, uma prática que Dinis Machado também seguiria muito mais tarde.
Espreite com atenção a sua estante de livros mais antigos. É bem possível que ali encontre obras de Fred Criswell, Henry Jackson, James Black, Joe Waterman, Marcel Durand, Max Felton, Nelson MacKay, Peter O‘Brion, Thomas Birch ou W. Joelson. Em comum entre estes prolíferos novelistas (e talvez outros de que ninguém sabe), uma circunstância: todos foram obra da imaginação de Mário Domingues, o jornalista nascido na Roça Infante Dom Henrique (na ilha de São Tomé), que vivera na aldeia da Porcalhota na juventude, até se mudar com a avó e a irmã mais velha para Lisboa, e que, um dia, abandonou a elite para viver durante oito dias como vagabundo nos bairros pobres da cidade.

EPÍLOGO
Luís Dantas escreveu, num e-book, a obra mais completa sobre Mário Domingues, reproduzindo ali todo o texto publicado nos “Notícias Ilustrado” de 1930. É através desta fonte que conhecemos mais duas facetas de Mário Domingues. Boa parte do seu sustento nas décadas de 1930 e 1940 proveio das traduções de obras estrangeiras. Mais tarde, o autor enveredou também pela biografia histórica, assinando quase uma dezena de obras sobre personalidades da história portuguesa, cuja relevância é discutível na medida em que expressam documentação deficiente e liberdades criativas românticas, resultando em exaltações e denúncias pouco credíveis de vários reinados portugueses.
Em 1959, Domingues escreveu também um pequeno texto sobre o fecho do Café Royal, o seu destino predilecto, em cujas mesas idealizara mil projectos com Reinaldo Ferreira – a evocação (digitalizada aqui, página a página, pelo projecto Mosca da Universidade de Évora) vale como máquina do tempo para a Lisboa dos cafés e dos bares do início do século. Em 1960, assinou a sua obra mais polémica, redigindo o “Menino Entre Gigantes”, registo quase autobiográfico, no qual o tema do racismo aflora, mesmo sob a vigilância da censura.
Aos poucos, porém, o seu nome foi sendo esquecido, tal como a memória da sua saga entre os miseráveis de Lisboa se foi esfumando. No livro-entrevista que realizou em parceria com Artur Portela ("Cardoso Pires por Cardoso Pires", 1991, pp. 59), o escritor José Cardoso Pires lembrou-o como um exemplo, a par de Julião Quintinha, António Ferro, Leitão de Barros e Chianca de Garcia de uma geração de jornalistas urbanos, "escritores menores", é verdade, mas "homens que escreviam dia a dia para Lisboa [e] se aventuravam a uma prosa citadina". O legado de Mário Domingues, porém, desapareceu.
Socorro-me por isso de um parágrafo das memórias de Luís Dantas para evocar este capítulo da história do jornalismo que, se não tem outra validade, procura preservar o que é efémero no mundo dos jornais: “Quando o conheci, por mero acaso, na redacção do jornal O Século, não me percebi se o velho jornalista tinha desatinado. Pareceu-me que andava por ali com olhar errante e coração fraquejado, cumprimentando um ou outro colega com vénias para voltar a sair num choro silencioso. Depois, agarrado ao bordão, retirava-se para as bandas da Ribeira Nova, a São Paulo. Talvez fosse beber um bagaço e acender recordações de tempos resplandecentes… E morreu assim, com essa mania, quase esquecido, em 1977.”
Mário Domingues em reportagem para a Repórter X, de que foi chefe de redacção
(Repórter X, 1930, 19. A partir de arquivo da Hemeroteca Digital)

sexta-feira, março 29, 2013

Ramalho, o Papa, Darwin e o Rei à Espera


(Hesito em incluir esta narrativa no leque de histórias improvisadas do jornalismo português. É verdade que Ramalho Ortigão foi um distinto jornalista e terá sido na redacção de textos para jornais que mais se distinguiu. É verdade também que este caso foi parcialmente filtrado para periódicos portugueses na primeira década do século XX. Mas é inquestionável que, durante a missão vaticana, Ramalho não se sentiu jornalista, nem agiu como tal. Fica, por ora, dentro deste lote. Os leitores dirão de sua justiça).

"Wikipedia Commons" - Domínio livre.

O ano era 1901. Passavam doze meses sobre a morte de Eça de Queirós. Os amigos do escritor poveiro esforçavam-se por ajudar a viúva e os filhos, sabendo que Eça, como aliás acontecera durante o tempo em que vivera, não deixara fortuna. Bernardo Pinheiro Correia de Melo, o primeiro conde de Arnoso, um dos membros dos Vencidos da Vida e amigo de infância de Eça e Ramalho Ortigão, pedira na Câmara dos Pares uma pensão para a viúva e para os filhos do escritor, em nome dos serviços prestados à literatura portuguesa. Ramalho, a Ramalhal figura que Eça descrevera em tempos e que com ele colaborara intensamente durante três décadas, arregaçara as mangas e debruçara-se sobre as obras inéditas que Eça deixara quase terminadas. Durante um ano, trabalhou no manuscrito de “A Cidade e as Serras”, deixando-o quase pronto para edição. Havia outros manuscritos na calha, mas, a 28 de Agosto de 1901, o escritor portuense decidiu partir abruptamente para Itália.
A acreditar nas suas palavras, viajou sem agenda, ao sabor do momento, desejoso de beber a cultura artística e religiosa de Milão e Roma, tendo para isso escrito ao conde de Arnoso, secretário particular do rei, para solicitar uma audiência a Dom Carlos I que o dispensasse temporariamente do serviço na Biblioteca da Ajuda. Entre Setembro e Dezembro desse ano, Ramalho viveu na capital italiana, acompanhado de amigos (é identificado, por exemplo, o “amigo Monteverde”, que poderá ser o escultor italiano Giulio Monteverde). Levaria, ou não, uma missão diplomática em mente? Ou, já em Roma, teria sido um improvisado correio diplomático, por necessidade de uma das partes envolvidas? Não se sabe com certeza.
Sabe-se apenas que, certo dia, de surpresa, Henrique O’Connor Martins, encarregado de negócios interino da embaixada portuguesa de Roma (onde esteve, segundo preciosa informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros, de 1896 a 1909) e amigo de Ramalho, pediu em seu nome uma audiência ao papa Leão XIII, através do cardeal Rampola, secretário de Estado da Santa Sé durante este papado.

Henrique O'Connor Martins, em quadro pintado por Sanchez de Barbuda
"Illustração Portuguesa", 1903, n.º 18
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
Revista "Ocidente", n.º 887, 1903
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)
“A minha surpresa foi tão grande como se as sibilas e os profetas do Juízo Final de Miguel Ângelo acabassem de me anunciar que o próprio Padre Eterno me mandava chamar. Podia lá ser! Eu, velho filho do século, ferrugento racionalista, pobre pecador, discípulo, no último banco, de Spinosa, de Darwin, de Littré, de Auguste Comte, de Renan, antigo entusiasta de Byron, de Hugo, de Carlyle, de Proudhon, de Michelet, de Ruskin, ser assim recebido na paternal intimidade do Santuário pelo sucessor de São Pedro, pelo vigário de Cristo, afigurava-se-me a mais inverosímil anomalia, parecendo tacitamente envolver da minha parte uma deturpação de identidade, uma dissimulação de pessoa, quase uma insídia”, escreveu mais tarde, na “Ilustração Portuguesa”, ao lembrar o caso [grafia corrigida para melhor percepção do texto].
Mas quem era na altura o sucessor de Pedro no Vaticano?

O PAPA LEÃO XIII

De 20 de Fevereiro de 1878 a 20 de Julho de 1903, data da sua morte, o cardeal Vincenzo Pecci, antigo arcebispo de Perugia, foi o papa Leão XIII. Serviu durante 25 anos na cadeira de São Pedro, num período conturbado. Pela primeira vez, a Santa Sé estava confinada às fronteiras do Vaticano na sequência do conflito aberto em Itália com Vítor Emanuel (sogro do “nosso” rei Dom Luís) e depois com o rei Humberto. Como notou Ramalho, “Leão XIII é o primeiro da sua hierarquia que cinge a tiara não tendo por estados pontifícios mais que a estância do Vaticano, onde a estátua de Garibaldi, do alto do Janículo, o fita vitoriosamente como eterno prisioneiro da Itália irredenta”.
Ramalho encontrou de facto duas cortes em Roma, uma no Quirinal, outra no Vaticano, “duplicando o número dos representantes diplomáticos de todos os países” e obrigando-os a reunir entre si em “territórios extra-oficiais e neutros, mais facilmente acessíveis aos viajantes, como os halls dos grandes hotéis, o salão dos restaurantes à moda e o lindo tea room do Corso”. Em face do que sabemos hoje, é duvidoso que a “defrontação dentro do mesmo povoado de duas autoridades adversas (…) produz[isse] no público romano o mais singular respeito pela opinião alheia”, como notou o escritor. O papa estava confinado por decreto ao Vaticano e a situação era insustentável.
Leão XIII fez o que pôde durante estes anos de conflito: escreveu. Algumas das mais duradouras encíclicas papais foram produzidas pelo seu punho, valendo-lhe o epíteto de “papa das doutrinas sociais e económicas”. Num discurso invulgarmente moderno, mediou os conflitos entre patrões industriais e a crescente classe operária, estipulando direitos e deveres para o capital e para o trabalho (Rerum Novarum, 1891). De alguma forma, a doutrina social da Igreja foi fundada no seu papado.
Foi também um papa que percebeu rapidamente o poder dos novos meios de comunicação de massa, baseados na reprodução da imagem. Tornou-se um dos primeiros papas fotografados e foi decerto o primeiro filmado, graças a um acordo com o cineasta William Dickson que, depois de longos meses de negociação, foi autorizado a filmar Leão XIII em passeios pelos jardins do Vaticano (1898).
Para além do conflito político com Itália, Leão XIII teve outro incêndio para apagar e, neste caso, não foi propriamente bem sucedido. Assustada com as implicações das obras de Charles Darwin sobre a evolução das espécies, particularmente do ser humano, a Igreja manteve uma distância prudente em relação ao evolucionismo e ao progresso da ciência. Nenhum papa abordara oficialmente o assunto antes de Leão XIII. Na encíclica Providentissimus Deus (1893), o pontífice tocou vagamente no problema, alinhavando argumentos a favor e contra o progresso científico, usados depois pelos dois campos em disputa. Criticou por exemplo “a sede pela novidade” e a “liberdade de pensamento sem restrições” do pensamento científico, mas reconheceu também que a Bíblia não deveria ser lida no sentido literal. Não querendo alienar o mundo científico do catolicismo, mas recusando mérito às teorias da selecção natural e da evolução, Leão XIII manteve a Santa Sé no limbo. Aliás, só em 1950 uma encíclica referiu explicitamente o corpo teórico de Charles Darwin – em Humani Generis, Pio XII declarou-o não contraditório com a religião, na medida em que o evolucionismo trata da origem do corpo humano em matéria viva e não da alma, embora o mito de Adão e Eva como primeiros antepassados do homem fosse objecto de debate teológico até 2004.
Leão XIII não era um conservador. Tinha até uma curiosidade infindável sobre a ciência. Sabe-se que recebeu Júlio Verne em 1884 e interveio directamente para terminar o absurdo impedimento aos católicos de frequentarem as Universidades de Oxford e Cambridge em 1895. Mas não conseguiu destrinçar os méritos do Darwinismo dos postulados dos seus continuadores, como Herbert Spencer e o seu princípio da sobrevivência dos mais fortes, ou Francis Galton. E ficou, neste tema, do lado mais frágil da história.

RAMALHO E A LEITURA ENVIESADA DE DARWIN
Nos quinze dias que sucederam ao pedido de audiência ao cardeal Rampola, Ramalho entreteve-se a escrever um documento que resumia a sua obra literária, de “antigo panfletário”, “sem tentar atenuá-la pela contrição de qualquer pecado que nela se contenha, a não ser o da sua condenável perfeição artística”. O documento autobiográfico serviu para o Maestro de Câmara do papa conhecer a identidade do diplomata improvisado e viabilizar a audiência, percebendo simultaneamente que estava defronte de um antigo autor que assumira no passado profundas posições anticlericais. Em 1877, por exemplo, Ramalho escrevera uma brilhante e venenosa carta aberta ao papa Pio IX (inserida nas Farpas e republicada em 1882, no jornal A Imprensa, n.º 32).
Como bom jornalista, Ramalho documentou-se também sobre o seu interlocutor. Leu todas as encíclicas de Leão XIII para atenuar “o abismo de ignorância que me separava dele”. Na verdade, parecia-lhe “ridiculamente vergonhoso que eu o conhecesse quase tão pouco a ele quão pouco ele próprio me conhecia a mim. Tratei de instruir-me.”
No processo, Ramalho desvirtuou o pensamento de Darwin, imaginando que Leão XIII o condenara ou, pelo menos, percebera “o erro fundamental da doutrina de Darwin”. Em nenhum momento, Darwin antevira que o “agente principal da conservação e do desenvolvimento das espécies [é] o esforço individual na luta pela vida, enunciando o dogma cruel do struggle for life”, como Ramalho escreveu. Foi assim despropositada toda a sua arenga – aparentemente discutida pelo próprio com o papa – contra aqueles que não perceberam que “a espécie unicamente vinga e prevalece, não pelo feroz impulso da combatividade, mas pelo meigo instinto do associamento [sic] e da unificação dos indivíduos, como se dá não só com as humildes formigas e com as frágeis abelhas, mas com os mais possantes e ferozes dos carnívoros, sempre que eles se encontram em supremo conflito com a destrutiva hostilidade da concorrência”. Nunca Darwin, nem mesmo Spencer, tinham proposto tal coisa. Desconhece-se, infelizmente, se o papa Leão XIII concordou com os argumentos de Ramalho, mas o escritor e jornalista não tinha sido convocado para uma conversa teológica. O papa tinha motivos mais prosaicos para lhe falar.

A MENSAGEM
Foi num domingo, dia 10 de Novembro de 1901, pelas onze horas de manhã. Ramalho foi avisado do horário da audiência com dois dias de antecedência pelo Maestro de Câmara. Segundo o escritor, mais ninguém esteve presente na reunião. Sentado numa cadeira de espaldar, "como Voltaire na estátua do Houdon", o papa chamou-o num francês com sotaque italiano. "Pus um joelho no chão e prostrei-me, reverente, perante a majestade de um homem inteiramente vestido de branco no meio de uma câmara vermelha", contou o escritor numa carta particular. A "magreza" e a "senilidade" do interlocutor "dão-lhe um aspecto que já não parece humano".
Ramalho e o papa discutiram Lisboa e a semelhança do seu clima e orografia com os de Roma até chegarem ao tópico que Leão XIII queria focar, provavelmente esperando que Ramalho o comunicasse a Lisboa. O papa lembrou-lhe as medidas do governo português relacionadas com o controlo das congregações religiosas, queixando-se da atitude agressiva do povo (i.e., do rei e do governo) perante “a dissensão da igreja e do Estado”. Ramalho começou por lembrar que era, "perante o rei, meu amo, apenas o guardião dos seus livros [bibliotecário]. Sou totalmente alheio à política e aos actos do meu governo."
Depois, porém, assegurou ao pontífice  – por sua verve ou a pedido do conde de Arnoso, seu amigo pessoal – que não existia tal hostilidade, que ela “era mera expressão retórica, limitadamente comunicada à impulsividade de arruaceiros pelo vituperioso nervosismo de escribas enfastiados”.
Aproveitou entretanto para lançar a escada para outro tema – a decadência do clero português, a sua mediocridade intelectual e moral desde meados do século XIX. Por outras palavras, o escritor atribuiu às lacunas culturais do clero a incapacidade para manter a elite e o povo português no mesmo espírito de devoção católica que marcara os sete séculos anteriores. Enquadrou-os em retórica sobre a devoção portuguesa à Santa Sé e os contributos de tantos homens portugueses do clero para a divulgação da fé, mas o papa percebeu a posição. Discutiram a reforma setecentista da educação do marquês de Pombal, descrito inesperadamente pelo papa como “grande homem e, o que não é muito frequente, também um bom católico”.  E Leão XIII cunhou depois a mensagem que deveria ser enviada aos portugueses: “É para elevar esse nível que o Colégio Português em Roma existe. Procurarei aperfeiçoá-lo e, não obstante a minha pobreza, vou-lhe consagrar trezentos ou quatrocentos mil francos. Não conhece o Colégio?... Vá vê-lo... E informe o rei do que pretendo fazer pelo clero português.”
Como notou Luís Salgado de Matos, num artigo de 1994 (aqui), o papa partilhava a mesma perspectiva que Ramalho transmitiu. Aliás, segundo o mesmo autor, o diagnóstico era-lhe familiar porque também o núncio apostólico em Lisboa enviava sucessivos relatórios sobre o tema. O Colégio visava acolher estudantes de Lisboa, pagos pelas dioceses portuguesas, uniformizando a sua educação religiosa e aumentando os seus horizontes culturais. A decisão viria aliás a marcar a educação dos religiosos portugueses nas primeiras décadas do século XX.

JORNALISTA OU DIPLOMATA
Ramalho saiu da audiência com uma bênção papal para si e para a sua família, tendo sido esse o ângulo que escolheu mais tarde para relatar a aventura. Mas, na verdade, em 1901, Ramalho não parecia um jornalista ou um escritor. No dia seguinte, escreveu do Hotel do Capitólio ao conde de Arnoso, de forma a que este informasse Dom Carlos I da posição papal. Pensou em redigir directamente a missiva ao rei, mas pareceu-lhe "impertinente", como reconheceu na carta ao conde.
Na imprensa portuguesa, por influência seguramente das vias diplomáticas, não tardou a ser noticiada a audiência de Ramalho com Leão XIII num pequeno jornal (“O Comércio”) em Dezembro de 1901. Ramalho, porém, não escreveu sobre o tema nos cinco anos seguintes, só lhe dedicando uma crónica inocente (mais tarde agregada nos volumes das Farpas) em 1906, em “dádiva de Natal àqueles que amo”. 
"Flores de Roma", por Ramalho Ortigão, 24 de Dezembro de 1906, "Ilustração Portuguesa"
(página recuperada a partir da Hemeroteca Digital)

Pouco mais tempo esteve em Roma, a cidade que, “de século para século, através de todas as vicissitudes da política e de todas as evoluções do progresso, sobre sucessivas e sobrepostas ruínas de todas as caducidades, continua a exercer nos homens o mesmo invasivo sortilégio, a mesma carinhosa atracção que tinha na antiguidade”. Partiu para Nápoles nos dias seguintes.
A missão do diplomata, que fora jornalista e escritor, terminara.

O ARTIGO QUE ESTEVE PARA NÃO EXISTIR
Segundo a correspondência guardada no espólio do conde de Arnoso na Biblioteca Nacional [E32, v. sobretudo E32/2645], Ramalho colocara toda a informação de que se lembrara na carta improvisada ao secretário particular de Dom Carlos em 1901, pelo que, em Outubro de 1906, quando se preparava para redigir o seu texto sobre as memórias do encontro papal, viu-se na necessidade de apelar ao amigo "que tão bem arquiva muitos papéis, [se] não terá e não me quererá emprestar por uma hora uma carta que sobre o aludido assunto então lhe escrevi de Roma". O conde de Arnoso em boa hora o fez, caso contrário não teria sido passado à posteridade o minucioso relato de 1906.

Revista "Ocidente", n.º 1167, 1911
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital) 

Dias depois, uma nova carta foi enviada pelo escritor ao amigo. Estava visivelmente agastado com a revista "Ilustração Portuguesa" e perguntava se valeria a pena ele, o conde de Arnoso, o conde de Sabugosa e Luiz de Magalhães colaborarem, como tinham prometido, no número especial de Natal da publicação, "uma revista veículo de tais opiniões. Por minha parte, acho que não". A que se referia o escritor?
Sabemo-lo pela carta seguinte, igualmente dirigida ao conde de Arnoso e redigida com fúria invulgar num homem que se gabava da sua contenção. É a mais violenta das dezenas de cartas de Ramalho Ortigão para o conde de Arnoso. E visava Fialho de Almeida, notável sátiro da sociedade portuguesa que, na edição de 29 de Outubro de 1906, redigira a crónica "Lisboa Monumental".
No texto, Fialho escandalizou Ramalho pelo tom anticlerical e fortemente crítico das autoridades. Transcrevo algumas passagens que decerto enervaram o escritor: "O circo equestre não tem mais viabilidade, pois temos em Santo Antão coliseu para dez ou vinte gerações de títeres e palhaços"; "[Este é] um tempo em que o homem carece de se baptizar todos os dias, o que faz da casa de banhos contemporaneamente o único baptistério a abrir nesta terra de gente por lavar"; "quanto a jazigos de família, uma vez o forno crematório decretado, traremos para casa em boiões as cinzas dos ancestros, com que bordaremos as letras do arroz doce, nos festivos jantares de aniversário"; "cada brasileiro ou rendeiro rico teve licença de erguer a casa a esmo, conforme planos de mestre António ou mestre Isidro, e isto sem a Câmara lhes pedir outras contas que não fossem alcavalas tributais – sua apoucada e cerdosa ocupação"; e, por fim, "é certo que um pouco de deboche activa a civilização dos povos bisonhos e é um factor maravilhoso de sugestões. Roleta, mulheres, circos de verão, teatrofones, música clássica, atlética, mascaradas, festas de carácter pitoresco e popular (…)"
Tudo indica que os amigos consideraram a fúria injustificada e puritana, pois Ramalho disse depois submeter-se "gostosamente às opiniões da maioria", mas ainda foi ameaçando, com implacável raiva, que "nada me seria mais fácil, quando o julgar oportuno, do que desfazer o focinho de Fialho de Almeida em cima da sua prosa".

EPÍLOGO
A audiência papal foi caindo no esquecimento nas décadas seguintes. A sua reabilitação histórica partiu de António Rodrigues Cavalheiro, historiador, deputado da União Nacional e autarca. Através da condessa de Arnoso, viúva de Bernardo de Melo, Cavalheiro teve acesso ao espólio do conde e publicou informação sobre o episódio – quer em artigos de jornal, quer em artigos mais estruturados como na "Panorama" de 1960. Fê-lo com uma marcada matriz ideológica, evocando as lições de religiosidade extrema do povo português que o caso encerrava.
Isso mesmo pode ser avaliado na sua coluna de opinião de 26 de Setembro de 1944, no “Diário da Manhã”, jornal oficial da União Nacional. A propósito dos 29 anos da morte do escritor, o historiador recordou então o ensaio “Flores de Roma”, publicado por Ramalho na “Ilustração Portuguesa”.

"Diário da Manhã", 24/09/1944, por Rodrigues Cavalheiro
Cavalheiro não deixava de lamentar as diatribes de “As Farpas” do século XIX, “páginas menos dignas da sua alta craveira mental, com que pagou tributo às superstições racionalistas do seu tempo”. Em 1901, porém, segundo Cavalheiro, Ramalho já estava noutro patamar da evolução espiritual, na “ascensão para a grande luz do Catolicismo”.
Para o deputado da União Nacional, o episódio encerrava uma lição relevante: a resposta de Ramalho ao exagero das tomadas de posição de alguns jornalistas e políticos sobre a Santa Sé, meras expressões de arruaça intelectual que não poderiam esconder a relação privilegiada do país com a Igreja. E terminava: “Que profundo tema de meditação para quem não abdique totalmente da faculdade de pensar e de concluir!”

sexta-feira, março 22, 2013

quinta-feira, março 21, 2013

Comerciantes de São Miguel, 1945

"O Seculo ilustrado", 3/11/1945

Nas colecções de "O Seculo Ilustrado", encontrei este anúncio publicitário das caixas registadoras Hugin. Data de 3 de Novembro de 1945 e dará seguramente pretexto para recuperar nomes e casas comerciais que fizeram história na ilha de São Miguel.
Na legenda, infelizmente ilegível na fotocópia (a tinta preta perdeu-se no fundo vermelho), refere-se: "Caixas registadoras Hugin. Os comerciantes dos Açores dão a preferência a esta grande marca sueca."
E, nas imagens, ilustram-se as seguintes personagens:
Na primeira fila, da esquerda para a direita: Mercearia Caetano, Ponta Delgada; Casa Zenite, Rua Marquês da Praia e Monforte.
Na segunda fila, da esquerda para a direita: Electro (João Soares jr.), Mercearia de Carlos & Cia, Largo 2 de Março; A. M. Ramos, Ponta Delgada; Casa Pepe, Ponta Delgada
Na terceira fila, da esquerda para a direita: Loja Taveira, Ponta Delgada; Café para Todos, Ponta Delgada; Loja Vieira, Vila da Lagoa; Farmácia Vieira Botelho, Sucessor, Ponta Delgada
Na última fila, da esquerda para a direita: Casa Tinoco, Ponta Delgada; Casa Castelo, José Álvaro Guerreiro, Sucursal de Ponta Delgada.

terça-feira, março 05, 2013

A fotografia de Luiz Carvalho selou o destino da Dona Branca



"Tal & Qual", 5 de Março de 1983
(fotocópia obtida a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
Faz hoje 30 anos. No dia 5 de Março de 1983, na sua edição n.º 140, o semanário Tal & Qual apresentou aos portugueses Maria Branca dos Santos. Para muitos lisboetas, frequentadores habituais das escadarias de madeira da sua residência, na Rua Dr. Almeida Amaral, ao Campo Mártires da Pátria, não foi propriamente uma apresentação. Conheciam aquela cara e aquela história – a imagem acabada da “tia boa e tolerante que, quando éramos miúdos, nos dava cubos de marmelada guardados num velho e pesado aparador, situado numa soturna sala de jantar”, como mais tarde a descreveria o jornalista Hernâni Santos. Nesse dia, sem que ninguém o soubesse, começou o fim da Dona Branca.
Por admissão do jornalista José Rocha Vieira, à época director do jornal e autor do primeiro texto sobre Maria Branca dos Santos, o “furo” jornalístico começou com quatro clientes da banqueira e com as suas histórias de encantamento com a “mulher que é um autêntico banco”. No Portugal de 1983, de depressão económica e inflação galopante, o enredo de Dona Branca era irresistível: uma simpática anciã da Mouraria, de 72 anos, que ora vestia casaco de peles na rua, ora o trocava por um avental em casa; que tratava todos por “ó filho” e “ó filha”; que não resistia a contar a sua anedota picante; e sobretudo que, apesar da iliteracia, pagava juros de 10% ao mês aos depositantes que lhe confiavam as economias.
Os quatro testemunhos garantiam ao jornal que “o ‘cacau’ está tão seguro nas mãos desta mulher de cabelos brancos como nos cofres da mais sólida instituição de crédito”, mas faltava credibilizar a narrativa com uma fotografia sugestiva da banqueira. O objectivo foi concretizado pelo fotógrafo Luiz Carvalho, à data o único repórter fotográfico do Tal & Qual e na verdade o jornalista que desbloqueou o contacto com a senhora (alguns pormenores adicionais aqui). 

Fotografias de Luiz Carvalho
(reproduzidas a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)

Com um misto de oportunidade e persuasão, Carvalho fotografou o quotidiano da entourage da banqueira e captou a senhora num momento que viria a ser publicado ad nauseam nos meses seguintes: a imagem mostrava-a confiante, sorridente, saindo de um prédio, de casaco de peles e colar de pérolas, ajudada por uma colaboradora. Aparentemente captada à distância, mas autorizada pela própria, a fotografia revelava ainda a pequena “peculiaridade física indispensável a uma tia: um dos dentes da frente, espetado e comprido, encavalita-se-lhe no lábio inferior, ficando à mostra quando fecha a boca”. Em manchete – e as manchetes provocatórias e divertidas do Tal & Qual inauguraram um estilo de que O Independente viria a ser herdeiro anos depois –, o jornal escrevia: “Dona Branca – Uma banqueira às suas ordens.”
Numa curta entrevista telefónica, a “benemérita” garantia nada ter “a dizer, meu filho. Posso pedir dinheiro emprestado e posso dar por ele os juros que quiser. O meu dinheiro é meu: posso rasgá-lo, dá-lo ou até ir à janela e deitá-lo para a rua.”


RESPONSABILIDADE
Estavam feitas as apresentações, mas nem os jornalistas adivinhariam o turbilhão que se viveria na sociedade portuguesa nos 19 meses seguintes, até à detenção da Dona Branca, em Outubro de 1984. Em jeito de anedota, vale a pena referir que, nessa reportagem inaugural, o jornal cometeu involuntariamente um lapso, noticiando que o escritório onde a banqueira também fazia empréstimos se situava na Rua Abade Faria, n.º 30. Foi um erro incómodo, como se veria uma semana mais tarde. O escritório ficava no n.º 20 e, durante toda a semana, os moradores do 30 não tiveram sossego, tantos eram os toques na campainha dos novos depositantes.
Num texto estupendo (aqui), Luiz Carvalho conta que demorou dois meses a persuadir a benemérita a deixar-se fotografar sem se esconder. Prometeu-lhe que nada de mal sucederia. Era uma promessa impossível de cumprir, pois os mais de cem mil exemplares do jornal circularam pelo país e criaram um mito imparável. Como dizem os dinamarqueses, as promessas e os ovos são facilmente quebráveis.
A operação da “banqueira do povo” baseava-se num ritmo estável de depósitos e numa rede de confiança que impedia estranhos (no sentido de não conhecidos dos membros da pirâmide) de entrarem no negócio. Enquanto se manteve nesses parâmetros, a operação progrediu, apesar dos indícios mais tarde apurados de que os colaboradores da Dona Branca desviavam regularmente fundos, comprometendo o esquema piramidal de crédito. A celebridade proporcionada pelo Tal & Qual e pela fotografia de Luiz Carvalho selou depois o destino da benemérita.

ESTADO DE GRAÇA
Jornal popular, de poucas páginas, poucas palavras, poucas fotografias e poucas peneiras, o Tal & Qual encontrou na Dona Branca o seu filão. Nas semanas seguintes, a benemérita foi regularmente tema de notícias. Ora porque o jornal procurava perceber o seu complexo esquema de investimento imobiliário capaz de suportar o pagamento de juros aos depositantes (12/03/83), ora porque os nobres El Pais, Guardian ou Frankfurter Rundschau lhe dedicavam reportagens (19/03/83), ora ainda porque a Dona Branca não resistira a telefonar para o programa “A Festa Continua”, de Júlio Isidro, na RTP, licitando por 350 contos um quadro no âmbito de uma emissão de apoio à Casa da Imprensa (11/05/83). O público no Cinema Europa fez “aahhh” quando soube da identidade da benemérita, e a “gentil banqueira do povo” marcou mais uns pontos no imaginário popular, que a romantizou como uma encarnação moderna do Padre Cruz.

"Tal & Qual", 3 de Fevereiro de 1984
(fotocópia obtida a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)

Perto do final do ano de 1983, o verniz começou a estalar, sempre com o Tal & Qual no comando da reportagem. Por um lado, a revelação de que recebia uma pensão de pobreza de 3.900 escudos foi escandalosa, face ao conto de fadas que se conhecia; por outro, Ernâni Lopes, ministro das Finanças, recomendou na RTP cautela aos depositantes e, em privado, pediu à Inspecção de Crédito do Banco de Portugal para investigar a operação. No primeiro inquérito, aliás, a Dona Branca chorou copiosamente e explicou que só ajudava os necessitados. Os inspectores entreolharam-se quando tomaram conhecimento da sua lista de clientes. Entre os depositantes, constavam deputados, políticos, figuras da televisão e do cinema português. E vários inspectores da Policia Judiciária.

A QUEDA DO ABISMO
No imaginário popular, brincava-se que a Dona Branca daria um ministro das Finanças mais capaz do que “o sovina Ernâni Lopes”, mas, a partir de Fevereiro de 1984, o ritmo dos depósitos começou a decrescer. Emergiram na imprensa suspeitas de insolvência. Apesar disso, pelo menos para o exterior, o negócio prosperava. Ao escritório da Rua Abade Faria, somava-se agora outro na Avenida Rio de Janeiro. Dezenas de angariadores patrulhavam a cidade. Acumulavam-se sacos de plástico com dinheiro na sede da organização. Passavam-se recibos de depósito sem confirmação. Cega pela atenção pública, Dona Branca parecia ter perdido o controlo da operação. Ao fotógrafo de uma agência francesa que a captou no seu Mercedes com a sobrinha, a benemérita pespegou dois beijos na face.
Em Junho, Maria Branca dos Santos anunciou um período de meditação, coincidente com a fase em que já não conseguia cobrir os juros exorbitantes. Surgiram os primeiros relatos de burla na sua própria organização. De contas paralelas em Espanha e na Suíça. Descreviam-se recibos de depósito forjados, mas pagos como válidos (saber-se-ia mais tarde, durante o julgamento, que o principal livro de contas da organização era a memória da Dona Branca). Branca vendia património imobiliário e jóias para cumprir os compromissos. 
Homem de muitas guerras, com 92 anos de experiência, o banqueiro Cupertino de Miranda resumia o que parecia inevitável: “Na actual conjuntura, não conheço nenhum negócio legítimo que dê sequer 30 por cento. Ora 120 por cento ao ano é inconcebível.”
Fosse por convicção ingénua ou por desejo de prolongar a história jornalística da sua publicação, Hernâni Santos continuou a alimentar o mito. A 5 de Junho de 1984, relatou a história da benemérita que apoiara a Associação de Deficientes das Forças Armadas e que se preparava para oferecer equipamento ao Instituto de Oncologia. Pior do que isso: o jornal publicitou casos de sucesso de depositantes a quem as contas continuavam a bater certo e para quem o dinheiro estava seguro.
Um dia, o dinheiro deixou de estar seguro. A conta 631 5356 do Banco Português do Atlântico, na Praça de Londres, deixou de ter cobertura. Os depósitos cessaram. Os clientes da Dona Branca queriam levantar as economias e a conta estava “careca”. Colaboradores próximos publicavam desmentidos na imprensa, recusando qualquer ligação à operação da benemérita. Com ironia, mas alguma falta de vergonha, o Tal & Qual rotulou o caso com uma manchete inesquecível: “A Branca... rota” (07/09/1984).

"Tal & Qual", autor desconhecido
(fotocópia obtida a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
Foi o pandemónio em Lisboa. Meio milhar de pessoas acorreu aos escritórios. Foi necessário destacar um contingente da PSP para a Avenida Rio de Janeiro porque, nas palavras de Rui Machete, ministro da Justiça, “não podemos permitir que a Dona Branca seja sovada”. Encenaram-se tentativas de recuperação em Setembro. Numa das ocasiões, um falso depositante aproximou-se do escritório e, à frente da fila de credores, garantiu que ali ia deixar 1.500 contos por ter confiança na banqueira. Era tarde. Nem os vinte investigadores da PJ que tinham caído na esparrela conseguiram recuperar os seus depósitos. A fonte secara.
No dia 4 de Outubro de 1984, a Dona Branca foi presa. Nunca se soube o volume total de depósitos perdidos. Morreu em Abril de 1992, numa casa de saúde, praticamente cega.
O seu destino ficara selado no dia em que a objectiva de Luiz Carvalho a imortalizou.