terça-feira, setembro 03, 2013

Os jornais de chuteiras nos anos trinta


Arquivo fotográfico do Jornal "O Século", ANTT
http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=1019553

Aproxima-se um jogo decisivo da selecção nacional. Noutros estabelecimentos, vai ler todo o tipo de prognósticos sobre as probabilidades de vitória, a influência do clima, o espírito guerreiro dos matarruanos de Belfast, a influência da sorte ou as previsões do bruxo de Fafe. Aqui, proponho-lhe outro exercício – um esforço de imaginação.
(Não lhe peço para fechar os olhos porque, convenhamos, seria estúpido e perderia o resto do texto!) Mas venha comigo à década de 1930.
Os jornais, colossos de receitas e de circulação, começam aos poucos a ser minados pela rádio, mais democrática, que chega a qualquer lar e não requer literacia nem a compra de qualquer edição. É gratuita e o seu charme espalha-se por milhares de casas portuguesas como um vírus contagioso.
Em Lisboa e no Porto, os grandes jornais procuram respostas. O futebol é a solução óbvia, pois cativa milhões de pessoas. A selecção dá os primeiros passos. Começou a disputar jogos em 1921. Aliás, perde-os regularmente e com estrondo, para grande espanto da nação. A alma portuguesa, a raça dos Cabrais, as ínclitas gerações não resistem à passagem da fronteira. Mas pouco importa. Para os jornais, a selecção é a pátria de chuteiras, na feliz expressão de Nelson Rodrigues.
De acordo com "Jornais Diários Portugueses do Século XX", de Mário Matos e Lemos (2006), em 1928, no espaço de poucas semanas, o “Diário de Notícias” e “O Século” inventam um novo serviço prestado aos leitores (os marketing wizzs chamar-lhe-iam uma diversificação de plataformas). Olhe novamente para a imagem no início deste texto. Data de 1936 e parece mais um ajuntamento no Rossio, em Lisboa, palco de mil manifestações e protestos no início do século. A multidão comprime-se. Os carros circulam com dificuldade. Os eléctricos sufocam face à massa compacta. O mar de chapéus de coco não avança nem recua. Na verdade, todos aqueles homens (desafio-o a encontrar uma senhora na imagem) estão parados, imóveis, em sobressalto. A selecção joga com a Áustria e a sucursal de “O Século” transmite o jogo por altifalante, com base nos despachos emitidos pelo seu repórter no Estádio do Lima, no Porto, que os passa a um rapaz-estafeta que, por sua vez, corre até ao posto telefónico mais próximo e informa os colegas de Lisboa.
Mais acima, na Avenida da Liberdade, há outra multidão, presa às mesmas notícias, mas emitidas de outra forma pelo DN. Mais moderno, este instalou um placard eléctrico na fachada do jornal, com mais de mil lâmpadas, que acendem e apagam consoante as incidências do jogo. Para anunciar as peripécias da bola, o jornal acciona as lâmpadas e a multidão entra em transe, à espera da mensagem escrita que virá de seguida. Um golo? Uma lesão? Informação do intervalo ou do fim do jogo? As notícias de época descrevem comoções. Desmaios. Desfalecimentos. Não é para menos.
Portugal volta a perder um jogo, desta vez por 2-3.

PAULO BENTO
Prometi-lhe um exercício de imaginação, que não ficou esquecido. Avançamos dois anos, até 1938.
Portugal já perdeu com a selecção suíça em Maio por 2-1, mas a esperança futebolística é como a minha fé na roleta: renova-se todas as semanas. Há novo desafio marcado para Lausannne. Vão Azevedo, Pinga, Peyroteo e Gaspar Pinto. Os melhores dos melhores. A flor de uma geração. Desta vez, é que será.
Pujante, “O Século”, que “dá ao desporto o mais desinteressado apoio”, preparou nova novidade, antecipando o advento da televisão. O jornal de João Pereira da Rosa encomendou ao conhecido “operador Leandri, técnico de grande visão”, a filmagem do jogo. Leandri tem apenas uma câmara, num ponto fixo distante do relvado, mas o episódio marca a emergência da imagem animada no nosso quotidiano desportivo. E o jornal contratou o melhor, o homem que filmou os astros brasileiros no Campeonato do Mundo de 1934.
"O Século", 08/11/1938
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

No entanto, as imagens demoram mais de dois dias a chegar da Suíça. Vêm no mesmo hidro-avião das fotografias que o jornal usou no dia 8 de Novembro para ilustrar a crónica. Durante a partida, repete-se a rotina. O Rossio lotado. O mar de chapéus e gabardinas, alheios à chuva, presos ao único altifalante da praça, que transmite secamente informação de quinze em quinze minutos. A dada altura, a multidão imobiliza-se. Ecoa um som de estática no altifalante, prenúncio de novidade. Uma voz seca, impessoal, neutra, rompe o silêncio.
“.... Informação de Lausanne.... 48 minutos.... Golo da Suíça.....”
Minutos depois do acontecimento propriamente dito, lá, bem longe, nas montanhas helvéticas, as palavras gelam milhares de portugueses no Rossio e na Constituição. Até final, por mais preces que sejam lançadas contra o aparelho metálico, não chega a informação salvadora. Toda aquele gente seguirá para casa, amorfa, murcha. Para a próxima é que será.
Agora, imagine o nosso seleccionador. Pense em Paulo Bento, cansado da refrega, do combate táctico, do esforço de orientar 11 jogadores na batalha atlética com a Irlanda do Norte. Neste ano de 1938, o antecessor de Paulo Bento chama-se Cândido de Oliveira e tem duas missões que começam exactamente no momento em que o árbitro sinaliza o fim do jogo.
Primeiro, por artes mágicas, Cândido de Oliveira terá de se esquecer que foi ele quem treinou a selecção, pois cabe-lhe ditar a crónica para “O Século” na qualidade de enviado-especial. Fá-lo certamente com o coração a sangrar. A ladainha, essa, é intemporal:
“Portugal perdeu apenas por 1 a 0.”
“Este resultado pode ser considerado honroso para a equipa portuguesa, que deu uma réplica enérgica e briosa.”
“O ponto helvético foi obtido quando o nosso grupo tinha apenas dez homens em campo.”
“Os suíços actuaram no seu próprio campo e perante 30.000 compatriotas. Há sua diferença!”
"O Século", 07/11/1938
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
O jornal reserva-lhe, porém, ainda outro serviço. Já em Lisboa, com as imagens de Leandri, Cândido de Oliveira desempenha nova função. “O Século” manda-o para o São Luís e para o Central, em Lisboa, e depois para o São João Cine, no Porto, onde o seleccionador exibe o documentário em salas de cinema e comenta as incidências do jogo, graças à distribuição da Sonoro Filmes, “casa de justo e sólido prestígio”. Suporta então estoicamente os comentários do público anónimo, que ali foi ver as imagens animadas. Ouve as perguntas. As dúvidas. As recriminações. Num rigoroso exclusivo para Portugal e Colónias.
Agora, imagine Paulo Bento no mesmo papel.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Maroiços, aborígenes, a LUSA e o Expresso


Warren Burkett, um dos grandes teorizadores sobre a relação entre a ciência e o jornalismo, costumava contar uma anedota.
Um velho professor de Química lecciona uma aula quando, a dada altura, é interrompido pelos gritos eufóricos de um estudante.
Sem se conter, o aspirante a cientista entra na sala e grita, rubro de emoção:
- Eureka! Descobri um novo solvente. É o solvente mais potente do mundo! Consegue dissolver qualquer material. Plástico. Vidro. Barro. Tudo.
Impassível e calejado por “mil” descobertas, o professor responde secamente:
-       Queira por favor explicar aos seus colegas em que recipiente vai guardar a sua descoberta.
A ciência tem protocolos bem definidos para produzir respostas que são, por natureza, efémeras e válidas até alguém provar a sua obsolescência. Em 1900, numa reunião da Associação Britânica para o Avanço da Ciência, Lorde Kelvin argumentou, pesaroso, que, em Física, já nada mais haveria a descobrir. Cinco anos mais tarde, um alemão naturalizado suíço, que passava os dias frustrado num gabinete de patentes, apresentou a Teoria da Relatividade e destruiu as balizas  que delimitavam a Física. Notem, portanto, que não nego a possibilidade de um achado científico produzir ruptura total com o conhecimento disponível. Simplesmente, ela não sucede com frequência. E, normalmente, os Einsteins da ciência publicam as suas descobertas em revistas científicas, sob supervisão dos pares. O New England Journal of Medicine criou inclusivamente a regra Ingelfinger, através da qual perde interesse em publicar artigos que tenham sido apresentados aos media antes da submissão dos pares.
Consideremos, pois, mau sinal quando um cientista prefere convocar os meios de comunicação para anunciar revelações antes de publicar o seu contributo.

OS PRÉ-PORTUGUESES DOS AÇORES
No dia 24 de Agosto, a agência Lusa emitiu um despacho lamentável. Seguia as regras elementares da atribuição de informação às fontes e era fiel ao comunicado de imprensa que o motivou, mas isso, terão paciência, não chega quando está em causa um anúncio bombástico de uma descoberta científica.

A Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA) foi fundada em 1998. Tem arqueólogos como colaboradores e tem todo o direito a colaborar no debate científico sobre o povoamento dos Açores. Assiste-lhe igualmente o direito de propor as teses radicais que considerar pertinentes e de chamar a imprensa para o debate. Cumpre a sua agenda e segue uma estratégia óbvia de antecipação da aceitação jornalística ao reconhecimento científico, preferencialmente com anúncios sexy, de evidente apelo aos sentidos (o grupo de Friedman chamar-lhes-ia as abordagens Ghee whiz!).
A Lusa, porém, não pode aceitar de ânimo leve que teses apoiadas em quinhentos anos de historiografia sejam contestadas de forma tão leviana e sem contraditório, por um parceiro sem historial conhecido. Que eu tenha conhecimento, a APIA não publicou, em revista científica reconhecida, com revisão de pares, nenhuma das alegações que tem vindo a fazer desde 2010 nos Açores. Publica livros, mas estes não são submetidos ao crivo da academia. Participa em conferências, mas a oportunidade de contraditório destes eventos depende sempre da audiência. Por outras palavras, até prova em contrário, não faz ciência.
Não basta por isso à Lusa seguir o manual do despacho sobre política, citando o comunicado de imprensa do partido X. Se vê noticiabilidade no argumentário da APIA (povoamentos pré-portugueses provados pelos maroiços da ilha do Pico), está obrigada, no mesmo despacho, a incluir pontos de vistas que dele discordem.
Faço questão de ressalvar que a discussão é jornalística, não é arqueológica.

BOLA DE NEVE
É evidente que os constrangimentos jornalísticos apressam o processo de verificação da informação. Em nome do “furo”, ignoram-se fases de validação. Colocam-se na rede informações incompletas, por vezes erradas, com o argumento de que podem sempre ser corrigidas. Sei disso tudo. Também sei que, nos livros de estilo que vamos compondo nas nossas redacções, as personalidades de reconhecida capacidade técnica dispensam as mesmas verificações rigorosas das fontes sem capital simbólico. Não se questiona abertamente José Mattoso se ele apresentar uma nova tese sobre a Idade Média, nem Galopim de Carvalho num texto que redefina a geologia sedimentar. Admite-se, como princípio operacional, que uma carreira cimentada em mérito académico reduz (mas não impede) o risco de publicar disparates. Mas a APIA não é Mattoso, nem Galopim. E a Lusa tem responsabilidade acrescida porque “cria” agenda nos meios de comunicação que dela dependem.
Os últimos dias de Agosto foram assim caricatos. Numa réplica perfeita do efeito-manada, o despacho da Lusa foi repetido mil vezes. Do “Açoriano Oriental” à “Rádio Vaticano” (palavra!), repetiu-se o mesmo texto, acriticamente. No mesmo dia, uma peça inqualificável do “Expresso” seguiu o mesmo tom, sem reserva, do despacho da Lusa. Fala em pirâmides e em praças cerimoniais, estabelece elos com o Mediterrâneo e com o México, com aborígenes do Norte de África e com as Canárias. Tudo na ilha do Pico. Como na anedota, queiram por favor explicar aos seus colegas onde estão guardados os vestígios palpáveis destas civilizações.

Quando chegou finalmente um travão a esta avalancha aborígene lançada sobre o Pico já a torrente era imparável. Três dias depois, o “Público” produziu um artigo equilibrado (disponível por enquanto aqui), noticiando as alegações dos “jovens lobos”, mas ouvindo as refutações peremptórias dos dois especialistas (Élvio Sousa e Ana Margarida Arruda), ambos com trabalho de campo nos Açores, ambos com trabalho publicado sobre a expansão marítima, ambos com reputação nos respectivos campos de saber.
Ontem, chegou por fim, no mesmo jornal, um artigo de opinião de um arqueólogo, questionando abertamente a validade científica das “provas” apresentadas aos media, mas talvez já seja tarde. Está plantada, no subconsciente nacional, a ideia da pré-colonização açoriana. A estratégia resultou.


Creio que está na hora de começarmos a esboçar um 11.º Mandamento, este destinado a jornalistas que relatam ciência: Não anunciarás “descobertas” mirabolantes sem que estas tenham sido validadas pela comunidade de especialistas.
Sob risco de caíres no ridículo à mesma velocidade com que proferes a palavra Eureka!

Em tempo: réplica bem humorada de Miguel Albergaria ao autor aqui.

quarta-feira, agosto 28, 2013

Como um Jogo do Benfica Chegou à Mesa de Salazar


Albino André e Mário Matos Lemos, "Diário de Notícias", 04/09/1965
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)


No número do centenário do Diário de Notícias, publicado em 29 de Dezembro de 1964, o jornalista Mário Matos e Lemos lamentava não ter, ao fim de sete anos de carreira, um «episódio daqueles cheios de graça, que tantos dos meus colegas de trabalho têm para contar, para deleite de leitores ou ouvintes». Falava cedo de mais. Como o sermão de John Donne prenunciava em Por quem os Sinos dobram, é sempre perigoso mandar perguntar por quem dobram os sinos, não vá dar-se o caso de estes repicarem pelo próprio. Sete meses depois destas palavras, Matos e Lemos tinha de facto uma história para contar. Inesperada e divertida – excepto, talvez, para o seu protagonista principal.   

Não consta que António Oliveira Salazar tivesse preferências futebolísticas vincadas ou soubesse sequer o nome dos principais futebolistas da nação, mas, nos primeiros dias de Setembro de 1965, o ditador foi forçado a embrenhar-se num tema futebolístico. Em pano de fundo, estavam as relações de Portugal com a União Soviética (URSS), um dossier que o presidente do Conselho nunca quisera abrir e que se via agora forçado a decidir, perante o interesse do mundo. Salazar lembrava-se bem do sarilho que as notícias internacionais de 1962 a 1964 provocaram, quando jornais norte-americanos, equatorianos, franceses, brasileiros e argentinos ("Franco Nogueira e o Reconhecimento da República Popular da China", Marco António Martins, 2010, pg.250-251) sugeriram que Lisboa se preparava para reconhecer o governo de Pequim. E agora caía nova “bomba” na sua mesa, proveniente da fonte mais improvável.
Tudo começou com um conjunto de notícias de jornal promovidas por um operador turístico que não imaginava onde se estava a meter e cujas palavras indiciavam uma espantosa e inédita abertura diplomática entre dois regimes antagónicos. Como de costume, tudo terminaria com uma tarde passada na PIDE e um inquérito conduzido pelo próprio director da Polícia Internacional de Defesa do Estado, Fernando Silva Pais, por causa de “um certo estado emocional do público”...
"A Bola", postal de Albino André para Vítor Santos, 06/09/1965

O TURISMO, O FUTEBOL E OS PAULITEIROS DE MIRANDA
Toda a história concentra-se na figura de Albino da Conceição André, um homem prático, de negócios. Com Celestino Domingues, fundara em 1958 a agência de viagens TurExpresso, com sede na Avenida Duque de Loulé em Lisboa, e conseguira a importante representação em Portugal da InTourist, agencia soviética de viagens. Aos 38 anos, sem convicções políticas marcadas, este homem nascido na freguesia de Pessegueiro, concelho de Pampilhosa da Serra, movimentava-se com à-vontade para lá da “cortina de ferro”, apesar das restrições às viagens entre os dois países.
Com bons contactos na direcção benfiquista presidida por Adolfo Vieira de Brito, Albino André fora, em meados de Agosto de 1965, como de costume, à secretaria do Sport Lisboa e Benfica, que frequentava com frequência, pois organizava muitas viagens do clube “encarnado” para as competições no exterior. Em conversa amena com Gastão Silva e Coelho Virgílio, dirigentes do futebol do clube, revelou que se deslocaria à União Soviética nos dias seguintes. Sempre cioso de novas fontes de receita, um dos dirigentes desafiou-o a preparar uma digressão do clube à URSS. Albino André registou, mas não promoveu qualquer acto concreto nesse sentido quando chegou a Moscovo. Ironicamente (sempre de acordo com a sua reconstituição dos acontecimentos), foi abordado na capital russa por Victor Prozorskov, director da InTourist, que lhe fez uma proposta ousada. Prozorzkov sugeria uma ampla digressão desportiva e cultural de portugueses à URSS, garantindo que a popularidade do futebol do Benfica, dos fadistas Amália Rodrigues, Fernanda Maria e Carlos Ramos e até do grupo folclórico Pauliteiros de Miranda galgara fronteiras e chegara às neves russas. Como prova, o dirigente soviético exibia, sorridente, discos de Amália e Fernanda Maria.
Albino André não cabia em si de contente. Nem tivera de se esforçar para agregar boas vontades. No dia seguinte, foi convocado para uma reunião com Prozorzkov, o vice-presidente da Federação Soviética dos Desportos, um funcionário do Ministério das Comunicações, o presidente da transportadora Aeroflot, o treinador do Dínamo de Moscovo e um responsável político para as relações com a Europa Ocidental. Era óbvio que os soviéticos tinham concluído (erradamente) que, para chefiar uma agência de viagens internacional, Albino André era também um agente político bem posicionado em Lisboa. Como se veria depois, não era esse o caso.
Os soviéticos convidaram o futebol do Benfica a visitar o país, propondo a realização de dois jogos com o campeão russo dessa época, o Spartak de Moscovo, em Outubro de 1965 e em Maio de 1966. Anunciaram também que não colocariam qualquer entrave se a delegação portuguesa quisesse viajar em voo da TAP.
Albino André regressou a Lisboa e, no dia 3 de Setembro, deu conta aos dirigentes do Benfica da vontade russa que, face ao anunciado acordo em vista (que atribuía a receita da bilheteira do jogo de Lisboa para o clube da Luz), anuíram, propondo o dia 6 ou 10 de Novembro como data para o primeiro encontro. Semanas antes, o Benfica recebera o Real Madrid e encaixara quatro mil contos em receitas de bilheteira. Previa-se encaixe idêntico para receber os colossos da Rússia, pelo que o clube emitiu uma credencial que garantia que o director da TurExpresso representava o Benfica e aguardou por novo contacto.

AS NOTÍCIAS
As notícias circulam rapidamente em meios pequenos e, em Lisboa, comentava-se o êxito diplomático do fundador da TurExpresso. O rumor da digressão chegou aos ouvidos de José Pereira da Costa, chefe de redacção do “Diário de Notícias”, que delegou no jornalista Mário de Matos e Lemos a entrevista a Albino André.

"Diário de Notícias", 04/09/1965
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)

Satisfeito com o seu êxito diplomático, Albino André assumiu que o acordo era proveitoso para todas as partes e anunciou-o abertamente. No sábado, 4 de Setembro, o “Diário de Notícias” anunciava, em manchete: “O BENFICA VAI À RÚSSIA E O SPARTAK (DE MOSCOVO) VEM A LISBOA”.
Na peça, Matos Lemos lembrava que as oportunidades de visita aos países para lá da “cortina de ferro” limitavam-se às provas desportivas e aos congressos científicos, mas, se mesmo a Espanha ferozmente anticomunista começava a abrir as portas ao turismo soviético e planeava inclusivamente uma exibição de tourada em Moscovo, Portugal provavelmente seguiria o mesmo rumo. A agência TurExpresso tinha então o monopólio do tráfego turístico com os países do Leste europeu e o seu proprietário anunciava o vasto interesse soviético pelas divisas ocidentais, gabando o esforço de construção de infra-estruturas da URSS para acolher os novos visitantes. Albino André garantia ainda que, para além do futebol do Benfica, os russos queriam conhecer o fado e folclore português. Em confidência off the record (só mais tarde recordada por Matos Lemos no livro de 1986 “O 25 de Abril”, pg. 154), Albino André garantia que os soviéticos convidavam inclusivamente Oliveira Salazar a visitar o país e garantiam que a sua segurança não seria colocada em causa.
Algo se passou nos serviços de censura nestes primeiros dias de Setembro. No inquérito da PIDE, Albino André garantiu que o “Diário de Notícias” o informou no dia 3 que a peça não fora autorizada a sair, mas, no dia seguinte, ela foi publicada sem cortes. Aproveitando a embalagem, Fernando Soromenho, responsável pela página desportiva do “Diário de Lisboa”, telefonou imediatamente a Albino André, mal leu a primeira página da publicação rival. Vespertino, o DL tinha ainda algumas horas antes do fecho. Por isso, nova peça foi produzida, juntando informação de contexto: a receita deveria rondar os 4 mil contos e pertenceria ao Benfica; o convite partira dos soviéticos; estava autorizada a chegada a Moscovo de um avião da TAP.

"Diário de Lisboa", 04/09/1965
(arquivo da Fundação Mário Soares)

Com os meios diplomáticos em polvorosa face a tão estranha mudança de protocolo na relação com a URSS, os jornais continuaram a saga no domingo. Quer o “Diário de Notícias”, quer o “Diário de Lisboa” anunciavam que o primeiro jogo seria já em Novembro, no dia 6 ou 10, e que tudo deveria estar tratado na semana seguinte, mal Albino André voltasse à União Soviética. Os porta-vozes do Benfica confirmavam a aproximação e garantiam que a TurExpresso representava o clube.
Na segunda-feira, a paciência oficial esgotou-se. Enquanto o “Diário de Lisboa” garantia que cada jogador da comitiva receberia 100 contos de prémio, o trissemanário “A Bola”, com algum desplante, publicava na primeira página um postal de Albino André para Vítor Santos, chefe de redacção, remetido de Moscovo. Na mensagem, o agente turístico garantia que, “se o Benfica estiver de acordo, do que não duvido, pois as condições financeiras são excelentes, poderá dar como certa a vinda da equipa a esta bonita cidade”. No corpo da notícia, o jornal garantia ter recebido a missiva no dia 18 de Agosto, mas só agora (depois de publicada na imprensa de referência) sentia coragem para a trazer à estampa.
Nessa mesma tarde, Albino André foi mandado comparecer na sede da PIDE, onde foi interrogado por Silva Pais (cf. “Ida do Sport Lisboa e Benfica à URSS”, inquérito da PIDE/DGS ao industrial Albino André, Arquivo Salazar, PC-77 cx. 593, subd. 110, f. 380-390, na Torre do Tombo).

O CONTEXTO MAIS AMPLO
Em 1965, Portugal não tinha relações diplomáticas com a União Soviética, nem com os restantes países do Bloco de Leste, à excepção do governo jugoslavo, reconhecido em 1961 — e entretanto a representação diplomática em Belgrado fora suspensa. Dos países comunistas, Salazar aceitara apenas encetar relações diplomáticas com Cuba. Os contactos com os restantes países limitavam-se aos compromissos internacionais, como as reuniões científicas ou as provas desportivas, mas algo estava a mudar na percepção soviética de Portugal e do seu império. A motivação, segundo o volume de memórias de Franco Nogueira ("Salazar", 1977) e a mais estruturada biografia ("Salazar", 2010) de Filipe Ribeiro de Meneses, passava pela luta surda entre os Estados Unidos, a URSS e a China pela capacidade de influência em Angola, país vital no xadrez do Atlântico Sul e cujo destino estava então em aberto, face aos vários movimentos de libertação em conflito aberto com a potência colonial.
O incidente da TurExpresso não foi a primeira tentativa atabalhoada de diálogo soviético. Marcello Mathias, ministro português dos Negócios Estrangeiros entre 1958 e 1961 e embaixador português em Paris durante 24 anos, conta na sua eloquente recolha de correspondência com Salazar (“Correspondência Marcello Mathias/Salazar, 1947-1968”, de 1984, pg. 646) que, em 1963, numa reunião em Paris, Serguey Vinogradof, embaixador soviético na capital francesa, lhe perguntou de chofre: “Porque não existem relações diplomáticas entre os nossos dois países?”. Em Janeiro de 1964, a pergunta repetiu-se, na presença do ministro francês Louis Joxe. Em ambas as situações, Marcello Mathias avisou Lisboa, que recusou responder.
Seguiu-se o incidente da TurExpresso, que Salazar prontamente sanaria com a proibição da digressão, mas o caso teve uma repercussão extraordinária, dada a publicidade que lhe foi dada. Até aqui, as aproximações soviéticas tinham sido silenciosas para a opinião pública. Neste caso, a abordagem fora ruidosa. 
Mesmo com mais uma recusa, os russos não pararam. Na recolha de Matos Lemos, realizada no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros (opus cit. pg. 154-157), há informação de outras tentativas de aproximação do Bloco Leste em Jacarta, em 1965, em Beirute em 1967, em Brasília, igualmente em 1967, onde o jornalista Manuel Figueira, de “O Século”, foi abordado pelo embaixador checoslovaco, e através de contactos consulares com embaixadores romenos em várias capitais como Viena, Estocolmo, Bona, Atenas e Helsínquia, que aproveitavam um inédito acordo comercial luso-romeno para sugerir o alargamento das relações de Portugal com o Leste da Europa. Já com Marcelo Caetano no poder, em 1969, os russos voltaram a tentar uma aproximação, propondo a abertura de um escritório da agência noticiosa Novosti em Lisboa. E entre 1971 e 1972 emergiram novas perguntas de responsáveis diplomáticos do Leste a embaixadores portugueses. Salazar e Caetano recusaram sempre.

EPÍLOGO
Interrogado na sede da PIDE, Albino André contou todos os episódios da história, tendo o cuidado de “não se lembrar” de qual o dirigente do Benfica que mais insistira com a ideia da digressão. Assumiu o que disse em todas as entrevistas, discordando apenas da manchete do “Diário de Notícias” e afirmando ingenuamente que não via como poderia ser negativo um acordo que gerava receitas para todos os intervenientes. Silva Pais irritou-se particularmente com os elogios de Albino André aos esforços soviéticos em matéria de turismo, mas o responsável da TurExpresso lá foi dizendo que eram óbvios para quem, como ele, visitava a URSS com frequência.
Na verdade, Albino André nunca imaginara que os russos o tinham tomado por um interlocutor de peso da política portuguesa, nem tinha reflectido sobre a ausência de relações diplomáticas com a URSS. Para ele, havia negócios a fazer, face ao novo interesse soviético pelas visitas a Portugal. Pelo sim, pelo não, foi garantindo que cumpria a lei, informava as autoridades sempre que recebia pedidos de portugueses para visitar a URSS ou informação de soviéticos em visita por Portugal. Considerava aliás a PIDE “digna dos maiores elogios, como publicamente o tem demonstrado” e reconhecia que, se tivesse imaginado de antemão “o estado emocional” criado pelas notícias no público, não teria falado à imprensa. Foi libertado ainda nesse dia.
No dia 7, o Ministério dos Negócios Estrangeiros proibiu a digressão e informou a direcção do Benfica que, no dia 8, emitiu um comunicado à imprensa, garantindo nada ter acordado com os soviéticos. Os russos não ouviriam o fado, nem assistiriam aos Pauliteiros de Miranda.
"Diário de Lisboa", 08/09/1965
(arquivo da Fundação Mário Soares)

Matos Lemos recordou o caso com algum detalhe no seu volume "25 de Abril", editado em 1986. Cometeu algumas imprecisões (trocou os anos de 1965 por 1964, confundiu o nome do responsável da InTourist e antecipou em quatro anos as funções de Albino André como presidente da associação de agências viagens), mas proporcionou um curioso retrato do que sucedera em Setembro de 1965. Culto, com vasta obra publicada, exerceu uma longa carreira no jornalismo, celebrizando-se como enviado-especial a alguns dos principais conflitos portugueses, em Goa e Angola. José Pedro Castanheira apelidou-o de "jornalista de regime" e "adepto confesso de Marcello Caetano" (aqui), sublinhando a proximidade de Matos Lemos com várias figuras do regime, como Rui Patrício ou Moreira Baptista, com os quais privara no curso de História da Faculdade de Letras de Lisboa, onde se licenciou.
Começou a carreira jornalística em 1957, aos 24 anos, na agência noticiosa ANI, ao serviço da qual foi correspondente no Porto e subchefe de redacção. Em 1964, foi convidado para o "Diário de Notícias", onde permaneceu dois curtos anos, antes de voltar novamente à ANI. Em 1971, aceitou o cargo de subdirector do "Diário do Norte", mas a experiência durou pouco e terminou com estrondo. Um ano depois, concorreu ao cargo de conselheiro de imprensa, tendo sido aceite na embaixada de Roma, onde acumulou funções como correspondente da RTP na capital italiana até à revolução de Abril.
Foi autor de várias obras sobre política e jornalismo e traduziu muitas outras para português. Na Biblioteca Nacional, constam 44 volumes da sua autoria, incluindo um interessante ensaio, em edição de autor, publicado um ano antes do caso TurExpresso, no qual o autor advogava o fim imediato da censura à imprensa. Até 1974, era, sem sombra de dúvidas, um homem próximo do Estado Novo.
Albino André continuou à frente dos destinos da TurExpresso sem grandes transtornos. Quatro anos depois, em 1969, foi escolhido para liderar o Grémio Nacional das Agências de Viagem e Turismo, cargo que ocupou até 1974.
Não consta que tenha voltado a tentar levar o Benfica, ou qualquer outro clube português, para lá da “cortina de ferro”. Não fosse o público reagir... emocionalmente à notícia.


OUTRAS HISTÓRIAS DO JORNALISMO PORTUGUÊS


[não incluídas em Parem as Máquinas, Parsifal, 2015]


segunda-feira, agosto 19, 2013

Outros tempos


Houve um tempo em que era possível juntar quatro craques da bola numa fotografia sem ter de pedinchar autorizações aos clubes e aos empresários — os únicos agentes conhecidos vendiam seguros. Sem ter de mendigar autorização à Federação para usar o relvado do Jamor. Sem ter de negociar acordos imbecis com o X, que só vai se o Y não for porque ele é patrocinado pelo sponsor rival, com o W, que só vai se a fotografia for tirada exactamente a meia distância entre o Porto e Lisboa, ou com o Z, que até gostava de aceder, mas está impedido pelo presidente de confraternizar.
Era o tempo dos bigodes farfalhudos e dos cabelos cortados no barbeiro uma vez por mês. Das camisolas pirosas, justas e iguais para todos. Dos equipamentos sem nomes de patrocinadores e iguais de ano para ano. Das bancadas de cimento, sem nomes de cervejas. Das botas pretas e indistintas, sem tons dourados ou amarelos. Das bolas que ensopavam com a chuva. Dos jogadores tratados pelo apelido. E sobretudo dos craques como Nené, Costa, Oliveira e Matos, que não amuavam, nem remetiam os jornalistas para as suas páginas de Facebook e Twitter.

Gazeta dos Desportos, Setembro de 1981. 
(A fotografia deve ser do Lobo Pimentel, mas não juro.)

terça-feira, julho 09, 2013

sábado, junho 08, 2013

A entrevista diplomática, e pouco jornalística, de Leitão de Barros com Dona Amélia


Leitão de Barros em fotografia do "Diário Popular", 24/01/1956
(Arquivo da Hemeroteca Digital)
Enquanto subia a ladeira do Castelo de Bellevue, nos arredores de Paris, Leitão de Barros, jornalista, cineasta, agora director-artístico do semanário “O Século Ilustrado”, repetia para si as mesmas palavras. Sua Majestade, a Rainha Dona Amélia, não recebe jornalistas. Não os recebe desde que aqui se exilou, logo após o casamento do filho em 1913, e não os recebia antes, quando viveu nos arredores de Londres, para onde a família real rumou após os traumáticos acontecimentos de 1910. E, no entanto, ali estava ele.
Não era exactamente verdadeiro o pensamento do cineasta, mas, valha a verdade, a realidade factual nunca detivera Leitão de Barros. Em Outubro de 1937, Joaquim Manso, director do "Diário de Lisboa", viajara acidentalmente na mesma carruagem de comboio de Dona Amélia de Orleães, numa viagem entre Munique e Lindau. A curiosidade levou depois o jornalista a pedir acesso à residência privada da rainha, onde conversou durante uma hora com a monarca, tendo o cuidado de se apresentar como "republicano e jornalista", mas sem interesse em "interrogar, alarmar, sondar o seu dilecto silêncio", apenas trocar impressões sobre o bastião português nos arredores de Paris. Essa, sim, fora a primeira entrevista da rainha a um jornal português, poucos meses depois da morte de Afonso Costa, radicado igualmente em Paris e poucos dias depois de mais um aniversário da República – o 27.º.

"Diário de Lisboa", 26 de Outubro de 1937
(Arquivo da Fundação Mário Soares)
Sem se prender com esses detalhes, Leitão de Barros continuava a reflectir. “Mais importante do que ser jornalista é, portanto, preciso ter amizades ou simpatias seguras para chegar até lá”, notou o repórter. No caso dele, que estava em Paris em estágio pago pelo Instituto de Alta Cultura para aprender com os nomes mais famosos do cinema francês, valera-lhe a intervenção de uma “grande e nobre amiga de todos os portugueses, que reside em Paris” e que pediu a Dona Amélia para o receber, vencendo assim “barreiras [onde], às vezes, esbarram as chancelarias”. Quem seria? Leitão de Barros nunca o disse e teve até a ousadia de escrever que encarara “esta visita como um fait divers para as horas vagas da missão profissional” que o levara a França. Curiosamente, também Joaquim Manso beneficiara da "intervenção de alguém a quem a minha amizade vota culto da maior sinceridade e admiração", pois a interlocutora "amaciou a meu favor rígidas prevenções e cautelas".
Estávamos em Novembro de 1938 e a segunda guerra mundial estava à porta. Quase três décadas depois da implantação da república, o Estado Novo dava por fim alguns sinais de aproximação à rainha-mãe, então com 73 anos e com uma vida tão preenchida de acidentes e traumas que seriam suficientes para duas ou três biografias. Em 1937, na Exposição Mundial de Paris, o governo português convidara-a explicitamente a visitar o Pavilhão de Portugal, convite a que a rainha acedeu. Mas não emitiu comentários sobre a situação portuguesa até conceder uma primeira entrevista à imprensa portuguesa, a Joaquim Manso, em Outubro de 1937. Seguia-se agora “O Seculo” através de Leitão de Barros. E um ano mais tarde, em 1939, seria Armando Boaventura a conduzir mais uma conversa com a monarca em Versalhes para o "Diário de Notícias".
Homem extravagante, com um acentuado gosto cénico, Leitão de Barros deixou-se esmagar pelo cenário do castelo, pelo hall esplendoroso, pelos quadros salvos pela condessa de Sabugosa, pelas fotografias da realeza europeia, uns conhecidos, outros “vagos soberanos de países distantes que não conheço”, pelo criado que lhe abriu a porta e pelo mordomo que o guiou. Desde o início da conversa, que começou pelas cinco horas da tarde e prolongou-se até às oito da noite, Dona Amélia controlou o rumo do diálogo. O próprio jornalista, numa admissão honesta, confessou não saber “como começou a conversa. Eu não disse nada”. A viúva de Dom Carlos tinha um papel e desempenhou-o perfeitamente, deslumbrando o repórter com algumas confissões e, à boa maneira saloia que quase sempre nos caracterizou ao longo do século XX, com o desvelo produzido no interlocutor pela facilidade com que se exprimia em português e pronunciava “Salazar” como se estivesse no Chiado e pelo apreço com que falava do nosso solarengo país.

"O Século Ilustrado", 10/12/1938
(arquivo da Biblioteca Nacional)

O LEGADO
Como em qualquer entrevista moderna, as intenções da soberana excediam a publicação de um relato frívolo, mero testemunho da vida que ainda lhe corria nas veias. Dona Amélia tinha uma agenda em mente e assumiu contas a ajustar, inclusivamente com o próprio jornal no qual Leitão de Barros colaborava. Leitão de Barros distinguiu “O Seculo” antigo (presumivelmente republicano e fortemente crítico da família real ou, por outras palavras, o jornal de Magalhães Lima e Silva Graça) de “O Seculo” actual. Dona Amélia concordou e sublinhou o seu apreço por João Pereira da Rosa, então director e proprietário.
Avançou depois para o seu legado. A propósito da remoção da Fábrica do Gás (o popular gasómetro) que fora instalada em 1886 junto da Torre de Belém, criticou veementemente os ministros da monarquia que, apesar dos seus esforços e das “horas e horas [que passara] apaixonada por essa maravilha da arte tão nossa”, tinham aprovado a instalação do monstro, que perturbava o conjunto cénico dos Descobrimentos. “Zanguei-me, esgotei influências, macei toda a gente, e nada!”, disse a Rainha. “Vejo agora que esse extraordinário ministro Duarte Pacheco a vai desafrontar!”
O gasómetro de Lisboa em 1889, revista Occidente, n.º 375
(a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

O gasómetro agitava a política da cidade em 1931. Caricatura de Francisco Valença. Sempre Fixe, 1931
(a partir de arquivo da Hemeroteca de Lisboa)
Reportagem sobre os inconvenientes do gasómetro com fotografias de Joshua Benoliel
"Ilustração Portuguesa", 1912, n.º 316
(reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)


A mesma estratégia foi usada pela rainha para comentar um dos seus sucessos – a criação em 1892 do Real Instituto Bacteriológico de Lisboa, que se tornaria depois o Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, com responsabilidades no combate e investigação de doenças infecto-contagiosas. Dona Amélia reivindicou para si a condução política do processo, uma vez mais contra a inércia dos políticos da monarquia. “Era uma vergonha, todo o mundo tinha já institutos com as ideias novas e nós estávamos parados”. A rainha conta o lobby que conduziu junto de um influente ministro (presume-se pela informação que seria José Dias Ferreira), encurralando-o numa carruagem de comboio, até este prometer que agiria. E, mesmo ao aceitar, este teria confessado aos seus pares, de acordo com a versão régia: “A Senhora Dona Amélia não pede dinheiro para toilettes, nem para viagens, nem para festas. Tem lá aquela mania do tal instituto. (…) Ao menos, enquanto faz isso, está entretida!”
A conversa seguiu o mesmo rumo, com a rainha a reivindicar para si a inspiração para as viagens reais à província (as expedições, como então se chamavam) e a intenção de imitar a viagem real inglesa à Índia com uma visita protocolar à África portuguesa. “O Paço murmurou: eram hábitos novos. E, nos jornais, tudo servia para nos ridicularizar”, contou.
O ajuste de contas não foi propriamente direccionado para jornalistas ou para políticos republicanos. Alguns teriam talento, admitiu Dona Amélia. “Olhe o Rafael Bordalo Pinheiro. A esse reconhecia-lhe talento – muito talento mesmo. E esse, quando nos atacava, fazia-o com arte. E nós não nos ofendíamos. El-Rei, artista como era, sorria. Outros... Enfim! Esquecer!” A rainha apontava o dedo à fraqueza da monarquia constitucional e dos seus líderes para amparar a Casa de Bragança.
Um último legado foi corrigido nesta entrevista, e Dona Amélia parece ter feito questão de o sublinhar com veemência – a partida para o exílio. Aos 73 anos, a rainha mantinha a combatividade de sempre e lembrou que, durante o seu reinado, só por uma vez obrigara alguém a desmentir um boato cruel. Qual? Os Braganças não tinham fugido para Gibraltar. Segundo a rainha, ao entrar nas embarcações da Ericeira a 5 de Outubro de 1910, a família real cuidara que se deslocava para o Porto. “E muito menos o iate tomou o rumo do sul por haver a bordo duas rainhas a chorar. Não! Honra à memória da rainha Maria Pia e justiça – só justiça – a mim. Não chorámos, não pedimos, não tivemos medo!”



"O Seculo", 08/12/1938
(a partir de microfilme do arquivo da Biblioteca Nacional)

O PRESENTE
Para lá dos remoques à história antiga, Dona Amélia usou a entrevista de Leitão de Barros para enviar nova mensagem a Lisboa, aproximando-se do regime português e das suas figuras na expectativa de um epílogo como o que veio a ocorrer em 1945, com o convite para a sua visita ao solo nacional. Para tal, Dona Amélia sabia exactamente o que dizer. Na verdade, já o ensaiara um ano antes, na conversa com Joaquim Manso, durante a qual fez questão de cumprimentar o presidente Carmona, "a quem devo atenções que muito me penhoram", e o "sr. dr. Salazar, que tanto admiro. Como os acontecimentos teriam seguido um rumo diferente se a monarquia, arrastada nas desesperadas lutas dos partidos, houvesse tido um estadista da sua têmpera a guardá-la, a fortalecê-la, a livrá-la de perigos". 
Neste novo ensaio com Leitão de Barros, Dona Amélia elogiou o ministro Duarte Pacheco e a “figura nobre do cardeal patriarca”, mas foi sobretudo para Oliveira Salazar que deixou os seus elogios mais prolongados. Lembrando a Leitão de Barros o seu tio Marques Leitão, que fora professor dos príncipes, Dona Amélia disse: “Tenho prazer em ver a continuação destas famílias, cujos chefes conheci de perto... no outro Portugal. Quis Deus guardar-me para assistir agora a este ressurgimento. É um sonho! Vocês são bem mais felizes do que nós fomos! Ah! Com este Salazar, com este Salazar, onde teria chegado El-Rei Dom Carlos I! Que Deus o proteja”
O espalhafato de Leitão de Barros em caricatura de Francisco Valença, Sempre Fixe, 1931
(A partir de arquivo da Hemeroteca Digital)
Era a frase que ainda ressoava nos ouvidos de Leitão de Barros, noite dentro, ao abandonar o castelo de Bellevue. Nos dias seguintes, terminou o estágio em Paris e regressou a Lisboa. No dia 8 de Dezembro, uma quinta-feira, “O Século” publicou a sua extensa prosa em três páginas, um privilégio que costumava ser guardado apenas para discursos do chefe de Estado. Ainda não satisfeito, repetiu exactamente o mesmo texto dois dias depois, na edição de “O Século Ilustrado”, com 16 páginas de fotografias. Em destaque, claro, a portugalidade da monarca e o tributo a Salazar, com um evidente cuidado para não abordar a pretensão monárquica ao controlo do regime.
Menos de um ano depois, deflagrou nova guerra na Europa, interrompendo temporariamente a aproximação de Dona Amélia ao Estado Novo. Mesmo assim, sabe-se que o regime português intercedeu pela rainha quando o seu castelo foi ocupado por um dignitário alemão. A embaixada portuguesa em Paris reclamou soberania sobre aquele espaço, permitindo à rainha reocupá-lo sem intromissões. Logo após a guerra, Dona Amélia veio a Portugal, mas não concedeu entrevistas em solo português. O repórter Marques Gastão chegou a disfarçar-se de moço de hotel para conseguir acesso ao mesmo estabelecimento hoteleiro onde Dona Amélia pernoitou (em história que espero contar aqui), mas debalde.
Leitão de Barros voltaria a dispor de um “exclusivo” com a rainha. No dia 1 de Setembro de 1951, já livre dos jornais e profundamente vinculado ao mundo da imagem e do cinema, o cineasta registou em filme algumas imagens do quotidiano da rainha em Bellevue. Cerca de um mês depois, Dona Amélia morreu. Tinha 86 anos.