domingo, novembro 11, 2012

A deficiência nas notícias





Por motivos de força maior, tive de faltar ao workshop Media e Deficiência, preparado pelo Gabinete para os Meios de Comunicação Social, e no qual já confirmara a minha presença. Na meia hora que me cabia, pretendia discutir a hegemonia daquilo que Anne Karpf (1988) chamou a abordagem médica na difusão de informação sobre deficiência física, motora, sensorial ou mental.
Tinha em mente a proposta da Organização Mundial de Saúde de concepção da deficiência como “incapacidade” ou “limitação”, apelo que aparentemente não chegou ainda aos meios de comunicação. E, no entanto, a alteração semântica não é cosmética: se aceitarmos a noção de incapacidade, somos capazes de assimilar que a deficiência é mais abrangente do que pensamos. Em última instância, é algo que nos bate à porta na fase derradeira da vida, quando a audição, a visão, a mobilidade ou a cognição já fraquejam e produzem limitações no nosso estilo de vida.
Pretendia mostrar este excerto de cinco minutos da série “Make Me Superhuman”, produzida pelo National Geographic Channel e dedicada à biónica. É um documentário enternecedor – começo por aí. Baseia-se na força de vontade e resiliência de quem foi afectado por factores de incapacidade e se esforça por reduzir ao mínimo o transtorno provocado pela limitação das suas funções. Procurou inovações tecnológicas em fase de implementação, fornecendo esperança renovada às pessoas com deficiências. Mas registou também fraquezas que suscitam uma reflexão.
Tal como Karpf notou, este tipo de peça informativa, baseada na abordagem médica, tende a construir socialmente a deficiência ora como um acidente cruel da natureza (um erro genético), ora do destino (um acidente). Convida a audiência a aplaudir a pessoa com deficiência ou a expressar pena pelas suas agruras, mas o verbo operativo é transformar. Desse ponto de vista, a medicina é apresentada como a ferramenta única, que oferece possibilidade de cura, reabilitação ou melhoria da incapacidade, raramente sublinhando a necessidade de aceitação da condição debilitada – pelos próprios e pelos que os rodeiam, uma vez que a limitação se acentua quando as barreiras físicas ou sensoriais se acumulam.
Infelizmente, ao vertermos a deficiência para as notícias, subrepresentamos horrivelmente os grupos etários e sociais mais afectados. Cerca de 8% dos portugueses sofrem pelo menos um tipo de incapacidade; a maioria, dizem as organizações de apoio às pessoas com deficiência, são idosos. E, no entanto, as peças noticiosas (já para não falar na ficção de que Karpf também se ocupa) raramente os representam, preferindo os rostos e corpos jovens como ícones do tema. As próprias deficiências não são tratadas de forma equitativa. Se já começam a ser comuns as notícias sobre deficiência física, motora ou sensorial, a deficiência mental continua a ser um tabu, um tema escondido, ao qual raramente se recorre. *
Era, no fundo, esta reflexão que eu pretendia levar a discussão na passada quinta-feira, para além de mostrar um processo típico de selecção, produção e difusão de um tema na revista – a biónica, tema de capa da edição de Fevereiro de 2010. Terá de ficar para outra vez.

* Faço a ressalva para a importante mensagem veiculada pelos Prémios de Jornalismo Sobre Saúde Mental. A reportagem da RTP, “Mentes Inquietas”, da autoria de Isabel Pereira Santos e dedicada à doença mental, foi justamente premiada este ano, dando corpo, espera-se, a uma tendência de vulgarização deste objecto de trabalho nas notícias e reportagens jornalísticas.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Chocolates, BD e uma bela ideia

Público
Diário de Notícias
Derniere Heure
 À Bélgica, atribui-se com frequência a paternidade sobre as melhores bandas desenhadas do mundo e sobre os chocolates mais vistosos do planeta. Hoje, quarta-feira, é legítimo colar-se-lhe mais um rótulo: o de autora de uma das mais sofisticadas ideias de sempre do jornalismo impresso.
Uma eleição é um acontecimento difícil de gerir num jornal, particularmente num país estrangeiro. Gera demasiada informação imprevisível e impede a rotinização tão necessária nas redacções. O próprio lead fica em suspenso até se conhecer o nome do candidato vencedor.
Quando o processo eleitoral decorre num fuso horário distante do português, como sucedeu agora com as eleições norte-americanas, as dificuldades multiplicam-se. Há uma hora de fecho, que não se compadece com o desconhecimento dos resultados eleitorais além-fronteiras. Por outras palavras, à meia-noite em Portugal, as urnas estavam a encerrar na costa leste, mas permaneciam em aberto na costa oeste. Era impossível anunciar o nome do vencedor na edição matinal do jornal, mas, por ironia, à hora a que os leitores vão às bancas, já conhecem perfeitamente o desfecho, graças à informação radiofónica, televisiva ou online.
O "Diário de Notícias" e o "Público" resolveram como puderam esta dificuldade. Uns centraram-se no carácter disputado da corrida eleitoral; os outros focaram-se na tarefa que está pela frente do novo presidente americano, qualquer que fosse o seu nome.
Na Bélgica, o "Dernière Heure" superou a dificuldade com brilhantismo. Desenhou a primeira página aqui representada: a pose de um político no palanque da sala de imprensa da Casa Branca e um código QCR por cima do rosto, sugerindo aos leitores que, para obterem informação actualizada sobre o desfecho eleitoral, poderiam usar smart phones e seguir para a página online da publicação.
Como o Paulo Querido já escreveu noutro local, será uma rendição com classe do jornalismo impresso ao electrónico. Mas espero que seja também o reconhecimento implícito de que ao jornal impresso resta um papel: o de contextualização da informação, de digestão, de reflexão. As notícias de última hora, essas, já pertencem às outras plataformas.

domingo, novembro 04, 2012

Obaysch e outros bichos


Imagine-se no século XIX. Não tem televisão, nem cinema, nem praticamente fotografia. A ilustração está reduzida ao círculo académico, e o livro circula com dificuldade. Onde pode aprender sobre a diversidade animal das latitudes distantes?
Pensei nisto hoje ao visitar o Aquário Vasco da Gama, em Lisboa, com o meu filho.
Submersos por uma quantidade inédita de informação, que permite às crianças de três anos distinguirem famílias de dinossauros com mais certezas do que um paleontólogo da década de 1920, temos tendência a esquecer o papel dos gabinetes de curiosidades, dos museus e jardins zoológicos do final do século XIX. Eles eram então as únicas fontes de informação visual palpável sobre animais exóticos, que hoje conhecemos abundantemente.
Pensemos em Obaysch, o primeiro hipopótamo transportado para um zoológico europeu (aqui satirizado numa caricatura da época). 

A sua captura resultou de um pedido especial da Sociedade Zoológica de Londres ao cônsul britânico no Egipto, em 1849. Num período de grande rivalidade com a ciência francesa, alemã e belga, os ingleses queriam garantir que seria seu o primeiro exemplar deste mamífero a chegar a um zoológico europeu.
A captura foi acidentada. Foi necessário enviar um grupo de batedores ao Nilo Branco, que descobriu uma cria isolada da progenitora. Trouxeram-na para o Cairo e dali Obaysch navegou para Southampton em instalações especificamente desenhadas para as suas necessidades. Chegou ao grande porto inglês na Primavera de 1850 e, ao longo da viagem de comboio para Londres, acumulavam-se dezenas de populares nas estações, ansiosos por ver o “porco nadador”.
Em Londres, foi exibido para milhares de pessoas. A rainha Vitória mostrou-o aos filhos e escreveu sobre ele. Dickens queixou-se que ele pouco fazia para além de se espojar e tomar banho. Obaysch viveu 28 anos em cativeiro e morreu em 1878.
Outros animais tiveram destinos semelhantes. Em Lisboa, em 1913, a Companhia da Zambézia ofereceu o primeiro hipopótamo ao Jardim Zoológico de Lisboa. Animal enigmático, irritável, inédito aos olhos dos portugueses, foi tema de uma vasta campanha de publicidade, que procurava chamar os lisboetas ao Zoo. Três anos depois, a Ilustração Portuguesa garantia que continuavam a chegar romarias ao local para ver o “exótico animal”. Note-se que, na sociedade portuguesa de então, "romarias" significavam apenas "homens", como o cliché de Joshua Benoliel inadvertidamente sugere.
(reprodução a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)

E recordo também o caso do ocapi, enigmático girafídeo do antigo Congo Belga, que escapou ao crivo de zoólogos e naturalistas até 1908. As suspeitas sobre a sua ocorrência surgiram em 1900, com a descoberta de crânios e peles na posse de indígenas congoleses. O rei belga montou uma expedição, que só teria sucesso sete anos depois, com a primeira captura. Pouco depois, também o Zoológico de Londres assegurou um exemplar.
É pouco conhecido, mas Portugal tentou também bater os seus rivais europeus nesta corrida. Há alguns anos, tropecei numa carta do capitalista Carvalho Monteiro para contactos belgas, a pedido do naturalista Barbosa Bocage (que apadrinhara a entrada do construtor da Quinta da Regaleira na Academia das Ciências), procurando avidamente um exemplar, em 1902. O esforço, porém, não surtiu efeito. 

Demorou bastante até os lisboetas poderem espreitar o estranho animal das florestas do Congo. Em 1955, a Companhia de Diamantes de Angola assegurou, por fim, um exemplar vivo e ofereceu-o ao Jardim Zoológico. Como todos os seus congéneres, o ocapi encantou multidões, ciosas de ver e tornar palpável o que parecia lendário e inacessível.
Hoje, lidamos mal com espaços como o Aquário Vasco da Gama, o Jardim Zoológico ou os Museus Zoológicos da Universidade de Coimbra e do Porto. Não sabemos o que lhes fazer. As crianças já não pasmam perante os animais empalhados ou exibidos em espaços minúsculos – já os viram centenas de vezes na televisão. Querem consolas e interactividade que estas instituições não têm, nem podem ter. Aos poucos, sem função concreta, estes museus definham. Como Obaysch e as centenas de feras que, um dia, fizeram as delícias do público, também para eles a cortina se prepara para cair.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Quando a derrota não é órfã


Conta-se que, aos 96 anos, o senhor John Rockefeller recebia um exemplar único do “New York Times”. Era uma edição composta apenas por notícias agradáveis para não assustarem o fraco coração do ancião, que vivia assim a doce sensação de ignorância enquanto o resto do mundo colapsava. Os mortais comuns, como o leitor e eu, não têm essa sorte: somos forçados a viver no mundo real, onde a natureza, pontualmente, faz sentir a sua fúria. Em 2009, isso voltou a suceder na cidade de Áquila (Itália), numa região sismicamente tão activa como o Japão, a Indonésia ou a Califórnia, mas tristemente esquecida da sua condição (lembra-lhe outra grande cidade europeia? Pois...).
No mês de Outubro, seis especialistas da Comissão Nacional para a Previsão dos Grandes Riscos e um funcionário público receberam pesadas penas de prisão pela sua actuação durante a crise sísmica de 2009. O tribunal considerou-os culpados de “homicídio múltiplo”, responsabilizando-os pela negligência que provocou a morte de 309 pessoas.
Como tantas vezes sucede nas ondas noticiosas, levantou-se um coro internacional de protestos, que assinou petições e pediu a revogação da sentença, acusando o tribunal italiano de ter punido os sete réus porque estes falharam a previsão do sismo, uma proeza por enquanto impossível para a ciência (ver por exemplo esta e esta notícias) Outros argumentaram que os cientistas eram os principais especialistas italianos no tema, como se a reputação isentasse alguém da responsabilidade.
Note-se, porém, que não foram essas as falhas que o tribunal condenou. Como bem notou o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores em comunicado recente, a decisão do tribunal não puniu a ciência – puniu, sim, a comunicação pública da ciência. Os sete réus foram considerados culpados porque, apesar de possuírem dados científicos que apontavam para a possibilidade de um evento sísmico de grande intensidade, optaram por manter o silêncio. Falharam na sua missão de preparar convenientemente a população e de a alertar para os comportamentos adequados.
Todo o caso de Áquila foi irrepetível, mas reveste-se de amplos motivos para reflexão. Os próprios media deverão assumir parte da responsabilidade, particularmente porque concederam durante semanas tempo de antena a um “louco” local, um indivíduo sem conhecimento ou perícia científica, que fazia previsões após cada evento sísmico. A sua acção gerou pânico e obrigou à famigerada reunião da Comissão Nacional para a Previsão dos Grandes Riscos, na qual o gabinete teve de montar uma estratégia para acalmar a população e responder aos apelos públicos que exigiam tranquilidade.
O que se seguiu foi trágico. A Comissão explicou aos jornalistas que existia apenas uma probabilidade inferior a 2% de o enxame de pequenos sismos que se registava desde Outubro de 2008 produzir um sismo de intensidade mais elevada. Sem controlo sobre a sessão de perguntas e respostas, como um barco à deriva, a Comissão deixou os meios de comunicação liderarem o rumo do debate. Por fim, quando foi perguntado se os habitantes de Áquila poderiam beber tranquilamente um copo de vinho em suas casas, um dos peritos respondeu apenas: “Absolutamente”
Seis dias depois, um sismo de magnitude 6,3 destruiu a cidade.
O que falhou em Áquila – e que foi alvo da dura sentença – foi a obrigação de os especialistas comunicarem abertamente os riscos à sociedade, embora seja argumentável que no banco dos réus haveria espaço também para os responsáveis políticos do governo italiano. A excessiva passividade dos sete réus foi um triste serviço à ciência e esteve, em última instância, ligada ao desfecho.
No dia 24/10, o "Público" perguntava: “Que relação terão os cientistas com a sociedade depois do sismo de Áquila?” A resposta, espero, será uma relação mais responsável face aos riscos, uma comunicação mais aberta de todos os cenários possíveis em situação de alarme público, tendo em conta que o silêncio e a omissão passaram a ser responsabilizáveis, na sequência da importante sentença do caso Áquila.
Termino como comecei. Itália deu um bom exemplo de um processo de responsabilização até às últimas consequências na sequência de uma catástrofe natural. Se é verdade que as catástrofes são, por definição, actos da natureza, não é menos verdade que a história nos lembra que há sempre actos humanos que potenciam os riscos e aumentam as baixas.
Um nobre italiano, o conde Galeazzo, ministro dos Negócios Estrangeiros, queixou-se um dia: "Como sempre, a vitória é recebida por cem pais; já a derrota é sempre órfã!" 
Em Áquila, por uma vez, a derrota não foi órfã!

Post Scriptum: Na semana passada, um reputado especialista português e um bom amigo, foi questionado pela imprensa sobre o caso de Áquila. Perguntaram-lhe se achava justa a sentença para os sete? A resposta saiu pronta: "Não. Faltavam mais quatro políticos!"

domingo, outubro 28, 2012

Quando os lobos uivam


Quando somos crianças (ou quando um político está na oposição, o que, vendo bem as coisas, é quase o mesmo), tudo parece mais fácil. As soluções são pretas ou brancas, sem meios termos, compromissos ou tons intermédios. Há bons e maus, heróis e inimigos, certo e errado.
A conservação da natureza é um desses campos. Numa sala de conferências, parece evidente que não pode haver futuro sustentável se a actividade humana colidir com a vida selvagem, pelo que os decisores assumem a responsabilidade de, em situação de choque, compensar populações humanas afectadas por consequências indesejadas, mas inevitáveis, provocadas pelo instinto animal. É essa a ideia, por exemplo, do velho programa de indemnização dos proprietários de cabeças de gado abatidas por lobos: desde 1990, instituiu-se que um proprietário de gado ovino, bovino ou caprino deve denunciar ataques que os seus rebanhos venham a sofrer por parte de alcateias, sendo por isso indemnizado em função das suas perdas. A medida visa desencorajar os actos justiceiros dos lesados que, durante tempos imemoriais, faziam justiça por suas mãos e abatiam lobos em resposta a estes ataques.
Como tudo em Portugal, também a lei mostrou debilidades. Para uma população estimada em 300 animais nas nossas fronteiras, o ICNF (enquanto divulgou publicamente dados) dava conta de uma média de 2.700 ataques reportados por ano. Por outras palavras, ou os proprietários abusavam da lei e viam nela uma oportunidade de obter indemnizações ou, para além dos lobos, também os cães assilvestrados faziam danos consideráveis e, nesse caso, entende o legislador que não cabe ao Estado compensar o pastor. Um projecto recente de distribuição de cães de gado a mais de 800 pastores em Montesinho contribuiu para diminuir o número de pedidos de indemnização (e, espera-se, de ataques), mas o pagamento das verbas compensatórias foi sempre lento e controverso.
O tema voltou à agenda com a recente notícia dos ataques de alcateias (ou não) a rebanhos na zona de São Pedro do Sul. A peça da SIC Notícias (disponível por enquanto neste endereço) é um esforço pobre de transferência do assunto da esfera local, onde ele causa natural consternação, para a esfera pública e nacional, onde ele deve ser ponderado, sem cedências ao populismo e ao discurso dominante sobre o legislador que tudo erra.
Para que nos entendamos: não fica claro pela notícia se os ataques são efectivamente produzidos por lobos; não fica claro se os proprietários se queixam, ou não, às autoridades; não fica claro se os “lobos” deixam, ou não, carcaças dos animais que abatem. Mais: é indecente a apreciação sem contraditório ao esforço de repovoamento de lobos na zona da serra de São Macário. Em nenhum momento, o repórter sentiu necessidade de escutar um biólogo ou outro especialista em vida selvagem, que pudesse fornecer uma interpretação alternativa ao acontecimento. Ouviu apenas os proprietários e o presidente da câmara municipal, que fez uso do velho silogismo político tornado célebre por Jim Hacker, o ministro fantoche de “Yes, Minister”: é a vontade do povo, eu sou o seu líder, logo, eu devo... segui-lo!
Todavia, não escreveria estas linhas se não tivesse visto os últimos segundos da peça noticiosa. Ali se apresenta o “Mata-Lobos” e se escuta, com um certo encanto, a história de batidas aos lobos do passado, quando se podia resolver o problema sem esse aborrecimento que é o estatuto de espécie protegida, que só serve para “nos deixar de pés e mãos atadas”.
Peço a atenção do leitor para alguns recortes que coleccionei ao longo dos anos. Foram extraídos da imprensa portuguesa dos últimos cento e dez anos. Documentam, sem exagero, os mesmos sentimentos de barbárie, de despeito pelo atrevimento do lobo que caça rebanhos, de justiça por conta própria, enraizados na cultura portuguesa. Casos como o de São Pedro de Sul dão conta de que, riscando a superfície, a camada de civilização esbate-se. E estão lá os mesmos sentimentos de sempre.
Revista Brasil-Portugal, n.º 70, 1902
(reprodução a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)

Ilustração Portuguesa, n.º 149, 1908
(reprodução a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)
"Diário de Lisboa", Março de 1963
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

Diário de Lisboa", Março de 1963
(reprodução a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)

sexta-feira, outubro 12, 2012

Queda de um vulto


A anunciada extinção do Inimigo Público (IP), suplemento satírico semanal do jornal Público, arrepia-me. Desde 2004, terei perdido no máximo dez edições do IP. A fórmula satírica inventada por Luís Pedro Nunes era incrivelmente simples: utilizando técnicas jornalísticas, incluindo a citação de discurso directo transviado ou códigos tradicionais de referenciação da informação, escreviam-se notícias sem pés nem cabeça, sátiras a personalidades e instituições, disparando à direita e à esquerda, para cima e para baixo.
Ao longo destes anos, não me cansei de reparar nos recortes do Inimigo Público afixados em dezenas de gabinetes por esse país fora, homenagem singela dos milhares de leitores do suplemento ao tom, sarcasmo e coragem dos profissionais do suplemento. Em Castro Verde, na delegação do Sul do Instituto Português de Arqueologia, tive um dia de parar uma conversa por causa do riso. Na parede, uma notícia do IP anunciava: “Por causa da crise, arqueólogos não podem escavar mais de vinte centímetros por projecto.” Na Unidade de Arqueologia da Faculdade de Letras de Lisboa, vi um dia um recorte que garantia a descodificação da Escrita do Sudoeste através do tablet de Rui Santos. No texto, Mário Botequilha, o melhor entre os melhores do IP, garantia que a Escrita do Sudoeste não se lia da esquerda para a direita, da direita para a esquerda ou de cima para baixo: era feita para ser lida na diagonal como a TV Guia ou o blogue de Santana Lopes. Na semana passada, vi este texto num gabinete do Departamento de Física. 
Na redacção da NG, guardo ainda os recortes das ocasiões em que a revista foi também gozada pelo IP. Ali figura a notícia do documentário sobre os robalos do Pacífico Norte, proibido por Sócrates com receio de que também o associassem àqueles robalos. Ou o texto sobre a aparição-supresa de Cristiano Ronaldo às tropas portuguesas no Afeganistão, que acabara com uma noite de farra com a rapariga mais famosa do país: Sharbat, a menina afegã!
É todo um vulto que hoje cai na imprensa portuguesa. Sentirei a sua falta.

terça-feira, outubro 09, 2012

Esquizofrenia aguda

É um país verdadeiramente extraordinário. Quando João Fernandes foi escolhido para subdirector do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, foi uma "vitória da internacionalização portuguesa"; quando Pedro Gadanho se tornou curador de Arquitectura Contemporânea no departamento de Arquitectura e Design do MoMa, foi um prémio à capacidade de gestão dos programadores portugueses; quando Miguel Amado foi escolhido para a Tate St. Ives, mostrou que os portugueses vingam em qualquer lado do mundo.
No entanto, estala o verniz quando Suzanne Cotter é escolhida para dirigir o Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Aqui d'el rei: é estrangeira e deveria dar-se o lugar a um português (Ver comentários desta notícia). Esquizofrenia aguda é o que é...

sábado, outubro 06, 2012

Elogio entusiasmado do Lisbon Story Centre


(fotografia indecentemente pirateada daqui. Notem, aliás, que a autora do blogue não partilha o meu entusiasmo, apresentando para tal argumentos válidos)

Começo da forma mais pedante possível: não envergonha. Pelo contrário. É superior à maior parte dos centros interpretativos que conheço nas cidades europeias. É melhor do que o Museu da Cidade de Barcelona e é mais divertido do que a Dublinia, na capital irlandesa. É até mais complexo do que o Museu da Cidade de Amesterdão, que se foca na cultura e não na história, para contar a narrativa da cidade onde se integra.
Em última instância, qual a expectativa de uma organização de turismo (no caso, a Associação de Turismo de Lisboa) face ao visitante que acorre uma vez à cidade? Lamento contrariar muitos dos directores de museus e outras instituições culturais que conheço em Lisboa, Coimbra e Sintra: não é dar-lhes uma lição de história exaustiva, tornando-os especialistas no tema em causa, mesmo que não seja essa a sua vontade. Em muitos museus, mantém-se uma expectativa desmesurada relativamente ao investimento de tempo e concentração que o visitante fará no equipamento em causa.
Sejamos honestos: o visitante comum leva na memória três ou quatro pinceladas sobre a cidade que visita, pinceladas essas que, ao fim de poucas semanas, se esbatem na mente, confundindo-se com outras experiências. De Lisboa, guarda-se sem esforço a luz natural, sempre presente, mesmo nos dias mais sombrios; a gastronomia, que encanta e é barata; o património arquitectónico (indiscriminado) ao longo do eixo ribeirinho; e, com sorte, talvez o visitante leve também uma ou duas ideias difusas sobre o papel da cidade na história do mundo, dependendo das portas onde tiver batido, da informação que tiver consumido e do acaso o poder ter levado aos sítios fundamentais.
É nesse capítulo que o Lisbon Story Centre tem uma função a cumprir.
É verdade: custou três milhões de euros e um milhão foi aplicado em tecnologias de informação, via YDreams. Já conheço a réplica que se segue: é muito dinheiro quando não há verbas para os outros museus e sobretudo quando o visitante não vê “objectos reais”, nem toca em artefactos com história. Pergunto: será isso decisivo? Os museus com espólio continuam a existir, a começar pelo tristonho Museu da Cidade, no Campo Grande, e terminando no  exuberante Museu do Oriente, a caminho do Cais do Sodré. Cabe-lhes vender essa experiência. Não creio, na verdade, que o Lisbon Story Centre concorra com eles.
A visita é totalmente conduzida por um audioguia em dez línguas e uma versão infantil. São 18 pontos de paragem, nos quais um guião impecavelmente redigido, com momentos cómicos e consultoria científica (quase) inatacável de José Sarmento Matos, nos levam da Lisboa fenícia a 1974. Animações estupendas e boas recriações de cenas históricas ajudam a passar de etapa a etapa, embora, na sala do terramoto, a expectativa saia um pouco defraudada, face por exemplo ao que o Museu da Ciência de Londres oferece no capítulo da experiência sísmica (foi o último momento de pedantismo, prometo).
O tempo passa a correr. Quando a visita desemboca na loja, passaram 60 minutos agradáveis e bem documentados, onde a pequena história, das curiosidades e dos factos pitorescos foi apresentada lado a lado com a história dos acontecimentos e das personalidades inevitáveis. E, surpresa das surpresas, é das curiosidades e “factóides” que o visitante se lembra no final.
Cumprindo o desígnio inicial (lembram-se?), o visitante vai para casa a pensar num rei que viveu os vinte anos que lhe restavam numa barraca-tenda, num marquês experimentalista que mandou um regimento de infantaria caminhar nas gaiolas pombalinas para testar a sua flexibilidade, num corvo que se tornou símbolo da cidade, e num santo António que destronou no afecto local o original São Vicente.
É pouco? É muito? Ninguém priva o visitante de contactar com os museus e monumentos “reais”. Ali, bem perto, o Portal de Nossa Senhora da Conceição recorda-nos do património irrepetível da cidade; subindo a colina, o Museu de Farmácia, o Museu do Design ou o Museu Arqueológico do Carmo cumprem admiravelmente a sua função, sem serem beliscados pelo novo centro.
É verdade que há defeitos: nove euros por bilhete parecem significar que a massa primordial dos 300 mil visitantes/ano que a cidade espera não serão portugueses. A ausência de colaboração e articulação com a EGEAC e com o Museu da Cidade antecipam uma relação conturbada entre espaços culturais sob a mesma tutela, que poderiam cooperar muito melhor. A Lisboa romana e a Lisboa árabes são negligenciadas quase por completo pelo guião em prol de uma Lisboa fenícia mais romantizada do que real. Por fim, a dependência total de consolas e ecrãs deixa-me igualmente de pé atrás, sobretudo depois de ter acompanhado de perto a origem e colapso do Carsoscópio de Alcanena (entretanto reabilitado), também ele dependente das tecnologias de informação. Daqui a um ano, esgotado o valor orçamentado para a concepção do espaço, quantos equipamentos estarão ainda operacionais?
Termino por onde comecei. É um novo motivo de orgulho no renovado Terreiro do Paço. Não substitui a leitura das 600 páginas do “Livro de Lisboa”, nem o tacto demorado das colunas do Museu do Teatro Romano. Julgo que ninguém no seu devido juízo pretendia que isso sucedesse, embora não fosse descabido deixar pistas à saída para o visitante que pretenda continuar a sua peregrinação cultural por outros museus. Mesmo assim, o Story Centre produz uma experiência de que o turista em Lisboa não dispunha até agora.
Concordando ou não concordando, experimentem visitá-lo. Só não vale dizer mal sem lá ter ido.

sexta-feira, junho 15, 2012

O crime, sempre o crime!

Idanha-a-Nova, 14 de Junho.     Calhou o acaso que entre no edifício que alberga a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova minutos antes de o suspeito de um duplo homicídio ser apresentado ao tribunal que funciona nas mesmas instalações. Há alguns munícipes no largo principal, mas o seu número não se compara ao dos jornalistas. Fotógrafos e operadores de vídeo posicionam-se estrategicamente para poder recolher a imagem ideal nos curtos segundos que distarão entre a saída do suspeito do veículo policial e a entrada do edifício. Elementos da Guarda Nacional Republicana estão visivelmente confusos, adivinhando-se a sua estranheza perante um cenário para o qual não foram treinados nem nunca imaginaram vir a participar.
Rebobinamos alguns meses. Em Fevereiro, o mesmo município protagonizou uma inovadora campanha no âmbito do projecto Incubadora de Base Rural, colocando à disposição cerca de 300 hectares de terreno fértil susceptíveis de interessar jovens agricultores com projectos tecnologicamente inovadores. Trata-se de um projecto – e não de uma declaração de intenções – que prevê precisamente uma alternativa para a imparável perda de relevância do sector primário em Portugal, traduzida num abandono da agricultura. Inclui um incentivo à população activa jovem. Traduz-se numa promoção da criatividade tecnológica e, no entanto...
À sessão de apresentação, compareceram timidamente alguns meios de comunicação regional. Mais ninguém. Meses depois, na pista da ministra Assunção Cristas, uma televisão (a SIC Notícias) fez também ali um trabalho sobre o projecto, mas a comparação de cenários é inevitável, sobretudo porque o argumento das direcções de informação costuma ser o mesmo: falta de recursos para acorrer a todo o lado; falta de espaço para noticiar tudo; falta de correspondentes em todos os locais.
No entanto, face a um crime de sangue, rapidamente esses obstáculos se desvanecem. Encontra-se tempo no alinhamento para directos. Os correspondentes dão lugar a jornalistas enviados das sedes para relatar o assunto. Fotógrafos são mandados para o local para fotografar ambulâncias e macas. A insensibilidade de quem vem de fora é gritante: pergunta-se aos transeuntes, amigos das vítimas, familiares, conhecidos de sempre, o que sentiu quando viu os corpos? Que motivações teria o homicida?
Martelam-se enquadramentos imaginados, que têm de encaixar à força nos factos: será que pagavam ao empreiteiro a tempo? Será que isto não é mais um crime provocado pelo crise? Os munícipes entreolham-se, envergonhados pela figura de quem com eles fala e cai neste ridículo.
Amanhã, levanta-se a tenda. Abandona-se a vila. Noutras localidades, ocorrerão outros crimes de sangue. E continuarão a não existir recursos, tempo ou espaço para noticiar a actualidade do mundo rural. Excepto em caso de tiros.

domingo, junho 10, 2012

Mecanismos de solidariedade


(Declaração de interesses: participei como orador no Congresso da Costa da Laurissilva, a convite da organização.)

São Vicente, Madeira, 10 de Junho. O que acontece a um ser humano quando sofre uma paragem cardíaca? O sangue deixa de ser bombeado, os órgãos vão interrompendo o seu funcionamento devido à falta de oxigenação até ao momento em que o próprio cérebro falha. Imaginemos então como parábola que o sangue bombeado são os recursos indispensáveis para gerir uma área protegida e que a cada órgão vital corresponde um município.
Três municípios da costa setentrional da ilha da Madeira chegaram a um consenso e organizaram uma plataforma de convergência para melhor defenderem o interesse do património natural dos seus concelhos. Por si só, esta convergência já seria tema de notícia. Mas as sessões a que assisti durante os dias 8 e 9 de Junho expressaram um entendimento mais profundo sobre uma das questões fundamentais da conservação da natureza: a solidariedade, traduzida numa intenção de distribuir equitativamente os rendimentos provenientes do turismo associado especificamente à visita de áreas naturais.
A intervenção mais ponderada do congresso pertenceu a Francisco de Castro Rego (FCR), ex-Director-Geral dos Recursos Florestais e coordenador do Centro de Ecologia Florestal do Instituto Superior de Agronomia. O seu raciocínio marcou as palestras subsequentes. FCR socorreu-se dos dados do inquérito aos visitantes da Madeira em 2010 (ainda para mais, um dos piores anos turísticos da ilha em várias décadas, devido à enxurrada de 20 de Fevereiro, ao incêndio do Parque Natural da Madeira e às repercussões geradas pela erupção do vulcão islandês de nome impronunciável). Trata-se de um inquérito encomendado pela Secretaria Regional de Turismo (que entendeu porém não participar no congresso).
Segundo FCR, mais de 30% dos visitantes da Madeira reconhecem que viajam para a ilha para observar a natureza. Ora, com um volume anual médio de 5 milhões de dormidas na ilha e com uma despesa média de um pouco menos de 100 euros por dia, é possível estipular o valor turístico das áreas naturais, esquecendo outros serviços, mais difíceis de estimar, como a capacidade de retenção de água, a concentração de biodiversidade ou a função de segurança contra deslizamentos de terras. O investigador chegou a um número bastante razoável: cerca de 140 milhões de euros das receitas turísticas da Madeira provêm directamente de turistas que viajaram confessadamente para observar a natureza.
Vamos à segunda parte da equação. Toda a floresta da laurissilva, património da Humanidade, concentra-se no Norte da ilha; as veredas e levadas mais valorizadas situam-se nos municípios do Norte (sobretudo, em São Vicente, Santana e Porto Moniz, com algumas excepções em Machico). No entanto, as receitas do turismo concentram-se, de forma esmagadora, nos municípios do Sul, particularmente no Funchal, de onde partem todas as excursões, a maior parte dos percursos guiados, onde se concentram as dormidas, os alugueres de carros e obviamente onde se deixam as receitas da restauração.
É justo? Não parece, particularmente quando a evolução demográfica dos concelhos do Norte sugere que está em curso um processo de êxodo considerável. Por outras palavras, existe sangue, mas não é bombeado para todos os órgãos e alguns começam a denotar sintomas de falta de oxigenação.
Foram debatidos vários modelos de transferência solidária de receitas neste congresso. Alguns, admito, não fazem sentido para mim, como a aplicação de ecotaxas de passagem aos visitantes específicos que visitam veredas, levadas ou outros ícones da paisagem da laurissilva. Em tempo de escassez, a aplicação de mais taxas parece contraproducente e não creio que deva ser o turista a assegurar a conservação daqueles espaços. Parece-me bastante mais plausível a aceitação solidária desta desigualdade regional e a canalização de recursos oriundos do turismo (uma fatia dos tais 140 milhões de euros) para mecanismos de reabilitação da economia local e de conservação da paisagem protegida, que conta aliás com mais um ícone desde Junho do ano passado, com a criação da Reserva da Biosfera de Santana.
A nível de sensibilização, é possível igualmente abrir outros pontos fulcrais, como a consciencialização do visitante para gastar algum do seu dinheiro no comércio local dos municípios do Norte, sob risco de a sangria migratória que daqui parte para o Funchal e para o exterior continuar a registar-se. E de alguns órgãos cessarem por completo de funcionar por deficiências no sistema circulatório.

P.S.: muito deste debate passou ao lado dos companheiros jornalistas dos órgãos de comunicação madeirenses, que esgotaram a cobertura do primeiro dia do congresso com sound-bytes da intervenção do presidente do Governo Regional. Foi pena!

domingo, junho 03, 2012

Limitações do jornalismo sobre ciência

Dois exemplos quotidianos, um dos quais passado comigo para sublinhar que todos os jornalistas estão sujeitos a estas limitações, mesmo aqueles que, trabalhando num ritmo não diário, dispõem de mais tempo para validação.
Em Maio deste ano, noticiei a descoberta de um raro artefacto de terracota, em forma de um touro, num sítio arqueológico do Baixo Alentejo. Dei-o como praticamente inédito naquele contexto, depois de discutir o assunto com o arqueólogo responsável pela intervenção e mais dois especialistas da área. Fui agora informado de que, no mesmo sítio arqueológico funerário, um ano antes, tinha sido descoberta uma figura semelhante, mas não valorizada pelo arqueólogo responsável, que não a publicou nem lhe deu particular relevo.
Na semana passada, o Público deu um raro destaque de capa à descoberta daquele que seria o artefacto judaico mais antigo da Península Ibérica, susceptível de rever as cronologias vigentes. Falou, ao que tudo indica, apenas com o arqueólogo responsável pela escavação e baseou a sua interpretação na sugestão de que os caracteres gravados numa tabuinha representavam um hebraico antigo. Depois da publicação, um arqueólogo conceituado sugeriu o carácter extemporâneo (e até errado) da interpretação num fórum de arqueologia.
 O que nos dizem estes casos sobre a prática jornalística em terrenos científicos? Dizem, em primeira instância, que a relação entre perito e jornalista é francamente desigual: o primeiro estuda um tema durante décadas, o segundo analisa-o durante horas ou dias. É por isso fundamental que a interacção entre ambos seja leal e franca, esperando-se que ambos se abstenham de usar a abordagem “Eureka!” de cada vez que trabalham para produzir notícias sobre um projecto científico.
Em segundo lugar, a notícia é fragmentada. Não pode aspirar a produzir conhecimento sustentado numa comunidade, devendo, ao invés, sugerir pistas, destacar informação e abrir caminhos de pesquisa e leitura complementar para os leitores. A notícia complementa a divulgação em publicação científica, mais sólida e validada pelos pares.
Em terceiro lugar, o processo de selecção jornalística é influenciado por valores que não são necessariamente compatíveis com os da ciência. A prioridade conferida à novidade é um desses exemplos. A importância dos suportes visuais (de que falarei noutro texto) é outro factor que influencia fortemente a decisão de publicar, ou não, notícias sobre projectos científicos. Outros valores, como a redundância de temas (“já escrevemos sobre pré-história no mês passado”) ou a maior ou menor atracção de certos temas (“de geologia, só escrevo sobre dinossauros”), levam igualmente os cientistas a temer o trabalho jornalístico.
Como noutras relações sociais, é fundamental continuar a construir pontes entre estas duas margens.

segunda-feira, maio 28, 2012

Jornalistas e cientistas

Durante muitos anos, a academia não se preocupou em excesso com a comunicação da ciência aos leigos. Era uma tarefa menor, que consumia tempo e recursos e significava uma considerável despromoção social do cientista, particularmente se este já ocupasse um lugar relevante na hierarquia científica.
Na verdade, para aceder à esfera pública, o cientista era forçado a negociar espaço e destaque para a sua investigação com os jornalistas, tarefa muitas vezes inglória, por vezes humilhante, e de desfecho sempre imprevisível. Afinal, como lembram os epidemiologistas, no dia a seguir ao anúncio da fase 6 da pandemia de gripe A, em Junho de 2009, poucos foram os jornais diários que concederam honra de manchete à notícia mais importante da saúde pública da década. Na véspera, o Real Madrid contratara Cristiano Ronaldo e os valores-notícia dos jornais fizeram o resto…
O paradigma entretanto alterou-se. As entidades financiadoras esperam que os cientistas transmitam os resultados da sua pesquisa à sociedade civil e premeiam os projectos cujo outreach seja mais evidente. Em face dessa obrigatoriedade de comunicar, parte hoje de muitos cientistas a iniciativa de contactar órgãos de comunicação e expor as suas propostas. O ponto fulcral em debate, hoje como dantes, é a autoria. Quem ordena a informação? Quem escreve a notícia? Que detalhes vão ser destacados e que pormenores vão ser ignorados?
Deparo cada vez mais com propostas ao abrigo das quais o cientista não quer abdicar de escrever a notícia. Travo então curiosas batalhas dialécticas com os cientistas que concordam, na generalidade, com as premissas:
 1) Escrever para o público leigo é um esforço diferente da redacção de um artigo para os pares.
 2) A organização da informação não é necessariamente cronológica, nem segue judiciosamente os passos do método científico.
 3) O enquadramento teórico no qual o trabalho se insere tem normalmente pouca relevância.
 4) A metodologia só é noticiada em condições excepcionais.
 5) Ninguém quer ler sobre os vinte parceiros que co-assinam o artigo.
 6) Os aspectos lúdicos ou ligeiros e as metáforas de simplificação podem ser a única informação que o leitor guarda na memória depois de lido o texto. Quando o debate desce à especialidade, porém, deixa de existir acordo. Todos concordam que há cientistas sem qualquer vocação para a divulgação. Simplesmente, nenhum admite que esse pode ser o seu caso.
 P.S.: Em ocasião futura, escreverei sobre as debilidades dos jornalistas para narrar de forma fidedigna as nuances da ciência.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Carta aberta ao Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Beja

Exmo. Sr. Dr. Jorge Pulido Valente,
As notícias recentes que deram conta da vontade da Câmara Municipal de Beja de reduzir o seu contributo financeiro para o orçamento do Museu Regional de Beja (ou Museu Rainha Dona Leonor) – e que, na prática, o inviabilizam – entristecem quem conhece aquele espaço museológico e com ele cooperou na última década.
Numa pesquisa rápida, verifico que o espólio ali guardado já foi útil à revista que dirijo em quase um dezena de ocasiões. Em Beja, concentram-se importantes núcleos romanos e islâmicos que testemunham o papel importante da cidade ao longo dos séculos. Ali está exposto também o único núcleo visigótico do país, tema de uma reportagem em Abril de 2008. Vagueando pelas colecções, detemo-nos facilmente no resultado de trabalhos prolíferos de pioneiros como Leite Vasconcelos, Abel Viana ou Estácio da Veiga. Cada um dos 15 mil visitantes anuais do Museu tem aliás dois roteiros possíveis: o dos artefactos, que conta um pouco da história da ocupação humana em Portugal; e o dos pioneiros da arqueologia, que testemunha a evolução da prática desta disciplina no último século.
Tratando-se de um museu regional e não municipal, o seu orçamento é, como sabe, comparticipado pelas autarquias distritais, cabendo a Beja a maior fatia. Não deixa de ser irónico que o Exmo. Sr. presidente da autarquia de Beja, à data em que era presidente da Câmara Municipal de Mértola, tenha congelado as comparticipações de Mértola para o Museu, alegando que o mesmo não era regional mas sim municipal; eleito em 2009 para a autarquia bejense, admitiu recentemente que lhe parecia mais adequado que fosse a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo a gerir o espaço. E entretanto a autarquia que V. Ex.ª superiormente dirige votou contra o orçamento distrital de 2012, alegando incapacidade de o cumprir.
O Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Beja tem dito regularmente que a comparticipação da autarquia para o Museu é impossível de suportar, pois não existem verbas que permitam custear esse valor. Permita-me V. Ex.ª que o auxilie nesse ponto.
Consultando o portal de contratos públicos online (www.base.gov.pt/default.htm), verifica-se que o município de Beja realizou, de 2008 a 2012, 409 ajustes directos, no valor de 14,4 milhões de euros. Por uma questão de elementar justiça, limitar-me-ei a apontar a V. Ex.ª despesas que resultem de ajustes realizados já no actual mandato.
Ora, os cerca de 50 mil euros anuais que a autarquia não consegue comparticipar para o Museu poderão porventura ser comparados com os 29.900 euros consagrados aos serviços técnicos para a produção dos eventos da BejaBrava e Beja Kids (Setembro de 2011) ou, pelo menos, poder-se-á repensar a oportunidades de investir 15.500 para animações infantis no mesmo evento (Outubro de 2011), aos quais se juntam mais 18.800 para o mesmo fim (Outubro de 2011). Bem sei que o melhor do mundo são as crianças, mas haverá limites para a abrangência da puericultura.
Estou igualmente certo que V. Ex.ª, criativo no seu quotidiano, poderá igualmente dispensar os 6.500 euros investidos em Criatividade de Eventos (Agosto de 2011) ou os 7.300 gastos na impressão da revista do município (Junho de 2011).
Em alternativa, deixando as festas infantis e a criatividade de parte, poderá V. Ex.ª. porventura apontar baterias ao vinho. Segundo o mesmo portal, o Beja Wine Night de 2011 consumiu 42.000 euros (Junho 2011), um pouco menos do que os 74.950 do Beja Wine Night de 2010 (Julho 2010). Em alternativa, temos sempre os 55.800 euros do evento Vinipax (Outubro 2010), um valor surpreendentemente parecido com o que não pode ser dedicado ao Museu.
Se nem no vinho pudermos cortar, podemos eventualmente reduzir o orçamento para o afecto. Penso concretamente nos 74.900 euros dedicados ao importante Festival do Amor (Maio de 2011) que, a serem alocados para uma área menos apaixonada, resolveriam o problema do Museu para o próximo ano e meio. Beja sofreria bastante – estou certo – com a redução do impacte do seu festival amoroso, mas, em alternativa, manteria expostos durante todo o ano os artefactos que conduzem a maioria dos visitantes à cidade.
Creia-me desejoso de continuar a explorar a lista de ajustes directos do município em busca de soluções que possam poupar o Museu Regional de Beja. Custar-me-ia muito que o Museu fosse encerrado mais de um século depois da sua fundação... Sobretudo quando o actual presidente da autarquia é licenciado em História.

quarta-feira, julho 06, 2011

Accountability é uma estrada com dois sentidos

Nos últimos dias, participei numa conferência em Pamplona sobre estudos jornalísticos. Quando participo neste tipo de eventos, tenho sempre o cuidado de salientar que estou ali com dois chapéus – o do repórter e o do investigador em jornalismo. Às vezes, essa dupla qualidade pode ser desvantajosa, na medida em que me retira espírito crítico. Acredito, porém, que me proporciona também a oportunidade de perceber com conhecimento de causa os constrangimentos profissionais que marcam as redacções contemporâneas e afectam irremediavelmente a produção noticiosa.
Aidan White, ex-presidente da Federação Internacional de Jornalistas, apresentou uma exposição soberba, separando a liberdade de expressão da liberdade de imprensa. Ao abrigo da primeira, não é essencial ser justo. Ou equilibrado. Ou imparcial. A segunda é, para citar uma expressão que o jornalista nascido na Irlanda usou, “liberdade constrangida”. Constrangimentos auto-impostos, é verdade, mas é uma liberdade limitada porque se subordina a um conjunto de procedimentos profissionais que reconhecem o poder da palavra publicada ou difundida e visam o equílibrio final das posições em confronto.
Nestes congressos, é frequente escutarem-se críticas ao facilitismo dos jornalistas. Aos erros da sua prática. Às suas limitações intelectuais. À sua lendária preguiça para escavar mais (vide a intervenção do provedor do Público, no domingo, 3 de Julho). E insiste-se – correctamente - na necessidade de accountability: de o jornalista ser responsável pelo que produz e de assumir posteriormente todas as falhas da sua produção, independentemente das atenuantes. Publicando os erros, se for caso disso. Reconhecendo as falhas, sempre que elas existirem e forem categóricas.
Assumo essa fraqueza do jornalismo moderno. Ninguém gosta de ser criticado e nós (falo com o chapéu de jornalista neste parágrafo) lidamos mal com esta interactividade recém-criada, que coloca um texto sob escrutínio imediato de leitores que são também comentadores e revisores. Lidamos mal com essa verificação factual e estilística e, se pudéssemos, voltaríamos num ápice ao mundo em que o texto publicado era uma jangada de pedra, inacessível e alheia à crítica. Ponto final.
Mas a accountability é, ou deveria ser, uma estrada com dois sentidos. Os investigadores em Media e Jornalismo (falo, neste parágrafo, com esse chapéu) também devem ser responsabilizados e responder pela sua produção. Na maior parte das vezes, os jornalistas e as organizações noticiosas visados nos trabalhos académicos não têm acesso à argumentação exaustiva. Nem ao artigo científico. Nem à tese. Nem à comunicação feita em congresso inter pares. As suas falhas (ou a percepção das suas falhas) são expostas, mas numa redoma, também ela alheia à crítica.
Seria bom encontrar mecanismos, eventualmente com a ajuda de jornais destinados aos profissionais de media, como o “Meios e Publicidade ou “Briefing”, ou através de organizações profissionais de jornalistas (como o Sindicato ou os clubes de imprensa), para divulgar aos repórteres o que as universidades estão a investigar sobre o jornalismo português. Partilhando conclusões. Discutindo resultados. Dando a conhecer as novas áreas de investigação. Sujeitando-se à crítica, se for caso disso, porque estou certo de que muitos jornalistas teriam resposta para algumas das apreciações que os peritos académicos fazem do seu trabalho.
Numa frase, a accountability que exigimos aos jornalistas deveria ter dois sentidos.

Adenda: em jeito de demonstração de accountability, aqui está um primeiro passo. As actas da conferência de Pamplona podem ser descarregadas aqui.

terça-feira, julho 05, 2011

Enfim, saiu!


Demorou quase um ano, o tempo próximo de gestação de uma cria de elefante. Mas finalmente foi publicado o número da Análise Social onde escrevo sobre o arrastão de Carcavelos.

quinta-feira, junho 23, 2011

Bater na porta sem perceber porquê

Os museus portugueses não são os pólos de atracção que todos gostaríamos que fossem. É um daqueles tópicos em que cada um tem uma causa favorita. Ora porque são enfadonhos, no sentido em que expõem as mesmas peças, do mesmo modo e no mesmo sítio há décadas; ora porque não têm capital para adquirir novos materiais; ora ainda porque as suas colecções, por mais boa vontade que exista, não ombreiam com as dos melhores museus em Inglaterra, em França, em Espanha ou nos Estados Unidos. Ora porque estão sufocados sob orçamentos ínfimos, que muitas vezes se esgotam no pagamento de salários aos seus quadros.
Num quadro destes, com tendência para se agravar à medida que as sucessivas ondas de impacte provocadas pelo aperto financeiro do país se fizerem sentir, é um mau sinal verificar que os museus da rede do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) registaram um decréscimo de visitantes de 2009 para 2010, de acordo com a informação estatística divulgada esta semana (ver documentos aqui). Não foram muitos, é verdade. Perderam-se 13.620 visitantes num universo de 2,3 milhões, mas constituem um mau prenúncio para o ano em curso.
Ora, hoje, após semanas de planeamento, desloquei-me a Sintra com a família para visitar o antecipado Museu de História Natural local. É um museu recente (que não faz parte da rede IMC, sublinhe-se), gerido pela autarquia e com espólio gentilmente cedido por um coleccionador. Já escaldado por outros passeios estragados, procurei na Internet informação útil sobre horários de abertura e dias de funcionamento. Fiquei descansado. O museu abre um pouco mais tarde nos feriados, mas abre. Ou pelo menos parecia. Pelas 12h30 do dia 23, esbarrámos na porta fechada e ficámos a saber que, por falta de pessoal, o museu agora encerra aos fins-de-semana e feriados.
Descartemos, por facilidade de argumentação, a informação errada que se encontra na página oficial do município. O senso comum diz-nos que os feriados e os domingos deveriam ser os dias nobres dos museus em Portugal, pelo menos para os turistas portugueses. A véspera de um antecipado São João deveria ser aguardada com expectativa nestas instituições, que combatem desigualmente contra outros destinos apetecidos. Não é. E é pena.
Analisando os dados detalhados agora disponibilizados pelo IMC, verifica-se que a percentagem de bilhetes de domingo/feriado nas contas de cada instituição gerida pelo IMC é significativa. Aleatoriamente, escolhi seis museus. Na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, os bilhetes de domingo/feriado correspondem a 12,5% dos bilhetes vendidos em 2010; no Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães, são 6,6%; no Museu do Chiado, em Lisboa, são 12,8%; no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, são 10,6%; no Museu Nacional de Arte Antiga, são 19,2%; e no Museu Nacional de Arqueologia, os 41.786 bilhetes vendidos ao domingo ou em feriados corresponderam a 43% das entradas no ano transacto. Com a agravante de que em todas estas instituições há muito mais visitantes portugueses do que estrangeiros a organizar a sua visita nestes dias, por motivos naturalmente ligados aos curtos períodos dedicados ao lazer interno.
Pode um museu dar-se ao luxo de fechar nestes dias? Em Sintra, pelos vistos, pode.

sábado, março 26, 2011

Somos assim e somos incorrigíveis.



Somos assim e somos incorrigíveis. Reagimos a quente e insistimos que as questões políticas ora são pretas, ora são brancas. Queremos heróis e vilões. Escutamos 30 segundos de uma notícia no Telejornal - normalmente descontextualizada - e cuidamos que formámos uma opinião sólida e duradoura. Foi assim com a notícia dos 6% do IVA aplicado ao golfe e será assim mais um rol de vezes.
André Jordan, empresário ligado ao crescimento exponencial do golfe em Portugal, contestou hoje no "Público" - sem destaque nenhum do jornal e remetido para a edição semanal que corresponde ao lugar do morto - a racionalidade das críticas daqueles que se apressaram a glosar que o regime de excepção aplicado à modalidade se devia a um privilégio atribuído à classe alta da Quinta da Marinha.
O golfe deixou de ser um desporto. É um negócio. Vou repetir: não é um desporto. É uma actividade turística. Pode ser questionada por mil e um motivos, nomeadamente pela sua escassa sustentabilidade ambiental ou pela sua implantação em regiões com fraca disponibilidade hídrica, como o Sul de Portugal. Mas é um negócio, que atrai turistas e investimento como poucos. Corresponde a 1,8 mil milhões de euros por ano em Portugal. E enquanto um turista que visita Lisboa gasta 123 euros por dia, o turista do golfe gasta 231! É fazer as contas, como dizia Guterres.
O estatuto de excepção foi concebido para proteger esse sector de negócio da concorrência externa. Só isso. O resto é a espuma do momento.

domingo, fevereiro 27, 2011

Macau na National Geographic


Está a partir de dia 24 nas bancas uma Edição Especial da National Geographic dedicada a Macau. A missão era retratar o património cultural desta cidade Património Mundial. Com fotografias de Paulo Barata, infografias da Anyforms, textos de Gonçalo Pereira e João Paulo Oliveira e Costa e apoio documental e pericial do Instituto Cultural de Macau, eis então esta "Macau, Património Mundial". Espero que seja do vosso agrado.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Tanto amor

Já se sabe que o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade não morre de amores pela geodiversidade. O B acrescentado à sigla ICNB fica para a história como um dos absurdos modernos, como se a biodiversidade não fizesse parte da natureza e como se fosse necessário aos biólogos demarcar o seu território.
Há sete monumentos naturais classificados, fruto da teimosia de pessoas como a professora Helena Henriques, que se desgastou durante mais de duas décadas até ver classificado o cabo Mondego, ou a equipa da Naturtejo, que deu consistência à proposta das Portas de Ródão. A ProGeo ajudou também a pressionar.
Na verdade, o ICNB gosta tanto ou tão pouco dos seus monumentos naturais classificados que, no seu portal, ainda não actualizou o mapa da distribuição.
(ver aqui: http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007/O+ICNB/%C3%81reas+Protegidas/Monumentos+Naturais/?res=1680x1050)
Constam dos decretos, mas não estão representados no mapa. Talvez seja melhor. Afinal, dos cinco monumentos naturais classificados na primeira leva, apenas o de Ourém mantém alguma dignidade. Lagosteiros, Carenque, Avelino e Pedra da Mua não destoariam num cenário de guerra.