terça-feira, outubro 09, 2012
sábado, outubro 06, 2012
Elogio entusiasmado do Lisbon Story Centre
(fotografia indecentemente pirateada daqui. Notem, aliás, que a autora do blogue não partilha o meu entusiasmo, apresentando para tal argumentos válidos)
Começo da forma mais pedante possível: não envergonha. Pelo contrário. É superior à maior parte dos centros interpretativos que conheço nas cidades europeias. É melhor do que o Museu da Cidade de Barcelona e é mais divertido do que a Dublinia, na capital irlandesa. É até mais complexo do que o Museu da Cidade de Amesterdão, que se foca na cultura e não na história, para contar a narrativa da cidade onde se integra.
Começo da forma mais pedante possível: não envergonha. Pelo contrário. É superior à maior parte dos centros interpretativos que conheço nas cidades europeias. É melhor do que o Museu da Cidade de Barcelona e é mais divertido do que a Dublinia, na capital irlandesa. É até mais complexo do que o Museu da Cidade de Amesterdão, que se foca na cultura e não na história, para contar a narrativa da cidade onde se integra.
Em última
instância, qual a expectativa de uma organização de turismo (no caso, a
Associação de Turismo de Lisboa) face ao visitante que acorre uma vez à cidade?
Lamento contrariar muitos dos directores de museus e outras instituições
culturais que conheço em Lisboa, Coimbra e Sintra: não é dar-lhes uma lição de história exaustiva, tornando-os especialistas no tema em causa, mesmo que não seja essa
a sua vontade. Em muitos museus, mantém-se uma expectativa desmesurada
relativamente ao investimento de tempo e concentração que o visitante fará no
equipamento em causa.
Sejamos
honestos: o visitante comum leva na memória três ou quatro pinceladas sobre a
cidade que visita, pinceladas essas que, ao fim de poucas semanas, se esbatem
na mente, confundindo-se com outras experiências. De Lisboa, guarda-se sem
esforço a luz natural, sempre presente, mesmo nos dias mais sombrios; a
gastronomia, que encanta e é barata; o património arquitectónico
(indiscriminado) ao longo do eixo ribeirinho; e, com sorte, talvez o visitante
leve também uma ou duas ideias difusas sobre o papel da cidade na história do
mundo, dependendo das portas onde tiver batido, da informação que tiver
consumido e do acaso o poder ter levado aos sítios fundamentais.
É nesse capítulo
que o Lisbon Story Centre tem uma função a cumprir.
É verdade:
custou três milhões de euros e um milhão foi aplicado em tecnologias de
informação, via YDreams. Já conheço a réplica que se segue: é muito dinheiro quando não há verbas para os outros museus e sobretudo quando o visitante não vê “objectos reais”, nem toca em artefactos
com história. Pergunto: será isso decisivo? Os museus com espólio continuam a
existir, a começar pelo tristonho Museu da Cidade, no Campo Grande, e terminando no exuberante Museu do Oriente, a caminho do Cais do Sodré. Cabe-lhes vender essa
experiência. Não creio, na verdade, que o Lisbon Story Centre concorra com eles.
A visita é
totalmente conduzida por um audioguia em dez línguas e uma versão infantil. São
18 pontos de paragem, nos quais um guião impecavelmente redigido, com momentos
cómicos e consultoria científica (quase) inatacável de José Sarmento Matos, nos levam
da Lisboa fenícia a 1974. Animações estupendas e boas recriações de cenas
históricas ajudam a passar de etapa a etapa, embora, na sala do terramoto, a
expectativa saia um pouco defraudada, face por exemplo ao que o Museu da
Ciência de Londres oferece no capítulo da experiência sísmica (foi o último
momento de pedantismo, prometo).
O tempo passa a
correr. Quando a visita desemboca na loja, passaram 60 minutos agradáveis e bem
documentados, onde a pequena história, das curiosidades e dos factos pitorescos
foi apresentada lado a lado com a história dos acontecimentos e das
personalidades inevitáveis. E, surpresa das surpresas, é das curiosidades e
“factóides” que o visitante se lembra no final.
Cumprindo o
desígnio inicial (lembram-se?), o visitante vai para casa a pensar num rei que
viveu os vinte anos que lhe restavam numa barraca-tenda, num marquês
experimentalista que mandou um regimento de infantaria caminhar nas gaiolas
pombalinas para testar a sua flexibilidade, num corvo que se tornou símbolo da cidade,
e num santo António que destronou no afecto local o original São Vicente.
É pouco? É
muito? Ninguém priva o visitante de contactar com os museus e monumentos
“reais”. Ali, bem perto, o Portal de Nossa Senhora da Conceição recorda-nos do
património irrepetível da cidade; subindo a colina, o Museu de Farmácia, o
Museu do Design ou o Museu Arqueológico do Carmo cumprem admiravelmente a sua
função, sem serem beliscados pelo novo centro.
É verdade que há
defeitos: nove euros por bilhete parecem significar que a massa primordial dos
300 mil visitantes/ano que a cidade espera não serão portugueses. A
ausência de colaboração e articulação com a EGEAC e com o Museu da Cidade
antecipam uma relação conturbada entre espaços culturais sob a mesma tutela,
que poderiam cooperar muito melhor. A Lisboa romana e a Lisboa árabes são negligenciadas quase por completo pelo guião em prol de uma Lisboa fenícia mais romantizada do que real. Por fim, a dependência total de consolas e
ecrãs deixa-me igualmente de pé atrás, sobretudo depois de ter acompanhado de
perto a origem e colapso do Carsoscópio de Alcanena (entretanto reabilitado),
também ele dependente das tecnologias de informação. Daqui a um ano, esgotado o
valor orçamentado para a concepção do espaço, quantos equipamentos estarão
ainda operacionais?
Termino por onde
comecei. É um novo motivo de orgulho no renovado Terreiro do Paço. Não
substitui a leitura das 600 páginas do “Livro de Lisboa”, nem o tacto demorado
das colunas do Museu do Teatro Romano. Julgo que ninguém no seu devido juízo pretendia
que isso sucedesse, embora não fosse descabido deixar pistas à saída para o visitante que pretenda continuar a sua peregrinação cultural por outros museus. Mesmo assim, o Story Centre produz uma experiência de que o turista em Lisboa não dispunha até agora.
sexta-feira, junho 15, 2012
O crime, sempre o crime!
Idanha-a-Nova, 14 de Junho. Calhou o acaso que entre no edifício que alberga a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova minutos antes de o suspeito de um duplo homicídio ser apresentado ao tribunal que funciona nas mesmas instalações. Há alguns munícipes no largo principal, mas o seu número não se compara ao dos jornalistas. Fotógrafos e operadores de vídeo posicionam-se estrategicamente para poder recolher a imagem ideal nos curtos segundos que distarão entre a saída do suspeito do veículo policial e a entrada do edifício. Elementos da Guarda Nacional Republicana estão visivelmente confusos, adivinhando-se a sua estranheza perante um cenário para o qual não foram treinados nem nunca imaginaram vir a participar.
Rebobinamos alguns meses. Em Fevereiro, o mesmo município protagonizou uma inovadora campanha no âmbito do projecto Incubadora de Base Rural, colocando à disposição cerca de 300 hectares de terreno fértil susceptíveis de interessar jovens agricultores com projectos tecnologicamente inovadores. Trata-se de um projecto – e não de uma declaração de intenções – que prevê precisamente uma alternativa para a imparável perda de relevância do sector primário em Portugal, traduzida num abandono da agricultura. Inclui um incentivo à população activa jovem. Traduz-se numa promoção da criatividade tecnológica e, no entanto...
À sessão de apresentação, compareceram timidamente alguns meios de comunicação regional. Mais ninguém. Meses depois, na pista da ministra Assunção Cristas, uma televisão (a SIC Notícias) fez também ali um trabalho sobre o projecto, mas a comparação de cenários é inevitável, sobretudo porque o argumento das direcções de informação costuma ser o mesmo: falta de recursos para acorrer a todo o lado; falta de espaço para noticiar tudo; falta de correspondentes em todos os locais.
No entanto, face a um crime de sangue, rapidamente esses obstáculos se desvanecem. Encontra-se tempo no alinhamento para directos. Os correspondentes dão lugar a jornalistas enviados das sedes para relatar o assunto. Fotógrafos são mandados para o local para fotografar ambulâncias e macas. A insensibilidade de quem vem de fora é gritante: pergunta-se aos transeuntes, amigos das vítimas, familiares, conhecidos de sempre, o que sentiu quando viu os corpos? Que motivações teria o homicida?
Martelam-se enquadramentos imaginados, que têm de encaixar à força nos factos: será que pagavam ao empreiteiro a tempo? Será que isto não é mais um crime provocado pelo crise? Os munícipes entreolham-se, envergonhados pela figura de quem com eles fala e cai neste ridículo.
Amanhã, levanta-se a tenda. Abandona-se a vila. Noutras localidades, ocorrerão outros crimes de sangue. E continuarão a não existir recursos, tempo ou espaço para noticiar a actualidade do mundo rural. Excepto em caso de tiros.
Rebobinamos alguns meses. Em Fevereiro, o mesmo município protagonizou uma inovadora campanha no âmbito do projecto Incubadora de Base Rural, colocando à disposição cerca de 300 hectares de terreno fértil susceptíveis de interessar jovens agricultores com projectos tecnologicamente inovadores. Trata-se de um projecto – e não de uma declaração de intenções – que prevê precisamente uma alternativa para a imparável perda de relevância do sector primário em Portugal, traduzida num abandono da agricultura. Inclui um incentivo à população activa jovem. Traduz-se numa promoção da criatividade tecnológica e, no entanto...
À sessão de apresentação, compareceram timidamente alguns meios de comunicação regional. Mais ninguém. Meses depois, na pista da ministra Assunção Cristas, uma televisão (a SIC Notícias) fez também ali um trabalho sobre o projecto, mas a comparação de cenários é inevitável, sobretudo porque o argumento das direcções de informação costuma ser o mesmo: falta de recursos para acorrer a todo o lado; falta de espaço para noticiar tudo; falta de correspondentes em todos os locais.
No entanto, face a um crime de sangue, rapidamente esses obstáculos se desvanecem. Encontra-se tempo no alinhamento para directos. Os correspondentes dão lugar a jornalistas enviados das sedes para relatar o assunto. Fotógrafos são mandados para o local para fotografar ambulâncias e macas. A insensibilidade de quem vem de fora é gritante: pergunta-se aos transeuntes, amigos das vítimas, familiares, conhecidos de sempre, o que sentiu quando viu os corpos? Que motivações teria o homicida?
Martelam-se enquadramentos imaginados, que têm de encaixar à força nos factos: será que pagavam ao empreiteiro a tempo? Será que isto não é mais um crime provocado pelo crise? Os munícipes entreolham-se, envergonhados pela figura de quem com eles fala e cai neste ridículo.
Amanhã, levanta-se a tenda. Abandona-se a vila. Noutras localidades, ocorrerão outros crimes de sangue. E continuarão a não existir recursos, tempo ou espaço para noticiar a actualidade do mundo rural. Excepto em caso de tiros.
domingo, junho 10, 2012
Mecanismos de solidariedade
(Declaração de
interesses: participei como orador no Congresso da Costa da Laurissilva, a
convite da organização.)
São Vicente,
Madeira, 10 de Junho. O que acontece a um ser humano quando sofre uma paragem
cardíaca? O sangue deixa de ser bombeado, os órgãos vão interrompendo o seu
funcionamento devido à falta de oxigenação até ao momento em que o próprio
cérebro falha. Imaginemos então como parábola que o sangue bombeado são os
recursos indispensáveis para gerir uma área protegida e que a cada órgão vital
corresponde um município.
Três municípios
da costa setentrional da ilha da Madeira chegaram a um consenso e organizaram
uma plataforma de convergência para melhor defenderem o interesse do património
natural dos seus concelhos. Por si só, esta convergência já seria tema de
notícia. Mas as sessões a que assisti durante os dias 8 e 9 de Junho
expressaram um entendimento mais profundo sobre uma das questões fundamentais
da conservação da natureza: a solidariedade, traduzida numa intenção de
distribuir equitativamente os rendimentos provenientes do turismo associado
especificamente à visita de áreas naturais.
A intervenção
mais ponderada do congresso pertenceu a Francisco de Castro Rego (FCR),
ex-Director-Geral dos Recursos Florestais e coordenador do Centro de Ecologia
Florestal do Instituto Superior de Agronomia. O seu raciocínio marcou as
palestras subsequentes. FCR socorreu-se dos dados do inquérito aos visitantes
da Madeira em 2010 (ainda para mais, um dos piores anos turísticos da ilha em
várias décadas, devido à enxurrada de 20 de Fevereiro, ao incêndio do Parque
Natural da Madeira e às repercussões geradas pela erupção do vulcão islandês de
nome impronunciável). Trata-se de um inquérito encomendado pela Secretaria
Regional de Turismo (que entendeu porém não participar no congresso).
Segundo FCR, mais de 30% dos visitantes da Madeira reconhecem que viajam para a ilha para
observar a natureza. Ora, com um volume anual médio de 5 milhões de dormidas na
ilha e com uma despesa média de um pouco menos de 100 euros por dia, é possível
estipular o valor turístico das áreas naturais, esquecendo outros serviços,
mais difíceis de estimar, como a capacidade de retenção de água, a concentração
de biodiversidade ou a função de segurança contra deslizamentos de terras. O investigador chegou a um número bastante razoável: cerca de 140 milhões de
euros das receitas turísticas da Madeira provêm directamente de turistas que
viajaram confessadamente para observar a natureza.
Vamos à segunda parte
da equação. Toda a floresta da laurissilva, património da Humanidade,
concentra-se no Norte da ilha; as veredas e levadas mais valorizadas situam-se
nos municípios do Norte (sobretudo, em São Vicente, Santana e Porto Moniz, com
algumas excepções em Machico). No entanto, as receitas do turismo
concentram-se, de forma esmagadora, nos municípios do Sul, particularmente no
Funchal, de onde partem todas as excursões, a maior parte dos percursos
guiados, onde se concentram as dormidas, os alugueres de carros e obviamente
onde se deixam as receitas da restauração.
É justo? Não
parece, particularmente quando a evolução demográfica dos concelhos do Norte
sugere que está em curso um processo de êxodo considerável. Por outras
palavras, existe sangue, mas não é bombeado para todos os órgãos e alguns
começam a denotar sintomas de falta de oxigenação.
Foram debatidos
vários modelos de transferência solidária de receitas neste congresso. Alguns,
admito, não fazem sentido para mim, como a aplicação de ecotaxas de passagem
aos visitantes específicos que visitam veredas, levadas ou outros ícones da
paisagem da laurissilva. Em tempo de escassez, a aplicação de mais taxas parece
contraproducente e não creio que deva ser o turista a assegurar a conservação
daqueles espaços. Parece-me bastante mais plausível a aceitação solidária desta
desigualdade regional e a canalização de recursos oriundos do turismo (uma
fatia dos tais 140 milhões de euros) para mecanismos de reabilitação da
economia local e de conservação da paisagem protegida, que conta aliás com mais
um ícone desde Junho do ano passado, com a criação da Reserva da Biosfera de
Santana.
A nível de
sensibilização, é possível igualmente abrir outros pontos fulcrais, como a
consciencialização do visitante para gastar algum do seu dinheiro no comércio
local dos municípios do Norte, sob risco de a sangria migratória que daqui
parte para o Funchal e para o exterior continuar a registar-se. E de alguns
órgãos cessarem por completo de funcionar por deficiências no sistema circulatório.
P.S.: muito
deste debate passou ao lado dos companheiros jornalistas dos órgãos de
comunicação madeirenses, que esgotaram a cobertura do primeiro dia do congresso
com sound-bytes da intervenção do presidente do Governo Regional. Foi pena!
domingo, junho 03, 2012
Limitações do jornalismo sobre ciência
Dois exemplos quotidianos, um dos quais passado comigo para sublinhar que todos os jornalistas estão sujeitos a estas limitações, mesmo aqueles que, trabalhando num ritmo não diário, dispõem de mais tempo para validação.
Em Maio deste ano, noticiei a descoberta de um raro artefacto de terracota, em forma de um touro, num sítio arqueológico do Baixo Alentejo. Dei-o como praticamente inédito naquele contexto, depois de discutir o assunto com o arqueólogo responsável pela intervenção e mais dois especialistas da área. Fui agora informado de que, no mesmo sítio arqueológico funerário, um ano antes, tinha sido descoberta uma figura semelhante, mas não valorizada pelo arqueólogo responsável, que não a publicou nem lhe deu particular relevo.
Na semana passada, o Público deu um raro destaque de capa à descoberta daquele que seria o artefacto judaico mais antigo da Península Ibérica, susceptível de rever as cronologias vigentes. Falou, ao que tudo indica, apenas com o arqueólogo responsável pela escavação e baseou a sua interpretação na sugestão de que os caracteres gravados numa tabuinha representavam um hebraico antigo. Depois da publicação, um arqueólogo conceituado sugeriu o carácter extemporâneo (e até errado) da interpretação num fórum de arqueologia.
O que nos dizem estes casos sobre a prática jornalística em terrenos científicos? Dizem, em primeira instância, que a relação entre perito e jornalista é francamente desigual: o primeiro estuda um tema durante décadas, o segundo analisa-o durante horas ou dias. É por isso fundamental que a interacção entre ambos seja leal e franca, esperando-se que ambos se abstenham de usar a abordagem “Eureka!” de cada vez que trabalham para produzir notícias sobre um projecto científico.
Em segundo lugar, a notícia é fragmentada. Não pode aspirar a produzir conhecimento sustentado numa comunidade, devendo, ao invés, sugerir pistas, destacar informação e abrir caminhos de pesquisa e leitura complementar para os leitores. A notícia complementa a divulgação em publicação científica, mais sólida e validada pelos pares.
Em terceiro lugar, o processo de selecção jornalística é influenciado por valores que não são necessariamente compatíveis com os da ciência. A prioridade conferida à novidade é um desses exemplos. A importância dos suportes visuais (de que falarei noutro texto) é outro factor que influencia fortemente a decisão de publicar, ou não, notícias sobre projectos científicos. Outros valores, como a redundância de temas (“já escrevemos sobre pré-história no mês passado”) ou a maior ou menor atracção de certos temas (“de geologia, só escrevo sobre dinossauros”), levam igualmente os cientistas a temer o trabalho jornalístico.
Como noutras relações sociais, é fundamental continuar a construir pontes entre estas duas margens.
Em Maio deste ano, noticiei a descoberta de um raro artefacto de terracota, em forma de um touro, num sítio arqueológico do Baixo Alentejo. Dei-o como praticamente inédito naquele contexto, depois de discutir o assunto com o arqueólogo responsável pela intervenção e mais dois especialistas da área. Fui agora informado de que, no mesmo sítio arqueológico funerário, um ano antes, tinha sido descoberta uma figura semelhante, mas não valorizada pelo arqueólogo responsável, que não a publicou nem lhe deu particular relevo.
Na semana passada, o Público deu um raro destaque de capa à descoberta daquele que seria o artefacto judaico mais antigo da Península Ibérica, susceptível de rever as cronologias vigentes. Falou, ao que tudo indica, apenas com o arqueólogo responsável pela escavação e baseou a sua interpretação na sugestão de que os caracteres gravados numa tabuinha representavam um hebraico antigo. Depois da publicação, um arqueólogo conceituado sugeriu o carácter extemporâneo (e até errado) da interpretação num fórum de arqueologia.
O que nos dizem estes casos sobre a prática jornalística em terrenos científicos? Dizem, em primeira instância, que a relação entre perito e jornalista é francamente desigual: o primeiro estuda um tema durante décadas, o segundo analisa-o durante horas ou dias. É por isso fundamental que a interacção entre ambos seja leal e franca, esperando-se que ambos se abstenham de usar a abordagem “Eureka!” de cada vez que trabalham para produzir notícias sobre um projecto científico.
Em segundo lugar, a notícia é fragmentada. Não pode aspirar a produzir conhecimento sustentado numa comunidade, devendo, ao invés, sugerir pistas, destacar informação e abrir caminhos de pesquisa e leitura complementar para os leitores. A notícia complementa a divulgação em publicação científica, mais sólida e validada pelos pares.
Em terceiro lugar, o processo de selecção jornalística é influenciado por valores que não são necessariamente compatíveis com os da ciência. A prioridade conferida à novidade é um desses exemplos. A importância dos suportes visuais (de que falarei noutro texto) é outro factor que influencia fortemente a decisão de publicar, ou não, notícias sobre projectos científicos. Outros valores, como a redundância de temas (“já escrevemos sobre pré-história no mês passado”) ou a maior ou menor atracção de certos temas (“de geologia, só escrevo sobre dinossauros”), levam igualmente os cientistas a temer o trabalho jornalístico.
Como noutras relações sociais, é fundamental continuar a construir pontes entre estas duas margens.
segunda-feira, maio 28, 2012
Jornalistas e cientistas
Durante muitos anos, a academia não se preocupou em excesso com a comunicação da ciência aos leigos. Era uma tarefa menor, que consumia tempo e recursos e significava uma considerável despromoção social do cientista, particularmente se este já ocupasse um lugar relevante na hierarquia científica.
Na verdade, para aceder à esfera pública, o cientista era forçado a negociar espaço e destaque para a sua investigação com os jornalistas, tarefa muitas vezes inglória, por vezes humilhante, e de desfecho sempre imprevisível. Afinal, como lembram os epidemiologistas, no dia a seguir ao anúncio da fase 6 da pandemia de gripe A, em Junho de 2009, poucos foram os jornais diários que concederam honra de manchete à notícia mais importante da saúde pública da década. Na véspera, o Real Madrid contratara Cristiano Ronaldo e os valores-notícia dos jornais fizeram o resto…
O paradigma entretanto alterou-se. As entidades financiadoras esperam que os cientistas transmitam os resultados da sua pesquisa à sociedade civil e premeiam os projectos cujo outreach seja mais evidente. Em face dessa obrigatoriedade de comunicar, parte hoje de muitos cientistas a iniciativa de contactar órgãos de comunicação e expor as suas propostas. O ponto fulcral em debate, hoje como dantes, é a autoria. Quem ordena a informação? Quem escreve a notícia? Que detalhes vão ser destacados e que pormenores vão ser ignorados?
Deparo cada vez mais com propostas ao abrigo das quais o cientista não quer abdicar de escrever a notícia. Travo então curiosas batalhas dialécticas com os cientistas que concordam, na generalidade, com as premissas:
1) Escrever para o público leigo é um esforço diferente da redacção de um artigo para os pares.
2) A organização da informação não é necessariamente cronológica, nem segue judiciosamente os passos do método científico.
3) O enquadramento teórico no qual o trabalho se insere tem normalmente pouca relevância.
4) A metodologia só é noticiada em condições excepcionais.
5) Ninguém quer ler sobre os vinte parceiros que co-assinam o artigo.
6) Os aspectos lúdicos ou ligeiros e as metáforas de simplificação podem ser a única informação que o leitor guarda na memória depois de lido o texto. Quando o debate desce à especialidade, porém, deixa de existir acordo. Todos concordam que há cientistas sem qualquer vocação para a divulgação. Simplesmente, nenhum admite que esse pode ser o seu caso.
P.S.: Em ocasião futura, escreverei sobre as debilidades dos jornalistas para narrar de forma fidedigna as nuances da ciência.
Na verdade, para aceder à esfera pública, o cientista era forçado a negociar espaço e destaque para a sua investigação com os jornalistas, tarefa muitas vezes inglória, por vezes humilhante, e de desfecho sempre imprevisível. Afinal, como lembram os epidemiologistas, no dia a seguir ao anúncio da fase 6 da pandemia de gripe A, em Junho de 2009, poucos foram os jornais diários que concederam honra de manchete à notícia mais importante da saúde pública da década. Na véspera, o Real Madrid contratara Cristiano Ronaldo e os valores-notícia dos jornais fizeram o resto…
O paradigma entretanto alterou-se. As entidades financiadoras esperam que os cientistas transmitam os resultados da sua pesquisa à sociedade civil e premeiam os projectos cujo outreach seja mais evidente. Em face dessa obrigatoriedade de comunicar, parte hoje de muitos cientistas a iniciativa de contactar órgãos de comunicação e expor as suas propostas. O ponto fulcral em debate, hoje como dantes, é a autoria. Quem ordena a informação? Quem escreve a notícia? Que detalhes vão ser destacados e que pormenores vão ser ignorados?
Deparo cada vez mais com propostas ao abrigo das quais o cientista não quer abdicar de escrever a notícia. Travo então curiosas batalhas dialécticas com os cientistas que concordam, na generalidade, com as premissas:
1) Escrever para o público leigo é um esforço diferente da redacção de um artigo para os pares.
2) A organização da informação não é necessariamente cronológica, nem segue judiciosamente os passos do método científico.
3) O enquadramento teórico no qual o trabalho se insere tem normalmente pouca relevância.
4) A metodologia só é noticiada em condições excepcionais.
5) Ninguém quer ler sobre os vinte parceiros que co-assinam o artigo.
6) Os aspectos lúdicos ou ligeiros e as metáforas de simplificação podem ser a única informação que o leitor guarda na memória depois de lido o texto. Quando o debate desce à especialidade, porém, deixa de existir acordo. Todos concordam que há cientistas sem qualquer vocação para a divulgação. Simplesmente, nenhum admite que esse pode ser o seu caso.
P.S.: Em ocasião futura, escreverei sobre as debilidades dos jornalistas para narrar de forma fidedigna as nuances da ciência.
segunda-feira, fevereiro 27, 2012
Carta aberta ao Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Beja
Exmo. Sr. Dr. Jorge Pulido Valente,
As notícias recentes que deram conta da vontade da Câmara Municipal de Beja de reduzir o seu contributo financeiro para o orçamento do Museu Regional de Beja (ou Museu Rainha Dona Leonor) – e que, na prática, o inviabilizam – entristecem quem conhece aquele espaço museológico e com ele cooperou na última década.
Numa pesquisa rápida, verifico que o espólio ali guardado já foi útil à revista que dirijo em quase um dezena de ocasiões. Em Beja, concentram-se importantes núcleos romanos e islâmicos que testemunham o papel importante da cidade ao longo dos séculos. Ali está exposto também o único núcleo visigótico do país, tema de uma reportagem em Abril de 2008. Vagueando pelas colecções, detemo-nos facilmente no resultado de trabalhos prolíferos de pioneiros como Leite Vasconcelos, Abel Viana ou Estácio da Veiga. Cada um dos 15 mil visitantes anuais do Museu tem aliás dois roteiros possíveis: o dos artefactos, que conta um pouco da história da ocupação humana em Portugal; e o dos pioneiros da arqueologia, que testemunha a evolução da prática desta disciplina no último século.
Tratando-se de um museu regional e não municipal, o seu orçamento é, como sabe, comparticipado pelas autarquias distritais, cabendo a Beja a maior fatia. Não deixa de ser irónico que o Exmo. Sr. presidente da autarquia de Beja, à data em que era presidente da Câmara Municipal de Mértola, tenha congelado as comparticipações de Mértola para o Museu, alegando que o mesmo não era regional mas sim municipal; eleito em 2009 para a autarquia bejense, admitiu recentemente que lhe parecia mais adequado que fosse a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo a gerir o espaço. E entretanto a autarquia que V. Ex.ª superiormente dirige votou contra o orçamento distrital de 2012, alegando incapacidade de o cumprir.
O Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Beja tem dito regularmente que a comparticipação da autarquia para o Museu é impossível de suportar, pois não existem verbas que permitam custear esse valor. Permita-me V. Ex.ª que o auxilie nesse ponto.
Consultando o portal de contratos públicos online (www.base.gov.pt/default.htm), verifica-se que o município de Beja realizou, de 2008 a 2012, 409 ajustes directos, no valor de 14,4 milhões de euros. Por uma questão de elementar justiça, limitar-me-ei a apontar a V. Ex.ª despesas que resultem de ajustes realizados já no actual mandato.
Ora, os cerca de 50 mil euros anuais que a autarquia não consegue comparticipar para o Museu poderão porventura ser comparados com os 29.900 euros consagrados aos serviços técnicos para a produção dos eventos da BejaBrava e Beja Kids (Setembro de 2011) ou, pelo menos, poder-se-á repensar a oportunidades de investir 15.500 para animações infantis no mesmo evento (Outubro de 2011), aos quais se juntam mais 18.800 para o mesmo fim (Outubro de 2011). Bem sei que o melhor do mundo são as crianças, mas haverá limites para a abrangência da puericultura.
Estou igualmente certo que V. Ex.ª, criativo no seu quotidiano, poderá igualmente dispensar os 6.500 euros investidos em Criatividade de Eventos (Agosto de 2011) ou os 7.300 gastos na impressão da revista do município (Junho de 2011).
Em alternativa, deixando as festas infantis e a criatividade de parte, poderá V. Ex.ª. porventura apontar baterias ao vinho. Segundo o mesmo portal, o Beja Wine Night de 2011 consumiu 42.000 euros (Junho 2011), um pouco menos do que os 74.950 do Beja Wine Night de 2010 (Julho 2010). Em alternativa, temos sempre os 55.800 euros do evento Vinipax (Outubro 2010), um valor surpreendentemente parecido com o que não pode ser dedicado ao Museu.
Se nem no vinho pudermos cortar, podemos eventualmente reduzir o orçamento para o afecto. Penso concretamente nos 74.900 euros dedicados ao importante Festival do Amor (Maio de 2011) que, a serem alocados para uma área menos apaixonada, resolveriam o problema do Museu para o próximo ano e meio. Beja sofreria bastante – estou certo – com a redução do impacte do seu festival amoroso, mas, em alternativa, manteria expostos durante todo o ano os artefactos que conduzem a maioria dos visitantes à cidade.
Creia-me desejoso de continuar a explorar a lista de ajustes directos do município em busca de soluções que possam poupar o Museu Regional de Beja. Custar-me-ia muito que o Museu fosse encerrado mais de um século depois da sua fundação... Sobretudo quando o actual presidente da autarquia é licenciado em História.
As notícias recentes que deram conta da vontade da Câmara Municipal de Beja de reduzir o seu contributo financeiro para o orçamento do Museu Regional de Beja (ou Museu Rainha Dona Leonor) – e que, na prática, o inviabilizam – entristecem quem conhece aquele espaço museológico e com ele cooperou na última década.
Numa pesquisa rápida, verifico que o espólio ali guardado já foi útil à revista que dirijo em quase um dezena de ocasiões. Em Beja, concentram-se importantes núcleos romanos e islâmicos que testemunham o papel importante da cidade ao longo dos séculos. Ali está exposto também o único núcleo visigótico do país, tema de uma reportagem em Abril de 2008. Vagueando pelas colecções, detemo-nos facilmente no resultado de trabalhos prolíferos de pioneiros como Leite Vasconcelos, Abel Viana ou Estácio da Veiga. Cada um dos 15 mil visitantes anuais do Museu tem aliás dois roteiros possíveis: o dos artefactos, que conta um pouco da história da ocupação humana em Portugal; e o dos pioneiros da arqueologia, que testemunha a evolução da prática desta disciplina no último século.
Tratando-se de um museu regional e não municipal, o seu orçamento é, como sabe, comparticipado pelas autarquias distritais, cabendo a Beja a maior fatia. Não deixa de ser irónico que o Exmo. Sr. presidente da autarquia de Beja, à data em que era presidente da Câmara Municipal de Mértola, tenha congelado as comparticipações de Mértola para o Museu, alegando que o mesmo não era regional mas sim municipal; eleito em 2009 para a autarquia bejense, admitiu recentemente que lhe parecia mais adequado que fosse a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo a gerir o espaço. E entretanto a autarquia que V. Ex.ª superiormente dirige votou contra o orçamento distrital de 2012, alegando incapacidade de o cumprir.
O Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Beja tem dito regularmente que a comparticipação da autarquia para o Museu é impossível de suportar, pois não existem verbas que permitam custear esse valor. Permita-me V. Ex.ª que o auxilie nesse ponto.
Consultando o portal de contratos públicos online (www.base.gov.pt/default.htm), verifica-se que o município de Beja realizou, de 2008 a 2012, 409 ajustes directos, no valor de 14,4 milhões de euros. Por uma questão de elementar justiça, limitar-me-ei a apontar a V. Ex.ª despesas que resultem de ajustes realizados já no actual mandato.
Ora, os cerca de 50 mil euros anuais que a autarquia não consegue comparticipar para o Museu poderão porventura ser comparados com os 29.900 euros consagrados aos serviços técnicos para a produção dos eventos da BejaBrava e Beja Kids (Setembro de 2011) ou, pelo menos, poder-se-á repensar a oportunidades de investir 15.500 para animações infantis no mesmo evento (Outubro de 2011), aos quais se juntam mais 18.800 para o mesmo fim (Outubro de 2011). Bem sei que o melhor do mundo são as crianças, mas haverá limites para a abrangência da puericultura.
Estou igualmente certo que V. Ex.ª, criativo no seu quotidiano, poderá igualmente dispensar os 6.500 euros investidos em Criatividade de Eventos (Agosto de 2011) ou os 7.300 gastos na impressão da revista do município (Junho de 2011).
Em alternativa, deixando as festas infantis e a criatividade de parte, poderá V. Ex.ª. porventura apontar baterias ao vinho. Segundo o mesmo portal, o Beja Wine Night de 2011 consumiu 42.000 euros (Junho 2011), um pouco menos do que os 74.950 do Beja Wine Night de 2010 (Julho 2010). Em alternativa, temos sempre os 55.800 euros do evento Vinipax (Outubro 2010), um valor surpreendentemente parecido com o que não pode ser dedicado ao Museu.
Se nem no vinho pudermos cortar, podemos eventualmente reduzir o orçamento para o afecto. Penso concretamente nos 74.900 euros dedicados ao importante Festival do Amor (Maio de 2011) que, a serem alocados para uma área menos apaixonada, resolveriam o problema do Museu para o próximo ano e meio. Beja sofreria bastante – estou certo – com a redução do impacte do seu festival amoroso, mas, em alternativa, manteria expostos durante todo o ano os artefactos que conduzem a maioria dos visitantes à cidade.
Creia-me desejoso de continuar a explorar a lista de ajustes directos do município em busca de soluções que possam poupar o Museu Regional de Beja. Custar-me-ia muito que o Museu fosse encerrado mais de um século depois da sua fundação... Sobretudo quando o actual presidente da autarquia é licenciado em História.
quarta-feira, julho 06, 2011
Accountability é uma estrada com dois sentidos
Nos últimos dias, participei numa conferência em Pamplona sobre estudos jornalísticos. Quando participo neste tipo de eventos, tenho sempre o cuidado de salientar que estou ali com dois chapéus – o do repórter e o do investigador em jornalismo. Às vezes, essa dupla qualidade pode ser desvantajosa, na medida em que me retira espírito crítico. Acredito, porém, que me proporciona também a oportunidade de perceber com conhecimento de causa os constrangimentos profissionais que marcam as redacções contemporâneas e afectam irremediavelmente a produção noticiosa.
Aidan White, ex-presidente da Federação Internacional de Jornalistas, apresentou uma exposição soberba, separando a liberdade de expressão da liberdade de imprensa. Ao abrigo da primeira, não é essencial ser justo. Ou equilibrado. Ou imparcial. A segunda é, para citar uma expressão que o jornalista nascido na Irlanda usou, “liberdade constrangida”. Constrangimentos auto-impostos, é verdade, mas é uma liberdade limitada porque se subordina a um conjunto de procedimentos profissionais que reconhecem o poder da palavra publicada ou difundida e visam o equílibrio final das posições em confronto.
Nestes congressos, é frequente escutarem-se críticas ao facilitismo dos jornalistas. Aos erros da sua prática. Às suas limitações intelectuais. À sua lendária preguiça para escavar mais (vide a intervenção do provedor do Público, no domingo, 3 de Julho). E insiste-se – correctamente - na necessidade de accountability: de o jornalista ser responsável pelo que produz e de assumir posteriormente todas as falhas da sua produção, independentemente das atenuantes. Publicando os erros, se for caso disso. Reconhecendo as falhas, sempre que elas existirem e forem categóricas.
Assumo essa fraqueza do jornalismo moderno. Ninguém gosta de ser criticado e nós (falo com o chapéu de jornalista neste parágrafo) lidamos mal com esta interactividade recém-criada, que coloca um texto sob escrutínio imediato de leitores que são também comentadores e revisores. Lidamos mal com essa verificação factual e estilística e, se pudéssemos, voltaríamos num ápice ao mundo em que o texto publicado era uma jangada de pedra, inacessível e alheia à crítica. Ponto final.
Mas a accountability é, ou deveria ser, uma estrada com dois sentidos. Os investigadores em Media e Jornalismo (falo, neste parágrafo, com esse chapéu) também devem ser responsabilizados e responder pela sua produção. Na maior parte das vezes, os jornalistas e as organizações noticiosas visados nos trabalhos académicos não têm acesso à argumentação exaustiva. Nem ao artigo científico. Nem à tese. Nem à comunicação feita em congresso inter pares. As suas falhas (ou a percepção das suas falhas) são expostas, mas numa redoma, também ela alheia à crítica.
Seria bom encontrar mecanismos, eventualmente com a ajuda de jornais destinados aos profissionais de media, como o “Meios e Publicidade ou “Briefing”, ou através de organizações profissionais de jornalistas (como o Sindicato ou os clubes de imprensa), para divulgar aos repórteres o que as universidades estão a investigar sobre o jornalismo português. Partilhando conclusões. Discutindo resultados. Dando a conhecer as novas áreas de investigação. Sujeitando-se à crítica, se for caso disso, porque estou certo de que muitos jornalistas teriam resposta para algumas das apreciações que os peritos académicos fazem do seu trabalho.
Numa frase, a accountability que exigimos aos jornalistas deveria ter dois sentidos.
Adenda: em jeito de demonstração de accountability, aqui está um primeiro passo. As actas da conferência de Pamplona podem ser descarregadas aqui.
Aidan White, ex-presidente da Federação Internacional de Jornalistas, apresentou uma exposição soberba, separando a liberdade de expressão da liberdade de imprensa. Ao abrigo da primeira, não é essencial ser justo. Ou equilibrado. Ou imparcial. A segunda é, para citar uma expressão que o jornalista nascido na Irlanda usou, “liberdade constrangida”. Constrangimentos auto-impostos, é verdade, mas é uma liberdade limitada porque se subordina a um conjunto de procedimentos profissionais que reconhecem o poder da palavra publicada ou difundida e visam o equílibrio final das posições em confronto.
Nestes congressos, é frequente escutarem-se críticas ao facilitismo dos jornalistas. Aos erros da sua prática. Às suas limitações intelectuais. À sua lendária preguiça para escavar mais (vide a intervenção do provedor do Público, no domingo, 3 de Julho). E insiste-se – correctamente - na necessidade de accountability: de o jornalista ser responsável pelo que produz e de assumir posteriormente todas as falhas da sua produção, independentemente das atenuantes. Publicando os erros, se for caso disso. Reconhecendo as falhas, sempre que elas existirem e forem categóricas.
Assumo essa fraqueza do jornalismo moderno. Ninguém gosta de ser criticado e nós (falo com o chapéu de jornalista neste parágrafo) lidamos mal com esta interactividade recém-criada, que coloca um texto sob escrutínio imediato de leitores que são também comentadores e revisores. Lidamos mal com essa verificação factual e estilística e, se pudéssemos, voltaríamos num ápice ao mundo em que o texto publicado era uma jangada de pedra, inacessível e alheia à crítica. Ponto final.
Mas a accountability é, ou deveria ser, uma estrada com dois sentidos. Os investigadores em Media e Jornalismo (falo, neste parágrafo, com esse chapéu) também devem ser responsabilizados e responder pela sua produção. Na maior parte das vezes, os jornalistas e as organizações noticiosas visados nos trabalhos académicos não têm acesso à argumentação exaustiva. Nem ao artigo científico. Nem à tese. Nem à comunicação feita em congresso inter pares. As suas falhas (ou a percepção das suas falhas) são expostas, mas numa redoma, também ela alheia à crítica.
Seria bom encontrar mecanismos, eventualmente com a ajuda de jornais destinados aos profissionais de media, como o “Meios e Publicidade ou “Briefing”, ou através de organizações profissionais de jornalistas (como o Sindicato ou os clubes de imprensa), para divulgar aos repórteres o que as universidades estão a investigar sobre o jornalismo português. Partilhando conclusões. Discutindo resultados. Dando a conhecer as novas áreas de investigação. Sujeitando-se à crítica, se for caso disso, porque estou certo de que muitos jornalistas teriam resposta para algumas das apreciações que os peritos académicos fazem do seu trabalho.
Numa frase, a accountability que exigimos aos jornalistas deveria ter dois sentidos.
Adenda: em jeito de demonstração de accountability, aqui está um primeiro passo. As actas da conferência de Pamplona podem ser descarregadas aqui.
terça-feira, julho 05, 2011
Enfim, saiu!
quinta-feira, junho 23, 2011
Bater na porta sem perceber porquê
Os museus portugueses não são os pólos de atracção que todos gostaríamos que fossem. É um daqueles tópicos em que cada um tem uma causa favorita. Ora porque são enfadonhos, no sentido em que expõem as mesmas peças, do mesmo modo e no mesmo sítio há décadas; ora porque não têm capital para adquirir novos materiais; ora ainda porque as suas colecções, por mais boa vontade que exista, não ombreiam com as dos melhores museus em Inglaterra, em França, em Espanha ou nos Estados Unidos. Ora porque estão sufocados sob orçamentos ínfimos, que muitas vezes se esgotam no pagamento de salários aos seus quadros.
Num quadro destes, com tendência para se agravar à medida que as sucessivas ondas de impacte provocadas pelo aperto financeiro do país se fizerem sentir, é um mau sinal verificar que os museus da rede do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) registaram um decréscimo de visitantes de 2009 para 2010, de acordo com a informação estatística divulgada esta semana (ver documentos aqui). Não foram muitos, é verdade. Perderam-se 13.620 visitantes num universo de 2,3 milhões, mas constituem um mau prenúncio para o ano em curso.
Ora, hoje, após semanas de planeamento, desloquei-me a Sintra com a família para visitar o antecipado Museu de História Natural local. É um museu recente (que não faz parte da rede IMC, sublinhe-se), gerido pela autarquia e com espólio gentilmente cedido por um coleccionador. Já escaldado por outros passeios estragados, procurei na Internet informação útil sobre horários de abertura e dias de funcionamento. Fiquei descansado. O museu abre um pouco mais tarde nos feriados, mas abre. Ou pelo menos parecia. Pelas 12h30 do dia 23, esbarrámos na porta fechada e ficámos a saber que, por falta de pessoal, o museu agora encerra aos fins-de-semana e feriados.
Descartemos, por facilidade de argumentação, a informação errada que se encontra na página oficial do município. O senso comum diz-nos que os feriados e os domingos deveriam ser os dias nobres dos museus em Portugal, pelo menos para os turistas portugueses. A véspera de um antecipado São João deveria ser aguardada com expectativa nestas instituições, que combatem desigualmente contra outros destinos apetecidos. Não é. E é pena.
Analisando os dados detalhados agora disponibilizados pelo IMC, verifica-se que a percentagem de bilhetes de domingo/feriado nas contas de cada instituição gerida pelo IMC é significativa. Aleatoriamente, escolhi seis museus. Na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, os bilhetes de domingo/feriado correspondem a 12,5% dos bilhetes vendidos em 2010; no Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães, são 6,6%; no Museu do Chiado, em Lisboa, são 12,8%; no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, são 10,6%; no Museu Nacional de Arte Antiga, são 19,2%; e no Museu Nacional de Arqueologia, os 41.786 bilhetes vendidos ao domingo ou em feriados corresponderam a 43% das entradas no ano transacto. Com a agravante de que em todas estas instituições há muito mais visitantes portugueses do que estrangeiros a organizar a sua visita nestes dias, por motivos naturalmente ligados aos curtos períodos dedicados ao lazer interno.
Pode um museu dar-se ao luxo de fechar nestes dias? Em Sintra, pelos vistos, pode.
Num quadro destes, com tendência para se agravar à medida que as sucessivas ondas de impacte provocadas pelo aperto financeiro do país se fizerem sentir, é um mau sinal verificar que os museus da rede do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) registaram um decréscimo de visitantes de 2009 para 2010, de acordo com a informação estatística divulgada esta semana (ver documentos aqui). Não foram muitos, é verdade. Perderam-se 13.620 visitantes num universo de 2,3 milhões, mas constituem um mau prenúncio para o ano em curso.
Ora, hoje, após semanas de planeamento, desloquei-me a Sintra com a família para visitar o antecipado Museu de História Natural local. É um museu recente (que não faz parte da rede IMC, sublinhe-se), gerido pela autarquia e com espólio gentilmente cedido por um coleccionador. Já escaldado por outros passeios estragados, procurei na Internet informação útil sobre horários de abertura e dias de funcionamento. Fiquei descansado. O museu abre um pouco mais tarde nos feriados, mas abre. Ou pelo menos parecia. Pelas 12h30 do dia 23, esbarrámos na porta fechada e ficámos a saber que, por falta de pessoal, o museu agora encerra aos fins-de-semana e feriados.
Descartemos, por facilidade de argumentação, a informação errada que se encontra na página oficial do município. O senso comum diz-nos que os feriados e os domingos deveriam ser os dias nobres dos museus em Portugal, pelo menos para os turistas portugueses. A véspera de um antecipado São João deveria ser aguardada com expectativa nestas instituições, que combatem desigualmente contra outros destinos apetecidos. Não é. E é pena.
Analisando os dados detalhados agora disponibilizados pelo IMC, verifica-se que a percentagem de bilhetes de domingo/feriado nas contas de cada instituição gerida pelo IMC é significativa. Aleatoriamente, escolhi seis museus. Na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, os bilhetes de domingo/feriado correspondem a 12,5% dos bilhetes vendidos em 2010; no Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães, são 6,6%; no Museu do Chiado, em Lisboa, são 12,8%; no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, são 10,6%; no Museu Nacional de Arte Antiga, são 19,2%; e no Museu Nacional de Arqueologia, os 41.786 bilhetes vendidos ao domingo ou em feriados corresponderam a 43% das entradas no ano transacto. Com a agravante de que em todas estas instituições há muito mais visitantes portugueses do que estrangeiros a organizar a sua visita nestes dias, por motivos naturalmente ligados aos curtos períodos dedicados ao lazer interno.
Pode um museu dar-se ao luxo de fechar nestes dias? Em Sintra, pelos vistos, pode.
sábado, março 26, 2011
Somos assim e somos incorrigíveis.

Somos assim e somos incorrigíveis. Reagimos a quente e insistimos que as questões políticas ora são pretas, ora são brancas. Queremos heróis e vilões. Escutamos 30 segundos de uma notícia no Telejornal - normalmente descontextualizada - e cuidamos que formámos uma opinião sólida e duradoura. Foi assim com a notícia dos 6% do IVA aplicado ao golfe e será assim mais um rol de vezes.
André Jordan, empresário ligado ao crescimento exponencial do golfe em Portugal, contestou hoje no "Público" - sem destaque nenhum do jornal e remetido para a edição semanal que corresponde ao lugar do morto - a racionalidade das críticas daqueles que se apressaram a glosar que o regime de excepção aplicado à modalidade se devia a um privilégio atribuído à classe alta da Quinta da Marinha.
O golfe deixou de ser um desporto. É um negócio. Vou repetir: não é um desporto. É uma actividade turística. Pode ser questionada por mil e um motivos, nomeadamente pela sua escassa sustentabilidade ambiental ou pela sua implantação em regiões com fraca disponibilidade hídrica, como o Sul de Portugal. Mas é um negócio, que atrai turistas e investimento como poucos. Corresponde a 1,8 mil milhões de euros por ano em Portugal. E enquanto um turista que visita Lisboa gasta 123 euros por dia, o turista do golfe gasta 231! É fazer as contas, como dizia Guterres.
O estatuto de excepção foi concebido para proteger esse sector de negócio da concorrência externa. Só isso. O resto é a espuma do momento.
domingo, fevereiro 27, 2011
Macau na National Geographic

Está a partir de dia 24 nas bancas uma Edição Especial da National Geographic dedicada a Macau. A missão era retratar o património cultural desta cidade Património Mundial. Com fotografias de Paulo Barata, infografias da Anyforms, textos de Gonçalo Pereira e João Paulo Oliveira e Costa e apoio documental e pericial do Instituto Cultural de Macau, eis então esta "Macau, Património Mundial". Espero que seja do vosso agrado.
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Tanto amor
Já se sabe que o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade não morre de amores pela geodiversidade. O B acrescentado à sigla ICNB fica para a história como um dos absurdos modernos, como se a biodiversidade não fizesse parte da natureza e como se fosse necessário aos biólogos demarcar o seu território.
Há sete monumentos naturais classificados, fruto da teimosia de pessoas como a professora Helena Henriques, que se desgastou durante mais de duas décadas até ver classificado o cabo Mondego, ou a equipa da Naturtejo, que deu consistência à proposta das Portas de Ródão. A ProGeo ajudou também a pressionar.
Na verdade, o ICNB gosta tanto ou tão pouco dos seus monumentos naturais classificados que, no seu portal, ainda não actualizou o mapa da distribuição.
(ver aqui:http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007/O+ICNB/%C3%81reas+Protegidas/Monumentos+Naturais/?res=1680x1050 )
Constam dos decretos, mas não estão representados no mapa. Talvez seja melhor. Afinal, dos cinco monumentos naturais classificados na primeira leva, apenas o de Ourém mantém alguma dignidade. Lagosteiros, Carenque, Avelino e Pedra da Mua não destoariam num cenário de guerra.
Há sete monumentos naturais classificados, fruto da teimosia de pessoas como a professora Helena Henriques, que se desgastou durante mais de duas décadas até ver classificado o cabo Mondego, ou a equipa da Naturtejo, que deu consistência à proposta das Portas de Ródão. A ProGeo ajudou também a pressionar.
Na verdade, o ICNB gosta tanto ou tão pouco dos seus monumentos naturais classificados que, no seu portal, ainda não actualizou o mapa da distribuição.
(ver aqui:
Constam dos decretos, mas não estão representados no mapa. Talvez seja melhor. Afinal, dos cinco monumentos naturais classificados na primeira leva, apenas o de Ourém mantém alguma dignidade. Lagosteiros, Carenque, Avelino e Pedra da Mua não destoariam num cenário de guerra.
sexta-feira, novembro 12, 2010
terça-feira, outubro 19, 2010
Ainda o Carsoscópio de Alcanena
Informa-me a presidente da Câmara Municipal de Alcanena que no dia 22 deste mês será constituída a Associação Ciência Viva do Alviela, com a presença da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade e o Instituto Politécnico de Leiria.
Espera-se deste modo criar "as condições necessárias ao seu desenvolvimento e à sua sustentabilidade económico-financeira". Oxalá que assim seja – são os meus votos.
Em Novembro, voltarei a passar no Centro de Ciência Viva do Alviela e ali espero ver os equipamentos reparados, como se impõe.
Espera-se deste modo criar "as condições necessárias ao seu desenvolvimento e à sua sustentabilidade económico-financeira". Oxalá que assim seja – são os meus votos.
Em Novembro, voltarei a passar no Centro de Ciência Viva do Alviela e ali espero ver os equipamentos reparados, como se impõe.
sábado, outubro 09, 2010
Carta aberta à senhora presidente da Câmara Municipal de Alcanena
Prezada Dra. Fernanda Asseiceira,
Na qualidade de director da edição portuguesa da revista National Geographic, fui membro do júri que, em Maio deste ano, atribuiu ao concelho a que V. Exa. preside, o prémio Progeo 2010. Trata-se, como sabe, do galardão destinado a premiar o município que mais faz pela promoção do património geológico no nosso país.
Notará, pela acta dessa reunião, que o prémio foi então atribuído por unanimidade pois todos os membros do júri consideraram que o Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela (CCVA) era uma infra-estrutura incomparável, uma aposta decidida da vila de Alcanena no sentido de dar a conhecer o seu património natural, utilizando novas tecnologias, percebendo a importância da linguagem descomplexada na comunicação com o público e assimilando as especifidades da nascente do Alviela na sua oferta cultural, o que tornou este Carsoscópio um dos mais extraordinários Centros de Ciência de Viva do nosso país.
Os números disponibilizados pelo CCVA na Internet são aliás reveladores da resposta que o país está a dar a esta infra-estrutura ímpar no concelho e na região: são 48 mil visitantes em cerca de dois anos. Sabendo que o Centro tem uma capacidade máxima diária de 300 visitantes, em função dos limites naturais dos dispositivos colocados à disposição dos visitantes, percebemos que o Carsoscópio está a cumprir a função que lhe foi atribuída e a justificar os 2,8 milhões de euros que custou no final de 2008.
Voltei hoje a visitar o Carsoscópio, cinco meses depois da atribuição do prémio, e é com mágoa que noto que esta infra-estrutura, promovida pela Câmara Municipal de Alcanena no mandato do seu antecessor, está urgentemente carente de manutenção. Os magníficos dispositivos multimedia concebidos pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria continuam no local, mas muitos já não funcionam, sobretudo no quiroptário, uma das três unidades que compõem o Carsoscópio.
O dispositivo auditivo para escutar os morcegos está mudo. O dispositivo térmico para sentir a amplitude de temperaturas vivida pelos animais está avariado. As experiências de ecolocação para “ver” o mundo como os morcegos estão também fora de serviço. Igualmente avariado está o aparelho para avaliar o peso do alimento diário de um morcego, que fazia há alguns meses a alegria dos jovens visitantes, ao calcular o alimento que um ser humano teria de comer de forma a conseguir ingerir metade do seu peso num único dia. A visita continua a ser agradável, mas a sensação que ali se transmite é a de um Centro de Ciência Viva que lentamente vai perdendo o viço.
Asseguro que são pequenas reparações, pouco onerosas face ao investimento inicial e estou certo de que V. Exa. ainda não tomou conhecimento da sua necessidade. Mas a verdade é que o visitante abandona a visita ao Carsoscópio incrédulo com esta estranha aposta em turismo cultural que, menos de dois anos depois da inauguração, parece deixada ao abandono, sem manutenção nem cuidado, apesar do profissionalismo e boa disposição dos guias.
Não quero nem devo acreditar que o desleixo da manutenção se possa dever ao facto de esta obra ter sido inaugurada no mandato anterior. O Carsoscópio – Centro de Ciência Viva de Alcanena não pertence a um edil ou a um partido. Pertence a todos os alcanenenses e a todos aqueles que querem usufruir, por uma hora e meia, da sensação reconfortante de estar no interior de um espaço cultural moderno e actualizado, ao nível ou melhor do que vemos nos outros países da União Europeia.
Tomo a liberdade de dar conhecimento desta carta aberta a V. Exa. ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, à Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria e à Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, parceiros do projecto desde a primeira hora.
Certo de que V. Exa. tomará as providências necessárias para restaurar a configuração original do Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela e que este voltará a ser um pólo dinamizador do turismo no concelho desta vila, aceite os meus melhores cumprimentos.
Na qualidade de director da edição portuguesa da revista National Geographic, fui membro do júri que, em Maio deste ano, atribuiu ao concelho a que V. Exa. preside, o prémio Progeo 2010. Trata-se, como sabe, do galardão destinado a premiar o município que mais faz pela promoção do património geológico no nosso país.
Notará, pela acta dessa reunião, que o prémio foi então atribuído por unanimidade pois todos os membros do júri consideraram que o Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela (CCVA) era uma infra-estrutura incomparável, uma aposta decidida da vila de Alcanena no sentido de dar a conhecer o seu património natural, utilizando novas tecnologias, percebendo a importância da linguagem descomplexada na comunicação com o público e assimilando as especifidades da nascente do Alviela na sua oferta cultural, o que tornou este Carsoscópio um dos mais extraordinários Centros de Ciência de Viva do nosso país.
Os números disponibilizados pelo CCVA na Internet são aliás reveladores da resposta que o país está a dar a esta infra-estrutura ímpar no concelho e na região: são 48 mil visitantes em cerca de dois anos. Sabendo que o Centro tem uma capacidade máxima diária de 300 visitantes, em função dos limites naturais dos dispositivos colocados à disposição dos visitantes, percebemos que o Carsoscópio está a cumprir a função que lhe foi atribuída e a justificar os 2,8 milhões de euros que custou no final de 2008.
Voltei hoje a visitar o Carsoscópio, cinco meses depois da atribuição do prémio, e é com mágoa que noto que esta infra-estrutura, promovida pela Câmara Municipal de Alcanena no mandato do seu antecessor, está urgentemente carente de manutenção. Os magníficos dispositivos multimedia concebidos pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria continuam no local, mas muitos já não funcionam, sobretudo no quiroptário, uma das três unidades que compõem o Carsoscópio.
O dispositivo auditivo para escutar os morcegos está mudo. O dispositivo térmico para sentir a amplitude de temperaturas vivida pelos animais está avariado. As experiências de ecolocação para “ver” o mundo como os morcegos estão também fora de serviço. Igualmente avariado está o aparelho para avaliar o peso do alimento diário de um morcego, que fazia há alguns meses a alegria dos jovens visitantes, ao calcular o alimento que um ser humano teria de comer de forma a conseguir ingerir metade do seu peso num único dia. A visita continua a ser agradável, mas a sensação que ali se transmite é a de um Centro de Ciência Viva que lentamente vai perdendo o viço.
Asseguro que são pequenas reparações, pouco onerosas face ao investimento inicial e estou certo de que V. Exa. ainda não tomou conhecimento da sua necessidade. Mas a verdade é que o visitante abandona a visita ao Carsoscópio incrédulo com esta estranha aposta em turismo cultural que, menos de dois anos depois da inauguração, parece deixada ao abandono, sem manutenção nem cuidado, apesar do profissionalismo e boa disposição dos guias.
Não quero nem devo acreditar que o desleixo da manutenção se possa dever ao facto de esta obra ter sido inaugurada no mandato anterior. O Carsoscópio – Centro de Ciência Viva de Alcanena não pertence a um edil ou a um partido. Pertence a todos os alcanenenses e a todos aqueles que querem usufruir, por uma hora e meia, da sensação reconfortante de estar no interior de um espaço cultural moderno e actualizado, ao nível ou melhor do que vemos nos outros países da União Europeia.
Tomo a liberdade de dar conhecimento desta carta aberta a V. Exa. ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, à Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria e à Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, parceiros do projecto desde a primeira hora.
Certo de que V. Exa. tomará as providências necessárias para restaurar a configuração original do Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela e que este voltará a ser um pólo dinamizador do turismo no concelho desta vila, aceite os meus melhores cumprimentos.
quarta-feira, outubro 06, 2010
Açores na rede
Há um novo portal sobre o Ambiente terrestre dos Açores. Foi maioritariamente produzido por um amigo e é uma ferramenta estupenda para explorar a bio e geodiversidade da região. Ora espreitem: aqui.
terça-feira, setembro 07, 2010
O meu nome em hieróglifos
segunda-feira, setembro 06, 2010
Legendas criativas

Desconfio que a legenda que ontem saiu no "Público" a acompanhar esta imagem está errada. Ou isso ou a história da simpática missionária nascida na Macedónia e naturalizada indiana está muito mal contada. Parece que estou a ver o trailer do filme: "Ela é uma freira que quer salvar o mundo. Conhece apenas uma linguagem ...– a da bazuca. Teresa de Calcutá, uma santa na obscuridade".
quarta-feira, agosto 04, 2010
Carlos Almaça (1935-2010)
Faleceu Carlos Almaça.
O professor Almaça foi um mestre e um bom amigo da revista National Geographic. Começámos com o pé esquerdo, há mais de uma década. Quis ouvi-lo sobre a introdução do evolucionismo na academia portuguesa e interroguei-o displicentemente, sem ter lido as suas obras e artigos académicos. Precisava apenas de duas frases de discurso directo, mas essas linhas custaram-me a primeira reprimenda.
- Leu "A Origem das Espécies" de Darwin?, perguntou.
- Li partes, respondi com displicência.
- Então leia tudo, do princípio ao fim, e depois falamos, ripostou, sem me dar tempo para mais explicações. Com ele, ou se sabia, ou não se sabia.
Daí para a frente, prolongámos este ritual várias vezes. Era um especialista na história da ciência portuguesa, uma disciplina tão esquecida pela academia. Recorri ao professor Almaça muitas vezes, pedindo-lhe conselhos e opiniões. Nunca mais me esqueci da primeira conversa e não voltei a abordá-lo sem ter lido exaustivamente tudo o que encontrava sobre cada tema.
Falámos no mês passado pela última vez, como tantas vezes tínhamos feito. Ajudou-me então a separar o trigo do joio numa peça sobre os naturalistas portugueses do século XIX. A voz tremia, a respiração já era irregular, mas mantinha a lucidez de sempre. Recordo com emoção a sua defesa obstinada da ciência portuguesa e dos seus profissionais. Nunca me deixava começar a lengalenga do "país rural, quase analfabeto, com uma ciência atrasada". Batia-se pelos seus pares oitocentistas. Defendia-os. Citava exemplos e causas nobres e lembrava contextos adversos. Era um homem da ciência.
Estou desolado.
O professor Almaça foi um mestre e um bom amigo da revista National Geographic. Começámos com o pé esquerdo, há mais de uma década. Quis ouvi-lo sobre a introdução do evolucionismo na academia portuguesa e interroguei-o displicentemente, sem ter lido as suas obras e artigos académicos. Precisava apenas de duas frases de discurso directo, mas essas linhas custaram-me a primeira reprimenda.
- Leu "A Origem das Espécies" de Darwin?, perguntou.
- Li partes, respondi com displicência.
- Então leia tudo, do princípio ao fim, e depois falamos, ripostou, sem me dar tempo para mais explicações. Com ele, ou se sabia, ou não se sabia.
Daí para a frente, prolongámos este ritual várias vezes. Era um especialista na história da ciência portuguesa, uma disciplina tão esquecida pela academia. Recorri ao professor Almaça muitas vezes, pedindo-lhe conselhos e opiniões. Nunca mais me esqueci da primeira conversa e não voltei a abordá-lo sem ter lido exaustivamente tudo o que encontrava sobre cada tema.
Falámos no mês passado pela última vez, como tantas vezes tínhamos feito. Ajudou-me então a separar o trigo do joio numa peça sobre os naturalistas portugueses do século XIX. A voz tremia, a respiração já era irregular, mas mantinha a lucidez de sempre. Recordo com emoção a sua defesa obstinada da ciência portuguesa e dos seus profissionais. Nunca me deixava começar a lengalenga do "país rural, quase analfabeto, com uma ciência atrasada". Batia-se pelos seus pares oitocentistas. Defendia-os. Citava exemplos e causas nobres e lembrava contextos adversos. Era um homem da ciência.
Estou desolado.
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