terça-feira, julho 05, 2011

Enfim, saiu!


Demorou quase um ano, o tempo próximo de gestação de uma cria de elefante. Mas finalmente foi publicado o número da Análise Social onde escrevo sobre o arrastão de Carcavelos.

quinta-feira, junho 23, 2011

Bater na porta sem perceber porquê

Os museus portugueses não são os pólos de atracção que todos gostaríamos que fossem. É um daqueles tópicos em que cada um tem uma causa favorita. Ora porque são enfadonhos, no sentido em que expõem as mesmas peças, do mesmo modo e no mesmo sítio há décadas; ora porque não têm capital para adquirir novos materiais; ora ainda porque as suas colecções, por mais boa vontade que exista, não ombreiam com as dos melhores museus em Inglaterra, em França, em Espanha ou nos Estados Unidos. Ora porque estão sufocados sob orçamentos ínfimos, que muitas vezes se esgotam no pagamento de salários aos seus quadros.
Num quadro destes, com tendência para se agravar à medida que as sucessivas ondas de impacte provocadas pelo aperto financeiro do país se fizerem sentir, é um mau sinal verificar que os museus da rede do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) registaram um decréscimo de visitantes de 2009 para 2010, de acordo com a informação estatística divulgada esta semana (ver documentos aqui). Não foram muitos, é verdade. Perderam-se 13.620 visitantes num universo de 2,3 milhões, mas constituem um mau prenúncio para o ano em curso.
Ora, hoje, após semanas de planeamento, desloquei-me a Sintra com a família para visitar o antecipado Museu de História Natural local. É um museu recente (que não faz parte da rede IMC, sublinhe-se), gerido pela autarquia e com espólio gentilmente cedido por um coleccionador. Já escaldado por outros passeios estragados, procurei na Internet informação útil sobre horários de abertura e dias de funcionamento. Fiquei descansado. O museu abre um pouco mais tarde nos feriados, mas abre. Ou pelo menos parecia. Pelas 12h30 do dia 23, esbarrámos na porta fechada e ficámos a saber que, por falta de pessoal, o museu agora encerra aos fins-de-semana e feriados.
Descartemos, por facilidade de argumentação, a informação errada que se encontra na página oficial do município. O senso comum diz-nos que os feriados e os domingos deveriam ser os dias nobres dos museus em Portugal, pelo menos para os turistas portugueses. A véspera de um antecipado São João deveria ser aguardada com expectativa nestas instituições, que combatem desigualmente contra outros destinos apetecidos. Não é. E é pena.
Analisando os dados detalhados agora disponibilizados pelo IMC, verifica-se que a percentagem de bilhetes de domingo/feriado nas contas de cada instituição gerida pelo IMC é significativa. Aleatoriamente, escolhi seis museus. Na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa, os bilhetes de domingo/feriado correspondem a 12,5% dos bilhetes vendidos em 2010; no Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães, são 6,6%; no Museu do Chiado, em Lisboa, são 12,8%; no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, são 10,6%; no Museu Nacional de Arte Antiga, são 19,2%; e no Museu Nacional de Arqueologia, os 41.786 bilhetes vendidos ao domingo ou em feriados corresponderam a 43% das entradas no ano transacto. Com a agravante de que em todas estas instituições há muito mais visitantes portugueses do que estrangeiros a organizar a sua visita nestes dias, por motivos naturalmente ligados aos curtos períodos dedicados ao lazer interno.
Pode um museu dar-se ao luxo de fechar nestes dias? Em Sintra, pelos vistos, pode.

sábado, março 26, 2011

Somos assim e somos incorrigíveis.



Somos assim e somos incorrigíveis. Reagimos a quente e insistimos que as questões políticas ora são pretas, ora são brancas. Queremos heróis e vilões. Escutamos 30 segundos de uma notícia no Telejornal - normalmente descontextualizada - e cuidamos que formámos uma opinião sólida e duradoura. Foi assim com a notícia dos 6% do IVA aplicado ao golfe e será assim mais um rol de vezes.
André Jordan, empresário ligado ao crescimento exponencial do golfe em Portugal, contestou hoje no "Público" - sem destaque nenhum do jornal e remetido para a edição semanal que corresponde ao lugar do morto - a racionalidade das críticas daqueles que se apressaram a glosar que o regime de excepção aplicado à modalidade se devia a um privilégio atribuído à classe alta da Quinta da Marinha.
O golfe deixou de ser um desporto. É um negócio. Vou repetir: não é um desporto. É uma actividade turística. Pode ser questionada por mil e um motivos, nomeadamente pela sua escassa sustentabilidade ambiental ou pela sua implantação em regiões com fraca disponibilidade hídrica, como o Sul de Portugal. Mas é um negócio, que atrai turistas e investimento como poucos. Corresponde a 1,8 mil milhões de euros por ano em Portugal. E enquanto um turista que visita Lisboa gasta 123 euros por dia, o turista do golfe gasta 231! É fazer as contas, como dizia Guterres.
O estatuto de excepção foi concebido para proteger esse sector de negócio da concorrência externa. Só isso. O resto é a espuma do momento.

domingo, fevereiro 27, 2011

Macau na National Geographic


Está a partir de dia 24 nas bancas uma Edição Especial da National Geographic dedicada a Macau. A missão era retratar o património cultural desta cidade Património Mundial. Com fotografias de Paulo Barata, infografias da Anyforms, textos de Gonçalo Pereira e João Paulo Oliveira e Costa e apoio documental e pericial do Instituto Cultural de Macau, eis então esta "Macau, Património Mundial". Espero que seja do vosso agrado.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Tanto amor

Já se sabe que o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade não morre de amores pela geodiversidade. O B acrescentado à sigla ICNB fica para a história como um dos absurdos modernos, como se a biodiversidade não fizesse parte da natureza e como se fosse necessário aos biólogos demarcar o seu território.
Há sete monumentos naturais classificados, fruto da teimosia de pessoas como a professora Helena Henriques, que se desgastou durante mais de duas décadas até ver classificado o cabo Mondego, ou a equipa da Naturtejo, que deu consistência à proposta das Portas de Ródão. A ProGeo ajudou também a pressionar.
Na verdade, o ICNB gosta tanto ou tão pouco dos seus monumentos naturais classificados que, no seu portal, ainda não actualizou o mapa da distribuição.
(ver aqui: http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007/O+ICNB/%C3%81reas+Protegidas/Monumentos+Naturais/?res=1680x1050)
Constam dos decretos, mas não estão representados no mapa. Talvez seja melhor. Afinal, dos cinco monumentos naturais classificados na primeira leva, apenas o de Ourém mantém alguma dignidade. Lagosteiros, Carenque, Avelino e Pedra da Mua não destoariam num cenário de guerra.

terça-feira, outubro 19, 2010

Ainda o Carsoscópio de Alcanena

Informa-me a presidente da Câmara Municipal de Alcanena que no dia 22 deste mês será constituída a Associação Ciência Viva do Alviela, com a presença da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade e o Instituto Politécnico de Leiria.
Espera-se deste modo criar "as condições necessárias ao seu desenvolvimento e à sua sustentabilidade económico-financeira". Oxalá que assim seja – são os meus votos.
Em Novembro, voltarei a passar no Centro de Ciência Viva do Alviela e ali espero ver os equipamentos reparados, como se impõe.

sábado, outubro 09, 2010

Carta aberta à senhora presidente da Câmara Municipal de Alcanena

Prezada Dra. Fernanda Asseiceira,

Na qualidade de director da edição portuguesa da revista National Geographic, fui membro do júri que, em Maio deste ano, atribuiu ao concelho a que V. Exa. preside, o prémio Progeo 2010. Trata-se, como sabe, do galardão destinado a premiar o município que mais faz pela promoção do património geológico no nosso país.
Notará, pela acta dessa reunião, que o prémio foi então atribuído por unanimidade pois todos os membros do júri consideraram que o Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela (CCVA) era uma infra-estrutura incomparável, uma aposta decidida da vila de Alcanena no sentido de dar a conhecer o seu património natural, utilizando novas tecnologias, percebendo a importância da linguagem descomplexada na comunicação com o público e assimilando as especifidades da nascente do Alviela na sua oferta cultural, o que tornou este Carsoscópio um dos mais extraordinários Centros de Ciência de Viva do nosso país.
Os números disponibilizados pelo CCVA na Internet são aliás reveladores da resposta que o país está a dar a esta infra-estrutura ímpar no concelho e na região: são 48 mil visitantes em cerca de dois anos. Sabendo que o Centro tem uma capacidade máxima diária de 300 visitantes, em função dos limites naturais dos dispositivos colocados à disposição dos visitantes, percebemos que o Carsoscópio está a cumprir a função que lhe foi atribuída e a justificar os 2,8 milhões de euros que custou no final de 2008.
Voltei hoje a visitar o Carsoscópio, cinco meses depois da atribuição do prémio, e é com mágoa que noto que esta infra-estrutura, promovida pela Câmara Municipal de Alcanena no mandato do seu antecessor, está urgentemente carente de manutenção. Os magníficos dispositivos multimedia concebidos pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria continuam no local, mas muitos já não funcionam, sobretudo no quiroptário, uma das três unidades que compõem o Carsoscópio.
O dispositivo auditivo para escutar os morcegos está mudo. O dispositivo térmico para sentir a amplitude de temperaturas vivida pelos animais está avariado. As experiências de ecolocação para “ver” o mundo como os morcegos estão também fora de serviço. Igualmente avariado está o aparelho para avaliar o peso do alimento diário de um morcego, que fazia há alguns meses a alegria dos jovens visitantes, ao calcular o alimento que um ser humano teria de comer de forma a conseguir ingerir metade do seu peso num único dia. A visita continua a ser agradável, mas a sensação que ali se transmite é a de um Centro de Ciência Viva que lentamente vai perdendo o viço.
Asseguro que são pequenas reparações, pouco onerosas face ao investimento inicial e estou certo de que V. Exa. ainda não tomou conhecimento da sua necessidade. Mas a verdade é que o visitante abandona a visita ao Carsoscópio incrédulo com esta estranha aposta em turismo cultural que, menos de dois anos depois da inauguração, parece deixada ao abandono, sem manutenção nem cuidado, apesar do profissionalismo e boa disposição dos guias.
Não quero nem devo acreditar que o desleixo da manutenção se possa dever ao facto de esta obra ter sido inaugurada no mandato anterior. O Carsoscópio – Centro de Ciência Viva de Alcanena não pertence a um edil ou a um partido. Pertence a todos os alcanenenses e a todos aqueles que querem usufruir, por uma hora e meia, da sensação reconfortante de estar no interior de um espaço cultural moderno e actualizado, ao nível ou melhor do que vemos nos outros países da União Europeia.
Tomo a liberdade de dar conhecimento desta carta aberta a V. Exa. ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, à Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria e à Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, parceiros do projecto desde a primeira hora.
Certo de que V. Exa. tomará as providências necessárias para restaurar a configuração original do Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela e que este voltará a ser um pólo dinamizador do turismo no concelho desta vila, aceite os meus melhores cumprimentos.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Açores na rede

Há um novo portal sobre o Ambiente terrestre dos Açores. Foi maioritariamente produzido por um amigo e é uma ferramenta estupenda para explorar a bio e geodiversidade da região. Ora espreitem: aqui.

terça-feira, setembro 07, 2010

O meu nome em hieróglifos



Com a preciosa ajuda do professor Luís Manuel de Araújo, que verteu os caracteres latinos para hieróglifos egípcios.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Legendas criativas



Desconfio que a legenda que ontem saiu no "Público" a acompanhar esta imagem está errada. Ou isso ou a história da simpática missionária nascida na Macedónia e naturalizada indiana está muito mal contada. Parece que estou a ver o trailer do filme: "Ela é uma freira que quer salvar o mundo. Conhece apenas uma linguagem ...– a da bazuca. Teresa de Calcutá, uma santa na obscuridade".

quarta-feira, agosto 04, 2010

Carlos Almaça (1935-2010)

Faleceu Carlos Almaça.
O professor Almaça foi um mestre e um bom amigo da revista National Geographic. Começámos com o pé esquerdo, há mais de uma década. Quis ouvi-lo sobre a introdução do evolucionismo na academia portuguesa e interroguei-o displicentemente, sem ter lido as suas obras e artigos académicos. Precisava apenas de duas frases de discurso directo, mas essas linhas custaram-me a primeira reprimenda.
- Leu "A Origem das Espécies" de Darwin?, perguntou.
- Li partes, respondi com displicência.
- Então leia tudo, do princípio ao fim, e depois falamos, ripostou, sem me dar tempo para mais explicações. Com ele, ou se sabia, ou não se sabia.
Daí para a frente, prolongámos este ritual várias vezes. Era um especialista na história da ciência portuguesa, uma disciplina tão esquecida pela academia. Recorri ao professor Almaça muitas vezes, pedindo-lhe conselhos e opiniões. Nunca mais me esqueci da primeira conversa e não voltei a abordá-lo sem ter lido exaustivamente tudo o que encontrava sobre cada tema.
Falámos no mês passado pela última vez, como tantas vezes tínhamos feito. Ajudou-me então a separar o trigo do joio numa peça sobre os naturalistas portugueses do século XIX. A voz tremia, a respiração já era irregular, mas mantinha a lucidez de sempre. Recordo com emoção a sua defesa obstinada da ciência portuguesa e dos seus profissionais. Nunca me deixava começar a lengalenga do "país rural, quase analfabeto, com uma ciência atrasada". Batia-se pelos seus pares oitocentistas. Defendia-os. Citava exemplos e causas nobres e lembrava contextos adversos. Era um homem da ciência.
Estou desolado.

domingo, abril 11, 2010

O acesso à profissão de jornalista

Declaração de interesse: para além de profissional de jornalismo, sou docente convidado numa faculdade de ciências humanas em Lisboa. É legítimo, pois, concluir que tenho interesse em promover o debate sobre o ensino do jornalismo em Portugal.

Imagine-se sentado numa mesa de operações, prestes a ser submetido a uma intervenção cirúrgica, quando descobre que o indivíduo que o vai operar não concluiu a sua formação, embora os colegas reconheçam que ele até tem jeito para o bisturi. Em alternativa, transporte-se para um tribunal, onde o advogado que o vai defender acumula vinte anos de tarimba, mas não passou pelo exame dos pares exigido pela lei. Ou o farmacêutico que o atende e lhe explica que se foi oferecer à farmácia quando era novo e foi aprendendo por tentativa e erro as virtudes dos medicamentos.
Insólitas na medicina, na advocacia ou na farmácia, estas situações são comuns no jornalismo. Esta é uma profissão onde, contra todas as expectativas, os candidatos desconhecem os requisitos de acesso e as provas indispensáveis ao acesso à redacção. As redacções continuam repletas de jornalistas que se candidataram espontaneamente ou responderam a concursos e foram admitidos depois de períodos – longos ou curtos – de colaboração regular disfarçada.
A identidade de qualquer profissão expressa-se na fronteira traçada por um conjunto de normas universalmente aceites de acesso à profissão e pelo reconhecimento externo de que os profissionais que as cumpriram são os únicos com um mandato social para desempenhar as funções. Como um recente ensaio de Sara Meireles Graça demonstra , o acesso às redacções portuguesas é desregrado, dependendo mais da vontade da hierarquia e das administrações das empresas jornalísticas do que de qualquer outro critério.
Com centenas de candidatos espontâneos a afluir às redacções todos os anos, o jornalismo personificou a lei da selva de Kipling, criando uma legião de trabalhadores com vínculos instáveis, mal remunerados ou nem sequer remunerados e facilmente substituíveis pelos empregadores. Sem regulação no mercado, a profissão perdeu estatuto social, estabilidade e independência.
O Estatuto do Jornalista de 1999 evitou uma decisão categórica sobre a questão. Impôs obediência ao código deontológico, o exercício permanente e remunerado de funções, a escolaridade obrigatória, quatro anos de experiência ou tarimba e um estágio obrigatório de 24 meses, teoricamente orientado por um jornalista, mas efectivamente sem regras. Uma alteração legal, publicada em 2007, valorizou um pouco mais a licenciatura, reduzindo o estágio dos licenciados de 18 para 12 meses e obrigou as empresas de comunicação social a comunicarem à Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ) e ao conselho de redacção (se existente) a admissão de todos os estagiários e o nome dos orientadores. Que se saiba, esta informação nunca foi submetida.
Há um enorme lirismo na exaltação das virtudes dos saberes complementares que se juntam nas redacções e da tarimba como escola de vida. Pedindo desculpa aos muitos jornalistas que conheço e que compensaram a ausência de formação específica com o saber acumulado na redacção, considero que esse acesso franqueado constitui ainda um contributo para a amálgama identitária referida.
O problema de fundo continua a ser a falta de uniformidade nos mecanismos de acesso. Impõe-se, a meu ver, a uniformização curricular das licenciaturas que pretendam formar jornalistas, incorporando a dimensão técnico-profissional nos programas, sem desleixar a dimensão deontológica, a preparação tecnológica e o enquadramento profissional num contexto mais amplo de preparação intelectual. Impõe-se a redução e triagem das instituições credenciadas para fazer esta formação. Impõe-se o recurso a jornalistas e a empresas de jornalismo para colaborar na construção destes programas. Impõe-se ainda a credibilização do estágio de acesso à redacção e da respectiva orientação. Impõe-se por fim a vigilância e sanção dos profissionais não certificados que, como o médico que se prepara para operar sem licença, não estão credenciados para o fazer.
Uma das limitações do Estatuto do Jornalista é a designação do poder de atribuição e cassação da carteira profissional à CCPJ, presidida por um juiz. Essa formulação constitui uma ingerência intolerável no processo de formação profissional, uma regulação externa que, em conformidade com as ideias acima expressas, deveria recair exclusivamente sobre os ombros de jornalistas. Será mais um elemento para o debate que urge fazer sobre a oportunidade e mérito de estruturar o jornalismo em torno de uma ordem profissional.

domingo, setembro 20, 2009

Museu Geológico, Lisboa



Se recear a gripe A, deve seguramente fugir às multidões e aos espaços mais lotados. Desse ponto de vista, brincava um amigo, os museus são a solução ideal. Assim como assim, estão sempre vazios.
Infelizmente, esse era o panorama ontem do Museu Geológico, na Rua da Academia das Ciências. Éramos os únicos visitantes do espaço a meio da manhã de sábado e dificilmente justificámos a corajosa decisão do museu de abrir as portas também ao sábado - sobretudo com tão poucos funcionários.
O Museu Geológico é uma máquina do tempo. Transporta-nos para o século XIX mal franqueamos a entrada. O arranjo das vitrinas, as duas salas muito amplas e geométricas, as etiquetas de marcação dos objectos envelhecidas pelo tempo dão-nos conta de uma outra ideia de musealização. O espaço é um museu dentro de um museu.
Tem a colecção mais espantosa de fósseis paleontológicos do país, resultado do trabalho metódico dos Serviços Geológicos portugueses no século XIX e primeira metade do século XX. Curiosamente, se Portugal foi dos primeiros países europeus a criar um serviço dedicado à geologia, foi também dos primeiros a abandoná-lo à sua sorte, motivo pelo qual este Museu Geológico já passou por tutelas com pouca ou nenhuma afinidade com o tema. Como o INETI.
O Museu é um espaço notável, uma espécie de segredo partilhado pelas centenas de pessoas que o conhecem e apreciam. As colecções de Paleontologia e Arqueologia reportam-nos para os primórdios destas duas ciências em Portugal. Não ficam muito distantes de colecções expostas noutros países. Aqui, porém, estão às moscas, apesar do dinamismo e das iniciativas de promoção desenvolvidas pelo actual director e pelo seu antecessor. Olha-se para o fémur de um apatossauro ou para o crânio de um crocodilídeo e imagina-se a sala repleta de crianças em idade escolar, abismadas (como a minha estava) com a proximidade do legado dos dinossauros. Uma coisa é ver pistas de dinossauros impressas na rocha; outra, bem diferente, é tocar num osso fossilizado de um gigante.
Recentemente, o Museu assumiu a expansão para uma terceira sala, a de mineralogia. Embora destoe das duas salas originais, é o espaço mais moderno do Museu e aquele que ainda recebe novos acervos. O Depto. de Geologia da Somincor e a missão de exploração das fontes hidrotermais no Atlântico fizeram generosas contribuições de materiais, que ajudam a embelezar este espólio e, sobretudo, a torná-lo mais relevante, dando conta de duas das missões contemporâneas que não dispensam a geologia - a exploração do fundo do mar e o aproveitamento de recursos minerais.

domingo, setembro 13, 2009

Pedreira do Avelino 2009




No sábado, estive na Pedreira do Avelino, no Zambujal, perto de Sesimbra. Guiado pela Vanda Santos, paleontóloga do Museu Nacional de História Natural (MNHN), conheci aquela jazida em 2002, mais de 25 anos depois de Miguel Telles Antunes ter identificado as pegadas de saurópodes e ter persuadido o proprietário do terreno a poupar a laje.
Em 1997, por pressão do MNHN, a laje (onde se cruzam dois trilhos - de um saurópode adulto e outro juvenil - e onde se detectam mais três pistas) foi classificada como Monumento Natural, apesar de continuar a pertencer a um particular e de a Câmara Municipal de Sesimbra me ter comunicado, em 2002, que não lhe interessava comprar o terreno porque - e cito - "tinha melhores formas de chamar turistas ao concelho".
Em 2002, o proprietário ainda tinha esperança de que o processo chegaria a bom porto. Em 2009, depois de doze anos de espera, a laje foi cercada. Cercada de vegetação, de lixo e de restos de materiais de construção.
Quem conhece ainda lá vai e, enquanto foge às silvas e aos cacos de vidro, tenta explicar aos amigos o que ali está.
Um dia, o proprietário "enganar-se-á" e destruirá a laje por descuido. Quem o censura?

quinta-feira, julho 30, 2009

A Rosa ao Vento

Há seis anos, aqui na National Geographic, decidimos fazer um artigo sobre um especialista em Descobrimentos (cujo nome omito para não o misturar nesta história de rabos ao léu).
Levámo-lo à Rosa dos Ventos de Belém para o Nuno Correia fazer a fotografia que abriria o perfil. Ao fim de cinco minutos, já com o tripé montado, apareceu o segurança da Torre de Belém, que insistiu que ali não se faziam fotografias. Fomos falar com o responsável pelo monumento.
"Não pode ser, não podem tirar fotografias aqui sem me avisar", disse ele, ignorando olimpicamente os milhares de turistas que ali vão todos os dias, de máquina na mão. Acabámos por completar a sessão fotográfica, não sem antes prometer ao zeloso guardião do monumento que lhe ofereceríamos cinco ou seis exemplares.
Ora, a Playboy deste mês faz um "ensaio" com uma menina nua em cima da dita rosa dos ventos. A senhora deita-se sobre a Madeira, pisa ao de leve os Açores e sobrepõe-se a uma das rotas atlânticas do século XV. Poderão os senhores leitores explicar o racional desta autorização?
Muito agradecido.
(às tantas, a sessão foi autorizada mas a revista vai ter de oferecer muito mais exemplares!!!)

sexta-feira, julho 24, 2009

Um Terreiro, vários cais


A escavação foi mantida em sigilo. De Maio a Julho, o achado entusiasmou um círculo remoto de arqueólogos envolvidos. No coração de Lisboa, à vista de todos, o segredo foi guardado.
O que existia em Lisboa antes do terramoto de 1755? COmo era o Terreiro do Paço? As obras de saneamento em curso destaparam um monumento fundamental da história da primeira globalização. O cais, ou melhor, as várias soluções de cais foram emergindo. E assim, a alguns metros do actual nível do solo, surgiu o cais filipino de onde partiram tantas embarcações para os quatro cantos do império.
Temia-se que tivesse sido destruído pelo maremoto ou simplesmente desmontado com os aterros posteriores a 1755. Afinal, ele estava lá. Pedra a pedra.

Texto da equipa de arqueólogos liderado por Maria Luís Blot, fotografias de Luís Faustino /4see e impagável infografia da Anyforms. Privilégio da edição de Agosto da National Geographic.

quinta-feira, julho 16, 2009

Brian Skerry em Lisboa

É um dos meus fotógrafos favoritos. Fotografa em ambiente subaquático para a National Geographic e foi o autor de algumas das mais emblemáticas reportagens da revista nos dois últimos anos. Fotografou as tartarugas-de-couro (aqui), que a edição portuguesa publicará em Agosto. Assinou, juntamente com Randy Olson, uma reportagem incrível sobre a crise mundial das pescas (aqui). Outra sobre uma reserva quase intacta na Nova Zelândia(aqui). É dele ainda uma reportagem sobre baleias-francas, que estará exposta no Oceanário de Lisboa de 1 a 15 de Agosto, integrada no Festival dos Oceanos.
A convite da Realizar e da organização do Festival dos Oceanos 2009, Brian Skerry dará uma palestra no Oceanário, na noite de dia 10, com entrada livre.
Mesmo em férias, tentarei lá estar. Façam favor de marcar também na agenda a data.

segunda-feira, maio 25, 2009

Tribuna do Leitor, Público, 25 de Maio

"Lisboa sem remédio
A aplicação na legislação portuguesa das directivas comunitárias sobre ruído urbano foi rápida e saudável, culminando, em Janeiro de 2007, com a publicação do Regulamento Geral do Ruído (Decreto-lei 9/2007, de 17 de Janeiro). Infelizmente, neste caso como em tantos outros, autarquias como a de Lisboa assobiam para o ar e não fazem respeitar a lei.
Historiemos um caso: moro no Alto do Lumiar, numa das novas urbanizações ali construídas desde o início do século XXI. Há cerca de quatro anos, com a precisão matemática dos melhores relógios suíços, tive o azar de ficar a conhecer pormenorizadamente o ventilador de desenfumagem da garagem do prédio em frente, que começa a trabalhar sempre à mesma hora, durante 60 minutos. Faça chuva ou sol, no Inverno ou no Verão, estejam muitos ou poucos carros ali estacionados, o ventilador trabalha com a tranquilidade de um batalhão de infantaria.
Como muitos vizinhos, tenho uma criança pequena em casa, que costuma (tentar) dormir àquela hora. Aguentei bastantes meses, mas em Julho do ano passado formalizei uma queixa no Departamento de Ambiente e Espaços Verdes da Câmara Municipal de Lisboa (CML) ao abrigo do referido Regulamento (n.º 1, do artigo 13). Combinei para Setembro os exames acústicos na minha habitação que a lei prevê para estes casos.
A legislação refere que a diferença entre a medição acústica do ruído provocado pelas actividades perturbadoras em avaliação e o valor indicador do ruído residual (a minha rua, num intervalo de tempo em que o referido ventilador não esteja a funcionar) não pode exceder 5 dB no período diurno. Como não seria de estranhar, a medição apurou um diferencial de quase 30 dB com a minha janela de vidro duplo aberta e de 20dB com ela fechada. Recordo que dois sinos de igreja a tocar em simultâneo geram cerca de 20 dB. Agora, tirem um instante para imaginar um "concerto" de uma hora com dois sinos em simultâneo...
Em Dezembro, recebi um ofício da CML confirmando que a queixa tinha sido deferida e que o proprietário do edifício onde funcionam os ventiladores seria informado para pôr termo à fonte de ruído. No início de Janeiro, escrevia-se, a situação estaria regularizada. Cinco meses depois, continua tudo na mesma. Na mesma, perguntarão os leitores do PÚBLICO? Bom, o ruído mantém-se e o miúdo continua a não dormir à hora do ventilador. Mas, pelo menos, já tenho um papel que me diz que eu tenho razão. Talvez quando o rapaz se inscrever no serviço militar, a CML tenha tido a bondade de fazer cumprir a lei."

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Solidariedade total

Porque há assaltos de colarinho branco. Porque o ICNB não parece ter noção do que é uma área protegida. Porque se torna cada vez mais difícil fazer jornalismo sobre conservação da natureza em Portugal.

Podia ter sido eu a escrever, mas o José Antunes antecipou-se. Subscrevo tudo.