Meu caro João Pedro Barreiros,
Um dia, quando chegar à sua idade, espero ter desenvolvido um sentido agudo de
juízo e bom senso, aptidões que, infelizmente, não se compram na botica, embora
alguns pareçam necessitados de doses cavalares.
Conhecendo o seu currículo, cuidei que teria juízo
para não travar as batalhas dos outros ou deixar-se enlamear por uma causa que
não é sua. Esperaria uma atitude destas, mais própria de um moço de recados do
que de um docente universitário, de um aluno ou de um professor em início em
carreira. Num professor auxiliar, com a carreira salvaguardada, parece-me mais
difícil de perceber que destile ódio por tão pouco.
No final, João Pedro, você sai mal na fotografia, passa por incontinente verbal
depois de uma grosseria que produziu um efeito que nunca esperei - a
solidariedade de gente da sua própria faculdade que, concordando ou discordando
com a opinião que emiti, teve a amabilidade de me pedir desculpa em nome da
instituição.
Vamos então ao contraditório.
No sítio de onde venho, normalmente, as ideias
debatem-se. Um indivíduo propõe uma tese; o outro contesta com uma tese
alternativa. E, do debate que se segue, emerge porventura uma versão mais
completa e mais abrangente. No entanto, se ao primeiro sintoma de discordância,
reagirmos aos berros, acusando os outros de incompetência, ignorância e
tiroidismo (finíssimo, o seu dichote, finíssimo!), parece-me que não temos
debate. Temos gritaria e silogismos próprios dos homens das cavernas, com os
quais o João Pedro está seguramente à vontade, mas o debate esconde-se,
envergonhado. Se quer contestar ideias, vamos a isso. Se não tem nada para
apresentar, parece-me mais prudente encostar-se a um canto e deixar os senhores
que conseguem debater sem berrar participar.
Dizem-me de Angra que o João Pedro finalmente realizou
em Abril as suas provas de agregação. Folgo em tomar conhecimento de uma
notícia há tanto atrasada. Imagino que então terá posto em prática a capacidade
de raciocínio e a continência verbal que lhe parecem faltar noutras ocasiões,
onde, garanto-lhe, perde mais do que ganha.
Para que fique claro e não me guarde rancores, não sou eu o responsável pela
sua lenta progressão na carreira. Não sou eu o responsável pelo desconforto que
os grupos de investigação nacionais sentem quando têm de cooperar consigo num
projecto. Não sou seguramente eu o culpado por, no café, o olharem de soslaio,
sem os salamaleques a que gostaria de ter direito, como professor
universitário. E, afianço-lhe, não sou eu o responsável por o Departamento de
Oceanografia e Pescas ter projecção internacional, com natural expressão nos
meios de comunicação que abordam a ciência, enquanto ao João Pedro estão
guardadas as páginas sempre disponíveis (e, neste caso, tristemente
disponíveis) do “Diário Insular”. Fica-lhe mal esse desconforto quando lê
elogios aos colegas. Afinal, se vestiu a camisola da universidade para sentir
as suas dores, deveria ficar radiante com o reconhecimento público de um dos
seus melhores departamentos.
Agradeço-lhe o cuidado com a saúde da edição
portuguesa da National Geographic. Felizmente, embora não o conte como leitor,
a revista está bem e recomenda-se. Chega a 400 mil pessoas todos os meses
(dados do último Bareme da Marktest) e, folgo em dizê-lo, relata frequentemente
a actividade científica válida do arquipélago dos Açores. Não tivemos ainda
oportunidade de relatar um dos seus projectos, é verdade, mas aguardarei pelo
próximo artigo de etnografia e folclore para colmatar essa falha.
Ao longo dos anos, escutei críticas bem fundamentadas de colegas seus,
queixando-se da falta de acesso aos media para comunicar e divulgar ciência.
Vejo, por este caso, que é necessário algum pudor antes de abrir o espectro
mediático a qualquer docente universitário. Imagino aliás que os papás e as
mamãs dos seus alunos terão ficado encantados com a elegância e trato de quem
educa os seus filhos. Infelizmente, verifica-se que o privilégio do acesso à
educação não gera necessariamente adultos bem educados.
Não lhe devolvo a caricatura por manifesta falta de tempo, mas confesso que fiquei
intrigado com a capacidade de um indivíduo que, pago a tempo a inteiro para
investigar, ainda encontra tempo, entre o café, as guitarras e os arpões, para aprimorar
o traço.
Ah, se a sua desenvoltura na produção escrita acompanhasse esse ritmo, que
investigador o país não teria! Mesmo assim, feliz da instituição que se ufana
de ter um biólogo tão multifacetado entre os seus quadros.
Espero sinceramente que este triste assunto termine aqui. Não vejo necessidade
de gastar mais tempo e espaço com assuntos que, com reflexão, poderiam nunca
ter saído do tinteiro, sem envergonhar quem neles participa.