Afixo em baixo uma carta enviada ao "Público" em Abril deste ano e publicada na secção "Tribuna do Leitor". Pela manifesta actualidade do texto 180 dias depois, julgo que a Câmara Municipal de Sesimbra merece que o mesmo seja novamente tornado público.
«Esgotos em Sesimbra
Tenho casa em Casais de Sampaio, concelho de Sesimbra, desde 1992, mas estou recenseado na capital. Menciono-o porque esse estatuto condiciona fortemente a compreensão do resto da narrativa. É que isso faz de mim eleitor em Lisboa e não em Sesimbra. Para a CM Sesimbra, isso significa tristemente que sou um cidadão de segunda. Estou para este município como aqueles parentes inconvenientes que não queremos que apareçam no churrasco, porque convidámos o chefe.
Quando o meu pai comprou a casa, há 15 anos, procedeu à análise de todos os factores que poderiam condicionar a habitação. Meticuloso por (de)formação profissional, estudou a localização, a exposição ao Sol, as condições estruturais da moradia e pesou o facto de esta estar integrada no Parque Natural da Arrábida (PNA). No processo, deu conta, evidentemente, de uma linha de água, que corria paralelamente a toda a urbanização, mas estava longe de supor que a dita linha de água se transformaria num caudal promissor de esgotos a céu aberto. Na altura, foi-lhe dito pelos serviços municipais que a situação seria absolutamente provisória. O meu pai, caro leitor, é engenheiro e, portanto, pouco versado nas subtilezas da geologia. Desconhecia então que o tempo em Sesimbra se mede pelos patamares dos paleontólogos: a CM Sesimbra queria dizer que no final da era quaternária é bem possível que o canal esteja tratado. Mas sem promessas rígidas.
Quinze anos decorreram, e posso afiançar que uma das coisas boas de ter um esgoto a céu aberto na vizinhança é o facto de ele permitir travar novos conhecimentos. Conhecemos vários vereadores municipais. Três presidentes da câmara. Muitos, muitos funcionários. O esgoto, esse, já faz parte da família. Tenho familiares que juram a pés juntos que já não conseguiriam almoçar em paz sem o ligeiro odor que a vala emana.
Nem tudo nesta história é negativo. Estão agendadas para este ano as comemorações dos 10 anos da primeira contagem de colónias coliformes realizada a pedido dos moradores. Apurámos, na altura, que a contagem de colónias coliformes era de 180x105 /ml (média de quatro ensaios independentes). Como imagino que as colónias de coliformes não são como o vinho do Porto, pelo que não melhorarão com a idade, julgo que posso depreender que continuam a correr, na vala, esgotos sem tratamento. É verdade que os coliformes fecais fazem muita companhia, mas estará talvez na altura de nos despedirmos destes vizinhos.
Consultei recentemente o novo Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida. Queria confirmar que, na listagem de espécies desta área protegida, constavam animais com as quais privo regularmente e que, com grande pena minha, certamente não visitam as traseiras da casa do senhor presidente da câmara. Infelizmente, por incúria do Parque, a varejeira-azul (Calliphora vomitoria) e a ratazana-negra (Rattus norvegicus) não constam ainda do inventário de fauna da Arrábida. Parecendo que não, são organismos que dão muito encanto a uma moradia.
Já vou nos meus trintas. O meu pai vai nos sessentas. Concordámos recentemente que o meu filho, ainda bebé, terá de manter uma forma física e intelectual invejável para agarrar no testemunho daqui a algumas décadas e manter viva a batalha do esgoto da Arrábida. É que, em Sesimbra, embora o presidente da Câmara se chame Pólvora, faltarão ainda longas temporadas até os serviços municipais desenvolverem a ideia… explosiva de desenvolver um saneamento eficaz.»
terça-feira, outubro 30, 2007
terça-feira, outubro 02, 2007
Pouca vergonha
segunda-feira, maio 28, 2007
Meia Hora

Sou um céptico face às potencialidades da imprensa gratuita e não gosto particularmente dos jornais distribuídos na região de Lisboa. Considero que são pouco mais do que uma compilação de despachos noticiosos da Lusa vestidos com outras cores, apesar da evidente penetração em nichos de leitores que, há poucos anos, pertenciam exclusivamente aos jornais pagos. Se andar de metro em Lisboa, verificará, sem espanto, que por cada jornal comprado que ali se folheia, há quatro ou cinco gratuitos nas mãos dos passageiros. Imagino que o rombo provocado nas vendas dos jornais pagos seja sensível.
No início de Junho, ganhará vida o gratuito "Meia Hora", jornal diário que evoca uma filosofia diferente dos restantes. Na hora da apresentação, anuncia objectivos ambiciosos: vem para disputar audiência à imprensa de referência, para angariar investimento publicitário tradicionalmente canalizado para o "Diário de Notícias" e "Público" e pretende fazê-lo com uma tiragem de cem mil exemplares.
Troco impressões com profissionais da imprensa paga e pressinto a tradicional arrogância que dedicam(os) à imprensa gratuita. - Não tem hipóteses!
- As Classes A e B não se atingem com distribuição nos semáforos!
- Dou-lhes seis meses antes de fecharem!
Tem a palavra a equipa do Sérgio Coimbra. Para já, a Cofina conquistou uma taça que, adivinho, teve sabor incomparável: mesmo partindo depois do anúncio público da ControlInveste, realizado no Inverno de 2005, lançou primeiro o seu jornal gratuito.
quarta-feira, março 28, 2007
Renováveis, Mas Não Fotografáveis



Num congresso recente de energias renováveis em que participei, um dos oradores – representante, julgo eu, da energia solar – queixou-se da escassa importância que os media atribuem às novas fontes de energia. Escuto esta crítica amiúde e invariavelmente recordo as palavras de um dos primeiros editores com quem trabalhei, que vetava categoricamente a maior parte das histórias sobre energia eólica ou solar (energias renováveis, há dez anos, "eram" só essas. Pelo menos, aos olhos dos media). "Quem viu uma turbina viu todas! Quem viu um painel já não quer ver mais nenhum."
Esta lógica simplista encerra alguma injustiça, mas penetra no centro da discórdia entre jornalistas e peritos. As prioridades de uns não correspondem às dos outros, e as novas/velhas tecnologias de produção de energia são, de facto, limitadas do ponto de vista visual. As suas imagens são normalmente maçadoras e repetitivas. E, no alinhamento dos jornais ou telejornais, passam muitas vezes para segundo plano.
Voltei a lembrar-me desta controvérsia com as notícias de hoje sobre a central fotovoltaica de Serpa, a maior do mundo. Por muitas voltas que os repórteres fotográficos deram à perspectiva ou ao ângulo, os resultados foram estes. Cumpriram a função, sem entusiasmar. Imagino que o velho Álvaro tenha acordado hoje a barafustar: "Painéis, painéis. Quem viu um viu todos!"
segunda-feira, março 26, 2007
Os embargos e as fontes
Admitamos que a reputação jornalística não está propriamente nos píncaros. Reconheçamos também que parte da carga negativa que nos albardam ao lombo até é justificada por deficientes práticas profissionais nos vários suportes. Mas admitamos como válido o princípio de que parte da cruz não nos cabe a nós transportar.
A relação com as fontes é um bom exemplo. Pontualmente, pedem-nos o embargo da informação – o cumprimento de um período de silêncio antes da divulgação noticiosa. Para a fonte, o embargo pode ser uma estratégia que a distancie do evento e assim garanta a sua “inocência” quando se apontarem dedos à indiscrição. Pode ser também uma forma de melhor controlar o início do ciclo noticioso de uma informação, canalizando-o para o dia da semana que potencialmente sirva melhor a causa. Pode ainda ser uma ferramenta útil para condicionar a discussão de um tópico já na agenda, fortalecendo ou enfraquecendo o caudal noticioso num dia específico em que se prevê que o assunto já esteja na forja.
Não é costume os jornalistas quebrarem o embargo. Há sempre uns mais garganeiros do que outros, mas normalmente o embargo é cumprido com escrúpulos, na medida em que o desrespeito pelo acordo estabelecido com a fonte poderá significar o silêncio na próxima ocasião. E esse é um risco que poucos querem correr.
Recentemente, aconteceu-me o contrário. Forneceram-me informação exclusiva sob promessa solene de divulgação em determinada data. Acedi de bom grado: as vantagens compensavam o inconveniente de condicionar o meu calendário pelo dos outros. A «cacha» está para os jornalistas como o oásis para o explorador do deserto: é a obsessão, a motivação que nos leva a caminhar.
No domingo à noite, vejo num dos telejornais, tintim por tintim, toda a minha história – os mesmos dados, os mesmos gráficos, as mesmas interpretações. Tudinho! O embargo, afinal, era meramente indicativo. O exclusivo, afinal, era um mal entendido. A culpa, claro, deve ser do jornalista. Percebeu mal, coitado!
A relação com as fontes é um bom exemplo. Pontualmente, pedem-nos o embargo da informação – o cumprimento de um período de silêncio antes da divulgação noticiosa. Para a fonte, o embargo pode ser uma estratégia que a distancie do evento e assim garanta a sua “inocência” quando se apontarem dedos à indiscrição. Pode ser também uma forma de melhor controlar o início do ciclo noticioso de uma informação, canalizando-o para o dia da semana que potencialmente sirva melhor a causa. Pode ainda ser uma ferramenta útil para condicionar a discussão de um tópico já na agenda, fortalecendo ou enfraquecendo o caudal noticioso num dia específico em que se prevê que o assunto já esteja na forja.
Não é costume os jornalistas quebrarem o embargo. Há sempre uns mais garganeiros do que outros, mas normalmente o embargo é cumprido com escrúpulos, na medida em que o desrespeito pelo acordo estabelecido com a fonte poderá significar o silêncio na próxima ocasião. E esse é um risco que poucos querem correr.
Recentemente, aconteceu-me o contrário. Forneceram-me informação exclusiva sob promessa solene de divulgação em determinada data. Acedi de bom grado: as vantagens compensavam o inconveniente de condicionar o meu calendário pelo dos outros. A «cacha» está para os jornalistas como o oásis para o explorador do deserto: é a obsessão, a motivação que nos leva a caminhar.
No domingo à noite, vejo num dos telejornais, tintim por tintim, toda a minha história – os mesmos dados, os mesmos gráficos, as mesmas interpretações. Tudinho! O embargo, afinal, era meramente indicativo. O exclusivo, afinal, era um mal entendido. A culpa, claro, deve ser do jornalista. Percebeu mal, coitado!
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Via Latina

Está nos pontos de venda habituais a nova edição da "Via Latina", revista da Associação Académica de Coimbra, este mês dedicada ao ambiente. Tenho o grato prazer de ali publicar uma reflexão sobre o crescente interesse da Sociologia pelos temas ambientais ("Ambiente Emergente", pg. 78-85).
Correndo o risco de fazer publicidade em causa própria, acho que o número justifica uma análise cuidadosa.
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Experiência social
Estou a conduzir uma promissora experiência social num estabelecimento de ensino universitário de Lisboa. Ora apreciem:
Agentes sociais
Um investigador (eu) e um funcionário de biblioteca
Situação
Necessidade de ajuda a encontrar livros e artigos numa extensa – e mal organizada – biblioteca
Situação 1
Eu, vestido de calças de ganga e com camisa de manga curta, apresento-me na biblioteca.
Funcionário (sem levantar a cabeça do monitor): ...
Eu: Faz favor...
Funcionário (sem levantar a cabeça do monitor): O que é que deseja?
Eu: Pode ajudar-me a...
Funcionário (interrompendo): Ó meu amigo. Veja no computador o que precisa e encontre a prateleira indicada. É para isso que ele serve!
Situação 2
Eu, com fato de cerimónia, gravata a condizer e sapato polido, apresento-me na mesma biblioteca, perante o mesmo funcionário.
Funcionário: Boa tarde, senhor professor.
Eu: Não consigo encontrar a prateleira de Sociologia do Ambiente… Pode…
Funcionário (interrompendo): Ó senhor professor. Eu ajudo-o. Estamos cá para isso, não é verdade? Tem aí a referência?
Depois da busca no computador de referência da biblioteca, o funcionário atira ainda: Ó senhor professor, eu mostro-lhe onde fica essa prateleira. Ora cá está! Se precisar de cópias, marque as páginas que eu copio os materiais que precisar...
Conclusão da experiência
Nesta biblioteca, têm fortes preconceitos contra as calças de ganga!
Agentes sociais
Um investigador (eu) e um funcionário de biblioteca
Situação
Necessidade de ajuda a encontrar livros e artigos numa extensa – e mal organizada – biblioteca
Situação 1
Eu, vestido de calças de ganga e com camisa de manga curta, apresento-me na biblioteca.
Funcionário (sem levantar a cabeça do monitor): ...
Eu: Faz favor...
Funcionário (sem levantar a cabeça do monitor): O que é que deseja?
Eu: Pode ajudar-me a...
Funcionário (interrompendo): Ó meu amigo. Veja no computador o que precisa e encontre a prateleira indicada. É para isso que ele serve!
Situação 2
Eu, com fato de cerimónia, gravata a condizer e sapato polido, apresento-me na mesma biblioteca, perante o mesmo funcionário.
Funcionário: Boa tarde, senhor professor.
Eu: Não consigo encontrar a prateleira de Sociologia do Ambiente… Pode…
Funcionário (interrompendo): Ó senhor professor. Eu ajudo-o. Estamos cá para isso, não é verdade? Tem aí a referência?
Depois da busca no computador de referência da biblioteca, o funcionário atira ainda: Ó senhor professor, eu mostro-lhe onde fica essa prateleira. Ora cá está! Se precisar de cópias, marque as páginas que eu copio os materiais que precisar...
Conclusão da experiência
Nesta biblioteca, têm fortes preconceitos contra as calças de ganga!
domingo, janeiro 14, 2007
1 Minuto de Saúde
Não registei o nome do autor da proposta, mas, na conferência a que fiz referência no post anterior, escutei uma ideia muito interessante de um dos médicos que assistia à jornada. Se a RTP já tem o minuto verde, a cargo da Quercus, destinado a oferecer sugestões de comportamentos ambientalmente correctos, porque não pensar no "minuto de saúde": uma sugestão por dia para melhorar os hábitos alimentares, os cuidados de saúde ou as práticas higiénicas dos portugueses? Poderia ter também uma componente de socorrismo, capaz de informar a população para os primeiros sinais de alarme de algumas emergências.
A ideia inseriu-se numa crítica mais vasta (e que não subscrevo) sobre o tom marcadamente pessimista que os media dedicam aos temas de saúde. Considero que hoje, mais do que nunca, as descobertas científicas ganham relevância nos noticiários, mesmo que a prudência (e os livros de estilo) aconselhem moderação na altura de anunciar curas e milagres.
Registo também (baseado na comunicação de Eduardo Dâmaso) a evolução que os jornais diários sofreram no tratamento do tema. Disse o director-adjunto do "Diário de Notícias" que a cobertura noticiosa da saúde no passado recente resumia-se às histórias mais ou menos insólitas vividas nas urgências. Hoje, comentou o jornalista, as várias redacções já conseguem debruçar-se com propriedade sobre temas complexos de política de saúde, como os contratos de concessão de hospitais privados ou a gestão de planos nacionais de saúde.
A ideia inseriu-se numa crítica mais vasta (e que não subscrevo) sobre o tom marcadamente pessimista que os media dedicam aos temas de saúde. Considero que hoje, mais do que nunca, as descobertas científicas ganham relevância nos noticiários, mesmo que a prudência (e os livros de estilo) aconselhem moderação na altura de anunciar curas e milagres.
Registo também (baseado na comunicação de Eduardo Dâmaso) a evolução que os jornais diários sofreram no tratamento do tema. Disse o director-adjunto do "Diário de Notícias" que a cobertura noticiosa da saúde no passado recente resumia-se às histórias mais ou menos insólitas vividas nas urgências. Hoje, comentou o jornalista, as várias redacções já conseguem debruçar-se com propriedade sobre temas complexos de política de saúde, como os contratos de concessão de hospitais privados ou a gestão de planos nacionais de saúde.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Melhores dias virão
Universidade Moderna de Setúbal. Esta manhã. Participação no II Curso Aspectos Controversos do Foro Médico-Legal, organização inovadora das distritais da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados.
Fala o moderador. Fala (e bem) o primeiro conferencista – o Eduardo Dâmaso, do Diário de Notícias. Preparo-me para falar… e o PowerPoint não emite sinal de vida. Caneta USB para aqui e para acolá. Pancadas meigas no computador. Nicles. Pancadas menos meigas na máquina. Um sorriso de circunstância esconde o pânico momentâneo.
“O PowerPoint não abre o seu ficheiro [criado em Macintosh]”
Regresso brutal à Idade da Pedra, ao tempo dos oradores com (ou sem) magnetismo pessoal. Pigarreio. Mostro as folhas impressas numa mão. As tabelas ainda abrem (abençoados JPEG), mas os slides minuciosamente construídos estão perdidos para lá do Lestes, o rio dos mortos.
O tema da comunicação? As dificuldades dos media na relação com a medicina e os constrangimentos que as ocorrências de risco produzem na prática jornalística. Aponto dedos acusadores a montante e a jusante – aos jornalistas, que não conseguem reproduzir a interpretação que os especialistas atribuem a cada risco; e aos especialistas, que não conseguem adaptar o discurso às necessidades e formatos dos media.
Como sempre, escolho uma pessoa da audiência e fixo nela o olhar durante toda a apresentação. Reconforta-me sempre saber que estou a tornar a minha apresentação extraordinariamente desconfortável para outra pessoa, mirando-a, acusador, sem a perder de vista por um segundo. Escolhi uma senhora respeitável como alvo. Vi-a olhar duas vezes para o relógio e fulminei-a com o olhar. Não repetiu. Mais: passou a abanar afirmativamente a cabeça a cada afirmação proferida e, no final, na fase das palmas, aplaudiu-me vigorosamente.
O meu balanço? 10 valores. Mas tenho de repetir a oral!
Fala o moderador. Fala (e bem) o primeiro conferencista – o Eduardo Dâmaso, do Diário de Notícias. Preparo-me para falar… e o PowerPoint não emite sinal de vida. Caneta USB para aqui e para acolá. Pancadas meigas no computador. Nicles. Pancadas menos meigas na máquina. Um sorriso de circunstância esconde o pânico momentâneo.
“O PowerPoint não abre o seu ficheiro [criado em Macintosh]”
Regresso brutal à Idade da Pedra, ao tempo dos oradores com (ou sem) magnetismo pessoal. Pigarreio. Mostro as folhas impressas numa mão. As tabelas ainda abrem (abençoados JPEG), mas os slides minuciosamente construídos estão perdidos para lá do Lestes, o rio dos mortos.
O tema da comunicação? As dificuldades dos media na relação com a medicina e os constrangimentos que as ocorrências de risco produzem na prática jornalística. Aponto dedos acusadores a montante e a jusante – aos jornalistas, que não conseguem reproduzir a interpretação que os especialistas atribuem a cada risco; e aos especialistas, que não conseguem adaptar o discurso às necessidades e formatos dos media.
Como sempre, escolho uma pessoa da audiência e fixo nela o olhar durante toda a apresentação. Reconforta-me sempre saber que estou a tornar a minha apresentação extraordinariamente desconfortável para outra pessoa, mirando-a, acusador, sem a perder de vista por um segundo. Escolhi uma senhora respeitável como alvo. Vi-a olhar duas vezes para o relógio e fulminei-a com o olhar. Não repetiu. Mais: passou a abanar afirmativamente a cabeça a cada afirmação proferida e, no final, na fase das palmas, aplaudiu-me vigorosamente.
O meu balanço? 10 valores. Mas tenho de repetir a oral!
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Ciclo terminado
Ontem, fechei finalmente um ciclo iniciado em 2003, dedicado à investigação das estratégias de comunicação de uma fonte não oficial das notícias de Ambiente.
Faço recurso ao blogueiro dos blogueiros – o professor Rogério Santos – para dar uma curta nota sobre a cerimónia de lançamento ontem realizada nas instalações da Universidade Católica Portuguesa. Graças ao tradicional engenho do Indústrias Culturais, há fotografias, vídeos e texto à disposição!
Siga para "aqui" para mais informação.
A todos os presentes, o meu agradecimento, com um abraço especial para o Luís Oliveira Martins que, por feliz coincidência, também apresentou o seu livro ontem.
Faço recurso ao blogueiro dos blogueiros – o professor Rogério Santos – para dar uma curta nota sobre a cerimónia de lançamento ontem realizada nas instalações da Universidade Católica Portuguesa. Graças ao tradicional engenho do Indústrias Culturais, há fotografias, vídeos e texto à disposição!
Siga para "aqui" para mais informação.
A todos os presentes, o meu agradecimento, com um abraço especial para o Luís Oliveira Martins que, por feliz coincidência, também apresentou o seu livro ontem.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
quarta-feira, novembro 29, 2006
Um ano
Um ano depois da entrada de novos proprietários, ninguém melhor do que o grande Fialho de Almeida para descrever a pândega que para ali vai:
«Não está um caso bonito? O pobre diabo sarabandeando os neurónios, listrando d’amarelo e vermelho as calças dos períodos, aparando os calos dos tropos, pondo barretininhas de chifre na cabeça marcial dos adjectivos, enfileirando páginas, coitado, um ano preso à banca do suplício, a recoser-se, a derreter para ali os torresmos da psicologia e da sintaxe - sujeito aos juízos deprimentes da turba, à popularidade insultante da rua, às insolências invejosas da crítica - e tudo isto para afinal do licoroso melão comer apenas as cascas, e toda a pitança da polpa cantar no buxo do agiota irónico que o edita!»
De fora, não fosse a tragédia de ver o gigante colapsar com uma crise de soluços, à mercê de uma qualquer fisga de ocasião e infligindo golpes absurdos na sua própria couraça, eu riria a bandeiras despregadas. Melhor seria se o gigante se visse livre das fístulas que lhe infectam a pele e lhe toldam a mente.
«Não está um caso bonito? O pobre diabo sarabandeando os neurónios, listrando d’amarelo e vermelho as calças dos períodos, aparando os calos dos tropos, pondo barretininhas de chifre na cabeça marcial dos adjectivos, enfileirando páginas, coitado, um ano preso à banca do suplício, a recoser-se, a derreter para ali os torresmos da psicologia e da sintaxe - sujeito aos juízos deprimentes da turba, à popularidade insultante da rua, às insolências invejosas da crítica - e tudo isto para afinal do licoroso melão comer apenas as cascas, e toda a pitança da polpa cantar no buxo do agiota irónico que o edita!»
De fora, não fosse a tragédia de ver o gigante colapsar com uma crise de soluços, à mercê de uma qualquer fisga de ocasião e infligindo golpes absurdos na sua própria couraça, eu riria a bandeiras despregadas. Melhor seria se o gigante se visse livre das fístulas que lhe infectam a pele e lhe toldam a mente.
quinta-feira, novembro 23, 2006
Tudo de Repente

Espera-se, desespera-se, volta-se a esperar.
Aguardam-se meses pela ansiada publicação.
Depois, num ápice, acontece tudo de uma vez.
Em finais de Setembro, a Porto Editora publicou em livro a versão adaptada da minha investigação sobre a consolidação da Quercus como fonte das notícias de ambiente. Tenho agora a comunicar que está nas livrarias o número 2 da "Comunicação & Cultura", revista semestral, com peer-review, publicada pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e pela Quimera Editores.
A obra, dedicada este semestre a Lobbying e Marketing Político, inclui um artigo da minha autoria, intitulado: "O Caso ICN, Convergência Entre Jornalistas e Fontes".
Olhando para o contributo dos autores que publicam também nesta edição, não posso deixar de pensar que não poderia estar em melhor companhia.
quarta-feira, novembro 22, 2006
Os pânicos que nos relatam
Num artigo muito interessante, Kepplinger e Habermeier (1995) apreciam as ondas mediáticas (“news waves”), a torrente de notícias publicadas sobre um tema e geralmente despoletadas por um evento extraordinário, disruptivo, que altera a percepção que os jornalistas e os seus editores tinham sobre determinado assunto.
Dizem os autores que “os leitores de jornais assumem quatro coisas como factos garantidas: 1 – Que os eventos noticiados realmente ocorreram; 2 – Que ocorreram da forma como foram noticiados; 3 – Que os eventos importantes recebem coberturas mais extensas; 4 – Que, se alguns eventos ocorrerem com mais frequência, mais notícias serão publicadas” (1995: 371-372).
Os dois sociólogos recomendam prudência aos investigadores: há uma tentação muito grande para considerar que a cobertura noticiosa alargada reflecte um agravamento do respectivo problema social. Ou seja, mais notícias significariam mais ocorrências, e o problema agudizado.
A pesquisa empírica, baseada em fontes complementares, desmonta frequentemente este paradigma. Muitas vezes, não há aumentos palpáveis nos dados estatísticos referentes a assaltos, a crimes violentos, a acidentes nucleares, a terramotos ou a qualquer problema que esteve na base da onda mediática. Simplesmente, os repórteres sintonizaram um tema a que antes pouco ligavam. Por outro lado, os leitores, ouvintes ou espectadores respondem com mais atenção a notícias tematicamente associadas ao evento-chave que esteve na base da onda mediática. Assim, e como outros assaltos, outros crimes, outros terramotos, outros incidentes nucleares continuam a ocorrer algures no país ou no mundo, os media respondem à crise sobrevalorizando notícias que anteriormente teriam passado pelo crivo.
Kepplinger e Habermeier concluem que os critérios de selecção jornalística são menos fixos do que julgávamos. São mais voláteis. Por força de um evento extraordinário, podem ser orientados para outro tipo de notícias, modificando o processo de triagem e redacção. Mesmo que o problema social se mantenha genericamente igual.
Esta semana, noticiou-se abundantemente a dificuldade de reinserção de ex-presidiários. Não há – aposto eu, embora não existam obviamente dados estatísticos referentes a este ano – necessariamente um agravamento dos crimes cometidos por ex-arguidos. Mas a publicação de um relatório europeu e outro português despertou o alarme nas redacções. E um problema social (que, repito, deverá permanecer estável) tornou-se um problema mediático, gerando um pequeno pânico colectivo.
Voltarei ao tema.
Bibliografia
Kepplinger, Hans Mathias e Habermeier, Johanna. The Impact of Key Events on the Presentation of Reality. European Journal of Communication, 1995, vol. 10 (3), pg. 371-390
Dizem os autores que “os leitores de jornais assumem quatro coisas como factos garantidas: 1 – Que os eventos noticiados realmente ocorreram; 2 – Que ocorreram da forma como foram noticiados; 3 – Que os eventos importantes recebem coberturas mais extensas; 4 – Que, se alguns eventos ocorrerem com mais frequência, mais notícias serão publicadas” (1995: 371-372).
Os dois sociólogos recomendam prudência aos investigadores: há uma tentação muito grande para considerar que a cobertura noticiosa alargada reflecte um agravamento do respectivo problema social. Ou seja, mais notícias significariam mais ocorrências, e o problema agudizado.
A pesquisa empírica, baseada em fontes complementares, desmonta frequentemente este paradigma. Muitas vezes, não há aumentos palpáveis nos dados estatísticos referentes a assaltos, a crimes violentos, a acidentes nucleares, a terramotos ou a qualquer problema que esteve na base da onda mediática. Simplesmente, os repórteres sintonizaram um tema a que antes pouco ligavam. Por outro lado, os leitores, ouvintes ou espectadores respondem com mais atenção a notícias tematicamente associadas ao evento-chave que esteve na base da onda mediática. Assim, e como outros assaltos, outros crimes, outros terramotos, outros incidentes nucleares continuam a ocorrer algures no país ou no mundo, os media respondem à crise sobrevalorizando notícias que anteriormente teriam passado pelo crivo.
Kepplinger e Habermeier concluem que os critérios de selecção jornalística são menos fixos do que julgávamos. São mais voláteis. Por força de um evento extraordinário, podem ser orientados para outro tipo de notícias, modificando o processo de triagem e redacção. Mesmo que o problema social se mantenha genericamente igual.
Esta semana, noticiou-se abundantemente a dificuldade de reinserção de ex-presidiários. Não há – aposto eu, embora não existam obviamente dados estatísticos referentes a este ano – necessariamente um agravamento dos crimes cometidos por ex-arguidos. Mas a publicação de um relatório europeu e outro português despertou o alarme nas redacções. E um problema social (que, repito, deverá permanecer estável) tornou-se um problema mediático, gerando um pequeno pânico colectivo.
Voltarei ao tema.
Bibliografia
Kepplinger, Hans Mathias e Habermeier, Johanna. The Impact of Key Events on the Presentation of Reality. European Journal of Communication, 1995, vol. 10 (3), pg. 371-390
terça-feira, novembro 21, 2006
A Propósito de Injustiças Recentes…
segunda-feira, novembro 20, 2006
Embaixadas de Portugal

Chama-se Miguel Valle de Figueiredo e é um dos melhores fotógrafos que conheci. Tem um talento proporcional ao mau génio, mas a quem sabe tudo se desculpa.
Em projectos de comunicação, destinados ao público e não a elites, há enorme pressão exercida por editores e designers sobre o fotógrafo e a fotografia. De editores de fotografia, já se sabe, todos temos um pouco.
O Miguel é um dos profissionais que melhor se defende – talvez seja essa a sua melhor qualidade. Só faz as concessões que entende aceitáveis, pois é daqueles que prefere quebrar a torcer. O seu trabalho foi, durante muito anos, exposto na revista "Volta ao Mundo", consolidando uma qualidade fotográfica que, mesmo desvirtuada, travestida e poluída, o público ainda associa à revista.
Foi lançado agora nas livrarias o seu último projecto. Chama-se "Embaixadas de Portugal" e regista, em película, os edifícios que nos representam no estrangeiro. Edifícios velhos e edifícios novos. Em ruínas ou bem conservados. Nas capitais industrializadas ou em cidades em vias de desenvolvimento. Em ícones da lusofonia ou em destinos exóticos que poucos laços mantiveram com a nossa história.
António Sérgio escreveu que a promoção de um país no Mundo faz-se pela valorização das pedras vivas (as pessoas) e não das pedras mortas (os edifícios).
Permita-me o escritor que o corrija: pelos olhos do Miguel, as pedras mortas ganham vida.
quinta-feira, novembro 16, 2006
Estou Fazendo Amor com um Neanderthal…

Do "Público" de hoje, página 28, "Genoma dos Neandertais Mostra que Não São Nossos Avós":
«Uns consideram que os neandertais têm de ter transmitido os seus genes aos humanos modernos. Portanto, fazem parte dos nossos antepassados. Como são os hominídeos extintos mais parecidos connosco, é o mesmo que dizer que são nossos avós, e para isso, neandertais e humanos modernos tiveram de fazer amor.
(…)
Para outros, os humanos modernos chegaram à Europa vindos de África, há cerca de 40 mil anos, e simplesmente dizimaram os neandertais. Para este cientistas, fizeram guerra e não amor. »
terça-feira, novembro 07, 2006
Demasiado Ocupado
Cinco semanas depois, é legítimo concluir que a minha apreciação do trabalho jornalístico do "Público" durante o mês de Setembro não foi suficientemente viva para merecer uma observação do provedor dos leitores.
Enviada para o endereço electrónico indicado pelo jornal, a queixa foi seguramente preterida por reivindicações bem mais pertinentes, como a deliciosa apreciação das gralhas e erros de ortografia, especialidade inquestionável deste provedor, ou a meritória dissertação sobre América Latina versus América Latrina.
Ficarei à espera de melhores dias para ousar submeter nova queixa. A triagem, por aquelas bandas, é apertada.
Enviada para o endereço electrónico indicado pelo jornal, a queixa foi seguramente preterida por reivindicações bem mais pertinentes, como a deliciosa apreciação das gralhas e erros de ortografia, especialidade inquestionável deste provedor, ou a meritória dissertação sobre América Latina versus América Latrina.
Ficarei à espera de melhores dias para ousar submeter nova queixa. A triagem, por aquelas bandas, é apertada.
segunda-feira, novembro 06, 2006
Auto-Promoção Descarada
Em maré de apresentações, faço notar que estarei na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, no dia 9, às 18h30, em muito boa companhia.
Por iniciativa da Porto Editora, e sob a autorizada chancela dos professores Joaquim Fidalgo e Manuel Pinto, serão apresentadas as seguintes obras:
"Mercados Televisivos Europeus – Causas e Efeitos das Novas Formas de Organização Empresarial", do meu amigo Luís Oliveira Martins.
"A Quercus nas Notícias – Consolidação de uma Fonte Não Oficial nas Notícias de Ambiente", de yours truly
"Comunicação, Economia e Poder" (organização de Helena Sousa)
"Introdução aos Cultural Studies", de Armand Mattelart e Érik Neveu
"Sociologia dos Públicos", de Jean-Pierre Esquenazi
Apareçam.
Por iniciativa da Porto Editora, e sob a autorizada chancela dos professores Joaquim Fidalgo e Manuel Pinto, serão apresentadas as seguintes obras:
"Mercados Televisivos Europeus – Causas e Efeitos das Novas Formas de Organização Empresarial", do meu amigo Luís Oliveira Martins.
"A Quercus nas Notícias – Consolidação de uma Fonte Não Oficial nas Notícias de Ambiente", de yours truly
"Comunicação, Economia e Poder" (organização de Helena Sousa)
"Introdução aos Cultural Studies", de Armand Mattelart e Érik Neveu
"Sociologia dos Públicos", de Jean-Pierre Esquenazi
Apareçam.
sábado, outubro 28, 2006
FNAC Chiado
Integrado nas comemorações do 21.º aniversário da Quercus, apresentarei na terça-feira, à hora de almoço, na FNAC Chiado, uma comunicação abreviada da investigação que desenvolvi no âmbito do projecto de mestrado, agora publicada em livro ("A Quercus nas Notícias", Porto Editora, 2006).
Amigos e menos amigos estão, desde já, convidados para o "banho de multidão" que se avizinha. As perguntas incómodas não serão respondidas, e os intervenientes mais activos serão tratados como agitadores. Se puder escolher, prefiro uma audiência passiva, em calada admiração!...
Bem dizia uma leitora, há umas semanas, que começo a levar-me demasiado a sério!
Amigos e menos amigos estão, desde já, convidados para o "banho de multidão" que se avizinha. As perguntas incómodas não serão respondidas, e os intervenientes mais activos serão tratados como agitadores. Se puder escolher, prefiro uma audiência passiva, em calada admiração!...
Bem dizia uma leitora, há umas semanas, que começo a levar-me demasiado a sério!
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