terça-feira, outubro 10, 2006

Olé… Porquê?

Em Espanha, debate-se a criação do 14.º parque nacional do país – Monfragüe –, um processo envolto em alguma crispação, pois ocorre já depois de o Tribunal Constitucional espanhol ter lançado uma bomba administrativa: a sentença 194/2004, datada de Novembro de 2004. Segundo os señores juízes, as comunidades autónomas serão, a partir de agora, a autoridade máxima para gestão dos parques nacionais. O Estado, se participar na gestão das áreas protegidas, fá-lo-á residualmente, sobretudo em parques cujas fronteiras não se compadeçam com os limites das juntas autónomas.
Em dois anos, as mudanças são para já graduais. O Parque Nacional de Aigüestortes já está sob administração da Junta da Catalunha, e Doñana, Sierra Nevada e Monfragüe encontram-se sob alçada da Junta da Andaluzia. Os restantes arrastam os pés, provavelmente porque as respectivas comunidades autónomas não têm meios ou vontade de agarrar o touro pelos chifres. Para já, é o Organismo Autónomo de Parques Nacionais, dependente do Ministério do Meio Ambiente, que arca com a responsabilidade.
A medida, há muito solicitada pelas sensibilidades autónomas, afigura-se perigosa. Em primeiro lugar, o Tribunal Constitucional não pareceu cuidar da elementar distinção entre parques nacionais e parques naturais. Os primeiros são, por definição do documento modelador da rede espanhola de áreas protegidas, “áreas de interesse para a nação” e “ecossistemas únicos no país”. Ao “entregá-los” a entidades regionais, envia-se uma mensagem difusa: os parques até são nacionais, mas o Estado central prefere não os gerir. Nacionais na forma, regionais no conteúdo, entenda-se,
Segundo problema: as pessoas. Afigura-se lógico que o Organismo Autónomo caminha a passos largos para a extinção. E os seus funcionários? Serão automaticamente transferidos para as respectivas juntas autónomas? E no caso do Parque Nacional dos Picos de Europa, que se espraia por duas autonomias diferentes? Quem herda os “recursos humanos”? E o passado contratual de vigilantes, biólogos e guias: é mantido ou obliterado? A rede de áreas protegidas espanhola está em polvorosa, ao ponto de, vejam lá, nos invejarem a tranquilidade (mal eles sabem!…)
Terceiro problema: a ausência de um órgão de arbitragem. Transponham o caso para a realidade portuguesa. Imaginem a dissolução do Instituto da Conservação da Natureza enquanto entidade gestora das áreas protegidas sob dependência do Ministério do Ambiente e a criação de unidades múltiplas de gestão de uma única área protegida. Quem atribui fundos? Quem responde por projectos internacionais? Quem coordena estratégias nacionais? As autonomias? É como pedir ao maluco para gerir ao asilo...
Pessoalmente, penso que Portugal tem pouco a importar do modelo espanhol de gestão de áreas protegidas. Por felizes circunstâncias, a eventual adaptação da medida ao nosso território parece improvável: nem os municípios ou áreas metropolitanas têm legitimidade para o requerer, nem há uma vaga de fundo regionalista e orgulhosa, ansiosa por ferrar o dente em todos os resquícios da nacionalidade institucional? Por isso, olhamos com um certo desdém para as ambições dos Fernandos Ruas espanhóis. Nem tudo é azul no país vizinho.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Os Erros do "Público"


Nota prévia: o “Público” foi sempre o meu jornal. Mesmo quando trabalhei na Global Notícias, editora de títulos diários concorrentes, não abdiquei da companhia diária daquele que é, para mim, (ainda) o melhor jornal diário generalista. Este artigo não deve por isso ser apreciado como um ataque da concorrência ou um golpe baixo com intenções menos claras. Trata-se, tão-somente, de uma recolha realizada por um leitor decepcionado com a quebra de qualidade do seu jornal.

Objectivo: durante o mês de Setembro de 2006, analisei cuidadosamente o jornal “Público”. Pela leitura ao longo dos meses anteriores, tinha a percepção de que o jornal vinha acumulando erros de conteúdo. Não dispunha, porém, de uma ferramenta válida para o afirmar. Assim, durante 30 dias, li o jornal de fio a pavio e recolhi todos os erros identificados, todas as acusações, todos os desmentidos. A percepção inicial não me iludira: em 30 dias, recolhi 40 trechos diferentes.

Metodologia: foram excluídos todos os suplementos e revistas do jornal. Após recolha, cataloguei os recortes em cinco categorias diferentes, a saber:
Categoria 1 – O Público Errou. Reconhecimento de erros factuais por parte da redacção.
Categoria 2 – Publicação de Direitos de Resposta
Categoria 3 – Publicação de Direitos de Resposta com contra-resposta do jornal
Categoria 4 – Cartas de leitores contestando o conteúdo
Categoria 5 – Outras secções (p.e.: trocas de críticas entre leitores ou articulistas, notícias que dão conta de processos-crime contra o jornal sem publicação de direito de resposta…)
Naturalmente, reconhece-se que nem todas estas circunstâncias correspondem a erros de que o jornal se deve envergonhar. A correcção de enganos até é uma das virtudes do “Público”. Mas a profusão de tantas questiúnculas num espaço de tempo condensado afigura-se sintomática de uma perda gradual de padrões de qualidade do jornal e dos seus editores.

Os resultados: (clicar no link para melhor leitura e ampliar se necessário)

Observações: Não pretendo, longe disso!, embaraçar o “Público”. Mas não é normal que a mesma edição acumule dois “Direitos de Resposta”, um reconhecimento de erro factual e duas cartas de leitores – uma criticando um articulista e outra reconhecendo o erro do próprio leitor (edição de 2/9).
Isoladamente, esse registo teria um peso relativo, mas verifica-se, pela tabela anexa, que ela se insere numa tendência mais vasta. Ao longo de um mês, o “Público” corrigiu 17 erros de conteúdo. Num dos casos (edição de 24/9), ironicamente, o próprio desmentido errou outra vez, ao corrigir o nome de um advogado anteriormente referido (Gil Moreira dos Santos) por outro (Mário Pereira), quando o nome do causídico é… Mário Figueiredo.
Sublinho que a maior parte dos erros são pequenos lapsos factuais: um nome truncado, um valor errado, uma unidade mal atribuída ou uma tradução pouco cuidada de uma informação original em língua estrangeira. Em bloco, porém, comprovam que, a cada duas edições, o jornal erra um facto. A performance deve forçosamente merecer reflexão.
Termino com uma nota sobre a publicação de “Direitos de Resposta com Contra-Resposta”. A prática não é obviamente ilegal, mas afigura-se pouco digna e deveria ser encarada como uma excepção. O jornal utilizou-a três vezes.
Pessoalmente, considero que, se o jornal já teve oportunidade de frisar a sua posição na notícia original, deve dar oportunidade ao contestatário de lavrar o seu protesto sem perturbação. Excepcionalmente, quando o “Direito de Resposta” contrariar totalmente a posição do jornal, admito necessidade de recolocar os pontos nos ii. O “Público”, porém, parece utilizar a prática com regularidade.
No dia 8/9, os autores do projecto do Silo do Combro protestaram com o jornal, alegando que o seu projecto não fazia parte do portefólio da Experimenta Design. O jornal reconheceu o erro, mas sentiu necessidade de acrescentar os motivos pelos quais integrara o projecto na notícia.
No dia 15/9, um leitor questionou uma notícia de ciência, argumentando que a tese mencionada na notícia era apenas isso – uma tese - e que, como tal, deveriam ter sido apresentados teses contraditórias. O jornal reconheceu, mas sentiu necessidade de dizer que não o fez por questões de espaço.
No dia 18/9, um professor de matemática contestou um editorial do director do “Público” sobre o ensino da disciplina no mundo. José Manuel Fernandes respondeu, em missiva quase tão ampla como a crítica. Em três quartos do texto, deu razão ao queixoso. Nas últimas linhas, inexplicavelmente, reafirmou a mensagem do seu editorial, baseado reconhecidamente em dados mal interpretados.

Conclusão: O “Público” continua a ser o meu jornal. Erra como todos e até dá a mão à palmatória com mais frequência do que os restantes. No entanto, as notícias recentes sobre diminuições de efectivos (mais ainda!) assustam este leitor, na medida em que vão implicar maior sobrecarga de trabalho sobre os jornalistas restantes e consequentemente a margem de erro aumentará. Cabe perguntar: esta amostra é representativa do “estado” do jornal? Com toda a sinceridade, não sei.
Espero que não.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Nas Livrarias


Fui apanhado de surpresa pela publicação do meu livro "A Quercus nas Notícias - Consolidação de uma Fonte Não Oficial nas Notícias de Ambiente", obra inspirada na dissertação de mestrado que concluí nos primeiros dias de 2005 e que a Porto Editora teve a amabilidade e a coragem de editar.
Apoiado pelo Instituto da Comunicação Social, ao qual aproveito para agradecer o estímulo à investigação em ciências sociais, o livro (a par de um artigo do qual espero dar notícias neste espaço no futuro próximo) encerra o capítulo da investigação que dediquei à eclosão e consolidação dos movimentos sociais de inspiração ambientalista.
Em hora de celebração, não esqueço o inestimável contributo de Rogério Santos, orientador da tese e provavelmente o investigador que mais tem publicado em Portugal sobre a relação fontes/jornalistas no processo de produção das notícias. Este livro segue claramente o caminho por ele trilhado no capítulo da investigação em sociologia do jornalismo e reflecte muito do que com ele discuti e aprendi.
Não esqueço também o apoio dos amigos e colegas Rui Marques, Vita Lains, Luís Oliveira Martins (parabéns pelo teu livro, Luís), Juliana Iorio, Marina Videira e demais colegas da fornada de mestrandos de 2003/2005 da UCP. E seguramente que a obra não chegaria às mesmas conclusões sem o apoio espontâneo e interessado do Francisco Ferreira e do Rui Berkmeier, que abriram portas que pareciam fechadas e escavaram memórias que pareciam já esquecidas.
A todos, o meu agradecimento sincero.

Afixo entretanto as primeiras críticas. São profundamente parciais, o que muito me agrada. Ler aqui. E aqui.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Novo Espaço

Em Pequim, um velho amigo aderiu também à blogosfera. Recomendo a partir de hoje o Planeta China. Com a chancela do Rui Boavida. Aviso, desde logo, que não subscrevo praticamente nenhuma das conclusões. Mas quando há humor misturado com acentuado cepticismo ideológico há seguramente gargalhadas.

sábado, agosto 19, 2006

Parabéns


Quando quem nos ajuda é reconhecido pelo seu valor, dedicação e profissionalismo, sobretudo nesta terra de injustos e ingratos, é motivo para lançar foguetes. Parabéns, Frederico.
Ver porquê.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Não, Não e Não!


"Nixon's motto was: If two wrongs don't make a right, try three." – Norman Cousins (sobre Richard M. Nixon)

Admiro a persistência do arquitecto Sidónio Pardal, mesmo discordando genuinamente das propostas que ele insistentemente tem feito para modificar o regime de administração sobre as áreas incluídas na Reserva Ecológica Nacional (REN) e Reserva Agrícola Nacional (RAN). Há anos – há décadas – que o professor Pardal batalha pela transferência da tutela destas áreas para os municípios. Por outras palavras, de acordo com o modelo do arquitecto, seriam os Planos Directores Municipais (PDM) os únicos instrumentos para definir a regulamentação dos usos do solo e as autarquias as únicas entidades legitimadas para avaliação.
Há uma maneira simples de encarar esta proposta: o leitor confia cegamente nos 306 presidentes de municípios portugueses? Confia que todos – não apenas alguns, mas todos! – os autarcas decidiriam convenientemente que áreas dentro dos seus municípios deveriam continuar delimitadas pela REN ou pela RAN e que excepções de inegável interesse público poderiam ser desenvolvidas?
O professor Pardal acredita que a RAN – e depois a REN – facilitaram a perversão de todas as outras áreas não contempladas pelas reservas. Até admito que sim. Que tudo o que escapou às áreas seleccionadas nos diplomas originais ficou, desde logo, sob ameaça. Concedo ainda que os estatutos jurídicos da REN e da RAN necessitam de revisão. Não faz muito sentido que as restrições de actividades nas zonas protegidas sejam indistintamente aplicadas de norte a sul, sem tomar em conta especificidades regionais e actividades tradicionais há muito enraizadas. Não nos iludamos porém: ainda bem que a REN e a RAN são travões ao desenvolvimento urbano. Ainda bem que há municípios que se queixam que a REN e a RAN tornam a gestão do território ingovernável. É sempre bom sinal.
Neste país, o desenvolvimento urbano mede-se em betão. Reconheço que manchas de terreno destinadas a assegurar a «protecção de recursos essenciais para a preservação do equilíbrio ecológico e de uma estrutura biofísica básica» sejam frustrantes para os autarcas. Definitivamente, onde elas existem, poderiam facilmente erguer-se centros comerciais, urbanizações, estádios e demais obras de inegável interesse público. Fontes de receita para as autarquias endividadas e telas ainda vazias onde poderiam já estar monumentos ao desenvolvimento regional. É ir a Oeiras ver o desenvolvimento regional em pleno!
Há dois anos, quando a proposta de Sidónio Pardal chegou ao ministro Nobre Guedes, foi decisiva a condenação unânime do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Na oposição, o promissor ministro-sombra do Ambiente, Pedro Silva Pereira, ergueu a voz e anunciou [cito de memória] que a proposta subvertia a Lei de Bases do Ordenamento do Território e que só um Ministério do Ambiente fraco permitiria que isto sucedesse. Era um golpe de estado ambiental, queixou-se.
Hoje, Sidónio Pardal volta a encontrar no “Público” [outra vez, santo Deus, outra vez!] a tribuna para expressar a sua arenga. Não tenham dúvidas, meus senhores. A batalha da REN e da RAN terá novas escaramuças.
Afinal, há mais legislaturas do que marinheiros.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Anonimato e Blogosfera

Há uma semana, um post inofensivo no blogue Jornalismo e Comunicação deu azo a uma enxurrada de agressivos comentários anónimos. Julgo que o caso – um entre tantos outros – justifica uma reflexão sobre a proliferação do anonimato na blogosfera.
Em termos genéricos, não me faz espécie que um cibernauta comente sob a égide do anonimato. Está no seu direito, até porque os fornecedores do serviço como o Blogger disponibilizam aos promotores de diários digitais ferramentas suficientes para, se assim o entenderem, barrarem o acesso aos comentadores não identificados. Pressupõe-se assim que, quem aceita comentários anónimos nos respectivos blogues, reconhece relevância a quem comenta sem se identificar.
Intrigam-me, porém, os motivos que levam alguém a abdicar da identidade para comentar. No exemplo acima citado, o anónimo mais agressivo argumentava pomposamente que “cada vez é mais evidente que não estamos num país isento de represálias (em particular vindas de grupos e coorporações [Sic]). Universitários e CS podem dar uma mistura explosiva.”
Sinceramente, duvido da bondade deste tipo de motivação. Não creio que, por trás de cada comentador anónimo, esteja um agente social perseguido, um comentador que ousa iludir quem contra ele conspira e que, sob o manto do anonimato, fornece informação válida para o debate. Na maior parte das vezes, tenham paciência, o anónimo esconde-se porque gosta de atirar a pedra e esconder a mão.
Há naturalmente comentadores anónimos refinados e anónimos boçais. Em comum, porém, pressente-se o mesmo receio de assinar, o mesmo medo de assumir responsabilidade pelo que se diz e escreve.
E se o promotor do blogue decide impor a moderação no seu espaço? Céus! Que traição. Há algumas semanas, quando decidi fazê-lo, pasmei com a enxurrada de críticas. Ditador! Censor! O lápis azul voltou! Salazar ressuscitou!
Pessoalmente, entendo a moderação de comentários no meu blogue como um balde de água gelada que atiro para cima da audiência sempre que ela se comporta mal. Banho gelado, pausa para reflectir. Não o faço porque recebo criticas de que não gosto [basta ver por estas páginas a baixo que recebo mais paulada do que elogios], como um leitor há tempos sugeriu. Faço-o quando considero que o espaço está a ser utilizado para outros fins para além daqueles que eu desejo. Faço-o porque um blogue não é um jornal, nem se sujeita às mesmas regras da imprensa. Não tenho de conceder o famoso contraditório, nem de dar conta da pluralidade de opiniões. Se por absurdo postar dez textos consecutivos sobre energia nuclear em Portugal, não tenho de prestar contas a ninguém.
Entendo da mesma forma o anonimato neste espaço. Quem quiser participar sem revelar a identidade (verdadeira ou fabricada), não será travado. Desde que cumpra as regras da casa, limpe os pés à entrada e não suje nada. Sendo assim, faites vos jeux!

quarta-feira, agosto 09, 2006

Obituário como Género Jornalístico

Não tem propriamente tradição nem seguidores na nossa impresa, mas o obituário é um dos géneros jornalísticos mais ricos. Em parte por "culpa" da seriedade que a morte inevitavelmente motiva, espera-se de um obituário um registo sério e descritivo. Não tem forçosamente de ser assim. O humor, o sarcasmo e a ironia cabem perfeitamente no domínio deste género, assim sejam utilizados com bom senso.
Na semana passada, li dois registos desta ordem no "Público" e em "A Bola" a propósito do falecimento do empresário Jorge de Brito. Cabe-me aqui deixar uma nota prévia, espécie de salvo-conduto para os parágrafos seguintes: não sou, nem fui, particularmente adepto ou crítico do defunto; não tenho, nem tive, argumentos ferozes a favor ou contra as suas discutidas opções nos bancos onde trabalhou e no clube que dirigiu.
Aos factos, então. Em "A Bola", optou-se por um registo comovido, feito de adjectivos elogiosos, quase íntimos. Nem sombra de pecado, nem sobra de crítica. Os erros de percurso evaporaram-se da biografia do defunto. O jornalista optou por publicar numerosos depoimentos, metafóricos da generosidade do empresário. Da biografia do visado, ficaram meia dúzia de linhas. O resultado desilude.
No "Público", o relato foi mais seco, polvilhado de episódios dispersos ao longo do tempo, aparentemente seleccionados para ajudar o leitor a construir uma imagem complexa da vida de Jorge de Brito. Alguns pormenores íntimos foram tristemente adicionados (não creio que eles tenham de ser escondidos por qualquer biógrafo, mas parecem gratuitos quando nada acrescentam à história). Depoimentos secos, sem pinga de interesse humano, amontoam-se no texto, quase como se o repórter e o jornal os publicassem por obrigação. Depois de ler o texto, áspero e seco, é legítimo perguntar de facto: porque dedicou o jornal um obituário ao empresário se não foi capaz depois de demonstrar o papel decisivo do defunto ao longo da sua vida? O texto do Público funcionou, à escala, como as carpideiras beirãs, que choravam copiosamente os mortos para criar ambiente.
Puxando a brasa à minha sardinha, remeto o leitor para a edição de Agosto da edição da National Geographic (em Portugal, será publicado em Setembro). Ali, um obituário dedicado ao fotógrafo Tom Abercrombie constitui excelente exemplo do género jornalístico. Emotivo, claro está, mas não lamechas. Descritivo, mas não monótono. Os episódios de vida seleccionados pelo autor ajudam a compor um retrato para nós, os leitores, que não conhecemos a personalidade. É um retrato global de Abercrombie, enriquecido pelas pequenas falhas humanas, pequenos defeitos, pequenas manias e vaidades, que todos temos. Quando assim é, o obituário cumpre a sua função mais nobre: humaniza a morte.

terça-feira, agosto 01, 2006

Elementar (In)Justiça


Era uma vez uma gruta descoberta na serra da Arrábida por um grupo de entusiastas de espeleologia. Ninguém a conhecia. Ninguém suspeitava dela. Foi aberta com sangue e suor, fruto de muitas horas de trabalho de escavação paciente da rocha. O esforço foi premiado no dia em que a Gruta do Frade foi desvendada, revelando várias galerias de inesperada beleza (ver por exemplo aqui). Para o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), foi a proeza que justificou uma década de paciente trabalho de sapa na Arrábida.
Um dia, porém, o Parque Natural da Arrábida (PNA) decidiu envolver-se no processo. Pareceu-lhe bem estar associado, por uma vez que fosse, a um processo de carga positiva, longe dos planos de ordenamento que não se aprovam, das construções ilegais que não se destroem, das regulamentações que não se fazem cumprir, da corrupção que não se consegue evitar. Como sucede em quase tudo o que toca, o PNA estragou. Encheu o peito de ar, reclamou jurisdição sobre a formação geológica, mudou-lhe o nome (!?!) e apressou-se a mudar chaves e cadeados de acesso à gruta (ali colocados para efeitos de protecção, não fosse alguma alma danada entrar por ali adentro sem lei nem roque).
A experiência já não é virgem. A comunidade científica "oficial" dá-se mal com os amadores, com os carolas. São giros enquanto não chateiam. São óptimos para esburacar a rocha, debater-se com camadas de lama até à cintura ou fazer o trabalho duro para o qual - é forçoso reconhecê-lo - os senhores de paletó e jaqueta não têm gosto nem vocação. Era o que mais faltava!
Quando o achado se desvenda, porém, a música é outra. Pressente-se a respiração ofegante, a transpiração nervosa dos homens da ciência. Um achado! Ser o primeiro a documentar. Revelar um novo achado à ciência, aos pares e aos jornalistas. Ah! Ser digno de figurar na história ao lado de Carlos Ribeiro ou Nery Delgado.
Pelo meio, cada vez mais perdidos num oceano de indiferença, quais escolhos batidos violentamente pelas águas, os espeleólogos são afastados do processo de decisão e investigação do achado. Do "seu" achado. Foram úteis no início, agora são dispensáveis. Mastiga e deita fora, dizia a canção.
Como corolário de uma série de desconsiderações, o NECA já não pode entrar na Gruta do Frade (agora, designada por Algar do PInheirinho). Já não a pode cartografar até ao fim. Já não pode revelar os seus mais íntimos segredos.
Humildemente, reconheço parte da culpa.
Há três anos, publiquei, com inestimável apoio do NECA (que produziu texto e imagens), a primeira reportagem sobre a Gruta do Frade, ilustrada a preceito e com um esboço da cartografia já realizada. Foi talvez o primeiro acto de divulgação da Gruta para uma audiência nacional. Agora, sei que não o deveria ter feito. A Gruta do Frade (tenham paciência, mas Algar do Pinheirinho não!) deveria ter sido escondida. Escondida do ICN, dos geólogos e sobretudo do Parque Natural da Arrábida. Agora é tarde.

sexta-feira, junho 16, 2006

Rir, Rir, Rir

É o melhor remédio, meus senhores. Por necessidades profissionais, acompanho, desde 2001, a saga da Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável. Que pagode! A União Europeia espera, e desespera, pela produção do documento. Reúnem-se as comissões. Algumas juntam mesmo gente boa, com vasta produção literária na matéria, mas a máquina emperra. Emperra sempre.
O documento devceria estar pronto no final de 2005. Por essa Europa fora, as estratégias foram sempre delineadas – e pasme-se – executadas, até porque os programas foram pensados como respostas europeias à década da Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. Que começava em 2005 e terminaria em 2014. Menos em Portugal: estamos em Junho de 2006, e a década do Desenvolvimento Sustentável está presa no lodo da burocracia. Não avança nem recua. Contorce-se, resignada, como tudo nesta terra.
Juntou-se a comissão para produzir um documento (o terceiro, recordo. Nestas coisas da legislação todo o governo quer meter a sua colher). Mandou-o aos senhores ministros para avaliação e debate. Nos governos, recordo, avalia-se e debate-se com afinco.
Uma vez aprovado, o documento seguirá para discussão pública. Mais meses de espera. Mais indefinição. Palpita-me que a nossa década do Desenvolvimento Sustentável começará em 2007. Com dois anos de atraso. Não está mal.
Ironicamente, o texto provisório do documento revela que, até final de 2015, Portugal deverá aproximar o seu desenvolvimento económico da média europeia, deverá entrar para a lista dos primeiros 15 países do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU e dos 25 países mais competitivos do mundo.
Não se ria, senhor leitor. Isto é muito sério…

quarta-feira, junho 14, 2006

Uma História

A directiva comunitária 30/2003 estabeleceu metas extremamente ambiciosas para a integração progressiva dos biocombustíveis nos sistemas de transporte da União Europeia. O objectivo da lei era diminuir a utilização de petróleo, gás natural e combustíveis sólidos e promover o uso mais sustentável de recursos, ao mesmo tempo que pretendia diminuir as fontes de emissões de dióxido de carbono.
Neste país, onde se prefere a desordem à ordem e a irregularidade à regularidade, creio que ninguém deu conta de que Portugal vai paulatinamente cumprindo a directiva. Estamos tão entretidos com a bola, e com Timor, e com os semáforos verdes na Baixa e com as manifestações de extrema-direita, e com o diabo a quatro, que ninguém valorizou o cumprimento progressivo da meta.
O primeiro marco do percurso estabelecia o final de 2005 como limite para os estados-membros produzirem 2% como proporção mínima de biocombustíveis e de outros combustíveis renováveis de toda a gasolina e de todo o gasóleo utilizados para efeitos de transporte. É certo que, até 2005, ninguém na UE cumpriu escrupulosamente a meta, mas em meados de 2006 Portugal já a atingiu. Em silêncio, mas ela está cumprida.
A meta seguinte estabelece 3% até final de 2007. No momento em que escrevo, já estão contratadas unidades fabris capazes de satisfazer esta medida, da mesma forma que os 5,75% previstos para 2010 também já estão praticamente assegurados por contrato.
Para 2015, a UE pretende que o valor suba para 7%. E em 2020, 8%. O cumprimento dessas metas é, para já, imprevisível. Muitos secretaries de Estado da Energia se sucederão. Muitos quadros da EDP farão força noutros sentidos. Muitos Patricks Monteiros de Barros aparecerão, da névoa, com o facho do átomo numa mão e uma enorme conta na outra.
É hoje seguro dizer que, no confronto com as restantes formas de energia alternativas [gás natural; hidrogénio…], os biocombustíveis ganharam claramente a primeira batalha, logrando passar à fase de mercado sustentável… circunstância de que os promotores do hidrogénio não se podem gabar e que arrepia os promotores do gás natural, mais dependentes do que os restantes da vontade do consumidor.
É verdade que o mercado de biocombustíveis beneficiou claramente da aprovação da isenção de imposto sobre produtos petrolíferos, decretada em Janeiro de 2005. A sua adaptabilidade ao sistema de distribuição dos combustíveis tradicionais foi igualmente um bónus. Mas é inegável que se trabalhou bem – e em silêncio – nesta área. Os próximos capítulos estão nas mãos da iniciativa privada. Da Direcção-Geral de Geologia e Energia. Do Ministério da Economia e das Finanças. Das transportadoras. E até de si.

segunda-feira, maio 22, 2006

Jeitos


Terrivelmente desfocados por inépcia do fotógrafo, Guilherme Oliveira Martins, António José Teixeira e Marcelo Rebelo de Sousa.

Admito que nunca tinha escutado Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) ao vivo. Fiquei desiludido.
Reconheço também que nunca tinha escutado Guilherme Oliveira Martins (GOM) ao vivo. Fiquei francamente agradado.
A pretexto dos 135 anos das Conferências Democráticas de 1871, ditas do Casino, o Centro Nacional de Cultura organizou ontem, no Centro LiberOffice, ao Chiado, a primeira conferência do casino do século XXI. Mais de cinco dezenas de pessoas encheram a sala, porventura guiadas pela aura lendária do orador principal. Arrisco que algumas, no final, tenham ficado convertidas à capacidade de GOM, ele sim, legítimo palestrante da causa e, já agora, herdeiro directo de um dos oradores oitocentistas.
É certo que MRS é charmoso. É divertido. A espaços, provocou gargalhadas, ora comparando os casinos de Lisboa de 1871 e de 2006 ("muito menos controverso o do século XIX"), ora rapidamente transformando o incómodo de um toque de telemóvel num momento de pausa e descontracção. Mas MRS deixou transparecer a ideia (porventura injusta) de ter aterrado no Chiado de pára-quedas. De ter escutado vagamente o que os oradores anteriores disseram e de ter escrito apressadamente, no verso de um guardanapo, meia dúzia de ideias-fortes para a sua intervenção. É certo que meia dúzia de linhas chegam, e sobram, para MRS discorrer longamente sobre Portugal, a modernidade, a descolonização, a linhagem de GOM (palavra!) ou o pedigree dos Rebelo de Sousa (aqui, reconheço, já há exagero da minha parte).
Oliveira Martins fez o contrário: leu efectivamente os relatos das velhas conferências. Divertiu a audiência (António José Teixeira, inclusivé) com passagens de jornalismo arcaico do "Diário de Notícias" (seriam assim tão arcaicas?). Encontrou trechos simbólicos das intervenções de António Sérgio, de Eça e sobretudo de Antero de Quental. Fez a sala pensar com passagens de inquestionável actualidade e com textos inevitavelmente datados. Quase que garanto que o fantasma de Antero, seguramente presente na sala, cofiou lentamente a barba enquanto anuía, pensativo.
E assim se reiniciaram as conferências do Casino.
Dei por mim, minutos mais tarde, na Bertrand, a comprar as "Odes Modernas" de Antero.

quinta-feira, maio 18, 2006

Normas & Regras

Julgo que é relativamente consensual que temos uma boa lei de imprensa. Abrangente e actualizada, ela deveria ser o instrumento apropriado para regulamentar e delimitar a prática jornalística em Portugal. Delimitar, ela até delimita. Mas a sua aplicação chega a ser risível, espécie de espelho da nação, perfeita na forma mas imperfeita no conteúdo.
Instituiu-se, e bem, que os profissionais habilitados a exercer a profissão deveriam ser detentores de um título profissional. Assim se regulamentaria a profisão e se subordinaria os jornais e jornalistas ao código deontológico e às normas profissionais. O escrutínio da medida, porém, deixa a desejar.
Nos grupos de comunicação por onde fui passando, conviviam alegremente profissionais encartados e profissionais sem carteira profissional. Não por malícia ou artimanhas, sublinho. Simplesmente, a inércia levava a melhor e a regularização das suas situações profissionais ia sendo progressivamente adiada.
Diz a lei que todos os jornalistas devem deter o respectivo título até porque, ao abrigo da lei, eles são judicialmente responsáveis pelos textos que produzem.
Questão pertinente: como se responsabiliza alguém que não se conhece, que não está inscrito em qualquer associação profissional e sobretudo cujo nome, por acidente, é igual ao de outros profissionais?
Na era da interactividade, não resisto a propor um divertido exercício. Ora, vá à página da Comissão da Carrteira Profissional de Jornalistas (www.ccpj.pt). Folheie as páginas com os nomes dos profissionais inscritos (a lista é pública, não se envergonhe). Depois, lembre-se dos seus jornais e revistas favoritos. Prometo recompensas se, a cada três títulos, não encontrar pelo menos um com jornalistas fora da lei.
A lei até é relativamente boa, repito. Mas o legislador esqueceu-se que Portugal ainda é um posto avançado do Norte de África.

quarta-feira, maio 03, 2006

A culpa e nossa!

(Aviso previo: post afixado sem acentos por "culpa" do teclado anglofono em que escrevo. As minhas desculpas)

Acabo de participar num seminario de jornalistas onde, entre muitas coisas, se debateram pela enesima vez os problemas de enquadramento jornalistico nas reportagens de Ambiente e Conservacao. A questao nao e nova. Ha muito que escuto queixas, em reunioes deste tipo, sobre a deficiente cobertura jornalistica do mundo natural e dos seus problemas. Desta vez, porem, reconheco uma nuance: era consensual na sala que grande parte da culpa deve ser assacada a nos, jornalistas.
Encaremos a realidade: os enquadramentos nas reportagens de Ambiente sao banais e repetitivos. Obedecem grosseiramente a mesma matriz, repetida vezes sem conta, sem rasgo nem brilho. Alias, na redaccao onde trabalho, temos uma piada interna: a historia de Ambiente ou Conservacao tradicional invariavelmente descreve "como o ecossistema ou a especie em causa eram lindos e idilicos no passado. Numa segunda fase, da-se conta que anos de intervencao humana devassaram a realidade pristina e contaminaram-na para sempre. Agora, porem, um grupo intrepido de conservacionistas e legisladores tenta repor a normalidade." Esta tem sido a formula basica. E daqui nao saimos.
Reconheco com tristeza que, quando toca a questoes de Ambiente, os media mostram pouca imaginacao. Escolhem as mesmas situacoes, os mesmos conflitos primarios, os mesmos protagonistas. E um dia, inevitavelmente, o publico deixou de ler. E deixou de se preocupar.
Admiramo-nos quando as reportagens de Ambiente marcam poucos pontos nos inqueritos de leitores. Queixamo-nos que os investigadores e politicos nos dao sempre a mesma informaca basica. Mas nalgum ponto da estrada, teremos de parar, imaginar novas solucoes e voltar a interessar os leitores.
Uma das facetas mais fatigantes da cobertura noticiosa do Ambiente e o catastrofismo. Pintamos o mundo de negro, como essa fosse a nossa missao. Ha uns anos, publiquei, entre uma serie de reportagens sobre especies ameacadas, uma reportagem sobre o veado na serra da Lousa e o inacreditavel sucesso do projecto de reintroducao do animal. Recebemos um rio de cartas e e-mails - cinco, dez, vinte vezes mais feed-back do que o normal. Porque? Porque as pessoas reagiram, com alegria, a uma historia bem contada (a modestia em excesso e a vaidade dos tolos) e com um final feliz. E nos descobrimos que, para escrever sobre Ambiente, nao e necessario colocar os oculos escuros e narrar as sombras. Tambem ha luz no jornalismo de Ambiente e Conservacao.

quinta-feira, março 30, 2006

Boa Nova

O último relatório trimestral da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens (APCT) traz uma novidade pouco badalada, mas muito interessante para a credibilização do sector. Pela primeira vez, a APCT discrimina, na análise da circulação paga de cada publicação inscrita, as “vendas em bloco”. Pela primeira vez, portanto, torna-se visível a olho nu a diferença entre um título que vende 20 mil exemplares em banca e outro que vende cinco mil em banca e escoa os restantes em acordos de circulação – ou seja, vende alguns milhares de exemplares a empresas que, utilizando listas de endereços de alguns dos seus clientes, oferece a publicação em causa durante determinado período de tempo.
Dirá o leitor que a alteração é pouco significativa. Não é. As agências de meios decidem o destino do seu investimento publicitário de acordo com os dados de circulação paga e com os dados de audiência fornecidos pelo Bareme. Até aqui, estas agências não dispunham de toda a informação disponível sobre a vitalidade de um título. Convenhamos que não será a mesma coisa comprar espaço publicitário numa revista/jornal que venda efectivamente 20 mil exemplares ou comprar numa publicação rival que, embora circule os mesmos 20 mil exemplares, só vende cinco mil. Porquê? Porque temos de assumir que uma boa percentagem das pessoas que receberão em casa a oferta da revista X ou Y nem a abrirão. Ou, na melhor das hipóteses, não lhe dedicarão a mesma atenção do que o fariam se a tivessem comprado voluntariamente. No mesmo exemplo, há portanto vinte mil exemplares vendidos (porque os acordos de circulação implicam a venda da publicação à tal empresa, embora a preço unitário muitas vezes baixíssimo), mas esse número é empolado.
Para além de constituirem interessantes ferramentes de gestão do investimento publicitário (a receita maioritária para quase todas as publicações), os dados das “vendas em bloco” permitem também uma análise mais rigorosa ao mercado. Poupar-vos-ei os detalhes sobre publicações específicas, uma vez que o relatório da APCT está disponível apenas através de assinatura, mas chega a ser assustador como algumas publicações sobrevivem com circulações reais (bem) abaixo dos dez mil exemplares.
São revistas e jornais artificiais. Morfologicamente estão mortas, mas continuam ligadas à máquina que respira por elas. Até ao dia em que alguém desliga a ficha.

terça-feira, março 07, 2006

Só Mais Uns Dias

Se não fosse português, julgo que seria alemão. Pelo menos, é disso que frequentemente me acusam, tamanha é a minha obsessão pelo cumprimento de prazos e horários.
Quando frequentei a licenciatura, fazia regularmente noitadas para cumprir os prazos de entrega de trabalhos. E era costume chegar à faculdade, de olhos avermelhados pelo esforço, e cruzar-me com colegas descontraídos, que também tinham lá ido, mas para pedir adiamento da sentença.
Terminei a licenciatura acreditando no mito de que, noutros patamares académicos, a rebaldaria horária deveria ser regulada. Que nos mestrados a coisa fiaria mais fina.
Cheguei ao mestrado e deparei sensivelmente com a mesma situação: prazos falhados, permissividade de alguns docentes, entregas de trabalhos adiadas para as calendas gregas.
Depositei esperança na crença de que, no doutoramento, patamar último da aprendizagem, a fasquia seria finalmente colocada com firmeza, intransponível ao abuso.
Esta semana, começou o 2.º semestre do programa de doutoramento que frequento. Esfalfei-me a valer para entregar os textos pedidos dentro do apertado intervalo temporal exigido.
Chegou o dia do primeiro seminário de segundo semestre e escutei, abismado:
Bom, recebemos tão poucos trabalhos, que vamos adiar o prazo de entrega para os restantes candidatos até Setembro (!?!).
E agora, senhores, vou acreditar em quê?

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Intragável Discurso Científico

Por estes dias, por força de obrigações profissionais, tenho devorado centenas de páginas de produção científica formal. Alguns dos artigos são tão vagos e imprecisos que me lembram, irremediavelmente, a famosa tabela de Gilbert e Mulkay, inserida num capítulo apropriadamente chamado “Joking Apart” do livro “Opening Pandora’s Box”.
Usando a versão traduzida de Pierre Bourdieu (2001), a tabela é mais ou menos assim:

Quando um cientista escreve: Há muito que se sabe… Quer realmente dizer: Não me dei ao trabalho de procurar a referência.
Quando um cientista escreve: Embora não me tenha sido possível dar respostas definitivas a estas questões. Quer realmente dizer: A experiência não resultou, mas pensei que poderia pelo menos publicar qualquer coisa sobre ela.
Quando um cientista escreve: Três das amostras foram escolhidas após um estudo pormenorizado. Quer realmente dizer: Os resultados das outras não tinham qualquer sentido e foram ignoradas.
Quando um cientista escreve: Danificado acidentalmente durante a montagem. Quer realmente dizer: Caiu ao chão!
Quando um cientista escreve: De grande importância teórica e prática. Quer realmente dizer: Interessante para mim.
Quando um cientista escreve: Sugere-se ou Sabe-se que Quer realmente dizer: Eu penso que.
Quando um cientista escreve: Reconhece-se geralmente que… Quer realmente dizer: Outros tipos também pensam assim!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Especialidade portuguesa



Há países que se podem gabar de ter introduzido novos conceitos nas relações laborais. A semana de 35 horas, o contrato colectivo, o direito à livre associação... Portugal, país de vistas curtas, doou ao mundo a prateleira.
Cruzamo-nos com o professor universitário, que se lamenta: "Estou na prateleira. Reduziram-me os projectos e as horas de aula." Trocamos palavras com o relações públicas e ficamos a saber: "A administração mudou e colocaram-me na prateleira."
Entre o quadro de jornalistas da nação, então, o problema é elevado à potência dez. Percentagens assustadoras de jornalistas estão "encostados", eufemismo moderno para a velha prateleira: parados, sem serviço palpável, num braço de ferro silencioso entre chefias e repórteres ou entre administração e redacção.
Pense no seu jornal favorito, eleja o nome de três dos seus jornalistas preferidos (se os tem...) e faça o teste: há quanto tempo não vê nada publicado por um deles? O mais provável é... que ele esteja na prateleira!

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Qualquer dia...

... o "Público" vai escrever que Catarina Eufémia nem sequer foi assassinada. Esbarrou acidentalmente com três balas.