
Era uma vez uma gruta descoberta na serra da Arrábida por um grupo de entusiastas de espeleologia. Ninguém a conhecia. Ninguém suspeitava dela. Foi aberta com sangue e suor, fruto de muitas horas de trabalho de escavação paciente da rocha. O esforço foi premiado no dia em que a Gruta do Frade foi desvendada, revelando várias galerias de inesperada beleza (ver por exemplo
aqui). Para o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), foi a proeza que justificou uma década de paciente trabalho de sapa na Arrábida.
Um dia, porém, o Parque Natural da Arrábida (PNA) decidiu envolver-se no processo. Pareceu-lhe bem estar associado, por uma vez que fosse, a um processo de carga positiva, longe dos planos de ordenamento que não se aprovam, das construções ilegais que não se destroem, das regulamentações que não se fazem cumprir, da corrupção que não se consegue evitar. Como sucede em quase tudo o que toca, o PNA estragou. Encheu o peito de ar, reclamou jurisdição sobre a formação geológica, mudou-lhe o nome (!?!) e apressou-se a mudar chaves e cadeados de acesso à gruta (ali colocados para efeitos de protecção, não fosse alguma alma danada entrar por ali adentro sem lei nem roque).
A experiência já não é virgem. A comunidade científica "oficial" dá-se mal com os amadores, com os carolas. São giros enquanto não chateiam. São óptimos para esburacar a rocha, debater-se com camadas de lama até à cintura ou fazer o trabalho duro para o qual - é forçoso reconhecê-lo - os senhores de paletó e jaqueta não têm gosto nem vocação. Era o que mais faltava!
Quando o achado se desvenda, porém, a música é outra. Pressente-se a respiração ofegante, a transpiração nervosa dos homens da ciência. Um achado! Ser o primeiro a documentar. Revelar um novo achado à ciência, aos pares e aos jornalistas. Ah! Ser digno de figurar na história ao lado de Carlos Ribeiro ou Nery Delgado.
Pelo meio, cada vez mais perdidos num oceano de indiferença, quais escolhos batidos violentamente pelas águas, os espeleólogos são afastados do processo de decisão e investigação do achado. Do "seu" achado. Foram úteis no início, agora são dispensáveis. Mastiga e deita fora, dizia a canção.
Como corolário de uma série de desconsiderações, o NECA já não pode entrar na Gruta do Frade (agora, designada por Algar do PInheirinho). Já não a pode cartografar até ao fim. Já não pode revelar os seus mais íntimos segredos.
Humildemente, reconheço parte da culpa.
Há três anos, publiquei, com inestimável apoio do NECA (que produziu texto e imagens), a primeira reportagem sobre a Gruta do Frade, ilustrada a preceito e com um esboço da cartografia já realizada. Foi talvez o primeiro acto de divulgação da Gruta para uma audiência nacional. Agora, sei que não o deveria ter feito. A Gruta do Frade (tenham paciência, mas Algar do Pinheirinho não!) deveria ter sido escondida. Escondida do ICN, dos geólogos e sobretudo do Parque Natural da Arrábida. Agora é tarde.