A directiva comunitária 30/2003 estabeleceu metas extremamente ambiciosas para a integração progressiva dos biocombustíveis nos sistemas de transporte da União Europeia. O objectivo da lei era diminuir a utilização de petróleo, gás natural e combustíveis sólidos e promover o uso mais sustentável de recursos, ao mesmo tempo que pretendia diminuir as fontes de emissões de dióxido de carbono.
Neste país, onde se prefere a desordem à ordem e a irregularidade à regularidade, creio que ninguém deu conta de que Portugal vai paulatinamente cumprindo a directiva. Estamos tão entretidos com a bola, e com Timor, e com os semáforos verdes na Baixa e com as manifestações de extrema-direita, e com o diabo a quatro, que ninguém valorizou o cumprimento progressivo da meta.
O primeiro marco do percurso estabelecia o final de 2005 como limite para os estados-membros produzirem 2% como proporção mínima de biocombustíveis e de outros combustíveis renováveis de toda a gasolina e de todo o gasóleo utilizados para efeitos de transporte. É certo que, até 2005, ninguém na UE cumpriu escrupulosamente a meta, mas em meados de 2006 Portugal já a atingiu. Em silêncio, mas ela está cumprida.
A meta seguinte estabelece 3% até final de 2007. No momento em que escrevo, já estão contratadas unidades fabris capazes de satisfazer esta medida, da mesma forma que os 5,75% previstos para 2010 também já estão praticamente assegurados por contrato.
Para 2015, a UE pretende que o valor suba para 7%. E em 2020, 8%. O cumprimento dessas metas é, para já, imprevisível. Muitos secretaries de Estado da Energia se sucederão. Muitos quadros da EDP farão força noutros sentidos. Muitos Patricks Monteiros de Barros aparecerão, da névoa, com o facho do átomo numa mão e uma enorme conta na outra.
É hoje seguro dizer que, no confronto com as restantes formas de energia alternativas [gás natural; hidrogénio…], os biocombustíveis ganharam claramente a primeira batalha, logrando passar à fase de mercado sustentável… circunstância de que os promotores do hidrogénio não se podem gabar e que arrepia os promotores do gás natural, mais dependentes do que os restantes da vontade do consumidor.
É verdade que o mercado de biocombustíveis beneficiou claramente da aprovação da isenção de imposto sobre produtos petrolíferos, decretada em Janeiro de 2005. A sua adaptabilidade ao sistema de distribuição dos combustíveis tradicionais foi igualmente um bónus. Mas é inegável que se trabalhou bem – e em silêncio – nesta área. Os próximos capítulos estão nas mãos da iniciativa privada. Da Direcção-Geral de Geologia e Energia. Do Ministério da Economia e das Finanças. Das transportadoras. E até de si.
quarta-feira, junho 14, 2006
segunda-feira, maio 22, 2006
Jeitos

Terrivelmente desfocados por inépcia do fotógrafo, Guilherme Oliveira Martins, António José Teixeira e Marcelo Rebelo de Sousa.
Admito que nunca tinha escutado Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) ao vivo. Fiquei desiludido.
Reconheço também que nunca tinha escutado Guilherme Oliveira Martins (GOM) ao vivo. Fiquei francamente agradado.
A pretexto dos 135 anos das Conferências Democráticas de 1871, ditas do Casino, o Centro Nacional de Cultura organizou ontem, no Centro LiberOffice, ao Chiado, a primeira conferência do casino do século XXI. Mais de cinco dezenas de pessoas encheram a sala, porventura guiadas pela aura lendária do orador principal. Arrisco que algumas, no final, tenham ficado convertidas à capacidade de GOM, ele sim, legítimo palestrante da causa e, já agora, herdeiro directo de um dos oradores oitocentistas.
É certo que MRS é charmoso. É divertido. A espaços, provocou gargalhadas, ora comparando os casinos de Lisboa de 1871 e de 2006 ("muito menos controverso o do século XIX"), ora rapidamente transformando o incómodo de um toque de telemóvel num momento de pausa e descontracção. Mas MRS deixou transparecer a ideia (porventura injusta) de ter aterrado no Chiado de pára-quedas. De ter escutado vagamente o que os oradores anteriores disseram e de ter escrito apressadamente, no verso de um guardanapo, meia dúzia de ideias-fortes para a sua intervenção. É certo que meia dúzia de linhas chegam, e sobram, para MRS discorrer longamente sobre Portugal, a modernidade, a descolonização, a linhagem de GOM (palavra!) ou o pedigree dos Rebelo de Sousa (aqui, reconheço, já há exagero da minha parte).
Oliveira Martins fez o contrário: leu efectivamente os relatos das velhas conferências. Divertiu a audiência (António José Teixeira, inclusivé) com passagens de jornalismo arcaico do "Diário de Notícias" (seriam assim tão arcaicas?). Encontrou trechos simbólicos das intervenções de António Sérgio, de Eça e sobretudo de Antero de Quental. Fez a sala pensar com passagens de inquestionável actualidade e com textos inevitavelmente datados. Quase que garanto que o fantasma de Antero, seguramente presente na sala, cofiou lentamente a barba enquanto anuía, pensativo.
E assim se reiniciaram as conferências do Casino.
Dei por mim, minutos mais tarde, na Bertrand, a comprar as "Odes Modernas" de Antero.
quinta-feira, maio 18, 2006
Normas & Regras
Julgo que é relativamente consensual que temos uma boa lei de imprensa. Abrangente e actualizada, ela deveria ser o instrumento apropriado para regulamentar e delimitar a prática jornalística em Portugal. Delimitar, ela até delimita. Mas a sua aplicação chega a ser risível, espécie de espelho da nação, perfeita na forma mas imperfeita no conteúdo.
Instituiu-se, e bem, que os profissionais habilitados a exercer a profissão deveriam ser detentores de um título profissional. Assim se regulamentaria a profisão e se subordinaria os jornais e jornalistas ao código deontológico e às normas profissionais. O escrutínio da medida, porém, deixa a desejar.
Nos grupos de comunicação por onde fui passando, conviviam alegremente profissionais encartados e profissionais sem carteira profissional. Não por malícia ou artimanhas, sublinho. Simplesmente, a inércia levava a melhor e a regularização das suas situações profissionais ia sendo progressivamente adiada.
Diz a lei que todos os jornalistas devem deter o respectivo título até porque, ao abrigo da lei, eles são judicialmente responsáveis pelos textos que produzem.
Questão pertinente: como se responsabiliza alguém que não se conhece, que não está inscrito em qualquer associação profissional e sobretudo cujo nome, por acidente, é igual ao de outros profissionais?
Na era da interactividade, não resisto a propor um divertido exercício. Ora, vá à página da Comissão da Carrteira Profissional de Jornalistas (www.ccpj.pt). Folheie as páginas com os nomes dos profissionais inscritos (a lista é pública, não se envergonhe). Depois, lembre-se dos seus jornais e revistas favoritos. Prometo recompensas se, a cada três títulos, não encontrar pelo menos um com jornalistas fora da lei.
A lei até é relativamente boa, repito. Mas o legislador esqueceu-se que Portugal ainda é um posto avançado do Norte de África.
Instituiu-se, e bem, que os profissionais habilitados a exercer a profissão deveriam ser detentores de um título profissional. Assim se regulamentaria a profisão e se subordinaria os jornais e jornalistas ao código deontológico e às normas profissionais. O escrutínio da medida, porém, deixa a desejar.
Nos grupos de comunicação por onde fui passando, conviviam alegremente profissionais encartados e profissionais sem carteira profissional. Não por malícia ou artimanhas, sublinho. Simplesmente, a inércia levava a melhor e a regularização das suas situações profissionais ia sendo progressivamente adiada.
Diz a lei que todos os jornalistas devem deter o respectivo título até porque, ao abrigo da lei, eles são judicialmente responsáveis pelos textos que produzem.
Questão pertinente: como se responsabiliza alguém que não se conhece, que não está inscrito em qualquer associação profissional e sobretudo cujo nome, por acidente, é igual ao de outros profissionais?
Na era da interactividade, não resisto a propor um divertido exercício. Ora, vá à página da Comissão da Carrteira Profissional de Jornalistas (www.ccpj.pt). Folheie as páginas com os nomes dos profissionais inscritos (a lista é pública, não se envergonhe). Depois, lembre-se dos seus jornais e revistas favoritos. Prometo recompensas se, a cada três títulos, não encontrar pelo menos um com jornalistas fora da lei.
A lei até é relativamente boa, repito. Mas o legislador esqueceu-se que Portugal ainda é um posto avançado do Norte de África.
quarta-feira, maio 03, 2006
A culpa e nossa!
(Aviso previo: post afixado sem acentos por "culpa" do teclado anglofono em que escrevo. As minhas desculpas)
Acabo de participar num seminario de jornalistas onde, entre muitas coisas, se debateram pela enesima vez os problemas de enquadramento jornalistico nas reportagens de Ambiente e Conservacao. A questao nao e nova. Ha muito que escuto queixas, em reunioes deste tipo, sobre a deficiente cobertura jornalistica do mundo natural e dos seus problemas. Desta vez, porem, reconheco uma nuance: era consensual na sala que grande parte da culpa deve ser assacada a nos, jornalistas.
Encaremos a realidade: os enquadramentos nas reportagens de Ambiente sao banais e repetitivos. Obedecem grosseiramente a mesma matriz, repetida vezes sem conta, sem rasgo nem brilho. Alias, na redaccao onde trabalho, temos uma piada interna: a historia de Ambiente ou Conservacao tradicional invariavelmente descreve "como o ecossistema ou a especie em causa eram lindos e idilicos no passado. Numa segunda fase, da-se conta que anos de intervencao humana devassaram a realidade pristina e contaminaram-na para sempre. Agora, porem, um grupo intrepido de conservacionistas e legisladores tenta repor a normalidade." Esta tem sido a formula basica. E daqui nao saimos.
Reconheco com tristeza que, quando toca a questoes de Ambiente, os media mostram pouca imaginacao. Escolhem as mesmas situacoes, os mesmos conflitos primarios, os mesmos protagonistas. E um dia, inevitavelmente, o publico deixou de ler. E deixou de se preocupar.
Admiramo-nos quando as reportagens de Ambiente marcam poucos pontos nos inqueritos de leitores. Queixamo-nos que os investigadores e politicos nos dao sempre a mesma informaca basica. Mas nalgum ponto da estrada, teremos de parar, imaginar novas solucoes e voltar a interessar os leitores.
Uma das facetas mais fatigantes da cobertura noticiosa do Ambiente e o catastrofismo. Pintamos o mundo de negro, como essa fosse a nossa missao. Ha uns anos, publiquei, entre uma serie de reportagens sobre especies ameacadas, uma reportagem sobre o veado na serra da Lousa e o inacreditavel sucesso do projecto de reintroducao do animal. Recebemos um rio de cartas e e-mails - cinco, dez, vinte vezes mais feed-back do que o normal. Porque? Porque as pessoas reagiram, com alegria, a uma historia bem contada (a modestia em excesso e a vaidade dos tolos) e com um final feliz. E nos descobrimos que, para escrever sobre Ambiente, nao e necessario colocar os oculos escuros e narrar as sombras. Tambem ha luz no jornalismo de Ambiente e Conservacao.
Acabo de participar num seminario de jornalistas onde, entre muitas coisas, se debateram pela enesima vez os problemas de enquadramento jornalistico nas reportagens de Ambiente e Conservacao. A questao nao e nova. Ha muito que escuto queixas, em reunioes deste tipo, sobre a deficiente cobertura jornalistica do mundo natural e dos seus problemas. Desta vez, porem, reconheco uma nuance: era consensual na sala que grande parte da culpa deve ser assacada a nos, jornalistas.
Encaremos a realidade: os enquadramentos nas reportagens de Ambiente sao banais e repetitivos. Obedecem grosseiramente a mesma matriz, repetida vezes sem conta, sem rasgo nem brilho. Alias, na redaccao onde trabalho, temos uma piada interna: a historia de Ambiente ou Conservacao tradicional invariavelmente descreve "como o ecossistema ou a especie em causa eram lindos e idilicos no passado. Numa segunda fase, da-se conta que anos de intervencao humana devassaram a realidade pristina e contaminaram-na para sempre. Agora, porem, um grupo intrepido de conservacionistas e legisladores tenta repor a normalidade." Esta tem sido a formula basica. E daqui nao saimos.
Reconheco com tristeza que, quando toca a questoes de Ambiente, os media mostram pouca imaginacao. Escolhem as mesmas situacoes, os mesmos conflitos primarios, os mesmos protagonistas. E um dia, inevitavelmente, o publico deixou de ler. E deixou de se preocupar.
Admiramo-nos quando as reportagens de Ambiente marcam poucos pontos nos inqueritos de leitores. Queixamo-nos que os investigadores e politicos nos dao sempre a mesma informaca basica. Mas nalgum ponto da estrada, teremos de parar, imaginar novas solucoes e voltar a interessar os leitores.
Uma das facetas mais fatigantes da cobertura noticiosa do Ambiente e o catastrofismo. Pintamos o mundo de negro, como essa fosse a nossa missao. Ha uns anos, publiquei, entre uma serie de reportagens sobre especies ameacadas, uma reportagem sobre o veado na serra da Lousa e o inacreditavel sucesso do projecto de reintroducao do animal. Recebemos um rio de cartas e e-mails - cinco, dez, vinte vezes mais feed-back do que o normal. Porque? Porque as pessoas reagiram, com alegria, a uma historia bem contada (a modestia em excesso e a vaidade dos tolos) e com um final feliz. E nos descobrimos que, para escrever sobre Ambiente, nao e necessario colocar os oculos escuros e narrar as sombras. Tambem ha luz no jornalismo de Ambiente e Conservacao.
quinta-feira, março 30, 2006
Boa Nova
O último relatório trimestral da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens (APCT) traz uma novidade pouco badalada, mas muito interessante para a credibilização do sector. Pela primeira vez, a APCT discrimina, na análise da circulação paga de cada publicação inscrita, as “vendas em bloco”. Pela primeira vez, portanto, torna-se visível a olho nu a diferença entre um título que vende 20 mil exemplares em banca e outro que vende cinco mil em banca e escoa os restantes em acordos de circulação – ou seja, vende alguns milhares de exemplares a empresas que, utilizando listas de endereços de alguns dos seus clientes, oferece a publicação em causa durante determinado período de tempo.
Dirá o leitor que a alteração é pouco significativa. Não é. As agências de meios decidem o destino do seu investimento publicitário de acordo com os dados de circulação paga e com os dados de audiência fornecidos pelo Bareme. Até aqui, estas agências não dispunham de toda a informação disponível sobre a vitalidade de um título. Convenhamos que não será a mesma coisa comprar espaço publicitário numa revista/jornal que venda efectivamente 20 mil exemplares ou comprar numa publicação rival que, embora circule os mesmos 20 mil exemplares, só vende cinco mil. Porquê? Porque temos de assumir que uma boa percentagem das pessoas que receberão em casa a oferta da revista X ou Y nem a abrirão. Ou, na melhor das hipóteses, não lhe dedicarão a mesma atenção do que o fariam se a tivessem comprado voluntariamente. No mesmo exemplo, há portanto vinte mil exemplares vendidos (porque os acordos de circulação implicam a venda da publicação à tal empresa, embora a preço unitário muitas vezes baixíssimo), mas esse número é empolado.
Para além de constituirem interessantes ferramentes de gestão do investimento publicitário (a receita maioritária para quase todas as publicações), os dados das “vendas em bloco” permitem também uma análise mais rigorosa ao mercado. Poupar-vos-ei os detalhes sobre publicações específicas, uma vez que o relatório da APCT está disponível apenas através de assinatura, mas chega a ser assustador como algumas publicações sobrevivem com circulações reais (bem) abaixo dos dez mil exemplares.
São revistas e jornais artificiais. Morfologicamente estão mortas, mas continuam ligadas à máquina que respira por elas. Até ao dia em que alguém desliga a ficha.
Dirá o leitor que a alteração é pouco significativa. Não é. As agências de meios decidem o destino do seu investimento publicitário de acordo com os dados de circulação paga e com os dados de audiência fornecidos pelo Bareme. Até aqui, estas agências não dispunham de toda a informação disponível sobre a vitalidade de um título. Convenhamos que não será a mesma coisa comprar espaço publicitário numa revista/jornal que venda efectivamente 20 mil exemplares ou comprar numa publicação rival que, embora circule os mesmos 20 mil exemplares, só vende cinco mil. Porquê? Porque temos de assumir que uma boa percentagem das pessoas que receberão em casa a oferta da revista X ou Y nem a abrirão. Ou, na melhor das hipóteses, não lhe dedicarão a mesma atenção do que o fariam se a tivessem comprado voluntariamente. No mesmo exemplo, há portanto vinte mil exemplares vendidos (porque os acordos de circulação implicam a venda da publicação à tal empresa, embora a preço unitário muitas vezes baixíssimo), mas esse número é empolado.
Para além de constituirem interessantes ferramentes de gestão do investimento publicitário (a receita maioritária para quase todas as publicações), os dados das “vendas em bloco” permitem também uma análise mais rigorosa ao mercado. Poupar-vos-ei os detalhes sobre publicações específicas, uma vez que o relatório da APCT está disponível apenas através de assinatura, mas chega a ser assustador como algumas publicações sobrevivem com circulações reais (bem) abaixo dos dez mil exemplares.
São revistas e jornais artificiais. Morfologicamente estão mortas, mas continuam ligadas à máquina que respira por elas. Até ao dia em que alguém desliga a ficha.
terça-feira, março 07, 2006
Só Mais Uns Dias
Se não fosse português, julgo que seria alemão. Pelo menos, é disso que frequentemente me acusam, tamanha é a minha obsessão pelo cumprimento de prazos e horários.
Quando frequentei a licenciatura, fazia regularmente noitadas para cumprir os prazos de entrega de trabalhos. E era costume chegar à faculdade, de olhos avermelhados pelo esforço, e cruzar-me com colegas descontraídos, que também tinham lá ido, mas para pedir adiamento da sentença.
Terminei a licenciatura acreditando no mito de que, noutros patamares académicos, a rebaldaria horária deveria ser regulada. Que nos mestrados a coisa fiaria mais fina.
Cheguei ao mestrado e deparei sensivelmente com a mesma situação: prazos falhados, permissividade de alguns docentes, entregas de trabalhos adiadas para as calendas gregas.
Depositei esperança na crença de que, no doutoramento, patamar último da aprendizagem, a fasquia seria finalmente colocada com firmeza, intransponível ao abuso.
Esta semana, começou o 2.º semestre do programa de doutoramento que frequento. Esfalfei-me a valer para entregar os textos pedidos dentro do apertado intervalo temporal exigido.
Chegou o dia do primeiro seminário de segundo semestre e escutei, abismado:
Bom, recebemos tão poucos trabalhos, que vamos adiar o prazo de entrega para os restantes candidatos até Setembro (!?!).
E agora, senhores, vou acreditar em quê?
Quando frequentei a licenciatura, fazia regularmente noitadas para cumprir os prazos de entrega de trabalhos. E era costume chegar à faculdade, de olhos avermelhados pelo esforço, e cruzar-me com colegas descontraídos, que também tinham lá ido, mas para pedir adiamento da sentença.
Terminei a licenciatura acreditando no mito de que, noutros patamares académicos, a rebaldaria horária deveria ser regulada. Que nos mestrados a coisa fiaria mais fina.
Cheguei ao mestrado e deparei sensivelmente com a mesma situação: prazos falhados, permissividade de alguns docentes, entregas de trabalhos adiadas para as calendas gregas.
Depositei esperança na crença de que, no doutoramento, patamar último da aprendizagem, a fasquia seria finalmente colocada com firmeza, intransponível ao abuso.
Esta semana, começou o 2.º semestre do programa de doutoramento que frequento. Esfalfei-me a valer para entregar os textos pedidos dentro do apertado intervalo temporal exigido.
Chegou o dia do primeiro seminário de segundo semestre e escutei, abismado:
Bom, recebemos tão poucos trabalhos, que vamos adiar o prazo de entrega para os restantes candidatos até Setembro (!?!).
E agora, senhores, vou acreditar em quê?
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Intragável Discurso Científico
Por estes dias, por força de obrigações profissionais, tenho devorado centenas de páginas de produção científica formal. Alguns dos artigos são tão vagos e imprecisos que me lembram, irremediavelmente, a famosa tabela de Gilbert e Mulkay, inserida num capítulo apropriadamente chamado “Joking Apart” do livro “Opening Pandora’s Box”.
Usando a versão traduzida de Pierre Bourdieu (2001), a tabela é mais ou menos assim:
Quando um cientista escreve: Há muito que se sabe… Quer realmente dizer: Não me dei ao trabalho de procurar a referência.
Quando um cientista escreve: Embora não me tenha sido possível dar respostas definitivas a estas questões. Quer realmente dizer: A experiência não resultou, mas pensei que poderia pelo menos publicar qualquer coisa sobre ela.
Quando um cientista escreve: Três das amostras foram escolhidas após um estudo pormenorizado. Quer realmente dizer: Os resultados das outras não tinham qualquer sentido e foram ignoradas.
Quando um cientista escreve: Danificado acidentalmente durante a montagem. Quer realmente dizer: Caiu ao chão!
Quando um cientista escreve: De grande importância teórica e prática. Quer realmente dizer: Interessante para mim.
Quando um cientista escreve: Sugere-se ou Sabe-se que Quer realmente dizer: Eu penso que.
Quando um cientista escreve: Reconhece-se geralmente que… Quer realmente dizer: Outros tipos também pensam assim!
Usando a versão traduzida de Pierre Bourdieu (2001), a tabela é mais ou menos assim:
Quando um cientista escreve: Há muito que se sabe… Quer realmente dizer: Não me dei ao trabalho de procurar a referência.
Quando um cientista escreve: Embora não me tenha sido possível dar respostas definitivas a estas questões. Quer realmente dizer: A experiência não resultou, mas pensei que poderia pelo menos publicar qualquer coisa sobre ela.
Quando um cientista escreve: Três das amostras foram escolhidas após um estudo pormenorizado. Quer realmente dizer: Os resultados das outras não tinham qualquer sentido e foram ignoradas.
Quando um cientista escreve: Danificado acidentalmente durante a montagem. Quer realmente dizer: Caiu ao chão!
Quando um cientista escreve: De grande importância teórica e prática. Quer realmente dizer: Interessante para mim.
Quando um cientista escreve: Sugere-se ou Sabe-se que Quer realmente dizer: Eu penso que.
Quando um cientista escreve: Reconhece-se geralmente que… Quer realmente dizer: Outros tipos também pensam assim!
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Especialidade portuguesa

Há países que se podem gabar de ter introduzido novos conceitos nas relações laborais. A semana de 35 horas, o contrato colectivo, o direito à livre associação... Portugal, país de vistas curtas, doou ao mundo a prateleira.
Cruzamo-nos com o professor universitário, que se lamenta: "Estou na prateleira. Reduziram-me os projectos e as horas de aula." Trocamos palavras com o relações públicas e ficamos a saber: "A administração mudou e colocaram-me na prateleira."
Entre o quadro de jornalistas da nação, então, o problema é elevado à potência dez. Percentagens assustadoras de jornalistas estão "encostados", eufemismo moderno para a velha prateleira: parados, sem serviço palpável, num braço de ferro silencioso entre chefias e repórteres ou entre administração e redacção.
Pense no seu jornal favorito, eleja o nome de três dos seus jornalistas preferidos (se os tem...) e faça o teste: há quanto tempo não vê nada publicado por um deles? O mais provável é... que ele esteja na prateleira!
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Qualquer dia...
... o "Público" vai escrever que Catarina Eufémia nem sequer foi assassinada. Esbarrou acidentalmente com três balas.
domingo, outubro 30, 2005
Referências
Como se atribui o estatuto de referência a uma publicação? É por decreto régio que o “Expresso” é semanário de referência? É por autoproclamação que o “Público” é diário ímpar? Foram os pares que fizeram da “Visão” a revista semanal de eleição? Não. O estatuto de referência de um jornal ou revista é resultado de uma partilha implícita entre a publicação e a sua comunidade de leitores – partilha de valores, de escolhas, de prioridades e até de opinião face aos temas que marcam a sociedade portuguesa. Não são os especialistas de marketing que reposicionam um título como jornal de referência. Esta relação constrói-se durante meses e destrói-se numa só edição. Não se é de referência porque se quer. O estatuto é, acima de tudo, uma distinção que os outros nos dão. Ou não.
Nesta semana, não houve alma penada que não marcasse os 250 anos do terramoto de 1755. Li bons trabalhos na imprensa portuguesa. E outros menos bons. Li perspectivas ousadas (a “Pública” de hoje é excelente) e abordagens cretinas (abstenho-me, por solidariedade corporativa, de as discriminar).
Detenho-me no tratamento concedido às imagens históricas. Por definição, uma reportagem que visa vasculhar um evento no tempo necessita de iconografia de época. A sua identificação correcta e rigorosa é, em primeiro lugar, um serviço ao leitor. Não há nada mais frustrante do que encontrar o quadro, a gravura ou o mapa desejados despojados das referências ao autor, ao tipo de suporte e ao detentor do espólio.
Por outro lado, os direitos morais do autor não expiram passados 250 anos. É de mera justiça que se continue a creditar devidamente a autoria de uma gravura, mesmo que o autor da mesma e respectiva descendência esteja há muito para lá do Lestes. Se se credita, com tanto rigor, uma fotografia captada na véspera, não há motivo para esconder o nome do artista que produziu no passado a gravura, quadro ou mapa. Excepto se se tiver impresso a obra por baixo da mesa, sem autorização formal (e os novos scanners são uma maravilha!)
Por fim, parece-me típica de um certo chico-espertismo nacional a opção de recolher a mesma gravura de uma fonte internacional simplesmente para não ter de lidar com os preçários e disposições legais das instituições museológicas portuguesas. Uma curta visita ao Museu da Cidade em Lisboa revelará aos leitores onde estão os originais das principais iconografias utilizadas nos trabalhos jornalísticos dos últimos dias. Alguns submeteram-se aos critérios (admito que maçadores) do Museu e creditaram-nos rigorosamente. Outros não. Uns são de referência. Outros dizem que são.
Nesta semana, não houve alma penada que não marcasse os 250 anos do terramoto de 1755. Li bons trabalhos na imprensa portuguesa. E outros menos bons. Li perspectivas ousadas (a “Pública” de hoje é excelente) e abordagens cretinas (abstenho-me, por solidariedade corporativa, de as discriminar).
Detenho-me no tratamento concedido às imagens históricas. Por definição, uma reportagem que visa vasculhar um evento no tempo necessita de iconografia de época. A sua identificação correcta e rigorosa é, em primeiro lugar, um serviço ao leitor. Não há nada mais frustrante do que encontrar o quadro, a gravura ou o mapa desejados despojados das referências ao autor, ao tipo de suporte e ao detentor do espólio.
Por outro lado, os direitos morais do autor não expiram passados 250 anos. É de mera justiça que se continue a creditar devidamente a autoria de uma gravura, mesmo que o autor da mesma e respectiva descendência esteja há muito para lá do Lestes. Se se credita, com tanto rigor, uma fotografia captada na véspera, não há motivo para esconder o nome do artista que produziu no passado a gravura, quadro ou mapa. Excepto se se tiver impresso a obra por baixo da mesa, sem autorização formal (e os novos scanners são uma maravilha!)
Por fim, parece-me típica de um certo chico-espertismo nacional a opção de recolher a mesma gravura de uma fonte internacional simplesmente para não ter de lidar com os preçários e disposições legais das instituições museológicas portuguesas. Uma curta visita ao Museu da Cidade em Lisboa revelará aos leitores onde estão os originais das principais iconografias utilizadas nos trabalhos jornalísticos dos últimos dias. Alguns submeteram-se aos critérios (admito que maçadores) do Museu e creditaram-nos rigorosamente. Outros não. Uns são de referência. Outros dizem que são.
segunda-feira, outubro 03, 2005
Em Hibernação
Por manifesta impossibilidade, tenho descuidado a actualização do blogue. A partir de dia 10 de Outubro, conto retomar a actividade bloguística. Aos leitores, as minhas desculpas pela hibernação forçada do Ecosfera.
terça-feira, setembro 13, 2005
Responsabilidade na Blogosfera
Há semanas, ao consultar o blogue A Sul, deparei com um "post" interessantíssimo, onde se procurava ponderar as vantagens e desvantagens da construção do centro de estágios do Benfica no Seixal, em terrenos parcialmente inseridos em Reserva Ecológica. Não comentarei neste espaço a minha opinião particular sobre esse projecto em si, apadrinhado pela câmara local e com contrapartidas urbanísticas muito concretas. Para o caso, interessa-me apenas relatar o que se passou a seguir.
Pelo que dei conta, o blogue foi positivamente assaltado por leitores anónimos. Em 31 comentários, apenas dois estavam assinados com o nome do autor [um deles era meu]. Os restantes eram anónimos ou (ab)usavam de "nicknames".
Não contesto o princípio de utilização de alcunhas ou diminutivos na blogosfera. Parte do fascínio deste mundo virtual é precisamente a informalidade inerente à multiplicação de personalidades. Mas, como em tudo, há forçosamente fronteiras que deveriam ser respeitadas.
O insulto e a difamação também se escondem sob o manto dos "nicknames" ou do anonimato cobarde, que permite lançar pedras escondendo virtualmente a mão de quem as lançou.
No longo rol de acusações partidárias e desportivas [houve quem julgasse o citado projecto à luz da rivalidade Benfica-Sporting!?!] que ali foram escarrapachadas, há interesses institucionais bem evidentes e foi seguramente por isso que as vozes mais agressivas se mantiveram discretamente na turba.
Em "Júlio César", Shakespeare argumenta que os cobardes morrem várias vezes antes da sua morte, enquanto o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez. Não partilho o optimismo. É que Shakespeare não conhecia a blogosfera, o novo espaço público onde responsabilidade e anonimato caminham de mão dada.
Pelo que dei conta, o blogue foi positivamente assaltado por leitores anónimos. Em 31 comentários, apenas dois estavam assinados com o nome do autor [um deles era meu]. Os restantes eram anónimos ou (ab)usavam de "nicknames".
Não contesto o princípio de utilização de alcunhas ou diminutivos na blogosfera. Parte do fascínio deste mundo virtual é precisamente a informalidade inerente à multiplicação de personalidades. Mas, como em tudo, há forçosamente fronteiras que deveriam ser respeitadas.
O insulto e a difamação também se escondem sob o manto dos "nicknames" ou do anonimato cobarde, que permite lançar pedras escondendo virtualmente a mão de quem as lançou.
No longo rol de acusações partidárias e desportivas [houve quem julgasse o citado projecto à luz da rivalidade Benfica-Sporting!?!] que ali foram escarrapachadas, há interesses institucionais bem evidentes e foi seguramente por isso que as vozes mais agressivas se mantiveram discretamente na turba.
Em "Júlio César", Shakespeare argumenta que os cobardes morrem várias vezes antes da sua morte, enquanto o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez. Não partilho o optimismo. É que Shakespeare não conhecia a blogosfera, o novo espaço público onde responsabilidade e anonimato caminham de mão dada.
segunda-feira, setembro 12, 2005
Agulhas Acertadas
Não escondo a discordância com o modelo de gestão da rede de áreas protegidas proposto por João Menezes, então ainda como economista renomado. Mas é de legítima justiça elogiar o actual presidente do Instituto da Conservação da Natureza (ICN), que navegou, seguro, num mar de instabilidade política ao longo destes dez meses de mandato. Escolhido pelo executivo anterior, foi confirmado durante o período do governo de gestão e reconfirmado pela maioria socialista. Em nenhum momento, João Menezes politizou o ICN, o que é salutar. Deveria ser regra na República, mas tem sido excepção.
Releio agora passagens do seu discurso de tomada de posse e constato que, em Dezembro, o novel presidente anunciara a intenção ousada de proceder à rápida aprovação dos planos de ordenamento de parques e reservas ainda omissos, bem como a delimitação de reservas ecológicas e respectivos regulamentos. Estamos em Setembro e, no seu mandato, o Parque Natural da Arrábida, a Orla Costeira Vilamoura-Vila Real de Santo António, o Parque Natural do Douro Internacional, a Paisagem Protegida do Litoral de Esposende, as Albufeiras de Santa Água, Pisco, Tapada Grande, Divor e Alvito e as Reservas Ecológicas de Castelo Branco, Fundão, Mértola, Évora e Arraiolos foram finalmente dotados(as) dos indispensáveis instrumentos de governação. Leio agora, através de anúncio publicado no jornal "Público", que outras três áreas protegidas iniciarão o penoso e protocolar processo de discussão dos respectivos planos de ordenamento.
Ao mesmo tempo, foram transpostas para a legislação nacional as Directivas Aves e Habitats e a bem mais importante Lei-Quadro da Água. Apesar da desilusão que marcou o conhecimento público da essência do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida, transparece a ideia de que a gestão ambiental portuguesa recomeça a entrar nos eixos. Para um comboio na iminência do descarrilamento, não está mau.
Releio agora passagens do seu discurso de tomada de posse e constato que, em Dezembro, o novel presidente anunciara a intenção ousada de proceder à rápida aprovação dos planos de ordenamento de parques e reservas ainda omissos, bem como a delimitação de reservas ecológicas e respectivos regulamentos. Estamos em Setembro e, no seu mandato, o Parque Natural da Arrábida, a Orla Costeira Vilamoura-Vila Real de Santo António, o Parque Natural do Douro Internacional, a Paisagem Protegida do Litoral de Esposende, as Albufeiras de Santa Água, Pisco, Tapada Grande, Divor e Alvito e as Reservas Ecológicas de Castelo Branco, Fundão, Mértola, Évora e Arraiolos foram finalmente dotados(as) dos indispensáveis instrumentos de governação. Leio agora, através de anúncio publicado no jornal "Público", que outras três áreas protegidas iniciarão o penoso e protocolar processo de discussão dos respectivos planos de ordenamento.
Ao mesmo tempo, foram transpostas para a legislação nacional as Directivas Aves e Habitats e a bem mais importante Lei-Quadro da Água. Apesar da desilusão que marcou o conhecimento público da essência do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida, transparece a ideia de que a gestão ambiental portuguesa recomeça a entrar nos eixos. Para um comboio na iminência do descarrilamento, não está mau.
sexta-feira, agosto 26, 2005
Pela Porta do Cavalo
Praticamente desde o dia em que o primeiro comerciante decidiu que valeria a pena trocar parte da sua mercadoria excedentária com outro ser humano que as relações comerciais se baseiam na boa fé. Um contrato apalavrado servia de vínculo. Um aperto de mão fechava o acordo. Pressuponha-se que os dois, ou mais, parceiros comerciais cumpririam as suas obrigações contratuais. Provavelmente, a prática foi válida até ao dia em que alguém abusou da boa fé e modificou os termos do acordo a meio da operação. E a confiança nunca mais foi o fiel da balança.
Sem tirar nem pôr, foi isso claramente que o Estado português fez no longo e inútil processo de discussão do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (POPNArr). Organizou sessões de discussão pública, levantamentos de peritagem, revisões e mais revisões do texto original. Em vão. Gastou-se saliva e retórica em Sesimbra, Palmela e Setúbal.
A publicação sorrateira do novo POPNArr no “Diário da República” tem como primeira leitura o total desrespeito pelas várias propostas – válidas e inválidas – lançadas em sede própria, nas sessões de discussão pública. É um documento cego perante a realidade com que foi confrontado no terreno. Mas isso já esperava, admito. As sessões de discussão pública em Portugal normalmente são uma fase inútil, mas essencial, na longa encenação da democracia participativa da República. Servem para marcar o ponto e permitem ao governante segurar o documento final na Assembleia, elevá-lo bem alto e dizer: “Eu escutei o povo. A sua voz para aqui verteu nobres advertências”. As sessões de discussão pública estão para o governo da nação como as reuniões de condóminos para a gestão dos imóveis: são uma maçada protocolar.
Retiro da acta da sessão de discussão pública de Palmela, em 12 de Março de 2003, a seguinte passagem: «De uma forma geral, o público presente está contra esta proposta de Plano de Ordenamento e sugere que se devia começar tudo de novo, começando por ouvir as populações e invocando o direito à participação (…)» Resposta protocolar: não se mexeu na essência do POPNA. Mas era esperado.
Não esperava porém o incrível volte-face que marcou a publicação do documento. Qual Nevile Chamberlain em Berchtesgaden (1938), radiante por trazer um documento assinado por Hitler, o Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional faz publicar o POPNArr, onde, a certo passo, consta:
«[Está proibida] a deposição ou armazenamento, ainda que temporário, de entulhos, de inertes ou de qualquer tipo de resíduos, excepto se relacionados com as actividades previstas nos artigos 29.º e 30.º»
E o que dizem os inócuos artigos em causa? Abrangem a actividade extractiva (flagelo que assola a Arrábida há pelo menos quatro décadas e que continua com carta branca ad eternum) e a indústria cimenteira. Neste caso, «ficam sujeitas a avaliação de impacte ambiental todas as alterações de actividade industrial e de extracção de inertes dentro do perímetro definido na planta síntese como indústria cimenteira, nomeadamente ampliação de instalações, alteração de características ou de funcionamento.» Ou seja, o iluminado que redigiu este artigo excluiu a proibição expressa de co-incineração nas cimenteiras da região. Como diria Churchill, o apaziguador é o homem que alimenta o crocodilo na esperança de ser o último devorado. Mas sê-lo-á mais cedo ou mais tarde.
Há mais uma surpresa. A versão que foi dada a discutir aos parceiros incluía uma limitação de superfície destinada à actividade extractiva das pedreiras. Na versão publicada, o limite (entre as cotas 120 – 40 metros) desapareceu com pózinhos de perlimpimpim. Não há portanto limites à extracção das pedreiras. Para a serra e em força, é a mensagem enviada aos crocodilos.
Posto isto, para quem se congratulou pela invulgar presença de políticos “verdes” neste executivo, resta a satisfação inequívoca de valer mesmo a pena ter personalidades influentes em lugares importantes.
Sem tirar nem pôr, foi isso claramente que o Estado português fez no longo e inútil processo de discussão do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (POPNArr). Organizou sessões de discussão pública, levantamentos de peritagem, revisões e mais revisões do texto original. Em vão. Gastou-se saliva e retórica em Sesimbra, Palmela e Setúbal.
A publicação sorrateira do novo POPNArr no “Diário da República” tem como primeira leitura o total desrespeito pelas várias propostas – válidas e inválidas – lançadas em sede própria, nas sessões de discussão pública. É um documento cego perante a realidade com que foi confrontado no terreno. Mas isso já esperava, admito. As sessões de discussão pública em Portugal normalmente são uma fase inútil, mas essencial, na longa encenação da democracia participativa da República. Servem para marcar o ponto e permitem ao governante segurar o documento final na Assembleia, elevá-lo bem alto e dizer: “Eu escutei o povo. A sua voz para aqui verteu nobres advertências”. As sessões de discussão pública estão para o governo da nação como as reuniões de condóminos para a gestão dos imóveis: são uma maçada protocolar.
Retiro da acta da sessão de discussão pública de Palmela, em 12 de Março de 2003, a seguinte passagem: «De uma forma geral, o público presente está contra esta proposta de Plano de Ordenamento e sugere que se devia começar tudo de novo, começando por ouvir as populações e invocando o direito à participação (…)» Resposta protocolar: não se mexeu na essência do POPNA. Mas era esperado.
Não esperava porém o incrível volte-face que marcou a publicação do documento. Qual Nevile Chamberlain em Berchtesgaden (1938), radiante por trazer um documento assinado por Hitler, o Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional faz publicar o POPNArr, onde, a certo passo, consta:
«[Está proibida] a deposição ou armazenamento, ainda que temporário, de entulhos, de inertes ou de qualquer tipo de resíduos, excepto se relacionados com as actividades previstas nos artigos 29.º e 30.º»
E o que dizem os inócuos artigos em causa? Abrangem a actividade extractiva (flagelo que assola a Arrábida há pelo menos quatro décadas e que continua com carta branca ad eternum) e a indústria cimenteira. Neste caso, «ficam sujeitas a avaliação de impacte ambiental todas as alterações de actividade industrial e de extracção de inertes dentro do perímetro definido na planta síntese como indústria cimenteira, nomeadamente ampliação de instalações, alteração de características ou de funcionamento.» Ou seja, o iluminado que redigiu este artigo excluiu a proibição expressa de co-incineração nas cimenteiras da região. Como diria Churchill, o apaziguador é o homem que alimenta o crocodilo na esperança de ser o último devorado. Mas sê-lo-á mais cedo ou mais tarde.
Há mais uma surpresa. A versão que foi dada a discutir aos parceiros incluía uma limitação de superfície destinada à actividade extractiva das pedreiras. Na versão publicada, o limite (entre as cotas 120 – 40 metros) desapareceu com pózinhos de perlimpimpim. Não há portanto limites à extracção das pedreiras. Para a serra e em força, é a mensagem enviada aos crocodilos.
Posto isto, para quem se congratulou pela invulgar presença de políticos “verdes” neste executivo, resta a satisfação inequívoca de valer mesmo a pena ter personalidades influentes em lugares importantes.
quinta-feira, agosto 18, 2005
Mestria Presidencial
"All the President’s Spin" é um livro notável, publicado no final do ano passado por um trio de blogueiros que se dedica exclusivamente a analisar o discurso presidencial de George W. Bush e a sua relação directa com a realidade factual. Não é, asseguram os autores, um manifesto de contestação ao programa de governo de Bush. Disso, se encarregam outros livros. Ben Fritz, Bryan Keefer e Brendan Nyhan colocam o enfoque no campo jornalístico do discurso: que correspondência têm as declarações públicas deste (e de outros) presidente com a realidade factual? Que tipo de estratégias de Relações Públicas são usadas por esta administração para fazer passar a mensagem? Que tipo de pudor, ou falta dele, norteiam o discurso público, quando a missão primordial se tornou a persuasão de massas?
Um exemplo clássico: "Em Agosto de 2001, o presidente Bush anunciou uma nova regulamentação para a utilização de células estaminais em projectos de pesquisa biomédica financiados pelas entidades federais. ‘Existem já mais de sessenta linhas de células estaminais geneticamente diversificadas’, anunciou ele, num discurso transmitido pela televisão. Concluiu por isso que ‘devemos atribuir fundos federais apenas para utilização em pesquisa nestas linhas de células estaminais já existentes’"
Desejosos de obter acesso a estas linhas ‘já existentes’, os investigadores rapidamente perceberam o logro, quando Tommy Thompson, secretário de Estado para a Saúde e Serviços Humanos, admitiu que apenas 24 ou 25 linhas estavam na verdade ‘totalmente desenvolvidas’." (tradução da minha autoria)
Concluem os autores: "Embora 60 linhas, de facto, existissem, era imprevisível se muitas delas ficariam disponíveis para os investigadores (…) Estas declarações públicas são verdadeiras, mas as palavras de Bush são cuidadosamente seleccionadas para deixar uma falsa impressão. O presidente consegue esgueirar-se evitando a acusação de ter mentido, ao mesmo tempo que mantém, inalterado, o seu programa. Uma das principais razões [para esta estratégia funcionar] é o facto de as declarações assentarem numa verdade parcial sobre um tema extremamente complexo. (…) E estes logros abrangem quase todas as principais medidas do executivo." (tradução da minha autoria).
A difusão de falsas premissas - tecnicamente correctas, mas não totalmente verdadeiras - é apenas uma das estratégias identificadas em "All the President's Spin". A administração Bush tornou-se também hábil na designação de nomes sonantes para planos pouco ousados. Quem ousa abertamente contestar um plano ambiental apelidado de "Florestas Saudáveis" ou um pacote legislativo sobre poluição atmosférica apelidado de "Céus Mais Limpos"? O rótulo das regulamentações propostas condiciona a cobertura mediática, defendem os autores.
Bush tornou-se igualmente mestre na arte de designação de premissas não verificáveis. Quando ligou o Sudão a processos de enriquecimento de urânio ou acusou Saddam de ter papel activo nos atentados de 11 de Setembro, o presidente sabia antecipadamente que estas premissas não eram facilmente negáveis. Poucos no mundo poderiam refutar abertamente a acusação. E, entretanto, o jornalista amplificou mais uma história presidencial.
Fritz, Keefer e Nyhan juntam ainda a terrível hostilidade da administração Bush face aos jornalistas como um elemento adicional da estratégia de condicionamento da cobertura noticiosa. Os ataques directos a jornalistas autores de histórias desfavoráveis prejudicam o jornal perante a audiência e dificultam a tarefa do repórter em ocasiões futuras. Os autores do livro argumentam que assim se dificulta a acção contrária de jornalistas mais intervenientes.
Desenganem-se, porém, os detractores da administração Bush. O livro procura historiar o namoro crescente entre os presidentes norte-americanos e a arte das relações públicas. O século XX marca o início da era da campanha permanente, escreveu Sydney Blumenthal. Este livro procura demonstrar a veracidade da premissa.
Woodrow Wilson, em 1917, criou um Comité de Informação Pública, destinado a assegurar apoios para a campanha americana na Primeira Grande Guerra. A utilização de fotografia e cinema deram início à era dos media visuais aplicados à persuasão política. Com sucesso.
Em 1920, Warren Harding recorreu a um publicitário para ganhar a eleição. Habituado a vender carne fumada e outros produtos de supermercado, o publicitário pouco teve de mudar na sua abordagem profissional de um político. Deu-lhe visibilidade, fornecendo a informação de que os media necessitavam em formatos consumíveis. Harding foi assim o primeiro político a dar o lançamento de saída de jogos de basebol, participou em conferências de imprensa com trajes desportivos, iniciou a era das frases curtas e simbólicas, em que a declaração é apenas mais um elemento, num cenário de luzes e cores.
De Franklin D. Roosevelt herdou o mundo os primeiros gabinetes de relações públicas inseridos em vários ministérios-chave e destinados a ampliar os sucessos quotidianos e a esconder os falhanços embaraçosos. O uso da rádio fez também furor nos três mandatos de Roosevelt, que a utilizou sagazmente.
A televisão foi aproveitada ao máximo por John F. Kennedy, na década de 1960. À vontade perante a câmara, Kennedy tornou-se mestre na arte de domesticação dos media para anúncios de política em directo. Datam desta presidência as primeiras conferências de imprensa transmitidas em directo.
De Nixon, apesar da saída tempestuosa de cena, a América conheceu um espantoso Gabinete de Comunicações, que coordenava sondagens regulares de opinião – elas sim, a verdadeira bússola da administração Pouco hábil perante as câmaras, Nixon abdicou das entrevistas em directo e privilegiou os esforços de controlo dos jornalistas que normalmente cobrem a actualidade noticiosa da Casa Branca. Percebeu correctamente que, controlando o Press Corps, controlaria grande parte do fluxo noticioso sobre si.
Reagan apreciou os mandatos de Nixon e melhorou o estilo. Foi o primeiro a explorar as estratégias modernas de Relações Públicas, incluindo aparições mediáticas em fundos dramáticos (quem não se lembra do espantoso fundo azul, com estrelas brancas, em que Reagan deu a notícia da nova corrida espacial em que a América se lançara?) e a utilização de linguagem testada previamente em grupos de controlo.
Uma história serve de metáfora para os dois mandatos de Reagan, dizem os autores do livro :
A correspondente da CBS difundiu uma notícia sobre as discrepâncias entre as declarações públicas do presidente e as políticas efectivamente desenvolvidas. Ao fazê-lo, esperava críticas veementes da administração. Qual não foi o espanto quando escutou, de um dos conselheiros do presidente, um "agradecimento"? "Quando mostras quatro minutos e meio de grandes imagens de Reagan, nas suas declarações públicas por nós ensaiadas, em fundos dramáticos e cativantes, ninguém escuta o que tu estás a dizer em fundo. Só fixam o presidente"
Clinton modernizou a abordagem mediática e aplicou o conceito de grupos de discussão interna, destinados a colocar o presidente sob fogo mediático em sessões de ensaio de perguntas incómodas. Tal como Bush, também jogou com as palavras: quem não se lembra da ilusão de Clinton: "Não tive relações sexuais com essa mulher". Uma meia verdade no meio da mentira.
A eficaz estratégia de Bush é pois legítima herdeira de décadas de relação tensa entre o poder político, os meios de comunicação e a audiência. Um jogo do gato e do rato, no qual o rato tenta continuamente iludir o predador, alimentando-o com meias verdades – nada absolutamente falso, mas também nada totalmente verdadeiro - e com técnicas arrojadas de venda.
Diz Chris Matthews, da PBS, a propósito dos meses que se seguiram à guerra do Iraque: "Nunca nos ocorreu o que iria acontecer depois do fim das hostilidades abertas. Fomos tão bombardeados com a "guerra de libertação", que nunca nos ocorreu indagar o que aconteceria depois. Pensámos sempre em libertação porque era essa a formatação do discurso presidencial. Hoje, pensamos claramente em ocupação e não apenas em libertação."
Um livro a ler, asseguro.
Um exemplo clássico: "Em Agosto de 2001, o presidente Bush anunciou uma nova regulamentação para a utilização de células estaminais em projectos de pesquisa biomédica financiados pelas entidades federais. ‘Existem já mais de sessenta linhas de células estaminais geneticamente diversificadas’, anunciou ele, num discurso transmitido pela televisão. Concluiu por isso que ‘devemos atribuir fundos federais apenas para utilização em pesquisa nestas linhas de células estaminais já existentes’"
Desejosos de obter acesso a estas linhas ‘já existentes’, os investigadores rapidamente perceberam o logro, quando Tommy Thompson, secretário de Estado para a Saúde e Serviços Humanos, admitiu que apenas 24 ou 25 linhas estavam na verdade ‘totalmente desenvolvidas’." (tradução da minha autoria)
Concluem os autores: "Embora 60 linhas, de facto, existissem, era imprevisível se muitas delas ficariam disponíveis para os investigadores (…) Estas declarações públicas são verdadeiras, mas as palavras de Bush são cuidadosamente seleccionadas para deixar uma falsa impressão. O presidente consegue esgueirar-se evitando a acusação de ter mentido, ao mesmo tempo que mantém, inalterado, o seu programa. Uma das principais razões [para esta estratégia funcionar] é o facto de as declarações assentarem numa verdade parcial sobre um tema extremamente complexo. (…) E estes logros abrangem quase todas as principais medidas do executivo." (tradução da minha autoria).
A difusão de falsas premissas - tecnicamente correctas, mas não totalmente verdadeiras - é apenas uma das estratégias identificadas em "All the President's Spin". A administração Bush tornou-se também hábil na designação de nomes sonantes para planos pouco ousados. Quem ousa abertamente contestar um plano ambiental apelidado de "Florestas Saudáveis" ou um pacote legislativo sobre poluição atmosférica apelidado de "Céus Mais Limpos"? O rótulo das regulamentações propostas condiciona a cobertura mediática, defendem os autores.
Bush tornou-se igualmente mestre na arte de designação de premissas não verificáveis. Quando ligou o Sudão a processos de enriquecimento de urânio ou acusou Saddam de ter papel activo nos atentados de 11 de Setembro, o presidente sabia antecipadamente que estas premissas não eram facilmente negáveis. Poucos no mundo poderiam refutar abertamente a acusação. E, entretanto, o jornalista amplificou mais uma história presidencial.
Fritz, Keefer e Nyhan juntam ainda a terrível hostilidade da administração Bush face aos jornalistas como um elemento adicional da estratégia de condicionamento da cobertura noticiosa. Os ataques directos a jornalistas autores de histórias desfavoráveis prejudicam o jornal perante a audiência e dificultam a tarefa do repórter em ocasiões futuras. Os autores do livro argumentam que assim se dificulta a acção contrária de jornalistas mais intervenientes.
Desenganem-se, porém, os detractores da administração Bush. O livro procura historiar o namoro crescente entre os presidentes norte-americanos e a arte das relações públicas. O século XX marca o início da era da campanha permanente, escreveu Sydney Blumenthal. Este livro procura demonstrar a veracidade da premissa.
Woodrow Wilson, em 1917, criou um Comité de Informação Pública, destinado a assegurar apoios para a campanha americana na Primeira Grande Guerra. A utilização de fotografia e cinema deram início à era dos media visuais aplicados à persuasão política. Com sucesso.
Em 1920, Warren Harding recorreu a um publicitário para ganhar a eleição. Habituado a vender carne fumada e outros produtos de supermercado, o publicitário pouco teve de mudar na sua abordagem profissional de um político. Deu-lhe visibilidade, fornecendo a informação de que os media necessitavam em formatos consumíveis. Harding foi assim o primeiro político a dar o lançamento de saída de jogos de basebol, participou em conferências de imprensa com trajes desportivos, iniciou a era das frases curtas e simbólicas, em que a declaração é apenas mais um elemento, num cenário de luzes e cores.
De Franklin D. Roosevelt herdou o mundo os primeiros gabinetes de relações públicas inseridos em vários ministérios-chave e destinados a ampliar os sucessos quotidianos e a esconder os falhanços embaraçosos. O uso da rádio fez também furor nos três mandatos de Roosevelt, que a utilizou sagazmente.
A televisão foi aproveitada ao máximo por John F. Kennedy, na década de 1960. À vontade perante a câmara, Kennedy tornou-se mestre na arte de domesticação dos media para anúncios de política em directo. Datam desta presidência as primeiras conferências de imprensa transmitidas em directo.
De Nixon, apesar da saída tempestuosa de cena, a América conheceu um espantoso Gabinete de Comunicações, que coordenava sondagens regulares de opinião – elas sim, a verdadeira bússola da administração Pouco hábil perante as câmaras, Nixon abdicou das entrevistas em directo e privilegiou os esforços de controlo dos jornalistas que normalmente cobrem a actualidade noticiosa da Casa Branca. Percebeu correctamente que, controlando o Press Corps, controlaria grande parte do fluxo noticioso sobre si.
Reagan apreciou os mandatos de Nixon e melhorou o estilo. Foi o primeiro a explorar as estratégias modernas de Relações Públicas, incluindo aparições mediáticas em fundos dramáticos (quem não se lembra do espantoso fundo azul, com estrelas brancas, em que Reagan deu a notícia da nova corrida espacial em que a América se lançara?) e a utilização de linguagem testada previamente em grupos de controlo.
Uma história serve de metáfora para os dois mandatos de Reagan, dizem os autores do livro :
A correspondente da CBS difundiu uma notícia sobre as discrepâncias entre as declarações públicas do presidente e as políticas efectivamente desenvolvidas. Ao fazê-lo, esperava críticas veementes da administração. Qual não foi o espanto quando escutou, de um dos conselheiros do presidente, um "agradecimento"? "Quando mostras quatro minutos e meio de grandes imagens de Reagan, nas suas declarações públicas por nós ensaiadas, em fundos dramáticos e cativantes, ninguém escuta o que tu estás a dizer em fundo. Só fixam o presidente"
Clinton modernizou a abordagem mediática e aplicou o conceito de grupos de discussão interna, destinados a colocar o presidente sob fogo mediático em sessões de ensaio de perguntas incómodas. Tal como Bush, também jogou com as palavras: quem não se lembra da ilusão de Clinton: "Não tive relações sexuais com essa mulher". Uma meia verdade no meio da mentira.
A eficaz estratégia de Bush é pois legítima herdeira de décadas de relação tensa entre o poder político, os meios de comunicação e a audiência. Um jogo do gato e do rato, no qual o rato tenta continuamente iludir o predador, alimentando-o com meias verdades – nada absolutamente falso, mas também nada totalmente verdadeiro - e com técnicas arrojadas de venda.
Diz Chris Matthews, da PBS, a propósito dos meses que se seguiram à guerra do Iraque: "Nunca nos ocorreu o que iria acontecer depois do fim das hostilidades abertas. Fomos tão bombardeados com a "guerra de libertação", que nunca nos ocorreu indagar o que aconteceria depois. Pensámos sempre em libertação porque era essa a formatação do discurso presidencial. Hoje, pensamos claramente em ocupação e não apenas em libertação."
Um livro a ler, asseguro.
Apre! À terceira, cai quem quer

A serra de Monchique não é particularmente bonita. Repleta de eucaliptos, circunda perigosamente várias aldeias. Há anos que não sofre intervenções de manutenção – nem limpeza da mata, nem abertura de caminhos, nem criação de clareiras. Em 2003, ardeu brutalmente. O fogo consumiu o que quis, enquanto os bombeiros olhavam, impotentes, para a queima.
Pensar-se-ia que a tragédia serviria de emenda. Debalde. No ano passado, ardeu o que faltava. Mais grave: o argumento do filme foi o mesmo: pontas de incêndio simultâneas, eucaliptos e pinheiros a arder, um braseiro impossível de suportar. Carros de bombeiro impossibilitados de chegar ao núcleo do incêndio; aldeias evacuadas; muita berraria; muita ameaça; muita queixa.
Este ano, já não não havia para arder. Pensar-se-ia que, quem queimou a mão direita e a esquerda em dois anos consecutivos, apressar-se-ia a planear o novo coberto florestal de Monchique. Pois sim. A imagem, captada por mão amiga e enviada para o Ecosfera, dá conta da inovadora técnica de prevenção florestal levada a cabo na região durante o mês de Agosto: braçadas de madeira seca foram acumuladas junto à estrada, em molhes cuidadosamente unidos. Não um, nem dois, nem três. Estendem-se alegremente ao longo da estrada.
O descuido faz lembrar a anedota do homem que, fechado às escuras no paiol de dinamite, começou por procurar o interruptor. Não encontrou. Tacteou em busca da lanterna. Não a descobriu. Lembrou-se então que tinha no bolso uma carteira de fósforos…
quarta-feira, agosto 17, 2005
Que saudades...
... dos tempos em que os colunistas do "Público" não se pegavam entre si. Vital Moreira arrelia Mário Pinto. Mário Pinto bombardeia Vital Moreira. Miguel Sousa Tavares provoca Eduardo Prado Coelho e Vital Moreira. O poeta, insultado, cala e come. O professor, despeitado, pega na bazuca. Na última página, Vasco Pulido Valente, no auge do delirius tremens em que se encontra, pega-se com todos e faz remontar ao século XIX todos os males da civilização - desde a recandidatura de Mário Soares à mini-saia travada. Tréguas, por favor. Há quem não compre o "Público" todos os dias e, pelo andar da carruagem, vai ser preciso comprar um roteiro de telenovelas para acompanhar todas as provocações.
sexta-feira, agosto 12, 2005
Pois é!
Da campanha por Lisboa: Carrilho quer o túnel só até à rua Castilho; Santana quer vê-lo até à Fontes Pereira do Melo; Carmona Rodrigues cala-se e assobia para o ar; Ruben Carvalho quer tapá-lo e esquecê-lo; o advogado Sá Fernandes até as pedras da calçada embargou, mas não sabe o que há-de fazer com o fosso; e Maria José Nogueira Pinto desconfia que há um túnel na cidade, mas não tem a certeza.
"Fazemos campanha com poesia; governamos com prosa", disse Mario Cuomo, antigo governador de Nova Iorque.
Onde diabo estão os nossos versos?
"Fazemos campanha com poesia; governamos com prosa", disse Mario Cuomo, antigo governador de Nova Iorque.
Onde diabo estão os nossos versos?
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