O que leva um veraneante a palmilhar quilómetros à torreira do sol para escrever umas linhas à sua comunidade de leitores? Resposta: uma tarde escutando emissões de televisão repletas de disparates. Como uma espiral decadente, a emissão nacional de televisão atinge invariavelmente o seu ponto mais baixo no Verão. É aí que se condensam os enlatados, as sérias de qualidade medíocre, os apresentadores rejeitados nos horários mais nobres. Chamam-lhe a silly season e basta ouvir dez minutos de José Carlos Malato para explicar o atributo.
Primeira pérola: entrevistado no jornal da tarde da RTP, um vereador da Câmara Municipal da Figueira da Foz assegurou que a Figueira é a Bora-Bora portuguesa. Admito reluntantemente que nunca foi a Bora-Bora. Mas já fui à Figueira. Apre. Desconhecia que a Bora-Bora original estava repleta de toldos de cores berrantes, de areias sujas onde, com sorte, o visitante pode pisar uma lata de conserva e de águas violentas que, à primeira onda, revolvem o banhista de tal forma que ele é incapaz de identificar o norte. Tenho de viajar mais. Quanto mais não seja para não ficar espantado quando disserem que Sesimbra é Saint-Tropez em português.
Segunda pérola: em rodapé, os letreiros da mesma estação anunciavam que Louis Armstrong cimentou a sua liderança na Volta a França. Presumivelmente, de trompete, enquanto pedalava na montanha. Só não disseram quem ficou em segundo: eventualmente, o Fernando Ulrich.
Terceira pérola: admito, desgraçadamente, que assisti à segunda parte do Benfica-Chelsea. Não necessariamente para "torcer" por um ou outro (não gosto mesmo de nenhum), mas, para me certificar que o comentador de serviço era mesmo Fernando Seara. Fiquei esclarecido a dez minutos do fim, quando o (ainda) presidente da Câmara Municipal de Sintra explicou que o Benfica precisava de um 9 e de um 10. Ou de um 9 que fizesse também de 10. Ou ainda de um 10 que fizesse igualmente de 9. Um 9-10 ou um 10-9, insistiu Seara. Até porque, explicou, se comprar um 9-10 ou um 10-9, o Benfica poupa dinheiro para outros reforços. Pois claro: se toda a gente em Sintra raciocinar como o presidente da Câmara, o município está bem entregue...
P.S.: O leitor mais sagaz terá adivinhado que estou em gozo (merecido) de férias. Até final do mês, os "posts" serão porventura mais espaçados - estão 36ºC lá fora, meus senhores - e menos sérios. Também tenho direito à minha silly season.
segunda-feira, julho 18, 2005
quarta-feira, julho 13, 2005
Perguntas de Algibeira
Já reparou o leitor que, entre os colunistas que assinam textos nos jornais sobre o traçado do TGV e a localização do novo aeroporto de Lisboa, parece só existirem representantes dos lobbies do caminho-de-ferro e da navegação aérea? Mais curioso ainda: já reparou como os inocentes colunistas que, à vez, atacam o traçado Lisboa-Porto do TGV e a Ota como destino final do aeroporto raramente assumem a sua condição activa de "lobbyistas"? São sempre professores jubilados, especialistas em sistemas informáticos, docentes universitários, historiadores, economistas ou – a minha designação favorita – juristas…
Mais irónico ainda, mas fechando o círculo na perfeição, os senhores-que-nós-conhecemos-como-activistas-dos-comboios defendem afincadamente que a melhor localização para o novo aeroporto seria a margem sul, onde se potenciariam as ligações ferroviárias para Espanha. Dizem, por isso, que a Ota é um erro histórico. E, a talho de foice, recomendam mais invesimento na adaptação da bitola aos padrões europeus, mesmo que a Espanha ainda não o tenha feito e seja, por momentos, impossível fazer com que o comboio voe sobre o território espanhol para então entrar nos perfeitos carris franceses.
Do outro lado do problema, os senhores-que-nós-conhecemos-como-activistas-dos-aviões não falam do aeroporto, mas questionam o erro (que também é histórico, segundo eles) de promover uma linha de TGV para o Porto, quando a prioridade deveria ser a linha Lisboa-Badajoz, para promover ligações entre as duas capitais ibéricas. A recomendação deste grupo de articulistas costuma ser o desinvestimento nos transportes ferroviários e marítimos em claro benefício dos transportes aéreos, eles sim, os veículos do futuro. Talvez por esquecimento, não falam das limitações correntes do tráfego aéreo e da (in)capacidade do avião para substituir em grande escala o comboio e o barco como meio de transporte de mercadorias.
E assim, lendo descontraidamente as múltiplas apreciações às duas opções de fundo do governo socialista, vai ficando o leitor português esclarecido. Como é próprio das democracias participadas.
Mais irónico ainda, mas fechando o círculo na perfeição, os senhores-que-nós-conhecemos-como-activistas-dos-comboios defendem afincadamente que a melhor localização para o novo aeroporto seria a margem sul, onde se potenciariam as ligações ferroviárias para Espanha. Dizem, por isso, que a Ota é um erro histórico. E, a talho de foice, recomendam mais invesimento na adaptação da bitola aos padrões europeus, mesmo que a Espanha ainda não o tenha feito e seja, por momentos, impossível fazer com que o comboio voe sobre o território espanhol para então entrar nos perfeitos carris franceses.
Do outro lado do problema, os senhores-que-nós-conhecemos-como-activistas-dos-aviões não falam do aeroporto, mas questionam o erro (que também é histórico, segundo eles) de promover uma linha de TGV para o Porto, quando a prioridade deveria ser a linha Lisboa-Badajoz, para promover ligações entre as duas capitais ibéricas. A recomendação deste grupo de articulistas costuma ser o desinvestimento nos transportes ferroviários e marítimos em claro benefício dos transportes aéreos, eles sim, os veículos do futuro. Talvez por esquecimento, não falam das limitações correntes do tráfego aéreo e da (in)capacidade do avião para substituir em grande escala o comboio e o barco como meio de transporte de mercadorias.
E assim, lendo descontraidamente as múltiplas apreciações às duas opções de fundo do governo socialista, vai ficando o leitor português esclarecido. Como é próprio das democracias participadas.
domingo, julho 10, 2005
Esquizofrenia Para Explicar a Arrábida
Fiel ao estigma de que o jornalista é, acima de tudo, um profissional que escreve o que lhe pedem, realizo seguidamente um exercício de sarcasmo que, espero, ajudará o leitor a compreender a complexidade da questão da Arrábida. Proponho-me, numa demonstração de dupla personalidade, evidenciar os prós e contras do novo/velho Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida. Começo pelo ponto de vista abolicionista.
Sou pescador e há dez anos que usufruo de fundos comunitários para reconverter a minha embarcação. Usei-os até à exaustão e aproveitei também para restaurar a casa e o quintal. Toda a gente o faz. Não vejo mal nisso.
Há muitos anos, fiz contratos em Marrocos e pescava então grandes quantidades de peixe. A vida corria bem e as capturas na região costeira da Arrábida ficavam para os pescadores de ocasião e para os maluquinhos da caça subaquática. Os contratos acabaram. Voltámos para casa com o rabo entre as pernas. Sem outra solução, intensificámos a pesca nesta zona, do cabo Espichel a Setúbal. As quantidades de peixe disponível diminuíram a olhos vistos. Há espécies que já não vejo há anos.
Agora, dizem-nos que querem criar uma zona de protecção especial nestas águas. Querem proibir a captura de peixe em algumas zonas e noutras impõem-nos limites. Estamos contra, claro está.
Entretanto, apareceram uns senhores muito simpáticos, proprietários de embarcações de lazer, que se reuniram connosco e se ofereceram para fazermos lobby em conjunto contra o Plano de Ordenamento. Ofereceram-se também para ajudar a pagar o custo das manifestações, das greves e dos cartazes. Coitados. Afinal, gostam mais de nós do que pensávamos.
Nas reuniões com a direcção do Parque e com os jornalistas, esquecemos o números de pescadores reais na região e citámos sempre o número de licenças atribuídas para pescar aqui. Não somos parvos. Se parecermos mais, teremos uma posição mais forte. Como a arte xávega continuará a ser aceite, dissemos todos que ainda pescamos assim. Já se sabe, o seguro morreu de velho.
O mais engraçado é que, estando inscritos como desempregados, continuamos a pescar. Dizemos que é por lazer, mas vendemos o excesso em restaurantes e peixarias. Os outros, os que ainda pescam oficialmente, estão danados connosco, porque lhes fazemos concorrência, mas o que pode um homem fazer? Há que levar mais dinheiro para casa.
Os diabos dos biólogos querem também deitar abaixo as casas ilegais, bem como tudo o que tiver sido construído sem autorização dentro dos limites do Parque. Aqui as câmaras municipais ajudaram imenso. Descobriram dois desgraçados que vivem numa barraca ilegal e fizeram deles as vozes do nosso protesto. É bem pensado. Para os jornalistas, ajuda imenso ter uma história triste. Coitadinhos dos homens, vão ser despejados. É claro que nós e as câmaras sabemos que este caso é uma gota de água num oceano de ilegalidades da região – que está repleta de segundas e terceiras habitações. Mas porque havemos de ser nós a pagar pela desorganização dos serviços públicos? Está construído. Fica de pé. Nem que tenhamos de barrar o caminho às escavadoras.
Escutemos agora o lado proteccionista…
Sou biólogo e acompanho as investigações dos últimos anos que comprovam que os “stocks” de peixe da região decresceram abruptamente. Algumas espécies são caçadas com tanta frequência que os pescadores já só apanham juvenis. Nunca houve tantos barcos na região. Há um problema urgente de conservação a resolver.
Os residentes destas vilas parolas não percebem nada de ciência. Nas sessões públicas de esclarecimento, naturalmente, já íamos preparados para não ceder um milímetro. Em Portugal, quando se chega a essa fase, o plano já está concluído e pronto a ser impresso. Por que motivo haveria a Arrábida de ser diferente? Explicámos os problemas de parque, mas as pessoas não pareciam compreender o nosso jargão científico. Quando apresentámos o novo plano, fizémo-lo com firmeza. Nestes casos, repito, marca-se posição e não se cede. Gerou-se uma algazarra dos diabos. Os representantes das câmaras, que até aí tinham sido aliados convincentes, perceberam rapidamente a mudança e seguiram a corrente. A população atacou-nos, verbal e fisicamente. Tivemos sorte de sair ilesos. Bando de cabotinos.
Nos dias seguintes, fomos traídos pelo secretário de Estado e pelo Instituto da Conservação da Natureza. Não saíram em nossa defesa e emitiram declarções reticentes. Os votos contam muito, percebemos então. O plano foi varrido para debaixo do tapete ou para lá das eleições.
Mesmo assim, não mudámos de estratégia. Agora temos um secretário de Estado profundamente proteccionista e há que aproveitar. Arregaçamos as mangas e vamos a isso. Chamam-nos arrogantes e prepotentes, mas o que somos é obstinados. Levamos o plano para frente, sem concessões. Não mudamos uma vírgula ao que foi definido. Que a GNR e a guarda costeira punam depois os infractores.
Termina assim o meu ataque de dupla personalidade. Que decida o leitor o futuro do Parque Natural da Arrábida.
Sou pescador e há dez anos que usufruo de fundos comunitários para reconverter a minha embarcação. Usei-os até à exaustão e aproveitei também para restaurar a casa e o quintal. Toda a gente o faz. Não vejo mal nisso.
Há muitos anos, fiz contratos em Marrocos e pescava então grandes quantidades de peixe. A vida corria bem e as capturas na região costeira da Arrábida ficavam para os pescadores de ocasião e para os maluquinhos da caça subaquática. Os contratos acabaram. Voltámos para casa com o rabo entre as pernas. Sem outra solução, intensificámos a pesca nesta zona, do cabo Espichel a Setúbal. As quantidades de peixe disponível diminuíram a olhos vistos. Há espécies que já não vejo há anos.
Agora, dizem-nos que querem criar uma zona de protecção especial nestas águas. Querem proibir a captura de peixe em algumas zonas e noutras impõem-nos limites. Estamos contra, claro está.
Entretanto, apareceram uns senhores muito simpáticos, proprietários de embarcações de lazer, que se reuniram connosco e se ofereceram para fazermos lobby em conjunto contra o Plano de Ordenamento. Ofereceram-se também para ajudar a pagar o custo das manifestações, das greves e dos cartazes. Coitados. Afinal, gostam mais de nós do que pensávamos.
Nas reuniões com a direcção do Parque e com os jornalistas, esquecemos o números de pescadores reais na região e citámos sempre o número de licenças atribuídas para pescar aqui. Não somos parvos. Se parecermos mais, teremos uma posição mais forte. Como a arte xávega continuará a ser aceite, dissemos todos que ainda pescamos assim. Já se sabe, o seguro morreu de velho.
O mais engraçado é que, estando inscritos como desempregados, continuamos a pescar. Dizemos que é por lazer, mas vendemos o excesso em restaurantes e peixarias. Os outros, os que ainda pescam oficialmente, estão danados connosco, porque lhes fazemos concorrência, mas o que pode um homem fazer? Há que levar mais dinheiro para casa.
Os diabos dos biólogos querem também deitar abaixo as casas ilegais, bem como tudo o que tiver sido construído sem autorização dentro dos limites do Parque. Aqui as câmaras municipais ajudaram imenso. Descobriram dois desgraçados que vivem numa barraca ilegal e fizeram deles as vozes do nosso protesto. É bem pensado. Para os jornalistas, ajuda imenso ter uma história triste. Coitadinhos dos homens, vão ser despejados. É claro que nós e as câmaras sabemos que este caso é uma gota de água num oceano de ilegalidades da região – que está repleta de segundas e terceiras habitações. Mas porque havemos de ser nós a pagar pela desorganização dos serviços públicos? Está construído. Fica de pé. Nem que tenhamos de barrar o caminho às escavadoras.
Escutemos agora o lado proteccionista…
Sou biólogo e acompanho as investigações dos últimos anos que comprovam que os “stocks” de peixe da região decresceram abruptamente. Algumas espécies são caçadas com tanta frequência que os pescadores já só apanham juvenis. Nunca houve tantos barcos na região. Há um problema urgente de conservação a resolver.
Os residentes destas vilas parolas não percebem nada de ciência. Nas sessões públicas de esclarecimento, naturalmente, já íamos preparados para não ceder um milímetro. Em Portugal, quando se chega a essa fase, o plano já está concluído e pronto a ser impresso. Por que motivo haveria a Arrábida de ser diferente? Explicámos os problemas de parque, mas as pessoas não pareciam compreender o nosso jargão científico. Quando apresentámos o novo plano, fizémo-lo com firmeza. Nestes casos, repito, marca-se posição e não se cede. Gerou-se uma algazarra dos diabos. Os representantes das câmaras, que até aí tinham sido aliados convincentes, perceberam rapidamente a mudança e seguiram a corrente. A população atacou-nos, verbal e fisicamente. Tivemos sorte de sair ilesos. Bando de cabotinos.
Nos dias seguintes, fomos traídos pelo secretário de Estado e pelo Instituto da Conservação da Natureza. Não saíram em nossa defesa e emitiram declarções reticentes. Os votos contam muito, percebemos então. O plano foi varrido para debaixo do tapete ou para lá das eleições.
Mesmo assim, não mudámos de estratégia. Agora temos um secretário de Estado profundamente proteccionista e há que aproveitar. Arregaçamos as mangas e vamos a isso. Chamam-nos arrogantes e prepotentes, mas o que somos é obstinados. Levamos o plano para frente, sem concessões. Não mudamos uma vírgula ao que foi definido. Que a GNR e a guarda costeira punam depois os infractores.
Termina assim o meu ataque de dupla personalidade. Que decida o leitor o futuro do Parque Natural da Arrábida.
sábado, julho 09, 2005
A Solução Fácil
A poeira já assentou, os mais entusiasmados já acalmaram. Como uma tempestade de areia, os defensores do projecto nuclear em Portugal aparecem subitamente, lançam um raide e fogem apressadamente. No balanço do que foi apresentado, ficam mais dúvidas do que certezas. A opinião pública discutiu o assunto pela rama, como convém, e não extraiu uma conclusão definitiva. O governo, pela manhã, disse que sim; à tarde, disse que não. O primeiro-ministro, na conversa familiar com a nação graças à antena da SIC, nem aflorou o assunto. E todavia a polémica até já tem décadas.
Há anos que o lobby do nuclear está activo. Organiza almoços e lança ameaças veladas aos governos de circunstância. Promete a salvação energética e patrocina artigos a colunistas de aluguer – que os há, asseguro. Lança perspectivas catastróficas sobre as tendências nacionais de utilização de energia e zomba dos esforços das renováveis. Cativa fiéis transversalmente, nos dois principais partidos.
Como um grupo de adventistas do sétimo dia, os pró-nucleares prometem a salvação. Do país, dos consumidores de energia, deles próprios. Basta assinar a factura.
Num documento-síntese notável, a Quercus levantou quatro perguntas que ficaram por responder depois do arrastão nuclear, a semana supersónica em que Patrick Monteiro de Barros e demais proponentes impuseram o tema na agenda política. Com a dévida vénia, recupero as interrogações:
1) O risco e as consequências de acidente: são diversos os exemplos de acidentes com menores ou maiores consequências, desde os casos mais conhecidos de Three Mile Island a Chernobyl às pequenas avarias que são reportadas em muitas centrais e que não são conhecidas publicamente. Apesar da maior segurança das novas centrais nucleares, as consequências de um acidente grave podem ser dramáticas e globais; no caso de Portugal, o risco sísmico é um factor determinante, sendo que a sua localização teria sempre de ter lugar junto a rio ou no litoral por causa da refrigeração da instalação.
2) Os resíduos radioactivos: não há até agora no mundo um solução definitiva para o armazenamento seguro dos resíduos radioactivos, representando tal uma ameaça em termos do seu transporte e do seu armazenamento, com óbvios custos acrescidos nomeadamente em termos de segurança.
3) A segurança face a atentados: é de momento uma das maiores preocupações nos países desenvolvidos com custos acrescidos muito elevados, tendo recebido um destaque recente da revista "Time" que noticia o facto de as centrais nucleares serem o alvo preferido para ataques terroristas. Os valores dos seguros associados são enormes.
4) o custo: os custos de investimento e o tempo associado à sua construção são muito maiores em comparação com centrais termoeléctricas recorrendo a outros combustíveis apesar dos custos de exploração até poderem depois ser na mesma ordem de grandeza; as diferenças entre o dinheiro efectivamente gasto e o planeado pode chegar até sete vezes mais, ficando-se totalmente dependente de tecnologia estrangeira e sem economia de escala dada a fraca dimensão do nosso país.
À medida que na Europa se desmantelam projectos em fim de vida e há escassas notícias sobre reinvestimentos no sector fora dos Estados Unidos, os proponentes da energia nuclear propõem-se caminhar na direcção contrária da corrente, formosos e seguros das suas convicções. Não resisto por isso a partilhar uma anedota com os leitores – adequada, creio, às circunstâncias. Depois de muito caminhar num túnel escuro, o viajante avista ao longe uma luz. É a saída, pensa. Apressa o passo na direcção da luminosidade, que lhe parece cada vez mais próxima. Cada vez mais perto, ele acelera, radiante. Infelizmente, a luz não era a saída. Era um comboio na direcção contrária!
Há anos que o lobby do nuclear está activo. Organiza almoços e lança ameaças veladas aos governos de circunstância. Promete a salvação energética e patrocina artigos a colunistas de aluguer – que os há, asseguro. Lança perspectivas catastróficas sobre as tendências nacionais de utilização de energia e zomba dos esforços das renováveis. Cativa fiéis transversalmente, nos dois principais partidos.
Como um grupo de adventistas do sétimo dia, os pró-nucleares prometem a salvação. Do país, dos consumidores de energia, deles próprios. Basta assinar a factura.
Num documento-síntese notável, a Quercus levantou quatro perguntas que ficaram por responder depois do arrastão nuclear, a semana supersónica em que Patrick Monteiro de Barros e demais proponentes impuseram o tema na agenda política. Com a dévida vénia, recupero as interrogações:
1) O risco e as consequências de acidente: são diversos os exemplos de acidentes com menores ou maiores consequências, desde os casos mais conhecidos de Three Mile Island a Chernobyl às pequenas avarias que são reportadas em muitas centrais e que não são conhecidas publicamente. Apesar da maior segurança das novas centrais nucleares, as consequências de um acidente grave podem ser dramáticas e globais; no caso de Portugal, o risco sísmico é um factor determinante, sendo que a sua localização teria sempre de ter lugar junto a rio ou no litoral por causa da refrigeração da instalação.
2) Os resíduos radioactivos: não há até agora no mundo um solução definitiva para o armazenamento seguro dos resíduos radioactivos, representando tal uma ameaça em termos do seu transporte e do seu armazenamento, com óbvios custos acrescidos nomeadamente em termos de segurança.
3) A segurança face a atentados: é de momento uma das maiores preocupações nos países desenvolvidos com custos acrescidos muito elevados, tendo recebido um destaque recente da revista "Time" que noticia o facto de as centrais nucleares serem o alvo preferido para ataques terroristas. Os valores dos seguros associados são enormes.
4) o custo: os custos de investimento e o tempo associado à sua construção são muito maiores em comparação com centrais termoeléctricas recorrendo a outros combustíveis apesar dos custos de exploração até poderem depois ser na mesma ordem de grandeza; as diferenças entre o dinheiro efectivamente gasto e o planeado pode chegar até sete vezes mais, ficando-se totalmente dependente de tecnologia estrangeira e sem economia de escala dada a fraca dimensão do nosso país.
À medida que na Europa se desmantelam projectos em fim de vida e há escassas notícias sobre reinvestimentos no sector fora dos Estados Unidos, os proponentes da energia nuclear propõem-se caminhar na direcção contrária da corrente, formosos e seguros das suas convicções. Não resisto por isso a partilhar uma anedota com os leitores – adequada, creio, às circunstâncias. Depois de muito caminhar num túnel escuro, o viajante avista ao longe uma luz. É a saída, pensa. Apressa o passo na direcção da luminosidade, que lhe parece cada vez mais próxima. Cada vez mais perto, ele acelera, radiante. Infelizmente, a luz não era a saída. Era um comboio na direcção contrária!
quarta-feira, julho 06, 2005
Gigantesco Tiro de Pólvora Seca
Os textos de jornal nem sempre estão correctos. O leitor aceita a premissa, sobretudo porque admite o princípio de que a rotina jornalística é apertada, opera em horários muitos condicionados e o equilíbrio é instável. Mas julgo que ninguém tolera o engano persistente, a gralha não corrigida e, muito menos, o erro propositado.
Posto isto, passemos à manchete do "Público" de ontem. Na história do jornal lisboeta, adivinho poucas manhãs mais embaraçosas do que a de ontem. Imaginem o cenário. Um jornal com uma manchete desmentida imediatamente a meio da manhã e, pior do que isso, comprovando uma notícia de capa do principal rival na semana anterior.
Titulava o jornal que os empreendimentos da Ota e do TGV seriam adiados para a próxima legislatura. Prognóstico lógico, tanto mais que o primeiro-ministro daria, no próprio dia, uma entrevista televisiva onde deveria anunciar novidades. E essa era uma das possibilidades (com a qual, aliás, concordo plenamente).
A meio da manhã, os serviços informais da República começaram a desmentir a notícia, confirmando a intenção do governo PS de avançar já para as obras (megalómanas). O "Diário de Notícias", na pista certa, juntou mesmo mais dados, anunciando a participação de privados na operação e acrescentando as conclusões da auto-estrada até Bragança e da CRIL.
A credibilidade de um jornal é o seu património. Sem ele, o periódico fica condenado perante os parceiros informativos e a opinião pública. Esperava por isso ler hoje um pedido sincero, e sem reservas, da informação ontem veiculada. Bem posso sentar-me à sombra, enquanto espero.
José Manuel Fernandes, director do jornal, limitou-se a comentar as opções do governo, sem uma única palavra sobre a manchete que entendera erradamente difundir. Não tinha esse direito. Perdeu-o quando abdicou de explicar aos leitores as circunstâncias que produziram uma manchete a 180 graus do alvo. Esfarrapada, colada com cuspo ou substanciada, merecíamos uma explicação.
Na secção de economia, a cobertura do Programa de Investimentos em Infra-estruturas Prioritárias dedicou um parágrafo ao tema, dizendo:
«O PÚBLICO adiantava ontem que as obras propriamente ditas de construção destas infra-estruturas só deverão começar na próxima legislatura, sendo os investimentos previstos até 2009 para fazer estudos, projectos de engenharia e expropriações. Em comunicado, o Ministério desmentiu qualquer adiamento nos projectos, argumentando que, pelo contrário, estava a retomá-los, depois de estarem ‘paralisados nos últimos três anos’»
Lê-se e não se acredita. Lamento informar o autor da notícia, mas o PÚBLICO de ontem dizia mais do que isso. A manchete do PÚBLICO até era mais categórica, não deixando espaço para dúvidas. E o PÚBLICO de ontem estava redondamente errado [mesmo que a opção governamental seja questionável]. Sem um sincero pedido de desculpas, repito, nada do que o PÚBLICO tenha para dizer volta a ser minimamente respeitável. Às vezes, é no melhor pano que cai a nódoa. Mas é a forma encontrada para a limpar que distingue os nobres dos pobres de espírito.
Posto isto, passemos à manchete do "Público" de ontem. Na história do jornal lisboeta, adivinho poucas manhãs mais embaraçosas do que a de ontem. Imaginem o cenário. Um jornal com uma manchete desmentida imediatamente a meio da manhã e, pior do que isso, comprovando uma notícia de capa do principal rival na semana anterior.
Titulava o jornal que os empreendimentos da Ota e do TGV seriam adiados para a próxima legislatura. Prognóstico lógico, tanto mais que o primeiro-ministro daria, no próprio dia, uma entrevista televisiva onde deveria anunciar novidades. E essa era uma das possibilidades (com a qual, aliás, concordo plenamente).
A meio da manhã, os serviços informais da República começaram a desmentir a notícia, confirmando a intenção do governo PS de avançar já para as obras (megalómanas). O "Diário de Notícias", na pista certa, juntou mesmo mais dados, anunciando a participação de privados na operação e acrescentando as conclusões da auto-estrada até Bragança e da CRIL.
A credibilidade de um jornal é o seu património. Sem ele, o periódico fica condenado perante os parceiros informativos e a opinião pública. Esperava por isso ler hoje um pedido sincero, e sem reservas, da informação ontem veiculada. Bem posso sentar-me à sombra, enquanto espero.
José Manuel Fernandes, director do jornal, limitou-se a comentar as opções do governo, sem uma única palavra sobre a manchete que entendera erradamente difundir. Não tinha esse direito. Perdeu-o quando abdicou de explicar aos leitores as circunstâncias que produziram uma manchete a 180 graus do alvo. Esfarrapada, colada com cuspo ou substanciada, merecíamos uma explicação.
Na secção de economia, a cobertura do Programa de Investimentos em Infra-estruturas Prioritárias dedicou um parágrafo ao tema, dizendo:
«O PÚBLICO adiantava ontem que as obras propriamente ditas de construção destas infra-estruturas só deverão começar na próxima legislatura, sendo os investimentos previstos até 2009 para fazer estudos, projectos de engenharia e expropriações. Em comunicado, o Ministério desmentiu qualquer adiamento nos projectos, argumentando que, pelo contrário, estava a retomá-los, depois de estarem ‘paralisados nos últimos três anos’»
Lê-se e não se acredita. Lamento informar o autor da notícia, mas o PÚBLICO de ontem dizia mais do que isso. A manchete do PÚBLICO até era mais categórica, não deixando espaço para dúvidas. E o PÚBLICO de ontem estava redondamente errado [mesmo que a opção governamental seja questionável]. Sem um sincero pedido de desculpas, repito, nada do que o PÚBLICO tenha para dizer volta a ser minimamente respeitável. Às vezes, é no melhor pano que cai a nódoa. Mas é a forma encontrada para a limpar que distingue os nobres dos pobres de espírito.
terça-feira, junho 14, 2005
Tempo de antena

Nota de redacção: As próximas linhas são da responsabilidade exclusiva do interveniente.
Se algum dos estimados leitores quiser aparecer na próxima quinta-feira, às 17h, na Universidade Católica de Lisboa, poderá ouvir as minhas sábias palavras, no ciclo de seminários de investigação organizado por esta instituição. Clique na imagem para ver o programa.
FIM DE TEMPO DE ANTENA.
segunda-feira, junho 13, 2005
sexta-feira, junho 10, 2005
Também acontece
(Washington, 10 de Junho - Crónica final) Um processo judicial iniciado em 2003 está agora em vias de resolução, e o seu desfecho afigura-se relevante para o público português. Refiro-me à investigação que incidiu sobre as alegadas irregularidades da actividade de uma conhecida ONG: a Nature Conservancy. O processo que a seguir resumo não deve ser entendido como um sinal de reprovação extensível a casos portugueses ou norte-americanos. Mas é forçoso que não tomemos como certa a independência e autonomia de cada agente social (como aliás nos demonstra a recente vocação política de Sá Fernandes).
A comissão financeira do Senado americano apurou, segundo a imprensa (ainda não foram publicadas as conclusões oficiais) que a Nature Conservancy (NC) abusou da isenção fiscal a que tinha direito, uma vez que as ONG norte-americanas estão dispensadas de pagamento de imposto desde que que não ultrapassem determinado limite orçamental. Segundo a acusação, os bens da NC terão aumentado exponencialmente, superando quatro mil milhões de dólares em 2004, volume esse que obrigaria legalmente a associação a abdicar das regalias fiscais. Convenhamos que com tal actividade financeira o conceito de organizção sem fins lucrativos se tornava difuso.
Ao mesmo tempo, a associação alegadamente utilizou bens e serviços adquiridos em regime de doação, para realizar negócios privados com alguns dos seus administradores.
Reportagens do "Washington Post" de 2003 acusaram a associação de ter ainda beneficiado empresas com cadastro em processos de poluição, de ter permitido negócios madeireiros e petrolíferos em terrenos por si administrados e classificados como áreas protegidas; e, por fim, o jornal acusou ainda a associação de ter comprado terrenos beneficiando dos mecanismos legais favoráveis à permuta do uso de propriedade (de agrícola para ecológica), vendendo-os posteriormente a administradores da própria NC ou a empresas por eles controladas.
A investigação já produziu resultados palpáveis, ao desencadear a acção do senado e ao provocar a demissão em bloco dos quadros administrativos da NC. Nas próximas semanas, saber-se-á a que sanções concretas estará a organização sujeita.
Entretanto, a administração Bush apressou-se a revelar a necessidade de clarificar as relações por vezes nebulosas entre ONG, os seus bens e os seus benfeitores. Aguarda-se um pacote legal mais restritivo para a acção deste tipo de movimentos sociais.
Não creio que o processo pudesse ter semelhantes contornos em Portugal, e a experiência que colhi, junto de uma ONG que tratei num projecto académico, mostrou total abertura de contas e processos. Mas reafirmo que devemos olhar com natural preocupação para o processo da Nature Conservancy. Em primeiro lugar, porque creio que a gestão financeira de bens sai claramente da alçada tradicional de uma ONG; por outro lado, casos como este morrem muito depois da mera aplicação de medidas legais e têm repercussões duradouras. Quem volta a confiar nuam ONG depois de ter sido moralmente ludibriado? Como num sismo, a onda de choque demorará a fazer-se sentir.
A comissão financeira do Senado americano apurou, segundo a imprensa (ainda não foram publicadas as conclusões oficiais) que a Nature Conservancy (NC) abusou da isenção fiscal a que tinha direito, uma vez que as ONG norte-americanas estão dispensadas de pagamento de imposto desde que que não ultrapassem determinado limite orçamental. Segundo a acusação, os bens da NC terão aumentado exponencialmente, superando quatro mil milhões de dólares em 2004, volume esse que obrigaria legalmente a associação a abdicar das regalias fiscais. Convenhamos que com tal actividade financeira o conceito de organizção sem fins lucrativos se tornava difuso.
Ao mesmo tempo, a associação alegadamente utilizou bens e serviços adquiridos em regime de doação, para realizar negócios privados com alguns dos seus administradores.
Reportagens do "Washington Post" de 2003 acusaram a associação de ter ainda beneficiado empresas com cadastro em processos de poluição, de ter permitido negócios madeireiros e petrolíferos em terrenos por si administrados e classificados como áreas protegidas; e, por fim, o jornal acusou ainda a associação de ter comprado terrenos beneficiando dos mecanismos legais favoráveis à permuta do uso de propriedade (de agrícola para ecológica), vendendo-os posteriormente a administradores da própria NC ou a empresas por eles controladas.
A investigação já produziu resultados palpáveis, ao desencadear a acção do senado e ao provocar a demissão em bloco dos quadros administrativos da NC. Nas próximas semanas, saber-se-á a que sanções concretas estará a organização sujeita.
Entretanto, a administração Bush apressou-se a revelar a necessidade de clarificar as relações por vezes nebulosas entre ONG, os seus bens e os seus benfeitores. Aguarda-se um pacote legal mais restritivo para a acção deste tipo de movimentos sociais.
Não creio que o processo pudesse ter semelhantes contornos em Portugal, e a experiência que colhi, junto de uma ONG que tratei num projecto académico, mostrou total abertura de contas e processos. Mas reafirmo que devemos olhar com natural preocupação para o processo da Nature Conservancy. Em primeiro lugar, porque creio que a gestão financeira de bens sai claramente da alçada tradicional de uma ONG; por outro lado, casos como este morrem muito depois da mera aplicação de medidas legais e têm repercussões duradouras. Quem volta a confiar nuam ONG depois de ter sido moralmente ludibriado? Como num sismo, a onda de choque demorará a fazer-se sentir.
quinta-feira, junho 09, 2005
Pongo
A propósito de grandes conferencistas científicos, de anúncios pomposos de descobertas e de falsos ídolos.
«A grande novidade em Londres é a chegada de um hóspode ilustre – o sr.Pongo. Quem é o sr. Pongo? (…) O sr. Pongo não é um príncipe, nem um general, nem um escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista – é simplesmente um macaco. Mas que macaco! É um gorilha [sic]: o primeiro,o único que tem vindo à Europa! (…) Comia ordinariamente farináceos e frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um pedaço de bife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Começaram a dar-lhe carne e água; come tudo o que come um gentleman: o seu almoço é como o de qualquer de nós – ovos e costoletas ao breakfast. Veio-se à conclusão que poderia beber tudo – desde Bordéus até Moet et Chandon. (…) Milhares de pessoas afluem a admirar esta espécie de homem primitivo, que há alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superfície da Terra, e era então o rei da Criação! Quem sabe se daqui a alguns mil anos, quando a raça humana, tal qual é hoje, tiver quase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um sábio então não encontrará, nos desertos ou nos bosques, um último homem e não virá expô-lo nalguma Londres dessa época? E os seres mais perfeitos de então virão contemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como nós hoje contemplamos o nosso antepassado, o gorilha!” (…) Pongo até agora, dorme bem, almoça o seu beefsteak, janta sopa, roast.beef e sobremesa, fuma três ou quatro charutos por dia, palita os dentes, dorme a sesta – e faz tudo o que faz qualquer inglês, excepto ter uma opinião sobre a Questão do Oriente, o que é, penso eu, uma qualidade a seu favor!»
Eça de Queiroz, in "Cartas de Inglaterra"
«A grande novidade em Londres é a chegada de um hóspode ilustre – o sr.Pongo. Quem é o sr. Pongo? (…) O sr. Pongo não é um príncipe, nem um general, nem um escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista – é simplesmente um macaco. Mas que macaco! É um gorilha [sic]: o primeiro,o único que tem vindo à Europa! (…) Comia ordinariamente farináceos e frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um pedaço de bife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Começaram a dar-lhe carne e água; come tudo o que come um gentleman: o seu almoço é como o de qualquer de nós – ovos e costoletas ao breakfast. Veio-se à conclusão que poderia beber tudo – desde Bordéus até Moet et Chandon. (…) Milhares de pessoas afluem a admirar esta espécie de homem primitivo, que há alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superfície da Terra, e era então o rei da Criação! Quem sabe se daqui a alguns mil anos, quando a raça humana, tal qual é hoje, tiver quase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um sábio então não encontrará, nos desertos ou nos bosques, um último homem e não virá expô-lo nalguma Londres dessa época? E os seres mais perfeitos de então virão contemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como nós hoje contemplamos o nosso antepassado, o gorilha!” (…) Pongo até agora, dorme bem, almoça o seu beefsteak, janta sopa, roast.beef e sobremesa, fuma três ou quatro charutos por dia, palita os dentes, dorme a sesta – e faz tudo o que faz qualquer inglês, excepto ter uma opinião sobre a Questão do Oriente, o que é, penso eu, uma qualidade a seu favor!»
Eça de Queiroz, in "Cartas de Inglaterra"
O ovo e a galinha
(Washington, 8 de Junho) – Aparentemente, não é só em Portugal que se modificam decretos na escuridão dos gabinetes ou se promovem alterações legislativas pela porta do cavalo. Uma investigação do “Washington Post” tem dado que falar. Em causa o novo pacote legislativo da Administração Bush relativo ao mercado energético.
Inserido no amplo programa norte-americano de redução da dependência do petróleo e de contribuição para a melhoria da qualidade do ar, o novo diploma aparentemente incentiva os construtores de veículos híbridos (capazes de se moverem a gás ou etanol), oferecendo-lhes benefícios fiscais e poupando-os das multas por incumprimento de metas ambientais que, no ano passado, totalizaram 1,6 mil milhões de dólares. O projecto parecia louvável, mas uma ONG, a Natural Resources News Services, descodificou o documento para o Post e os sorrisos rapidamente desapareceram.
Como os preços do etanol e outros biocombustíveis não são ainda competitivos, a maior parte dos consumidores opta ainda pelos combustíveis fósseis. Ora o diploma não tem em conta o tipo de combustível que cada automobilista abastece. Limita-se a premiar todos os construtores que disponibilizem a opção pelo etanol a par do gás. E naturalmente é previsível que o consumidor mantenha a mesma orientação.
Todos os anos, o conusmo de gasolina no país aumenta 4%, e esta medida não travará minimamente esse crescimento. Limita-se, na essência, a poupar alguns milhares de dólares à maior parte dos construtores automóveis.
De certa forma, a polémica resume o velho enigma do ovo e da galinha. Os representantes da indústria de refinação alegam que não produzirão combustíveis limpos até haver automóveis que os usem; os construtores automóveis defendem-se, dizendo que não produzirão carros movidos a biocombustíveis sem haver um mercado competitivo de fornecimento de combustível alternativo. O público desconhece as oportunidades dos novos combustíveis ou, quando conhece, naão pretende pagar mais por isso. E deste círculo infinito ninguém parece querer sair.
Inserido no amplo programa norte-americano de redução da dependência do petróleo e de contribuição para a melhoria da qualidade do ar, o novo diploma aparentemente incentiva os construtores de veículos híbridos (capazes de se moverem a gás ou etanol), oferecendo-lhes benefícios fiscais e poupando-os das multas por incumprimento de metas ambientais que, no ano passado, totalizaram 1,6 mil milhões de dólares. O projecto parecia louvável, mas uma ONG, a Natural Resources News Services, descodificou o documento para o Post e os sorrisos rapidamente desapareceram.
Como os preços do etanol e outros biocombustíveis não são ainda competitivos, a maior parte dos consumidores opta ainda pelos combustíveis fósseis. Ora o diploma não tem em conta o tipo de combustível que cada automobilista abastece. Limita-se a premiar todos os construtores que disponibilizem a opção pelo etanol a par do gás. E naturalmente é previsível que o consumidor mantenha a mesma orientação.
Todos os anos, o conusmo de gasolina no país aumenta 4%, e esta medida não travará minimamente esse crescimento. Limita-se, na essência, a poupar alguns milhares de dólares à maior parte dos construtores automóveis.
De certa forma, a polémica resume o velho enigma do ovo e da galinha. Os representantes da indústria de refinação alegam que não produzirão combustíveis limpos até haver automóveis que os usem; os construtores automóveis defendem-se, dizendo que não produzirão carros movidos a biocombustíveis sem haver um mercado competitivo de fornecimento de combustível alternativo. O público desconhece as oportunidades dos novos combustíveis ou, quando conhece, naão pretende pagar mais por isso. E deste círculo infinito ninguém parece querer sair.
terça-feira, junho 07, 2005
Comparações desonestas
(Washington, 7 de Junho)- Por muitos ressentimentos que o modelo americano gere entre as opiniões públicas europeias, há uma ideia que é genuinamente americana e universalmente aceite como geradora do conceito contemporâneo de conservação: a noção de parque natural, instituída no século XIX e disseminada pelo mundo fora, como um vírus benigno.
Esta semana, tive oportunidade de visitar o Parque Natural de Shenandoah, na Virgínia, e constatei que há uma diferença abissal entre os conceitos português e americano. Chamamos-lhe o mesmo nome, é certo, mas os pontos de contacto terminam aí.
Se me permitem o sarcasmo, o plano de ordenamento deste parque foi aprovado no mesmo ano em que ele foi instituído. Não sofreu contestação. Foi aceite e integrado no tecido social e nas regras de ordenamento local. Contei por aqui, a uma audiência divertida, as peripécias da Arrábida, mas não fui levado a sério. Tentei, mesmo assim, defender a tese de que Portugal ostenta a discutível virtude de ter gerado um novo modelo de parque: o do parque que não tem regulamentos... para ser parque. Nao acreditaram.
Esperava encontrar nesta pequena área protegida (pequena para os padrões da América do Norte) mecanismos de rendibilização económica, como sucede em Yosemite ou Yellowstone e que tantas vezes são citados pelo presidente do ICN. Ironicamente, não há exploração comercial desta área protegida ou, por outra, o parque até permite contratação de guias, disponibiliza informação adicional mediante uma pequena taxa, aluga alojamentos e por aí fora. Mas o orçamento de Shenandoah é atribuído regionalmente. Tudo o que é amealhado através do tal conceito de "área protegida potenciada" é canalizado para uma ONG que, de certa forma, gere as minúcias do parque.
Ora, apesar de ser o governo regional a custear a área protegida, não há registos de protestos. O modelo não merece discussão na Virgínia. Encontrei, entre as pessoas com que falei, um orgulho genuíno pelo privilégio de poder viver a curta distância deste espaço. Aceitam as restrições que ele exige, não fazem fogueiras, nem deitam lixo para o chão. Não constroem à revelia, não cortam árvores, nem caçam furtivamente. Não emitem despachos que pronunciem incontestáveis interesses públicos. O parque valoriza a região que, por esse privilégio, paga uma fatia do orçamento. E o modelo parace funcionar.
Naturalmente, também há ameaças. Duas, disseram-me, ambas relacionadas com doenças da modernidade. A poluição atmosférica das estradas da região afecta tremendamente a qualidade do ar em Shenandoah. E depois... há as motas. As estradas que circundam o parque e alguns caminhos pedestres são usados pela comunidade motociclística local, que testa a velocidade nestas vias. Mostraram-me um site inacreditável onde se indicam os recordes de velocidade estabelecidos em cada curva apertada, nas rampas mais acentuadas e por aí fora. Inevitavelmente, morre uma pessoa a cada duas semanas com estas brincadeiras.
Mas estes são, convenhamos, os problemas de um país sobredesenvolvido que, como uma criança que cresce sempre mais rápido do que as suas roupas, tem regularmente de encontrar soluções para novos problemas. A mensagem que pretendo transmitir nesta crónica é bem mais óbvia: citar o modelo americano de financiamento de áreas protegidas públicas sem relatar as suas especificidades é, não só desonesto, como perigoso. Porque, mesmo aqui, no paraíso do liberalismo, o Estado não abdica da tutela e da responsabilidade sobre os valores naturais. Admite que necessita de verbas para que o trabalho seja mais eficiente, mas não se demite da sua responsabilidade. Se vamos decalcar fórmulas alheias, convém, pelo menos, que atentemos em todos os elementos que as compõem.
Esta semana, tive oportunidade de visitar o Parque Natural de Shenandoah, na Virgínia, e constatei que há uma diferença abissal entre os conceitos português e americano. Chamamos-lhe o mesmo nome, é certo, mas os pontos de contacto terminam aí.
Se me permitem o sarcasmo, o plano de ordenamento deste parque foi aprovado no mesmo ano em que ele foi instituído. Não sofreu contestação. Foi aceite e integrado no tecido social e nas regras de ordenamento local. Contei por aqui, a uma audiência divertida, as peripécias da Arrábida, mas não fui levado a sério. Tentei, mesmo assim, defender a tese de que Portugal ostenta a discutível virtude de ter gerado um novo modelo de parque: o do parque que não tem regulamentos... para ser parque. Nao acreditaram.
Esperava encontrar nesta pequena área protegida (pequena para os padrões da América do Norte) mecanismos de rendibilização económica, como sucede em Yosemite ou Yellowstone e que tantas vezes são citados pelo presidente do ICN. Ironicamente, não há exploração comercial desta área protegida ou, por outra, o parque até permite contratação de guias, disponibiliza informação adicional mediante uma pequena taxa, aluga alojamentos e por aí fora. Mas o orçamento de Shenandoah é atribuído regionalmente. Tudo o que é amealhado através do tal conceito de "área protegida potenciada" é canalizado para uma ONG que, de certa forma, gere as minúcias do parque.
Ora, apesar de ser o governo regional a custear a área protegida, não há registos de protestos. O modelo não merece discussão na Virgínia. Encontrei, entre as pessoas com que falei, um orgulho genuíno pelo privilégio de poder viver a curta distância deste espaço. Aceitam as restrições que ele exige, não fazem fogueiras, nem deitam lixo para o chão. Não constroem à revelia, não cortam árvores, nem caçam furtivamente. Não emitem despachos que pronunciem incontestáveis interesses públicos. O parque valoriza a região que, por esse privilégio, paga uma fatia do orçamento. E o modelo parace funcionar.
Naturalmente, também há ameaças. Duas, disseram-me, ambas relacionadas com doenças da modernidade. A poluição atmosférica das estradas da região afecta tremendamente a qualidade do ar em Shenandoah. E depois... há as motas. As estradas que circundam o parque e alguns caminhos pedestres são usados pela comunidade motociclística local, que testa a velocidade nestas vias. Mostraram-me um site inacreditável onde se indicam os recordes de velocidade estabelecidos em cada curva apertada, nas rampas mais acentuadas e por aí fora. Inevitavelmente, morre uma pessoa a cada duas semanas com estas brincadeiras.
Mas estes são, convenhamos, os problemas de um país sobredesenvolvido que, como uma criança que cresce sempre mais rápido do que as suas roupas, tem regularmente de encontrar soluções para novos problemas. A mensagem que pretendo transmitir nesta crónica é bem mais óbvia: citar o modelo americano de financiamento de áreas protegidas públicas sem relatar as suas especificidades é, não só desonesto, como perigoso. Porque, mesmo aqui, no paraíso do liberalismo, o Estado não abdica da tutela e da responsabilidade sobre os valores naturais. Admite que necessita de verbas para que o trabalho seja mais eficiente, mas não se demite da sua responsabilidade. Se vamos decalcar fórmulas alheias, convém, pelo menos, que atentemos em todos os elementos que as compõem.
domingo, junho 05, 2005
Cronica americana
Nao era desta forma que eu pretendia comecar as minhas cronicas em solo americano, mas circunstancias inesperadas modificaram o planeamento. Como alias o leitor verificara...
Comeco por dizer que, se fosse catolico, ja nao temeria o inferno porque estive no aeroporto de Newark e sobrevivi. A custo, mas sobrevivi.
Voo longo, na TAP, atrasado como de costume e pontuado pela tradicional exibicao de ingles macarronico do comandante. Nao sei explicar o motivo, mas nao ha comandante da TAP que nao devore silabas quando tem de balbuciar algumas frases em ingles. Ladies and gentmens. This is ycptain spking.
Nos tempos que correm, chegar a um aeroporto americano e uma proeza ousada, como ir as compras em Luanda ou assistir a um concerto dos HeartWork. De ano para ano, constato que os funcionarios da imgracao estao mais rudes, qualidade certamente cultivada no servico (os polidos nao estao no atendimento ao publico).
Perguntas da praxe. Protocolo. Ja leu Derrida? Conhece Ralph Nader? Os Suns vao ganhar o titulo da NBA? Sou obrigado a deixar a impressao dos dois indicadores para a posteridade e a sorrir para uma minicamara. Qualquer dia so me deixam entrar depois de uma exibicao de sapateado, replicando movimentos do Fred Astaire (nota mental: treinar o bater dos tacoes e pedir ao sapateiro novas salas de ferro).
Subir escadas e elevadores, Apanhar o comboio de superficie. E com tanta carruagem disponivel, tenho de partilhar a minha com o Joaquim Almeida - o actor.
Sair do comboio a sete pes. Passar para aseccao da revista de bagagens. A desorganizacao e tal que faz parecer sintonizados os funcionarios da Seguranca Social da Loja do Cidadao, em Lisboa. Tirar cinto. Tirar sapatos. Nao me enganei: parece que vou mesmo dancar sapateado para ser aprovado. Ou nao.
Confirmando por fim que nao sou um perigoso terrorista - embora a ideia de um Mujahiddin a correr desenfreado por estes corredores me pareca menos despropositada a medida que as horas passam -, la me deixam passar.
Chegar a porta de embarque. O voo de ligacao ja partiu. Arrancar cabelos as mao-cheias. Voltar a Continental para emitir novo bilhete para um voo tres horas depois.
Sou atendido por um mascador, um ser humano que rumina furiosamente uma pastilha como se nao houvesse amanha. Pausas. Incrivelmente, ele interrompe para ir buscar comida. O cheiro pestilento do sebo dos hamburgueres faz-me pensar que por esta provacao nem o pequeno Martunis passou.
Novo voo finalmente marcado. Resta (des)esperar.
A primeira reuniao ja esta perdida. Encontrar formas de passar o tempo. Ler o "Publico" de ponta a ponta, ate a cronica do Eduardo Cintra Torres -o desespero leva um homem as praticas mais abominaveis.
Compro um cartao para aceder a um destes novos terminais de Internet. Dez dolares depois, a maquina agradeceu, comeu a nota e nao se mexeu.Faco um escarceu dos diabos. Ja bem basta teclar num computador sem acentos (as minhas desculpas por esta prosa "desacentuada" que parece um original da Maria Joao Avillez antes das correccoes ortograficas).
Comeco por dizer que, se fosse catolico, ja nao temeria o inferno porque estive no aeroporto de Newark e sobrevivi. A custo, mas sobrevivi.
Voo longo, na TAP, atrasado como de costume e pontuado pela tradicional exibicao de ingles macarronico do comandante. Nao sei explicar o motivo, mas nao ha comandante da TAP que nao devore silabas quando tem de balbuciar algumas frases em ingles. Ladies and gentmens. This is ycptain spking.
Nos tempos que correm, chegar a um aeroporto americano e uma proeza ousada, como ir as compras em Luanda ou assistir a um concerto dos HeartWork. De ano para ano, constato que os funcionarios da imgracao estao mais rudes, qualidade certamente cultivada no servico (os polidos nao estao no atendimento ao publico).
Perguntas da praxe. Protocolo. Ja leu Derrida? Conhece Ralph Nader? Os Suns vao ganhar o titulo da NBA? Sou obrigado a deixar a impressao dos dois indicadores para a posteridade e a sorrir para uma minicamara. Qualquer dia so me deixam entrar depois de uma exibicao de sapateado, replicando movimentos do Fred Astaire (nota mental: treinar o bater dos tacoes e pedir ao sapateiro novas salas de ferro).
Subir escadas e elevadores, Apanhar o comboio de superficie. E com tanta carruagem disponivel, tenho de partilhar a minha com o Joaquim Almeida - o actor.
Sair do comboio a sete pes. Passar para aseccao da revista de bagagens. A desorganizacao e tal que faz parecer sintonizados os funcionarios da Seguranca Social da Loja do Cidadao, em Lisboa. Tirar cinto. Tirar sapatos. Nao me enganei: parece que vou mesmo dancar sapateado para ser aprovado. Ou nao.
Confirmando por fim que nao sou um perigoso terrorista - embora a ideia de um Mujahiddin a correr desenfreado por estes corredores me pareca menos despropositada a medida que as horas passam -, la me deixam passar.
Chegar a porta de embarque. O voo de ligacao ja partiu. Arrancar cabelos as mao-cheias. Voltar a Continental para emitir novo bilhete para um voo tres horas depois.
Sou atendido por um mascador, um ser humano que rumina furiosamente uma pastilha como se nao houvesse amanha. Pausas. Incrivelmente, ele interrompe para ir buscar comida. O cheiro pestilento do sebo dos hamburgueres faz-me pensar que por esta provacao nem o pequeno Martunis passou.
Novo voo finalmente marcado. Resta (des)esperar.
A primeira reuniao ja esta perdida. Encontrar formas de passar o tempo. Ler o "Publico" de ponta a ponta, ate a cronica do Eduardo Cintra Torres -o desespero leva um homem as praticas mais abominaveis.
Compro um cartao para aceder a um destes novos terminais de Internet. Dez dolares depois, a maquina agradeceu, comeu a nota e nao se mexeu.Faco um escarceu dos diabos. Ja bem basta teclar num computador sem acentos (as minhas desculpas por esta prosa "desacentuada" que parece um original da Maria Joao Avillez antes das correccoes ortograficas).
sexta-feira, junho 03, 2005
Hilariante II

Ontem, na pacata Vila Ruiva, a caminho do Alvito, deparei com mais um dos hilariantes dichotes de parede que tanto prendem a minha atenção. Ora, em pleno Alentejo, descobri que não é só o Futebol Clube do Porto que negociou o patrocínio desportivo com a Nike. O Vila Ruiva Futebol Clube, aparentemente, também. Ou isso ou alguém se divertiu a desenhar o logotipo da multinacional americana junto ao nome do clube.
domingo, maio 29, 2005
O Rei Vai Nu
«De cada vez que nomeio alguém, crio um ingrato e 100 ciumentos»
A propósito da nomeação do ex-autarca e ex-ministro Fernando Gomes para a administração da Galp Energia, recordo esta velha citação atribuída a Luís XIV. Mas, para além da gargalhada que a grotesca nomeação despertou nos portugueses mais ou menos racionais (vão escasseando, garanto, vão escasseando), impõe-se uma reflexão sarcástica sobre estes poisos temporários que as figuras partidárias caídas em relativa desgraça parecem encontrar em períodos de exílio.
Curiosamente, o primeiro bloco de críticas nasce sempre do principal partido da oposição. Irónico, no mínimo, que o PSD ouse beliscar a nomeação, se não contestou a presidência de Ferreira do Amaral ou as candidaturas de Guido Albuquerque ou Nuno Moreira da Cruz. Neste caso, não é o descrédito da instituição que aflige o PSD. É o despeito.
Do lado do PS, não ficava mal se alguma voz iluminada tomasse o microfone para dizer aquilo que todos nós vemos: o rei vai nu. Não há explicação possível para esta nomeação, nem há nada no currículo político ou empresarial (por escasso que este último seja) de Fernando Gomes que o torne candidato natural ao caso. Não se lhe conhecem tomadas de posição sobre a energia em Portugal; não se lhe ouviram apreciações sobre o mercado petrolífero em Portugal; ninguém sabe sequer se Fernando Gomes sabe distinguir a gasolina do diesel. Quanto muito, a afinidade que tinha com o sector limitava-se à ocasião semanal em que parava o carro numa gasolineira e abastecia o veículo.
Cito, com a devida vénia, do Minha Rica Casinha uma passagem exemplar:
«O simples só ambicionava, e só isso ousou balbuciar, um lugarzinho como economista.
Fardadinho de azul, queria ferrar às oito e (disso não abdicava) lá pelo meio dia e meia hora fazia pausa, e da lanchonete tirava uma de paio e a sagres.
Depois, ao final da tarde, a sirene amiga, o desferrar e o voltar aos seus com o sabor do dever cumprido. Era só o que esta abnegada alma queria. Mas não: fizeram-no administrador. E agora, o pobre, até está desnorteado.»
A propósito da nomeação do ex-autarca e ex-ministro Fernando Gomes para a administração da Galp Energia, recordo esta velha citação atribuída a Luís XIV. Mas, para além da gargalhada que a grotesca nomeação despertou nos portugueses mais ou menos racionais (vão escasseando, garanto, vão escasseando), impõe-se uma reflexão sarcástica sobre estes poisos temporários que as figuras partidárias caídas em relativa desgraça parecem encontrar em períodos de exílio.
Curiosamente, o primeiro bloco de críticas nasce sempre do principal partido da oposição. Irónico, no mínimo, que o PSD ouse beliscar a nomeação, se não contestou a presidência de Ferreira do Amaral ou as candidaturas de Guido Albuquerque ou Nuno Moreira da Cruz. Neste caso, não é o descrédito da instituição que aflige o PSD. É o despeito.
Do lado do PS, não ficava mal se alguma voz iluminada tomasse o microfone para dizer aquilo que todos nós vemos: o rei vai nu. Não há explicação possível para esta nomeação, nem há nada no currículo político ou empresarial (por escasso que este último seja) de Fernando Gomes que o torne candidato natural ao caso. Não se lhe conhecem tomadas de posição sobre a energia em Portugal; não se lhe ouviram apreciações sobre o mercado petrolífero em Portugal; ninguém sabe sequer se Fernando Gomes sabe distinguir a gasolina do diesel. Quanto muito, a afinidade que tinha com o sector limitava-se à ocasião semanal em que parava o carro numa gasolineira e abastecia o veículo.
Cito, com a devida vénia, do Minha Rica Casinha uma passagem exemplar:
«O simples só ambicionava, e só isso ousou balbuciar, um lugarzinho como economista.
Fardadinho de azul, queria ferrar às oito e (disso não abdicava) lá pelo meio dia e meia hora fazia pausa, e da lanchonete tirava uma de paio e a sagres.
Depois, ao final da tarde, a sirene amiga, o desferrar e o voltar aos seus com o sabor do dever cumprido. Era só o que esta abnegada alma queria. Mas não: fizeram-no administrador. E agora, o pobre, até está desnorteado.»
sábado, maio 28, 2005
Cortesia ao Volante?

Ontem, numa rua de Lisboa.
Dois carros, um único lugar. Os dois condutores (um ele e uma ela) discutem acaloradamente quem primeiro viu a vaga. Gorada a diplomacia, seguiu-se a prova de esforço. Ambos recusaram mexer-se. O veículo da frente não avançava para não dar margem de manobra à senhora do carro de trás. Esta, por sua vez, não recuava para impedir o estacionamento do rival. Os dois adultos (!) demoraram quinze minutos a resolver o diferendo e só pararam quando surgiu uma saída airosa para ambos. Abriu uma vaga vinte metros à frente, que permitiu ao condutor manter o orgulho e um lugar de estacionamento...
Conto este caso corriqueiro numa altura em que já passou quase um mês sobre o Dia Nacional da Cortesia ao Volante (5 de Maio), efeméride assinalada pelo lema "A estrada não é um ringue de boxe". Os promotores da iniciativa postularam um quadro de quinze mandamentos, que nos fazem sorrir quando vemos casos destes em Lisboa. Porque a estrada é hoje, cada vez mais, um ringue de boxe.
(ver quadro completo dos mandamentos da cortesia ao volante aqui).
terça-feira, maio 24, 2005
Crónica de Escárnio e Maldizer
As manifestações colectivas de rua já foram uma marca política. De forte carga simbólica, constituíam indesmentíveis demonstrações de fé na(s) causa(s). Associações, centrais sindicais, partidos, jornais desmultiplicavam esforços para encher de gente as avenidas. Por definição, a manifestação mais concorrida era a que melhor expressava o pulsar da nação, e os jornais afectos a uma ou outra causa exageravam propositadamente as estimativas de presenças. Mais gente é e sempre foi igual a mais força. Quod erat demonstrandum.
Com o tempo, a natureza das manifestações modificou-se. A participação popular diminuiu. As ocasiões de festejo colectivo tornaram-se mais espaçadas. Progressivamente, as manifestações colectivas ficaram guardadas para momentos eleitorais. Ali, as «jotas» prometem mundos e fundos para encher a arena de população, arrebanhando fiéis de circunstância para que o plano americano das televisões não pareça muito mal. Pouco importa o credo partidário. É preciso compor o cenário. Nas últimas eleições legislativas, um velho amigo ligou-me, pesaroso. Estava no último comício do "menino guerreiro". «Fui arregimentado. Não pude dizer que não», queixava-se ele, ao telefone, procurando sobrepor a voz aos urros que os altifalantes emitiam.
Mas não é sobre demonstrações de fé forçada (ou forjada) que quero hoje escrever. Falo deste estranho rito tribal, que leva milhares às ruas para festejar o triunfo do emblema desportivo local. De cachecol pendurado na janela e mão descansando pesadamente sobre a buzina, o manifestante moderno passeia pela cidade sem rumo aparente. Como um bebé, necessita apenas que o carro esteja em movimento. E precisa sobretudo de se sentir acompanhado. Muito acompanhado.
Imaginem o desconsolo de um único automobilista, sozinho, circulando na rotunda do Marquês do Pombal! Inaudito. O manifestante moderno precisa da desresponsabilização gerada pelo número. Apita em gruto. Berra em grupo. Insulta protegido pelo grupo. Das cavernas à modernidade, dista apenas um som gutural.
Ele apita freneticamente enquanto entoa cânticos primários. Urra. Algum, mais afoito, trepa uma estátua, movido porventura pela secreta esperança de encontrar a fortuna no topo, como a lenda do caldeirão de moedas no fim do arco-íris. Debalde. Chegado ao topo, resta-lhe descer, de sorriso cretino estampado no rosto. É saudado como um Cabral, herói contemporâneo que desafiou a gravidade e os elementos.
Parece-lhe incrível que alguém possa circular na cidade com outro fim que não o buzinão. Desfralda a bandeira, grita slogans rudimentares e bate no "capot" como um salvo-conduto clubístico. «Este pode passar. Parece ser dos nossos»
O ruído é a sua razão de ser e não lhe ocorre que poderia festejar sem buzinar ou berrar como um leitão desmamamdo. A ordem imposta ao protesto estragaria o gozo. E é vê-lo a rir-se das forças da ordem impotentes ou dos sinais de aviso da proximidade de hospitais ou maternidades. A transgressão atrai, sobretudo quando o número garante segurança.
Colecciona todo o tipo de troféus a que pode deitar mão. Arranca sinais de trânsito, tabuletas, caixotes do lixo ou outros pacíficos objectos numa captura frenética de "souvenirs" que, num dia normal, o indignaria. Encontra justificação para a barbárie no carácter absolutamente inovador da vitória do seu clube, como se todos os anos não houvesse campeonato e campeão. E canta, senhores, canta muito. Melodias cretinas destinadas a inimigos ausentes e que glorificam a campanha da temporada, desenvolvida, como é natural, «contra tudo e contra tudos». Não faria sentido inventar músicas se a campanha não tivesse sido heróica ou gloriosa.
Gosto particularmente da proliferação de cretinices que se dizem na circunstância. "Isto estava mal, mas agora vai mudar." "A crise já não me assusta." "Esta é a maior instituição do país." Quem ousaria contestar as propostas teóricas de quem passa uma noite inteira a gritar uma sigla e o adjectivo glorioso? Pois com certeza. Tem toda a razão.
Como nos trabalhos pioneiros do antropólogo Claude Lévy-Strauss, proponho cunhar este achado cultural tão próprio da nossa terra, com um vocábulo específico. Chamo-lhe o grunho buzinador, espécie nada ameaçada nesta Lisboa tristemente benfiquista. Irra!
Com o tempo, a natureza das manifestações modificou-se. A participação popular diminuiu. As ocasiões de festejo colectivo tornaram-se mais espaçadas. Progressivamente, as manifestações colectivas ficaram guardadas para momentos eleitorais. Ali, as «jotas» prometem mundos e fundos para encher a arena de população, arrebanhando fiéis de circunstância para que o plano americano das televisões não pareça muito mal. Pouco importa o credo partidário. É preciso compor o cenário. Nas últimas eleições legislativas, um velho amigo ligou-me, pesaroso. Estava no último comício do "menino guerreiro". «Fui arregimentado. Não pude dizer que não», queixava-se ele, ao telefone, procurando sobrepor a voz aos urros que os altifalantes emitiam.
Mas não é sobre demonstrações de fé forçada (ou forjada) que quero hoje escrever. Falo deste estranho rito tribal, que leva milhares às ruas para festejar o triunfo do emblema desportivo local. De cachecol pendurado na janela e mão descansando pesadamente sobre a buzina, o manifestante moderno passeia pela cidade sem rumo aparente. Como um bebé, necessita apenas que o carro esteja em movimento. E precisa sobretudo de se sentir acompanhado. Muito acompanhado.
Imaginem o desconsolo de um único automobilista, sozinho, circulando na rotunda do Marquês do Pombal! Inaudito. O manifestante moderno precisa da desresponsabilização gerada pelo número. Apita em gruto. Berra em grupo. Insulta protegido pelo grupo. Das cavernas à modernidade, dista apenas um som gutural.
Ele apita freneticamente enquanto entoa cânticos primários. Urra. Algum, mais afoito, trepa uma estátua, movido porventura pela secreta esperança de encontrar a fortuna no topo, como a lenda do caldeirão de moedas no fim do arco-íris. Debalde. Chegado ao topo, resta-lhe descer, de sorriso cretino estampado no rosto. É saudado como um Cabral, herói contemporâneo que desafiou a gravidade e os elementos.
Parece-lhe incrível que alguém possa circular na cidade com outro fim que não o buzinão. Desfralda a bandeira, grita slogans rudimentares e bate no "capot" como um salvo-conduto clubístico. «Este pode passar. Parece ser dos nossos»
O ruído é a sua razão de ser e não lhe ocorre que poderia festejar sem buzinar ou berrar como um leitão desmamamdo. A ordem imposta ao protesto estragaria o gozo. E é vê-lo a rir-se das forças da ordem impotentes ou dos sinais de aviso da proximidade de hospitais ou maternidades. A transgressão atrai, sobretudo quando o número garante segurança.
Colecciona todo o tipo de troféus a que pode deitar mão. Arranca sinais de trânsito, tabuletas, caixotes do lixo ou outros pacíficos objectos numa captura frenética de "souvenirs" que, num dia normal, o indignaria. Encontra justificação para a barbárie no carácter absolutamente inovador da vitória do seu clube, como se todos os anos não houvesse campeonato e campeão. E canta, senhores, canta muito. Melodias cretinas destinadas a inimigos ausentes e que glorificam a campanha da temporada, desenvolvida, como é natural, «contra tudo e contra tudos». Não faria sentido inventar músicas se a campanha não tivesse sido heróica ou gloriosa.
Gosto particularmente da proliferação de cretinices que se dizem na circunstância. "Isto estava mal, mas agora vai mudar." "A crise já não me assusta." "Esta é a maior instituição do país." Quem ousaria contestar as propostas teóricas de quem passa uma noite inteira a gritar uma sigla e o adjectivo glorioso? Pois com certeza. Tem toda a razão.
Como nos trabalhos pioneiros do antropólogo Claude Lévy-Strauss, proponho cunhar este achado cultural tão próprio da nossa terra, com um vocábulo específico. Chamo-lhe o grunho buzinador, espécie nada ameaçada nesta Lisboa tristemente benfiquista. Irra!
sábado, maio 21, 2005
Quioto, 2800 dias depois
Acabo de ler um artigo de Frédéric Durand, publicado no "Le Monde Diplomatique". Durand é um universitário de Toulouse, que se tem pronunciado regularmente sobre as alterações climáticas e tem avaliado o contributo intergovernamental para minimizar o previsível aquecimento global do planeta. O seu artigo "Sale Temps Sur le Climat" é porventura o mais amargo de todos os que li e representa um ataque claro aos signatários e não signatários do protocolo de Quioto.
Primeira premissa: perdeu-se tempo de mais a avaliar os riscos das alterações climáticas. Durand defende que, desde meados dos anos 1980, era previsível que caminhávamos para uma alteração sensível da temperatura média do globo, com as correspondentes consequências ao nível da subida da água do mar, da deterioração das zonas húmidas, da alteração de correntes marítimas e porventura de radicais modificações de clima global. O Grupo Intergovernamental para Evolução Climática demorou tempo de mais a divulgar conclusões e, pior, escondeu-se sempre sob o manto da probabilidade científica, evitando certezas incómodas e relegando para o futuro decisões urgentes.
Segunda premissa: o «lobby» dos combustíveis fósseis fez o seu trabalho com afinco e, em meados dos anos 1990 (e porventura ainda agora), era possível encontrar trabalhos científicos, alegando que o papel humano no aumento das emissões de gases com efeito de estufa não estava ainda provado e que o fenómeno poderia resultar de um aumento da actividade solar! A incerteza foi sempre uma arma. Não cabia demonstrar que estas duas teses eram verdadeiras, mas sim que o poderiam ser. Instalada a incerteza, não se poderiam tomar medidas globais.
Foi neste contexto controverso, diz Durand, que os países se juntaram em Quioto em 1997. Os Estados Unidos, responsáveis à data por 22% das emissões globais de CO2, propuseram a estabilização das emissões em 2012 tomando como parâmetro de comparação os níveis de 1990. Os países europeus propuseram uma redução global de 15% das emissões nos países industralizados, tendo 1990 como ano de referência.
Como sucede como frequência nas grandes conferências, o resultado ficou a meio caminho entre duas propostas: é público que o protocolo estabeleceu como premissa uma redução de 5,2% até 2012 tomando as emissões de 1990 como valor-base.
Durand argumenta que os europeus foram pouco ousados. Para um país como a França, com forte capacidade de desenvolvimento nuclear, o protocolo exigia apenas uma redução real de 1%, Para a média da União Europeia, a fasquia era também baixa: 5%. Em contrapartida, para os EUA, o protocolo exigia uma quebra real de 18% e 16% para o Japão. Foi certamente por isto que os EUA se recusaram a assinar o tratado.
Uma das questões que mais reservas me coloca em Quioto, desde o início, é o esquecimento compulsivo das economias emergentes nos países em vias de desenvolvimento. Era previsível em 1997 que a China, a Índia e mesmo o Brasil avançariam rapidamente no processo de industralização e as suas emissões deveriam ter sido, desde logo, limitadas. Não o foram. Beneficiaram de um salvo-conduto para imitar os erros industriais dos antecessores.
Optou-se além disso por um mecanismo confuso e dúbio de "um mercado dos direitos de poluição", uma solução tacanha e cuja eficácia ainda carece de prova.
Quioto é a melhor solução? Hoje, mais ainda do que em 1998, não parece. Desde 2001 que o Instituto de Avaliação das Estratégias para a Energia e o Ambiente na Europa (Inestene) tem levantado dúvidas contínuas sobre o tratado e as suas condições de sucesso. Mesmo que se cumprissem as exigências do protocolo, o Inestene considera que se conseguiria apenas baixar 0,06ºC dos 2ºC de aumento da temperatura média do globo previstos para 2050 de acordo com vários modelos climáticos apresentados. As contas são por isso simples, e Durand apresenta-as com clareza inquestionável: «Esses 0,06ºC correspondem apenas a 3% do esfroço a realizar para travar efectivamente o aquecimento global (...) O nosso modelo de dsenvolvimento corresponde potencialmente a um choque frontal com um muro a 100km/h. Com esse diagnóstico, o que fizemos em Quioto? Propusemos redzuir 3% da velocidade, para 97km/h, na esperança de que já seria suficiente para evitar danos! Não é»
E isto, repito, assumindo que as metas de Quioto vão ser cumpridas. Cá estaremos para ver.
Primeira premissa: perdeu-se tempo de mais a avaliar os riscos das alterações climáticas. Durand defende que, desde meados dos anos 1980, era previsível que caminhávamos para uma alteração sensível da temperatura média do globo, com as correspondentes consequências ao nível da subida da água do mar, da deterioração das zonas húmidas, da alteração de correntes marítimas e porventura de radicais modificações de clima global. O Grupo Intergovernamental para Evolução Climática demorou tempo de mais a divulgar conclusões e, pior, escondeu-se sempre sob o manto da probabilidade científica, evitando certezas incómodas e relegando para o futuro decisões urgentes.
Segunda premissa: o «lobby» dos combustíveis fósseis fez o seu trabalho com afinco e, em meados dos anos 1990 (e porventura ainda agora), era possível encontrar trabalhos científicos, alegando que o papel humano no aumento das emissões de gases com efeito de estufa não estava ainda provado e que o fenómeno poderia resultar de um aumento da actividade solar! A incerteza foi sempre uma arma. Não cabia demonstrar que estas duas teses eram verdadeiras, mas sim que o poderiam ser. Instalada a incerteza, não se poderiam tomar medidas globais.
Foi neste contexto controverso, diz Durand, que os países se juntaram em Quioto em 1997. Os Estados Unidos, responsáveis à data por 22% das emissões globais de CO2, propuseram a estabilização das emissões em 2012 tomando como parâmetro de comparação os níveis de 1990. Os países europeus propuseram uma redução global de 15% das emissões nos países industralizados, tendo 1990 como ano de referência.
Como sucede como frequência nas grandes conferências, o resultado ficou a meio caminho entre duas propostas: é público que o protocolo estabeleceu como premissa uma redução de 5,2% até 2012 tomando as emissões de 1990 como valor-base.
Durand argumenta que os europeus foram pouco ousados. Para um país como a França, com forte capacidade de desenvolvimento nuclear, o protocolo exigia apenas uma redução real de 1%, Para a média da União Europeia, a fasquia era também baixa: 5%. Em contrapartida, para os EUA, o protocolo exigia uma quebra real de 18% e 16% para o Japão. Foi certamente por isto que os EUA se recusaram a assinar o tratado.
Uma das questões que mais reservas me coloca em Quioto, desde o início, é o esquecimento compulsivo das economias emergentes nos países em vias de desenvolvimento. Era previsível em 1997 que a China, a Índia e mesmo o Brasil avançariam rapidamente no processo de industralização e as suas emissões deveriam ter sido, desde logo, limitadas. Não o foram. Beneficiaram de um salvo-conduto para imitar os erros industriais dos antecessores.
Optou-se além disso por um mecanismo confuso e dúbio de "um mercado dos direitos de poluição", uma solução tacanha e cuja eficácia ainda carece de prova.
Quioto é a melhor solução? Hoje, mais ainda do que em 1998, não parece. Desde 2001 que o Instituto de Avaliação das Estratégias para a Energia e o Ambiente na Europa (Inestene) tem levantado dúvidas contínuas sobre o tratado e as suas condições de sucesso. Mesmo que se cumprissem as exigências do protocolo, o Inestene considera que se conseguiria apenas baixar 0,06ºC dos 2ºC de aumento da temperatura média do globo previstos para 2050 de acordo com vários modelos climáticos apresentados. As contas são por isso simples, e Durand apresenta-as com clareza inquestionável: «Esses 0,06ºC correspondem apenas a 3% do esfroço a realizar para travar efectivamente o aquecimento global (...) O nosso modelo de dsenvolvimento corresponde potencialmente a um choque frontal com um muro a 100km/h. Com esse diagnóstico, o que fizemos em Quioto? Propusemos redzuir 3% da velocidade, para 97km/h, na esperança de que já seria suficiente para evitar danos! Não é»
E isto, repito, assumindo que as metas de Quioto vão ser cumpridas. Cá estaremos para ver.
quinta-feira, maio 12, 2005
Uma Sucursal do Grémio

Nos tempos que correm, cada vez mais, o parlamento é uma sucursal do grémio. - Eça
Aparentemente, os últimos dias de governação parecem ser os mais animados e divertidos. Solto da pressão eleitoral, liberto dos patetas das distritais e livre dos camafeus da imprensa, o ministro pode por fim dedicar-se ao que mais importa: o «day after». Caramba! Ser ministro é muito bonito e permite-nos apregoar patetices em «cocktails» («Quer o Fontes Pereira de Melo, quer eu, batemo-nos contra a centralização do Terreiro do Paço»), mas não puxa carroças. Não, dizia, os últimos dias de governação reservam-se para as coisas verdadeiramente importantes. Pelo que a experiência recente nos ensina, é nos dias pós-eleições, enquanto se aguarda a chegada dos triunfadores da véspera, que um ministro pode por fim compensar as agruras. E deixar a sua marca indelével no ordenamento do território, corrigindo, rectificando, aumentando, diminuindo superfícies e classificações de protecção. Com um brilho nos olhos, o ministro talvez imagine os livros de história: «Esta foi a medida mais ousada do ciclo de governação, tomada por fulano tal, contra ventos e marés."
O raciocínio subjacente a este estranho afã governativo é o de que o comboio da nação não se detém por nada - muito menos pela chegada iminente de um novo elenco de governantes, provavelmente dotados da mesma sensibilidade para o Ambiente que Sousa Lara tinha para avaliar projectos culturais. Por isso, perante a chegada iminente dos bárbaros, o ministro pega na caneta e rectifica áreas protegidas, aceita excepções aos estatutos de protecção ou manda avançar as moto-serras. Em nome do imprescindível interesse público da operação, seja ela um Freeport em Alcochete, um projecto inenarrável em Mourão ou uma estância de golfe em Benavente.
Enquanto nos vários ministérios, os funcionários se entretinham a redigir os seus próprios louvores (quem melhor do que eu para me avaliar, sobretudo porque me conheço praticamente desde o início da minha vida?), Nobre Guedes, Telmo Correia e Costa Neves consideraram que o dia seguinte à eleição mais esmagadora da história do Partido Socialista era a altura ideal para desbloquear o projecto de Benavente. Faz todo o sentido, convenhamos.
Pergunta-se: terá um governo de gestão autoridade para tomar medidas de fundo, que revelem imprescindíveis interesses públicos, durante o período de transição entre elencos? Tem. Terá legitimidade? Custa-me a aceitar, mas admito que sim. Será esse o «timing» certo? Mil vezes não. Por um lado, porque é essa a fase política de "quarto escuro", onde ninugém vê nada, ninguém controla, ninguém vigia e, quando a luz se acende, alguém grita 'Fui Roubado'. Depois, porque para quem anda no terreno há anos a tentar fazer aprovar planos de ordenamento, revisões de planos de ordenamento e planos de pormenor, é especialmente frustrante ver que uma assinatura num diploma é suficiente para mandar cortar dois milhares de árvores que beneficiam do estatuto máximo de protecção em Portugal.
Admito que este processo judicial não provoque danos de maior (aliás, há meses que não se fala do processo do Freeport e muito menos da manchete do "Público" que implicava dirigentes socialistas num negócio dúbio em plena zona dunar de Vila Real de Santo António). Adivinho enormes dificuldades em fazer prova de que o salvo-conduto de Benavente foi autorizado pelos três ministérios a troco de X ou para ajudar Y. Por isso, e enquanto o parlamento se torna gradualmente a tal sucursal do grémio de que falava Eça, lá vamos, cantando e rindo. Assobiando mas com menos sombra. Vão faltando os sobreiros.
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