quinta-feira, junho 09, 2005

Pongo

A propósito de grandes conferencistas científicos, de anúncios pomposos de descobertas e de falsos ídolos.

«A grande novidade em Londres é a chegada de um hóspode ilustre – o sr.Pongo. Quem é o sr. Pongo? (…) O sr. Pongo não é um príncipe, nem um general, nem um escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista – é simplesmente um macaco. Mas que macaco! É um gorilha [sic]: o primeiro,o único que tem vindo à Europa! (…) Comia ordinariamente farináceos e frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um pedaço de bife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Começaram a dar-lhe carne e água; come tudo o que come um gentleman: o seu almoço é como o de qualquer de nós – ovos e costoletas ao breakfast. Veio-se à conclusão que poderia beber tudo – desde Bordéus até Moet et Chandon. (…) Milhares de pessoas afluem a admirar esta espécie de homem primitivo, que há alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superfície da Terra, e era então o rei da Criação! Quem sabe se daqui a alguns mil anos, quando a raça humana, tal qual é hoje, tiver quase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um sábio então não encontrará, nos desertos ou nos bosques, um último homem e não virá expô-lo nalguma Londres dessa época? E os seres mais perfeitos de então virão contemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como nós hoje contemplamos o nosso antepassado, o gorilha!” (…) Pongo até agora, dorme bem, almoça o seu beefsteak, janta sopa, roast.beef e sobremesa, fuma três ou quatro charutos por dia, palita os dentes, dorme a sesta – e faz tudo o que faz qualquer inglês, excepto ter uma opinião sobre a Questão do Oriente, o que é, penso eu, uma qualidade a seu favor

Eça de Queiroz, in "Cartas de Inglaterra"

O ovo e a galinha

(Washington, 8 de Junho) – Aparentemente, não é só em Portugal que se modificam decretos na escuridão dos gabinetes ou se promovem alterações legislativas pela porta do cavalo. Uma investigação do “Washington Post” tem dado que falar. Em causa o novo pacote legislativo da Administração Bush relativo ao mercado energético.
Inserido no amplo programa norte-americano de redução da dependência do petróleo e de contribuição para a melhoria da qualidade do ar, o novo diploma aparentemente incentiva os construtores de veículos híbridos (capazes de se moverem a gás ou etanol), oferecendo-lhes benefícios fiscais e poupando-os das multas por incumprimento de metas ambientais que, no ano passado, totalizaram 1,6 mil milhões de dólares. O projecto parecia louvável, mas uma ONG, a Natural Resources News Services, descodificou o documento para o Post e os sorrisos rapidamente desapareceram.
Como os preços do etanol e outros biocombustíveis não são ainda competitivos, a maior parte dos consumidores opta ainda pelos combustíveis fósseis. Ora o diploma não tem em conta o tipo de combustível que cada automobilista abastece. Limita-se a premiar todos os construtores que disponibilizem a opção pelo etanol a par do gás. E naturalmente é previsível que o consumidor mantenha a mesma orientação.
Todos os anos, o conusmo de gasolina no país aumenta 4%, e esta medida não travará minimamente esse crescimento. Limita-se, na essência, a poupar alguns milhares de dólares à maior parte dos construtores automóveis.
De certa forma, a polémica resume o velho enigma do ovo e da galinha. Os representantes da indústria de refinação alegam que não produzirão combustíveis limpos até haver automóveis que os usem; os construtores automóveis defendem-se, dizendo que não produzirão carros movidos a biocombustíveis sem haver um mercado competitivo de fornecimento de combustível alternativo. O público desconhece as oportunidades dos novos combustíveis ou, quando conhece, naão pretende pagar mais por isso. E deste círculo infinito ninguém parece querer sair.

terça-feira, junho 07, 2005

Comparações desonestas

(Washington, 7 de Junho)- Por muitos ressentimentos que o modelo americano gere entre as opiniões públicas europeias, há uma ideia que é genuinamente americana e universalmente aceite como geradora do conceito contemporâneo de conservação: a noção de parque natural, instituída no século XIX e disseminada pelo mundo fora, como um vírus benigno.
Esta semana, tive oportunidade de visitar o Parque Natural de Shenandoah, na Virgínia, e constatei que há uma diferença abissal entre os conceitos português e americano. Chamamos-lhe o mesmo nome, é certo, mas os pontos de contacto terminam aí.
Se me permitem o sarcasmo, o plano de ordenamento deste parque foi aprovado no mesmo ano em que ele foi instituído. Não sofreu contestação. Foi aceite e integrado no tecido social e nas regras de ordenamento local. Contei por aqui, a uma audiência divertida, as peripécias da Arrábida, mas não fui levado a sério. Tentei, mesmo assim, defender a tese de que Portugal ostenta a discutível virtude de ter gerado um novo modelo de parque: o do parque que não tem regulamentos... para ser parque. Nao acreditaram.
Esperava encontrar nesta pequena área protegida (pequena para os padrões da América do Norte) mecanismos de rendibilização económica, como sucede em Yosemite ou Yellowstone e que tantas vezes são citados pelo presidente do ICN. Ironicamente, não há exploração comercial desta área protegida ou, por outra, o parque até permite contratação de guias, disponibiliza informação adicional mediante uma pequena taxa, aluga alojamentos e por aí fora. Mas o orçamento de Shenandoah é atribuído regionalmente. Tudo o que é amealhado através do tal conceito de "área protegida potenciada" é canalizado para uma ONG que, de certa forma, gere as minúcias do parque.
Ora, apesar de ser o governo regional a custear a área protegida, não há registos de protestos. O modelo não merece discussão na Virgínia. Encontrei, entre as pessoas com que falei, um orgulho genuíno pelo privilégio de poder viver a curta distância deste espaço. Aceitam as restrições que ele exige, não fazem fogueiras, nem deitam lixo para o chão. Não constroem à revelia, não cortam árvores, nem caçam furtivamente. Não emitem despachos que pronunciem incontestáveis interesses públicos. O parque valoriza a região que, por esse privilégio, paga uma fatia do orçamento. E o modelo parace funcionar.
Naturalmente, também há ameaças. Duas, disseram-me, ambas relacionadas com doenças da modernidade. A poluição atmosférica das estradas da região afecta tremendamente a qualidade do ar em Shenandoah. E depois... há as motas. As estradas que circundam o parque e alguns caminhos pedestres são usados pela comunidade motociclística local, que testa a velocidade nestas vias. Mostraram-me um site inacreditável onde se indicam os recordes de velocidade estabelecidos em cada curva apertada, nas rampas mais acentuadas e por aí fora. Inevitavelmente, morre uma pessoa a cada duas semanas com estas brincadeiras.
Mas estes são, convenhamos, os problemas de um país sobredesenvolvido que, como uma criança que cresce sempre mais rápido do que as suas roupas, tem regularmente de encontrar soluções para novos problemas. A mensagem que pretendo transmitir nesta crónica é bem mais óbvia: citar o modelo americano de financiamento de áreas protegidas públicas sem relatar as suas especificidades é, não só desonesto, como perigoso. Porque, mesmo aqui, no paraíso do liberalismo, o Estado não abdica da tutela e da responsabilidade sobre os valores naturais. Admite que necessita de verbas para que o trabalho seja mais eficiente, mas não se demite da sua responsabilidade. Se vamos decalcar fórmulas alheias, convém, pelo menos, que atentemos em todos os elementos que as compõem.

domingo, junho 05, 2005

Cronica americana

Nao era desta forma que eu pretendia comecar as minhas cronicas em solo americano, mas circunstancias inesperadas modificaram o planeamento. Como alias o leitor verificara...
Comeco por dizer que, se fosse catolico, ja nao temeria o inferno porque estive no aeroporto de Newark e sobrevivi. A custo, mas sobrevivi.
Voo longo, na TAP, atrasado como de costume e pontuado pela tradicional exibicao de ingles macarronico do comandante. Nao sei explicar o motivo, mas nao ha comandante da TAP que nao devore silabas quando tem de balbuciar algumas frases em ingles. Ladies and gentmens. This is ycptain spking.
Nos tempos que correm, chegar a um aeroporto americano e uma proeza ousada, como ir as compras em Luanda ou assistir a um concerto dos HeartWork. De ano para ano, constato que os funcionarios da imgracao estao mais rudes, qualidade certamente cultivada no servico (os polidos nao estao no atendimento ao publico).
Perguntas da praxe. Protocolo. Ja leu Derrida? Conhece Ralph Nader? Os Suns vao ganhar o titulo da NBA? Sou obrigado a deixar a impressao dos dois indicadores para a posteridade e a sorrir para uma minicamara. Qualquer dia so me deixam entrar depois de uma exibicao de sapateado, replicando movimentos do Fred Astaire (nota mental: treinar o bater dos tacoes e pedir ao sapateiro novas salas de ferro).
Subir escadas e elevadores, Apanhar o comboio de superficie. E com tanta carruagem disponivel, tenho de partilhar a minha com o Joaquim Almeida - o actor.
Sair do comboio a sete pes. Passar para aseccao da revista de bagagens. A desorganizacao e tal que faz parecer sintonizados os funcionarios da Seguranca Social da Loja do Cidadao, em Lisboa. Tirar cinto. Tirar sapatos. Nao me enganei: parece que vou mesmo dancar sapateado para ser aprovado. Ou nao.
Confirmando por fim que nao sou um perigoso terrorista - embora a ideia de um Mujahiddin a correr desenfreado por estes corredores me pareca menos despropositada a medida que as horas passam -, la me deixam passar.
Chegar a porta de embarque. O voo de ligacao ja partiu. Arrancar cabelos as mao-cheias. Voltar a Continental para emitir novo bilhete para um voo tres horas depois.
Sou atendido por um mascador, um ser humano que rumina furiosamente uma pastilha como se nao houvesse amanha. Pausas. Incrivelmente, ele interrompe para ir buscar comida. O cheiro pestilento do sebo dos hamburgueres faz-me pensar que por esta provacao nem o pequeno Martunis passou.
Novo voo finalmente marcado. Resta (des)esperar.
A primeira reuniao ja esta perdida. Encontrar formas de passar o tempo. Ler o "Publico" de ponta a ponta, ate a cronica do Eduardo Cintra Torres -o desespero leva um homem as praticas mais abominaveis.
Compro um cartao para aceder a um destes novos terminais de Internet. Dez dolares depois, a maquina agradeceu, comeu a nota e nao se mexeu.Faco um escarceu dos diabos. Ja bem basta teclar num computador sem acentos (as minhas desculpas por esta prosa "desacentuada" que parece um original da Maria Joao Avillez antes das correccoes ortograficas).

sexta-feira, junho 03, 2005


Vila Ruiva Futebol Clube

Hilariante II


Ontem, na pacata Vila Ruiva, a caminho do Alvito, deparei com mais um dos hilariantes dichotes de parede que tanto prendem a minha atenção. Ora, em pleno Alentejo, descobri que não é só o Futebol Clube do Porto que negociou o patrocínio desportivo com a Nike. O Vila Ruiva Futebol Clube, aparentemente, também. Ou isso ou alguém se divertiu a desenhar o logotipo da multinacional americana junto ao nome do clube.

domingo, maio 29, 2005

O Rei Vai Nu

«De cada vez que nomeio alguém, crio um ingrato e 100 ciumentos»

A propósito da nomeação do ex-autarca e ex-ministro Fernando Gomes para a administração da Galp Energia, recordo esta velha citação atribuída a Luís XIV. Mas, para além da gargalhada que a grotesca nomeação despertou nos portugueses mais ou menos racionais (vão escasseando, garanto, vão escasseando), impõe-se uma reflexão sarcástica sobre estes poisos temporários que as figuras partidárias caídas em relativa desgraça parecem encontrar em períodos de exílio.
Curiosamente, o primeiro bloco de críticas nasce sempre do principal partido da oposição. Irónico, no mínimo, que o PSD ouse beliscar a nomeação, se não contestou a presidência de Ferreira do Amaral ou as candidaturas de Guido Albuquerque ou Nuno Moreira da Cruz. Neste caso, não é o descrédito da instituição que aflige o PSD. É o despeito.
Do lado do PS, não ficava mal se alguma voz iluminada tomasse o microfone para dizer aquilo que todos nós vemos: o rei vai nu. Não há explicação possível para esta nomeação, nem há nada no currículo político ou empresarial (por escasso que este último seja) de Fernando Gomes que o torne candidato natural ao caso. Não se lhe conhecem tomadas de posição sobre a energia em Portugal; não se lhe ouviram apreciações sobre o mercado petrolífero em Portugal; ninguém sabe sequer se Fernando Gomes sabe distinguir a gasolina do diesel. Quanto muito, a afinidade que tinha com o sector limitava-se à ocasião semanal em que parava o carro numa gasolineira e abastecia o veículo.
Cito, com a devida vénia, do Minha Rica Casinha uma passagem exemplar:
«O simples só ambicionava, e só isso ousou balbuciar, um lugarzinho como economista.
Fardadinho de azul, queria ferrar às oito e (disso não abdicava) lá pelo meio dia e meia hora fazia pausa, e da lanchonete tirava uma de paio e a sagres.
Depois, ao final da tarde, a sirene amiga, o desferrar e o voltar aos seus com o sabor do dever cumprido. Era só o que esta abnegada alma queria. Mas não: fizeram-no administrador. E agora, o pobre, até está desnorteado.»

sábado, maio 28, 2005

Recomendo


Mais um blog que recomendo. Chama-se Lusitanicus e será gerido pelo Luís Quinta, fotógrafo de vida selvagem. A premissa é ambiciosa: uma vez por semana, será mostrada uma imagem de vida selvagem em Portugal. As duas primeiras são de cortar a respiração.
Para ver o blog, clique aqui.

Cortesia ao Volante?


Ontem, numa rua de Lisboa.
Dois carros, um único lugar. Os dois condutores (um ele e uma ela) discutem acaloradamente quem primeiro viu a vaga. Gorada a diplomacia, seguiu-se a prova de esforço. Ambos recusaram mexer-se. O veículo da frente não avançava para não dar margem de manobra à senhora do carro de trás. Esta, por sua vez, não recuava para impedir o estacionamento do rival. Os dois adultos (!) demoraram quinze minutos a resolver o diferendo e só pararam quando surgiu uma saída airosa para ambos. Abriu uma vaga vinte metros à frente, que permitiu ao condutor manter o orgulho e um lugar de estacionamento...
Conto este caso corriqueiro numa altura em que já passou quase um mês sobre o Dia Nacional da Cortesia ao Volante (5 de Maio), efeméride assinalada pelo lema "A estrada não é um ringue de boxe". Os promotores da iniciativa postularam um quadro de quinze mandamentos, que nos fazem sorrir quando vemos casos destes em Lisboa. Porque a estrada é hoje, cada vez mais, um ringue de boxe.

(ver quadro completo dos mandamentos da cortesia ao volante aqui).

terça-feira, maio 24, 2005

Crónica de Escárnio e Maldizer

As manifestações colectivas de rua já foram uma marca política. De forte carga simbólica, constituíam indesmentíveis demonstrações de fé na(s) causa(s). Associações, centrais sindicais, partidos, jornais desmultiplicavam esforços para encher de gente as avenidas. Por definição, a manifestação mais concorrida era a que melhor expressava o pulsar da nação, e os jornais afectos a uma ou outra causa exageravam propositadamente as estimativas de presenças. Mais gente é e sempre foi igual a mais força. Quod erat demonstrandum.
Com o tempo, a natureza das manifestações modificou-se. A participação popular diminuiu. As ocasiões de festejo colectivo tornaram-se mais espaçadas. Progressivamente, as manifestações colectivas ficaram guardadas para momentos eleitorais. Ali, as «jotas» prometem mundos e fundos para encher a arena de população, arrebanhando fiéis de circunstância para que o plano americano das televisões não pareça muito mal. Pouco importa o credo partidário. É preciso compor o cenário. Nas últimas eleições legislativas, um velho amigo ligou-me, pesaroso. Estava no último comício do "menino guerreiro". «Fui arregimentado. Não pude dizer que não», queixava-se ele, ao telefone, procurando sobrepor a voz aos urros que os altifalantes emitiam.
Mas não é sobre demonstrações de fé forçada (ou forjada) que quero hoje escrever. Falo deste estranho rito tribal, que leva milhares às ruas para festejar o triunfo do emblema desportivo local. De cachecol pendurado na janela e mão descansando pesadamente sobre a buzina, o manifestante moderno passeia pela cidade sem rumo aparente. Como um bebé, necessita apenas que o carro esteja em movimento. E precisa sobretudo de se sentir acompanhado. Muito acompanhado.
Imaginem o desconsolo de um único automobilista, sozinho, circulando na rotunda do Marquês do Pombal! Inaudito. O manifestante moderno precisa da desresponsabilização gerada pelo número. Apita em gruto. Berra em grupo. Insulta protegido pelo grupo. Das cavernas à modernidade, dista apenas um som gutural.
Ele apita freneticamente enquanto entoa cânticos primários. Urra. Algum, mais afoito, trepa uma estátua, movido porventura pela secreta esperança de encontrar a fortuna no topo, como a lenda do caldeirão de moedas no fim do arco-íris. Debalde. Chegado ao topo, resta-lhe descer, de sorriso cretino estampado no rosto. É saudado como um Cabral, herói contemporâneo que desafiou a gravidade e os elementos.
Parece-lhe incrível que alguém possa circular na cidade com outro fim que não o buzinão. Desfralda a bandeira, grita slogans rudimentares e bate no "capot" como um salvo-conduto clubístico. «Este pode passar. Parece ser dos nossos»
O ruído é a sua razão de ser e não lhe ocorre que poderia festejar sem buzinar ou berrar como um leitão desmamamdo. A ordem imposta ao protesto estragaria o gozo. E é vê-lo a rir-se das forças da ordem impotentes ou dos sinais de aviso da proximidade de hospitais ou maternidades. A transgressão atrai, sobretudo quando o número garante segurança.
Colecciona todo o tipo de troféus a que pode deitar mão. Arranca sinais de trânsito, tabuletas, caixotes do lixo ou outros pacíficos objectos numa captura frenética de "souvenirs" que, num dia normal, o indignaria. Encontra justificação para a barbárie no carácter absolutamente inovador da vitória do seu clube, como se todos os anos não houvesse campeonato e campeão. E canta, senhores, canta muito. Melodias cretinas destinadas a inimigos ausentes e que glorificam a campanha da temporada, desenvolvida, como é natural, «contra tudo e contra tudos». Não faria sentido inventar músicas se a campanha não tivesse sido heróica ou gloriosa.
Gosto particularmente da proliferação de cretinices que se dizem na circunstância. "Isto estava mal, mas agora vai mudar." "A crise já não me assusta." "Esta é a maior instituição do país." Quem ousaria contestar as propostas teóricas de quem passa uma noite inteira a gritar uma sigla e o adjectivo glorioso? Pois com certeza. Tem toda a razão.
Como nos trabalhos pioneiros do antropólogo Claude Lévy-Strauss, proponho cunhar este achado cultural tão próprio da nossa terra, com um vocábulo específico. Chamo-lhe o grunho buzinador, espécie nada ameaçada nesta Lisboa tristemente benfiquista. Irra!

sábado, maio 21, 2005

Quioto, 2800 dias depois

Acabo de ler um artigo de Frédéric Durand, publicado no "Le Monde Diplomatique". Durand é um universitário de Toulouse, que se tem pronunciado regularmente sobre as alterações climáticas e tem avaliado o contributo intergovernamental para minimizar o previsível aquecimento global do planeta. O seu artigo "Sale Temps Sur le Climat" é porventura o mais amargo de todos os que li e representa um ataque claro aos signatários e não signatários do protocolo de Quioto.
Primeira premissa: perdeu-se tempo de mais a avaliar os riscos das alterações climáticas. Durand defende que, desde meados dos anos 1980, era previsível que caminhávamos para uma alteração sensível da temperatura média do globo, com as correspondentes consequências ao nível da subida da água do mar, da deterioração das zonas húmidas, da alteração de correntes marítimas e porventura de radicais modificações de clima global. O Grupo Intergovernamental para Evolução Climática demorou tempo de mais a divulgar conclusões e, pior, escondeu-se sempre sob o manto da probabilidade científica, evitando certezas incómodas e relegando para o futuro decisões urgentes.
Segunda premissa: o «lobby» dos combustíveis fósseis fez o seu trabalho com afinco e, em meados dos anos 1990 (e porventura ainda agora), era possível encontrar trabalhos científicos, alegando que o papel humano no aumento das emissões de gases com efeito de estufa não estava ainda provado e que o fenómeno poderia resultar de um aumento da actividade solar! A incerteza foi sempre uma arma. Não cabia demonstrar que estas duas teses eram verdadeiras, mas sim que o poderiam ser. Instalada a incerteza, não se poderiam tomar medidas globais.

Foi neste contexto controverso, diz Durand, que os países se juntaram em Quioto em 1997. Os Estados Unidos, responsáveis à data por 22% das emissões globais de CO2, propuseram a estabilização das emissões em 2012 tomando como parâmetro de comparação os níveis de 1990. Os países europeus propuseram uma redução global de 15% das emissões nos países industralizados, tendo 1990 como ano de referência.
Como sucede como frequência nas grandes conferências, o resultado ficou a meio caminho entre duas propostas: é público que o protocolo estabeleceu como premissa uma redução de 5,2% até 2012 tomando as emissões de 1990 como valor-base.
Durand argumenta que os europeus foram pouco ousados. Para um país como a França, com forte capacidade de desenvolvimento nuclear, o protocolo exigia apenas uma redução real de 1%, Para a média da União Europeia, a fasquia era também baixa: 5%. Em contrapartida, para os EUA, o protocolo exigia uma quebra real de 18% e 16% para o Japão. Foi certamente por isto que os EUA se recusaram a assinar o tratado.
Uma das questões que mais reservas me coloca em Quioto, desde o início, é o esquecimento compulsivo das economias emergentes nos países em vias de desenvolvimento. Era previsível em 1997 que a China, a Índia e mesmo o Brasil avançariam rapidamente no processo de industralização e as suas emissões deveriam ter sido, desde logo, limitadas. Não o foram. Beneficiaram de um salvo-conduto para imitar os erros industriais dos antecessores.
Optou-se além disso por um mecanismo confuso e dúbio de "um mercado dos direitos de poluição", uma solução tacanha e cuja eficácia ainda carece de prova.
Quioto é a melhor solução? Hoje, mais ainda do que em 1998, não parece. Desde 2001 que o Instituto de Avaliação das Estratégias para a Energia e o Ambiente na Europa (Inestene) tem levantado dúvidas contínuas sobre o tratado e as suas condições de sucesso. Mesmo que se cumprissem as exigências do protocolo, o Inestene considera que se conseguiria apenas baixar 0,06ºC dos 2ºC de aumento da temperatura média do globo previstos para 2050 de acordo com vários modelos climáticos apresentados. As contas são por isso simples, e Durand apresenta-as com clareza inquestionável: «Esses 0,06ºC correspondem apenas a 3% do esfroço a realizar para travar efectivamente o aquecimento global (...) O nosso modelo de dsenvolvimento corresponde potencialmente a um choque frontal com um muro a 100km/h. Com esse diagnóstico, o que fizemos em Quioto? Propusemos redzuir 3% da velocidade, para 97km/h, na esperança de que já seria suficiente para evitar danos! Não é»
E isto, repito, assumindo que as metas de Quioto vão ser cumpridas. Cá estaremos para ver.

quinta-feira, maio 12, 2005

Uma Sucursal do Grémio




Nos tempos que correm, cada vez mais, o parlamento é uma sucursal do grémio. - Eça

Aparentemente, os últimos dias de governação parecem ser os mais animados e divertidos. Solto da pressão eleitoral, liberto dos patetas das distritais e livre dos camafeus da imprensa, o ministro pode por fim dedicar-se ao que mais importa: o «day after». Caramba! Ser ministro é muito bonito e permite-nos apregoar patetices em «cocktails» («Quer o Fontes Pereira de Melo, quer eu, batemo-nos contra a centralização do Terreiro do Paço»), mas não puxa carroças. Não, dizia, os últimos dias de governação reservam-se para as coisas verdadeiramente importantes. Pelo que a experiência recente nos ensina, é nos dias pós-eleições, enquanto se aguarda a chegada dos triunfadores da véspera, que um ministro pode por fim compensar as agruras. E deixar a sua marca indelével no ordenamento do território, corrigindo, rectificando, aumentando, diminuindo superfícies e classificações de protecção. Com um brilho nos olhos, o ministro talvez imagine os livros de história: «Esta foi a medida mais ousada do ciclo de governação, tomada por fulano tal, contra ventos e marés."
O raciocínio subjacente a este estranho afã governativo é o de que o comboio da nação não se detém por nada - muito menos pela chegada iminente de um novo elenco de governantes, provavelmente dotados da mesma sensibilidade para o Ambiente que Sousa Lara tinha para avaliar projectos culturais. Por isso, perante a chegada iminente dos bárbaros, o ministro pega na caneta e rectifica áreas protegidas, aceita excepções aos estatutos de protecção ou manda avançar as moto-serras. Em nome do imprescindível interesse público da operação, seja ela um Freeport em Alcochete, um projecto inenarrável em Mourão ou uma estância de golfe em Benavente.
Enquanto nos vários ministérios, os funcionários se entretinham a redigir os seus próprios louvores (quem melhor do que eu para me avaliar, sobretudo porque me conheço praticamente desde o início da minha vida?), Nobre Guedes, Telmo Correia e Costa Neves consideraram que o dia seguinte à eleição mais esmagadora da história do Partido Socialista era a altura ideal para desbloquear o projecto de Benavente. Faz todo o sentido, convenhamos.
Pergunta-se: terá um governo de gestão autoridade para tomar medidas de fundo, que revelem imprescindíveis interesses públicos, durante o período de transição entre elencos? Tem. Terá legitimidade? Custa-me a aceitar, mas admito que sim. Será esse o «timing» certo? Mil vezes não. Por um lado, porque é essa a fase política de "quarto escuro", onde ninugém vê nada, ninguém controla, ninguém vigia e, quando a luz se acende, alguém grita 'Fui Roubado'. Depois, porque para quem anda no terreno há anos a tentar fazer aprovar planos de ordenamento, revisões de planos de ordenamento e planos de pormenor, é especialmente frustrante ver que uma assinatura num diploma é suficiente para mandar cortar dois milhares de árvores que beneficiam do estatuto máximo de protecção em Portugal.
Admito que este processo judicial não provoque danos de maior (aliás, há meses que não se fala do processo do Freeport e muito menos da manchete do "Público" que implicava dirigentes socialistas num negócio dúbio em plena zona dunar de Vila Real de Santo António). Adivinho enormes dificuldades em fazer prova de que o salvo-conduto de Benavente foi autorizado pelos três ministérios a troco de X ou para ajudar Y. Por isso, e enquanto o parlamento se torna gradualmente a tal sucursal do grémio de que falava Eça, lá vamos, cantando e rindo. Assobiando mas com menos sombra. Vão faltando os sobreiros.

segunda-feira, maio 09, 2005

Portimão Exemplar

Toda a notícia, publicada no "Jornal de Notícias" de sábado passado, é uma surpresa.
Surpresa porque é invulgar que uma autarquia disponha de dados concretos sobre as prioridades consideradas mais importantes pelos seus munícipes; surpresa porque é fora do comum que um centro de estudos universitário (no caso, o Centro de Estudos da Universidade do Algarve, CEUA) consiga obter e disponibilizar dados actuais e relevantes num concelho de mais de 40 mil pessoas; surpresa ainda porque os munícipes de Portimão (53% dos 2.272 inquéritos validados no âmbito da investigação) desejam a construção e manutenção de mais espaços verdes.
Rebobinemos: o CEUA promoveu o inquérito "Cidadania Activa – A Minha Opinião Faz a Minha Cidade" junto da população de Portimão. Estudo pioneiro, procurava determinar as vantagens de viver no concelho de Portimão e identificar problemas e prioridades associados a esta cidade. Não tinha a carga eleitoralista dos inquéritos partidários, normalmente conduzidos para seleccionar o "tema quente" de uma campanha – aquele que mais facilmente é adaptado às necessidades dos media e condiciona os candidatos. Este inquérito visava efectivamente medir as necessidades e lacunas da cidadania portimonense.
Diligente, o JN questionou o autarca local sobre o inquérito e, aparentemente antes de lhe comunicar o resultado mais expressivo para os munícipes, pediu-lhe que identificasse que área estaria mais necessitada de intervenção na óptica dos seus eleitores. Tipicamente, o edil elegeu a área de estacionamento e trânsito.
Não está aqui em causa um desfasamento total de perspectivas entre políticas e cidadãos, até porque os problemas relacionados com acessibilidades e estacionamento até estavam na lista dos mais prioritários (34,9% das respostas). Mas é saudável verificar que, antes do trânsito, os habitantes de Portimão preferem a resolução da escassez de espaços verdes e até a valorização do património cultural, paisagístico e urbanístico. Desejarão os promotores do estudo realizar a mesma tarefa em Lisboa e no Porto? Querem ver que afinal os lisboetas e os portuenses não tinham como prioridade os túneis do Marquês e de Ceuta?

Desilusão

Queixa-se a distrital de Lisboa do CDS/PP que "a máscara do advogado Sá Fernandes está finalmente a cair" e que "as acções que interpôs em tribunal tinham, afinal, motivação política".
Gostava de argumentar que a posição dos populares é falsa ou exagerada, mas, a partir do momento em que foi assumida a candidatura de Sá Fernandes à Câmara Municipal de Lisboa, apoiada/negociada com o Bloco de Esquerda, cai por terra a tese de que o advogado ambientalista nos representava a todos nas acções que coordenou. Tal como a mulher de César, não basta ser sério, é preciso parecê-lo. Aos meus olhos, toda a actividade de Sá Fernandes nos últimos dois mandatos camarários (João Soares e Santana Lopes/Carmona Rodrigues) passa a ser manchada pela suspeita. Quem nos garante que o advogado desinteressado não estava afinal a revestir o ninho ("feathering the nest", como dizem os ingleses)?
Definitivamente, há sapos que custam muito a engolir.

sexta-feira, abril 29, 2005

Carrilho...


Ao ver Manuel Maria Carrilho compenetrado e absorvido pelo seu novo papel, marchando formoso mas não seguro, não contive uma gargalhada e lembrei-me deste velho "cartoon" do desenhador Quino.
O político jovial abraça correlegionários na rua, abraça operários, abraça camponeses, abraça universitários e, no final do dia, o mordomo queima as roupas poluídas pelo contacto humano excessivo... Que sacrifícios tem um homem de fazer para disputar um cargo político!
(gravura digitalizada de "Potentes, Prepotentes e Impotentes", Publicações Dom Quixote, Lisboa: 1990)
Clique na gravura para ver a imagem ampliada.

quarta-feira, abril 27, 2005

História Velha, História Nova

Há semanas, ouvi o jornalista Carlos Magno, ao microfone da Antena 1, evocar uma história deliciosa de propaganda, servilismo e adaptabilidade. Com a preciosa referência bibliográfica fornecida pelo comentador, dei com a citação completa que não resisto a partilhar com os leitores do Ecosfera. Com a devida vénia a Carlos Magno, pela recordação, e à "História da Propaganda", obra notável de Alejandro Pizarroso Quintero, editada pela Planeta Editora, segue a história:

Contexto: Em 1814, Napoleão Bonaparte abdicou do trono e exilou-se na ilha de Elba. O exílio durou pouco. Em Março de 1815, o ex-imperador regressou a Paris, provocando a fuga de Luís XVIII. Napoleão governou durante cem dias antes de perder a batalha de Waterloo. O seu regresso a Paris, depois do exílio, foi vivamente noticiado nas páginas do "Le Moniteur", num exercício de equilibrismo instável do jornal e dos seus repórteres. Como alguém dizia, eu não mudo de lado, os acontecimentos é que se alteram!..

Acompanhemos as manchetes:
«9 de Março: "O monstro escapou do seu lugar de desterro."
10 de Março: "O ogre corso desembarcou em Cap Jean"
11 de Março: "O tigre foi visto em Gap. Estão a avançar tropas de todos os lados para deter a sua marcha. Terminará a sua miserável aventura como um delinquente nas montanhas."
12 de Março: "O monstro avançou até Grenoble"
13 de Março: "O tirano está em Lião. Todos estão aterrorizados pelo seu aparecimento."
18 de Março: "O usurpador ousou aproximar-se até 60 horas de marcha da capital."
19 de Março: "Bonaparte avança em marcha forçada, mas é impossível que chegue a Paris."
20 de Março: "Napoleão chega amanhã às muralhas de Paris."
21 de Março: "O imperador Napoleão acha-se em Fontainebleu."
22 de Março: "Ontem à tarde, Sua Majestade fez a sua entrada pública nas Tulherias. Nada pode exceder o regozijo universal."
(in "História da Propaganda", pg. 113)

Tamanha maleabilidade. Tamanho espírito de sacrifício. Estrondosos golpes de rins. Terá esta história com quase duzentos anos alguma actualidade?

domingo, abril 24, 2005

Cinco minutos com o ministro

Suponha que dispõe de cinco minutos a sós com o ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional (não se assuste, apesar do nome pomposo da pasta, há apenas um ministro para tutelar este mundo). Dispõe de cinco minutos sem interrupções, assessores ou perturbações provocadas pelo zumbir do telemóvel. O que perguntaria ao ministro Nunes Correia?
Admitamos como princípio que o famoso estado de graça se esgotou. Já lá vão dois meses (desde quarta-feira passada) sobre o dia das eleições e assume-se que o titular da pasta já começou a “dominar os dossiers”, eufemismo moderno utilizado normalmente para simbolizar o tempo que um político, que pouco ou nada dominava sobre a área que vai tutelar, precisa para poder proferir duas frases coerentes sobre ela. Ora, continuando na mesma linha de raciocínio, que perguntas desejaria fazer ao ministro? Por outras palavras, quais são as questões de fundo para o Ambiente nesta legislatura? Naturalmente, cada leitor terá questionários orientados para diferentes temas. Da minha parte, estas seriam as cinco perguntas fundamentais:

1) A Directiva-Quadro da Água ainda não foi transposta para a legislação nacional e leva já ano e meio de atraso em relação ao prazo comunitário. O Plano Nacional de Água entretanto aprovado pouco mais é do que um maço de folhas bem intencionadas. Faz parte das prioridades do senhor ministro acelerar o processo ou o assunto não estará ainda resolvido no final da legislatura?

2) A publicação dos planos de ordenamento de algumas áreas protegidas foram encarados pelos os dois anteriores elencos da mesma forma que eu encaro a arrumação das minhas pastas e arquivos em casa: adiados para data mais oportuna. A publicação destes fundamentais instrumentos de gestão (e protecção) das áeas protegidas está para breve ou devemos aguardar mais dois anos de consultas públicas, sessões de esclarecimento e emendas aos planos originais?

3) O ministro anterior dedicou particular atenção ao incumprimento português das metas de emissões gasosas estipuladas pelo Protocolo de Quioto. Terá o senhor ministro vontade de continuar e acelerar o trabalho? Haverá alguma alma caridosa dentro do ministério que possa explicar agora aos portugueses quanto se pagará por cada ano de incumprimento?

4) Olhamos para Espanha e vemos um programa fundamentado de apoio à investigação, produção e consumo de energias renováveis. Em Portugal, energias renováveis têm sido sinónimo de construção de barragens hidro-eléctricas. Quererá o ministro explicar à nação que importância confere à utilização de energias renováveis, que sectores incentivará e, já agora, o que pensa sobre o curioso «lobby» do nuclear que, de quando em vez, se junta em almoços-convívio e ameaça pelos jornais avançar, e em força, pelo ministério que vossa excelência tutela?

5) Acredito, sem ironia, que o Verão quente que se aproxima provocará uma nova época terrível de incêndios florestais, dos quais o seu executivo não pode ser culpabilizado. Admiro inclusivamente o inquérito ao edificado ardido que o ministério, já sob sua administração, decidiu promover. Mas que medidas concretas de combate aos incêndios e de coordenação entre forças de bombeiros no terreno estão preparadas? Quero acreditar que o plano nacional de combate aos incêndios florestais não se limita a encomendar duas missas ao espírito santo, na esperança de que chova em Julho e Agosto…

Com a resposta a estas perguntas, dar-me-ia por satisfeito. Abro aliás o fórum aos leitores do Ecosfera: que outras perguntas poderiam ser colocadas a Nunes Correia em cinco minutos de conversa?

Hilariante


Sou apreciador de mensagens de parede. É um hábito doentio, mas acho piada aos mensageiros anónimos. Perto do Instituto de Medicina Legal de Lisboa, descobri esta. O dístico (pouco nítido) diz: "Ainda bem que há pobrezinhos para as assistentes sociais poderem salvar o mundo!"

quarta-feira, abril 13, 2005

Sinónimos de energia

Na edição de 12 de Abril, o "Jornal de Notícias" (JN) publicou um inquérito a quatro transeuntes sobre eficiência energética. É um expediente normal, usado e abusado pelos jornais para dar voz às massas. Em quatro curtas declarações, os porta-vozes escolhidos ao acaso comentam um tema actual e aparentemente expressam a diversidade do pulsar da comunidade. À excepção talvez dos inquéritos do “Público” (que me dão sempre a ideia, talvez errada, de que os transeuntes são escolhidos a dedo ), a secção de inquérito é um fórum exterior ao jornal, uma concessão da publicação à comunidade.
Este inquérito do JN pareceu-me um verdadeiro espelho da nação, da sua percepção colectiva e da sua habilidade (ou falta dela) para lidar com políticas de longo prazo. Ora atentem:
A pergunta do dia era: “A subida do preço do combustível leva-o o alterar os hábitos de utilização do carro?”
Responde o empresário: “Não. Sou obrigado a andar de carro.”
Acrescenta o segurança: “Mudei um bocadinho. Já não dou voltas tão grandes ao domingo. Mas levo o carro para o emprego porque lá tenho lugar.”
Junta a contabilista: “ Noto a diferença de preço, mas, mesmo que quisesse optar por alternativas mais baratas, não ia conseguir conciliar.”
Remata o escriturário, mais profundo e ponderado: “Não mudei porque utilizo o automóvel para levar o miúdo à escola e para deslocar-me ao emprego. Sou contra o aumento. Considero que as gasolineiras, em vez de darem pontos aos clientes, deviam baixar os preços.”
Verdadeira metáfora da nação. Das duas, uma: ou o inquérito não colheu uma amostra representativa (é bem possível), ou vamos chegar a um ponto razoável de eficiência energética lá para 2100. Quando as gasolinas já não derem pontos e as voltas ao domingo forem mais curtas!

segunda-feira, abril 11, 2005

Dinossauros por extinguir

Depois de dez dias de intenso trabalho, volto ao contacto com os leitores. As minhas desculpas pela ausência de sinais de vida…

A autonomia do poder local deriva directamente do pós-revolução e ninguém duvida que foi uma conquista saudável, em nome da descentralização. Os princípios inerentes a esta modificação do sistema político, então como hoje, eram nobres: dotar as instâncias locais e regionais de poder financeiro e de responsabilização directa, aproximá-las das populações e das suas necessidades e desonerar o governo central da necessidade de resolver à distância problemas minúsculos – da rotunda no centro da vila ao saneamento do largo principal.
A prática, porém, não tem merecido tantos encómios. Em alguns pontos do país, criaram-se coutadas, terras onde impera a lei do faroeste e onde o xerife é incontestado. Não é preciso procurar muito. De A a Z, os exemplos abundam. Alguns fazem-nos rir e, no íntimo, escarnecemos dos tolinhos locais que votam sistematicamente no mesmo bigode ufano, ou na mesma careca, ou no mesmo par de óculos. Outros chocam-nos porque desrespeitam a lei e disso se ufanam em público. Outros ainda operam em municípios pequenos, que raramente encontram brechas nas secções locais dos jornais e televisões e por isso nunca chegam à arena nacional.
Há uma semana, o executivo anunciou a reciclagem do velho projecto de limite dos mandatos políticos – projecto aliás cuja paternidade até parece pertencer ao PSD. Aparentemente, os dois principais partidos estão de acordo e poder-se-á avançar para a indispensável revisão constitucional, que permita estipular um limite de 12 anos para os titulares do cargo de primeiro-ministro (três mandatos), presidente de governos regionais e, ao que se ventilou, presidentes da câmara.
Esperei, sentado e quieto, pela primeira reacção. Aos microfones da TSF, escutei o presidente da Associação Nacional de Freguesias, que até nem se opôs. Considerou a medida justa e até avançou que a mesma poderia ser pensada para abranger os titulares de pastas no executivo e mesmo os deputados. Seguiu-se o presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, Fernando Ruas. Balbuciou a frase de introdução (“até nem me oponho”), seguida do inevitável “mas”. Mas ela é desnecessária, anunciou. Em democracia, são os eleitores que devem limitar os mandatos. E se eles estão contentes com um edil há vinte anos, será justo retirar-lhes o direito democrático de serem governados pelos políticos da sua preferência?
Discordo profundamente.
Teoricamente, o serviço político em instâncias de poder local, regional ou nacional é isso mesmo: um serviço. Uma requisição temporária do indivíduo, finda a qual, cumprido o seu exercício de cidadania com nobreza e honradez, se devolve o indivíduo à procedência. Uma câmara municipal não é uma fonte de emprego, pelo menos para políticos. Não cabe ao município vestir e calçar o candidato até à velhice. O princípio de raciocínio está errado a partir do momento em que há presidentes da câmara no activo desde a década de 1970. Ou presidentes de governo regional. Ou deputados.
PS e PSD parecem estar de acordo quanto à necessidade de aplicar este novo critério já para as eleições autárquicas de Outubro. Mas esta revisão, como outras, tem curiosas nuances. Antecipo duas perguntas: num caso como o de Avelino Ferreira Torres, presidente ad eternum de Marco de Canaveses e aparente novo candidato a Amarante, como se procederá a contagem dos mandatos? Em princípio, fiel ao espírito da limitação, fulano X não pode cumprir mais de 12 anos à frente da Câmara Y. Mas se ele cumprir entretanto quatro na câmara W, já pode? O conta-quilómetros volta a zero?
E já agora, pensando em alguns especialistas de poder local e central: o tempo de serviço de um deputado da nação poderia ser acumulado com a vigência numa autarquia? E intercalado? Quem sabe se criamos uma nova roda da sorte e, daqui a uns anos, temos Alberto João Jardim em Sever do Vouga, a cumprir quatro anos de penitência, antes de iniciar nova série de mandatos no governo regional? Criávamos o princípio do governante rotativo. Era da maneira que ouvíamos Sever do Vouga queixar-se dos custos da interioridade - com algazarra e fogo de artifício.